sábado, 27 de junho de 2015

Capítulo 16



Preparei um belo café da manhã para o Bruno. O acordei e mandei ir ao banho. Pus o presente sobre a mesa, ao lado do seu café. Terminei de me vestir, prendendo meu cabelo no alto da cabeça com um coque mais despojado. Hoje meu dia seria somente dentro da filial, não iria sair para as vendas, já que a tarde haveria uma reunião da qual fui convocada.

-Lea? – Bruno me chamou. Estava parado na porta com a sacola em mãos. – Já falei que não precisava.

-Gostou? – Perguntei indo em sua direção.

-Amei.

-Então precisava, sim. – O abracei fortemente, cheirando seu pescoço. Ele estava todo perfumado, bem arrumado.

-Obrigada. Eu adorei.

-De nada. – Beijo seu rosto procurando suas mãos para segurar. – Ainda não posso te dar nada melhor, nada mais especial, mas eu posso te desejar o melhor aniversário do mundo. Você merece muito mais do que isso, e a vida está apenas começando. Esses 23 anos nas paletas ainda podem ser triplicados, imagina.... Até lá você já vai ter fama, glamour, amores, e o que mais desejar. Além de milhares de fãs pelo mundo todo, porque elas vão amar quem você é, o que você faz, e sua beleza.

-Vai me fazer chorar, que feio! – Passou uma das mãos pelo meu rosto. – Obrigada por tudo. Por me aturar, por cuidar de mim e da Lana, por fazer tudo isso valer a pena.

-O que seria de um homem sem um melhor amigo, ou amiga?!

-De mim não seria nada. – Me abraçou de lado, pegando a sacola com a mão oposta à que me abraçava. Fomos para a sala, e sentamos na mesa para comer.

-Caleb estará aqui daqui uns minutinhos, e eu nem acordei a Lana.

-Só levar ela dormindo. Deixa ela aproveitar enquanto pode.

-Enquanto pode? O que um bebê pode fazer além de dormir, comer e cagar?

-Encher o saco! Dê graças à Deus que ela não é aquelas crianças choronas, chatas, que me fazem querer arrancar os cabelos.

-Minha filha, como iria ser chata?

E a brincadeira e risos por aí foi passando. Durante o trajeto, Bruno estava todo alegre, contava piadas e falava coisas mais engraçadas, assim não deixando Lana voltar a dormir. Mas ela prestava atenção atentamente em tudo que ele falava, os olhinhos curiosos, as mãos que se mexiam freneticamente, os pezinhos que balançavam para cima e para baixo.

Nunca foi uma preocupação deixa-la com a Urbana, principalmente por confiarmos nela e no seu extinto maternal. Ela nasceu para ser mãe, e dá pra ver em seu olhar que esse sonho é o maior acima de qualquer outro.

A tarde passou toda corrida. A reunião da qual participei era apenas coisas básicas da empresa e das vendas. Alguns cortes, alguns ajustes, e pronto, voltamos ao normal. Como não sai para vender, passei o dia futricando nos computadores da empresa. Elle ficou toda eufórica me vendo ao lado, aí começamos a tricotar por um bom tempo.

Ao pegar a Lana, e ir pra casa, a arrumei antes de mim. Dei banho e a vesti sua roupinha. Tiptop cor de rosa, com uma meia calça branca, uma bermudinha jeans e uma blusinha sobreposta. O casaco não faltou, era rosa também. A presilha em seu cabelo - aquele pouco cabelo que começava a cair -, estava frouxa, mas ela não reclamava pra tirar.

-Você está linda, meu amor. - Balancei sua barriguinha e ela aperta os olhos, abrindo a boca pra rir. - Adorável.

Ouvia seus grunhidos, sons que ela reproduzia como se quisesse se comunicar conosco. Dava corda para seus assuntos, e via minha roupa para o jantar com ela deitada no berço.

-Deveria ser feriado no aniversário, sinceramente. - O ouço da sala. - Lea?

-No quarto. - Respondo. - No meu.

-Ah. - Seus passos são firmes até o quarto. Ele abre a porta já procurando a Lana, e abre um grande sorriso quando a vê. - Cadê esse bebezão do papai?

-Já está de banho tomado, arrumada. Só falta ajeitar a bolsinha dela com as fraldas, mamadeira para chá, leite, água, bicos... a mantinha dela, caso esteja mais friozinho.

-Epa, eu sei dessas coisas. - Faz a volta pegando o carrinho e empurrando em direção da porta. - Vá se arrumar que eu cuido dela, depois que me arrumo ligeirinho.

-Ligeiro? Isso e "arrumar" não cabem na mesma frase quando ditas por você! - Arqueio as sobrancelhas e ele balança a cabeça.

-Cala a boca, e vá se arrumar.

-Você é um ogro. - Grito para ele que já estava no corredor.

-Aprendi com a melhor!

-Sua mãe?

Sua gargalhada me contagia. Podemos fazer esses tipos de brincadeiras, até mesmo envolvendo as mães, porque sabemos quando parar, e isso é a melhor parte de ser melhor amiga dele. Sabemos respeitar cada limite do outro, e invadimos o espaço sem sermos sufocantes.

Tomo meu banho rápido, não molharia o cabelo. Faço primeiramente uma maquiagem bem básica, coisa que uso geralmente no dia a dia, e depois tranço meu cabelo para o lado. Escolhi vestir uma calça jeans, uma blusinha soltinha com listras preto e branco, e uma sandália sem salto. Era tão estranho, mas ao mesmo tempo tão bom, poder sair com algo sem ser salto. Não era política da empresa nem nada assim, mas eles exigem que nos vistamos socialmente, e bem, uma roupa social não combina com um sapato rasteira, ou uma sapatilha (se bem que às vezes eu adoto elas para trabalhar, mas raramente).

-Pronto, pode ir tomar o banho.

Bruno me olhou dos pés à cabeça, dando um sorrisinho e passando por mim.

-As coisas dela estão prontas, a manta está sobre o berço, tem que pegar ela para não esquecer.

-Ok.

-Aliás, está linda.

-Obrigada. - O encarei, virando somente meu pescoço para vê-lo. Passei a língua pelos meus lábios quando ele foi em direção do banheiro.

Ele me provocava! De um jeito ou de outro ele conseguia tirar meu sossego. Seja mordendo os lábios, falando alguma coisa, ou soltando aquele olhar que eu não aguento. Não quero que chegue ao ponto que eu tenha que tomar alguma atitude, porque sinceramente, espero que ele se toque mais ainda.

Falava com Urbana por mensagens de texto no celular, quando Bruno adentra seu quarto trajando apenas uma toalha branca em sua cintura. Posso tara-lo à vontade, e eu sei que ele está fazendo isso justamente por esse motivo.

-Opa, já volto. - Levanto da poltrona onde estava sentada.

-Pode ficar! Não se preocupe, estou de cueca.

É aí que eu devo realmente me preocupar. Olho para a tela do celular passando pelo rolo da câmera, com muitas fotos nossas, da Lana, e dos nossos amigos, até dos seus pais e da Tiara, quando vieram nos visitar. Espio pelo canto dos olhos, afinal, sou filha de Deus. Sua cueca slip estava bem preenchida na parte da frente, como sempre teve, o seu volume era perceptível. Ali corria um risco iminente! O risco de eu poder perder a linha e obriga-lo a terminar a noite de aniversário dele comigo, na minha cama. Bruno dá as costas, provocando, e assoviando uma canção. Seu corpo não é o mais musculoso, até porque não curto tanto esse tipo de homem, também não é o mais magrinho, está naquele meio termo que toda a mulher curte. Sua pele amorenada, seus traços latinos-bugres que fazem todas suspirarem. É o conjunto da obra toda que tem o valor completo. Vestiu sua calça jeans, um pouco mais apertada, calçou seus converses e então tornou-se a virar pra mim. Na mesma hora olhei para o celular e fingia que olhava alguma coisa.

Obviamente que ele percebeu que eu estava o olhando, ele não é idiota, e era isso mesmo que ele queria.

Minha avó havia ligado pra ele nesse meio tempo. Falei que iríamos aparecer por lá no domingo, para levar a Lana, e ela já disse que prepararia algo para o Bruno. Sua mãe ligou, pois suas irmãs queriam falar com ele, e ali ficaram por um tempinho.

Sete e meia, Phil buzinou na frente de casa e saímos os três.

-Parecem uma família. - Urbana disse ao meu ouvido quando nos cumprimentamos.

-Shiu! - Riu em seu ouvido e beijamos nossos rostos. - Como está?

-Nada mudou desde que nos vimos pela manhã. Está querendo começar um assunto, ou despistar qualquer outro?

-Estou querendo ir para o restaurante comer, porque estou com fome. - Me escoro no banco, puxando o cinto. - Megan já vai nos encontrar lá.

-Falou de comida, falou minha língua.

Já tinham reservado o lugar, só não sei exatamente quem foi, mas provável que seja coisa da Urbana ou da Megan, porque eles nunca lembrariam de fazer isso. Assim que entramos no local, calmo e bem moderno, quase vazio, fomos conduzidos até nossa mesa, com uma cadeirinha pra bebê, mas ainda não podemos colocar Lana ali, então ela revezaria de colo, mas por enquanto no meu.

Sentamos eu, Bruno, Phil, Urbana, e o lugar de Megan e Caleb à nossa frente com uma cadeira disponível ainda, respectivamente.

-Senta na minha frente. – Peço, fazendo beicinho para convencer a Urbana.

-Mulheres daquele lado, e homens desse. – Phil empurrou sua mulher e ela revira os olhos.

-Ok. – Dei de ombros me ajeitando para levantar.

-Pra onde vai? – Bruno pergunta.

-Sentar daquele lado.

-Não. – Resmunga. – Meu aniversário, minhas regras.

-Vai me trocar por ela? – Semicerrando os olhos, Phil segura o braço de Bruno.

-Não? – Confundimos a sua cabeça, pronto. – Pode ir pra lá.

-Ele já manda em você assim? – Urbana questiona assim que sento ao seu lado. Phil estava gargalhando de algo, então eles não prestaram atenção.

-Calada. – Ajeito a Lana e sua mantinha. – Ela está crescendo tão rápido.

-O tempo voa.

-Meu Deus. – Comento ao ver Megan e Caleb entrando no restaurante. Megan segurando um maço de balões festivos, com dizeres e coisas legais, e Caleb trazendo uma caixa nas mãos. Já chegam sorrindo, e a todo vapor. – Wow.

-Boa noite. – Megan dá um beijo em nós para cumprimentar e vai para o lado do Bruno. – Trouxe balões.

-Coloridos e chamativos. – Bruno franze a testa.

-É seu aniversário, seja menos ranzinza hoje. Por favor.

Se abraçam, desejando várias coisas legais, e o que fazemos sempre. O garçom que nos atende ri de todas as palhaçadas e confusões que aprontamos. Anota os pedidos e apaga-os, porque mudam de ideia como mudam de roupa após os banhos. Até que finalmente todos entram num consenso, e ele sai rindo, levando nossos pedidos.

-Deveria ter pedido um whisky. – Megan balança a cabeça, catando as outras pessoas pelo local.

-Ou café. – Dou de ombros.

-Nem me fala. Estou indo no banheiro de minuto a minuto. Meu sangue deve estar marrom, e daqui uns dias minha urina também.

-Whisky em dia de semana, que... estranho?

-Nos finais de semana, se não estamos na casa dos pais dele, - aponta com o polegar sobre os ombros para o namorado -, estamos na casa dos meus, ou trancafiados dentro de casa fazendo coisas de casais.

-Poupe-nos dos detalhes.

-Nunca entraria em detalhes, pois podem desejar meu homem, e ele é meu.

Aí a brincadeira já pendeu para o lado mais fraco, o meu. Falaram que a única solteira e a procura de uma brincadeira seria eu, e se gabassem muito seus maridos bem-dotados e bons de cama, era capaz de eu pega-los. Como se isso fosse acontecer.

O bom é que nos divertimos bastante, rimos e não nos calamos nem na hora de comer. Lana acordou e ainda ficou por um tempo prestando atenção em nós, brincando com as mãozinhas na toalha da mesa e tentando pôr na boca.

A grande parte da noite foi quando pedimos para trazer o pedido especial. Essa sim, foi uma ideia minha, de Urbana, e de Megan. Um lindo bolo, do jeito que ele gostava e do nosso sabor favorito, Tres Leches. O garçom trouxe a torta e nós nos levantamos para cantar o parabéns. Toda a atenção do restaurante foi para a nossa mesa, e a minha para cuidar Lana, que olhava assustada com carinha de quem ia começar a chorar.

Mais algum tempinho ali e fomos para a parte final da nossa noite: o karaokê. Um bar ao lado do que Bruno já tocou algumas vezes e onde íamos às vezes para dispersar, passar o tempo, beber algo, espairecer. Era um ambiente calmo, não perto do que era o restaurante que fomos, mas era bem legal, até para levar uma criança.

Mesas redondas de madeira, quadros pendurados nas paredes de cor escura. Um palco de baixa estrutura, microfone para até duas pessoas. Uma copa aberta, algumas garçonetes, e alguns clientes. Um japonês cantava algo que não identifiquei até chegar no refrão. Deveria ser proibido pessoas que cantam mal, usar um karaokê.

-Essa mesa está maravilhosa. – Bruno pega a cadeira pra sentar.

-Mas se eu errar algo está mais próxima ao palco, melhor para me atirarem tomates.

-Não sei, nós podemos até errar, mas não desafinamos. – Phil e Bruno fazem um toque de mão, e riem com a cara que Caleb faz quando fica no vácuo.

-Entrelinhas, quer dizer que eu canto mal?

-Em casa conversamos, Philip. – Urbana toma Lana do meu colo, que já estava há muito tempo.

-Quem tiver maior pontuação, escolhe algo da dupla, que tal? – Ouvimos a ideia de Bruno que não era nada mal.

-Ok, mas como definir as duplas?

-Sem querer nós já estamos em duplas. – Megan aponta para as duplas.

-Eu estou ferrada. – Comento baixinho.

-Medo de mim, senhorita Winters?

-Medo de você? – Sorrio sem mostrar os dentes, com o olhar desafiador. – Nunca.

Deixamos que chegasse nossa vez, já que tinha pessoas na frente ainda e era por fichas. Bebíamos uns drinks, nada muito forte pois amanhã será mais um dia de trabalho. Compramos seis fichas, em ordem crescente, porém para não ter aquela velha escolha de “eu não quero ser o primeiro”, optamos por embaralha-las e escolhermos de modo aleatório.

Phil subiu para cantar, depois Megan. Bruno, Caleb, eu e Urbana. Dentre o ranking final, contando com os seis, Bruno ganhou com maior pontuação, e Megan perdeu. Agora por nossas duplas, acho que já era meio que certo que nós, meninas, perdemos. Aliás, nunca imaginei que Caleb pudesse cantar bem como cantou.

A música não me favoreceu! Ok, não foi pela música, sou péssima com isso. Sirvo mais para vender casas, por que se dependesse da vida de cantora, estaria sem comer há muitos anos. Cantei Single Ladies, da Beyonce, contra Bruno cantando Same Mistake, do James Blunt.

-Vai ter que fazer isso. – Caleb batia na mesma tecla.

-O que ele pediu? Perdi. – Pergunto para Bruno.

-Pediu pra ela dar atrás pra ele. – Fiquei encarando seu rosto, seus olhos que se fixaram nos meus como tantas outras vezes. – Mentira. Pediu para ela ligar para sua mãe agora, dizendo que está no hospital e sofreu um acidente.

-Minha mãe tem problemas cardíacos, idiota. – Ria das besteiras.

-Então... sogra é sogra, sabe como é. – A abraçou. – Não vou te pedir nada. Foi só para ficar sabendo que quem manda sou eu.

-E o que vai exigir de mim? – Puxo uma sujeirinha da camisa do Bruno.

-Ser minha escrava sexual por longos dias.

-Bruno!

-Sério! Até sábado eu penso em algo, ok?

-Tudo bem.

-Mas não pense que eu não cobrarei. – Diz-me quando levanto da cadeira. – E, Lea?! Escrava sexual ainda está no topo da lista.

-Você é uma merda. – Aumento um pouco mais meu tom de voz, ainda obedecendo o lugar em público que estávamos.

-Que bom que se identifica comigo, não é? Só uma merda reconhece a outra.

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