sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Capítulo 82


E eu nunca me importei de estar sozinha
Então, algo rompeu em mim
E eu queria ir para casa
Para estar onde você está
Mas ainda mais perto de você
Você parece tão longe
(Wish that you were here – Florence + The Machine)



14 de Agosto de 2016

O plano, desde o inicio, era fazer o chá de fralda surpresa, onde somente no chá ela saberia o sexo. Estava tudo dando muito certo, muito mesmo, nós todos sabíamos o que era, menos ela e o Phil. Até que Urbana começou a ter surtos, dizendo para nós falarmos o sexo porque a curiosidade estava consumindo ela aos poucos. A torturamos por mais uma semana, até que ela disse que iria fazer outra eco sozinha só para saber o sexo, então fomos obrigados a falar.

Era um lindo garoto.

Ela estava mais do que feliz, dois casais de filhos. Phil estava com o sorriso de orelha a orelha, falando sempre em como vai ensinar as coisas para seu filho e que vai fazer ele ser o melhor amigo dos seus irmãos e etc. Resumindo, tudo estava uma loucura por causa do bebezinho.

E ainda faltavam dois meses para o chá de fralda.

Estávamos organizando aos poucos, cada um encarregado de uma tarefa diferente. Eu estava com a decoração, Megan pegou as brincadeiras, então nós duas nos unimos para fazer algo compilado. Estou roendo as unhas de ansiedade para a festa chegar de uma vez.

Em compensação, eu voltei para o meu apartamento. Não consegui alugar ele, e o tempo que eu precisava já passou, então voltei pra ele, mas aos finais de semana vou para a casa do Bruno.

Aliás, ele está numa correria tremenda com seu CD. Ele já está praticamente pronto, mas ele ainda anda fazendo uns mistérios sobre como será o CD por completo.

Bruno diz que quer lançar seu primeiro single um dia antes do seu aniversário, mas ele já fechou um show em Connecticut, então ainda está pensando sobre o que fazer.

Estamos montando um calendário. Se ele apresentar a música no dia sete de outubro, dia oito e nove ele terá shows e no próximo final de semana será o chá de fralda, até que tudo dá certo, mas tudo depende dele e da gravadora.

-Lana, já está pronta? – Pergunto, puxando a bolsa para meu ombro.

-Só vou escovar os dentes. – Ela grita.

-Não demora, não podemos perder o horário.

Há umas três semanas atrás, Lana reclamou de dor de cabeça por uns quatro dias seguidos. Nós a levamos no pediatra e ele disse que ela precisaria fazer uns exames, mas neles não apontaram nada, então ele a encaminhou para um oftalmologista, acha que o problema possa ser de visão.

- O papai não ia conosco?

-Seu pai está trancado no estúdio. – Abro a porta do carro. – Acho que ele nem sabe o que é a luz do dia.

-Ele me mostrou apenas duas músicas do CD.

-Que ótimo. Como estão?

-Muito boas. – Ela diz. – Mas você não ouviu, mamãe?

-Não... – Estalo os dedos. – Ele não me mostrou nada desse CD.

-Acho que ele quer uma surpresa. – Ela dá de ombros. – Tanto que eu só vi duas, e uma delas ele ainda nem sabia se ia pro CD ou não.

-Que suspense. – Me impressiono.

Chegamos exatos cinco minutos atrasados para a consulta. Lana fez alguns testes e depois conversou com o médico, e eu acompanhando tudo. Ele disse sobre as dores de cabeça que são sim decorrentes dos olhos. Não que ela tenha problemas, mas ela os força demais e com isso ela precisa de óculos para descanso e leitura, assim livrando das dores de cabeça.

Tudo foi resolvido, além da parte que teríamos que ir na ótica resolver esse probleminha.

-Eu não quero usar óculos.

-Mas, amor, você não vai usar óculos diariamente e em toda a hora, é apenas quando vai ler algo, usar o computador, pra não forçar seus olhos.

-Mas é feio. – Ela revira seus olhos.

-Feio é você ficar pensando na estética, forçando os olhos e daqui a pouco ter que usar óculos toda a hora porque se estragou.

-As meninas da escola não usam óculos. É feio.

-Lana. Você nunca foi assim.

-Eu não quero ficar feia na escola.

-Ih, o que tem demais nisso? – Perguntei e ela permaneceu calada. Na hora eu percebi o que havia de errado. – Qual é o nome dele?

-De quem?

-Do menino que você acha bonito.

-Mãe! – Ela ri.

-Ele é da mesma classe que você?

-Não...

-Mais velho, mais novo?

-Ele tem a mesma idade. Fazemos ciências juntos.

-Lana...

-Não fale para o papai, ele vai ficar brabo.

-Que nada, meu amor. Isso é lindo. – Coloco seu cabelo pra trás da orelha. – Sua mãe quando tinha oito anos também se apaixonou pela primeira vez, isso acontece.

-Mas ele não sabe que eu existo.

-Ou ele sabe e é tímido. Ou apenas precisam se conhecer. Qual o nome dele?

-Dylan.

-Nome bonito. – Sorrio. – Você tem oito anos, é normal ter a primeira paixão de escola. Em seguida vem o primeiro beijo, depois o primeiro namorado, e por ai vai. Não precisa ter vergonha, meu bem, você está crescendo e isso é lindo.

-É por isso que eu não quero usar óculos. Ele vai achar feio.

-E dai se ele achar feio? – Balanço a cabeça. – Você tem que saber desde agora que as pessoas precisam gostar de você do jeito que você é. Se ele achar bonita sem óculos e com achar feia, sinto muito, ele não será homem pra você. Lana, você não precisa agradar ninguém.

-Eu sei, mãe...

-Então! E além do mais, você vai ficar linda de óculos, vamos achar um bem legal pra você. Ok?

-Tá...

-Quero mais animação! Vamos achar um óculos bem bonito?

-Simmm. – Ela me abraçou.

Me senti feliz, minha pequena estava crescendo e eu podia jurar que ontem mesmo eu estava trocando suas fraldas, que antes de ontem a gente acordada cada minuto da madrugada pra checar se ela estava bem quando não estava chorando.

Parece que num piscar de olhos minha pequena se tornou grande. E é ai que eu percebo que em pouco tempo terei que ter mais conversas com ela, que terei que ensinar o uso do absorvente, falar sobre seus peitos que estão crescendo, sobre os pelos pubianos, sobre relações sexuais e métodos contraceptivos.

Falar disso com o Bruno que não será tarefa fácil. Ele ama tanto sua garotinha que não irá aceitar tão fácil que ela está crescendo e daqui a instantes irá fazer a sua vida. Ele não entenderá muito bem que ela não será só a sua garotinha, ele terá ciúmes, eu terei ciúmes...

π

Como eram mais de onze da noite e Bruno ainda não havia chego, resolvi ficar na casa dele mesmo. Pus Lana na cama no horário além do que deveria e ajeitei algumas coisas. O verão está se encaminhando para o final, isso me mata.

Sentei na varanda dos fundos e continuei conversando com as meninas através do nosso grupo. Tiara foi para o Havaí, ficará lá até uma semana antes do seu aniversário. Urbana está completamente atarefada com suas roupas e agora com mais um bebê. Megan não estava fazendo nada, apenas em casa procrastinando como eu.

Me despedi delas como se fosse ir dormir e abri meu netflix, precisava assistir algo pra ver se o sono vinha.

Estava tão dispersa assistindo House Of Cards que levei um susto quando o celular começa a vibrar.

Eu não tinha aquele número salvo, mas resolvi atender.

-Alô? – Saudei ao atender.

-Oi. – A palpitação do meu coração acelerou quando ouvi sua voz. – Sou eu, Richard.

-Oi... Bem, eu sei. – Dei um riso nasalar. – Como você está?

-Estou bem. – Ouve uns dez segundos de silêncio e eu pude ouvir sua respiração como se ele estivesse bem ao meu lado. – E você?

-Estou bem também.

-Você deve estar se perguntando porque eu estou ligando, não é? – Ele ri. O peito aperta de leve com a saudade de sua gargalhada.

-Um pouco, confesso.

-Consegui passar para as provas finais. Passei em meu estágio. Só falta as provas e apresentar meu trabalho. – Richard solta um ar pesado de seu peito, parecia ter se aliviado de algo. – Eu precisava compartilhar isso com você, precisava que você soubesse.

-Nossa! Isso é muito bom, é bom demais. – Sorrio. – Você merece. Parabéns.

-Obrigada.

-Agora é se puxar para passar nas provas finais. Mas tudo dará certo. Você vai conseguir.

-Obrigada. De verdade. Você foi a pessoa que mais me incentivou desde o inicio.

-E que tipo de monstro seria eu se não te incentivasse? – Nós rimos.

-Como estão as coisas?

-Ah. – Dou um suspiro longo. – Estão bem. Estão modificando algumas coisas no serviço, acho que será bom. No mais, não tem nada de muito interessante.

-Sério? Podia jurar que sua vida estava badalada.

Solto uma gargalhada alta.

-Não, nenhum pouco. Mas eu serei madrinha! Yay. – Falo animada. – Urbana está grávida!

-Sério? Que maravilha, nossa! Parabéns.

-Obrigada. – Respondo. – E como estão por ai?

-Você sabe. Cara nos livros dia e noite, alguns trabalhos, nada demais.

-E as festas?

-Não estou saindo muito. Pra ser sincero fui em duas ou três nesse tempo.

-Parece comigo então. – Nós rimos.

-Faz tempo que não nos falávamos. Eu...

-Você?

-Eu estava com saudades!

Aquilo atingiu meu peito feito estaca. Eu também estava com saudades dele. Não saudades de ficar com ele como namorado, não saudades das coisas ruins, mas dos momentos maravilhosos que tivemos juntos. Eu prometi que teria apenas boas lembranças e são dessas que eu sinto mais saudades.

-Eu também. Foram quatro meses quase sem nos falar.

-Pois é. Eu teria ligado antes, mas eu estava com medo.

-Medo?

-É, de você não atender, sei lá.

-Mas esse número é novo?

-Não...

Aquele foi um dos momentos mais constrangedores da minha vida e talvez um dos mais esclarecedores. Tiara e Megan haviam deletado os números dele do meu celular, e-mails e mensagens, logo depois que nós rompemos. Eu sabia de cor, mas agora eu nem reconheci o número. Eu superei qualquer coisa que o envolva.

Solto o ar do meu corpo.

-Onde está morando?

-Estou com o Sam num apartamento. Não é na capital, estamos na praia.

-Nossa, que chique!

-Chique? – Ele riu. – Ele consegue ser mais bagunceiro que eu. Não lembrava disso.

-Faz parte. Você também não era tão organizado assim.

-Ah, eu era sim. Você lembra da minha casa que era mais uma garagem lá em Nova Iorque, não lembra?

-Claro que eu lembro. É, boas lembranças.

-Ótimas. – Eu pude vê-lo sorrindo. – Eu encontrei sua irmã esses tempos.

-Sério? Nem eu vi minha irmã nos últimos tempos. – Falar essa frase em voz alta me fez ver que eu estava muito desnaturada com minha família, que precisava me ligar mais a eles. Ligava para minha mãe e meu pai de dois em dois dias e sempre mandava mensagens, mas com a minha irmã não era nada assim. – Onde ela estava?

-Em Nova Iorque. Ela estava com o marido dela.

-Ele ia abrir negócios por lá. Já deve ter aberto.

-Procure ela, Lea. É bom.

-Eu sei... E você, Richard, como está com a sua família?

Bruno Pov’s

Cheguei em casa querendo ver apenas minha cama e nada mais. Estava precisando de um tempo em meu quarto, descansando. O pior disso tudo é que nem consegui ver minha filha desde ontem à noite, isso vai me matando por dentro.

Mas essa foi a vida que eu escolhi, foi a vida que eu quis viver, eu saberia que não seria fácil passar tempos longes, mas eu amo fazer isso assim como amo minha família. Para tudo na vida há sacrifícios.

Tomei um copo de água na cozinha e vi que a luz da varanda estava ligada. Lea estava sentada na cadeira de balanço que dava para o jardim. Ela ria de algo no telefone, falando com alguém. Me aproximei para dar um susto nela e assim também dar um boa noite, já que meus olhos estavam se fechando sozinhos.

Abri a porta de leve, pronto para dar um grito, quando escuto ela falar o nome dele dando uma gargalhada logo depois.

Richard!

Eles pareciam estar numa bela conversa ali, empolgados demais. Reviro meus olhos. Eleanor não tinha nem notado que eu estava ali, a conversa realmente estava tão boa?

-Quando você terminar a faculdade, temos que comemorar. – Ela dizia. – Isso, parece ótimo. – Seu sorriso se abriu. – Pois é, eu vou cuidar disso. Quero que seja bem especial. – Desviei o olhar do seu rosto. Escorei-me na porta e beberiquei meu copo de água. O sono parecia até ter passado. – Ainda temos tempo pra vermos isso. – Ela ri. – Não seja exagerado, temos muito tempo.

Claro, como eu posso ser tão idiota? Ela ainda gosta dele. Obviamente esse assunto é sobre se ver, assumir o namoro novamente e etc. Eu sou um burro, idiota. É por isso que Eleanor não anda me dando bola, é por isso que ela resolveu ser minha amiga e apenas isso. É óbvio que é por isso.

Entro pra casa, largo o copo sobre a bancada e vou pra sala. Ligo a televisão e começo a mexer em meu celular. Qualquer coisa que me faça tirar aquela conversa da cabeça.

-Hey. – Ouço sua voz. – Não sabia que havia chego. – Ela senta ao meu lado, deposita um beijo em minha bochecha. – Percebi o copo na bancada apenas...

-Ah. – Finjo desinteresse.

-Já vi que não está pra conversa. O que houve? Algo com o álbum?

-Não. O álbum é a única coisa que está dando certo.

-Como assim? – Ela pergunta, franzindo a testa.

-Quando planeja me falar? – Olho em seus olhos e ela parece completamente perdida.

-Falar o que, Bruno?

-Suas façanhas! Não me importo mesmo que você esteja fazendo papel de otária novamente. Mas agora não me carregue junto.

-Isso não está fazendo sentido, percebeu né?

-Pra mim tá.

-Do que você está falando, Bruno? – Ela levanta suas mãos, me olha como se não estivesse entendendo nada. No fundo ela está entendendo tudo, eu sei.

-Nada, Lea. – Estico-me para pegar o controle. Desligo a televisão. – Eu vou dormir.

-Ah, você não vai. – Ela segura meu braço. – O que eu fiz?

-Não fez nada, Lea! – Puxo meu braço de volta. – Que saco.

-Bruno. – Ela respira fundo, põe as mãos na cabeça. – Vai lá, vai dormir. Amanhã talvez acorde com o humor melhor e me explique.

-Não tem nada pra te explicar. – Altero minha voz sem querer. – É você quem deveria estar me explicando as coisas, Lea. É você!

-Se você me disser o assunto, eu explico. O que foi? – Eleanor se aproxima, colocando a mão sobre meu ombro.

-Quando irá me dizer que voltou com o Richard?

-Que? – Ela começa a rir. – Eu não voltei com ele.

-Eu ouvi... Eu sei que não deveria, mas eu queria fazer uma surpresa pra você e lá estava aqueles papos melosos de sempre.

-Quanto tempo você ouviu de conversa?

-O suficiente.

-Bruno... – Ela começa a rir. – Eu sei que não deveria estar me explicando. Mas eu não voltei com ele.

-Não?

-Não.

-Mas vai voltar. – Suspiro. – Você ainda tem aquele olhar brilhante quando fala com ele. – Fecho meus olhos. – Eu vou dormir.

-Bruno?

-Boa noite, Eleanor.

Caminho para o quarto, fecho a porta passando a chave nela. Ligo meu ar condicionado e a televisão. Não tenho nada pra assistir, mas não quero me sentir mais sozinho que estava. E somente com aquela luz eu deitei na cama.

Algumas peças nunca se encaixaram. Eleanor era apaixonada por mim, eu poderia não me tocar, mas eu também era e ainda sou por ela. Eu a fiz sofrer tanto para que o universo se juntasse num complô e fizesse com que eu sofresse por ela agora? Com que eu admitisse minha paixão e ela não sentisse nada por mim?

Quando ela estava com ele, que nós ficávamos, eu podia sentir que ainda havia aquela conexão forte entre nós. Eu poderia jurar que estávamos fazendo o certo e que aquele era meu destino: estar com ela.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Capítulo 81


Dizem que os corações não mentem
A cabeça pode tentar, mas não vai estar certa
Você me diz o que sente lá no fundo
Hoje à noite
​(Seasons - Olly Murs)

Bruno Pov’s

Me sentia novamente em 2012. Em pleno sábado de sol eu estava trancafiado no estúdio, arranhando mais notas. Mais e mais. Tentando terminar as letras que tinha, pensando em coisas melhores. Chamei Phil para me ajudar e ele chegou em seguida, com uma cesta térmica em suas mãos.

-Se é pra fazer isso, vamos fazer direito! – Ele a coloca em cima da mesa. – Porque não me disse mais cedo que tinha algumas letras?

-Porque eu não tenho certeza ainda. Olha, nós temos apenas cinco músicas prontas. Não irei lançar um CD só com isso, preciso de mais.

-Ok, mas porque não tenta outras?

-São essas! Eu sinto isso.

-Então me diga o porquê são essas?

-Olhe. – Entrego meu caderno pra ele, aproveito para levantar e dar uma olhada na janela. – São duas. Pode achar bobagem, mas eu sei que elas precisam estar no álbum.

-Um minuto.

Deixei que ele as lesse em paz e fiquei apenas encarando o nada. Olhando pela janela, olhando o mundo lá fora.

-Eu já tinha lido elas, sim?

-Algumas partes, outras eu fui encaixando. Mas olha as cifras. – Estiquei-me até a mesa e entreguei em suas mãos. – Consegui um tom perfeito no piano, vai combinar.

-Bruno.

-Oi?

-Você tem certeza que quer essa música para o CD, ou é pra mostrar à Eleanor que você escreveu sobre ela?

Fecho meus olhos lentamente, baixo a cabeça e a balanço. Ele sabe que eu não posso nem contestar, Phil me conhece o suficiente pra saber de tudo isso.

-Senta aqui. – Chamou-me. – Desde que me ligou eu sabia que não era apenas por uma música. Você estava querendo desabafar, só não queria me chamar diretamente. O que está acontecendo?

-Lea... Ela está acontecendo.

-O que houve?

-Desde que ela terminou com o Richard, o máximo que eu arranco dela são abraços. Parece que ela não quer mais nada comigo, ela não fala mais de quando ficávamos, se eu quero ver filme, ela já acha que eu vou puxa-la para um beijo. Eu sou amigo dela, mas achei que assim que ela terminasse com ele nós iríamos finalmente sermos felizes.

-Bruno, ela precisa de um tempo. Lea acabou de sair de um relacionamento que durou bastante, não é fácil assim de esquecer e você sabe disso.

-Mas nós estávamos juntos quando ela estava com o Richard.

-Era diferente, porque ela sabia que no fim do dia ela tinha ele.

-Então você acha que ela pode ainda estar presa a ele?

-Acho que não, só acho que ela precisa de um tempo pra assimilar que finalmente vocês podem ficar juntos.

-Ela não me quer mais assim.

-Qual é?

-O quê?

-Você era o cara com mais atitude que eu conhecia, e agora parece um franguinho em apuros!

Eleanor Pov’s

Era papel atrás de papel, uma loucura naquele escritório. Estávamos fechando um grande negócio com um dono de uma rede de postos de gasolina, íamos lucrar muito com isso. Era um entra e saí de pessoas na sala, os advogados da empresa analisando os contratos, dá até vontade de comemorar que vamos ganhar um grande bônus com isso.

-Esses imbecis estragaram a máquina do café, que maravilha. – Roselie senta ao meu lado, ela é uma das supervisoras da imobiliária. – Quer um pouco? Tive que buscar na esquina.

-Não, obrigada. – Dei uma risada abafada.

-Sabe, Eleanor, quando se sai de uma empreiteira e vem para uma imobiliária, você acha que será mais fácil, mas não é. – Ela balança a cabeça e relaxa seus ombros. – Um grande negócio fechado aqui é como um pampa saffari com comida. Os animais ficam doidos. Me diz como estragaram a máquina de café?

Eu rio de sua comparação e fico olhando todos bem atordoados, com papéis pra lá e para cá.

-Quando eu vim pra cá, nosso escritório não passava de cinco peças no segundo andar de uma clínica. – Ela me acompanha na risada. – É bom ver que todos que estavam naquele tempo e estão aqui hoje, fazem de tudo pra manter em pé.

-Tenho medo de crises bancárias. Não haverá bancos para tantas hipotecas e imobiliárias.

Nós engatamos numa conversa bem legal. E mesmo quando o dossiê de contratos chegou para nós, ainda sim conversávamos. Foi bom sair um pouco do meu casulo com o pessoal da empresa, pelo menos descobri que há pessoas bem legais.

Quando peguei minha bolsa na sala, no celular havia duas chamadas perdidas e por sorte peguei quando ele estava tocando na terceira.

-Alô. – Digo antes de ver o número.

-Lea, oi. Você já saiu?

-Estou saindo agora, Ti. Porque?

-Estou indo no hospital, quer me encontrar lá?

-O que houve? Qual hospital?

-Na UCLA mesmo.

-Tá. Mas o que houve? – Pus minha bolsa sob o ombro e sai carregando uma pasta em mãos e na outra o celular.

-A Lana se machucou, nada grave.

-O quê?

-A escola não conseguiu te ligar e o Bruno está em estúdio com o celular desligado, aí ligaram para mim.

-Porque os incompetentes não ligaram para o escritório? – Bufo. – Ok. Eu estarei em breve aí.

-Ok. Eu peguei o seu carro para levar ela.

-Tudo bem, eu pego um uber.

Enquanto descia de elevador, conectei minha internet para chamar um uber. O mais próximo estava há três minutos de distancia. Passei meu crachá e sai do prédio, cuidando todas as placas que ali passavam.

-Eleanor? – Um carro vermelho para um pouco a frente.

-Sou eu! – Sinalizo e ando até ele.

Não demoraria nem vinte e cinco minutos até o hospital, enquanto isso eu tentava falar com o Bruno, que nem recebia minhas mensagens.

Desci do carro e fui direto para a ala pediátrica. Lá, eu liguei para Tiara e as localizei, quer dizer, apenas a Tiara.

-Oi. E aí?

-Ela está fazendo o curativo, não foi nada demais.

-Como aconteceu isso? – Meu coração estava saindo pela boca.

-Ela estava na hora do intervalo, parece que subiu num dos brinquedos do pátio e escorregou.

-Nossa. – Sento na cadeira ao seu lado e ponho minha bolsa no colo. – Quase morri de susto.

-Eu não queria te assustar. – Ela riu.

-Ah, não queria? Então não fala por telefone da próxima vez. – Eu também rio e ela segura minha mão.

-Esse hospital ainda me lembra tantas coisas.

-Como?

-Quando o Bruno parou nele aquela vez... – Ela inclina sua cabeça. – Quando a Presley caiu na beira da piscina e teve que vir fazer um curativo na bunda.

-Essa foi hilária.

-Até hoje ela tem aquela cicatriz pequena. O Jaimo já veio aqui nessa ala infantil quando ele bateu com a testa na quina da mesa. – Ela ri. – Ele parecia uma múmia, tadinho.

-Esse eu não vi.

-Foi na época do Richard, que você não frequentava muito nossos lados.

-Você sabe o porquê.

-Sei que vocês dois são idiotas, isso sim. – Revira os olhos.

-Não. – Torço os lábios. Não queria falar daquilo novamente. – Onde foi o corte?

-No ombro. Não é profundo, acho que nem de pontos irá precisar.

-Quando o Bruno souber, vai ter um troço.

-Falando no diabo... – Ela aponta para a tela do celular. – Alô.

Não sei o que o Bruno estava falando, sei que Tiara estava fazendo suas caras e bocas de quando está discutindo, provável que esteja pondo a culpa em alguém e morrendo de medo. Tiara disse diversas vezes que ela caiu na escola e que não foi nada grave.

Disseram o nome de Tiara, mas como ela estava no telefone, eu fui até a enfermeira.

-Oi. É sobre Lana?

-Lana Hernandez? – Balanço a cabeça confirmando. – O que é dela?

-Mãe. – Respondo.

-Me acompanhe.

Entro com a enfermeira na sala de curativos. Lana estava sentada numa cadeira, falando com os enfermeiros e eles riam do que ela dizia. Essa menina é uma figura.

-Amor! – A chamo.

-Mamãe! – Ela corre em minha direção e me dá um abraço, fazendo uma cara de dor.

-O que a senhorita andou aprontando?

-Eu escorreguei no brinquedo e cai lá na escola. – Ela aponta para o curativo em seu ombro. – Mas não foi nada grave, mãe.

-Ah, claro que não. – Rio.

-Não foram precisos pontos, é provável que seque em alguns dias. Senão, volte aqui. – A médica me entrega uma receita com seu prontuário. – Trocar os curativos três vezes ao dia, passando essa pomada que eu receitei, logo ela ficará boa.

-Eu tô bem. – Ela dá de ombros pra médica.

-Eu sei, mas vai ficar melhor. – Ela bagunça seus cabelos e Lana ri.

-Muito obrigada. – Sorrio.

-Só preciso que me entregue um documento pra eu verificar no cadastro.

-Tudo bem. – Pego minha carteira de motorista e entrego pra ela.

Acho bem bom esse sistema que criaram, não entregam nada e nem deixam que algo saia do hospital se não estiver no cadastro da família no hospital.

-A menina está liberada. – A médica entrega meu documento.

Lana deu tchau para as pessoas que ali conheceu e saímos da sala. Ela falou com Tiara que estava brincando com ela.

-Vamos?

-Bruno pediu que esperássemos ele. – Tiara rola os olhos. – Não entendo o porquê, mas com louco não se discute.

-Ele deve estar puto. – Sussurrei.

-Com certeza. – Ela ri. – Vamos comer algo na cantina?

-Sim! – Minha pequena confirma, dando a mão para sua tia.

Guardo as coisas do médico e vamos até a cantina comer algo, nada muito forte, daqui a pouco já iríamos jantar. Esperamos o Bruno por alguns minutos mais e logo ele chegou, espumando pela boca.

-Porque não ligaram para o estúdio? – Ele pergunta, dando um beijo na bochecha da filha. – Tá bem, meu amor?

-Estou, papai. – Ela responde, dando outro beijo nele.

-Porquê você pediu para não ser interrompido, querido. – Tiara responde, na maior sutileza.

-Foda-se! É uma emergência.

-Menos, Bruno! Não é como se a Lana tivesse em coma ou respirando por aparelhos. Ela caiu, assim como acontece com toda a criança.

-Eu sei. – Ele bufa.

-Deixa, Lea, ele ainda pensa que a Lana é de cristal.

-Eu não sou de cristal. – Rebate a pequena.

-Não é que eu pense isso, mas eu me preocupo, ela é minha filha.

-Acha que só você se preocupa? Menos, Bruno, por favor. – O sangue já começava a ferver, doida pra rebater mais coisas à ele.

-Dá pra evitar uma discussão na frente da Lana, Eleanor?

-Não sou eu que estou toda esquentadinha, amor. – Ironizo o máximo possível no “amor” e ele dá um sorriso mais irônico ainda.

-Ok, Lea.

Então nós fomos pra casa, e se não fosse a rádio estar tocando músicas legais e Lana estar cantando todas elas com Tiara no banco de trás, o clima estaria bem estranho.

Nós não nos falamos e eu sentia que algo estava estranho. Mas é capaz que somente o episódio do hospital tenha feito ele ficar assim, tão bravo, comigo?

Quando pedimos o jantar, nos unimos a mesa. Novamente, estaria total silêncio se não fosse pela Tiara e a Lana conversando e rindo. Eu tentava me enturmar, mas algo ainda me incomodava por ali e eu não sabia exatamente o que era.

À noite, no grupo no celular, combinamos que no final de semana iríamos começar a organizar o chá de fralda da Urbana e que dessa vez não poderia ser algo pequeno como foi o que fizeram para Zahlia – naquela época haviam muitas coisas que impediam de fazer algo maior, principalmente brigas com família e etc.

Eu precisava falar com o Bruno para decidir detalhes, mas não queria dar o braço a torcer.

Quando desisti, Lana já havia ido deitar e Tiara estava no pátio conversando no telefone, passei pelo corredor para ir ao meu quarto me arrumar pra dormir.

-Boa noite. – Escuto ele dizer.

Olho pra trás, dou um sorriso amarelado.

-Boa noite. – Respondo.