Eleanor Pov's
Fui para minha casa depois do que conversamos com o médico. Estava exausta com o passar da noite em claro, e amanhã, segunda feira, não posso deixar de trabalhar. Ainda teria que arranjar uma forma de arrumar a casa para recebe-las. Minha mente trabalhava em tudo que o médico falou, na depressão da Diana, nos horrores que ela falou de sua pequena. O quão isso poderia ser real, ao invés de uma mera depressão? Eu sei que posso ser taxada de "falar mal pelas costas" ou "falsa", mas porque eu ainda acho que ela teria coragem de falsar isso só para fugir das responsabilidades com o bebê? Eu sinto que ela seria capaz de fazer isso, já que essa gravidez a todo o momento foi indesejada por ela.
Nunca comentei isso com o Bruno, achei desnecessário encher a cabeça dele com esse tipo de coisa, justo agora que ele está feliz e parecendo estar completo e com a cabeça no lugar. Depois de que Diana completou 4 meses de gravidez, e passou a ficar mais tempo em nossa casa, Bruno parou um pouco de sair à noite, deixando eu sair com os casais, Phil e Urbana, Caleb e Megan, e parou um pouco de beber. Ponto positivo para nós, e eu não poderia retirar isso dele com teorias fracassadas da minha mente pitoresca.
-Então, foi isso que aconteceu em toda a madrugada que me deixou exausta. - Terminei de dizer a minha mãe no telefone.
-Minha filha, compre um celular o quanto antes.
-Eu irei, eu tenho aquele velhinho guardado, mas acho que deve estar até estragado.
-Vê se consegue algum. Fiquei preocupada quando liguei pela manhã e ninguém atendeu.
-É, eu estava lá no hospital, como disse.
-Como o Bruno está? Chegou a ver a garotinha?
-Ele está radiante, só sorrisos. E ela, não vi, mas Bruno disse que ela é linda.
-É mentira. - Ela diz quase de imediato. - Quando nascem, não são lindos. São lindos aos nossos olhos, pais e babões, mas parecem pequenos ratinhos, encolhidos, enrugados, avermelhados.
-Mamãe, pensei que me achava bonita!
-E eu acho, você é linda, da cabeça aos pés, e de dentro pra fora, não poderia ser melhor, mas quando nasceu, você era feia, filha.
-Obrigada por aumentar minha autoestima. É por essas que eu amo a senhora.
-De nada, quando quiser, estou as ordens.
Fofoquei um pouco mais com minha mãe ao celular. Já aproveitei para saber mais notícias do Havaí, e falar um pouco com o meu pai. Minha mãe mencionou ter encontrado Bernie essa semana, como sempre faz, já que viraram amigas, e ela disse sobre vir pra cá assim que a filha do Bruno nascesse. Mais um motivo para me animar em arrumar a casa, porque se iremos recebe-los, não podemos passar vergonha.
Peguei pesado no serviço, e quando Bruno chegou, deixei ele usar o banheiro antes de mim e depois tomei meu banho para jantarmos e comermos.
-Dei a primeira mamadeira dela. - Sorrio bobo, olhando para o garfo. - Ela estava com tanta fome, atacou como se não houvesse amanhã.
-Uma coisa que ela herdou ao pai. - Empurrei o prato de comida para ele se tocar.
-E a beleza também.
-Menos, Bruno. Não sabemos nem ao menos se ela puxará à você ou a Diana. - Mastigo a comida e a engulo. - Aliás, soube de mais alguma coisa dela?
-Sim, os pais não foram ver ela, somente uma amiga, e ela a tratou normalmente, mas disse que não quer ver a criança. Falei mais uma vez com o médico e ele me deu certeza de que a bebê e ela sairão no mesmo dia, e que até lá ela estará bem.
-Tomara. - O vejo, finalmente, comendo.
Capotei em minha cama de maneira que só ouvi meu celular despertar pela manhã e levantei no automático. Acordei o Bruno e segui fazendo minha rotina para o trabalho. Vesti uma saia lápis, uma camisa social mais colada e com três botões abertos, coloquei meu casaquinho por cima e Bruno assoviou.
-WOW. - Passa a mão pela minha cintura enquanto segue para a cozinha. - Quer impressionar o chefe para ver se ele dá uma segunda chance no teste do sofá?
-Segunda chance? Não preciso, consigo subir de cargo sem comer minha chefe.
-Hey! Eu não comi a Ashley. Ela é um pouco velha demais pra mim, e tem os peitos caídos.
-E eu não tenho peitos, e a mulher do meu chefe tem, entende?
-Garanto que ela não tem uma bunda como a sua.
-Uma bunda? Como a minha? - Arqueio as sobrancelhas.
-É, grande e gostosa.
-Bruno. - Taco minha caneta nele, que se esquiva, rindo.
-Tenho que falar a verdade, não?
-Tem, mas... argh. - Viro as costas pra ele pra pegar minha bolsa e minha pasta no quarto. - E não olha pra minha bunda! - Ponho as mãos e ele gargalha.
Falar em sexo me deu aquela velha vontade de fazer. Acho que não sei o que é sexo mais ou menos uns 10 meses. Tenho uma vontade horrível, subo as paredes, e quando dá, uso minha mão para não ficar sentindo vontade. Não, não acho feio me masturbar, e falo isso quando preciso, que faço mesmo e assumo, é uma coisa completamente normal, saudável, e necessária. É bom conhecer seu próprio corpo, suas vontades, umas das coisas que Kai me ensinou a fazer uma vez, e de lá pra cá às vezes ponho em prática.
Saímos de casa e esperamos por Caleb, mas quem vinha dirigindo era Megan, e ele ao seu lado com a mão na cabeça.
-Bom dia. - Dou, assim que entramos no carro.
-Bom dia. - Me responde Megan.
-Nada contra vocês, mas não estou vendo nada de bom.
-Não deem bola, ele acordou com a enxaqueca batendo em sua porta. - Megan da de ombros.
-Já sabem da maior? - Ficaram em silêncio. - Minha filha nasceu, na madrugada de sábado para domingo.
Megan deu uma freada perigosa, e riu.
-Sério?! Meus parabéns, agora vai criar mais juízo.
-Parabéns, cara.
-Obrigada.
-E quando vamos vê-la? - Megan pergunta.
-Eu irei ao hospital assim que sair do serviço, se quiser ir comigo... - Respondo.
-Seria maravilhoso. Vamos, amor?
-Se eu estiver 25% melhor, sim.
O dia parece que se arrastou. Fiquei somente no escritório analisando algumas coisas com Patricia, uma das outras vendedoras, e ainda participei de uma reunião de compra. Ian estava de olho em uma área que está a venda, bem ampla e de cara com o mar, bem na costa, a caminho de Santa Monica. Era maravilhoso, e se ele pusesse mesmo as casas por ali, iria ter uma venda muito grande, mas ainda tinham processos a ver com o banco, e com a vendedora da área.
Assim que saí, liguei para Megan, que disse chegar em alguns minutos ao meu serviço, então peguei um café na recepção e conversei um pouco com a recepcionista. Realmente, em menos de vinte minutos, Megan estava estacionada em frente a imobiliária. Entrei no carro, estávamos somente eu e ela, e saímos conversando sobre a bebê e os possíveis nomes.
Demos nossos nomes na entrada e pegamos nossos crachás para entrar na maternidade. Bruno não estava no hospital, mas uma das enfermeiras, a que nos guiava até o berçário, disse que ele passou ali próximo ao meio dia. Paramos em frente ao berçário, uma grande sala com uma grande parede de vidro. Tinha muitas crianças ali, e umas três mulheres de uniforme rosa fraco. A enfermeira aponta para onde a pequena está, segunda fileira, terceira encubadora. Um ser pequeno, preguiçoso, se mexia parecendo não fazer barulho. Ela a pega no colo e caminha até o vidro, mostrando a pequena para nós, enrolada numa manta branca.
-Ela é linda. - Ouço Megan dizer e lembro do que minha mãe disse.
Era diferente, ela não tinha cara de ratinho, ela tinha expressão, ela já era linda. Mexia sua pequena boquinha, colocando a ponta da língua para fora, uma graça. Achei que Bruno pudesse estar exagerando quando disse que ela tinha sua boca, mas não estava. Como ela poderia ser tão lindinha? Meus olhos se preenchem vendo sua imagem, a enfermeira pega seu bracinho e acena, como se ela estivesse fazendo aquilo. Adorável demais para meu frágil coração.
-Posso pega-la? - Digo, pausadamente, sem emitir sons para que a enfermeira lesse meus lábios.
-Infelizmente hoje não. - Disse da mesma forma, torcendo os lábios.
Tudo bem, eu estava contente por ter a visto pelo menos assim, tão pequena e tão linda. Eu e Megan andamos de volta para a saída, mas parei a enfermeira no meio do caminho.
-Nós podemos visitar nossa amiga? - Era mentira, Diana nem conhecia Megan, e ao menos era nossa amiga. Era nossa conhecida, mãe da filha do Bruno.
-Acho que sim. Só tenho que checar se há alguém com ela!
-Tudo bem, nós esperamos aqui.
-Podem vir comigo se quiser.
Diana estava dormindo, e de acordo com a enfermeira não era recomendado acorda-la. Então somente olhei através da fresta da cortina e retornei para a recepção do andar.
-Ela não parece mal. - Comenta Megan. Pensei em falar algo sobre minha teoria, mas é melhor eu ficar quieta, antes que algo aconteça e exploda pra cima de mim.
-Disseram que ela está bem, somente com repulsa a bebê.
-Deve ser tão ruim isso. Imagina ter repulsa ao seu próprio bebê, acho que me culparia quando voltasse ao normal.
-É. - Não queria entrar em detalhes sobre o assunto, em certas coisas é melhor permanecermos quietos, do que falar algo.
Megan ligou para o Caleb que disse ter encontrado o Bruno e estavam indo para o hospital. Bruno iria provavelmente vê-la rapidamente e depois ir pra casa, já que não dá pra abandonar o serviço. Aproveitamos e ligamos para a Urbana, que já sabia do bebê.
ზ
Colocava as roupas de cama, já limpas, sobre o sofá. Em poucas horas Tiara já estaria ali. Bruno tinha ido até o hospital buscar a pequena e Diana, que receberam alta hoje, depois de cinco dias no hospital. A hora ficou claro que ele não poderia ir pela manhã, e nem eu, então ele pediu que saísse um pouco mais cedo para ir buscar, enquanto eu vim pra casa para arrumar tudo. Os pais dele chegariam somente no final de semana que vem, mas Tiara veio antes, porque de acordo com ela podemos precisar de ajuda, já que é um pouco perigoso ainda deixar Diana sem supervisão de alguém.
No seu terceiro dia de vida, consegui pegar a pequena no colo. Não, Bruno ainda não decidiu o nome, porque além de indeciso, ele é perfeccionista demais. O pessoal já está na cola dele, dizendo que ele precisa registrar a criança, mas ele preferiu deixar para a última hora. Quando a segurei, senti ao máximo meu peito inflar de emoção, consegui sentir perfeitamente a sintonia da sua respiração e atrasei um pouco a minha para ficar igual. Eu estava boba com ela, e Bruno tinha razão, a cada dia que passa ela fica parecida com ele, e menos com sua mãe.
Revisava tudo pela última vez, quando ouço o telefone tocar. Corro para atender.
-Lea, a Diana... - Bruno estava ofegante, não conseguiu nem terminar a frase. - Lea?
-Oi, estou ouvindo. O que houve?
-Lea, eu estou apavorado.
-Meu Deus, o que aconteceu? Algo com a pequena?
-Graças a Deus não. Mas, Lea... a Diana sumiu! Preciso que venha no hospital.
-Como? - Fiquei boquiaberta. - Em alguns minutos chego ai.
Liguei para Megan, ela não atendia, para Caleb, também não atendia. Minha última opção era Philip e seu carro. No terceiro toque ele atendeu.
-Phil?
-Oi.
-É a Lea, tudo bem? - Pergunto procurando minha bolsa.
-Tudo sim, e por aí?
-Mais ou menos. Você está ocupado?
-Ainda não, aconteceu alguma coisa?
-Tudo o que poderia acontecer. A problemática sumiu!
-Problemática? - Podia ver ele franzindo o cenho em minha mente.
-Sim, a Diana. Preciso ir ao hospital, mas não sei se chegaria rápido até lá.
-Eu te levo. Esteja pronta em dez minutos.
-Já estou!
Calcei meus sapatos e troquei somente a blusa por uma mais agradável pra sair, peguei a bolsa que tinha achado e saí de casa. Era melhor esperar do lado de fora para irmos mais rápidos até lá. E, em menos de vinte minutos, Philip chegou, buzinando enquanto ia parando. Abri a porta e entrei rapidamente.
-Que história é essa?
-Eu não sei! Bruno me ligou, apavorado, pedindo que eu fosse pra lá. - Afivelei o cinto de segurança.
-Deveria ser ele me ligando a hora que não atendi, então. - Torceu os lábios.

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