Capotei da cama às oito da manhã, atrasada! Nunca tinha tomado um banho tão rápido e vestido minha roupa mais rápido ainda. Acho que demorei mais para calçar o sapato. O clima estava um pouquinho mais úmido devido a chegada de uma massa polar sobre o mar, trazendo todo aquele vento gelado pra cidade.
Quando ia bater na porta do Bruno, lembrei do detalhe principal: ele não iria trabalhar hoje. Faz quatro meses que descobrimos a gravidez, e há dois estamos tentando ver o sexo do bebê, e essa é a primeira ecografia que ele irá comparecer, sendo que o médico que está acompanhando deu quase cem por cento de certeza de que nesse exame ele iria descobrir.
Como perdi minha carona da manhã, tive que fazer uma ligação para o escritório, dizendo que encontraria com o cliente direto na casa que iria apresentar, pois se passasse lá não iria dar tempo. Depois eu me resolvia com Ian, sei que ele perdoará, já que é difícil esse tipo de situação acontecer.
Ao chegar na casa antes do cliente, aproveitei para arrumar meus papéis, o contrato caso ele quisesse dar uma olhada, e mais algumas outras coisas, papeladas, e tudo que dá cansaço, mas é maravilhoso. Pelo menos para mim. Na contra capa da minha pasta rosa, há três fotos que ocupam tudo. Uma é da minha família, o primeiro e único dia de ação de graças que passei com Kai. Ele, eu, meus pais, e minha irmã. A outra é eu e o Bruno, aqui em Los Angeles já, e depois eu e meus avós, acho que tudo de mais importante que eu tenho para mim agora.
-Olá. - Vejo um homem com seus 40 anos, e outro ao seu lado, bem junto, com uns 30 anos. Ambos com um sorriso no rosto e olhos atentos.
-Olá, Sr. Smith? - Pergunto, estendendo a mão.
-Sim! Mas por favor, pode me chamar de David, e ele é Alfred, meu companheiro.
-Oh, muito prazer. - Estendo a mão para o outro.
Sempre que apresento casas para casais homossexuais eles costumam ser mais gentis, legais, engraçados, deixando tudo mais fácil. Mas a pena era que na maioria das vezes eram madames, muitas vezes chatas e esnobes, que mal escutam o que eu explico e depois me metralham de perguntas que eu já tinha respondido. Graças ao bom Deus, e minha mãe, eu aprendi a ter paciência com esse tipo de pessoa e sair sempre por cima. Mas, já discuti com duas pessoas, de todo esse tempo de trabalho.
-Esse é o quarto principal, o maior que temos. - Abro a porta da suíte. - Dentre todas as casas que temos por aqui, essa é a que eu acho mais linda. Amo o design mais jovial, moderno, porém ainda sim conseguindo ser clássico.
-Lindo!
-E muito espaçoso. - Observa o mais novo, aparentemente.
-Ele é uma suíte. - Mostro para eles a porta do banheiro.
-Quem morou aqui antes de nós? - Passou a mão na parede, perto da janela do quarto.
-Uma família de cinco pessoas. Mas não passaram mais de um ano por aqui e se mudaram. Marido com emprego de viagens. - Torço os lábios ao explicar.
-Nem me fala, meu marido é Comissário de Bordo.
-Ex! - Balança a cabeça.
-Que seja. Já sofri muito por não ter ele em casa, dias e dias sozinho. É horrível. - Vejo que depois de grande parte da casa mostrada, ele se soltou mais em relação a falar comigo.
Mostrei os dois outros quartos e um em particular, falaram sobre a filha. Uma menina de quatro anos que adotaram desde que nasceu. Claire! Falaram sobre a decoração, que tal coisa ficaria perfeita em tal lugar, com a parede pintada de lilás, e um papel de parede de algo que não entendi. Foi lindo e magico observar o modo com que eles falavam da criança. Sobre a vizinhança, a segurança, o pátio para ela ter a casa de bonecas que tanto deseja e a escola que é bem próxima dali. De repente a vontade de ter um bebê em casa aumentou.
Bem, Diana ainda não se pronunciou sobre ficar com o bebê. Os pais dela não encrencaram para o lado dela, e ela não ficou sem um teto, nem eu e nem Bruno sabemos se ela irá ficar com a criança e criar, se ela dará ao Bruno, ou se irão compartilhar a casa, a vida e o filho.
Bruno Pov's
Três horas da tarde seria o exame. Acordei após ao meio dia, aproveitando o dia em off para dormir o que precisava dormir. Meu humor até aumentou, a vontade de ter o bebê também, mas essa aumenta a cada dia. E a expectativa de saber o sexo, essa nem se fala.
Minha família aceitou numa boa, disseram que acham que eu tenho responsabilidade e sabem que eu tenho Lea no meu lado para o que der e vier. Casa eu tenho, meu ganha pão também, e o apoio e amor, também. Não tenho porque pensar em nada negativo.
Termino de escovar meus dentes após minha refeição, já pronto para ir a clínica. O telefone da casa toca, deve ser Lea.
-Lea, ainda não sai de casa! - Digo, empolgado.
-E aí, cara! Vamos para o estúdio hoje? Consegui um tempinho com aquele empresário que eu te falei, e adivinha? Ele quer ver alguma das nossas produções! - Ouço a voz de Ari, acompanhando aquela maravilhosa notícia. Não poderia fazer minha felicidade maior.
-O que? - Sorria de orelha a orelha. - É claro, vamos!
-Agora a tarde?
-Não posso. Tenho o ultrassom para ir, e não posso faltar.
-Virou mulher agora?
-Nossa, grande piada. Já pensou em largar a música e ser comediante?
-Vai à merda, Bruno.
-Ok. É uma longa história. Será que pode ser pra depois das quatro?
-Claro, ele arranjou um tempinho após as cinco.
-Então está perfeito. Eu saio da clínica e vou direto pra lá.
Ari explicou onde era o estúdio, mesmo que eu já soubesse. Combinamos de estarmos lá cinco e meia, mas eu estaria antes, bem antes. Estava nervoso com mais isso agora, e esperançoso. Parece que hoje a sorte está batendo em todas as portas da minha vida, sinto aquela explosão de felicidade dentro de mim.
Eu nem reclamei para chegar até a clínica, estava feliz e ninguém poderia me tirar aquilo. Meu filho seria descoberto hoje, ou melhor reformulando, hoje eu descobriria ser é meu filho ou minha filha. Não tenho preferência, o que vier vai ser ótimo de qualquer forma, mas ter um menino para poder partilhar tudo com ele vai ser maravilhoso. Leva-los aos jogos de futebol americano, beisebol, basquete, leva-lo em algumas corridas, ensinar a jogar, a tocar instrumentos, a cantar, a se vestir. Com meninas acho que não terei a mesma prática, apesar de saber muito de minhas irmãs, não será a mesma coisa. Não poderei deixar minha filha de fralda suja apenas por birra como fazia com a Pres, não posso deixar a mamadeira da minha filha escondida no alto do armário enquanto ela chora, procurando, como fiz com a minha irmã, Tiara. Vou ter que ser cuidadoso, e tenho medo de falhar.
-Tudo bem? - Encontro com Diana, sentada em uma das cadeiras da recepção, com suas roupas rippies, e botas surradas.
-Tudo. - Sento-me ao lado dela e permanecemos em silêncio.
Há muitas grávidas ali, tantas que fico pensando se todos foram planejados ou apenas um acaso do destino como meu bebê. Levo minha cabeça de um lado para o outro, olhando para a parede e pedindo mentalmente para Deus que hoje tenha alguma resposta positiva para o meu trabalho.
Quando chamaram pelo nome dela, meu coração disparou em cheio. Estava a passos de saber o sexo do bebê. Meu estado de empolgação não começou de um dia para o outro, foram um mês e alguns dias para cair a ficha, para saber que tudo era realidade. Chorei no colo da Lea como nunca tinha feito, me rendi a noites inteiras em claro somente pensando no que isso afetaria, mas o lado bom é que me deu inspiração para músicas um tanto quanto dramáticas, românticas, músicas cujas eu acho que nunca sairão do meu pequeno caderninho.
Após um tempo de ultrassom, daquele aparelho passeando pela barriga dela, o médico congela a imagem, traçando uma pequena linha e escrevendo alguma coisa. Mais um pouquinho e pausa novamente, escrevendo agora o inicio do sexo.
-Parabéns, é uma menina! - Ele termina de escrever e nem precisei processar o que ele tinha acabado de dizer para colocar o sorriso no rosto. - E muito saudável.
ზ
Estávamos no final da reunião/apresentação no estúdio. O cara, empresário, Brandon, era um homem legal, compreensível, mas que de inicio não pareceu dar muito por nós três. Apresentamos todas as letras que já tínhamos escrito, todas as melodias - das quais ele mal se interessou -, e ele pegou um caderno para anotar algumas coisas.
-E aí, o que deu lá hoje? - Phil pergunta, no intervalo de tempo que tivemos quando Brandon foi ao banheiro.
-É uma menina! - Respiro aliviado. - Forte e sadia.
-Parabéns. - Ari bate na minha mão, e da um tapinha nas costas.
-Obrigado.
Tagarelamos mais um pouco até Brandon entrar acompanhado de um homem, com cara carrancuda e ombros largos. Pose de segurança, sentou-se ao lado de Philip e acenou para nós.
-Pessoal, esse é o Aaron. Passei para ele as informações que tinham nos passado sobre vocês, e mais o que vi hoje das letras. Realmente, vocês são muito bons.
-Obrigado. - Agradeço, pouco esperançoso, pois já vi o final dessa história.
-Queria dizer que confio no Brandon, e tudo que ele diz, se ele gosta é porque realmente é bom.
-Sim. - Concorda Philip.
-A princípio vocês estarão aqui para escrever as músicas e venderem para os artistas. Vamos oferecer o trabalho de vocês, e se eles quiserem, vocês ganham o dinheiro da colaboração. No inicio é assim, aí depois somente o tempo pode nos dizer.
-O tempo e o talento. - Brandon acrescenta.
-É, quanto mais músicas escrevem e nos passam, mais artistas veem, mais pessoas se interessam. Normalmente após a primeira, é costume as outras saírem mais rápidas. Produzimos artistas nossos, e contratos por fora, então sempre tem pessoas querendo músicas para gravar.
A cada palavra que ele pronunciava, meu coração palpitava mais rápido. Estávamos basicamente contratados, poderíamos e teríamos mais chances de aparecermos. Agora que tenho um motivo para estar dentro da gravadora, que conheço gente ali dentro, e que nossas músicas provavelmente estariam no CD de algum artista famoso, seria muito mais simples.
Saí do estúdio agradecendo à Deus por ter dado esse dia maravilhoso. Philip nos deu carona em seu carro, e largou Ari primeiro, após eu e foi para casa. Quando entrei em casa, encontrei a mesa pronta, somente sem a comida ainda. Fui atrás de Lea na cozinha, mas ali ela não estava. Cacei ela pela casa e achei a porta do banheiro entreaberta. Sei que não deveria, mas eu sou homem e todas aquelas baboseiras que Caleb sempre fala sobre ela ser linda, e ter um corpo bom, apareceram em minha mente. Vi sua silhueta, trajando apenas uma calcinha e sem sutiã. Ajeitava a roupa que iria vestir, e se abaixou quando alguma peça caiu. Quando ela fez isso, despertou um pequeno interesse em mim, e nas minhas calças. Mordi meus lábios levemente por dentro, enquanto me afastava, pé por pé, para não mostrar que estava espiando.
Lavei as mãos na pia da cozinha e aproveitei para espiar as panelas. Seja lá o que ela fez, está cheirando bem. Lea apareceu cantarolando uma canção e ligando a televisão. Dei um beijo em sua bochecha e segurei sua mão.
-Adivinha! - Arregalei os olhos.
-É menino? - Ela aperta os olhos, tão belos. Não mais que sua bunda.
-Não, menina! Ela é linda, tem minha cara.
-Bruno, deixe de besteira, ainda nem dá pra ver. Mas estou muito feliz por ser menina. Vai ser meu xodó.
-E não é só isso! Fui numa reunião hoje em uma gravadora, com um produtor e um empresário.
-Mentira!!! - Lea arregala os olhos, enquanto caminhava para a cozinha. Não pude deixar de apreciar a visão, não depois do que eu vi antes.
-Verdade.
-E aí, o que aconteceu?
-Aconteceu que eu, Ari e Philip vamos escrever músicas e entregar pra gravadora, antes de patentear claro, e iremos vender para os artistas. Não é bem o que eu queria, óbvio, mas para inicio está maravilhoso, pois é mais fácil de conseguir grana e contatos com pessoas influentes.
-Sei que irá vender várias músicas, porque todos amarão! Vai conseguir um dinheiro bom, e daqui a pouco já será o maior cantor que aquela gravadora já teve. Trará muito dinheiro pra eles. - Me abraçou enquanto dizia aquilo. Me sentia em casa.
Nos sentamos para jantar, a comida estava maravilhosa, mas tínhamos tantos assuntos que quando terminamos de comer, ela praticamente já estava fria. Bebemos um suco natural, e ela comentou sobre um suco detox que irá começar a beber assim que puder, já que sua colega disse que lhe ajuda a manter a forma e desintoxicar.
-Hoje vendi uma casa enorme! - Diz, contente. - Para um casal tão simpático, com uma filha de 4 anos.
-Sério?
-Sim. Eles me deram comissão, super queridos.
-Então temos dinheiro?
-Temos? - Ela gargalha. - Tínhamos. Gastei boa parte comprando as coisas para fazer essa janta de hoje, porque merecemos mais do que tudo.
-Verdade.
-E o nome, já decidiu?
-Não, na verdade eu não sei se ela está empolgada pra isso, parece que ela está nem aí.
-Você sabe que ela não queria o bebê, está com ela ainda por causa de você.
-Eu sei. - Balanço a cabeça, brincando com o garfo no prato. - Mas, sei lá, eu queria que pelo ou menos ela ficasse feliz com isso tudo.
-Bruno, ela não é nada sua além de mãe da sua filha, não pode cobrar nada dela, ao não ser que esteja criando um sentimento por ela.
-Não, nunca. - Faço o sinal da cruz. Não crio sentimentos por ninguém que não seja meu amigo ou da minha família. Acho que não é por não querer, mas ninguém despertou em mim essa coisa de gostar, de querer passar mais que uma noite.
-Valentina, que tal?
-Não gostei, muito italiano. - Reprovo. - Que tal, Kiara?
-Não. Parece nome de fruta.
-Mmm. Elena? Emily? Fay?
-Entre eles o menos pior é Elena. Odeio o nome de Emily.
-Falei o nome de algumas mulheres que conheci. - Dou de ombros e ela ri, tocando o guardanapo em mim.
-Cassie. É bonitinho.
Faço uma careta de reprovação e ela revira os olhos.
-Eu sei um perfeito, e vai ser esse! - Ela acende seus olhos com um brilho diferente.
-Qual?
-Lana! A pequena Lana.
-Lana? - Penso sobre o nome, e realmente não soava mal. Era legal e bonitinho, mas ainda tinha tempo para pensar em qual realmente colocaríamos, e teríamos que ver a opinião da Diana.





