terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Capítulo 79

Mas eu não hesitarei mais, não mais
Não dá para esperar, eu sou seu
(Jason Mraz – I’m Yours)



19 de Março de 2016

Foi um começo de ano longo e maravilhoso. Dois meses voaram e com eles vieram boas novas. Minha empresa conseguiu abrir uma filial bem maior em Miami, o que me resultou numa promoção. Agora eu não fico apenas com pesquisas de mercado e algumas vendas, agora eu finalmente participo de reuniões e melhoras para a empresa. Eu me sinto importante assim e bem mais valorizada.

Os meses não foram maravilhosos apenas pra mim. Lana conseguiu o papel principal em uma das peças que apresentaram em fevereiro, eu me senti a mãe mais orgulhosa desse mundo.

E orgulhosa pelo Bruno. Não é que ele conseguiu arrasar com o Super Bowl e detonar no Grammy? Ele conseguiu um grammy e teve uma maravilhosa apresentação ao lado de Beyonce e Coldplay. Conseguiu me fazer chorar ao ver aquilo, em ambas fui com Lana e sua família. Me arrepiou dos pés a cabeça.

Agora voltando um pouquinho. A maluca da Mia não aceitou o término muito bem e começou a ameaçar ele, dizendo que eles tinham um sextape. Bruno ficou tranquilo, pois por minha causa – pelo menos foi o que ele me disse -, ele nunca gravou algo com medo de que vazasse e estragasse a sua imagem. Então foi ai que Mia ficou sem provas e sem o que falar e desistiu dele de vez, mas em todas as suas redes sociais até hoje ela sempre posta alguma indireta.

Bruno parece que nem liga, eu acho que ele realmente não gostava dela.

Falando em gostar... A minha relação com Richard está parecendo daqueles casais que estão há muito tempo juntos, mas não se falam mais. Ele está mais na dele e eu também. Nos vemos muito pouco e brigamos muito, mas eu descobri que não o amo, eu apenas tive uma paixão e ela está diminuindo com o tempo.

Precisei me abrir com alguém e disse para Tiara, Urb e Megan o que tinha rolado entre eu e Bruno. Como eu imaginei, todas elas são #TeamBruno, e eu acho que me deixei levar por isso.

Nós transamos mais quatro vezes nesses dois meses.

E sim, eu me sinto suja, mas não me arrependo. E é por isso que eu ainda estou praticando um modo de dizer para Richard que nós estamos terminados. Ambos sabemos que já acabamos faz tempo, mas acho que nenhum criou a coragem de falar isso ainda, o que dificulta em tudo.

Arrumei a casa inteira, talvez para poder me focar em outra coisa que não fosse no Richard ou em como nós poderíamos conversar. Me desliguei do mundo, deixando meu celular no silencioso e com a internet desligada para ninguém me desvirtuar dos pensamentos. Ok, daqui a pouco ele estaria em casa e eu precisaria agir e pensar em mim.

Vou até a padaria e escolho alguns pães e outras coisinhas para tomar um café da tarde com ele.

O encontro em casa, com a cabeça mergulhada num livro de medicina – novidade, sim?

Aproximei-me do sofá e ele nem sentiu minha presença. Coloco as compras sobre a mesa e sento-me ao seu lado.

-Boa noite. – Ele dá um sorriso de canto, sem tirar os olhos do livro.

-Você quer virar um livro, sim?

-Quem sabe um dia eu não escreva um sobre os princípios da odontologia. – Ele marca a página onde estava com um marcador e fecha o livro. – Se as pessoas soubessem da importância que seus dentes têm sobre elas, com certeza cuidariam melhor.

-Sim...

-Sabia que até depressão os dentes podem nos causar? É uma série de problemas que ninguém pensa que podem ser consequência dos dentes...

-Ric? – O chamo e ele ri meio sem graça.

-Desculpe, estou sendo inconveniente novamente.

-Você nunca é! – Encosto sobre seu braço. Ele ameaça falar algo, mas atravesso-me em frente para que ele não corte minha linha de raciocínio. – Nós temos que conversar, ok?

-Hm... Ok, eu lavo a louça de hoje. – Deu um sorriso brincalhão e eu não contive meu sorriso triste. – Ok... É bem mais do que uma louça suja, sim? – No fundo ele pressentia o que iria acontecer.

-Você sabe! – Dou de ombros, encolhendo-me um pouco pra trás e trazendo meus pés para cima do sofá. – Ric... Nós estamos há quanto tempo juntos?

-Dois anos e dez meses.

-Você percebeu que de uns tempos pra cá nós temos nos desvirtuado de nossa relação? Digo, você passa seu tempo estudando, lendo, e quando temos um tempo pra nós, brigamos e passamos de cara virada o dia todo.

-Eu sabia que era esse o ponto da conversa. – Ele solta um ar preso há um tempo ali. 0 Continue.

-Você conseguiu a sua faculdade, seu estágio, todas as coisas que precisava e eu também. Consegui minha promoção, estou feliz... Mas acho que nós não estamos completamente felizes, sim?

-O que você quer dizer, Lea? Pode ir diretamente ao ponto. Eu não gosto de rodeios.

-Eu também não. – Havia percebido o tom da sua voz como mudou de uma hora pra outra.

-Então diga... Você quer terminar comigo?

-Ah...

-Eu deveria imaginar que seria isso.

-Ric, tente entender.

-Eu entendo! Eu entendo que você está diferente, que você não quer mais nada comigo há tempos.

-Não coloque essa culpa em mim porque eu vivo lhe procurando, e onde você está? No meio dos seus livros. Você só tem tempo quando a agência chama você! Agora, pra sua namorada, você nunca tem tempo! E você sabe, Richard, que eu não estou mentindo.

-Você não queria que eu seguisse com meus sonhos? Não queria que eu desse continuidade aos meus estudos para que me formasse. Não era isso? E também o tempo que você tem está sempre com aquele seu amigo e sua família em potencial.

-Sim! Mas estudar não significa largar todos a sua volta! Você tem tempo para modelar, para viajar, pra sua família, mas pra sua namorada você nunca tem e se eu tiro você da frente desse computador ou dos livros, é capaz de levar um soco na cara.

-Não seja dramática.

-Eu sou, esse é meu jeito. Percebeu o tanto de vezes que nós brigamos por causa disso? Sempre pelo mesmo motivo. Ou é pelo Bruno, ou pela Lana... Tudo sempre tem uma briga e acabamos sempre no mesmo lugar.

-Então vamos fazer dessa somente mais uma daquelas brigas, a última! Eu prometo que mudarei isso. – Sua mão fria se chocou com a minha, quente como meu corpo e a febre que estava sentindo. Febre de medo do que vai acontecer.

-Eu preciso te falar algo. – Se não saísse agora, não iria sair mais. Se eu vacilasse, talvez tivesse a sina de me casar com Richard e deixar Bruno pra trás. Tenho que ter coragem pra dizer.

-Pode dizer.

-Richard... – Engoli a saliva. Preciso dizer tudo de uma só vez, sem tropeços. – Eu traí você.

-Lea?

-Eu traí você, com uma pessoa... Eu errei, e vou entender se não me perdoar por isso, mas não posso mais conviver com isso dentro de mim e não dizer nada, ou simplesmente terminar com você sem motivos, ou depois você descobrir por outras pessoas. Mas eu estava sem meu namorado, estava solitária...

-Você sujou meu nome!

-Eu...

-Você fez igual a todas as outras. Igual! – Ele levantou do sofá, passou a mão pela cabeça, tenho quase certeza que ele está pronto para dar um soco em minha cara. – Você disse Lea, você disse que era diferente, eu acreditei que seria melhor. Eu estava cogitando em casar com você, eu me mudei pra ficar com você! Eu larguei minha carreira porque pensei que nós construiríamos uma nova estrada. Você arruinou tudo! Depois é o homem que não presta...

-Eu mereço ouvir tudo isso... – Baixo minha cabeça. Logo a levanto, lembrando de algumas coisas. – Mas não aponte o dedo somente pra mim, porque eu posso ter errado em trair você, Richard, mas eu sempre fui leal, sempre lhe defendi com unhas e dentes. Enquanto você estava falando mal da minha cor, da cor da minha filha, da minha família, com um preconceito gigante que você e sua família pré histórica mantém.

-Você está se sentindo suja? – Me pergunta.– Eu espero que sim, porque de limpa você não tem nada. Você julgou minha ex por isso, e você fez o mesmo que ela, uma discípula de Ashley! E quanto a minha família pré histórica. Bem, nós temos uma tradição e princípios. Somos do Texas.

-Isso não justifica esse seu comportamento medieval em pleno século vinte e um! E sim, eu lembro da Ashley.

-É bom que lembre, é bom que sinta remorso, porque o que eu estou sentindo é a mesma dor que senti quando ela fez isso.

-Você não vai me responder?

-O quê?

-Quero saber quem é a pessoa!

-Richard... Foi um erro, eu sei que fiz uma coisa horrível, mas estou te contando agora para que possa me perdoar. Não pretendo que fiquemos juntos, então não é preciso saber quem é a pessoa. Apenas quero que saiba para não ficar nenhuma pedra no caminho.

-Eu quero o nome dele.

-É o Bruno, Richard. Era só perguntar diretamente se era ele, seria mais bonito da sua parte. – Levanto do sofá. – Não quero pressionar nada, nem quero que as coisas fiquem ruins para o nosso lado. – Ele permanecia calado, não falou absolutamente nada, estático. – Vou sair um pouco, respirar ar puro e daqui a pouco volto. Ok? Darei uns dias para que arranje um lugar pra você.

Richard não me respondeu nada, permaneceu no silencio até eu atravessar a porta da saída. Acho que após isso ele continuou em silencio também.

Pego meu celular assim que entro no carro. Dirijo em qualquer direção e paro em uma esquina para checar as mensagens. Bruno havia mandado três.

“Hey! Como está? Quais os planos para hoje? Estava afim de uma caminhada pela beira da praia...”

“Agradeceria se me respondesse, ingrata.”

“OK... Você não aparece há muito tempo. O que aconteceu? Está bem?”


Encostei minha cabeça no volante do carro e me permiti chorar como um bebê, chorar sem parar, era um misto de emoções. Estava me sentindo péssima, um monstro, por fazer isso com Richard, justamente ele que me apoiou todas as horas, mas em compensação, ao recordar do episódio que passei com a sua família e de todas as brigas por nada, do seu comportamento preconceituoso e tudo mais, dava um alívio em meu peito.

“Onde você está?”


Mandei para Bruno e em menos de um minuto obtive a sua resposta.

“No estúdio, não no de casa... Está tudo bem? Não respondeu minhas mensagens, estava preocupado!”

Evitei responder novamente. Girei a chave do carro e segui o caminho até o estúdio, é pra lá que eu iria falar com ele.

Por sorte não demorei a chegar lá. Dani me recepcionou bem e na hora fez questão de chamar todos que estavam com Bruno dentro da sala de gravações e trouxe-os pra fora. Agradeci a ela, dei oi a todos e fui diretamente de encontro a ele.

-Lea. – Sorriu pra mim, respirando fundo. – Você não respondeu então resolvi convidar o pessoal para arranhar umas notas.

-Bruno! – Dou um sorriso triste.

-Você estava chorando?

-Não. – Balanço a cabeça, sorrindo pra tentar disfarçar.

-Como se eu não conhecesse esses velhos olhos vermelhos. – Ele aproximou-se. – O que houve?

-Eu contei pro Richard. Tudo!

-Tudo o que? – Ele fala um pouco mais baixo, parecendo se preocupar.

-Que eu o traí, que queria que acabássemos, pois assim não era saudável nem pra mim, nem pra ele.

-Você... – Bruno passa a mão por cima da cabeça, seus cabelos estavam bagunçados como o normal de um dia de trabalho. Sentei-me e recostei a cabeça na guarda do sofá, encarando o teto. – Lea!

-O que?

-Você comentou sobre nós termos ficado algumas vezes?

-Bruno, absolutamente tudo. Eu cansei de esconder as coisas, cansei de olhar pra ele e forçar um sorriso dizendo a mim mesma que tudo estava bem e completamente normal.

-E agora?

-Dei um tempo para ele sair da casa. – O sofá afunda mais um pouco. Ele sentou-se ao meu lado.

-Sinto muito. Sinto que também causei isso.

-Bruno... – Balanço a cabeça. – Está tudo bem. – Não poderia mentir pra ele e dizer que ele não tinha nada que ver com aquilo, porque ele tinha, e ele sabia. Ele tinha muito envolvimento nessa história e em parte na minha decisão.

-Bom, mas eu estou aqui, você tem um ombro em quem se apoiar.

-Obrigada. – Deixo que minha cabeça caia sobre seu ombro e ele afaga meus cabelos, beijando levemente minha testa.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Capítulo 78


Você está me dando um milhão de razões para te deixar
Você está me dando um milhão de razões para desistir do show
Você está me dando um milhão de razões
(Million Reasons - Lady Gaga)

Fiquei virando-me na cama a noite toda. Tudo que se passava em minha mente era: se meu ano começou essa coisa, como será o resto dele? Só consegui imaginar desgraças e meu coração se apertou. Pensei que estou ficando velha e consequentemente meus pais também estão. Daqui a pouco eles começam a ter complicações da idade, meus avós estão mais velhinhos ainda, e isso começou a me apavorar. Acho que me apavorou mais quando eu percebi que estou ficando velha e estou jogando isso pro ar, literalmente. Quer dizer, eu não fiz nada.

Eu não descobri a cura do câncer e da AIDS. Eu não fui a primeira a pisar num planeta novo, ou descobrir novas estrelas. Não fui a primeira mulher a revolucionar algo, e nem àquela que vai ganhar um prêmio Nobel da paz. Eu sou apenas eu, a Eleanor Winters, que trabalha há anos na mesma empresa de ramo imobiliário, que não subiu de vida, que é solteira ainda no papel, que não tem filhos biológicos, que não tem um animal de estimação e que não está aproveitando a vida.

Passei tempos pensando o que realmente eu estou fazendo da minha vida sendo só mais alguém no planeta. Estou naquela famosa crise de meia idade e isso é um saco. Quantos países eu visitei na vida dependendo de mim mesma? Nenhum, porque sempre ia com o Bruno e com a Lana. Bruno está com trinta anos e sua carreira já desleixou, dando uma longa fama pra ele que por tempos lembrarão quem é Bruno Mars. E bem, se eu pesquisar meu nome no google, o que aparecerá será umas coisas de imobiliária, talvez coisas antigas da escola e o resto tudo relacionado ao Bruno. Ou seja, Eleanor Winters não é nada mais, nada menos, que ninguém.

Quando consegui pegar no sono e acordei, percebi que não tinha dormido nem duas horas. Olhei para a cadeira com algumas roupas para dobrar que deixei ali, minha mochila que nem tinha desfeito, uns sapatos no canto quando eu estava experimentando qual levar para Vegas. Estava uma completa bagunça.

Levantei da cama e comecei a arrumar tudo. Desde os calçados, até os ladrilhos do banheiro. Deixei a casa com cheiro de casa nova, e fiz isso em uma manhã. Eu estava podre pela tarde, não queria mover um dedo. Ainda tinha dito que iria sair para caminhar com as meninas.

Deitei-me no sofá, pus meus pés pra cima e resolvi ignorar qualquer ligação em meu celular ou mensagem, até mesmo da minha mãe. Queria somente fechar meus olhos e ficar no completo silêncio.

-Será que está na hora de conseguir um emprego novo? – Penso em voz alta.

Se eu conseguisse alguns contatos com a Tiara, com o Bruno, com qualquer pessoa, poderia pegar um emprego novo, poderia ter alguma outra experiência. Algo eu preciso mudar, e talvez mudar isso seria uma boa coisa.

-Posso mudar meu cabelo! – Novamente fico pensando alto.

Meu cabelo voltou a ser o mesmo de antes, um palmo abaixo do ombro, umas vezes meio cacheado, outras meio liso, dependendo do meu humor, mas a cor continua o castanho de sempre. Poderia pesquisar outros estilos.

Sou atrapalhada pela campainha. Olho para o relógio e pelo horário só pode ser as meninas me buscando.

-Eu sumi, então tecnicamente estava evitando de ir caminhar... – Abri a porta e dou de cara com ele. – Com vocês! – Complemento o que estava falando.

-Oi! – Dá um sorriso de orelha a orelha. – Seja gentil e me convide pra entrar.

-Eu nem preciso convidar. – Abro a porta para ele passar. – O que está fazendo aqui? – Reparo em sua mochila.

-Vim dormir com você essa noite.

-Aham. – Digo desacreditada. – Onde está a Lana?

-Deixei com a Tiara. Mas é sério, eu vim dormir com você.

-Você está maluco, Bruno?

-Não. – Ele estava com um sorriso muito sapeca. Igual ao da Lana quando apronta. – Eu queria te ver, ia te chamar pra ir lá em casa, mas não sabia se você ia dar alguma desculpa ou simplesmente me ignorar, então preferi agir assim mesmo.

-Você é maluco. – Arqueio minha sobrancelha.

-Sou. – Tocou a mochila no meu sofá e veio em minha direção. – Eu sei que está sozinha até semana que vem. Não pode fugir de mim.

-Você é um perseguidor. – Deixo-o me abraçar pela cintura. – Não que eu não goste disso. – Aceito seu selinho e retribuo.

-Você se machucou ontem? – Ele tirou uma mecha caída de cabelo em meu rosto e pôs atrás da minha orelha.

-Somente a marca das unhas dela em minha canela, que ficaram roxas. Mas fora isso, nada mais.

-Eu vou beijar para melhorar. – Depositou um beijo em minha testa. – Quer saber como ela ficou? – Esperei ele me falar sem precisar responder. – Ela estava como nariz sangrando, ficou com o rosto bem vermelho, marcado. Nada de cortes, mas ficou um pequeno roxo onde você pisou na barriga.

-Ela poderia ter ficado pior. – Dou de ombros.

-Você iria matar ela. Pensei que iria sair apenas uma discussão, estava lá assistindo e me divertindo.

-Ah, claro. – Reviro meus olhos. Caminho até o sofá e sento no canto. – Fazia tempos que ela me tirava do sério. Sempre uma charada, uma piadinha, algo que ela fala da Lana... Tudo isso estava acumulado, e eu depositei naquela linda carinha. – Novamente deixo meus ombros rolarem.

-Lea, você estava cega. Nunca vi você tão possessa.

-Eu estava segurando essas coisas há tempos, estava brava. – Balanço a cabeça. – Mas porque vocês terminaram?

-Ah. – Ela deu uma risada nasalar. – Lea, ela me fez colocar a Lana em público e eu nunca quis isso. Quando é que eu iria me afastar de você por conta própria?

-Tá, mas você deixou ela fazer isso e fez isso também.

-A gente brigava o dia todo, o tempo todo. Ela é mimada, não quer fazer nada. Às vezes nós estávamos juntos e ela não largava o celular, era o tempo todo com aquilo. Enchia meu saco perguntando cada passo que eu estava dando, queria controlar tudo que eu fazia.

-Bruno... – Balanço a cabeça e tento medir minhas palavras, ou melhor, é bom nem tocar nesse assunto.

-O que?

-Nada.

-Pode falar.

-Assim... Bem antes de você conhecer ela e eu conhecer o Richard, você passava o tempo todo no celular, lembra? Você nem ouvia o que eu dizia. Só queria saber de discutir por mínimas coisas, e nunca queria fazer nada.

-Lea... É diferente.

-Claro que é diferente, não disse ao contrário, mas isso foi algo do universo mostrando pra você que não era legal o que fazia antes.

-Agora não faço mais. Sim?

-Agora não, mas já fez. Isso foi um tapa do universo.

-Ok, eu aceito isso. – Ele rola seus ombros, fechando os olhos lentamente e abrindo novamente. – Eu tinha outros motivos para fazer isso também.

-Quais?

-Outros motivos. – Bem, se ele não queria falar, eu que não iria insistir.

-Ela vai voltar atrás de você, sabe disso?

-Phil me disse a mesma coisa!

-Se prepara. Sabe que ela é bem o tipo que não vai aceitar ter sido largada. Ela vai voltar atrás, ela vai querer berrar...

-Já basta o escândalo que ela fez ontem. Quem via de fora pensava que eu estava matando ela lentamente com uma faca de cozinha.

Bruno começou a me contar os detalhes de toda a briga, que começou assim que eu saí. Percebi que durou bastante quando ele disse que foi quando eu saí e eu calculei o tempo que fiquei tomando banho e olhando televisão, além de falar com as meninas.

Pegamos duas taças e bebemos o pouco de vinho que ainda restava em minha garrafa. Optamos por pizza, porque eu não estava em condições de cozinhar e Bruno se recusava a ir pra cozinha. Nós ligamos para a Tiara, falamos com a Lana e voltamos a conversar com a televisão ligada e um programa qualquer dando no fundo.

-É engraçado isso. – Bruno coloca a taça vazia sob a mesa de centro. – Sabe um dia que eu fiquei com raiva de você?

-Quando?

-Quando estávamos em Paris. Nossa, eu estava tão bravo.

-Bruno, eu até hoje não entendo porque era tão infantil. O que era aquilo? Ficar bravo comigo por eu ter ido ver a torre com a Lana antes de você?! – Tomei meu último gole e encarei o fundo da taça.

-Eu estava bravo com tantas coisas, Lea. Mas você nunca via quando me feria.

-Eu não feria você, porque houve um tempo em que parou de se importar comigo. – Dou de ombros. Aquele não era um assunto pra virar pessoal.

-Eu vou lembrar você.

FLASHBACK

-Nossa, mais uma. – Estalo o pescoço, indo para a cozinha quando vejo a cena que estava na sala.

-Lea, não torra minha paciência, ok? – Bruno me persegue.

-Eu falei com você? – Ele mantém-se calado. – Porque eu tenho certeza que não.

-Você é infantil. – Ele abre a geladeira. – Muito infantil.

-Estou indo pra escolinha com a Lana. Não sabia? Curso extensivo. Deveria aproveitar. – Pesco uma maça da fruteira.

-Pro inferno você já foi quantas vezes? – Ele vira-se, ainda com a geladeira aberta.

-Moro nele, com você. Ou esqueceu?

-Você consegue ser mais irritante que a minha irmã!

-É um dom, maravilhoso não é?

-É sim. – Ele empurra a porta com raiva.

Bruno permanece ali, fazendo e comendo um sanduíche de atum, enquanto eu termino minha maça. Ligo a televisão e vasculho os canais bons. Ele senta-se na bancada e começa a fazer um barulho irritante com a cadeira.

-Dá pra parar? Por favor!

-Não. – Ele continua a fazer o barulho.

-Quem está sendo infantil agora?

-Ainda é você, sempre será.

-Há tantas coisas que você sempre será e eu não estou falando delas... – Troco de canal mais uma vez.

-Diga quais são... Famoso, lindo.

-Nada disso.

-Então o que?

-Vazio, sozinho, solitário. Nunca terá alguém pra amar você como seus pais se amavam, como suas irmãs tem. Você pode leva-las no altar, mas nunca ninguém vai levar você, porque Bruno, você não tem paradeiro, e isso não é uma coisa boa. Você é imprevisível e se continuar com esse mesmo comportamento, no dia do seu enterro será apenas você no caixão, a Lana num lado e suas irmãs no outro. Não quer preservar seus amigos, não quer ouvir conselho de ninguém, tudo bem. – Dou de ombros, agora olhando pra ele. – Mas nunca se esqueça que seu corpo e sua fama se vão, o que fica são as lembranças, e não serão essas mulheres sujas com quem transa todas as noites que lembrarão de você. Será as pessoas que você cuidou e amou e que cultivou pra ter isso de volta. Mas você não está fazendo isso por merecer. Briga comigo, briga com as suas irmãs, xinga seu pai, para de falar com seus amigos de verdade por uma semana por conta de uma discussão boba.

-Eleanor...

-Eu falei que tinha muitas coisas pra falar, e elas não estão nem pela metade.

-Não as fale, porque eu não quero ouvir.

-A verdade sempre dói!

-Saia da minha cozinha, agora. – Ele aponta para a porta, mas não me olha, fita apenas o chão e não levanta a sua cabeça.”


FLASHBACK OFF

-Isso nunca saiu da minha mente! – Ele fez uma careta. -E só você acha que houve um tempo que eu não me importei, porque eu sempre me importei, até quando fingi que não me importava.

-Desculpe. – Torci meus lábios lembrando de toda aquela noite e do quão difícil foi vê-lo no outro dia sem nem me olhar.

-Foi no passado. – Bruno dá de ombros, mexendo em seus dedos. – Eu queria saber se ainda pensa isso de mim?

-Não. – Balanço a cabeça com convicção. – Óbvio que não.

-Suas palavras muitas vezes doem! – Ele dá um riso meio amarelado, aquele riso de uma nostalgia não muito boa. – Palavras quando atingem o coração doem mais que punhais e estacas.

-Eu vivia amargurada, Bruno. – Dou um sorriso amarelo também. – Eu gostava de você.

-Mas você não dizia.

-E não adiantaria de nada. Bruno, você queria viver. Quem seria eu para tirar de você isso? O que seria eu pra fazer isso com meu melhor amigo? Eu que tinha errado.

-Passado é passado. – Ele esticou a mão pra mim. – Ok?

-Ok. – Apertei a sua mão com força.

-Você não pensa mais que eu vou ser solitário e nojento pro resto da vida?

-Não mais. – Solto um riso frouxo e ele ri.

-Que bom, porque eu também não, e prometo que não irei mais deixar você mal. Ok?

-Ok.

-Agora eu estava pensando... Lana merece ter uma irmã, sabe?

-Hm... Sei.

-E ela precisa ter uma irmã agora, pra poder ensinar pra ela como brincar e como fazer os deveres de casa. Sim?

-O que quer com isso?

-Eu posso praticar em você? – Pegou minha mão e a beijou enquanto sussurrava isso.

-Você não presta. – Abro um safado sorriso em minha boca e ele não perde tempo de avançar o sinal para me beijar.

Eu sou muito cara de pau de aparecer depois de um tempão sem nem falar nada, né? Eu sei. Eu lamento. Mas gente, vocês não sabem como é horrível estar onde eu estou. Porque eu consigo ter inspiração pro futuro da fanfic, MENOS pra agora que é onde eu mais preciso :c

Espero que vocês consigam me perdoar e que tenham gostado. Eu estou me esforçando, juro.

Amo vocês demais. <3

/Dri

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Capítulo 77


Como uma única palavra
Pode fazer um coração se abrir
Eu posso ter apenas um fósforo
Mas posso fazer uma explosão
(Fight Song - Rachel Platten)

Acordei com o braço dele em minha cintura. Bruno dormia profundamente e eu não queria atrapalhar isso. Tirei seu braço cuidadosamente e levantei pé por pé até o banheiro, fechei a porta e sentei-me.

Passei tudo o que aconteceu naquela noite em minha mente e fiquei com um sorriso bobo no rosto. Eu falei que isso nunca mais aconteceria, prometi a mim mesma, mas eu posso dizer que minha carne foi fraca.

Foi fraca porque não segurei a barra, pensei que tinha o Richard e que ele não merece isso, mas não consegui me desviar daquilo, não consegui deixar de lado, simplesmente ignorar. Eu quis, ele quis, nós queremos. É errado? É. Mas eu não consigo me arrepender, não consigo ficar com raiva de mim mesmo por isso. Eu fiz o que queria, somente Ric não merecia. São coisas distintas.

-Eu preciso voltar pra cama! – Passo as mãos em meu rosto.

Saio do banheiro com cuidado, o observo e vejo que ele não moveu um braço. Está da mesma forma que eu o deixei quando sai. Deito ao seu lado, de costas pra ele e com as duas mãos abaixo da minha cabeça, pressionando minha bochecha. Pensando bem, o que eu fiz?

Sentia beijinhos em todo meu rosto. Não queria dar uma de mal humorada, mas ele estava me acordando, droga. Dou um sorriso amarelo e ele deposita o selinho assim mesmo.

-Bom dia.

-Bom dia. – Digo, fechando os olhos novamente.

-Nove da manhã, precisamos tomar um café...

-Nove da manhã? – Dou um pulo, sento-me na cama. – Bruno, eu tinha que estar no serviço agora! Droga, droga. Como eu não percebi antes... meu celular nem despertou.

-Lea? Lea? Você tinha dito algo sobre suas folgas compensatórias, não?! Eu não iria deixar você faltar no serviço assim. Acalme-se.

Meu peito murchou e eu lembrei o acordo que fiz, de tirar todas minhas folgas acumuladas na primeira semana do ano. Passo a mão na cabeça, agora aliviada por não ter faltado no serviço.

-Tem razão. – Solto o ar comprimido. –Então vamos tomar café? Estou com fome. – Levanto da cama, puxando o lençol comigo. Ele não reluta, mas vejo que ficou me olhando, como se quisesse alguma explicação do porque eu estava me cobrindo.

Bem, ele não é meu namorado, é meu melhor amigo. O que aconteceu ontem a noite, bem, eu não sei explicar exatamente o que aconteceu, mas pode ser que não signifique nada.

-Tenho que chamar a Lana. – Bruno estica-se da cama para alcançar sua cueca.

-Você é um preguiçoso, está fazendo o trabalho dobrado.

-Não quero levantar daqui. – Fez uma cara de coitadinho, esticando seus lábios.

-Mas tenho certeza que precisa. Quais são os seus planos de hoje?

-Nenhum, por enquanto. Ainda não sei o que a Lana quer fazer, mas hoje não tenho obrigações com o estúdio, somente se a criatividade bater em minha porta. – Tento não olha-lo enquanto ele se veste. Concentro-me em minha roupa e pego um cardigã em minha mochila.

-Pelo menos ela está de férias de tudo.

-Ainda bem. Queria coloca-la num curso, sabe. Algo pra ela aprender uma língua extra.

-Mas ela tem espanhol e francês na escola.

-Mas não se sabe se um dia ela precisará de outra língua. Temos o japonês, italiano, português.

-Você tem que perguntar o que ela quer fazer, Bruno. Sua filha tem sete anos agora, ela sabe pensar por si. E também já sabe acordar sozinha.

-Pra mim ela sempre será aquele bebezinho, indefeso, que precisa de todos os cuidados e atenção, Lea.

-Deus, você está carente. – Rimos e deixamos o quarto.

Fui diretamente pra cozinha enquanto ele a chamava. Coloquei tudo sobre a bancada para comermos no café e liguei a televisão em canal de notícias.

-Bom dia, mamãe. – Ela vem em minha direção com pantufas de urso e pijama da branca de neve. Seu rosto estava todo amassado.

-Higiene, agora, mocinha! – Bruno aponta o polegar sobre seus ombros e ela faz um barulho esquisito.

-Quero tomar café assim.

-De pijama tudo bem, mas lave esse rosto e escove esses dentes e cabelos.

-Você parece uma mãe, daquelas velhas que enchem o saco dos filhos adolescentes. Imagina se tivesse mais uns dois por aqui? Acho que você estaria de cabelos brancos.

-Ainda bem que ela tem você pra falar sobre namoradinhos e menstruação.

-E sobre o primeiro beijo, primeira vez...

-Hey! – Ele apavora-se. – Ela é um bebê.

-Ela está crescendo e você não vai coloca-la num clube do celibato. Sua filha terá uma vida sexual também, aprenda a lidar com isso.

-Um dia eu aprenderei, não agora. Não hoje. Não quero tomar café pensando no corpo da minha filha cavalgando num cara... Eleanor, olha o que está fazendo comigo!

-Eu não estou fazendo nada. – Dou risada, relaxando meus ombros.

-Argh! – Ele resmunga, sentando na cadeira e olhando para a televisão. – Vamos ver o que está dando...

-Você parece um velho, Bruno.

-Eu sou um old school, me respeite por isso.

-Cale a boca. – Dou um tapa em seu ombro, rindo das suas besteiras.

-Oba, café com risadas. – Ela entra na cozinha, com os cabelos presos num coque gigante e abraçada em seu tablet.

-Sabe que não é pra mexer nele na hora da comida, sim?

-Sim, papai. O que houve com ele hoje, mãe? Acordou achando que eu não sei de mais nada.

-Você sabe de alguma coisa, Lana? – Ele fica encarando ela, e ela ri.

-Seu pai acha que você nasceu ontem, que ainda é um bebê. É a crise de meia idade.

-Lea, você me paga. – Bruno aponta o dedo pra mim.

Nós nos sentamos direitinho e nos servimos. Comemos e conversamos, tudo muito saudável. Bruno lançava-me alguns olhares, como se estivesse perguntando o que achei da noite passada, ou apenas tentando me lembrar do que aconteceu. Eu sei bem o que aconteceu, mas não sei se quero lembrar. Eu posso lembrar e ficar com vontade. Eu me odeio.

-Mãe, você parece mais feliz hoje. Está mais bonita.

-Obrigada, meu amor. – Beijo sua cabeça. – Mas eu acho que estou uma bagunça. – Recolho o prato da sua frente.

-Eu acho que está boa. – Bruno dá de ombros, ainda bem que Lana não é grande o suficiente para entender trocadilhos e duplo sentido.

-Você também está melhor, papai. Seus olhos não estão tão pretos em volta.

-É, ele andava com muitas olheiras mesmo. – Parei para reparar nele.

-Mas eu estou me sentindo melhor hoje, até parece que comi uma barrinha de energia.

Eu rio, enterrando minha cabeça no meu corpo e olhando para a pia com as louças.

Foi um ótimo começo de tarde jogando Quest. Eu já tinha percebido o quanto minha filha estava maior, o quanto Lana tinha crescido e ficado lindamente inteligente e forte, mas quando estávamos no jogo e eu e Bruno tentávamos poupar ela de certas perguntas que achávamos que ela não saberia, ela nos fazia perguntar e respondia, na maioria das vezes corretamente.

Até nos deu uma bronca por não lembrarmos quem era o presidente quinze anos atrás. Claramente ela, que nem era nascida, sabia, pois havia lido num livro da escola. Então, nossa filha de quase oito anos detonou-nos e ainda conseguiu rir da nossa cara.

O bom é que o tempo pareceu passar devagar enquanto estávamos ali e eu fiquei feliz por estarmos aproveitando juntos.

Por várias vezes vi Bruno lançando olhares constrangedores pra mim, às vezes me sentia nua, e não vou dizer que aquilo era ruim, porque definitivamente não era. Apenas estava com... Medo? Essa não é a palavra certa.

-Boa tarde. – Não tínhamos reparado em ninguém ali, comíamos bolo e jogávamos Monopoly, quando ouvimos a voz de Mia atrás de nós.

Ela estava com uma sacola de shopping em mãos e sua bolsa no ombro. Pôs ambos sob o sofá e correu para o lado do Bruno, que forçou um sorriso.

-O que estão jogando? – Perguntou, olhando para o tabuleiro.

Me segurei para não chama-la de burra e cega. Por Deus, o nome está bem grande ao centro do tabuleiro e ainda em vermelho, uma cor que não é nada discreta.

-Monopoly. – Responde Lana, não muito contente.

-Quer jogar? – Convido-a, para ser legal e simpática.

-Quero. – Ela puxou sua jaqueta de couro e tocou sobre mim para parar em cima do sofá. Bruno lançou um olhar de reprovação pra ela, mas Mia fingiu que nem viu.

-Esse é seu dinheiro inicial. Estamos a recém começando. – Lana entregou para ela as notas que recebemos ao inicio e perguntou quem ela queria ser.

-Fico com o chapéu. – Ela pegou e pôs sob o inicio do tabuleiro.

O jogo continuou. Ela claramente não tinha domínio nenhum sobre ele. Errava as contagens de casa e não aceitava quando tinha que pagar o aluguel para alguém. Quando caiu na cadeia, passou uma rodada inteira reclamando que não era justo e que não estava nas regras, até Lana acabar caindo lá e ela ficar calada por ver que realmente era do jogo.

-Eu quero comprar isso. – Mia jogou o dinheiro sobre o tabuleiro quando caiu em

-Esse é da Lea. Você pode comprar outro da mesma cor, que ela não tiver e depois ver se consegue negociar com ela. – Bruno explica.

-Porque essa cor precisa ser sua?

-Por que eu passei aqui primeiro, quis comprar, tinha dinheiro e peguei. – Dou de ombros. Encarando minha carta do local.

-Ah, claro! A velha mania de pegar tudo que vê pela frente!

-Como? – Largo minha carta, com calma.

-Nada. Não é nada, não é, Mia? – Bruno passa a mão pelo braço dela.

-É claro que é alguma coisa, Bruno. Sabe que eu não me arrependo do que falo.

-Mas o que você falou? Porque até agora só ouvi você querer dizer que eu não perco nenhuma oportunidade.

-Mas é exatamente isso. – Aqueles olhos dissimulados. Vontade de colocar meu dedo indicador neles e furar até não existir mais olho por ali. – Passou o primeiro do ano com ele aí já agarrou a oportunidade de vir pra casa do Bruno e passar bem por mais alguns dias.

-Está insinuando que eu estou aqui porque gosto de passar bem? – Pergunto. Olho para Lana ao meu lado, com os olhos arregalados, mas que não para de prestar atenção em nenhuma das nossas palavras. – Lana, meu amor. Vá para o seu quarto alguns minutinhos, por favor? A mãe já chama você.

Ela nem pestaneja para sair. Levanta e corre para o quarto.

-É isso que eu quis dizer. – Ela rebate.

-Acalmem-se. Porque vocês duas nunca ficam em paz? – Bruno pergunta.

-Porque sua namorada é uma intrometida. Mete-se onde não é chamada e não é bem vinda.

-Não sou bem vinda na casa do meu namorado? Quem não é bem vinda aqui é estranhos.

-Estranhos? – Espreito meus olhos. – A única estranha aqui, não só de atitudes, mas de resto, é você!

-Você consegue ser mais irritante que as irmãs dele, como pode?

-Como? – Bruno pergunta, mas nem damos a mínima pra ele.

-Garota, eu respeito você no máximo porque é namorada do meu melhor amigo e porque, graças aos meus pais, tenho uma ótima educação. Eu aturo você!

-O mesmo que eu. Por isso acho que devemos evitar de estar no mesmo lugar. Sim?

-Claro. Vou esperar você sair. Mas coloque a jaqueta, tá frio lá fora. – Cruzo os braços e faço uma careta. Bruno se encolhe, querendo rir, mas tenta se segurar.

-Não sei como eu ainda aguento essa sua cara. – Ela levanta. – Sinceramente. Eu não tenho que sair daqui.

-Os incomodados que se retirem.

-Eu não me incomodo com você.

-Acabou de dizer ao contrário. – Dou de ombros.

-Você é a pessoa mais irritante que eu conheço, e olha que não são poucas pessoas.

-Não devem ser mesmo, com tantos namorados no currículo, imagino que a lista é infinitamente maior. Mas me sinto lisonjeada de ser a mais irritante, assim eu sou a primeira escolha sua e do seu namorado.

Bruno fica confuso, me olha com aquele velho ponto de interrogação.

-Ou vai dizer que eu não sou a primeira em sua lista? – Pergunto.

-Sempre. – Ele me responde.

-Dá pra você me defender, Bruno?

-Eu não defendo ninguém e nem coloquei vocês nessa situação. Apenas resolva seus problemas sozinha, Mia.

-Você é uma bosta de namorado.

-Eu também acho que você é. Uma coisa em comum. – Ele aproveita para sentar no sofá.

-Quando ele passou um ano sem falar com você, foi o melhor ano de nossas vidas. Queria que continuasse assim, mas nós precisávamos de folga da megerinha.

-Megerinha? Quem é megerinha? – Fiz aspas com meus dedos, agora pondo uma boa pose em meu corpo.

-A filha de vocês, que só pode ter sido criada por você.

-Mia, você não tem o direito de falar da minha filha. – Ele levanta.

-Senta! Senta, porque esse papo é diretamente comigo. Então a minha filha é uma megera?

-Não foi isso que eu disse?

-Foi, claro que foi. – Estalo meu pescoço. – Eu só queria ter certeza antes de acertar o primeiro em você.

Fecho minha mão, pondo meu dedão entre o indicador e o médio para ter certeza que não vou ter nenhum trauma e soco aquela cara de pau que estava a minha frente. Nunca dei um soco tão forte e com tanta vontade.

Ela deu dois passos pra trás, colocou sua mão no rosto e pôs um sorriso. Meu objetivo é não vê-la sorrindo, nem ironicamente como agora. Meu único objetivo é deixa-la desfigurada, irreconhecível.

Não quis esperar outra oportunidade e me joguei pra cima dela. Tive que puxar seus cabelos para segurar seu rosto e tentar desviar dos tapinhas inofensivos que ela dava. Um, dois, três, dez socos em sua cara. Comecei a ver seu nariz sangrando e ela começando a desistir dos socos. Eu já nem tinha percebido que o Bruno estava tentando me puxar.

E ali eu percebi que poderia atingir ela dizendo que eu estava com ele na cama noite passada, mas aquilo me deixaria mal também. Então levantei, com minhas mãos rendidas pelo Bruno. Mas não poderia deixar sem um final. Pisei em sua barriga e ela agarrou minha perna, como aqueles cachorrinhos desesperados. Geronimo começou a latir quando ela gritou de raiva e cravou as unhas em minha canela.

-Eu vou pegar raiva. – Digo, tentando soltar minha perna, com minhas mãos ainda presas.

-Solta ela! – Agora Bruno gritou pra valer. Na verdade antes eu acho que ele estava gritando, mas eu não estava capacitada para ouvir, já que estava descontando a raiva que tinha dela.

-É melhor eu ir embora. – Me desvio do seu braço e caminho em direção do corredor, prendendo meu cabelo num coque.

Toquei todas as roupas pra dentro da mochila, fiz um esforço para fechar. Peguei meu carregador e meu celular, com a chave do carro e coloquei dentro do bolso da minha jaqueta.

Quando estou saindo pela porta, ela está sentada no sofá e ele dando um pano com gelo pra ela.

-Hey, espera. – Ele começa a correr.

-Eu preciso ir, Bruno.

-Deixo algum recado pra Lana?

-Diz que eu a amo e que a vejo amanhã, ou depois, não sei.

-Tudo bem. Mas e eu, quando te vejo?

-Não sei, Bruno.

Não estava com raiva dele, mas eu olhava naqueles olhos e enxergava tudo o que fizemos noite passada e tenho medo de que essa raiva que eu extravasei na Mia, seja um pouco da raiva que eu sinto por ter traído o Richard.

Mas eu não sinto raiva, porém sinto medo de sentir remorso. Eu sou complicada de entender.


De um bom banho meu corpo carecia, e foi isso que dei a ele. Permitir-me ficar somente de roupão e toalha na cabeça, enquanto tomava uma taça de vinho e fofocava com Tiara e Megan no telefone. Estávamos no FaceTime.

-Eu teria dado muito mais trabalho pro cirurgião plástico. – Tiara falou. – Mas foi muito bem feito. Ela merecia.

-Eu também acho.

-Não me sinto culpada, sabe?!

-Ainda bem. – Megan responde. – Você deveria se sentir orgulhosa de ter mostrado pra ela quem você é.

-Uma barraqueira? – Rimos.

-Uma mulher forte e que não precisa se esconder atrás de ninguém.

-Sabe o que eu ainda estou abobada em saber... – Nós perguntamos o que e Tiara continua. – Em ela achar que você está se aproveitando do meu irmão, quando na verdade é ela.

-Achei isso bem engraçado, até. – Nós rimos.

Planejava dormir pela sala mesmo, assistir uma televisão e conversar bastante tempo com elas, mas acabei desligando-a e indo pro quarto. A cama vazia me fazia pensar que Richard essa hora está estudando e eu o traí...

Eu deveria me martirizar. Mas quando estava no banho, estava pensando que isso pode ter sido uma única vez e eu consigo lidar com isso, como sempre lidei com tudo em minha vida.

Meu celular trepida em cima da mesinha e me desconcentra dos pensamentos. Quando leio a mensagem vinda de Bruno, perco mais ainda meus pensamentos e releio algumas vezes para ver se estava certa.

“Sou um homem solteiro agora.”

________

Notas Finais:

24K Magic! 10/07! SAVE THIS BEEEETCH
Enfim. Vou explicar pra vocês e espero que me entendam. Passei por umas semanas onde nem conseguia ligar o computador, ele estava extra pesado. Fiz uma limpeza e quando finalmente consegui tê-lo, não consegui escrever. Nada. Nenhuma palavrinha. Tudo que eu escrevia, eu deletava. Não tinha inspiração para fic, apenas para alguns textos pessoais e tudo mais. Acho que foi um daqueles momentos mais temidos pelos escritores. Mas, ele passou! Consegui achar minha inspiração novamente. Quero que saibam que nem por algum insano momento me passou pela cabeça abandonar tudo. Criei uma família e é minha obrigação continua-la até o fim. 
Estou aqui sempre. 
Espero que tenham gostado e não tenham me abandonado. 
Com amor. Dri. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo 76


Não me importa o que pensem os demais
Você é toda a minha verdade
Não me importa quem esteve antes de mim
Eu quero te fazer feliz
(Bésame Sin Miedo - RBD)

27 de Dezembro de 2015

Cheguei à conclusão que é possível sofrer por amor. Que é possível pensar em alguém vinte e quatro horas por dia e que a vida, quando passa, deixa saudades de muitas coisas. Tenho saudades de uns anos atrás, quando era eu, ela e nossa pequena. Minha pequena cresceu, ela também e eu também. Gostaria de ter crescido naquela época, quando eu a tinha e poderia dizer a qualquer momento que a amava. Eu fui idiota. Eu era jovem e cheio de coisas novas para experimentar.

Deixei passar uma das coisas mais preciosas que tive e agora estou aqui, com uma mulher que não é quem eu amo, minha melhor amiga com outro cara que é um porre, e eu com sucesso, mas sem inspiração.

Peguei meu celular sobre a mesa, Megan estava me dando um toque, ela havia chego.

Sai do meu quarto passando a mão para o cabelo baixar um pouco. Abro a porta e ali está ela, mesmo com tudo, com um sorriso no rosto.

-Vamos começar a sessão de psicologia da Dra. Megan. - Puxou sua bolsa sobre o ombro, indo para a sala de estar.

-Bom dia pra você também.

-Sem tempo para bom dia, vamos conversar. - Sentou-se na poltrona e apontou para o sofá ao lado. - Comece.

-Megan. - Começo a rir e ela coloca uns óculos, que provavelmente não eram dela. - OK. O que quer saber?

-Primeiramente, por que me chamou? Segundo, por que não a Tiara? Terceiro... Como está?

-Tiara não sabe me ouvir completamente, ela acha que as coisas tem apenas uma versão e ouve o que quer para absorver apenas o que quer... Enfim, você a conhece. Ela me julgaria... Eu estou bem.

-Ok, mas se tivesse bem não estaria me chamando, Bruno.

-Ok, eu estou bem, mas estou confuso, serve? Arrependido, talvez?

-O que aconteceu?

-Eu beijei ela, Megan... – respiro fundo. – Isso faz umas semanas, foi no halloween, mas eu não consigo tirar da cabeça.

-Bruno…

-Eu sei, Meg. Foi idiotice. Mas eu estou me dando de conta de como as coisas seriam se eu tivesse corrido atrás dela, se eu tivesse me esforçado e ela nunca tivesse saído do meu lado. Você lembra como éramos antes? Você sabe mais de nós do que nós mesmos.

-Hm. – Ela cruza suas pernas. – Lembra do que falei pra você há um tempo atrás, quando você não estava falando com ela e eu estava saindo com a Tiara para as festas.

-Mais ou menos.

-Eu disse para esquecer dela. Finge que eu nunca falei disso, ok?

-Quê?

-Esquece, Bruno. - Fiquei olhando pra ela e ela o mesmo. Passamos quase dois minutos se olhando sem saber o que dizer. - Esquece, porque você a ama e não pode ficar sem ela.

-Mas você... Estou confuso. Primeiro me diz que não vale a pena lutar por ela e agora, de repente, diz que eu preciso ir atrás.

-Ela ama você! - Depois que disse isso, suspirou fundo de uma forma irreconhecível. Como se ela tivesse prendendo isso por muito tempo. - Bruno, ela ama você.

-Mas…

-Já falei pra esquecer o que eu disse antes.

-Tudo bem. Você têm certeza que ela me ama? Ela disse isso?

-Ela não precisa dizer, isso tá na cara dela. Ela gosta do Richard, mas ela quer você também.

-Você está traindo sua melhor amiga.

-Um dia ela vai me agradecer por isso, nem se preocupe. Agora é assim, você a ama, mas ela precisa saber disso e saber que você está disposto a tudo por ela. Você está disposto a tudo por ela?

-Sempre! - Digo com convicção.

-Então, eu vou ajudar a tudo ficar no devido lugar. Primeira coisa é você se livrar dessa monstra!

-Mia. - Rio. - Será fácil.

-Livre-se dela, pra sempre.

-Ok.

-Segundo passo é dizer a Lana que você ama a Eleanor.

-Ela sabe!

-Ela sabe pelo que ela deduz, não porque você falou.

-Falarei.

-O passo mais difícil será fazer com que a Lea acredite em você e que ela deixe o Richard.

-Ela precisa deixar desse cara. Qual é, ele é preconceituoso, ele a tratou mal!

-Seguindo um raciocínio, ele não a tratou mal, ele não a defendeu.

-Isso dá no mesmo, Megan.

-Ele é uma boa pessoa, fora isso. Ele a tratou super bem, como ela merecia ser tratada. Mas a gente não manda no nosso coração, e eu sei que por mais que ela goste dele, ela não o ama! Não o ama verdadeiramente, ele não é o dono do coração dela.

-Supostamente sou eu? – Rio.

-Você e Eleanor são alma gêmeas. Não sabia que isso poderia acontecer, não sabia que isso realmente existia.

-Alma gêmea…

-É. Há algo em vocês que é mais do que inexplicável. É surreal. Mas vocês são pessoas indomáveis, inconstantes. Por isso nada aconteceu ainda. E também são dois orgulhosos, idiotas. Tenho vontade de bater com a cabeça de vocês na parede, às vezes.

-Nada aconteceu por que ela se revoltou e ficou com ele.

-Mas que eu saiba você já estava com a Mia, e quando ela engatou o namoro com o Richard, pareceu que ficou bravo e parou de falar com ela.

-Eu estava zangado! Caramba, ela estava toda feliz com ele, e a Mia ficava em minha volta. Fiquei bravo com tudo e meu orgulho falou muito mais alto que eu.

-Pateta. - Revirou seus olhos e descruzou suas pernas, esfregando uma mão na outra. - Como vai mostrar pra ela que é a sua alma gêmea?

-Eu não sei. - Vacilei. - Não faço ideia. Eu vacilo sempre e tenho medo de estragar tudo novamente.

-Estragar como?

-Sei lá, vá que eu faça algo que ela não goste, ou ela simplesmente queira ficar com o Richard.

-Querer ela quer, até porque ele é um ótimo namorado.

-Continue, adoro quando você estraga minha estima falando que ele é o melhor.

-Para. - Empurrou-me com um riso bobo. - Ele é um homem bom, mas não bom pra ela. Digo, ele é bom pra ela, mas você é o bem dela!

-Hã?

-Esquece. Apenas escute seu coração por alguns minutos e me de ideias do que quer fazer para trazê-la de volta pra você.

Olhei para o teto branco da casa, após os lustres, depois fitei o chão, pensando em maneiras de ela acreditar que tudo isso é real e que eu sou capaz de qualquer coisa para tê-la comigo. Ficou meio impossível pensar em algo que Lea realmente irá acreditar em mim, consequências de ter feito tanta merda a vida toda.

-E se eu pedir ajuda dos pais dela?

-Não rola… A mãe dela ama o Ric.

-Mas o Richard não sou eu! Ela me ama também. Eu também tenho pontos extras por eles me conhecerem há anos e por eu ter os trazido para o natal.

-Ama como o melhor amigo da Lea, não como namorado. Pelo menos porque nunca te viu como um pra ela. Não adianta subordina-los, Bruno. – Ela ri, como se soubesse um fim para essa situação e eu estivesse perdido ali, tentando descobrir.

-Meu Deus. - Reviro os olhos. - E se eu apenas falar pra ela? Dizer simplesmente tudo!

-Ela vai te achar um desestabilizado mental e aí sim desistirá de vez.

-Senhor! – Levanto as mãos e reviro meus olhos.

Tudo parecia mais fácil em livros, séries e filmes. Eu apenas poderia aparecer com rosas, pedir perdão, ajoelhando em sua frente e ela voltaria para os meus braços. Poderia montar uma serenata, cantar uma música linda e ter ela em meus braços minutos depois.

Fecho meus olhos e novamente não consigo ver uma saída. Se eu e ela somos realmente alma gêmeas, por que não da certo nunca?

Se eu escrevesse um álbum somente sobre ela e sobre tudo que eu amo nela? Se eu ultrapassasse os limites que tenho com redes sociais hoje em dia e postasse uma foto nossa, antiga, e me declarasse por ali mesmo?

Nada parece ser uma boa ideia.

-Por que está fazendo isso por mim? - Pergunto para Megan, que muda a feição do seu rosto e seus pensamentos parecem mergulhar para longe dali.

-Porque quero que ela se dê bem com o amor da vida dela, e você também. – Ela aponta pra mim. – Porque eu gostaria que alguém fosse assim por mim, gostaria de um romance de livros, de ser disputada, de amar e ser amada. As coisas são mais complexas quando falamos de romance, cara. Você nunca entenderia o que se passa na nossa cabeça.

Prontamente eu lembrei do que Caleb disse pra mim ao telefone, que estava voltando a pensar nela a cada instante. Mas ele não está pronto para ser um alguém ao lado dela, ele está pensando nela, mas pensando no tempo que ainda pode aproveitar ao lado de outras mulheres. Com certeza, Megan não precisa de alguém assim. O dia que Caleb resolver parar, ele pode ser cogitado a um par perfeito para a Meg. Um dia.

-Mas eu estou vivendo a minha vida do meu melhor jeito. As coisas acontecem com o tempo, sim?! Daqui a pouco chega o meu.

-Dê tempo ao tempo.

-Agora você tem que correr atrás do tempo! – Ela mexe em seus cabelos. – Só tem que pensar algum jeito de ela não correr de você.

03 de Janeiro de 2016

Eleanor Pov’s

-Tem certeza que está bem com isso? – Pergunta-me Bruno, pela décima vez.

-Absoluta. – Estendo as cobertas sobre a cama do quarto de hóspedes. – Não queria ficar sozinha em casa essa semana. Esse lance de TPM um dia me matará. Você é um dos únicos que sabe lidar comigo quando estou nesses dias infelizes.

-Ainda bem que não acontece sempre. – Nós rimos. – Eu nem tive tempo de agradecer por estar comigo na virada do ano. Sei que posso ter feito você desistir de algum outro convite.

-Na verdade não havia nenhum outro. – Dobro a calça do meu pijama. – Somente o de ir com Richard para o Texas, mas isso estava fora de cogitação.

-Ainda não falou pra ele?

-Não. Até meus pais irem embora, nós nem nos falamos direito. Ele estava meio estranho, agora parece que sempre está com medo de mim.

-Ele deve estar sobrecarregado com as coisas da faculdade. – Ele dá de ombros.

-Pode ser isso. – Eu também rola seus ombros e sento na ponta da cama. – Estou com dor no corpo todo.

-Ainda de Vegas?

-Não. – Eu rio, colocando as mãos nos seus quadris, pelas costas. – Isso é dor de parquinho com Lana Hernandez.

-Protagonista de várias dores minhas, também.

-Ela e o seu violão. – Nós rimos. – Falando nisso, o que há de novo?

-Nada. – Balança a cabeça ao sentar-me ao meu lado. – Não consegui escrever, nem tocar, nem nada. Minha cabeça está a mil. Sinto que minha inspiração está bem longe.

-Você vai recupera-la em breve. Só não deixe de tentar. Ainda anda com seu caderninho, sim?

-Claro! Nunca o largo. – Sorrio pra ele e sento um pouco mais ao seu lado. – Não queria parecer nostálgica, mas já parou pra pensar em tudo o que passamos? Olha quantos anos foram em um passo de mágica.

-Parece que foi ontem quando nos mudamos para a casa dos seus avós.

-E parece que foi hoje pela manhã quando você disse que Diana estava grávida. Lembra? – Eu rio e ele também, mas em seguida fecha a cara.

-E ela nunca mais apareceu.

-Você tinha esperanças que ela aparecesse? – Pergunto.

-Não. – Balançou a cabeça. – Mas várias vezes me perguntei se ela não vê alguma foto da Lea e se seu coração não balança com isso.

-Você que escolheu uma hipster para ser mãe da sua filha. – Rimos e eu me inclinei levemente pra trás. – Ela sabia o que queria, e não era ter uma filha. Ela só queria a liberdade dela, então ela lhe deu o que você queria e pegou pra ela o que sempre quis. E também ela era um problema.

-Era mesmo. – Ele balança a cabeça fazendo um barulho estranho. – Mas tudo acabou bem.

-Ainda bem! – Respiramos fundo e ficamos calados por um tempo.

-Vou deixar você arrumar suas coisas. – Ele levantou-se num pulo da cama que cheguei a me assustar. – Boa noite, Lea.

-Boa noite, Bruno.

O vejo sair e fechar a porta, então tomo a liberdade de tomar um banho e trocar minhas roupas por meu pijama quente e fofinho. Ligo o ar do quarto numa temperatura agradável, pego o controle da televisão e fico procurando algum canal para por. Acabo deixando em qualquer um e pegando meu celular para ver o que havia de bom por ali.

Desperto no susto quando meu celular caiu no chão de madrugada. O junto e ponho em cima da mesinha, aproveitando para desligar a televisão e voltar a dormir.

Sinto mãos em minha cintura e uma respiração afobada abafada em meu cangote. Tento me concentrar apenas em meu sono, deve ser um sonho, mas aquilo parecia real. Coloco a mão sobre a mão do meu quadril e ela não se esquiva, mas ela está ali. É real. Viro-me para o lado e ali está ele, como temi assim que toquei sua mão. Tapado até metade da sua barriga, deitado de lado virado pra mim, peito nu e um olhar penetrante.

-O que está fazendo aqui? – Pergunto.

-Shhh. – Ele coloca o dedo sobre a minha boca. Novamente, penso eu. – No meu pensamento você não dizia nada.

-Mas eu vou dizer. – Estou sussurrando. – Você deveria estar dormindo na sua cama.

-Eu sei. – Acenou. – Mas eu não consigo, porque a única coisa que aparece em minha mente é você.

-Bruno! – O repreendo.

-Antes que me tire daqui a pontapés, ou que brigue comigo, só deixe eu fazer uma coisa pra você mudar de ideia.

-Quê?

Seus lábios selam os meus. Sua língua aos poucos procura um verdadeiro lugar para estar, mas os meus estavam fechados, porém sem esforços eles se abriram e a língua que habita em minha boca pareceu gostar daquilo e deixou-se levar por um beijo. As mãos gordinhas foram parar em minha nuca, primeiro instalando-se tranquilamente, depois partindo para um dos meus pontos fracos. Ele segurou meu cabelo e o puxou, fazendo minha cabeça inclinar-se, beijou meu pescoço um pouco torto pela posição que estávamos.

-Diz que não quer desistir.

-Isso é errado.

-Eu não estou nem aí. – Ele responde, dando diversos selinhos em minha pele.

-Eu não quero desistir. – Respondo então, num ato de impulsão.

Aquela mão que puxava meu cabelo, desceu para minhas costas, puxando meu corpo para próximo do seu. Arrepiei-me da cabeça aos pés, sentindo aquela sintonia que nunca ficava velha. Passo as unhas por suas costas nuas e desço até a barra da sua calça de moletom. Brinco com ela, passando a mão por cima de sua bunda e mordendo suas orelhas, enquanto ele tenta beijar meu pescoço com mais força.

-Nada de marcas. – Resmungo baixinho.

-Só nós saberemos disso. – Ele responde.

-Esse é o nosso segredinho! – Sussurro novamente no seu ouvido e mordo a pontinha da sua orelha.

Seu corpo cola mais com o meu, sinto que em pouco tempo podemos nos fundir em apenas um. Gemo quando nossas pernas se entrelaçam e sua coxa roça no meio de minhas pernas.

Nem percebo quando ele sobe sob o meu corpo e apoia-se com as mãos nas laterais, deixando sua cintura grudada com a minha. Não consegui ouvir o que ele falou e nem tive tempo de perguntar, por que já senti sua boca novamente na minha e mexendo meu corpo pude sentir direitinho o volume dentro da sua calça. Desliguei-me de qualquer outro assunto e prestei atenção somente naquilo.

Com ajuda dele, tiro minha blusa e deixo com que ele lamba meu busto, procurando achar uma brecha para deixa-los amostra. Os tiro do bojo e ao mesmo tempo os aperto, passando o indicador e o polegar sobre o mamilo e o apertando em seguida. Eu queria que ele tivesse duas bocas aquela hora, só para poder sugar meus mamilos da mesma forma que estava sugando apenas um. Bruno intercalava e eu já estava desesperada por ter mais dele em mim.

Procuro um jeito de agarrar-me ao seu membro, e quando o acho, pulsante e duro, como achei que estaria, masturbo-o com minha mão.

Seu gemido se aguçou, ficou bem mais intenso. Isso só aumentou a minha vontade. Aos poucos vou abaixando minha calça do pijama com a calcinha junto, já sentia toda minha intimidade molhada. Nem tive tempo de passar a minha mão por ela, porque a dele já estava lá. Devagar, para me matar de vontade.

-Os dedos. – Pedi, segurando seu cabelo.

-Um dedo, só?

-Falei no plural. – Resmungo.

-Quantos?

-Bruno! – Serro minha boca para não gemer alto.

-Só vou por quando me falar quantos!

-Três! – Quase grito e ele sorri. Senti falta desse sorriso safado.

O ouvi dizer o quão eu estava molhadinha, me fazia ter mais prazer. Sentia uma bolha de gozo se formar dentro de mim, a qualquer momento eu poderia explodir.

-A camisinha! – Falo, quando encosto no seu membro, quase o levando para me penetrar.

-Você não tem por aqui?

-Não, eu não venho pronta para transar quando venho pra sua casa.

-Tem que começar a vir. – Ele dá um selinho em minha boca. – Eu vou lá buscar, mas quando voltar você irá estar arrependida.

-Não vou.

-Jura?

-Eu juro! – O puxo para beija-lo rapidamente. – Agora busca ela por que eu preciso gozar em você! – Digo no seu ouvido e ele dá aquele mesmo sorriso, saindo de cima de mim e puxando a calça pra cima.

Tiro a calça que estava nos meus pés e toco para o lado, junto da minha calcinha que estava embolada. Abro meu sutiã e o toco para o lado junto do resto e me tapo apenas com o lençol, separando-o da coberta.

Levo minha mão para minha intimidade e mexo enquanto ele não vem. Mas não durou muito, pois ele estava entrando na porta com duas camisinhas em sua mão.

-Você não desistiu?

-Quer que eu implore para me comer? – Ergo uma sobrancelha.

Ele sobe na cama sem perder o contato visual comigo. Dá um beijo nos meus lábios e arranca o lençol, tirando a mão da minha virilha e substituindo por um beijo no triangulo. Ele dizia sobre ali estar a felicidade dele, e a minha eu vi quando sua língua passou pelo meu grelo, fazendo-me arrepiar novamente e fechar os olhos com força.

-Não quero perder tempo com isso. Não agora. – Deposita um beijo e veste seu pênis com a camisinha. Sua calça é tocada para o mesmo lado da minha e ai ele sobe novamente, deixando seu pênis entre meus lábios e roçando neles num vai e vem maravilhoso.

-Quer me fazer gozar assim? – Pergunto.

-Quero te fazer gozar, não importa como.

Evitei me segurar, mas também não queria que aquele fosse o momento. Cravei minhas mãos em seus braços e ele ri, aumentando a velocidade, me matando de vontade para coloca-lo dentro de mim de uma vez.

-Não faz assim. – Resmungo baixinho, estridente. – Não é uma brincadeira legal quando só um se diverte. – Puxo seu cabelo e me distraio com seu riso.

Deixo minha boca em um “o” quando não estava esperando que ele fosse mesmo me penetrar. Mexia somente seu quadril num vai e vem, e aos poucos ia alojando todo ele dentro de mim. Eu lembrava de como ele era grosso e como de me dava prazer, é claro. E dizendo como mulher, é impossível não comparar. Pra ele eu sou um pouco mais apertada do que o normal.

Me viro, tentando não tira-lo de mim, mas foi em vão. Fico por cima dele e me inclino para sua frente, colocando-o em mim. Rebolo assim por alguns segundos e ele já pede para que eu fique com o corpo ereto porque quer ver aquilo. Cavalgo no seu colo, ora apertando meus peitos, ora passando a mão em sua barriga, mas sempre com o olhar penetrado no seu e às vezes fechando meus olhos com força para poder revira-los.

-Fica somente assim. – Pediu quando estava com todo ele enterrado em mim.

-Assim? – Pergunto, rebolando apenas.

-Assim. – Ele geme mais alto. – Preciso ver você de quatro.

-Ainda tem tara pela minha bunda? – Inclino-me sobre ele.

-Eu nunca vou perder.

Saio de cima dele e coloco o travesseiro em minha frente. Deixo meus cotovelos ali e empino minha bunda na sua direção. Bruno da um tapa forte nela e em seguido sinto seus dedos em minha vagina até ir ao buraco próximo.

-Já está pensando nisso?

-Sabe que é meu lugar preferido no mundo.

Pensei que ele fosse me penetrar ali mesmo. Sendo sincera, incomoda no inicio, antes até doía, mas sinto falta de uma coisa diferente. Ele foi o único por ali.

Ao penetrar-me novamente, usou toda a rapidez que conseguiu e todas as suas habilidades, até me fazer desabar na cama, enxergando estrelas em minha frente. Não pensei que gozaria nessa posição. E com meu corpo estirado de barriga para baixo, ele pôs seu pênis no meio das minhas nadegas e brincou por ali um tempo.

Entrou devagar e permaneceu assim por um tempo, até sua respiração ficar mais pesada e o gemido que dava para se ouvir. Ele estava chegando, estava bem próximo de gozar, isso não muda nunca.

-Lea. – Pôs a mão em minha cabeça e aí vi que ele estava liberando tudo o que podia dentro da camisinha, mas quando ainda estava dentro de mim.

Sorri, aliviada pela transa maravilhosa. Ele deitou-se ao meu lado e ficou olhando pro teto. Puxei o edredom e tapei um pouco do meu corpo, deixando minhas pernas de fora.

Nós nos olhamos e fixamos os olhares em nossas bocas. Nos beijamos com intensidade e suas mãos acariciaram meu cabelo. Demos boa noite e acho que dormimos daquele jeito mesmo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Capítulo 75


Depois do primeiro fora, fiquei traumatizado
FIco longe, mas você ainda chama minha atenção
Diga-me baby, você me reconhece
Bem, já faz um ano, não é de me surpreender
(Last Christmas - Wham!)

20 de Novembro de 2015

Eu estava cansada, minha cabeça parecia que iria explodir e ainda tinha que aguentar um discurso tediante do Richard, falando sobre seus pacientes. Ok, antes era legal eu saber como cada dia estava sendo, mas faz meses que ele está nisso e eu não aguento mais ouvir sobre massas, próteses, caries, gengivites, escovas de dente... Falando nisso, tenho até medo de escovar meus dentes perto dele e ele acabar me dando um intimado que eu estou fazendo errado, ou que me esqueci de passar o fio dental. Isso é desgastante, mas com sorte hoje ele não falará disso.

Passamos as duas últimas semanas com suas oscilações de humor, isso é estranho. Nunca vi homens, além do Bruno, mudarem tanto constantemente. Não é nada agressivo, nem brigas, nem nada, o mais estranho é isso: ele apenas muda de feliz para muito feliz, de agitado para meio nervoso. Parece criança quando queria contar algo para a mãe, mas acaba ficando com medo de levar uma surra ou um sermão.

-Alô? – Atendo ao meu celular.

-Olá. Como vai? – Bruno pergunta do outro lado da linha, a voz empolgada demais.

-Muito bem e você?

-Bem! Ótimo, na verdade. Está no trabalho?

-Estou indo pra casa, finalmente. Com dor de cabeça, querendo matar um.

-Não me mate, tenho uma filha pra criar!

-Pude ver você levantando as mãos com isso.

-Você me conhece tão bem. – Nós gargalhamos e eu presto atenção na rua que estava atravessando. – Sobre o natal. Não marque nada com ninguém, quero fazer algo grande aqui em casa. Ano passado foi apenas eu, Lana, Tiara, Geronimo e meu pai. Esse ano quero minha família e meus amigos aqui.

-Temos que compensar o feriado de ação de graças e o halloween que não tiveram nada na sua casa.

-Isso! Você pegou o espirito da coisa.

-Eu sou o espirito, Bruno. – Dou de ombros. – Já escreveu hoje? Tocou algo, produziu algo?

-Fui a uma reunião, chata e longa. – Engraçado é que eu consigo visualizar suas caretas enquanto fala. Rio sozinha. – Qual é, durou mais da metade do meu dia. Acredita que eles quiseram que eu fizesse um comercial de perfume?

-Você vai ter uma fragrância? – Pergunto, abrindo a boca. Havia visto ele no programa da Ellen, quando disse que não precisava de uma, aliás, ele estava muito engraçado e parecia muito bem naquele dia. – Eu nem posso acreditar.

-Hey, pare! Não vou fazer fragrância nenhuma. Eles queriam que eu tirasse umas fotos publicitárias para um perfume e publicar em algumas revistas, mas eu não quero.

-Essa foi a pauta da sua reunião que durou quase um dia? Garanto que você estava em cima do muro.

-Idiota. – Nós rimos novamente. – Havia várias pautas, essa é apenas uma delas.

-Quais eram as outras?

-Juro que gostaria de contar, mas ainda não posso. Você irá saber em breve. Em fim, irá vir para o natal, sim? Lana amou minha ideia e está ajudando a planejar uma festa bem legal.

-Essa menina não tem jeito. E você dá corda para as ideias malucas dela. Claro que vou.

-Que bom! E eu não dou corda, ela apenas tem uma imaginação grande e que precisa ser estimulada.

-Ah, com certeza.

Nós conversamos boa parte do caminho até em casa. Ele falou sobre suas músicas, sobre sua saga com elas e tudo mais. Estamos indo bem, digo, nossa amizade fortaleceu mais após o beijo no halloween. Conseguimos ficar mais fortes, coisa que achei que não iria mais acontecer, e quando nos beijamos pensei que iria ficar algo diferente, mas lidamos bem com isso.

E eu jurei que iria esquecer daquele beijo e não falar nada ao Richard. Aquilo era traição, mas aconteceu apenas uma vez e não irá mais acontecer. Ele não merece que eu faça isso com ele.

24 de Dezembro de 2015

A árvore já estava lotada de presentes. As crianças corriam pela casa, todos agasalhados e aquecidos com a lareira que estava acessa. O tempo lá fora não parecia dos melhores, mas a alegria aqui dentro contagiava tudo. O espirito natalino tinha voltado a minha mente esse ano, eu tinha motivos para comemorar agora.

-Mais um prato que está pronto! – Presley leva uma travessa de saladas para a sala de jantar.

-Você não deveria estar fazendo tanto esforço, querida. – Pete estava preocupado com ela.

-Papai, eu estou grávida. Isso não é doença.

-É que você é a caçula da turma, dê um tempo para o velhote! – Tiara meche com ele.

-Agora só falta você me dar um neto, Tiara. Quando isso vai acontecer?

-Nunca, papai. – Ele fica a olhando, incrédulo pela resposta tão dura e tão grosseira. – Brincadeira. Quem sabe um dia, sim? Você tem muitos netos para aproveitar... Agora terá mais a Selah!

-Mas preciso de mais, a fábrica nunca pode fechar.

-Daqui a pouco viram seus bisnetos, aí o senhor vai começar a se sentir velho e vai pedir para que seus netos não lhe chamem de avô! – Presley coloca a mão por cima do ombro dele, que ri e beija-a.

-Quando você vai me dar um neto, Lea?

-Eu? – Rio. – Não tão cedo. – Sabia que Bernie me considerava sua filha desde que comecei a ser melhor amiga do Bruno, mas nunca tinha ouvido nada parecido da boca do Pete.

-Outro neto por parte do Bruno, papai? – Tiara coloca a língua pra mim e eu coloco meu dedo médio pra ela. – Inclusive, daqui a pouco Richard chega por aí.

-Quem chega? – Bruno entra, com um largo sorriso no rosto e de banho tomado.

-Richard. – Respondo. – Ele está com algumas cois...

-Pensei que ele estivesse com sua família, no Texas. – Seu sorriso murcha e logo eu percebo que talvez ele não seja bem vindo por ali e que quando Bruno me convidou, não tocou no seu nome, mas pensei que ele estivesse englobado. Preciso me conter e ficar quieta para acabar não brigando com ele em pleno natal..

-Ele vai passar o primeiro do ano com eles.

-Você vai junto? – Perguntou, passando a se encontrar ao meu lado e falar mais baixo, já que não éramos mais o foco da atenção.

-Na verdade não. Estou sem planos.

-Vegas, o que acha? – Ele sorri novamente. – Eu terei um grande show, o que você já sabe, naquele mesmo hotel e tudo mais. Gostaria que estivesse por lá.

-Talvez em vá. – Sorrio. – Aliás, coloquei meus presentes embaixo da árvore. Se caso você não gostar do que comprei pra você, me diga sinceramente que eu troco. Estava com grande dúvida.

-Não se preocupe, eu vou amar. – Ele beija minha testa. – Seu presente eu não comprei. – Deixou seus lábios para o lado, com uma carinha de triste. – Acabou não dando tempo. Desculpe.

-Não precisa, tudo bem.

-Claro que precisa, eu sei como ama presentes.

-Eu amo, mas não são necessários. Nem se preocupe com isso. – Escoro minha cabeça em seu ombro. – Parabéns novamente pelo Super Bowl. Eu sei como você está se sentindo honrado.

-Honrado? Isso é pouco, eu estou há meses assim, desde o meu aniversário. Aquelas tardes em que sumia, aquelas reuniões, eu estava sempre ensaiando e conversando com a equipe. Quantas vezes tirei fotos com a Beyonce e com o Chris e queria te mostrar, mas não podia falar nada pra ninguém. Imagina o quanto isso é difícil?

-Difícil pra você que é um linguarudo. – Dou um soquinho em sua barriga. – Essa comida toda está mexendo com meu metabolismo e me dando uma fome muito grande.

-Poderia comer essa mesa toda.

-Adoraria. – Nós rimos.

Richard chegou uns três minutos após deixarmos a sala de jantar por estarmos com fome e aquela comida toda não estar ajudando. Bruno não pareceu nada confortável com ele lá, fez caras e bocas que não é de costume. O deixei conversando com Pete e fui atrás dele.

-Desculpe. – Torço meus lábios sem jeito. – Eu não sabia que não era para ele vir.

-Jura? – Ele me olha. – Desculpe. – Ele solta um ar pesado. – Estava planejando ser meus amigos e minha família, e nós sabemos que ele não é muito meu fã.

-Desculpe novamente.

-Tudo bem, Lea, sem problemas. Eu deveria estar ajeitando algumas coisas. E, Lea, seu presente está vindo, não se preocupe.

-Não precisa, Bruno. Depois nós discutimos sobre isso. – Faço ele rir e andamos para cômodos distintos.

Logo que chegara, Richard parecia extremamente animado. Pendurou-se ao lado de Lea e não saíra de lá até ela pedir licença, dizendo que ia resolver algo com as meninas.

Após isso, fiquei observando-o, vendo o quão deslocado ele estava no meio da minha sala de estar. Por mais que não goste dele, me senti quase que obrigado a lhe chamar a se juntar a nós, com um único movimento de mão.

- Estamos jogando poker. - Avisei. - Puxe uma cadeira aí, cara.

- Na verdade, eu vou procurar a Lea. - Ele deu um tapinha no ombro do meu pai, após dar uma olhada em suas cartas. - Vocês estão todos ferrados, pessoal.

Ric seguiu para a cozinha, e bastou se afastar um pouco para meu irmão começar a tagarelar sobre como ele não se esforçava para se misturar com a família da Lea. Eu sorri um pouco quando me dei conta que até mesmo ele considerava Lea parte da família.

- 1, 2, 3... Sorrisão! - Tiara estourava flashes em cima das crianças. Por trás dela, fiz uma careta para minha menina, que respondeu na mesma altura. - Lana, não pode dar língua!

- Foi o papai que começou!

- Entregando seu velho, L? - Invadi o espaço, pegando-a nos braços com certa dificuldade. Tiara bateu outra foto espontânea e apontou para que eu fosse para perto da grande árvore de natal.

Eleanor estava sentada no sofá, gargalhando com Eric. Richard ao seu lado, obviamente, mas parecia menos animado que mais cedo.

-Lea. Vem tirar uma foto de família! - Tiara chamou. - Aqui, perto da árvore.

Richard levantou junto com ela, mas voltou a se sentar ao ver quem estava perto da dita árvore. Eu. Lana. A foto de família que Tiara queria era nós três.

Lea aproximou-se de nós, meio desconfiada.

-Estão fazendo complô para irritar o Ric hoje? - Sussurrou para mim, entre um sorriso.

-Não faço a mínima ideia do que você está falando. - Dei uma pequena gargalhada e passei um braço por sua cintura, logo que Lana saiu correndo para perto de seus primos.

Tiara bateu outra foto.

Perto das onze horas, meu celular tocou, e eu não precisei olhar para saber quem era. Pedi licença, tirando o gorro de natal que minha filha tinha posto em minha cabeça e me afastei, indo para frente da casa.

Atendi e desliguei o telefone, mais animado que qualquer coisa.

-Bruno?

Dei um pulo.

-Que susto, Lea.

-Desculpa. - Ela riu. - O que está fazendo aqui fora?

-Pensando.

-Na vida? - Eleanor me empurrou de leve, com o quadril. - Você não me engana. Estava falando com a Mia?

-Não. Ciúmes?

-Não, também. - Encarou-me de lado. - Estava falando com quem, então?

-Estava pensando, Eleanor Winters. Por que tão curiosa?

-Não é curiosidade. Eu sei quando você está mentindo.

-Sabe?

-Sei. De cinco... - Ela abriu a mão no ar, bem na minha frente. Abaixou dois dedos. - As chances de você estar tentando me enrolar são três. O que é bem alto. - Riu. - Eu não compraria você, se fosse uma casa. Muitas chances de queda.

Coloquei minha mão na sua, os cinco dedos levantados.

-100% de certeza que eu não estava falando com Mia. Nem com mulher nenhuma, na verdade. - Fechei nossas mãos juntas. - Qualquer uma que me interesse hoje está aqui.

-Sei. - Ela riu. - Vou entrar. Ou já já Ric vem me procurar.

-Ele não saiu do seu pé hoje, saiu?

-Nem por um minuto. - Soltou uma pequena risada. - Mas não posso culpa-lo. Deixou de passar com a família dele, para passar com a nossa.

Sorri feito um idiota. "Nossa".

-O que foi? - Lea me perguntou.

-Nada. - Puxei-a pela mão e dei um beijo em sua bochecha. - Vai lá. Daqui a pouco eu vou.

Quando minha amiga se afastou, eu não pude deixar de ver quem nos observava pela janela. Encostado como quem não prestava atenção, Richard não parecia nem um pouco feliz. Eleanor chegou ao seu lado e ele fez questão de beija-lá com intensidade. Sabia que eu o tinha visto.

Assim como ele, fingi que não prestava atenção.

O carro que estava esperando estacionou em seguida na frente da minha porta, assim que permiti a entrada. Corri para abrir a porta e fui recebido com um abraço forte e que tinha a mesma essência do da sua filha.

-Ai está, o cara! – O pai dela desce do carro, do outro lado, com um largo sorriso no rosto.

Apertei a sua mão e logo já abrimos o porta malas para pegar as malas. Agradeci meu conhecido que os trouxe aqui e paguei o que lhe prometi.

-Não deveria deixar você pagar as coisas, já gastou demais conosco.

-Vocês merecem e ela também, não podem imaginar a felicidade que ela ficará.

-Eu posso imaginar, porque será a mesma que a minha. Estou suando de nervosismo, olha. – Mostrou sua mão que estava molhada de suor.

Entramos pela porta principal e ninguém nos percebeu no primeiro momento, apenas Geronimo, que correu para perto e começou a cheira-los. Deixamos as malas ao lado da porta e ao chegarmos na sala, pigarreei para chamar a atenção.

-Não! – Quando ela virou-se e os viu, soltou as mãos de Richard e pôs sobre sua boca. – Mentira! – Suas mãos tremiam e ela vinha em direção, com as lágrimas nos olhos.

Foi um abraço dos três no primeiro momento. Acho que ela desejou que tivesse mais braços ou braços maiores para poder abraça-los completamente. Sua mãe chorou, como ela disse que iria fazer, e Lea já estava virada em lágrimas. Seu pai tentou disfarçar um pouco, mas estava com os olhos vermelhos. Ouvimos alguns aplausos da minha família para eles.

-Esse é o melhor presente da noite! – Tiara gritou e eu não tirei o sorriso que estava no rosto. Fico contente de ter acertado.

Não perdi a oportunidade de olhar para Richard, que estava com um sorriso falso e não parecia a pessoa mais contente ali.

-Você é um idiota. – Lea me abraça de surpresa. – Eu amo você, muito obrigada por isso. Você é o melhor!

-De nada! Falei que seu presente estava chegando. – Nos embalamos no abraço.

-Esse está sendo meu melhor natal!

-E que daqui pra frente todos sejam assim. Sim?

-Sim. – E num forte e selado beijo, ela marcou minha bochecha, fazendo-me apertar os olhos.

-Acho que essa foi à foto mais fofa da noite. – Tiara gritou com a câmera em mãos.

-E com certeza eu postarei! – Lea falou, me soltando e indo para perto de seus pais. Ela merece e precisa aproveita-los.

π

26 de Dezembro de 2015

Umma chamou as duas mulheres que trabalham aqui em casa duas vezes por semana, para ganhar um extra limpando as coisas da festa, não queria que minhas irmãs ou qualquer outra pessoa se sobrecarregasse com esse serviço, já que foi um feriado agitado pra todos.

Me tranquei no estúdio por horas esperando que elas limpassem, assim eu também teria tempo de me concentrar nas minhas músicas. Lana estava aproveitando o tempo com os avós e Lea, e ficaria na casa dela por essas duas noites consecutivas e o mau tempo resolveu meus problemas, fazendo com que Mia ficasse presa em Nova Iorque, por que não tem voo pra cá com toda a tempestade que está a caminho por lá. Essa é minha brecha para ter paz.

Quando o celular começou a tocar, pensei em deixar tocando. Pode ser Mia querendo conversar e eu não estou com saco pra isso.

Novamente ele toca e eu me obrigo a ver quem estava me ligando.

-Uma pergunta pra você, que é homem como eu… Se eu estou sentado no sofá da minha sala, pensando numa mulher insistentemente, eu estou apaixonado por ela?

-Bom dia, Caleb. - Reviro os olhos. - A única mulher que eu penso quando estou sem fazer nada é a minha filha, e como você não tem filha, presumo que esteja apaixonado.

-Eu odeio você, era pra dizer que não.

-Megan?

-Com certeza. Essa mulher nasceu pra me deixar louco. Eu me aproximei dela novamente pensando no sexo, você sabe. Mas passou tanto tempo e eu dei tantas investidas, mas ela quer apenas minha amizade. Eu entrei nessa zona mesmo?

-Das duas, uma. Ou ela está fazendo um jogo com você, esperando que você implore mais por ela, ou ela está sendo sincera e você não terá mais chance.

-Por Deus, essa mulher bagunça minha vida desde a faculdade.

-Por que você separou dela? Aquela vez, há anos atrás?

-Por que ela foi minha primeira, e eu só tinha ficado com ela durante anos seguido, e eu queria mais. Queria experimentar. - Ele faz um barulho estranho, não quero nem saber o que significa. - Agora estou sentado no meu sofá, um dia após o natal, com uma longneck nas mãos e o controle da televisão, falando com você sobre sentimentos.

-Bom, você só vai saber o que ela quer com o tempo. Mulheres são complicadas de entender. Até hoje eu não entendo.

Depois que nós desligamos, atendi uma ligação do Mark. Passamos muito tempo conversando e nos primeiros minutos de conversa eu já noto a diferença entre ele e Caleb. Caleb não aproveitou antes e quer levar a vida assim, achando que nunca iria por seu coração no jogo, já Mark é bem feliz com a esposa, há anos. Ele não se importa em levar a vida somente com ela.

Ouço algumas batidas na porta do estúdio e peço que entrem.

-Com licença, senhor. - Apareceu Rosie na porta, uma das mulheres que limpa a casa. - Desculpe… Bruno!

-Com o tempo está aprendendo. - Faço a rir. - No que posso ajudar?

-Acabo de limpar um dos quartos de hóspedes e achei isso. - Ela estende uma linda caixa de anel, cor de creme, em suas mãos. - Achei que fosse importante, então estou lhe entregando.

-Ah, claro. - Dei uma ordem para por tudo que acharem fora, porque não achei que fossem achar nada muito valioso, já que a maioria das coisas pela casa eram papeis de embrulho, resíduos de coisas que as crianças esconderam provavelmente e etc. - Em qual dos quartos de hóspedes achou isso?

-Ao lado do quarto da Lana. - Ela responde, pondo a caixinha em minhas mãos.

Abro-a cuidadosamente. Lá está um ele, um anel lindo e brilhante, um pouco espalhafatoso, diria eu. Mas chegavam a doer meus olhos de tão brilhoso.

Era pra ser dela, eu sei disso. Deixei o quarto da Lea ao lado da Lana, pois sabia que ela gostaria de ficar próxima da minha filha. Ela dormiu lá com o Richard na noite de natal. Esse anel era pra estar no dedo dela, era por isso que Richard parecia tão frustrado naquela noite, porque ele queria propor ela em casamento.

Não mesmo, nem por cima do meu cadáver!

Amasso a caixinha em minhas mãos e percebo que Rosie ainda está ali.

-Pode deixar comigo, eu entrego ao dono. - Sorrio pra ela. - Muito obrigada, Rosie.

-De nada, Bruno. Com licença.

Ela dá as costas saindo do meu estúdio. Ponho a caixinha do anel sobre um dos pratos da bateria. Cruzo as baquetas em meu colo e fico observando aquela pequena caixinha. Como será que ele iria fazer o pedido? Seria algo apenas ele e ela no quarto? Seria algo mais público, em frente a minha família e nossos amigos? Será que ele estava pensando bem quando fez isso, ou será que ele se arrependeu e acabou deixando a caixinha aqui propositalmente?

Mas também há a opção dele ter pedido pra ela no quarto, bem particular, e ela não ter aceitado. Qual é, Lea não quer casar. Ou quer. Eu não sei. Mas sei que ela odiaria esse anel porque ele é grande e brilhoso demais. Ela amaria aqueles mais discretos, que são delicados e femininos.

Perco o tempo encarando aquela caixinha e pensando o que estava rolando na cabeça do Richard naquela noite.

-Com licença, Bruno! - Umma bate na porta. - As meninas terminaram o serviço. Quer dar uma olhada?

-Não, está tudo bem. Confio em você e nelas. Muito obrigada, Umma.

-De nada… A campainha está tocando, um minuto.

Nem prestei atenção direito no que ela falou. Levantei do banco da bateria e fui ao banheiro. Fiz minhas necessidades e voltei, Umma estava entrando no estúdio.

-O namorado da Eleanor está ai, disse que precisa falar com você. O que digo?

-Diga pra ele entrar, por favor.

Assim que ela sai, pego a caixinha e coloco dentro da gaveta da mesa. A fecho e sento na cadeira, pegando um caderninho e fingindo que estava fazendo algo.

-Knock, knock. - Ele mesmo faz o som da batida. - E aí, cara. Como está?

-E aí. - Bato em sua mão. - Bem e você?

-Bem. - Ele coça sua cabeça. - Foi legal passar o natal aqui com vocês, me diverti bastante. - Por instantes passou na minha mente várias imagens dele com cara de tédio a noite toda, mas tudo bem, foi uma bela mentira.

-Ainda bem que gostou. Fazia tempo que não passava um natal agitado assim.

-Faço ideia. Seu tempo é corrido.

-Sim, e o dos outros também. Sempre quando resolvia comemorar algo, eles já tinham outros planos. Era terrível.

-Acontece. - O silêncio se instala ali por segundos e logo já é quebrado por ele mesmo. - Eu vim hoje por um motivo meio engraçado, na verdade.

-É? E qual é? - Pergunto, lançando minha cara de bobo que não sabe de nada.

-Na noite do natal deixei uma coisa no quarto, dentro das gavetas… Alguém encontrou?

-Não sei… O que era?

-Uma caixinha com o anel da Lea… Eu iria pedir ela em casamento aquela noite. Como não deu, vou armar outra coisa.

-Opa. Parabéns. - Estico minha mão pra ele.

-Obrigada. - Ele me cumprimenta.

-Ela está aqui. Acharam hoje e eu até pensei que fosse da minha irmã, minha família que tem dessas coisas assim…

-Ah, que ótimo. - Ele pega na mão. - Muito obrigada, de verdade.

-De nada. - Sorrio.

-Você acha que ela vai gostar?

-Ela vai amar! - Mentira, ela vai odiar esse anel brilhoso cafona. Mas não vou entregar peixe algum. – Na verdade, é meio irônico.

-Como? – Ele estava prestando atenção nas coisas do estúdio, mas parou para me olhar.

-É que a Eleanor... Bem, não vou falar por ela. Mas você não tem porte pra casar com ela, cara.

-E quem é você pra falar disso?

-Ela já falou em casamento com você? – O questiono.

-Não, mas falamos sobre filhos...

-Não confunda sol com lua, Richard. Nós dois conhecemos e sabemos que a Eleanor não quer casamento agora, e vocês se conhecem há quanto tempo? Três ou dois anos? O que isso quer dizer?

-Bruno, eu não estou pedindo conselhos sobre meu noivado com ela.

-E eu não estou dando conselhos pra você, estou apenas falando coisas que sei. Quem avisa, amigo é. Sim?

-Você não é meu amigo. Aliás, você sempre deixou bem claro que não gosta de mim. Não sei o que pensa em falar de nós quando passou um ano sem ver a sua melhor amiga por causa da sua namorada. – Ele deu ênfase no “melhor amiga”, como se estivesse desenhando as aspas bem na minha frente.

-Você não é meu amigo mesmo, mas ela é. O que aconteceu antes, fica no passado. Nós estamos bem agora e eu conheço muito bem ela para saber que pedi-la em casamento agora não seria uma boa ideia.

-Pode dizer o que quer dizer, Bruno.

-Nada contra, mas você não tem cara de quem aceita ela com todas as bagagens que ela tem. Saiba que casando com você, Lea não deixará a Lana de lado, nem suas amigas, nem seus passeios, muito menos eu. – Queria soltar algo, alguma felpa sobre ele ser preconceituoso, mas assim ele saberia que Lea escutou a conversa dele com seus pais e isso afetaria muitas coisas, principalmente nossa amizade por eu estar falando o que não devia. Respirei fundo e sorri pra ele, amarelo.

-Isso é assunto meu, cara. Apenas mantenha distancia do nosso relacionamento, ok? E muito obrigada por devolver o anel.

-Ah, claro. Tudo bem. – Dou de ombros e o acompanho até a porta. – Eu coloquei um feitiço nesse anel, mas essas coisas são bobagens, sim? Acho que não tem nada de mal.

-O quê? – Eu gargalho da sua cara de espanto.

-Nada, cara. Vá com Deus. – Aceno pra ele, bem irônico e fecho a porta sem nem esperar.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Capítulo 74


Olá, anjo do meu pesadelo
A sombra no fundo do necrotério
A vítima menos suspeita na escuridão no vale
Podemos viver como Jack e Sally se quisermos
Onde você sempre pode me encontrar
Nós teremos o Dia das Bruxas no Natal
E na noite desejaremos que isto nunca acabe
Desejaremos que isto nunca acabe
Sinto sua falta, sinto sua falta
(I miss you – Blink 182)

Bruno Pov’s

A pressão que tinha sobre mim para lançar um single novo, para dar notícias sobre o álbum, pra fazer qualquer coisa relacionada à minha carreira, estava grande demais. Acho que isso que está me impedindo de ter uma criatividade melhor para escrever uma música, ter uma ideia para melodia diferente, para pensar em nomes... A pressão quando é demais chega a dar um nervosismo grande, uma ansiedade, e agora eu vivo em constante medo das pessoas estarem esperando algo grandioso de mim e eu não conseguir fazer nada muito bom. Tenho esse leve preconceito comigo mesmo, onde exijo que eu seja um pouco perfeccionista para não deixar rabo aos outros pisarem em cima. Preciso me concentrar e fazer um álbum digno de grammy, assim como foi o segundo. Uma música que emplaque e não saia da cabeça das pessoas, digna de grammy também. Quero algo bom!

Passei dois dias enterrado no estúdio, sem celular, sem notícias do mundo exterior. Apenas a procurar respostas para esse meu bloqueio. Nunca fiquei tanto tempo assim. Tenho músicas escritas, umas seis. Todas não tem finalidade, pois faltam algum pedacinho crucial, e eu não quero ter que encher elas de repetições só para coloca-las no álbum, quero coisas originais e legais.

Eu sou tão chato pra isso.

Philip ligou pra minha casa, ligou pra minha irmã, disse que eu não preciso me sobrecarregar dessa forma, que quando a criatividade vier, eu vou saber e estar preparado pra isso. Me lembra de quando mais novo eu andava com um caderno para cima e para baixo, onde quer que eu estivesse ele estava comigo, porque nunca sabia quando a criatividade fosse bater em minha porta, e muitas das minhas músicas foram feitas em momentos inusitados.

-Lana chegou! Vou servir o jantar. Venha! – Tiara falou, seguida de três batidas na porta.

-Um minuto.

-Um minuto nada, Bruno. Saia daí, pelo amor de Deus. – Ela bufa. – Tem bilhete da escola da sua filha, ela está com saudades suas. Para de dar uma de monge budista, que se isola de todos, e saia daí!

-Parece a mamãe falando.

-Às vezes eu incorporo ela. – Abro a porta dando de cara com ela, de cabelos presos e roupa para academia. – Fui buscar ela depois da minha corrida. – Ela dá de ombros.

-Foi correr sozinha?

-Hm. Vejamos, a Lea não foi hoje comigo, se é isso que quer saber. Ela teve uns problemas no serviço. Aliás, não é só você que tem problemas com serviço, viu só.

-Eu ouvi, Yara. – Seguimos pelo corredor.

-Papai. – Minha pequena, que já está quase do meu tamanho, corre em minha direção. –A escola deixou bilhete em minha agenda.

-O que você aprontou? – Pergunto, segurando a sua mão e indo na companhia das duas para a sala de jantar.

-Nada, eu juro. – Ela sorri. – É sobre o halloween.

-E ele está bem na nossa frente e nem preparamos nada. Você vai de capitão caverna, sim?

-Você vai ir de que? Olivia palito?

-Há. Há. Há. Como você está engraçadinho hoje, deveria ter te deixado preso naquele estúdio.

-Talvez eu tivesse criatividade. – Dou de ombros, sentando em meu lugar. Lana coloca sua agenda em minha frente e eu abro onde está marcada.

“ Loyola High School convida para a noite dos horrores! 

O Halloween nunca foi tão divertido quanto essa noite na escola. O projeto é criado por docentes e alunos do ginásio da escola e aberto aos familiares de alunos e alunos. Traga sua fantasia, seu espírito mais assustador e venha para a melhor noite do ano! 

O ingresso será um quilo de alimento não perecível para ser doado ao hospital de câncer infantil. 

Essa noite terá atrações, como:

- Casa do terror.
- Concurso de melhor fantasia para alunos.
- Concurso do casal com a melhor fantasia.
- Rei e rainha do terror!
- Comes e bebes horrendos para deixar tudo no clima.
- Presentes e sorteios.
- Dentre outros. 

Dia 31 de outubro, a partir das seis da tarde, na escola. Junte-se a nós!”

-Nós vamos, papai? – Lana pergunta quando termino de ler em voz alta.

-Claro que vamos! – Sorrio. – Vamos chamar a Lea para ir conosco, sim?

-Sim! – Ela levanta os braços. – Não sei que fantasia por!

-Vamos sair para comprar a sua fantasia, vou comprar a minha também e a Lea vai com a gente. Que tal? – Pergunto para Lana.

-Eu também quero ir. – Tiara reclamou. – Posso?

-Claro, tia.

-Temos que avisar a Lea.

-Tira uma foto e manda pra ela. – Digo.

-Boa ideia.


-Que papel é esse? – Mia se estica sobre o sofá até a mesa de centro e pega o papel da escola da Lana. – Halloween na escola da Lana. Interessante.

-Sim, demais.

-Concurso de melhor fantasia. Rei e rainha! Vamos ir, não é amor?

-Ah... Eu vou ir. – Dou de ombros.

-E eu também.

-Na verdade, eu vou com a Lana, Lea e Tiara.

-E eu, onde fico nisso? – Ela cruza seus braços na altura do peito.

-Tem tantas outras festas para ir no dia de halloween, Mia. Não irá chorar por causa de uma festa na escola da Lana.

-Ah claro, eu que sou sua namorada que procure outra festa pra ir, mas aquela mulherzinha que não é nada sua, que vá com você na festa da sua filha.

-Nossa filha! Ela é minha filha e filha dela também. Essa é uma festa para a Lana, nós vamos por ela, e é evidente que ela prefere estar com a mãe dela ao lado do que com qualquer outra pessoa.

-Mãe? Ah sim, mãe! – Ela gesticula as aspas.

-O que foi, hein, Mia?

-Desde que você voltou a falar com essa mulher tem colocado tudo sobre ela. É tudo com ela, tudo você conta pra ela, tudo você pergunta pra ela. Não sabe dar um passo sozinho, porque tem que saber o que a Eleanor vai achar disso. Estou errada? Porque é só isso que eu vejo acontecer nessa casa, Bruno. Eu estou farta de Eleanor!

-Não sei por que está se exaltando. Você sempre soube que ela é minha melhor amiga, e sempre soube que eu boto qualquer coisa abaixo dos meus amigos e da minha família.

-Eu sou sua amiga também!

-Não é! – Falo mais alto. – Não é, porque você só me procura para falar dos seus problemas, nunca me escuta e nunca quer saber como eu estou lidando com os meus. Passei dois dias sem dar notícias pra ninguém, sem meu celular, trancado dentro do estúdio e você não ligou nenhuma vez pra mim, Mia! Isso é amizade? Porque eu tenho uma concepção bem diferente desta palavra!

-Você nunca fala suas coisas pra mim, Bruno!

-Claro, você nunca deixa! – Me afasto um pouco dela. – Ou está falando do seu cabelo, ou de como suas amigas fúteis são bobas, ou de como gastou calorias correndo hoje. Até de como está sua pele você fala comigo, mas nunca me escuta. Nunca procura saber como foi meu dia. E quer que eu considere você minha amiga? Você é minha namorada, mas não minha companheira. Companheirismo não significa isso!

-Eu esqueci como você é sentimental. Parecendo uma menina!

-Essa é sua única defesa? – Rio. – Me poupe, Mia. Por favor.

-Você deveria agradecer por me ter ao seu lado, isso sim. Eu sou tudo o que os homens pedem, Bruno! Eu sou linda!

-Beleza não é tudo, Mia. Você é vazia por dentro, acha que só a beleza ajuda quando não tem um pingo de conhecimento.

-Você está achando que sou fútil, como minhas amigas?

-Estou dizendo que é, e acho que até pior.

-Pior? – Ela me olha incrédula.

-Me diga algo inteligente, alguma informação que não precisa saber, mas que você sabe porque algum dia você se informou sobre isso, estudou, leu... – Ela permanece calada, me olhando com a mesma cara de espanto. – Me diga quantos livros você leu esse ano, Mia?

-Diga quantos você leu?

-Se vocês querem discutir, beleza! Mas a Lana está tentando dormir para ir pra escola amanhã e eu também quero dormir! – Tiara apareceu, com o pijama amarrotado. – E você Bruno, leu mais matérias de jornais do que livros.

-Viu! Até a sua irmã sabe.

-Coisa que nem isso você faz, Mia! – Tiara vira de costas. – Valar readsomebooks.

Nós rimos, pois nossa piada era interna. Isso é de Game Of Thrones, coisa que eu e minha irmã assistimos, Lea e Megan também. Ela apenas caracterizou uma frase da série para o momento em que estávamos. Aproveitei a deixa para levantar do sofá.

-Sinta-se a vontade. – Gesticulo com a mão. – Vou dormir. Boa noite.

-Você não vai me deixar falando sozinha, Bruno!

-Ah, eu vou!

-Eu te odeio!

-Boa noite! – Grito de volta enquanto caminho para meu quarto.

Ao abrir a porta, olho para Tiara que está entrando no quarto dela. Balbucio um muito obrigada e ela sorri pra mim. Sempre essa coisa de parceiros em qualquer momento. Essa que é uma boa irmandade.

31 de Outubro de 2015

Eleanor Pov’s

-Eu me sinto um saco de batatas com isso! E está frio, por Deus. – Bruno reclamava da sua fantasia, um lindo vestido, inclusive.

-Você está de calça por baixo, e eu, com essa coisa decotada e curta, sem calças por baixo? – Aponto para meu vestido.

-Vocês acham que vão sentir frio? – Tiara chama nossa atenção para sua fantasia. Definitivamente, meu vestido era quase do tamanho dela. Nós sentiríamos frio e não eles.

-Eu estou incomodada com esse osso em minha cabeça, mas não estou reclamando. – Lana coloca a mão em cima dele, e fica pensativa por alguns segundos. Parecia uma adulta em conflito interno.

Eu não iria me fantasiar. Estava contente apenas com um chapéu de bruxa que usei ano passado e uma roupa qualquer para caracterizar. E então fui repreendida pelo Bruno, Lana e Tiara, com uma tarde no shopping procurando por fantasias. Nada os agradava. O que Lana queria, Tiara não gostava e Bruno achava sem criatividade. O que Tiara queria, Bruno achava feio e Lana batia o pé. Eu estava apenas como figurante lá, não queria opinar em nada para também não acabar sem amigo, já que a disputa estava grande.

Dois dias depois Tiara apareceu na minha casa com as fantasias em mãos. Mandamos para uma costureira porque finalmente havíamos entrado em um acordo e não iríamos mudar por nada. Experimentamos diversas vezes até Bruno dizer que estávamos legais. E aqui estamos, vestidos de Os Flintstones para o halloween na escola da Lana.

Dirigimos até lá e quando arranjamos um lugar no estacionamento, vimos o pessoal chegando ao jardim da escola. Havia tantas fantasias que dava pra claramente se perder por ali. Eram bruxas, zumbis, vampiros e tudo mais o que dá para se imaginar. Esse pessoal tem uma criatividade fora de série.

-Olha pai, é a Khaleesi! – Lana apontou para uma menina de vestido longo e azul.

-Amor, eu creio que essa seria aquela princesa. – Ele olha para nós. – Como é a princesa loira do gelo?

-Elsa? – Respondo.

-Sim. Elsa, filha. Eu acho que é ela.

-Parece a Khaleesi. – Ela dá de ombros.

-Desde quando ela assiste Game Of Thrones? – Pergunto para Tiara.

-Eu também fiquei curiosa.

-Não sei se ela assiste, mas ela tem um tablet, conexão com a internet e colegas na escola. – Ele dá de ombros. – Ela está há mil anos luz a frente de nós, garotas.

Nós demos nossa entrada e já fomos muito bem recepcionados por gladiadores que nos guiaram, falando os horários de atrações e shows de alunos e mostrando onde eram os lugares que podíamos ir.

Lana acabou nos guiando pela escola, mostrando onde era cada lugar em que podíamos ir.

Acabamos por entrar na casa dos horrores. Dois monstros estavam na porta e tinha uma fila de vinte pessoas, por aí, entravam dez por vez. Ouvimos os gritos das pessoas que estavam lá dentro e Lana já ficou mais ansiosa por entrar de uma vez.

Uma menina de camisa branca que tapava até metade de suas coxas, manchada de sangue de mentira, com seus cabelos pretos a frente do seu rosto e uma faca fake em mãos, veio até a porta e chamou a próxima leva de pessoas, onde estávamos incluídos. Ao entrarmos, disseram que havia regras. Não podíamos correr lá dentro, gritar era permitido. Nada de fotos e vídeos e nem tocar nas criaturas. O discurso era sobre dez demônios que foram soltos na Terra na época dos escravos e que estavam presos em caixas douradas, que pessoas curiosas abriram e os libertaram novamente.

Eu gritei, Tiara gritou, Lana gritou e Bruno estava dizendo que era bobagem. Até entrarmos em um dos repartimentos, ficar absolutamente tudo escuro e começarmos a ouvir risadas de crianças. Uma cama cai da parede e uma luz é ligada nela, com uma mulher exorcizada em cima. Tapei os olhos de Lana que parecia nem se importar com aquilo, e foi ai que Bruno se assustou e gritou. Eu só consegui rir e perguntar onde estava o macho que estava ali minutos atrás.

Aproveitamos mais algumas atrações da festa. Comemos algumas coisas que pareciam nojentas, tomamos um ponche cor de sangue e sabor de framboesa. Haviam ovos cozidos e partidos ao meio, com aranhas feitas de azeitonas por cima.

Estava impressionada com tamanha festa que eles haviam preparado, com tamanho esforço que os alunos estavam dando. Doamos dinheiro para ajudar no baile de formatura das turmas finais e descansamos um pouco.

-Posso tirar uma foto da família? – Chegaram dois meninos, um com uma câmera e vestido de Frankenstein e outro com os equipamentos de auxilio, com a roupa de um doutor.

-Claro. – Respondemos nos ajeitando para posar.

-E uma só da Pedrita, podemos? – Perguntaram novamente.

-Sim. – Bruno disse e ela prontamente se ajeitou sozinha.

-Se não for incomodo, posso tirar uma do casal? – O cara de Frankenstein pergunta.

-Nós não... – Eu iria terminar de falar quando Bruno me interrompe.

-Com certeza. – Laça minha cintura de lado e sorri para a foto. – Mostre seu instrumento, Wilma. – Ele diz entre seu sorriso.

-Nós não somos... – Novamente, ele me interrompe.

-Estão ficando perfeitas.

Quase nem percebo quando Bruno rouba-me um selinho em frente aquela câmera. Fico estática, olhando para a câmera e sem reação. Não consigo nem sair da mesma pose que estava.

-Podemos publicar essas fotos no jornal da escola? – Não ouço o que Bruno responde. – Apenas preciso que assinem aqui. Você é responsável por ela, então assine aqui também. É apenas um direito de imagem, para não dar futuros problemas.

Assinamos o papel e eles saíram. Então tudo voltou ao normal, pra eles. Eu ainda estava sem saber exatamente o que aconteceu e o porque daquele beijo. Ok, não foi um grande beijo, foi apenas um selinho, coisa que dou até em meus pais, mas... Eu não conseguia digerir aquilo.

Nós fomos até o centro do evento onde eles anunciariam as fantasias vencedoras do concurso e o rei e rainha do halloween. Como melhor fantasia de alunos ganhou um representante masculino e uma feminina, ambos estavam incrivelmente lindos. Como rei e rainha ganhou um casal que estava de caveira mexicana. Acho que ganharam pela maquiagem, porque estava perfeita! E na categoria de casal com a melhor fantasia...

-Chamamos em terceiro lugar, o casal vestido de The Purge, números 62 e 63! – Nós aplaudimos o casal que seguiu até o palco. – Casal número dois foi, vocês, Os Flintstones! Venham cá número 48 e 50! – Olhei para o Bruno e ele me olhou com um sorriso grande no rosto, pegou minha mão e saímos andando.

-Eu queria ter ganhado o primeiro lugar, como rei, mas segundo está bom, não está, Lea?

-Eu pensei que não ganharíamos nada. Nem sabia que estávamos concorrendo. – Disse ao subir as escadas.

-Eu coloquei nossos nomes na entrada. Agradeça-me depois.

-Bruno! – Bufo. Observo as pessoas, uma multidão delas. Uma moça, curiosamente vestida de enfermeira, entrega-me uma rosa e ao Bruno uma tulipa. Colocaram as faixas em nós enquanto anunciavam os vencedores do primeiro lugar. Nunca senti tanta vergonha em minha vida desde que cai na escada da escola!

Descemos do palco depois de algumas fotos e quando a música começou a rolar novamente.

-Meus pais são os príncipes desse lugar! – Lana abre os braços para nos abraçar.

-Seu pai aprontou pra mim. – Balanço a cabeça.

-De nada, mano. – Tiara bate na mão dele.

-Você está metida nisso, Tiara?

-Claro! Precisava assinar o papel, eu me passei por você! Não me mate, você está linda como princesa.

-Se a rosa não fosse tão bonita e cheirosa, eu bateria em vocês com ela. Eles não prestam Lana.

-Foi bom, mamãe. – Ela ri.

Aproveitamos a festa um pouco mais e logo fomos embora. Bruno parava para todo as crianças que estavam andando juntas pela rua e distribuía os doces que havia comprado. Eles decidiram por mim que eu iria dormir na casa do Bruno, concordei em assistirmos filmes de terror de noite e comermos pipoca.

O dia valeu a pena e com certeza esse final de semana ficará em minha cabeça pra sempre.

Pedimos pizza para o jantar e a comemos assistindo um filme de zumbis. Sabíamos que Lana não aguentaria muito tempo, então Bruno a levou para o quarto. Quando ele voltou, fizemos pipoca e colocamos mais um filme. Acho que todos estavam caindo de sono no meio do filme, até Tiara dizer que iria dormir.

-Boa noite. – Ela deu um beijo em minha testa.

-Vai continuar assistindo? – Ele perguntou com o controle em mãos.

-Sou forte. – Nós rimos. – Quer ir dormir?

-Não, eu estou tranquilo. – Ele dá de ombros.

-Ok.

O filme acabou pior do que imaginamos e no fim estávamos falando sobre os filmes idiotas que andam produzindo ultimamente. Parece que a criatividade dos roteiristas não é mais a mesma, porque todos os filmes são clichês, e se eles fogem dos clichês, eles ficam parados e dá sono. É sempre a mesma coisa.

Fomos para a cozinha reclamando. Lavamos o que tinha sujo e ele apagou a luz.

-Agora sim, está tudo escuro. – Ele ri.

-Me lembra daquela casa do horror, em que você ficou se cagando de medo.

-O quê? Eu? Você está equivocada.

-Aham, eu estou equivocada. – Nós rimos. – O dia foi maravilhoso e confesso que a festa da escola da Lana foi melhor do que eu imaginava.

-Eu estava com boas expectativas para a festa.

-É?

-Sim.

Ficamos calados.

-E quanto a noite também?

-Hã... Por quê?

-Porque algo me dizia que iria ser boa!

-E foi só os filmes que não ajudaram. – O faço rir e ele se aproxima. A luz da rua que ilumina a casa. – Bruno?

-Oi?

-Sobre hoje...

-Shhh... – Seu indicador paira sobre a minha boca e sua outra mão puxa-me pela cintura ao encontro do seu corpo.

Seus olhos penetraram nos meus como há tempos atrás ele fazia, aquela faísca foi posta em palha seca, nós arderíamos em fogo. Quando olho em seus olhos, meu mundo se dispersa e eu esqueço qualquer coisa.

É errado admitir isso e pensar nisso, mas talvez esse seja um dos momentos mais aguardados por mim. O momento em que eu me entregaria, porque eu sabia que isso chegaria, por mais errado que seja, eu sou humana e eu tenho sentimentos, sejam bons ou ruins, eu os tenho. Eu sabia e não estava fazendo nada para evitar isso.

-Eu vou beijar você, como eu quero há tempos e não posso. – Seu rosto se aproximou mais ainda. Estávamos estrábicos de olharmos para a boca um do outro.

Seus lábios encostaram-se aos meus, senti aquela mesma coisa de adolescente quando beija pela primeira vez, a mesma sensação de quando beijei Kai, de que o mundo poderia acabar ali que nada mais importaria. Porém, uma dor de leve em meu peito me fez despertar e abrir meus olhos rapidamente. Deixei de corresponder o beijo e ele entendeu o recado.

-Pensei que eu tinha liberdade para fazer isso.

-E tem. – Balanço a cabeça rapidamente, sem saber o que estava falando. – Quer dizer, não tem. Isso... – Gaguejo. – Isso é mais que errado. – Respiro fundo.

-Não é errado quando duas pessoas querem. – Segurou minha mão.

-É errado quando se tem mais pessoas na jogada. Você não iria gostar de magoar a Mia, sim?

-Ela não me interessa. – Ele esfrega a outra mão no rosto e eu me desvencilho da sua.

Dou dois passos para o lado e paro. Passo a mão nas laterais do meu vestido e respiro fundo. Sinto meu peito estranho por dentro e olhar para ele ficou pesado pra mim! Minhas mãos suam e estão trêmulas. Ele encosta-se a meu ombro e eu vacilo ao continuar andando.

-Lea...- Meu coração se aperta. -Eu vou consertar tudo isso, eu prometo. Será apenas eu e você.

-Não há o que consertar Bruno.

-Sim, há! Nós dois. Sabemos que nunca foi um fim e nunca será.

-Pare de mexer comigo, por favor. Você não sabe o que isso faz em minha.

-Me conserte! – Respirou fundo. – Me leve pra casa e me tome como seu.

-Boa noite, Bruno! – Sorrio pra ele e vou em direção do quarto, esbarrando na primeira coisa que vejo pela frente.