segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Capítulo 50


Essa vida não é fácil, não sou feito de ferro
Não esqueça que sou humano, não esqueça que sou real
(I'll show you - Justin Bieber)


O dia havia sido tão excitante, tão família, que a noite se tornou uma tormenta.

Encostei a cabeça no travesseiro para dormir e a imagem dele se fez em minha cabeça. Não adiantou virar de um lado para o outro, ele estava ali na minha mente e eu ainda me sentia parcialmente culpada.

A culpa não é minha por sentir-me assim. Não era meu hábito magoar as pessoas. Meu hábito e sina é ser magoada. Pelo jeito!

Fiquei tão aflita com isso que passei o dia pela minha mente. A forma como eu poderia congelar o tempo somente naquela tarde, nas brincadeiras com a Lana, na formação de um quebra cabeças, nas bonecas, nas roupas e acessórios que ela pôs em seu pai, as Barbies que carregava de um lado para o outro, nas peças de Leggo atiradas pelo chão... Tudo isso englobou uma tarde perfeita. Perfeita até o momento que eu lembrava que não nos falamos a tarde toda. Literalmente.

Trocamos algumas frases em virtude do jantar ou alguma coisinha da Lana.

Não podia dormir com aquele peso em meu peito.

Levantei da cama sentindo frio, mas aguentei. Ele não estava no seu quarto, nem no quarto da Lana. Procurei-o na sala, mas também não estava. Só restava um lugar para onde ele ia constantemente além desses, o estúdio!

Abri a porta e o vi sentado no sofá, tocava algumas músicas de fundo e ele ia pronunciando algumas palavras desconexas e pondo no papel, o que deveria ter muita conexão para ele. Fechei a porta para não atrapalha-lo, ai sim ele ficaria mais bravo.

-Entra! – Ele diz um pouco mais alto e eu paro de fechar a porta.

-Deixe pra amanhã. Boa noite.

-Pode entrar, tudo bem!

-Mas você está compondo. – Pus minha cabeça para vê-lo.

-Apenas anotando umas palavras chaves para não me esquecer. Uma música nova. – Balançou o caderninho e o tocou na mesa de centro. – Entre!

-Ok. Com licença. – Pedi, adentrando o estúdio. – Álbum novo?

-Quero lança-lo o quanto antes.

-Músicas sobre o que?

-Não falei? – Torceu os lábios. – Deram carta-branca! Posso fazer da minha maneira, sobre o que eu quiser. Disseram que estão apostando tudo em mim. E eu estou tremendo por isso.

-Não fique assim. – Sentei-me afastada dele, mas no mesmo sofá. Caberia duas Lana’s entre nós. Assustei-me com o que ele disse. Sabia sobre o álbum novo, mas essa história de carta-branca só soube agora. Estou feliz por ele, mas isso só me faz pensar que Bruno não me contou porque esqueceu ou porque achou que não era do meu interesse, onde as duas possibilidades levam a um só caminho: Bruno não confia a mim tudo que acontece em sua vida como antes. – Sei que irá arrasar.

-Obrigada. – Pegou um copo que estava a sua frente. – Não é bebida, antes que faça uma cara feia.

-Imaginei que não fosse. – Dou um risinho sem graça. – Mulheres compromissadas não bebem toda a hora.

-Mulheres? – Ele demorou para assimilar do que estava falando. Fiz o gesto da sua tiara e da pulseira que Lana pôs a tarde. – Ah. – Riu livremente. – Ser pai de uma menina é uma surpresa atrás da outra.

-Imagina mãe. – Ri. – Ainda tem muitos momentos para surpresas com ela.

-Imagina a adolescência chegando? – Passou a mão pelos cabelos emaranhados. – Aniversários, festas com as amigas...

-Namorados...

-Isso não! Só depois dos vinte e um.

-Vinte e um? – Começo a rir. – Pense bem, o que não liberará para ela, ela irá fazer escondido, e há certas coisas que é melhor fazer com a sua supervisão do que por aí.

-Tem razão... Mas não suportarei ver minha pequena saindo com um cara. Não pode.

-Isso irá acontecer.

-Daqui muitos anos, ela pode não saber o que é namoro e esses lances de beijar, transar...

-Vai priva-la de informações?

-Sim, assim me previno de ataques cardíacos. Tudo em prol de todos. – Começamos a rir em sincronia, e paramos juntos, nos encarando. Pigarreio, porque na verdade meu corpo está tremendo. O assunto estava gostoso demais para começar a cavoucar em marés ruins. – Não conseguiu dormir?

-Na verdade, não. – Dou de ombros, relaxando os ombros e as costas.

-Eu também não, faz dias.

-Por onde andou quando sumiu esses dias? – De alguma forma precisávamos começar esse assunto.

-Primeira noite fui pra casa do Brandon. Depois, os outros dois dias, passei dentro do quarto de um hotel. Compondo, descansando como podia, tentando absorver tudo.

-Me preocupei com você.

-Mas não precisava. – Se saiu com a defensiva.

-Eu sei que não, sei que está sempre seguro. Não me preocupei com o Bruno Mars, o famoso. Me preocupei com o Bruno!

-Eu estava bem.

-Mas eu não sabia que você estava bem, até ver que você estava no Twitter. Depois Phil me disse que estava bem. Pode baixar a guarda, pelo menos dessa vez?

-Tudo bem. – Ficou um silêncio completo ali dentro. Somente a música de fundo que ajudava a criar um clima mais tenso. – Eu precisava desvairar minha cabeça. Precisava pensar!

-Eu sei disso. – Estalo um dos dedos das mãos. – Bem, vou deixar você continuar com seu trabalho. – Levanto do sofá, mas sua mão na minha faz eu não dar um passo para fora dali.

-Eu fiz por ciúmes.

-O quê?

-Isso tudo. – Gesticulou com a outra mão e puxou-me para sentar, ainda distantes um do outro. – Eu fiz por ciúmes de você, Lea. Não queria ver ninguém tocando você além de mim, não queria ver ninguém beijando a boca que eu sei que era minha. Não suporto quando vem na minha mente que o Kenji teve tudo que eu tenho de você. Não queria exclusividade, só queria você!

Não tive tempo de engolir o que ele falou na hora que falou, por isso fiquei com a cara de idiota olhando para ele com a boca semiaberta, sem saber o que dizer. Era bastante coisa Bruno dizer que estava com ciúmes de mim... Na verdade, era muita coisa!

-Eu sinto ciúmes de você, também, mas nunca precisei agredir ninguém.

-É diferente, Lea. Merda... Coloque na sua cabeça. Imagina se fosse eu com a Megan, como iria se sentir? Com raiva? Traída? Porque foi assim que eu me senti. – Respirou fundo. – Todos os caras sabiam de mim e de você, ele principalmente! Porque diabos ele fez questão de fazer isso então?

-Porque... Bruno, é complicado. No ano novo, em Vegas, quando levei a Lana pra você...

-Foi desde lá? – Se espantou.

-Sim... Bem, nós estávamos brigados, eu estava brava com tudo aquilo, tinha cansado de ver você aproveitando a vida e eu parada. Então rolou, rolou, e continuou rolando esse tempo todo.

-Quando falou que era quase três meses, nunca suspeitei do ano novo.

-Pois é.

-Você ficou magoada com tudo isso, não foi?

-O que acha?

-Lea, eu juro, nunca foi minha intensão, mas eu não sabia o que estava rolando, nós não tínhamos falado nada sobre isso.

-Nunca é a intensão!

Acho que baixamos a guarda. Seu olhar baixou sobre o meu, e ele pareceu genuinamente arrependido. Meu coração batia um pouco mais acelerado, estava nervosa sem um motivo aparente. Seu toque em minha mão se transformou num aperto e ele a segurou direito, transmitindo uma onda energética para o meu corpo, arrepiando-o.

-A verdade é que eu sinto ciúmes de você, e não é pouco, não é de agora.

-Nós nunca fomos sinceros um com o outro. – Torço meus lábios, olhando para nossas mãos unidas. – Eu sinto ciúmes de você há muito tempo.

-Lembra do Kai? Porra, Lea... Aquele dia eu morri! Não sei o que deu em mim para me controlar com ele... Ele deu em cima de você e eu estava ali.

-Mas se você tivesse dito algo...

-Você também não dizia. Você sabe que estou sempre em cima do muro, tanto que queria ter essa conversa, mas ao mesmo tempo não queria. Nesses três dias você me ligava, eu não atendia, mas ficava encarando, louco pra atender. Fui egoísta em não lembrar da minha própria filha e em como ela ficaria com isso.

-Você foi egoísta e covarde.

-Não precisa tocar na minha cara! – Suspirou. – A verdade é que, Lea, eu gosto de você! É só isso. Eu gosto de você!

Foi como socos atingissem meu peito, fazendo-me sufocar e querer tossir sem parar mais. A voz em tom aveludado, tímido, diria eu e baixa, me fez viajar por segundos para bem longe dali. Pensei no inverno, não me pergunte o porquê. Pensei no frio, no vento que bate na pele e faz um choque térmico com o calor do corpo, inundando tudo e deixando-nos congelados.

Essa era a palavra: congelada!

-E eu gosto da minha vida. Entende?

-Hã?

-Nós podemos apenas continuar com isso? – Segurou minha outra mão olhando para meu rosto, passando-me um pouco de firmeza. Por um segundo pensei que estivesse sentindo dó dele. – Continuar dessa forma, juntos...

-Está me propondo, novamente, algo não-oficial?

-Vamos somente deixar levar. – Seu sorriso me desarma. – Tentar.

-Em que momento paramos de tentar? – Pergunto e ele também se vê sem resposta.

Quando conversei com Umma, falei sobre a segunda chance que daria, para ver se ele realmente quer tomar um rumo na vida ou entre nós nada pode haver. Comentei com ela sobre a vontade que eu tenho de encerrar tudo no momento que ele pisar na bola pela segunda vez, afinal, eu vou viver a minha vida. Dessa vez já será diferente do que era antes.

-Não sei. – Ajeitou-se, arrumando suas pernas e ficando um pouco mais perto de mim. – Mas vamos continuar, vamos tentar... Vamos deixar o tempo dizer sobre nós? Ok?

-Você sabe que, se ir viver a sua vida, eu viverei a minha. Livres, os dois. Ok?

-Tudo bem. Você poderá fazer o que quiser, mas por favor, que não envolva meus amigos.

-Palhaço. – Bato no seu braço e ele ri. – Ninguém manda ter amigos gostosos. O próximo será o Kam.

-Gostosos? – Fez uma careta de nojo. – Mais do que eu?

-Hm. Não lembro de você.

-Não lembra?

-Faz tanto tempo. – Dramatizo. Mas também não tanto. Estamos sem transar há muito tempo mesmo, uns seis meses, praticamente?

-Verdade. – Aproximou-se um pouco mais. – Mas, voltando ao assunto. Como éramos antes, então?

-Como éramos. – Ofereço o melhor sorriso a ele, e a melhor proposta de segunda chance. Nada fica como era, vamos ter que construir tudo novamente.

Vamos combinar, todos merecemos uma segunda chance. Não direi a ele que, se isso não levar em nada novamente e se eu me magoar novamente, irei simplesmente largar de mão e tocar minha vida. Afinal, não quero chegar aos trinta anos sem nenhum namorado, sem nenhuma vida fixa, estabilizada. Estabilizada emocionalmente!

Quero ser uma mulher que obtém as próprias conquistas, quero suprir e ser suprida. Ou seja, eu quero ser dona de mim, mas também preciso daquele afago quando chegar em casa, de um namorado que me leve ao cinema nas quintas feiras, de uma noite de jantar e loucuras numa praia por um final de semana. Quero sentar e conversar, beijar e fazer amor escondido durante um almoço de família. Sabe essas loucuras? Eu as quero! Preciso ter alguém para isso, e se esse alguém não for o Bruno, irei procura-lo por minha conta. Não há conquista sem luta, não posso esperar sentada esperando que caia alguém especial dos céus.

-Estava pensando em fazermos algo amanhã. O que acha? – Nossas mãos foram unidas novamente. Minhas pernas se encontravam com as dele, e o seu toque causa o mesmo arrepio de antes.

-Amanhã eu trabalho.

-Você poderia faltar...

-Não! – Respondi, com medo de ter soado grosseiro demais, então complementei. – Faltei quinta feira, por conta da Lana e de uma dor de cabeça infernal.

-Desculpa. – Beijou o dorso da minha mão esquerda. – Da próxima vez fico apenas uma noite.

-Ah, então haverá uma próxima vez? – Puxei minha mão e ele riu, puxando-a de volta.

-Não haverá.

-Mas você disse...

-Esquece o que eu disse.

Bruno inclinou-se sobre mim, fazendo meu corpo adaptar-se com o que tinha atrás. Minha cabeça ficou no ar, o sofá do estúdio dele há uma única guarda e não é do lado em que estou. Começo a rir por ter que me equilibrar.

-Você cuspiu na minha cara. – Fez uma cara de nojo.

-Desculpa se estou caindo. – Ri de nervoso.

Bruno rolou seu corpo para o lado e levou o meu consigo. Batemos no chão, rindo como uns idiotas. Minhas pernas ficaram uma de cada lado das suas, subi um pouco até o meio de suas pernas, me instabilizei por ali e joguei meu corpo pra frente. Prendi as mãos do Bruno sob a sua cabeça e fiquei olhando para o seu rosto. Meu cabelo estava caído em cascata sobre meu ombro, para o lado.

-Sério que eu estou preso e eu terei que tomar atitude?

-Atitude de que? – Sussurro.

Não esperei que ele tomasse por aquela atitude, eu mesma a fiz. Beijei seus lábios de leve e, pouco a pouco, introduzimos nossas línguas naquele beijo. Bruno me parecia tão saboroso após esse tempo todo. Senti saudades da sua boca na minha.

Ao soltar suas mãos, elas repousaram em minhas costas. Nada com malícia, apenas nosso beijo depois de tanta tempestade. Não posso negar que na minha cabeça ainda girava coisas como “eu senti ciúmes de você” ou “eu gosto de você, Lea”.

-Eu tinha esquecido de como era bom te beijar sem pressa. – Colocou meu cabelo para trás da orelha.

-Eu tinha esquecido de como é ficar mais do que dez minutos no mesmo cômodo que você! – Deu um risinho sem graça e passou seu dedo indicador sobre meus lábios.

-Não quero levar as coisas como antes. Ok?

-Tudo bem.

Inclinei-me novamente para alcançar seus lábios. Avancei um pouco o ritmo em que estávamos. Bruno continuou calmo e eu tive que me adaptar a ele, mas nada impediu que minha mão passasse por seus braços e pousasse em seu peito. Saí de cima dele, sentando no sofá.

O vi se ajeitar sobre meu corpo recostado e tomar cuidado para não pôr seu peso em mim. Coloquei uma das mãos em suas costas e a outra em sua nuca. Aprofundei o beijo, novamente e novamente ele continuou lentamente. Puxei de leve seus cabelos e arranhei suas costas.

-Quero lembrar você que não é somente sexo, tudo bem?

-Eu sei. – Sei que terá mais sexo do que qualquer outra coisa.

-É sério, Lea... Não é apenas sexo. – Tirou minha mão da sua nuca, com carinho e a pôs em suas costas. Ouvi algo como “vamos com calma”, mas não consegui ver se era isso mesmo.

Nosso beijo se retornou com direito a mais lentidão, porém com leves mordidas e selinhos entre as paradas. Estava ótimo, mas não posso negar que estava ficando excitada, e muito. Tenho saudades do seu sexo e do seu toque no meu corpo.

Levantei sua camisa e arranhei suas costas de leve, ele arrepiou-se por inteiro. Então continuei a arranha-lo e deixar meus dedos percorrerem toda a extensão de suas costas. Mordi seus lábios mais forte e ele não parou quando aumentei um pouco mais a velocidade. A atitude tinha que ser minha.

Coloquei minha mão em sua perna e subi até a cintura da sua calça.

-Lea. – Falou, cortando o beijo. – Não. – Tirou minha mão, novamente com cuidado. – Falei que não quero apenas sexo. Quero aproveitar nosso momento, estamos retomando hoje com o que tínhamos antes, podemos apenas nos curtir? Curtir esse momento... – Deu um selinho em minha boca.

-Ah. – Respirei um pouco fundo. – É que estou com saudades suas.

-Eu também, acredite. Mas estou com saudades de conversar com você, tanto quanto transar. Como dissemos antes, ultimamente não ficamos nem dez minutos sem soltar alguma faísca.

-Eu sei. – Engoli minha saliva e recolhi minha mão rejeitada para mexer em sua gola, me sentindo uma pervertida. – Mas quero saber o verdadeiro porque de não fazermos nada hoje? Poderíamos muito bem conversarmos e depois fazermos? – Não o olhei, deveria estar com as bochechas vermelho-pimenta de tanta vergonha.

-É por isso mesmo. – Ajeitou-se, sentando ao meu lado e pegando minhas mãos para abraça-lo. – E também porque eu estava com alguém hoje de manhã...

-Hoje de manhã? Mas quando acordei você estava com a Lana.

-Você acordou passava das onze. Eu acordei cedo, umas oito horas. Umma passou aqui para ajudar você, nós conversamos sobre meu breve sumiço e eu sai por uma hora e meia, quando voltei fiquei brincando com a Lana na sala e dispensei a Umma.

-Ah. Namorada?

-Não. – Riu. – Eu te falei que quero tentar algo diferente com você. Não posso começar a tentar algo diferente fazendo o mesmo que fazia antes, pegando você com o corpo sujo de outra mulher.

-Tudo bem. – Havia fofura, havia ciúmes, uma pontinha dele. Não falei nada. Se eu perguntasse algo sobre a mulher iria ficar com ciúmes e imaginar eles juntos, e agora eu sei que faria isso, diferente de muitas vezes que nem liguei. E também tinha muita fofura, pois por ele já admitir que estava com outra e que não queria transar comigo de corpo sujo, era bastante perto do que tínhamos antes.

-Podemos fazer isso amanhã e apenas ficar juntos hoje?

-Temos todo o tempo do mundo. – Beijei o topo da sua cabeça.

-Acho que estamos ao contrário. – Riu. – Eu é quem deveria estar te aquecendo no calor dos meus braços.

-Não somos tradicionais, Bruno.

Vinte de Maio de Dois mil e doze

Há mais ou menos dois meses nós dissemos: vamos tentar novamente.

E ainda estamos tentando. Bruno está um amor, se vê um pouco distante por causa do estúdio – cada coisa no seu tempo -, mas está mais atencioso. Ele jura que não ficou com mais ninguém, mas eu tenho quase certeza que ele já deve ter pego alguma mulher. Só não falo nada, pois não quero impor cobranças, quero deixar assim, até porque se eu tiver que sair do meio disso tudo, posso sair sem me enforcar.

Primeiramente não posso cobrar dele não ficar com ninguém, afinal, somos livres e combinamos isso. Já pus em minha cabeça que no momento em que tudo voltar ao que era antes, ao invés de se ajeitar, eu saio dessa para não voltar mais. Irei seguir com a minha vida.

Bruno está só em casa, mas vejo ele menos do que via quando estava viajando. Ele está em função do seu segundo álbum, e o tempo está passando rapidamente. A gravadora deu até o final do ano, mas acho que até antes ele vem. Já está tudo se encaminhando e ele está super ansioso para ver o que acharão.

E, além de tudo, depois que ocorreu tudo aquilo, Bruno tinha pedido para tirar o Kenji da banda, mas ele afastou-se por conta. Quis sair antes que dessem o pé na bunda dele. Falei com ele algumas vezes depois e ele está bem, disse que não guarda nenhum tipo de rancor sobre tudo que aconteceu, mas tenho quase certeza que o Bruno ainda guarda.

Seu número de fãs e de reconhecimento a cada dia cresce mais e mais. Muitas pessoas falam dele, muitas o elogiam, e nossa casa também recebe alguns amigos dele que são famosos. Me sinto desconfortável, mas ao mesmo tempo surtando por tudo isso. Nunca me acostumarei com essas loucuras.

E ele com a Lana não poderia estar melhor. Nossa pequena a cada dia cresce mais e fica mais inteligente. Agora ela está nas aulas de balé e não tem nada melhor do que pega-la para ensinar os passinhos que aprendeu em sala de aula. Eu assisti três aulas suas e Bruno apenas foi leva-la duas vezes, pois não pode ficar, porém irá ter uma apresentação de inicio de verão e nós dois vamos. Estou ansiosa para ver ela apresentar a dança em cima do palco. Garanto que roubou o carisma do seu pai.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Capítulo 49


Pegue o que você precisa
E siga seu caminho
E pare de chorar tanto
(Stop crying your heart out - Oasis)

Foi uma péssima noite para dormir. Foi tensa e em nenhum momento consegui descansar minha cabeça ao completo. Me sentia culpada, mas não queria me sentir assim. Essa foi à primeira noite que tentei dormir sentindo tristeza de tudo que está acontecendo. Estou acostumada a deitar a cabeça no travesseiro e sentir saudades de muitas coisas, minha família, do Bruno quando está em turnê, dos meus amigos, até mesmo do tempo no Havaí, onde tudo era bem diferente.

Nem forças para levantar da cama eu tinha. Minha cabeça parecia que iria explodir em alguns instantes, havia um nó no meio da minha garganta, uma espécie de pigarro que não passaria tão cedo. Senti meus olhos embaçados e o barulho do meu celular despertando, para avisar que estava na hora de começar a me arrumar para mais um dia de trabalho, deixou-me estressada.

Irá doer ter que por um sorriso no rosto, quando na verdade meu interior está despedaçado.

Nunca sofri assim, nunca foi preciso discutir dessa forma, nunca passei uma noite sem dormir pela tristeza que estava sentindo... Isso é terrível. Agora que entendo o que é sentir demais, levar tudo para o coração, sobrecarregar a alma e ir acumulando todas as coisas que a vida vai te dando, sejam boas ou ruins como agora.

Como sempre faço, dei um beijo na Lana antes de sair, depois que já tinha me arrumado. Encontrei com a pobre Umma, chegando, com uma cara cansada de quem não tinha dormido muito bem.

-Lea! – Olhou-me e antes mesmo de nos cumprimentarmos, nos abraçamos fortemente. Me senti livre para deixar uma lágrima cair pelo meu rosto. – O que aconteceu?

-Discuti com o Bruno, foi feio... – Respiro fundo, desvencilhando do seu abraço. – Agora tem um nó na minha garganta, minha cabeça está cansada e doendo. Eu não gosto de sentir isso.

-Venha cá. – Puxou-me pelo braço.

-Preciso ir para o trabalho. – Digo, fitando a porta da entrada.

-Não vá, fique hoje em casa. Te darei um chá, bem quentinho, colocarei uns filmes e veremos eu, você e a Lana. Ok?

-Eu não sei o que falar para o Ian...

-Diga apenas que está um pouco indisposta, mal... Ele entenderá. – Umma não o conhecia, mas provavelmente ele entenderia. Ian não é uma má pessoa, é muito boa e me conhece há muito tempo. – Agora me diga o que está passando ai dentro? – Apontou para o meu peito quando chegamos à sala e sentamos no sofá.

-Uma confusão. – Ponho a mão sobre o peito. – Difícil de explicar. Uma angústia.

-Você gosta dele, não é?

-Nós convivemos juntos, eu conheço cada pedaço seu, cada pequeno detalhe. Nós formamos nossa personalidade adulta juntos, viemos pra cá juntos. – Dou um baile com meus olhos, olhando para tudo, menos para ela. Não quero chorar. – Como não gostar? Como não se apegar?

-E ele gosta de você?

-Como amiga? Sim! – Umma passa a mão em meus cabelos.

-O que aconteceu ontem foi por ciúmes?

-Eu não sei. – Dou de ombros. – Ele apenas surtou, batendo no seu amigo e brigando comigo. Uma possessão.

-Como se você pertencesse a ele?

-Exatamente. Sabe a história do cachorro que não rói, mas também não larga o osso? Estou me sentindo no meio disso.

-Não queria ser indiscreta, se não quiser me responder tudo bem, mas há quanto tempo vocês estão em função um do outro?

-Nós? – Volto minhas memórias uns anos atrás, em como tudo começou. Provocação atrás de provocação. Eu queria, ele queria e ambos tínhamos medo de tentarmos algo, até que aquela festa chegou e nós, finalmente, tentamos algo a mais. Desde então estamos ai. – Uns quatro anos?

-Nossa! – Olhou-me espantada. – Eu até achei que fosse recente...

-Não. – Balanço a cabeça, rindo um pouco sem vontade. – É de muito tempo.

-E vocês nunca falaram em namoro?

-Não e sim. Nunca falamos diretamente sobre o assunto, colocando nós em questão, mas no inicio, bem no inicio, eu não queria nenhum relacionamento e modéstia parte, ele também não. Então combinamos de ter algo mais casual, algo “mata-vontade”.

-Só que o sentimento começou a surgir, certo?

-É, eu acho que sim.

-Isso é sempre uma consequência.

-Mas depois de uns meses que nós começamos a ficar juntos, estávamos como namorados, sabe? Não sei se era impressão minha, mas havia algo ali. Fazíamos passeios de mãos dadas e com a Lana, víamos filmes e comíamos besteiras, até mesmo programas de casal...

-E vocês nunca falaram sobre isso?

-Nunca. Acho que por medo. – Fraquejo na resposta.

-Posso dizer algo, no meu ponto de vista? Tendo em ponto que eu não sabia metade do que estava acontecendo ontem e que ainda não sei a história toda. – Concordei com a cabeça e esperei ela começar. – Está claro que ontem foi por ciúmes, ok? Só que temos dois lados. O lado que ele pode ter sentido ciúmes de você como melhor amiga e o lado que ele pode ter sentido ciúmes daquele que antes era somente dele.

-E como eu vou saber? Bruno não se abre sobre seus sentimentos, até porque na maioria do tempo ele está em cima do muro, nem ele sabe o que quer.

-Onde ele está?

-Não sei, ele saiu ontem. – Dou de ombros. – Deve ter ido para suas muitas mulheres.

-É lindo ver esse ciúme, sabia?

-Talvez possa ser ciúmes mesmo. Eu estou carente, Umma. Tive apenas um namorado em toda minha vida e não me apeguei em mais ninguém, aí ele chega tomando conta de tudo.

-Tá faltando conversa entre vocês.

-Isso é claro, mas ele está sem tempo pra mim. Ele precisa fazer outras coisas. – Reviro os olhos.

-Porque não senta pra falar com ele?

-Eu já tentei, e isso que a conversa nem englobava nós, era apenas uma conversa que uma melhor amiga estava precisando. Sinceramente, só não desisto porque sou otimista, sei que ele irá cair na realidade do que está acontecendo. E tem a Lana. Não suportaria viver longe dela.

Era como um contrato. Bruno e eu tínhamos a amizade perfeita, que todos queriam ter. Ele era o melhor do mundo em me fazer rir, tínhamos os mesmos gostos, mas ao mesmo tempo muito diferente. Éramos unha e carne, completávamos até nossas frases. Tínhamos essa coisa de ter piadinhas internas, piadinhas para todas as horas. Sem contar que conversávamos sobre tudo. Aí nos envolvemos, sexualmente falando. Melhor impossível. Bruno é bom no que faz. Mas percebi que ele é bom para outras mulheres também, e depois disso cada vez que ele me falava sobre uma, meu coração doía de leve. Pus os pés no chão e percebi que eu estava viajando sozinha, então resolvi viver também. Mas ele não deixa.

Quando eu tento me esquivar, para o caminho da minha vida, ele me puxa – quase que literalmente -, para de volta em seu colo.

Assinamos dizendo que não teria sentimento envolvido. Eram apenas bons amigos matando o desejo. Mas eu estou vacilando e acho que me apaixonei pelo meu melhor amigo.

Tenho duas saídas aparentemente. Dar mais uma chance para ver se ele muda, ou simplesmente sumir da vida dele, ser apenas a mãe da Lana e uma conhecida pra ele.

-Irá dar uma chance pra ele?

-Já estamos na chance de número quarenta. – Rio. – Mas eu irei aguentar mais um pouco. Por mim, pela Lana e por tudo isso! Se caso não se concretizar, irei viver minha vida e não me importar com o que ele pensa ou se ele aprova. Não vivo por ele, nunca vivi por ninguém, só dou essas chances porque não vejo um mundo onde eu perca meu melhor amigo num piscar de olhos.

-Bem que você faz. – Pousou a mão sobre meu colo. – Não gosto de os ver assim. Adoro os dois como se fossem meus filhos, e trato a Lana como se fosse minha neta. Ver vocês dois em conflito a deixa muito triste.

Respiro fundo, e brinco com sua mão, dando um sorriso triste.

-Vai melhorar, ok? Eu irei conversar com ele hoje.

Ainda passamos um tempo conversando durante a manhã. Lana acordou por volta das nove horas. Tomamos nosso café sentadas a mesa e assim que terminamos, fui até o quarto dele verificar se ele estava em casa, mas está exatamente como estava ontem.

Liguei para o meu chefe e avisei que estava em casa, estava me sentindo indisposta e com muita dor de cabeça.

-E se assistirmos Monstros S.A. novamente? – Estico o DVD que está em minhas mãos para Lana. – Ela assiste desde bebê.

-Eu quero ver algo novo, mamãe. – Levantou do sofá, independente. – Vamos assistir esse aqui. – Entregou-me o DVD em mãos.

-Esse não é novo. – Olhei para a capa do “Bela e a Fera”.

-Eu sei, mas decidi esse. – Sentou-se novamente no sofá.

Eu e Umma rimos de sua pose adulta. A novidade é que mês que vem ela começará suas aulas. Irá fazer balé clássico e uma pequena escolinha de manhã para deixar Umma um pouco mais tranquila de tanto trabalho e para ela começar a criar amiguinhos além de seus primos e os filhos da Urbana.

Estava ansiosa para, em fim, coloca-la em alguma atividade e sei que ela se sairá bem, pois é desinibida e não tem medo de coisas novas. Aventureira minha pequena.

-Onde está o papai? – Perguntou quando nos deitamos nos edredons que colocamos sobre o tapete.

-Papai saiu. – Disse.

-Ele foi fazer uns trabalhos dele. – Complementou Umma. – Mas disse que ama você e que já, já estará aqui para lhe dar muitos beijos e abraços.

-É? Mas ele nem se despediu. – Torceu a boca.

-Ele foi apressado, você já estava dormindo. – Respondi.

-Tomara que ele venha até a noite, daí podemos ler umas histórias e brincar.

Respirei fundo desejando intensamente que até o final do dia, Bruno aparecesse por ali e não deixasse a sua filha apenas na vontade. Que cumprisse seu papel e viesse para junto dela e parasse com essa bobagem.

O filme começou e, enquanto as duas estavam vidradas na televisão, tentei ligar mais uma vez pra ele. Duas, três, quatro, até a sétima ligação. Somente chamava, ninguém atendia. Prometi que a oitava seria a última ligação daquele momento, e na oitava ao invés de chamar e ninguém atender, ele apenas deixou tocar algumas vezes e desligou.

Ao acabar o filme, Umma levou Lana para ajuda-la a fazer um bolo e eu ajudei. Quando colocamos no forno, pedi licença para elas e me afastei. Disquei o número do Kenji, respirando profundamente e com um interior pesado. A culpa ainda não havia abandonado meu peito, tinha assuntos pendentes para resolver com ele.

-Alô. – Ouvi sua voz e a primeira coisa que percebi foi como a sua volta estava tudo calmo.

-Oi... – Respondi. – Tudo bem, Ken?

-Tudo bem, Lea. E com você? – Sua voz estava bem calma, assim como ontem que mesmo após a briga ele continuava calmo e sereno.

-Estou bem... Mas você está bem, bem? Digo, como estão as escoriações e tudo mais?

-Ah. – Ouvi sua risada. – Minha mãe e minha irmã me ajudaram, passando uma pomada que compramos. Mas não houve nada demais, apenas esses pequenas escoriações, um corte no cantinho da boca e um inchaço na bochecha.

-Só isso? – Satirizo. – Bom, eu vou pedir desculpas pela milésima vez. Eu sinto muito pelo que aconteceu.

-Não sinta. Eu deveria prever que esse tipo de coisa aconteceria.

-Claro que não. Eu não sou nada dele, esqueceu?

-Mas vocês tiveram algo e se gostam. Eu entrei depois, não posso reclamar das consequências.

-Me desculpa. – O pedaço onde ele diz “vocês se gostam”, roda em minha cabeça com letras gigantes em neon. Eu só posso estar maluca.

-Já disse que não houve nada, Lea. Pode ficar tranquila.

-Tudo bem. Onde você está?

-Na casa da minha mãe, estávamos assistindo algumas coisas e conversando.

-Ah, e eu te interrompendo. Quanta indelicadeza. – Comecei a rir. – Mande um beijo para sua mãe.

-Mãe, ela mandou um beijo.

-Obrigada. – Ouço-a dizer. – Essa é a menina culpada disso?

-Mãe. – Ouço um barulho assim que ouvi o que ela disse. Pelo som que estava em volta, ele havia trocado de ambiente. – Desculpe.

-Pelo que? – Resolvo contornar.

-Nada não.


O relógio marcava nove da noite e minha cabeça estava pra lá de pesada. Queria dormir, dormir e dormir. Compensar a noite que passei em branco, mas percebi que essa seria mais longa ainda.

Assim que terminamos de jantar, retirei os pratos, lavei a louça e ajudei Lana no banho. Umma já havia ido pra casa. Ajeitei a Lana para dormir com seu pijama e sentei com ela na cama. Tapei até seu pescoço e fiquei olhando o rostinho lindo e angelical que ela tem. Como pode parecer tanto com o Bruno e ao mesmo tempo não parecer nada?

-Onde o papai está?

-Ele ainda não voltou.

-Mas queria ele aqui. – Fez um beicinho tão bonito, mas da dó de vê-la assim.

-Ah, minha pequena. – Inclinei-me para beijar sua testa. – Lembra que sempre conversamos sobre o trabalho do papai? Ele precisa estar distante às vezes para trabalhar.

-Eu sei, mas ele disse que ficaria comigo essa semana.

-Sei que ele falou e ele não irá descumprir com isso.

-Eu queria dormir com ele. – Seus olhos enchem de lágrimas e em instantes ela começa a chorar.

Lana tira as cobertas e deita sobre o meu colo, colocando as mãos no rosto e chorando convulsivamente. Soluçava e não havia palavra minha que fizesse parar. A confortei com meu colo e minhas carícias, mas não ajudava tanto. Ela precisava do seu pai com ela.

Fiquei um tempo com ela, nanando e contando uma história pequena que inventei na hora. O choro cessou e aos poucos ela foi se entregando ao sono, com um bico feito pelos seus lábios e o rostinho molhado das lágrimas que derrubou. Meu peito só apertava ao vê-la naquela situação.

Deitei-a e depositei um beijo em sua testa. Saí do quarto e peguei diretamente meu celular para ligar para o Bruno. Mais quatro ligações que não foram atendidas.

Fiquei navegando na cama, olhando para os lados e tentando dormir o sono que meu corpo implorava, mas não conseguia. Não parava de pensar no Bruno e onde ele estava, porque ele havia sumido e não nos dado noticias, e meus ouvidos em alerta para caso Lana chorasse durante a noite. A preocupação tomou conta da minha cabeça por completo.


Exatamente três dias depois que Bruno saiu sem avisar, no sábado à noite, Lana estava pior do que nos outros dias. Estava tristonha, não queria comer direito, nem brincar e nem falar – coisa que ela ama.

-Ficarei hoje para ajudar você. – Umma viu meu estado e se pronunciou.

Há três dias, também, não durmo direito. Minhas olheiras estão profundas, a força vai diminuindo e a paciência com essa bobagem que ele fez, também vai.

Não sabia mais o que fazer. Não queria ligar para a sua mãe para não apavora-la, mas não tinha mais saída. Precisava ligar para ela ou para o Phil, mas ele é outro que se souber que o Bruno sumiu, irá surtar e colocar até o FBI atrás dele.

As possibilidades se esgotavam e tudo estava se esgotando. A dor fazia parte da minha cabeça, e nem remédio curava.

-Vou ligar para o Phil. – Levantei decidida ao que fazer. Se ele é doido, colocará o FBI atrás dele mesmo, mas pelo menos eu vou saber o que está acontecendo.

Procuro o número dele e telefono. No segundo toque ele atende.

-Olá.

-Hey, Phil. Tudo bem? – Tentei ser o mais animada possível.

-Lea! Tudo ótimo, e por aí?

-Aqui está tudo bem, na medida do possível, mas obrigada por perguntar. – Ouvi a voz de Megan, que finalmente chega para me acompanhar nisso tudo, coisa que ela também estava achando um absurdo. –Escuta, quero ser breve para não te atrapalhar... Você tem notícias do Bruno?

-Lea...

-Ele não aparece em casa há três dias, Phil. Você já sabe da briga do Kenji, certo? – Ouvi seu consentimento. – Desde que isso aconteceu, ele sumiu. Saiu de casa e não deu a porcaria de um paradeiro ou notícia. Eu estou apavorada.

-Porque não ligou antes? – A sua voz continuava tranquila.

-Porque eu não queria apavorar todos. Sabe que mesmo que fossemos registrar uma ocorrência iria demorar dois dias para as buscas. – Dou de ombros, interpretando como se ele estivesse me vendo.

-Escuta Lea. Eu soube o que aconteceu com o Kenji e vocês, lamento por tudo isso. Bruno cancelou os ensaios até terça feira...

-Então ele deu notícias?

-Ele está bem, só isso que pôde me dizer. Falou também que estava cansado e queria um tempo para a cabeça dele.

-É, só que ele não é sozinho nesse mundo! Bruno tem uma filha que está apavorada sem ele. Nem comer ela quer agora.

-Como?

-Phil, a Lana está sendo afetada por tudo isso, então se seu amigo te ligar. Avise pra ele que ele é um idiota e que está deixando a filha dele doente.

Falei para o Phil o que estava acontecendo com ela e avisei que eu mesma iria falar pra ele. Ele não quer me atender, mas algo eu vou fazer que ele vá notar.

Naveguei pelo twitter, vi suas últimas atualizações, coisas de um dia atrás. Ele está bem! Realmente bem! Só não quer me atender, mesmo que o assunto seja urgente. Abri a caixa de mensagem e escrevi uma pra ele.

“Não sei se é do seu interesse, mas a sua filha está doente.”

Apertei meus olhos, coloquei a mão sobre a cabeça e só desejei que pudesse dormir em paz e sem dor, sem preocupações, sem Bruno bancando a criança estrela.

-Hey. – Megan vem ao meu encontro, abrindo seus braços para me abraçar. – Tudo bem? Você está péssima!

-Obrigada. É bem empolgante saber disso. – Digo com a voz abafada por seus cabelos. – Eu estou bem.

-Bem mal, né? E o Bruno, deu noticias?

-Falei com o Phil agora. Ele falou com ele e disse que está bem, só que me vi obrigada a mandar uma mensagem pra ele, informando sobre a Lana.

-Coitadinha, ela não está bem com isso.

-Não mesmo. – Olho para ela, na sala com a Umma, carinha de cansada e doente. – Ela chora de noite, muito. Hoje piorou... Não quer comer, não quer brincar, nem chorar ela está chorando. Só me preocupo com a febre que sobe pouco a pouco.

-Esse cara é um irresponsável. – Revirou os olhos. – Um idiota por ter feito aquela cena toda, que quero com detalhes depois. – Havia contado para Megan o que aconteceu, é claro. Contei algumas coisas por telefone, mas ao vivo é sempre melhor e mais detalhado. – Desculpa não vir ontem. Sabe como aquele restaurante está uma bagunça.

-Só perdoou se fizer comida pra mim. – Sorri. – Preciso muito de uma boa janta.

-Precisa de horas de sono, um tratamento de pele... Muita coisa, né! – Passou a mão pelos meus cabelos. – Está assim de preocupação ou está fazendo greve de beleza por que o Bruno sumiu?

-Engraçadinha. – Ofereço um riso sem graça que provoca uma risada verdadeira. – É preocupação com ele, com a Lana, pensando no que aconteceu também.

-Está mais do que na hora de você deixar ele cuidar mais da Lana e você cuidar mais de si. Lea, sinceramente, você cuida dela desde que ela nasceu. Sei que a ama como mãe, mas precisa ter tempo para você também.

-Eu sei.

-Dizer “eu sei” não adianta de muita coisa. Ponha rédeas. Diga “olha, essa noite você ficará com ela, pois irei sair”. E ponto! Ele não tem como não aceitar, já que ele tem mais obrigações que você.

-Eu sei.

-Novamente... E escuta. – Pegou no meu braço, fazendo encarar seus olhos, bem ao fundo. – Você vai continuar ficando com mais homens, ouviu? E se o Bruno der a louca novamente, você vai simplesmente ignorar, que ele irá parar.

-Ele fez isso porque o Kenji é amigo dele e companheiro na banda...

-Não foi só por isso, nós duas sabemos que não.

-Lea! – Ouço Umma me chamar. – A febre aumentou.

-Droga. – Respiro fundo olhando para Megan, talvez ela pudesse trazer a solução dos meus problemas.

-Vamos leva-la no médico?

-Vamos. – Respondo. – Vai ser menos preocupante.


Chegamos em casa após Lana ser atendida. O mesmo de sempre: uma virose. É o que sempre falam quando ela tem essas brigas, mas ela tem isso quando o clima dentro de casa não está dos melhores. Ela sente quando eu e o seu pai não estamos muito bem, desde bem pequena ela sente. Isso é fato!

Minha pequena sensitiva sentimental estava adormecida no colo da Megan após tomar soro na veia. Largamos Umma em casa, pois Megan me ajudaria e ela também precisa descansar.

-Você vai comer algo, tomar um banho e dormir, ok? Lana está bem, está dormindo e eu irei manter meus olhos sobre ela. – Megan ia falando enquanto eu abria a porta.

-Graças a Deus. – A voz, devastada desesperada e aliviada por estar vendo ao mesmo tempo, de Bruno ecoa pelo hall de entrada. Ele nem olha pra mim e vai direto para Megan. Pega a sua filha no colo, sem acorda-la e fecha os olhos.

-Oi? – Megan, assim como eu, estava perdida no que estava acontecendo.

-Por onde você andou? – Tentei manter a maior calma possível.

-Estava por aí, Eleanor. – Eleanor? Uhu, ainda bravo comigo e eu não estando nem aí pra ele. O que me alivia é ver que a Lana irá melhorar.

E que ele está bem, também, é claro.

-Ah, sim! – Solto um bufo alto e Megan segura meu braço para ficar ao seu lado.

-Megan, obrigada... Mas se quiser ir embora, tudo bem, cuidarei dela hoje a noite.

-Se não fugir novamente. – Disse baixinho e ele soltou trevas pelo seu olhar sobre meu rosto.

-Eu não irei ir embora, desculpa Bruno! Mas não é só a Lana que precisa de ajuda, minha melhor amiga também precisa.

Me senti frágil, completamente frágil. Só aí vi que eu realmente não estava pensando em mim nesses dias, somente na Lana e no Bruno. Eu deveria estar realmente horrível e não me sentia bem, de fato.

-Tudo bem. – Caminhou um pouco com a Lana. – Fique a vontade.

-Bruno? – Ela o chama e ele para. – Posso fazer o jantar?

-Claro.

Megan ia fazendo a comida e eu a auxiliando. Não que ela precisasse, mas com algo eu precisava me distrair. Ligamos a televisão da cozinha para dar um som ao ambiente e conversamos sobre qualquer assunto diferente do que estava acontecendo. Também não poderia ser injusta que minha cabeça girava naquele assunto, e a cada pausa que tínhamos entre o que falávamos, eu pensava no Bruno e na confusão da semana. Eu me odeio por me martirizar com isso, nunca fui assim, mas pra tudo há uma primeira vez.

-Avise o Bruno que está pronto, por favor.

Levantei e fui até o seu quarto. Por mais que eu soubesse e que ela transparecesse que, queria que eu largasse do Bruno de vez e vivesse minha vida – ela realmente quer isso -, mas sessenta porcento do pensamento da Megan sobre Bruno e eu, é que formaríamos um belo casal juntos, e eu sei que ela ama quando está tudo bem.

Minha amiga só quer o meu bem e minha felicidade, ela sabe que com o Bruno eu sou feliz, mas sofro, e que sozinha posso achar novos caminhos para novas felicidades. É complicado de se explicar, mas eu entendo o pensamento dela, mesmo ela nunca tendo me dito.

-O jantar está pronto. – Bruno estava no quarto da Lana, sentado na poltrona e olhando para ela, que dormia como um anjo. Ela sentia que ele estava ali. – Bruno? – Chamei a sua atenção já que ele não me ouviu.

-Eu já ouvi. – Respondeu e resmungou para si: - Acha que eu sou surdo.

-Sem paciência.

Saí daquela porta antes que eu fosse capaz de entrar naquele quarto e encher ele de socos por me dar um fardo desses.

Bruno jantou praticamente no outro lado da mesa, de certo não queria contato comigo, já que agradeceu a Megan pela comida maravilhosa e beijou sua bochecha.

Um idiota, não passa disso. Se acha mesmo que correrei atrás dele porque ele está bravinho comigo, está achando bem errado e não me conhece. Não faço esse estilo e nunca farei.

E a madrugada chegou. Eu e Megan fomos ver um filme, mas não aguentei nem ao inicio e dormi. Dessa vez eu realmente dormi como queria e no domingo acordei um pouco mais das onze horas.

-Bom dia. – Megan dobrava o pijama que tinha usado.

-Bom dia. – Esfrego os olhos. – Pode deixar ai que eu arrumo depois.

-Vá tomar seu café e um bom banho.

-Já acordo com as suas ordens. – Tiro a coberta de cima do meu corpo e levanto. – Já tomou seu café?

-Faz tempo. – Riu. – Já tomei banho, já limpei a cozinha. Não precisa me agradecer.

-Vá à merda, Meg. Obrigada. – Atiro um beijo pra ela, que ri e atira outro.

-Daqui a pouco sairei com o Caleb, tudo bem por você?

-Ah, claro. Vão se divertir.

-Vamos ao cinema.

-Depois para o motel, qual a novidade?

-Vá à merda. – Satirizou o que eu disse e fez sinal para que eu fosse tomar meu café.

Quando passei pela sala, Lana me viu e veio correndo em minha direção. Me abaixei para abraçar minha pequena e já pus um largo sorriso no rosto por vê-la sorrindo e correndo novamente. Era somente a falta do seu pai.

-Bom dia, vida. Já tomou café?

-Bom dia. Há muito tempo mamãe. Já quero almoçar.

-Meu Deus, pra onde vai tanta comida? – Passo a mão sobre a sua barriga e aproveito para fazer cócegas. – Quer fazer companhia para a mamãe?

-Estou brincando com o papai, quer brincar com a gente?

-Ah. – Procuro nem olhar para a sala, só de pensar já sinto que virá aquele canhão trevoso de carga pesada pra cima de mim. – Depois eu brinco, ok? Agora vou comer, porque saco vazio não para em pé.

A pus no chão e fui para a cozinha. Megan havia deixado tudo pronto sobre a bancada, com a telinha de proteção sobre as comidas e o controle da televisão ao lado. Até ri de fofura que minha amiga teve comigo.

Depois que Megan foi embora e que já havíamos pedido o almoço – guardaria o meu para mais tarde, já que meu almoço foi meu café -, sentamos na sala, estranhamente Bruno e eu no mesmo ambiente sem ele estar com uma cara de bunda.

-Você é essa. – Entregou-me uma Barbie. – E o papai é essa. – Entregou outra pra ele.

-Qual é o meu nome? – Perguntei.

-O que você quiser.

-Ok.

-Eu sou o Shrek. – Bruno fez um barulho, imitando um ogro e Lana caí na gargalhada.

-Você não pode ser o Shrek, papai. – Balançou a cabeça como se aquilo estivesse muito errado. – Você é uma princesa.

A sala estava uma completa bagunça. Lana trouxe até mesmo alguns acessórios meus e maquiagens velhas que dou para ela brincar quando ela quer, desde que não suje seus brinquedos e suas bonecas, esse é o combinado.

Em poucos minutos Lana não quis mais brincar de Barbie e começou a pegar as maquiagens. Pegou o batom e tentou passar na sua boca. Imitou o gesto que sempre faço para ajustar qualquer borrão e me fez ter convulsões alegres por isso.

-Agora sua vez! – Abriu um pouco mais o batom, o grande detalhe é que já estava todo aberto, sorte que é usado então estava com a ponta bem menor e não estava muito propício a quebrar.

-Eu? – Bruno ri. – O que vai fazer?

-Vou deixar você bonito, papai.

Comecei a rir e ele também. Senti algo bom quando ele me olhou e riu.

-Lana, você está dizendo que eu sou feio?

-Não, papai. Mas isso melhora.

-Então eu preciso melhorar? – Tadinha, já estava ficando confusa e eu rindo de toda a situação.

-Ai, papai. – Agiu como se estivesse impaciente, mas colocou um sorriso no rosto. Que atriz essa menina. – Você é lindo. E você também, mamãe.

-Obrigada. – Agradeço a ela.

-Fecha a boca. – Pede para o seu pai e ele a obedece.

Lana passa o batom como acha que deve ser passado. De inicio ela não erra muito, mas também só passa no meio. Em pouco tempo começa a preencher os lábios, e o batom começa a riscar até as bochechas do Bruno.

-Que lindo. – Ela diz quando determina que acabou. – Agora vamos por isso.

Pegou uma tiara antiga que tinha e tentou achar como usa-la certo. Achou o modo e colocou na cabeça do Bruno sobre seu cabelo.

-O que é isso? – Pergunta mostrando pra mim.

-Uma pulseira. – Respondo e ela fica olhando pra ele, procurando onde pôr.

-Onde coloca?

-No pulso, meu amor.

-Ah. – Colocou no pulso do pai, com dificuldade, pois não entrava direito pela sua mão. Diferenças de masculino para feminino.

Lana pegou até uma sombra antiga e passou no seu pai. Ele estava “lindo”, mas o que era mais lindo era seu sorriso largo. Minha princesa também estava feliz, enfeitou todo o seu pai e se enfeitou também, mas depois não sabia do que iriam brincar. Me pediu lápis e papel, pois ia desenhar um quadro para nós.

A tarde passou com várias brincadeiras, nos divertimos bastante, mesmo não dando uma palavra com o outro. Rimos e fazemos Lana feliz após tantos dias de apreensão e choro da pobrezinha.

Jantamos e arrumamos Lana para dormir. Contei a sua história, mas parei para que Bruno pudesse cantar pra ela.

Tomei meu banho e pus meu pijama. Segunda feira estava chegando e seria mais um dia de trabalho pela frente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Capítulo 48



Ouça seu coração enquanto ele está chamando por você
Ouça seu coração, não há nada mais que você possa fazer
Eu não sei para onde você está indo
E não sei por quê
Mas ouça seu coração antes que você diga-lhe adeus
(Listen to your heart - Roxette)


Eleanor Pov's

Assim que saí do trabalho na quarta feira, avisei a Umma por mensagem que iria sair e voltaria à noite, mas que não era para se preocupar. Peguei uma condução até o apartamento do Kenji e toquei sua campainha.

-Boa noite. – Sorrio pra ele, me encostando na lateral da porta.

-Não seria boa tarde? – Arqueou uma sobrancelha e sorrio, sugestivamente.

Nos aproximamos para beijar-nos e assim entrei no apartamento, aos beijos com ele. Paramos por um tempo para que ele ajeitasse algo e ligasse pra sua mãe e eu fiquei esperando. O apartamento é legal, pequeno e bem aconchegante. Há aquela bagunça de homem, mas nada que não seja normal. Larguei minha bolsa sobre o sofá e ele me encontrou por trás, abraçando meu corpo e dando beijos em minhas costas, afastando meu cabelo e voltando-os para meu pescoço e nuca.

-Quer assistir um filme?

-Sério que você chega assim em mim e pergunta se eu quero assistir um filme? – Viro-me de frente. – É, praticamente, uma insulta.

-Não queria ser direto ao ponto, vá que você não quisesse e somente quisesse minha companhia.

-E quero. – Passo a mão no seu rosto. – De qualquer forma.

Tomo a iniciativa de beijar a sua boca e uma das suas mãos foi diretamente para minha nuca, puxar meu cabelo com força, como fazia sempre que íamos para a cama. Nos afastamos do sofá indo pro seu quarto que é ao lado.

Retiramos nossas roupas, sem perder o contato visual. Não ficamos juntos há uma semana, mais ou menos, e desde sábado, naquela boate, eu preciso transar, preciso que alguém me preencha e me dê prazer.

Kenji me tocou na cama, beijando minhas coxas com vontade e puxando minha calcinha pra baixo. Molhou seus dedos e introduziu dois em minha intimidade bem molhada. Sua língua começou o trabalho, mas eu nem estava ansiosa pra isso. Seu oral não é bom! Sua língua fica dura, ele não sabe ao certo quando parar e muitas vezes me deixa somente na vontade, ou baba demais ou deixa tudo muito seco, que se não fosse a minha lubrificação natural, eu estaria ralada. Seus dedos não conseguem acompanhar o ritmo da sua língua... Enfim, o oral não é uma das melhores partes.

Em compensação, quando Ken arranhou minha barriga e se posicionou entre minhas pernas, senti seu membro entrar em mim e já fiquei doida. Não é o maior nem o mais grosso que experimentei, mas seu rebolado e maneira de usar conseguem me deixar doida.

Arqueei minhas costas, gemendo com vontade, enquanto instigava meus mamilos.

-Senta em mim. – Me pede, pegando seu pênis com a mão e masturbando-o.

Esperei que ele sentasse na cama e ajeitei-me sobre o seu colo. Sentei até o talo e rebolei, deixando-o louco e deixando-me também. Meu clitóris estava duro, eu queria gozar, mas não iria conseguir com ele, não dessa forma.

Estávamos suando e quentes, ambos ofegantes. Kenji pediu que eu saísse do seu colo, retirou sua camisinha e se masturbou enquanto olhava para meu corpo. Usei meus dedos para estimular o meu prazer. Fechei meus olhos e me masturbei, sentindo minhas pernas se fecharem automaticamente e Ken as abre e beija entre elas.

Não foi um gozo, não foi um orgasmo, foi apenas a vontade contida expressada no carinho da maneira que eu gosto.

Ofereci um sorriso pra ele, que mostrou sua mão gozada e fez uma cara de nojo.

-Vá lavar isso. – Imito sua careta.

-Já volto, vou tomar um banho rápido. – Levantou-se da cama. – Quer vir junto?

-Não. – Atirei um beijo pra ele e quando saiu, arrumei minha roupa, vestindo apenas minha lingerie.

Nojento, mas prefiro ir embora sem banho do que tomar banho e pôr a mesma roupa íntima que antes.

Fico deitada na cama que estou desacostumada e olho para o teto. Preciso fazer meu trabalho sozinha quando chegar em casa e chegar ao orgasmo de uma vez. Realmente, sábado foi um dia fora do comum, fora do que estou acostumada. Fiquei bem por ter experimentado coisas novas e não me arrependo do que aconteceu. Todos merecemos viver.

Ouço a campainha e levanto correndo da cama. Coloco a sua camisa que não fica tão grande em mim, por ele também ser magrinho, mas fica comprida por ele ser mais alto.

-Já vai. – Digo, ajeitando o cabelo para abrir a porta. – Hã?

Bruno Pov’s

O estúdio estava chato, o dia estava meio pesado e nada produtivo. A inspiração não estava batendo em ninguém, muito menos em mim. Ainda estava com a pulga atrás da orelha sobre o dia de ontem, mas o tratei normalmente. Mas volta e meia eu lembrava daquela maldita mensagem no celular dele pensando que aquela Eleanor pode ser a minha Lea, e que ele finalmente tenha conseguido o que queria.

No meio da tarde, Kenji estava no celular. Fiz de tudo para conseguir me aproximar até ter a brilhante ideia de ir até a cozinha pegar algo na geladeira. Eu tinha acabado de comer, mas comeria mais alguma coisa somente para ouvir com quem ele falava.

-Tudo bem. – Concordou. – Eu espero você lá, já estarei em casa. – A pessoa falou algo e ele respondeu com um “sim”. Kenji coçou a cabeça, fazendo cara de pensativo. – Aqui tá tranquilo, o dia só não está muito produtivo. – Pra quem ele falava isso? Odeio ser curioso. – Até a noite então. Bom trabalho!

A noite? No apartamento dele?

Eu preciso saber quem é!

π

Se for certo ou não, eu não estava nem aí. Avisei para Umma que chegaria um pouco mais tarde e, assim que saímos todos do estúdio, passei no supermercado. Fiquei um tempo ainda escolhendo o que levar e acabei optando por queijo e cerveja, vou dar a desculpa de um jogo de futebol, assim se a mulher que estiver lá não for a Lea – Deus queira que não, ou me dê um calmante se for, porque sei que não responderei por mim -, posso empatar a foda dele e ficar pra assistir o jogo da Liga, bebendo uma cerveja com meu amigo.

Simples.

Fui até ouvindo música no carro, pensando em qualquer coisa que não me fizesse pegar o celular e ligar para a Lea para saber onde ela estava. Me contive o tempo todo.

Pedi ao porteiro que não avisasse, ele já sabia quem eu era e se ele não quisesse interrupções, iria pedir para ele avisar que eu não poderia subir pois estava ocupado. Subi dois lances de escadas, recuperei rapidamente meu fôlego e criei coragem para bater na porta.

Ouço alguém falar algo, mas não presto atenção.

Meu pé bate impaciente no chão, e eu, mesmo que inconscientemente, prendo a respiração quando ouço o barulho da porta destrancando.

Quando ela finalmente se abre, e eu praticamente posso sentir o chão sair dos meus pés. Lá está Eleanor, minha Lea. Vestindo uma camisa dele! A camisa que ele estava há pouco tempo no estúdio... Descabelada...

Engulo em seco, sem conseguir falar nada. Aparentemente, Lea faz o mesmo. Nenhum de nós dois sabia o que fizer de imediato.

-Bruno... - Foi a primeira a falar.

Eu queria gritar com ela, berrar e reclamar como uma criança, e iria. Se ele não tivesse aparecido, surgindo no meu canto de visão. A imagem seria cômica em outro momento, seus olhos arregalados a distância. Vestia apenas uma cueca, e me sangue fervia só de imaginar o que estavam fazendo antes de eu interrompê-los.

-SEU FILHO DA PUTA! - Berro, derrubando a sacola da minha mão.

- Bruno! - Lea tenta me parar, mas eu a afasto do caminho e atravesso o apartamento em poucos passos.

- Bruno... - Kenji tentou me acalmar, mas eu estava possesso.

-BRUNO? BRUNO O CARALHO! - Empurro-o com as duas mãos, fazendo suas costas baterem na parede. - EU TE DISSE PRA NÃO CHEGAR PERTO DELA, KENJI! EU TE DISSE!

-Calma, cara. - Respira fundo, tentando me afastar. - Ela é solt...

-VOCÊ SABIA QUE ELA ESTAVA COMIGO, DESGRAÇADO!

-E você estava com mais quantas? - Ainda teve a audácia de perguntar, erguendo o queixo. Acerto meu punho em seu rosto assim que ele termina de falar, descontrolado, e ouço o grito estridente da Lea.

-CALA A PORRA DA BOCA! ELA SEMPRE FOI MINHA, CARALHO! EU TE DISSE, NÃO DISSE? - Aperto minha mão em seu pescoço, levantando-o o máximo que posso. - QUANTAS VEZES ISSO ACONTECEU, KENJI? QUANTAS, PORRA?

-MUITAS! - Grita pra mim, e vejo Lea desesperadamente pedi-lo para parar de me atiçar. - QUER BATER EM MIM? - Kenji continua a gritar. - VÁ! BATA EM MIM, BATA COM RAIVA POR SABER QUE EU NÃO ESTOU ERRADO!

-CALA A BOCA! - Lhe acerto com um murro no estômago, depois o empurro novamente. - SEJA HOMEM E REAJA, TRAÍRA! NÃO É HOMEM PRA COME-LA?

-BRUNO! POR FAVOR! - Eleanor ainda está gritando.

-NÃO, LEA! DEIXA ELE DESCONTAR A RAIVA! ELE SABE QUE ESTÁ ERRADO! SABE QUE NUNCA TE TRATOU COMO DEVERIA!

-NÃO FALE DO QUE NÃO SABE, SEU BABACA! - Tento lhe acertar novamente, mas ele desvia e meu punho bate na parede.

-Sabe que está errado, não sabe? - Passa a mão pelo sangue em seu nariz, tentando soar sarcástico. - Você sabia que alguém iria vir tirar seu lugar, Bruno, sempre soube. É como dizem... Quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta!

-EU MANDEI CALAR A BOCA! - Tento acertá-lo repetidas vezes, no rosto, no estômago, onde consigo, mas o desespero é muito grande para haver alguma coisa que realmente o machuque.

Kenji não tentou me bater uma vez sequer, e eu tenho certeza que é por Eleanor estar ali. Ele não é burro, nem perto disso. Apenas desvia de meus golpes, segura meus braços e me empurra para longe, o que apenas me faz voltar com mais ódio.

-PARA, POR FAVOR! - As duas mãos de Eleanor agarram meu braço. - POR FAVOR! BRUNO!

-SAI DE PERTO DE MIM, LEA. - Puxo o braço com força. Repito mais baixo, respirando exasperado. - Não fica perto de mim!

-Você está maluco? – Diminuiu seu tom de voz. Seu rosto completamente apavorado me faz pensar que eu só estou fazendo a coisa certa.

-Não te interessa. – Me esquivei novamente do seu toque. – Não encosta em mim.

-Bruno...

-Lea, deixa ele de lado. – Kenji põe a mão sobre o ombro dela e a primeira coisa que consigo ver é seu rosto em forma de alvo.

Parto para cima dele novamente, esbaforido, errando socos no ar e acertando alguns em seu rosto. O deixo cair sobre o sobre e chuto sua perna. Meu sangue ferve de raiva! Eleanor toca em meu braço me deixando mais possuído ainda. Esquivo-me do seu toque novamente e berro para o Kenji e qualquer outra pessoa ouvir.

-Eu não precisava ter feito isso se você soubesse ouvir e não mexer com quem não lhe pertence.

-Eu não sou um objeto! – Pega forte em meu braço. – Eu não sou sua. Eu não sou um brinquedo, muito menos um objeto. Me respeite, eu tenho as minhas escolhas...

-Que é uma merda. – Aponto para o Kenji.

-Você está se doendo porque ela escolheu ficar comigo? Porque nós estamos nos dando bem, ou porque perdeu sua companheira de foda? – Não sabia ao certo o que responder. Só queria quebrar a cara de otário que ele tem até deixa-lo sem respirar.

-Cala a merda dessa sua boca! – O empurro novamente pro sofá.

Empurro Lea que tenta novamente encostar em mim e aproveito que ele tenta se levantar novamente e dou mais um soco em seu rosto. Kenji cambaleia pra trás, colocando a mão sobre onde acertei, no canto da sua boca, e prontamente vejo sangue aparecer ali. Nada alarmante, apenas um pouco, mas por mim já teria deixado sangrando até a morte.

-O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? ESSA NÃO É A SUA CASA, BRUNO.

-E NEM A SUA! – Grito de volta. – VÁ AJUDAR O SEU AMIGO, VAI!

-EU VOU MESMO. – Passou por mim indo até o encontro dele. – VOCÊ É UM MONSTRO. Você está bem, Kenji?

Ri da pergunta idiota que ela fez. Se ele está bem...É claro que não. E estaria bem pior, mas eu preciso me conter. Caminho até a porta, chuto as cervejas que estão no chão, uma delas havia quebrado pelo cheiro e o líquido no chão. Ouço Kenji falar algo de mim, nem presto atenção no que é, somente abaixo-me entre as quatro garrafas de cerveja e pego uma.

Miro na sua cabeça e atiro, mas ele se esquiva e Lea grita apavorada. Continuo caminhando até as escadas e as desço com pressa. Sorrio ainda para o porteiro e pego meu carro.

Não quero pensar no que aconteceu agora, nem no que irei fazer depois. Mas esse filho da mãe me paga, ele que se prepare.

Eleanor Pov’s

Não era só eles que estavam com raiva, eu também estava. Tremia meu corpo vendo Kenji todo machucado em minha frente e sabendo que a culpa, indiretamente, era minha. Era interessante o motivo que fez Bruno fazer aquilo com ele. Tão interessante que até agora eu não tinha compreendido, só sei que estava com nojo dele e queria que ele realmente me explicasse o que estava acontecendo e o que aconteceu.

-Eu não sei o que fazer. – Passava o pano sobre suas escoriações. – Estou com tanta raiva. Ainda não entendi o que aconteceu aqui.

-Lea. – Passou a mão sobre meu cabelo, dando um sorriso bem dolorido. – Vá pra casa, vá se resolver com ele, depois nós conversamos.

-Não irei deixar você assim. – Balanço a cabeça. – De jeito nenhum. Você não merece isso.

-Eu entendo que esteja se sentindo assim, mas tente entender que você precisa ir pra casa.

-Não preciso! Ele tem que ficar sozinho, tem que pensar no que fez. – Esbravejo, jorrando as palavras. – Eu odeio tanto ele, Ken. Me desculpe. – Apoio minha cabeça em sua perna.

Estou ajoelhada em sua frente, enquanto ele está da mesma maneira que Bruno o deixou ali, de cueca, com o banho recém tomado e todo escoriado e machucado. Era terrível vê-lo assim e só fazia a raiva crescer mais. Se tem uma pessoa que não merece isso, essa pessoa é o Kenji.

-Isso é momentâneo. – Se inclina e dá um beijo em minha testa, gemendo de dor. – Vá pra casa, converse com ele.

-Não quero. – Choramingo.

-Não quer porque está com medo de encarar? Ou porque quer ficar comigo por remorso?

-Não! – Balanço a cabeça negativamente. – Quero ficar com você porque preciso cuidar de você. É culpa minha. – Apontei para o meu peito.

-Então vá. – Disse baixinho. – Você tem a Lana para se preocupar. Nunca sabe o que pode rolar, ele pode acabar se estressando em casa e acabar passando pra Lana. Vá lá, fique com ela. Depois nós conversamos. Ok?

-Você é de ouro. – Admiro seu gesto.

Ao observar aquela reação tão positiva do Kenji, que é o mais prejudicado nessa história, só me fez ter mais raiva do Bruno. A cada “ai” que eu ouvia que envolvia o seu nome me fazia ter nojo do que ele fez hoje. E nada, nada justificará isso!

Seu altruísmo me deu coragem de levantar e arrumar-me, precisava chegar em casa e pôr tudo na mesa. Não iria aguentar um segundo a mais com aquela raiva contida, iria despejar nele muitas coisas que estou guardando no meu peito. A gota d’água foi ele mesmo quem decretou, agora ele terá que ouvir até a última palavra.

-Eu volto, ok? – Beijo sua testa e passo a mão em seu cabelo, misto molhado do banho e suor.

-Só tenha calma, saiba falar e escutar. – Novamente ofereceu-me um sorriso dolorido.

Era impossível saber escutar, eu precisava era falar e falar muito.

Não tive paciência para esperar nada. Ataquei um táxi na rua e vim torcendo para que eu tivesse dinheiro o suficiente para pagar a corrida.

Desci na frente e vi seu carro estacionado perto do portão, pelo lado de dentro. Abri a porta e dou de cara com ele passando para o seu quarto, sem camisa e ofegante. Não ouvi a voz da Lana, muito menos da Umma. A casa estava mais silenciosa. Parto atrás dele até o seu quarto e quando ele bate a porta, uso minha mão para segurar.

-Que merda você foi fazer, Bruno?! – Jogo minha bolsa para o lado. – Hein?

-Eleanor, por favor, saia do meu quarto. – Pegou um punhado de roupas que estava sobre a sua cama e socou na mochila de qualquer jeito.

-Não vou sair! – Implico com ele. – Argh. Eu quero entender que merda foi aquela, cara. Quero entender! – Arrastei minhas mãos pelo meu rosto, passando pelos meus cabelos.

-Foi uma briga, não sabe ver?! – Grosso, estúpido.

-Sei, eu sei ver. Sei sentir. – Tentei conter minha raiva, um pouquinho que fosse. – Queria entender o...

-O por quê? – Bruno larga o que estava fazendo e olha fixamente pra mim. – Você foi baixa! Ele era meu amigo. Tantos homens no mundo e justo ele, Lea?

-E o que é que tem isso haver? Ele é seu amigo, é meu amigo também. Assim como nós fomos para a cama várias vezes, eu poderia ir com ele também, certo? Sou dona do meu corpo!

-Eu sei que é, mas não é bem assim. Isso é ser sem vergonha.

-E o que você faz é bonito? Não é nada sem vergonha?

-O que eu faço?

-As mulheres, as noitadas, as preocupações que me causa quando não atende a merda do telefone. A importância que eu deixei de ter em sua vida...

-Não viaja, Eleanor. – Arregalou seus olhos. – Da onde você tira tanta merda, hein?

-Não é merda, caralho. Não é! Sou eu que fico aguentando tudo, sou eu que falo e você não escuta. Se pra você está tudo bem, pra mim não está. Me chama de bipolar, mas você é a mesma coisa.

-Tá, tá, tanto faz. – Deu as costas pra mim.

-Ah, você vai falar comigo. – O alcanço e puxo seu ombro. – Ouviu?

-Só estou ouvindo você falar.

-Então fala! Começa!

-Primeiro que eu bati nele porque quis. Está bom assim, ou precisa de mais?

-Porque quis? – Satirizo. – Poupe-me! Quero saber o por quê!

-Pra que quer saber?

-Como sabia que eu estava lá?

-Eu não sabia, foi uma coincidência.

-Ah sim. – Começo a rir. – Coincidência grande, não é? Que colidiu juntamente com o motivo de você ter batido nele, que segundo você, foi porque ele merecia. Mas merecia por quê?

-Para de me confundir. – Deu dois passos em frente, seus olhos saíam fogo, não eram mais faíscas. – Quer ouvir o motivo?

-Quero! – O encarei e ele não disse nada. Apenas ficou me encarando, olho no olho. – Porque?

-Eu te dei tudo, Lea. – Gesticulou ao seu redor. – Tudo!

-O que isso tem haver com meu relacionamento com o Kenji?

-Relacionamento? – Engoliu a seco e repetiu a pergunta.

-Sim.

-Há quanto tempo essa palhaçada existe?

-Dois meses, por aí. – Dou de ombros.

-Você... – Apontou o dedo para o meu rosto.

-Não me chame de nada que possa se arrepender depois, pois você sabe como será ruim pra você, já que eu não irei esquecer.

-Eu não ia. – Começou a rir nervosamente. – Ok, Lea. O que você quer?

-Quero a porra de um motivo! Seu amigo está lá, atirado na sala dele porque você entrou na casa dele e o agrediu. Já parou pra pensar que essa foi à atitude mais covarde que poderia tomar?

-Eu agi por impulso. Se você não estivesse...

-Se eu não estivesse lá?

-Se você não tivesse ficado com ele... – Baixou seu tom de voz por alguns segundos. – Não quero saber os motivos que te levaram a fazer isso, mas pelo jeito foi bom e bem, eu não quero interromper nada.

-Deixa de ser idiota. Se você tem o direito de ficar com muitas mulheres, porque eu não teria o mesmo? Até onde eu saiba não temos nada compromissado um com o outro.

-Você faz o que quiser, não é mesmo?

-É mesmo, mas se cada vez que eu fizer o que eu quiser, você tiver uma atitude dessas que teve, eu não poderei fazer mais nada.

-Então me diz isso. – Segurou minha mão novamente. Dessa vez não desvio. – Porque ficou com ele? Porque com ele? Porque me...

-Te trai? – Franzo a testa. – Eu não te trai. Como posso trair um relacionamento que não existe?

-Traiu minha confiança. Digo... O Kenji! Havia tantos outros caras.

-Eu não trai a sua confiança, Bruno. Entenda que eu não fiz nada que você já não tenha feito milhares de vezes com milhares de mulheres, somente fiz com seu amigo.

-O que acharia se eu transasse com a Megan?

-Normal. – Nunca que acharia normal, iria ficar muito irritada, mas com ciúmes. E sei que eu não deveria sentir isso porque não somos nada oficialmente, então não teria uma atitude tão tosca quanto a que ele teve. – Iria ficar apenas achando estranho, até pelo fato do Caleb ser seu amigo.

-Ah, Lea. Me poupe! – Disse num tom mais alto. – Você não vê que errou e ponto?

-Eu errei? Um caralho, Bruno! Vá à merda, quer saber, ache mesmo que eu errei porque não preciso provar nada pra você, estava apenas tentando diminuir a fumaça, mas se você quiser tocar fogo em palha, o problema é seu. O amigo é seu, eu sei que eu estou com minha consciência tranquila, ele também ficará tranquilo, e é você que está fazendo essa tempestade. – Despejo um pouco do que estava segurando em meu peito.

-Mais alguma coisa?

Evitei responder, não queria abrir a boca para deixar a situação pior.

Virou-se para sua cama e voltou em sua função com a mochila.

-Então é isso? – Pergunto enquanto observava ele revirar a mochila mais uma vez e puxar uma camisa.

-Isso o que?

-Você ficando bravo comigo, nós discutindo, e você sabendo que a Lana se afeta com essas coisas.

-Não envolve a Lana nas suas merdas.

-Esfrega mais uma vez na minha cara que ela não é a minha filha, que ela não é nada minha. É normal você fazer isso!

Sabe aquela raiva, aquela vontade de socar a cara dele? Se transformou numa coisa estranha que me faz ter vontade de chorar e lamentar pelo que aconteceu.

Deixei que uma única lágrima escapasse dos meus olhos, mas Bruno não viu, ele estava ocupado demais para prestar atenção no que estava acontecendo, como sempre ele estava ficando.

-Preciso me trocar. – Apontou para a porta.

-Você é um idiota. – Dei as costas pra ele, juntei minha bolsa e sai do quarto dele.

Andei até a frente do meu e esperei para entrar. Nada estava fazendo sentido em absolutamente nada. Não lembro quando isso virou um rebu. Prendo meu cabelo quando entro, separo uma roupa e pego um remédio para dor de cabeça. Busco a água na cozinha e quando retorno para meu quarto vejo apenas o vulto do Bruno saindo pela porta da frente.

Corro até a porta e o vejo com moletom de capuz, mochila nas costas e apressado.

-Bruno? Aonde você vai? – Pergunto para ele que finge não me escutar. – Bruno?

-Que? Não te interessa, me larga de mão!

-Vá pro inferno. – Digo baixinho, brava com suas atitudes.

Fecho a porta e ignoro o fato de que ele irá sair.

Somente quando entro para o meu quarto lembro da sua mochila em cima da cama, da quantia de roupas que ele estava enfiando e da sua pressa para sair. Onde é que ele foi e porque não avisou?

Onde está a Umma? A Lana?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Capítulo 47


Deve ter sido amor, mas acabou agora
É para onde a água flui
É para onde o vento sopra
(It must have been love - Roxette)


Dez de março de dois mil e doze

Duas horas antes de sairmos, na hora da janta, alguma mulher ligou para o Bruno. Alguma das mulheres que ele anda, pois ficaram falando no telefone enquanto ele passava o momento da janta com a sua família. Mas ele mal respeitou, apenas continuou usando o telefone e não prestando atenção no que eu falei, até que desisti. Tirei a comida da mesa e carreguei a Lana junto comigo para arruma-la.

-Se comporta na casa da titia, ok?

-Vou brincar bastante. – Mexeu no meu cabelo enquanto eu arrumava o casaquinho no seu corpo.

-Vai sim, mas tomando cuidado, ok?

-Ok. – Balançou a cabeça.

Havíamos dado o final de semana para Umma aproveitar, já que Jaime fez questão de ficar com a Lana para passar um tempo com a sobrinha.

Observo a pequena grande menina que ela está se formando. Tão grande, mas tão pequena e vice versa. Parece que há dias atrás eu a peguei no colo, a senti na barriga da sua mãe, disse que ela poderia se chamar Lana, disse ao Bruno ficar tranquilo que uma filha não atrapalharia em nada... E olha agora! Sério, como ela pode crescer tanto? Ficar tão esperta a cada dia que passa. É tão impressionante.

-Quando irei ter um irmãozinho como o Marley tem o Jaimo? – Olha nos meus olhos e eu procuro a cama para sentar.

-Isso tem que pedir para o seu papai. Acho que quando ele arranjar uma namorada ele conseguirá um irmãozinho para você brincar.

-Mas a namorada dele é você. O que é namorada?

-Namorada é quando você gosta tanto de alguém que quer essa pessoa só pra você.

-Você e o papai são meus namorados. – Sorri de orelha a orelha. – E meu titio, meu priminho. As titias e meus outros priminhos, a tia Megan, a vovó Appril, os vovôs, a vovó Bernie... É muito namorado. – Fez uma carinha fofa, me obrigando a puxa-la e abraça-la, apertar bastante suas bochechas e enche-la de beijo até ouvir aquela gostosa gargalhada.

-O tio Caleb eu não quero pra namorado.

-Porque não, princesa?

-Porque ele fez a tia Megan sofrer.

-O que você sabe disso, bebezão? – Começo a rir da minha pequena querendo parecer mais adulta. – Vamos lá?

-Vamos, só deixa eu pegar o Teddy. – Correu até sua estante de pelúcias e puxou o Teddy que estava na parte debaixo, mas acabou derrubando quase todos que estavam ao lado dele. – Ih, mamãe. – Deu um riso sapeca e saiu correndo.

Juntei os ursos, rindo dela e das suas palhaçadas. Bom humor que puxou ao pai – quando quer. E voltei para a sala.

Bruno estava no celular ainda, só sorrisos com seja lá quem estava falando, e usou o handsfree para poder continuar falar com essa pessoa enquanto dirigia. Fechei o rosto o caminho todo. Ele desligou, nós largamos a Lana na casa da Jaime e fomos para casa novamente.

-Que cara estranha é essa? – Pergunta super indelicado.

-Tá feia? Porque é a única que eu tenho. – Bufo olhando para as ruas através da janela.

-Tá linda, parece um cu.

-Cala a boca, Bruno, por favor. – Bufei novamente e ele riu.

-O que estava falando com a Lana no quarto?

-Sobre namorados.

-O quê? – Arqueou as sobrancelhas desviando rapidamente o olhar do trânsito para mim.

-Isso mesmo. – Pigarreio. – Ela queria saber quando iria ganhar um irmãozinho, eu disse a ela que quando você arrumasse uma namorada, aí ela perguntou o que era namorada e eu falei que é quando você gosta muito de uma pessoa que a quer somente pra você e ela começou a listar todos que queria como namorado. – Falei toda a história e só no final fui perceber que ele não estava nem aí para o que eu estava falando. – Esquece. – Desfiz o sorriso que estava em meu rosto e voltei a observar a rua.

Nesses dois meses que ele passou diretamente fora de casa, ele deu notícias suas e tudo mais, mas nada como era. Ele preocupava-se com sua filha na maior parte do tempo, mas desde que chegou, antes de ontem, não parou pra conversar comigo. Ficou no seu celular ou nem prestava atenção em mim. Cansativo isso.

Não sei se ele entendeu, mas eu senti sua falta. Senti saudades dele e da sua voz. Assim como a Lana.

Mas, ainda bem, que tenho Kenji para me deixar feliz. Não somente pra isso, claro. Estamos nos dando bem, combinamos legal e matamos nossas vontades juntos. Bruno muitas vezes teve compromissos dos quais não precisavam da banda, então eles voltavam para Los Angeles, e nós nos encontrávamos. Acho que Bruno nunca suspeitou de nada sobre isso.

A roupa estava sobre a cama, somente entrei para o meu banheiro e tomei meu banho.

Vesti minha roupa e fiz minha maquiagem, soltando meus cabelos da hidratação caseira que fiz a tarde e aproveitando a maciez e brilho que ele estava. Calcei meus saltos e fiquei na sala esperando ele aparecer, mexendo no celular e tweetando algumas coisas desconexas.

-Vamos, rainha?

-Claro. – Levantei-me e senti seu olhar de cima a baixo na minha roupa.

-Que saia mais curta... – Levantou uma sobrancelha e ficou encarando minhas pernas. – Se quer minha opinião, eu não iria com essa roupa.

-Que legal. – Caminhei até a porta. – Porque eu não quero sua opinião. – Abri a porta e sai antes dele.

-Dre não irá nos buscar. – Falou da porta. – Vamos entrar pela garagem.

-Porque não avisou antes? – Reviro os olhos.

-Porque a rainha não me ouve, não gosta de opiniões.

-Cresce, Bruno! – Passo por ele, dando um tapinha em seu braço e oferecendo um sorriso irônico.

-Bem eu que tenho que crescer, não é? – Foi resmungando atrás de mim, parecendo um velho.

Entrei no seu carro no banco do carona, puxei o cinto e esperei que ele entrasse. Mexi no meu celular por algum tempo e ele saiu de casa, dando um tapa na minha mão e deixando meu celular cair nos meus pés.

-Pra que isso, seu imbecil? – Tirei o cinto para que pudesse pegar o celular.

-Pra você parar de prestar atenção nessa coisa.

-E prestar atenção onde? Em você que mal olhou pra mim desde que chegou? Que eu falo tendo um monólogo, pois você não responde? – Despejei o que queria dizer. – Sabe que eu não sou assim, não irei implorar a sua atenção.

-Eu sei. – Parou o carro. – O que quer de mim é atenção? – Virou seu corpo para o lado, puxando meu rosto para frente do seu, praticamente grudado. – Você terá.

Beijou-me a força, coisa que eu não correspondi, apenas fiquei parada sentindo e vendo ele tentar introduzir sua língua em minha boca, em morder meus lábios.

-Não sei o que você quer. – Voltou para o jeito que estava antes e começou a dirigir novamente. – Sinceramente.

Disquei o número da Megan e dei alô, ignorando completamente o que ele estava falando comigo. Não queria começar a discussão agora, mas também não queria falar com ele e ignorar o fato de que ele está frio comigo.

Bruno Pov’s

Já tinha tomado mais de quatro doses de whisky e para mim estava de bom tamanho. Minha visão estava levemente turva e eu não queria ficar bêbado nessa noite. Eleanor ainda continuava a dançar em minha frente, mas não pra mim. Focava seu olhar para a pista e para a sua dança. Atraía olhares de muitas pessoas, até mesmo do Ryan. Ela estava acompanhada de uma menina, amiga de Megan que virou sua amiga também, uma latina como ela, linda.

-Precisa de babador? – Pergunto, chegando perto deles.

-E esse ciúme? – Phil esbarrou no meu braço, rindo a beça.

-Ciúme? – Rio. – O problema é que vocês acham que eu sou bicho preso. Não sou. – Pego o copo da mão do Ryan e bebo um gole.

Largo logo, pois lembro que não iria mais beber.

-Vou avisar pro Kenji dançar mais perto dela. Tudo bem? – Ryan diz, apontando para o Kenji na pista.

-Tudo bem. – Dou de ombros.

Por uns dez minutos vi os dois dançarem. Estavam separados no inicio, depois os corpos ficaram bem colados, mas logo ela separou para beber e ficaram um pouco afastados, já que ela estava com o copo na mão.

Eu definitivamente odeio discutir com ela, me sinto um idiota, porque essa idiota sempre me vence e sempre consegue me deixar com raiva de mim mesmo, fazendo-me martirizar.

A vi ficar bem próxima da sua amiga e dançar com ela. As luzes da boate baixaram um pouco e a fumaça saiu. Ficou completamente impossível de ver o que estava rolando por ali. Por alguns segundos ficou tudo assim, mas quando já se passava quase um minuto que ela sumiu da minha vista, ouço uns gritinhos e alguém me cutuca no ombro.

-Vamos ter um show. – Ari ficou bebendo do seu copo, com a mão dada em sua namorada e olhando diretamente para o pole.

-O que é isso?

Arregalei os olhos quando vi que ela subiu no pequeno palco que envolve o queijo, junto da sua amiga. As duas começaram a dançar sensualmente roçando os corpos lindos uma na outra, deixando os rostos bem próximos e levantando os braços enquanto a outra passa o braço pelo corpo.

Instigante, sensual e sexy. Queria ver muito mais daquilo, mas não para todas verem, apenas eu e ela dentro do quarto junto com a sua nova amiguinha. Megan retornou com o Caleb e quando viu o que acontecia, deu um grito de incentivo. De canto já pude notar o olhar dele sobre as meninas no palco. Idiota.

-Tira a roupa. – Ouço algum homem falar perto de nós. Ajeitei meu chapéu e olhei novamente para elas, que já estavam com suas mãos no corpo antes, mas agora um pouco mais afundo.

-Tira ela de lá. – Puxei a Megan para pedir.

-Não. – Fez uma cara de nojo. – Ela está bem, está se divertindo.

-Megan! – Esbravejei. – Ela precisa sair de lá.

Estava olhando para a Megan e falando, quando os gritos aumentaram e até um assovio o DJ colocou. Olhei para a fumaça que novamente foi acionada e dentro de uns instantes vi que as duas estavam apenas de sutiã, com os corpos agarrados e os olhos penetrantes.

-Elas vão se beijar. – Ouvi Ryan dizer e Phil ri logo atrás de mim.

-Cara, isso tá ficando melhor do que eu pensava. – Kenji esticou-se no meio das pessoas que estavam ali para conseguir ver melhor.

As mãos da menina foram para o sutiã de Lea, e os lábios se pecharam. Primeira vez que minha garota beija outra garota. O beijo estava delicioso, eu podia sentir daqui. Não sei se sentia raiva por ela estar ali em cima, de sutiã, sendo desejada por todos, ou se fico com tesão das duas delícias que podem parar juntas na minha cama essa noite.

Eleanor pega um copo de qualquer pessoa que está perto dela e vira de frente para o povo. O DJ colabora colocando uma música bem mais animada e todos pulam, inclusive ela e a mulher, que bebem a bebida e se beijam novamente, vorazmente. A mão na nuca, puxando os cabelos deixando tudo mais gostoso, me dá um tesão sem igual.

-Eu disse que não ia ficar com ninguém essa noite. – Resmungo pra mim mesmo. – Que não ia mais beber por hoje. – Viro-me para a mesinha da nossa área. – Mas eu vou fazer tudo isso e na minha cama hoje para duas mulheres. Sejam elas, sejam outras, elas irão parar.

Levanto o copo que acabo de servir pra mim e bebo tudo de uma vez, aguentando a careta que iria vir pela queimação causada no meu corpo e servi mais uma dose. Peguei um pouco do cosmopolita que estava servido na nossa mesa, pedido pela namorada do Ari e misturei com uma das bebidas que ali estava.

Ingeri tudo observando o show que estava sendo dado lá em cima daquele pequeno palco. Algumas pessoas nem olhavam mais, outras ficavam vidrados. A mulher que está com a Eleanor estava pendurada no queijo, fazendo algumas coisas bem legais e Lea dançando ao lado. A vi incentivar Lea a tentar dançar naquela coisa, mas ela reclamou da saia que iria aparecer sua calcinha, tudo isso fazendo gestos lá em cima.

Não sei o que ela falou para a Eleanor, mas as duas se beijaram e ela criou coragem para tentar algo. Não teve tanto sucesso como a outra, mas no momento que ela conseguiu ficar com a cabeça baixa naquele negócio de ferro e girou para baixo com o auxílio da menina, todos viram suas pernas e sua saia que estava subindo.

-Eu vou tirar ela lá de cima. – Berrei dando um passo pra frente e sendo segurado no lugar.

-Deixa ela se divertir. – Megan me intimida, falando bem perto do meu ouvido.

-Eu vou pegar alguém.

Virei às costas para aquele showzinho que ela estava dando e procurei alguém em outra pista. Uma pista de músicas animadas, mas não eletrônica, estava do lado da nossa, e foi ali que eu parei. Não estava a mesma energia que a outra e as pessoas me olhavam sabendo quem eu era, parecia ter pessoas mais novas por ali.

Cuidei cada uma das mulheres solteiras, ou que pelo menos aparentavam ser, da pista e fui dançar com uma loira um pouco mais baixa que eu, de corpo magro porém peitos bem fartos.

Dancei rapidamente com ela, mas não adiantava, minha cabeça estava longe dali. Aliás, perto!

Voltei para a pista depois de alguns minutos na outra e vi Eleanor fazendo body shot naquela mulher. Ela ainda estava sem blusa, eu estava com vergonha da decadência, pensando sinceramente em tirá-la de lá. Olhei para o Phil que levemente arqueou as sobrancelhas, ele também estava esperando que eu tomasse uma atitude.

-Vou ir lá.

Caminhei dentre algumas pessoas e sorri de má vontade para outras. Subi naquela porcaria de palquinho e puxei o braço dela levemente. Eleanor reclamou e a amiga também, começaram a rir descontroladamente e foi nessa deixa que eu a puxei para descer. Peguei na sua cintura e a desci daquele lugar. Catei sua blusa do chão e estiquei para ela.

-Me solta. Deixa eu me divertir. – Dizia enquanto se esquivava do meu toque.

-Lea, coopere, por favor. – Passo a mão pela cabeça, respirando fundo. – Coloque a blusa.

-Não vou colocar isso. Você acha que é o único que pode se divertir, que pode fazer o que quiser. Eu também posso, sou livre pra fazer o que quiser.

Deixei-a falando sozinha, mal prestei atenção, somente repetia para que ela vestisse a blusa. Quando ela começou a falar mais alto, chamando a atenção, me vi obrigado a fazer cara de paisagem para todos e mandar, com os dentes semicerrados, ela vestir a blusa de uma vez.

Estava impossível, e aquela menina não cooperava com nada, pois ficou indo entre nós dois para dizer que estava bem e queria dançar mais, deixando a Lea ainda mais eufórica. Dai-me paciência, em nome de Jesus.

-Só porque você não estava na nossa brincadeira, você quer me tirar de lá. Uh? – Resmungou, se escorando na parede. – Você é irritante, Bruno.

-Eleanor, eu estou perdendo a paciência, faz favor! – Estiquei a blusa para ela, ficando ainda mais irritado.

Ela pegou a blusa e vestiu, de mau jeito, mas a outra garota a ajudou. Afastei-me delas um pouco e fiquei cuidando elas continuarem a dançar e se “divertir” como ela mesma disse. Não tive um minutinho de paz, queria observar tudo o que ela fazia. Sou protetor dela quando está indefesa e ela está pra lá de bêbada. Não quero cortar o seu barato, afinal é raro ultimamente ela sair para se divertir, mas também não quero que mal algum aconteça a ela.

Aproximei-me do Kenji, que estava parado perto da mesa, olhando para elas também. Eu sabia que se a Lea desse algum pequeno espaço, ele invadiria e a pegaria sem dó.

-Hey. – Encosto no seu braço. – Ela está bêbada!

-O que?

-Ela está bêbada. – Torno a repetir. – Não ouse chegar perto da Eleanor. Ok?

-Quem você pensa que é?

-Eu que faço essa pergunta. – Esbravejo, serrando o olhar para ele. – Eu sou o melhor amigo dela, sou responsável por ela quando ela não pode responder por si.

-E eu sou o superman.

-Eu... – Fecho meu punho, segurando e controlando minha raiva.

-Você também é aquele que tira a vontade quando quer com ela, e como se chama isso? E essa cena agora... É ciúmes?

-Nada que lhe interesse. – Aproximo um pouco mais. – O que eu faço, o que ela faz, nada disso é da sua conta.

-Hey. – Phil afastou meu corpo com a mão espalmada no meu peito. – O que está acontecendo?

-Nada demais. – Respiro fundo. – Apenas um contratempo.

Procuro dentre as pessoas a Lea. Acho-a escorada na parede, se abanando. Ninguém estava prestando atenção, mas tenho quase certeza que ela está ficando mal. Saí da frente do Phil com pressa e fui para perto dela, pegando-a pela cintura e pondo o seu braço sobre o meu ombro. Nem perguntei o que ela sentia, apenas a arrastei para a área de fumantes e dei um toque no celular do Phil.

-Está com falta de ar? – Pergunto, mexendo nos seus braços numa tentativa de massagem.

-Vontade de vomitar. Quero algo doce... Água... Qualquer coisa. – Estava mole nos meus braços, quase caindo pra frente.

-Phil, consegue uma água? Chame as meninas! – Pedi tudo de uma vez e ele ficou todo confuso. – Rápido.

Eleanor Pov’s

Minha cabeça girava trezentos e sessenta graus por segundo, minha respiração não entrava e nem saía, minha visão estava dupla e eu queria algo doce, além da minha garganta seca. Bruno me segurava, com o olhar completamente mudado desde antes, já que havia ficado bravo pelo o que eu fiz.

As meninas chegaram à minha volta, falando sem parar, eu queria responder, mas estava complicado. Eu via duas de cada uma e isso me deixava nervosa, causando uma sensação terrível.

-Quero doce. – Resmunguei como pude.

-Phil está trazendo água. – Disse Megan.

-Eu não quero água. Água não.

-Não tem não, vai tomar e ponto. – Bruno disse autoritariamente.

Colocaram a água na minha boca e eu ri, cuspindo toda ela pra fora e revirando meus olhos levemente. Queria deitar em algo fofinho e comer doce, eu precisava. A respiração havia se normalizado e as meninas me carregaram para dentro do banheiro da boate.

Deram-me mais um gole de água e esse, quando engoli, pus pra fora na mesma hora, regurgitando tudo que tinha no estômago.


Minha cabeça doía, meu corpo a mesma coisa e no meu estômago parecia ter uma pedra. Tinha vontade de vomitar, mas eram apenas náuseas e não valia a pena tentar fazer isso.

Levantei da cama, meio cambaleante, coloquei meu hobby ao constar que estava apenas com meu camisetão de dormir e calcei minhas chinelas de pelego. Fui até a cozinha, com a casa em completo silêncio, e procurei os remédios. Tomei dois com um copo de água gelado e roubei um pedaço do pudim de laranja que tinha dentro da geladeira.

-Que dor. – Reclamo sozinha, voltando para o quarto e ouvindo o Bruno roncar.

Deitei novamente na cama, fechando os olhos e tentando lembrar das coisas da noite passada... Que vergonha. A maioria eu lembrava. Eu estava bêbada e o que estou sentindo é ressaca. Eu dancei em cima de um pequeno palco com um queijo no meio, eu beijei uma garota e eu gostei disso, eu fiquei apenas de sutiã e saia, mostrei minha calcinha para as pessoas que estavam olhando... Eu estou com vergonha, mas não estou arrependida.

Eu vivi pelo menos uma vez depois de tanto tempo, eu bebi e experimentei coisas novas, eu senti excitação numa mulher – provavelmente porque estava bêbada, porque pensando agora eu somente beijaria e nunca faria algo a mais, como eu pensei ontem que faria.

Mas em meio de tantas coisas, eu gostei.

Penso no pobre Kenji e no que ele se viu obrigado a ver ontem, espero que não tenha pensado que eu sou uma idiota que quando bebo fico perdendo a linha. Aconteceu poucas vezes e ontem foi uma exceção.

Reviro-me na cama, um lado para o outro. Ligo a TV a cabo e nada de muito bom se passava. Coloquei na reprodução aleatória do meu celular e deixo bem baixinho para não me causar mais dor de cabeça. Verifiquei se não havia nenhuma mensagem do Ken, como constei que não, larguei o celular ao meu lado.

Acho que adormeci por uma hora, mas quando acordei me sentia um pouco melhor. Um pouco, literalmente. Levanto da cama novamente e ando pela casa atrás de alguém acordado. Faço um sanduíche e tomo um copo de leite puro, lavo o que sujei e vou para a sala de estar.

-Como foi dormir depois de ontem?

-Tranquilo. – Respondo.

-Não está com dor de cabeça? Dor no corpo? Vomitando? Arrependida?

-Deveria? – Me fiz de desentendida. – Estou maravilhosamente bem, obrigada Bruno. – Ofereci pra ele um sorriso. – E só me arrependo de coisas que não faço e de coisas que realmente foram erros grotescos, e ontem não houve nenhum erro. Eu quis.

-Você quis se aparecer daquela forma? Tirando a blusa e tudo mais? Quase perguntei para Megan se ela não queria inscrever você numa boate.

-Não seria uma má ideia. – Sentei-me no sofá. – Eu quis aquilo, quis viver.

-Percebi.

-Mas porque se importa?

-Porque eu me importo com você?

-Não! Você é egoísta, só importa consigo mesmo e com a Lana, agora. – Despejo as palavras, mas não uso nenhum tom grotesco ou ofensivo, apenas digo com classe para me sobressair em qualquer caso.

-Realmente me preocupei com você. – Pensei que seria impossível ele se emburrar mais do que estava. – Eu... – Engoliu, seja lá o que ele iria falar, a seco.

-Dá um tempo. Você se preocupou tanto comigo que mal olhou em minha cara desde que chegou. Fazem três dias e você apenas me dizia coisas básicas e não presta atenção no que falo.

-Não quero cobranças, apenas.

-Não estou cobrando, não imploro por atenção, somente pensei que no seu papel de melhor amigo e de pessoa que passou dois meses distante de casa, pudesse, ao menos, perguntar se eu estou bem e se tenho alguma novidade, até mesmo sobre a Lana.

-Sei que não há, sobre ela você me deixou informado pelo celular. – Balançou o mesmo com a mão.

-Então de mim não queria saber? – Pergunto e não ouço nenhuma resposta.

Seu semblante mostrando um pouco de arrependimento, subiu na mesma linha que o meu e nos encaramos. Senti que daquela boca sairia algo.

-Eu...

-Ok. – Levanto-me, indo para o meu quarto, lugar no qual quero passar o resto do meu dia.

Bruno Pov’s

Na terça feira, começamos novamente no estúdio. O pessoal estava numa algazarra toda e minhas diferenças foram resolvidas, já que houve apenas um equivoco mal entendido naquela noite na boate.

Kam estava mexendo em alguns cabos com o Eric, enquanto eu e Phil íamos passando um pedaço único da letra que temos para o novo álbum. Kenji acompanhava na guitarra tentando mostrar alguma batida que encaixasse com a música.

-Vai demorar. – Estalou o pescoço. – Vou buscar um café, alguém quer algo?

-Eu. – Respondemos praticamente num uníssono.

-Precisamos de uma estagiária pra isso. – Ryan levantou. – Vamos nós dois. Anotem o que querem e deem o dinheiro.

-Esse cara é organizado. – Comento e ele ri.

-Pelo menos no serviço tenho que ser, porque minha casa e minha vida estão assim. – Fez um movimento circular com as mãos, no qual deduzi que estivesse de cabeça pra baixo.

Continuamos com nosso raciocínio, Phil e eu. Peguei a guitarra para eu mesmo arriscar algo e Phil batia com uma das máquinas. Eric falou algo engraçado provocando o riso de todos, incluindo o meu, e durante esse ataque de risos o celular de Kenji apitou.

Na frente havia uma mensagem. Olhei o nome três vezes para verificar que não estava ficando louco nem cego. Eleanor.

Ou melhor, entre parênteses, “lightzz”.

Que bosta de apelido é esse?

Tentei desbloquear, mas a senha não permitiu. Puxei a notificação pra baixo e rolou apenas o inicio da mensagem.

“Mal vejo a hora de ir embora, sério... Leva-me embora daqui :p preciso de um banho e pijam...”

Droga, não pude ler o resto. Larguei o celular no lado com medo que Kenji pudesse aparecer a qualquer momento, mas aquilo martelava em minha cabeça. Será que essa Eleanor é a minha Lea?