sexta-feira, 22 de abril de 2016

Capítulo 65


Isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para um lugar que só nós conhecemos?
(Keane - Somewhere only we know)


Minha cabeça estava explodindo de dor. Meu corpo parecia não obedecer a minha vontade de levantar e tomar outro banho. Nada parecia se mover, na verdade. Passo as mãos pelo rosto e sinto minha cabeça pressionar dos dois lados. Meus olhos estão inchados.

Não preciso de muito esforço para lembrar o porque eles estão assim. Pela manhã, na briga com o Bruno, falei tantas coisas e houve tantos momentos que não consegui aguentar tudo. Cheguei ao meu quarto, me encolhi num canto e chorei. Chorei de raiva, de arrependimento, de saudades, de tudo. Chorei porque parecia ser meu único remédio.

Faço um esforço para levantar e ir até a caixa de remédios. Um analgésico parecia que não iria surtir efeito para tamanha dor que sentia. Tomei logo dois, acompanhado de um copo de água da torneira do meu banheiro. Estava grogue demais para fazer algo mais higiênico.

Tomei outro banho gelado e arrumei meu quarto. Estava tudo uma bagunça e odeio não aproveitar meu domingo.

Domingo?

Mas domingo foi ontem!

Passo a mão pela cabeça e olho para a tela do meu celular. Duas chamadas perdidas de Ian. Ele deve estar querendo meu pescoço fora. No relógio marcava dez para as três da tarde. Nem que eu me arrumasse e saísse voando, valeria a pena ir para o serviço, já que saio quatro e meia.

Não sei com que cara falarei para o Ian que não fui trabalhar porque tinha tomado um porre na noite anterior. Mas pelo menos isso me fez acordar e a dor de cabeça parecer cessar um pouco mais.

Saio do quarto e escuto a risada de Lana. Umma passa para a cozinha carregando uma tigela e colheres sujas.

Me aproximo aos poucos e Bruno está sentado com Lana no chão, Mia está na poltrona mexendo em seu celular e Lana está rindo das brincadeiras do seu pai.

Não posso acreditar que ela não tem nada pra fazer em plena segunda feira!

-Bom dia. - Digo baixinho.

-Bom dia. - Respondem-me num coro. - Bom dia, Lea. - Umma beija o topo de minha cabeça. - Quer que eu esquente a comida pra você?

-Irei agradecer.

-Você está com uma cara péssima. - Ela diz quando estávamos indo para a cozinha. - Não me leve a mal, claro.

-E eu estou. - Bocejo. - Era pra estar trabalhando, mas sai ontem a noite e me esqueci completamente que hoje era segunda feira.

-Isso acontece.

-Uma coisa é certa, não deveria ter bebido. – Joguei minha cabeça para baixo onde meus braços protegeram da queda contra a bancada.

Ali me instalei até que Umma esquentasse a comida pra mim. Nunca a dei trabalho, sempre faço tudo o que tenho que fazer, principalmente algo simples como esquentar a comida, ao menos quando estou doente que ela faz algo, como canja.

-Está tão delicioso. – Dou a última garfada na comida. – Você quem fez?

-Claro. Muito obrigada.

-Quero a receita, por favor. – Pego o prato em mãos para lavar. – Agora minha energia está restaurada, posso começar meu dia.

-Começar o dia três e pouca da tarde? – Ela ri de mim e me contagia. Puxo meu prato da bancada e o levo para a pia para lavar.

-Nunca é tarde. – Ri. – Tem alguém na sala?

-Bruno está lá com a miss simpatia e a Lana. – Ela leva a mão na boca. – Perdoe. Não queria dizer isso.

Minha gargalhada sai alta demais, não consigo controlar.

-Miss simpatia. – Repito, entre muitas risadas. – Pensei que eu era a única a acha-la chata e antipática.

-A única? Não sei como o Bruno aguenta ela! Sinceramente.

-Nem eu sei, mas não vou me meter. – Dou de ombros, colocando o prato no escorredor. – Muito obrigada pela comida.

-De nada. – Ela andou para o outro lado da cozinha e eu sai dali, dando de cara com o Bruno no meio do caminho.

-Boa noite!

-Boa tarde. – Digo.

-Arrume a Lana! Vou passear com ela hoje.

-Quê? – Arqueio uma sobrancelha. – Não é “arrume a Lana”! É uma pergunta, que eu exijo que tenha um por favor no final. É o mínimo que você tem que fazer.

-Por favor. – Revira os olhos.

-Agora sim. – Concordo, dando um sorriso. – Arrume você! Tenho muito mais o que fazer.

Ando pelo seu lado sem nem esperar resposta. Quero saber o porque ele é abusado assim! Porque ele está agindo como um idiota, assim como agiu logo que ficou famoso, logo que começou a ganhar bastante dinheiro. Não entendo porque ele vive em constância mudança.

-Lea, não estou com tempo para suas TPM’s.

-Com licença! – Digo quando o vejo adentrar meu quarto. – Não estou nem de TPM.

-Então arrume ela, por favor.

-Porque você não arruma?

-Porque eu não sei vesti-la bonitinha como você!

-Ela mesmo escolhe a maioria das suas roupas, não tem como errar. – Puxo minha coberta para estende-la sobre a cama.

-Mas você é a mãe dela...

-Pra arrumar ela eu sou a mãe. – Rio, tocando a coberta para o chão e sacudindo o lençol da cama. – Engraçado, você!

-Você sabe que é a mãe dela, Eleanor. Pare com essas coisas.

-Tanto faz. Arrume sua filha e saia com ela, eu tenho outras coisas pra fazer.

-Se é assim. Ok. Obrigada.

-De nada!

β 

Minha consciência estava pesada enquanto Richard falava comigo por Skype. Ele dizia como foi sua sessão de fotos e eu ria das besteiras que tinham acontecido, não sabia direito como contar que eu beijei o Bruno.

Comecei a dizer o que tinha acontecido na noite anterior, sobre o grammy, o vídeo, a festa e quando cheguei em casa. Contei detalhadamente o que aconteceu quando cheguei e frisei que estava um pouco alterada pela bebida.

-Ele me beijou. – Disse, torcendo para que Richard não escutasse.

-Ele o quê?

-Bruno! Me beijou... Foi para calar minha boca, eu sei disso, mas ele me beijou e eu não poderia esconder isso de você. – me ajeito em frente ao computador. – Me desculpe. Eu errei. – Meus olhos estavam levemente marejados, não queria chorar, mas estava com medo que ele ficasse bravo comigo e com a completa razão.

-Lea... – Ele olhou-me, não sabia nem dizer o que sua expressão significava. – Você estava um pouco alterada, eu entendo. Fazemos besteiras. E nesse caso a culpa não foi sua. Eu lhe conheço e conheço o suficiente do Bruno para saber que ele é abusado.

-Eu sei, mas ele me beijou e eu não tive reação!

-Está tudo bem, ok! – Deu um sorriso amarelo. – Não posso negar que fiquei chocado, mas passou. Bruno é um idiota, abusado, e eu tenho certeza que você não é adultera. Está tudo bem.

Bruno Pov’s 

Passei um dia inteiro no estúdio tentando e arriscando algumas coisas novas. Não que eu precisasse, mas precisava fazer algo para distrair a minha mente e tirar Mia do meu pé. Enquanto estou em Los Angeles – prazo este que irá até amanhã -, ela fica em cima o tempo todo sem dar espaço. Mas o relacionamento com ela me trouxe o ponto positivo da mídia, que me tirou a fama de mulherengo para o “papai do ano”.

Minhas fãs a odeiam. Dizem que ela é chupa-fama, que estou com ela para tapar buraco, que estou carente e me apeguei a quem vi mais acessível.

Não é verdade! Mia é uma mulher legal, apesar dos apesares. Nós nos damos muito bem na cama, somos insaciáveis. Gosto dela mesmo com essa coisa toda.

Ouço batidas na porta e rezo para que não seja alguém que fique por ali muito tempo. Olho pelo vidro que tem ao lado da porta, mas não consigo identificar quem está ali. Abro a porta e levo a surpresa, vendo o Victoria Secret parado em minha frente com meio sorriso em seu rosto.

-Olá, Bruno. – Diz.

-Oi, Richard. – Aperto sua mão. – Quer entrar?

-Não irei atrapalhar?

Olho pra trás, para minha guitarra, para a mesa de mixers. Ele já está me atrapalhando, mas preciso saber o que ele quer.

-Claro que não. Sinta-se à vontade. – Abro mais a porta para que ele possa entrar.

-Obrigada. – Richard ficou olhando para todos os instrumentos abismado, parecia estar maravilhado com tudo e cada detalhe. Chora, isso tudo é meu! – É um belo estúdio.

-Muito obrigada. Pedi que fosse exatamente do jeito que imaginava quando era pequeno. – Uma das minhas exigências pela decoração da casa.

-E como está a turnê?

-Senta aí, cara. – Aponto para o sofá de couro preto. – Está maravilhosa. Amanhã viajo novamente, Itália!

-Deve ser tão bom poder conhecer países novos, culturas novas, mulheres novas.

-É bom demais. As mulheres... – Fisgo meus lábios. – Uma mais linda que a outra.

-Hey, controle-se hein. – Ele ri. – Tenho pena dos chifres da Mia.

-Ela ainda não tem nenhum. E acho que não terá. Estamos bem eu e ela.

-Que bom!

-E você e a Lea?

-Estamos muito bem. – Respirou fundo. – Porque você está tratando ela diferente ultimamente?

-Eu?

-Sim. Ela me falou sobre algumas coisas que aconteceram, sobre o grammy e a discussão que vocês tiveram quando ela chegou da festa. – Richard estalou dois dedos. – Eleanor adora você, é bom não pisar na bola com ela. Você a conhece bem pra saber que isso só acontece uma vez.

-Não estou tratando ela diferente, apenas retribuindo o mesmo que ela me dá.

-Ela nunca ignora você!

-Eu não ignoro ela!

-Não é isso que dá pra ver. Cá entre nós, porque você não a chamou para a festa?

-Eu errei em fazer isso. – Balanço a cabeça enquanto penso nas palavras proferidas por Mia. Ela detonou Lea, me fez enxergar o mesmo que ela estava vendo, sendo verdade ou não.

-Então. – Richard levanta. – Minha namorada não me mandou aqui, se é isso que quer saber. Ela nem sabe que eu vim conversar com você e espero que continue não sabendo. Só pense que ela era a sua melhor amiga e você a machucou! Mas, se caso vier a machuca-la novamente, eu não respondo por mim. Mantenha distância dela. Entendido?

Ele estava me desafiando? Me pondo contra a parede e pedindo que eu me afastasse de Lea? Com que direito ele pensa que pode fazer isso?! Principalmente embaixo do mesmo teto que eu.

-Você está me ameaçando? – Dou dois passos pra frente. – Embaixo do meu próprio teto? É corajoso, sim?!

-Não preciso de coragem quando venho apenas dar um aviso.

-Eleanor pode ser a sua namorada, o que acho um desperdício, mas ela continua sendo a minha amiga. Ela continua morando na mesma casa que eu. Não sei de onde ela tirou essa baboseira de que eu mudei com ela, mas todo o caso. – Dou de ombros.

-Não por muito tempo. – Não sei referente a que ele disse isso, mas disse. A frase circulou em minha cabeça tempo suficiente para ele dizer mais alguma coisa que acabei não prestando atenção.

-Richard. – O chamo. – Pra que veio me falar isso? Na intenção de me por medo? De me prensar na parede?

-Eu não tenho intenções. Eu tenho ações. Se fosse pra vir aqui por “medo” em você, eu já agiria da forma com que costumo lidar com meus problemas, mas infelizmente você ainda é amigo dela e eu não posso agir assim. Estou sendo legal dando o aviso.

-Legal? – Rio, de forma debochada e ele continua com a mesma cara de despreocupação. – Tá legal, cara! Já fez o seu teatro de bom namorado, agora vá lá e avise a sua princesa que o dragão aqui consegue ouvir as queixas da boca dela, não precisa me enviar um mensageiro.

-Como você consegue ser infantil até nessas horas? – Sua cabeça balançou. – É por isso que não arranjou alguém melhor que a Mia.

-Vai me dizer que a Lea é melhor que ela?

-Você sabe que ela é. – Andou até a porta. – Já sabe, sim? Não encoste mais um dedo nela, não quero mais ouvir uma reclamação de que você a tratou mal. Tenha uma boa vida.

-Idiota. – Digo quando a porta se fecha. – Quem esse cara pensa que é? – Meus pensamentos saem em voz alta.

Lea vai fazer reclamação pra ele de mim, mas porquê? Porque eu não a trato mais como a única pessoa em minha lista? Porque tenho melhores preferencias? Por favor! Se ela reclama, ela se preocupa. Se ela se preocupa, ela gosta de mim. Então, mesmo que o namorado dela venha me fazer milhares de intimações, ela nunca me abandonará porque eu sou o único pra ela.

Garanto que ele não sabe que eu e a Lea nos beijamos naquela manhã pós grammy. Ela pode ter contado tudo, menos essa parte. Lea é esperta e ele um pamonha, idiota. Achando que me ameaçando iria dar em alguma coisa.

Saio para fora, ando pela casa a procura do Geronimo e também para ver se aquele inseto ainda estava por ali, mas aparentemente não tinha mais ninguém além de Umma que estava ajeitando algumas coisas no quarto de Lana.

-Tem alguém em casa além de nós?

-Que susto. – Riu, terminando de dobrar a roupa. – Não, somente nós. Richard acabou de sair.

-Ok, vou ir buscar a Lana com o Ge.

Lana estava saindo com seus amiguinhos da sala, ela conversava alegremente com eles. Minha infância, eu era dessa mesma forma, me entrosava com todos. Querendo ou não eu era obrigado a ficar distribuindo sorrisos quando estava de Elvis, mas não era difícil para quem já tinha desinibição.

-Papai! – Correu ao me ver, deixando seus amiguinhos pra trás. Sua mochila balançou de um lado pro outro.

-Oi, meu amor. – Beijo sua testa e em seguida lhe dou um abraço.

-Cadê a mamãe?

-Mia está...

-Mia não é minha mãe. – Respondeu rapidamente. Por um momento nem percebi o que tinha dito. – Onde está a Lea?

-Deixei ela de folga de vir buscar você e vim aproveitar para ficar com meu bebe. Não posso?

-Claro que pode. – Ela me dá a mão enquanto caminhamos para fora dali.

-Tenho uma surpresa no carro pra você. – Digo, ao avistar o carro e ver o focinho de Geronimo grudado no vidro.

-Gege? – Sorrio abertamente, desfazendo-se da minha mão e correndo pelo estacionamento.

Levei os dois num parque e comemos algodão doce enquanto Lana se divertia com o Geronimo. Nós sentamos lado a lado, seus pés balançavam no ar, ela tinha um sorriso nos olhos brilhantes. Minha pequena está crescendo, está ficando cada vez mais linda e mais inteligente.

Tive um surto quando lembrei da besteira que fiz em leva-la naquela premiação. Ela não merecia ser exposta dessa forma. E se eu estraguei algo que depois possa prejudica-la? Quando foi que essa ideia passou como algo bom em minha cabeça?

Aproveitei mais um tempo por ali e retornamos para casa. Geronimo estava cansado já, Lana também. Os dois estavam no banco de trás.

Entrei no portão de casa e vejo um dos carros, o preto, ocupado. Quando desço do meu Cadilac, vejo que é Lea quem está no banco do carona. Richard saí apressado da casa e corre para o banco do motorista.

-Hey! – Assovio pra ele. Não me ouve e apenas saí arrancando o meu carro.

Quem permitiu que ele o pegasse?

Abro a porta para minha filha, a tiro do carro meio sonolenta e solto Geronimo para que possa ficar pelo pátio um pouco.

A casa estava vazia, Umma já deve ter ido para a sua. A raiva por ele ter saído com meu carro e Lea ficar com aquela cara no banco do carona não estava cabendo dentro de mim.

Arrumei minha filha para dormir, dei a janta que já estava pronta, observei ela escovar os dentes e ir ao banheiro e então dei um beijo de boa noite para que ela fosse dormir.

π 

Ouvi alguns barulhos e Geronimo latiu. Eleanor deve ter chego. Pego o prato sujo ao meu lado e o levo para a cozinha. Passo por eles na volta, perto da sala. Eleanor está com uma cara péssima, parecendo indisposta.

-Oi, Bruno. – A ouço falar, mas algo dentro de mim grita para não responder. Dou um sorriso amarelado e os dois seguem para o quarto dela.

Fico esperando por ali, disfarço enquanto finjo que procuro algo na estante. Richard chega na sala, é impossível não sentir o perfume dele completamente diferente do meu.

-Desculpa pegar o seu carro. – Viro-me para ele. – As chaves estão aqui, ele está inteiro e enchi o tanque antes de voltarmos.

-Da próxima vez só me avisa antes. – Peguei as chaves no ar quando ele tocou.

-Ela merecia ao menos seu oi. Pensei que o tínhamos conversado tinha resolvido tudo, mas pelo visto não.

-Eu estava puto! Porra, chego em casa e vocês dois estão saindo com o meu carro e não pediram minha permissão. Quer dizer, ela nem ligou pra saber se a Lana estava bem!

-Nós não fomos a passeio, Bruno. Você nem perguntou o que fomos fazer, pra ver como se importa com ela.

-Não quero saber sobre as idas ao motel...

-Motel? – Ele ri. – Nós fomos ao hospital. Lea desmaiou no serviço, estava com fortes dores abdominais, vômitos... Ela ainda não está legal.

-E eu sou adivinha por acaso? – Balanço a cabeça.

-Ela não ligou para saber da Lana porque Umma mandou uma mensagem avisando que você iria pega-la.

Balbucio algo que nem mesmo eu entendo.

-O que ela tem?

-Lea? – Confirmo com a cabeça. – Está grávida.

Arregalo meus olhos na mesma hora e da minha boca sai um “que?” automático, que mal se percebe. Fiquei pasmo e gelado, minhas mãos suaram.

-Calma. – Ele ri. – Está com intoxicação alimentar. Provavelmente algo que comeu pela rua quando estava no serviço.

-Que susto! – Levo a mão no peito.

-Boa noite. – Virou as costas e saiu.

Disse boa noite quando ele já tinha ido. Sentei no sofá e encarei a lareira apagada. Esse foi o pior susto que eu poderia levar em anos de vida. Não imagino Lea grávida, não dele. Imagina se ela tivesse uma criança desse infeliz?

Meu coração até se apertou no peito. Lembrei quando ela cuidava da Lana recém nascida, como se fosse sua mãe biológica, dando o mama para ela, colocando para arrotar, trocando a fralda quando ninguém mais queria. Ela tinha o jeito para cuidar de crianças, tinha a manha para acalma-las. Ela será uma boa mãe quando decidir ter filhos.

Eleanor Pov’s 

29 de Março de 2014 

Um peso nas costas depois de três dias doente foi tirado. Levantei essa manhã bem melhor do que estava nos últimos dias. Mais disposta. Hoje será o dia em que irei até minha casa para arejar os cômodos para começar com a limpeza.

Tive uma longa conversa com o Richard. Depois conversei com Umma, após com Tiara e em seguida com Tahiti. Cada um deles me disseram a mesma coisa, de formas diferentes, mas as mesmas.

O motivo da conversa era o Bruno e a sua mudança comigo e com a vida, sua namorada e suas novas atitudes que me deixam muito brava.

Me disseram que era ciúmes, pois Ric havia entrado em minha vida e agora ele teria pouco espaço para ser o meu melhor amigo. Que Mia apenas quer se aproveitar dele, que suas atitudes se convertem dessa forma, pois Mia o manipula e etc. Cheguei a conclusão de que não há mais espaço pra mim nessa casa, que eu estou incomodando ele e não quero ser pedra no sapato de ninguém, e também quero dar ao Ric a segurança de estar numa casa onde não tenha que ouvir qualquer desaforo de alguém.

Megan disse que eu deveria pensar melhor, que sair assim pode ser ruim pra mim, mas aguentar é algo difícil. Ele me ignora, age como se eu não estivesse ali ou se fosse uma desconhecida. Mente pra mim! Aquilo que ele fez no grammy me machucou de verdade, nunca me senti tão humilhada.

Não quero arriscar me machucar mais por isso. Por isso tive a decisão de deixa-lo em paz em sua casa.

-Já pensou em como vai distrair a Lana?

-Já! Mas vou precisar da sua ajuda. – Digo para Umma. – Quero que a leve num parque, dê uma maça-do-amor ou algum algodão doce. A faça brincar bastante, para que ela volte cansada. Quando vocês chegarem, cansadas, eu dou um abraço e um beijo nela e quando ela dormir, eu vou pra casa.

-Covardia, Lea. Modéstia parte, acho muita covardia fazer isso com a pequena.

-Eu sei, Umma. – Mordo minha maçã. – Mas eu não vou conseguir olhar pra ela e me despedir.

-Mas você não vai se despedir, apenas vai se mudar. Continua vendo ela e sendo a mãe dela.

-Vou ser a mãe dela, mas continuar vendo acho que o Bruno não irá permitir.

-Claro que vai. Você conhece o gênio da Lana, ela irá convence-lo de que precisa de você.

-Eu não sei, Umma. – Baixo minha cabeça. – Porque tem que ser assim?

-É complicado. – Ela torce seus lábios e encosta em meu braço. – Mas sei que você irá tomar a melhor decisão!

-Você sairia daqui se estivesse no meu lugar?

-Sinceramente? – Assenti positivamente. – Já teria saído faz tempo! Não aguentaria tudo isso. Por isso sei que tem um enorme coração e que os ama de verdade. Ama suficientemente para deixar ele viver em paz, mesmo tendo que abrir mão de algumas coisas.

-Apesar de tudo que ele me fez, quero a sua felicidade. Fico mal pela minha pequena. Vou sofrer sem ela.

-Lana já é grandinha, ela irá entender.

-Deus te ouça. – Respiro fundo. – Pensando bem, eu odeio ele.

-Ih, você o odeia, mas quer que ele seja feliz?

-Quero que ele seja feliz, mas suas atitudes me fizeram querer sair dessa casa, sendo assim eu fico sem o meu bem precioso. Sem a Lana... Por isso eu odeio ele. Não quero me afastar do meu bebê, Umma.

-Entra na justiça pela guarda dela aos finais de semana. – Ela dá de ombros.

-Bruno ganharia!

-Sem querer falar nada, mas ele tem uma passagem pela polícia, você é limpa.

-Mas ele é pai. Eu sou mãe emprestada.

-Ah, Lea... Esses negócios são complicados.

-São mesmo. Pensando bem, vou ficar mal saindo daqui.

-Eu vou sentir a sua falta. – Ela acaricia meu braço novamente e eu sorrio pra ela.

O sorriso que me devolve me lembra o da minha mãe. A saudade dela aperta no peito, ela com certeza saberia o que seria melhor fazer agora quando sair dessa casa. É pra ela que eu preciso ligar.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Capítulo 64


Todas as formas que você acha que me conhece
Todos os limites que você descobriu
Os limites que você descobriu
Teve que aprender a guardá-los embaixo de mim
Só para que você continue usando
(We Remain - Christina Aguilera)


14 de janeiro de 2014


Brincava com Lana no chão da sala, fazendo bagunça por tudo, coisa que depois ela me ajudaria a guardar tudo. Mas com criança é assim, nenhuma brincadeira dura por muito tempo. Brincamos de barbie, mas minutos depois ela já estava enjoada e queria brincar de casinha, depois teve ideia de brincar de bonecas e depois de hospital. Elas nos deixam malucas, correm de um lado para o outro, tem ideias novas a cada segundo e estão em constante mudança. Isso me encanta tanto. Além do mais quando se tem uma pequena alma encantadora dentro de casa como a Lana é.

-Quero assistir um filme. – Lana foi até a estante, abriu a repartição de DVD’s antigos que tínhamos e alguns de criança.

-Podemos assistir online. – Dei ideia. – Mas antes temos que arrumar toda a bagunça, ok?

-Tudo bem. – Empolgada, andou diretamente para suas barbies e pôs todas ajeitadinhas dentro da caixa organizadora de plástico transparente.

-Que filme você quer ver?

-Podemos assistir o que você quiser, mamãe.

-Mas quem teve a ideia foi você! – Terminei de colocar os ursos dentro de outra caixa.

-Eu sei, mas eu sempre escolho os mesmos. – Bateu com os braços na lateral do corpo.

-Ok, vou escolher algum que você possa assistir.

-Ok!

Levei as caixas para o quarto e organizei a parte onde guarda seus muitos brinquedos. Falei para ela hoje mesmo, quando começamos a brincar, sobre a doação de brinquedos com os quais ela não brinca mais. No inicio Lana ficou meio apreensiva, mas disse para ela que seria por uma boa causa, que ela faria outras crianças felizes como ela ficou quando os ganhou. No fim ela aceitou numa boa e disse que irá fazer.

Fui até a sala e ela já estava instalada no sofá, deitada com as pernas para cima.

-Cuidado para não cair. – Aviso. – Vou fazer uma pipoca e já volto, ok?

-Tudo bem.

Coloquei um pacote de pipoca no microondas e ouvi um barulho vindo da sala. Lana deve ter se virado e caído, mas não se machucou, porque senão viria correndo para o meu lado e chorando. Olhei para a rua, o sol já estava se pondo, o que dava uma aparência alaranjada para o azul do céu californiano.

Peguei a pipoca com dois copos de suco e andei para a sala.

-Falei que você iria cair... – Ia dizendo antes de chegar na sala e dar de cara com a surpresa. – Bruno?

-Eu. – Riu, sem graça. – Vim fazer uma surpresa rápida.

Nós não tínhamos nos falado direito desde o natal. Desde nossa pequena discussão. Eu fui para o Havaí no dia vinte e seis e voltei dia três, quando ele já estava indo para a sua turnê. Nós nem nos vimos. Apenas uma mensagem esses dias perguntando sobre um cartão.

-Quer ver um filme com a gente? – Pergunto, largando as coisas sobre a mesa de centro.

-Até queria, mas tenho que sair para encontrar com a Mia. – Meus olhos querem se virar, mas seria muita falta de respeito.

-Fica com a gente, papai. – Lana estava em pé no sofá, abraçada com Bruno que estava atrás.

-Papai queria muito meu amor. – Beijou o cabelo de Lana e passou a mão pelo comprimento. – Você não quer ir com o papai?

-Onde vocês vão? – Ela pergunta.

-Vamos dar uma volta. Poderíamos ir ao cinema, você quer? Comer pipoca com o papai, ver um filmezinho, dar uma olhada nos brinquedos. Eu, você e a Mia...

-Mamãe pode ir junto? – Pergunta com toda a sua inocência. Já vi que sobrarei.

-A mamãe está ocupada. – Ele responde por mim. Ah, não é bem assim que a banda toca, Mars.

-A mamãe não está ocupada, pequena. Mas não poderei ir. Vá com o papai passear um pouco.

-Ok.

Ela andou rapidamente para o seu quarto, provavelmente para ver com que roupa iria. Ia andando atrás dela para ajuda-la, quando lembrei de um pequeno detalhe.

-Você já viu com que roupa irá ao Grammy?

-Jason está vendo isso pra mim. – Balança a cabeça. – Hã, Lea?

-Oi?

-Eu espero que não se importe, mas convidei a Mia para ir comigo! Tudo bem pra você?

“Tudo bem pra você?” Sim, está tudo bem. Está bem convidar uma namorada de um mês do que a amiga de anos. Está tudo bem me tratar como se eu fosse a baba da Lana e que não o conhecesse bem. Está tudo bem em continuar fingindo que está tudo bem entre nós.

Está tudo muito bem.

-Claro. Seja feita a sua vontade. – Pude concordar, pude evitar de falar qualquer coisa para não causar uma briga, mas não evitei minha cara de nojo e decepção ao dizer isso.

-É que ela está me apoiando tanto...

-Tá certo. Eu nunca apoiei você! – Dou de ombros, virando para o corredor novamente.

-Está com raiva porque eu convidei minha namorada?

-Estou com raiva porque você disse que iria me convidar. Estou com raiva porque pensei que eu ia estar ao seu lado quando ganhasse. Mas isso vai passar. Apenas aproveite bem. Vou estar assistindo com a Lana aqui em casa.

-Sobre isso... Vou levar a Lana.

-O que?!

-Isso. Acho que...

-Caramba, Bruno! Nós não tínhamos combinado que não mostraríamos a Lana para a mídia enquanto ela não soubesse bem o que isso significaria?

-Sim, mas a Mia achou que...

Mia achou que seria uma boa para causar a boa impressão de madrasta legal, para atrair a atenção nas manchetes, porque Bruno nunca expos a Lana para coisas publicas, apenas algumas fotos de paparazzi, nada demais, então era óbvio que traria muita atenção para eles dois. Que belo truque de marketing essa mulher teve.

Palmas pra ela.

-A filha é sua!

-Por isso mesmo que não preciso de aval seu.

-Então faça o que quiser. – Fecho meu rosto, sem nenhum olhar de arrependimento ou coisa parecida. Entrego para ele meu dedo do meio e saio marchando pelo corredor até o quarto da Lana.

26 de janeiro 2014

-Doces? – Pergunta Megan.

-Aqui. – Aponto para a mesa de centro.

-Refri e cheetos?

-Aqui.

-Agora só falta o show! – Ela tirou a televisão do mudo. Faltavam meia hora para a premiação, mas enquanto isso ia aparecendo o carpete vermelho, lugar onde eu tenho certeza que Bruno não passaria, mas que Mia faria a sua cabeça e ele passaria e com a Lana junto.

-Tenho pena da minha pequena no meio de tantas câmeras e olhares!

-Bruno foi doido em leva-la, sinceramente.

-Ele está mudado com essa namorada nova.

-Eu mudei quando estava com o Caleb?

-Megan, amor, quando eu conheci você, vocês já estavam juntos, então eu não posso responder isso.

-Verdade! – Pôs a mão sobre a cabeça. – Às vezes esqueço que você não é minha amiga de infância.

-Eu sinto como se fosse. – Coloquei meu corpo para escorar com o dela e recebi um beijo na testa. – Você é a melhor pessoa que poderia estar ao meu lado.

-Você também! Obrigada por sempre estar ao meu lado.

-Sabe que não tem lugar melhor para estar. – Pego na sua mão. – Agora vamos parar de emoções e nos concentrar no carpete vermelho.

-Ainda não consigo acreditar que ele passará ali.

-Se a monstro do pântano fez ele levar a Lana para um lugar publico, coisa que ele abominava, eu não duvido de mais nada.

Esperamos por um tempo, falando e comentando sobre as roupas das famosas. Cada look bizarro e cada lindo. Um verdadeiro show.

A premiação começou e Bruno não passou pelo tapete, coisa que me deixou um pouco mais aliviada, quer dizer que vinte e cinco por cento da sua sanidade ainda existia.

A cada categoria eu comia mais e mais, ansiosa para chegar na dele. Por várias vezes a câmera passou por ele, nem filmavam a sua namorada ao lado muito menos minha pequena, apenas ele, aplaudindo e apreciando o trabalho e premio dos outros.

Quando sua categoria foi anunciada segurei firmemente na mão de Megan. Fechei meus olhos e entreguei tudo nas mãos de Deus. Sinto que ele ganhará!

-Unorthodox Jukebox. Bruno Mars! – Disseram Glória e Marc.

Apertei a mão de Megan e gritei alto. Nos abraçamos na hora e eu chorei. Nem sentia as lágrimas caindo do meu rosto, apenas me entreguei ao momento.

Na tela da televisão estava ele, subindo as escadas e apertando a mão deles. Pegou o premio e se posicionou no microfone para agradecer. Minhas pernas tremiam e meu coração se enchia de felicidade. Estava tão feliz por ele. Deus sabe o quanto esse homem merece estar onde está.

Ajeitei meu corpo completamente para frente e ouvi seu discurso. Falou dos seus produtores, sua banda, seus amigos e seu pai. Disse que amava Lana e que dedicava esse premio a Bernie. Meu coração se derreteu muito mais do que já estava. Pus a mão sobre a boca para não deixar escapar aqueles choros embolados na garganta.

-Ele merece tanto. – Disse Megan.

-Ele merece muito mais do que isso. É tão lindo ver onde ele chegou, Meg. Bruno me da orgulho.

-Dá mesmo! – Ela olha pra mim, sinto que ela continua a me olhar enquanto eu olho para a televisão. – Você não consegue sentir raiva dele, não?

-Não... Momentaneamente, sim. Mas quando eu o vejo assim... Isso é tão importante.

-Eu sei. É importante. Mas você não está feliz só pelo premio, sim?

-Estou feliz por ele... Bruno é meu melhor amigo.

-Você o ama.

-Amo! Como disse, ele é meu melhor amigo.

Meu celular toca ao meu lado, pego empolgada achando que fosse algo sobre ele, mas era uma mensagem de Richard.

“PARABÉNS. O cara é bom mesmo! Bruno merece tudo isso. E você merece um premio por nunca ter batido na cara dele hahaha. Amo você e imagino a alegria que está sentindo.”

Queria poder responder, mas ainda tinham muitas categorias pela frente, inclusive mais duas que ele estava participando e eu precisava ver se ele ganharia mais alguma.

-Vou ficar pelo twitter, se algo aparecer por aqui, eu te chamo.

-Ok.

Meus olhos estavam grudados na televisão. Não sosseguei por nenhum segundo a mais.

-Lea, estão dizendo que ele já foi embora.

-Será? – Uno minhas sobrancelhas. – Será que eu tento ligar para ele?

-Agora não.

Peguei meu celular e respondi para Richard. Se Bruno tivesse ido mesmo embora, então ele não ganharia mais nada e provavelmente já sabia disso. Fiquei de pernas cruzadas para cima do sofá fuxicando pela internet, enquanto Megan fazia o mesmo.

-Aqui diz que ele realmente saiu e muitas pessoas estão tirando fotos dele.

-Pobre da Lana... – Balanço a cabeça.

-Lea! – Chamou minha atenção, tem um pequeno vídeo dele. Parece ser gravado de um celular.

Puxo seu braço resmungando um “deixa eu ver”.

-Calma, ainda não carregou. – Ela clicou num botão. – Agora deu.

O vídeo começava com a cara de Mia, passando na frente do Bruno, logo vinha ele segurando a mão de Lana, que sorria para todos. Ele abanou para uma pessoa e quem gravava perguntou se ela era a mãe biológica de Lana.

Bruno hesitou por alguns instantes e respondeu:

-Ela não é, é minha namorada. Mas é como se fosse a mãe da Lana!

-Não dá pra acreditar. – Sabe aquela porcaria de orgulho que estava sentindo dele? Transformou-se em raiva no mesmo momento. Me segurei para não atirar o vídeo longe e Megan apenas deu uma olhada para meu rosto. – Como ele teve coragem de dizer isso?

-Vá que tenha sido no calor do momento. – Ela dá um sorriso sem graça.

-Não foi, Meg. Ele pensou bem na resposta antes de dá-la. Como que ele pode me desconsiderar mãe da Lana e dizer que a Mia é sua mãe biológica, ou quase isso, sei lá.

-Ele... Foi de momento, Lea. Não se preocupe.

-Vou ligar pra ele.

-Para brigar ou para dizer que está orgulhosa?

-Pros dois e dizer que quero falar com a minha filha. Eu sou muito mais mãe da Lana do que qualquer pessoa. Isso eu não posso aceitar. Ele pode ser pai, pode ser o melhor pai do mundo e pode ter responsabilidade por ela, mas eu não aceito que ele diga isso, muito menos que diga o que dizia antes.

-O que ele dizia antes?

-Quando nós tínhamos algumas discussões, ele dizia que Lana era filha dele, insinuando que eu não era mãe dela.

-O Bruno...

-Não tem jeito. Eu sei.

Disco o numero dele no meu celular e espero chamar. Chama três vezes e na quarta alguém atende, mas demoram para dizer alo.

-Alô? – Pergunto.

-Oi, Eleanor.

-Olá Bruno. Parabéns pelo prêmio. Estou tão orgulhosa de você. Falei que iria ganhar.

-Muito obrigada. Estou tão feliz.

-Onde está? – Me refiro pelo barulho.

-Na Van. Estamos indo para a festa.

-Ah... Vai ir na festa do grammy com a Lana?

-Não! Terá uma festa na casa do Brandon...

Outra facada no estomago. Justo na casa do Brandon e ninguém me avisa sobre nada? Que lindo. Garanto que essa menina já fez a cabeça de todos. Respiro fundo.

-Vi seu vídeo onde dizia que a Mia é a mãe da Lana... – Respiro fundo.

-Lea...

-Tudo bem, Bruno. Vá lá se divertir.

Desligo o telefone e o coloco no meio das minhas pernas. Olho para o teto me concentrando para não chorar. Megan me entende, por isso não diz nada.

-Ele está na van indo para uma festa na casa do Brandon. Ninguém nos convidou, Megan. Nem mesmo o Phil, a Urbana... Ninguém.

-Mentira?

-É verdade. Seja lá o que essa monstro do pântano está fazendo, está dando certo.

-Vou ligar para a Urbana. Tenho certeza que ela não iria fazer isso conosco. Nem o Brandon. Ele nos conhece há tanto tempo.

-As pessoas mudam, não é mesmo? A decepção sempre chega.

Esperei com que Megan ligasse para Urbana e ela atendeu logo em seguida. Megan pôs no auto falante, mas permaneci calada.

-Como está em Nova Iorque?

-Nova Iorque? – Pergunta Megan.

-Sim. Você não está ai com a Lea?

-Não, nós estamos na casa do Bruno. Estávamos assistindo o Grammy pela televisão agora a pouco. Lea ligou para parabeniza-lo e ele disse que estava indo para uma festa na casa do Brandon.

-Sim, estamos na festa agora.

-E ninguém nos convidou?

-Ninguém convidou porque o Bruno disse que vocês estariam em Nova Iorque e que nem olhariam o Grammy. Coisa que eu e Phil achamos estranho. Brandon até falou sobre vocês antes deles saírem para a premiação.

-Não dá pra acreditar com o que ele está fazendo. – Balanço minha cabeça. Decepção atrás de decepção.

-Lea? – Urbana me pergunta. Dou um oi sem vontade. – Não fiquem bravas comigo meninas, mas Bruno que falou para nós que vocês estariam lá e nós acreditamos.

-Mas estamos aqui na casa dele... – Megan responde.

-Fazendo papel de idiotas mais uma vez.

-Garanto que ele não fez isso por mal, Lea.

-Claro que fez, Urb. Vocês não tem culpa pela pessoa que ele está se tornando. Isso é o que aquela monstro do pântano está fazendo com ele. Fazendo a cabeça dele contra eu e Megan!

-Mia? – Ela ri. – Essa menina é uma insuportável. Ninguém gosta dela.

-Nem ela gosta dela mesmo. Nem amor próprio ela tem, quem dirá amor pelos outros.

Ela ri e nós ouvimos mais barulho pela volta do outro lado da linha.

-Meninas, vocês não querem vir pra cá?

-Não! – Respondo de imediato. – Se tem algo que eu tenho é orgulho, e esse não me deixa ser rebaixada para ir onde eu não sou bem vinda. Nada contra vocês, porque vocês foram enganados pelo Bruno, mas não quero ver ele tão cedo.

-Faço das palavras da Lea, as minhas.

-Tudo bem! Eu vou falar pro pessoal o que aconteceu, garanto que essa noite algo vai feder para o Mars.

-Ele já tem o que é mais fedido ao lado dele, a Mia. – Megan diz.

-Vocês. – Ela ri. – Péssimas. – Continua rindo. – Vou ter que desligar para terminar de ajeitar o quarto para as crianças que dormem antes de todos nós. Fiquem bem, meninas. E não se preocupem que ele tomara o que merece.

-Nem esquenta com isso, Urb. Está tudo bem.

-Beijos.

-Beijos. Tchau.

Desligamos o telefone e nos encaramos por um tempo.

-Você precisa esfriar a cabeça!

-Eu preciso de vodca. – Levanto do sofá.

-E eu preciso pegar alguém. Podemos sair e ver no que vai dar. O que acha?

-Pode ser. Trouxe roupa?

-Não pra sair. – Ela ri.

-Tenho muitos vestidos. Vamos lá!

Antes de separar qualquer roupa, deixei Megan tomar banho e mandei uma mensagem para Ric avisando que iria sair, ele me mandou como resposta um texto dizendo para eu tomar cuidado. Aproveitei para dizer pra ele o que aconteceu e ele mandou muitas carinhas rindo, otário. Mas ele me fez rir, dizendo que Bruno merecia um tapa na cara para deixar de ser trouxa. Acho mesmo que ele está merecendo.


Saída de festa, cinco e meia da manhã. Meu corpo já não aguentava mais dançar, beber, dançar, beber, dançar e ficar sozinha para Megan poder aproveitar. Essas são consequências da amizade. Deixei ela aproveitar e aproveitei bebendo e dançando sozinha. Não que eu não tenha feito aquelas amizades de bêbados, que saem contando problemas para as pessoas que não conhecem.

Tirei o salto antes de entrar no carro. Megan não bebeu, por isso ia dirigindo, porque se eu pegasse naquele volante, com certeza o primeiro poste seria meu.

-Você não vai vomitar. Vai?

-Não. – Balanço a cabeça. – Pode ficar tranquila.

-Ok! Deixarei você em casa depois vou pra minha. Preciso de um banho e da minha cama.

-Não quer ficar lá em casa? Provavelmente vou estar sozinha em casa.

-Não, melhor não. – Balançou a cabeça. – Preciso da minha cama. Mas hoje mesmo levarei o carro, ok?

-Sem problemas.

Nós fomos conversando pelo caminho sobre os caras que ela pegou durante a festa e de dois que deram os seus números para outros encontros. Questionei novamente sobre o Caleb, sobre o modo com que ficaram no natal e se falaram, mas ela disse que ali nada mais rola. O que, particularmente, acho que é mentira, mas tudo bem.

Megan estacionou na frente de casa e eu abri o portão com minha voz.

-Durma bem! – Grita ela.

-Dormirei. Você também. Se cuide. Beijos.

-Amo você.

-Amo você. – Gritei de volta e entrei para dentro da casa.

Geronimo correu para o meu colo. Pulou e fez festa como sempre fazia. Acariciei ele por um tempo e ri das suas lambidas em meus braços. Só ali que percebi que meu sapato ficou dentro do carro, mas não era nada.

Entrei dentro de casa e Geronimo obedeceu, permanecendo na rua. Fechei a porta e deixei minha bolsa cair no chão. Abaixo para pega-la e quando levanto, rindo da minha bobagem, Bruno está parado, ainda com o terno que usou mais cedo na premiação, braços cruzados.

-Que isso! – Balançou a cabeça em reprovação. – Você tem namorado e está chegando essa hora da manhã em casa!

-Hm. – Inclino a cabeça olhando para o lado. – Meu namorado sabe e não se importou, então me diga o porque você, que não é nada, está se importando?

Ele permaneceu calado, acho que isso deu para dar um tapa de luva em seu rosto. Seu cérebro poderia estar maquinando uma resposta pra mim. Ri baixinho.

-Sou seu amigo. – Deu de ombros.

-Por isso mesmo que não deve se importar com a minha vida amorosa. Meu namorado sabe onde estou e sabe o que fiz, ele confia em mim e eu nele. Acho que você não entenderia uma relação assim.

-Minha relação é saudável, Lea.

-Claro, com ela manipulando a sua cabeça... Super saudável. – Ando para a sala e ele vem logo atrás.

-Do que está falando? – Segura meu braço.

-O quê? – Olho nos seus olhos. – Vai dizer que não percebeu que essa menina está fazendo a sua cabeça, Bruno? Ou vai me dizer que todas as merdas que está fazendo estão saindo da sua cabeça? Porque se for assim, me diz em que momento da vida você regrediu para um moleque de dezoito anos!

-Você não tem o direito de falar o que não sabe.

-Eu sei! Eu vejo e sei.

-O que você sabe?

-Que ela manipula você. Que você caí no antigo chá de sexo e faz tudo que ela quer. Está sendo ingrato, Bruno. Um dia vai quebrar a cara e eu não quero estar por perto.

-Você não vai estragar minha felicidade, Eleanor. Se isso foi porque eu não a levei no Grammy, tudo bem, no próximo eu te levo.

-Como se você não me conhecesse. Eu não precisava estar lá, eu só não queria que você fizesse merda e mentisse pra mim. E ainda por cima mentir porque aquela menina pediu!

-Cala a boca, Lea...

-Ela está fazendo a sua cabeça! – Grito com ele e tiro meu braço de suas mãos. – Você não está enxergando um palmo a sua frente, otário. Tem mais que quebrar a cara e esperar alguém juntar os cacos.

-Já disse que você não irá estragar meu dia, Eleanor. E cuidado com o tom de voz, irá acordar a Lana.

-Acordar a Lana? A sua filha? Porque nem isso ela é mais minha.

-Você que está dizendo...

-Você não merece a filha que tem! A Lana não tem culpa de ter você como pai dela. Sua mãe sentiria vergonha do que está fazendo, Bruno. Se ela pudesse ver que está sendo manipulado como um boneco, que está tentando privar a Lana de ter uma mãe como você está sem uma. – Começo a rir. Na minha cabeça uma parte diz que estou indo longe demais, mas a outra não está nem ai e quer falar tudo que está entalado na garganta. – Bruno, acha mesmo que eu não notei que está tentando afastar a minha filha de mim? Porque ela é minha filha, você querendo ou não. Eu criei ela também. Você pode dizer milhares de coisas, pode dizer que eu não sou mãe biológica e que o único pai que ela tem é você, mas não pode nunca negar que eu sou a mãe dela. A única, a que está sempre ao lado dela, e ela sabe disso. Lana não é mais um bebê, ela sabe falar e eu sei que ela não me trocaria por pessoa nenhuma!

-Cala a boca, Eleanor. – Seus olhos tinham raiva e isso alimentava minha alma, quer dizer que eu estou conseguindo tocar nele e isso que me deixava contente. Se não é isso, eu não sei o que fará ele voltar ao seu normal.

-Você não quer ouvir as verdades, Bruno? Está com medo que eu diga mais alguma coisa que irá ferir o seu coração? Porque tenho uma lista!

-Lea, chega!

-E a festa, como foi? Aquela na casa do Brandon que eu não fui porque estava em Nova Iorque. Engraçado que a casa que eu estava em Nova Iorque é igual a sua! – Ele dá dois passos pra frente ficando bem mais próximo de mim. Não me intimido com ele! – Isso foi obra dela, não? E você está doído porque ninguém gosta dela. Mas é assim mesmo, Bruno. Nem sempre fazemos as melhores escolhas para a nossa vida. E o pior de tudo é que eu fiquei orgulhosa de você e do seu premio, que eu lembrei do quanto você lutou para estar aqui. E você falou em mim em algum momento da porra daquele discurso? Pensou em mim algum momento da sua noite? Lembrou que me enganou? Pensou em seus fãs que devem estar bravos com você, porque eles ajudaram você a estar onde você está hoje!

Bruno deu mais um passo pra frente e foi o suficiente para nossos corpos se colarem. Ele ainda estava cheiroso e seus olhos penetravam nos meus. Era intimidador e estranho. Não estava me cheirando a boa coisa.

Quando abri a boca para falar mais sobre isso, para dizer mais coisas, porque eu realmente estava atrás de motivos para ele se sentir pior do que já estava, Bruno tomou meu corpo e beijou minha boca. Literalmente calou-me com um beijo.

Eu não queria aprofundar, mas cedi. Meus lábios cederam aos seus encantos e minha língua dançou com a dele no mesmo ritmo de sempre. O seu beijo é sempre tão mágico e acolhedor. Se encaixa perfeitamente com o meu e eu nunca entenderei isso. Suas mãos seguraram meus cabelos e foi impossível não lembrar das nossas pegações antigas. Das nossas transas, dos nossos beijos...

O nome Richard ecoou em minha cabeça e eu me afastei dele, que estava com um sorriso no rosto, mas quando abriu os olhos parecia decepcionado.

-Você está namorando! Eu estou namorando.

-Lea, não negue que você queria. Senti o gosto do seu beijo, você correspondeu!

-Correspondi porque estou fora de mim. – Grito. – Caralho, isso nunca deveria ter acontecido.

-Mas aconteceu. Não fique chorando pelo leite derramado, você ainda tem o seu homem sem graça.

Minha mão coçou e eu não evitei em levanta-la e gruda-la em um tapa em sua cara. Foi a melhor coisa que fiz e me orgulho disso. O tapa estalou em seu rosto e na hora ele pôs a mão sobre o local, fechando os olhos fortemente.

Não iria pedir desculpas.

Bruno tirou a mão do rosto, abriu os olhos e estavam furiosos. Esperei pelo momento que ele fosse avançar em mim. Respirei fundo e senti medo, mas seu braço puxou meu corpo para perto do dele e novamente ele me beijou.

Dessa vez não correspondi, apenas o empurrei varias vezes para que ele saísse de cima de mim. Bruno cedeu e se afastou.

-Nunca mais faça isso. – Digo, apontando o dedo para ele. – Nunca mais encoste em mim. – Minha respiração estava descompassada. – O Richard é muito melhor que você! E sempre será!

Não esperei que ele dissesse algo, apenas virei às costas e fui para o meu quarto. Não sabia mais o que estava sentindo direito. Raiva, uma fúria sem controle, coração partido... Não tinha e nem sabia mais o que sentir.