terça-feira, 9 de junho de 2015

Capítulo 11


A todo momento a única coisa que passava pela minha cabeça era que ela nunca teve depressão alguma, que estava fingindo e agora fugiu para não arcar com as responsabilidades. Qual é, eu estudei, tenho televisão, vejo noticiários e assisto jornais, e leio livros, eu sei que o povo como o dela não são de se apegarem as coisas, gostam da liberdade. E onde ela teria liberdade tendo uma filha pequena? Estava com raiva dela, ódio. Não sabia nem ao certo o que aconteceu, mas meu sangue já fervia. Philip conversava comigo, tentando espairecer a situação, mas não dava certo.

Os gritos de Bruno no quarto, raivosos, enchiam nossos ouvidos. Havia somente uma enfermeira ali, se desculpando dizendo muitas coisas, mas Bruno só sabia/queria explicações de onde estava Diana.

-Calma, Bro! - Philip toca no seu ombro, que grosseiramente se esquiva.

-Calma? Essa mulher sumiu!

-Mas não levou a sua filha. - Comentei.

-E como que minha filha vai viver sem mãe, Eleanor? - Franziu a testa, mostrando estar bem mais bravo do que pensei. - Me empresta o carro? Preciso ver se ela está em casa.

-Não quer que eu dirija? - Pergunta Phil pondo a mão na chave que estava no bolso da sua bermuda.

-Não! - Disse rispidamente. - Me desculpe, mas não. Eu estou bem, só preciso saber onde ela está.

-E a bebê, Bruno? - O olho enquanto ele caminhava para a porta.

-Avise para o Ari buscar vocês aqui. Sua responsabilidade a assinatura da alta dela, Lea. E depois diga para ele buscar minha irmã.

-Como vamos saber onde você está?

-Eu ligo para avisar. Cuidem do meu bebê!

Sei que era um momento apreensivo, mas às vezes as palavras doem. Bateu no meu peito quando ele falou grosseiramente comigo, não sei se é a sensibilidade do momento, mas só queria chorar um pouco. Respirei fundo assim que ele saiu, olhei para o Philip que passava as mãos na cabeça.

-O que vai ser dele com uma bebê, sozinho?

-Ele não está sozinho. - O corrigi. - Ele tem amigos, e tem eu, que posso não ser mãe e não ter prática com essas coisas, mas sei do básico, e sou madrinha, tenho a obrigação de ser mãe de estepe.

-Lea... Creio que o Bruno não tem tanta responsabilidade para ser pai.

-Ele tem, Phil! Bruno pode ser louco, voador, mas ele tem a cabeça no lugar quando o assunto é sério, ele já mostrou isso pra vocês. - Me escoro ao seu lado na cama. - Vai dar tudo certo.

Eu não sabia se iria dar tudo certo, estava com medo dessa história toda. Bruno sendo pai já é um choque, agora ele sendo pai solteiro, responsável pela filha, era outro. Ele pode ser consciente em alguns momentos, quando tem necessidades, mas ele vai acabar surtando daqui um tempo, eu sei.

Tinha muita burocracia a se fazer antes de sair. Os médicos já sabiam que ela havia fugido, e claro que eu já tinha pensado na possibilidade de denunciar o hospital. Como que deixam uma paciente que acaba de dar à luz e que estava desestabilizada emocionalmente, sair sozinha dali? Falei com o médico responsável pela alta dela, ele me pediu tantas desculpas, dizendo tudo o que havia acontecido, e eu não perdi a oportunidade de falar poucas e boas. Dei uma olhada nos papéis, e ela já estava registrada: Lana. O nome que recomendei quando paramos para falar sobre isso. Bruno pôs o nome que eu escolhi? Isso é lindo! Assinei os papéis, e me encaminharam para onde minha pequena estava. Bruno já tinha trazido sua bolsinha com as roupinhas e outras coisas.

-Quer vesti-la? - A enfermeira a trazia no colo.

Um embrulho, um pequeno pacote numa manta branca. Estávamos no quarto onde Diana estava antes. A peguei no colo, agora um pouco mais firme do que estava antes, e a pus com todo o cuidado sobre a cama. A fralda era pequena demais, parecia mentira o quanto era minúscula as coisinhas dela. Sua mãozinha enrugada não parava quieta.

-Phil, pegue a bolsa, por favor?!

-Ah, claro.

Ele também estava vidrado, acho que era impossível não estar. Como ela era tão pequena, eram tantos detalhes. Retirei a sua roupinha e troquei sua pequena fralda pela primeira vez. Vesti a sua roupinha de saída com tanto cuidado e a embrulhei numa manta fina. O tempo estava mais do que quente, estava fervoroso, daqueles dias que não há escapatória para não suar, mas ainda assim era recomendado usar a mantinha nela.

Peguei todos seus exames e mais os papéis, a carteirinha, tudo o que tinha que fazer, enquanto Philip achava o Ari pelo hospital.

-Lea, tudo bem? - Deu um beijo no meu rosto.

-Oi, na medida do possível, sim. - Sorri nervoso.

-E essa pequena? - Puxou um pequeno pedaço da manta para ver o rostinho dela que estava coberto. - A boca do Bruno! - A primeira coisa que disse.

-Todos falam o mesmo. - Ri, admirando ela que dormia tranquilamente.

-Não escolheram o nome ainda?

-Acho que não. - Phil respondeu.

-Sim. É Lana. - Mordo meus lábios. - Minha pequena Lana.

-Lana? É lindo! - Ari disse, passando a mão sobre a sua cabeça com a proteção da manta.

-Lana é legal mesmo, mas ele nem falou que esse seria o nome.

-Eu sei, não falou pra mim também. Vi agora quando assinei os papéis.

-E o que aconteceu com a mãe dela?

-Ah, a Diana...

Contamos ao Ari no caminho até o carro o que tinha acontecido. Aproveitei para expor o que eu achava desde o inicio, mesmo sabendo que não era o recomendado. Durante o caminho combinamos de evitar encher a cabeça do Bruno com essas coisas.

-Entrem, a casa é pequena e humilde, mas é receptiva.

-Até parece que eu nunca entrei aqui. - Phil vinha logo atrás de mim carregando a bolsa da Lana.

-Com licença. - Ari limpa os pés no tapete antes de entrar.

-Seja bem-vindo. - Sorri pra ele. - Ah, não sei se o Bruno falou com você sobre buscar a Tiara mais tarde...

-Sim, ele disse, mas estou tão confuso com tudo isso que nem lembro que horas era.

-Por volta das oito, se eu não me engano, mas até lá ele já está em casa e diz o que temos que fazer.

Lana ainda dormia em meu colo, tranquilamente, e a médica disse que ela sentiria fome daqui umas duas horas, então a pus pela primeira vez em seu berço, dei corda no móbile que toca uma música bem relaxante e voltei para a sala com eles.

-Liguei para a Tiara, ela disse que chegará pelas sete, vou sair daqui uma meia hora para não pegar muito transito. - Ari guarda o celular no bolso da calça.

-Tomara que o Bruno tenha notícias da Diana, e que ela tenha uma boa explicação.

-É bom ela ter, Phil. É bom para sua autopreservação, porque essa menina só pode ter massa de modelar no lugar do cérebro. - Estava com raiva dela, eu podia, ela me irritou altamente com essa história. Como uma mulher dá as costas para a filha e simplesmente foge do hospital como o Diabo foge da Cruz?

-Essa menina é braba. - Ari bate nas minhas costas de leve, me fazendo rir.

-Eu não sou braba, mas mantenho meus princípios, boa educação.

-Vou deixar meus futuros filhos para você criar. - Philip ri, enquanto pega o celular do bolso. - Vou tirar umas fotos da Lana, quero mostrar pra Urbana, ela adorou a pequena.

-A vontade. Vou preparar um café pra nós, ou preferem suco, refrigerante...?

-Pra mim um café preto está maravilhosamente bem. E acho que para o Phil também.

-Ok.

Ainda estava completamente perdida. Não no sentido literal, mas sim com essa história. Não engoli facilmente o fato dela ter simplesmente desaparecido. Assim que tomamos nosso café e Ari saiu, Phil sentou a minha frente e engatamos em uma conversa.

-Se não fosse por você, acho que o Bruno não aguentaria tudo isso que vem acontecendo.

-Bobagem, ele é mais forte do que imagina.

Logo Bruno ligou para o Phil, avisando que estava chegando em casa. Pelo que Phil disse, a sua voz não era bem receptiva e legal, ele parecia estressado, e se estivesse? Então encontrou Diana e brigou feio, ou não encontrou. Definitivamente, não éramos para estarmos passando por isso, justamente agora com a chegada de Lana.

-Eu vou matá-la o dia que ela aparecer na minha frente! Matá-la. - Bruno chega aos gritos controlados.

-Já vi que não foi boa coisa. - Comento baixinho.

-Ah sim, e poderia ser boa coisa de certo quando a mãe da minha filha some do hospital?

-Desculpa. - Me recuo, sentando novamente no meu lugar, já que tinha levantado.

-A vadia não estava na casa dela, aliás, nem ela, nem seus pais, nem ninguém, nem nada. A casa está completamente vazia. Falei com a proprietária, ela me deu alguns números e nenhum atende! Fui até a faculdade, e ela não apenas trancou a matrícula, ela cancelou, alegando que iria se mudar, isso quando ainda estava grávida! - Ele passa as mãos pela cabeça, umedecendo os lábios. - Diana planejou isso, ela já queria fugir dos compromissos desde o inicio, e já tinha tudo direitinho com sua quadrilha de loucos inconsequentes.

-Bruno, acalma Bro! Ela deixou a Lana, é isso que importa agora.

-É fácil dizer "acalma" quando não são vocês nessa posição.

-Bruno, para de ser cabeça dura, estamos tentando melhorar tudo! - Philip se irrita um pouco mais, mas também não é pra menos.

-Agora é a hora de seguir em frente, crescer para ajudar ela a crescer também, e não ficar se prendendo nessas coisas. Procurar por ela vai ser perda de tempo.

-Agora é a hora também de agir como homem, e não como moleque. Me desculpa, Bruno, sei que a situação é forte, mas tem muita gente passando por coisa pior, e você surta por isso. Se tivesse levado a sua filha com ela, tudo bem, estaria surtando junto com você, mas não, ela está linda e bem, dormindo no momento.

-Ela vai crescer sem uma mãe... Não imagino o quão terrível isso possa ser pra ela.

-Sem mãe biológica ela fica, mas eu posso substituir por um tempo, eu tento dar conta do recado. Serei uma mãe pra ela, se você permitir.

-É claro que eu permito, ela vai precisar da presença feminina na vida dela.

-Então. Sem estresse, Bruno. Eu serei uma mãe pra ela, assim como você será um pai, o Phil será um pai, todos nós teremos ligações direta com a educação dela e formação de pessoa.

-Isso. - Phil pega a carona da minha fala. - Vamos ser uma família, então não fique pensando nessa inconsequente.

-Deus que me perdoe, mas é até melhor a Lana viver sem ela por perto, do que sofrer alterações em sua educação e pensamentos por uma doida. - Minha raiva transbordava da minha boca, queria mesmo pegar aquela mulher pelo pescoço.

-Lana... você viu o nome? - Seus olhos voltaram a brilhar num instante.

-Vi... Obrigada.

-Nunca me arrependerei disso.

-Foi você que escolheu o nome? - Phil questiona.

-Sim! Me empolguei tanto com ela, escolhi a decoração da parte do quarto pra ela, a cor da maioria das coisas.

-Já era uma mãe sem ao menos saber o que iria acontecer.

Fomos ver a pequena, que já estava querendo se acordar para tomar seu mama. Phil ligou para a farmácia e pediu as latas de leite que iríamos precisar agora.

Ela, esfomeada, tomou toda sua mamadeira. Bruno a pôs para arrotar com todo o cuidado, pela primeira vez. Trocamos sua fralda e Phil se despediu de nós. Logo em seguida chegou Ari, trazendo Tiara com ele.

-Tiara. - Dei um abraço nela, repleto de saudades.

-Quanto tempo. - Me embalava no seu abraço.

-Muito!

Dei o tempo para ela conhecer a sua nova sobrinha, que virou xodó logo de inicio, depois que a pomos para dormir, fomos para a sala conversar.

-Depois do casamento da sua irmã, sua mãe ficou toda boba, sempre está conversando com a mamãe pra saber quando irá arranjar um amor.

-Isso vai demorar. - Reviro os olhos.

-Lea é bicho solto, como eu, por isso somos amigos.

-Nada tira da minha cabeça que vocês não são somente amigos. Não adianta. - Tiara balança a cabeça.

-E somos. - Começo a rir.

-Lea, que absurdo, como você esqueceu a vez que nos pegamos no banheiro do shopping?

-Esquecendo, assim como você esqueceu a noite que transamos na praia.

-Vocês são doidos. - Ela ri, tirando da sua mala um pacote. - Sua mãe lhe mandou, e disse que precisa urgentemente usar.

-É um celular, que ver. - Balanço a cabeça pegando o embrulho. - Obrigada, Ti.

-E Bruno, a vovó mandou dizer que lhe ama.

-Que saudades da minha velhinha.

-Quem sabe agora você ficando famoso e rico, não traga ela pra conhecer Los Angeles.

-Quem sabe. Mas já tenho planos com o primeiro dinheiro que ganharei, e já até imagino que será breve.

-O que tá acontecendo que eu não estou sabendo? - O pergunto.

-Eu acho que vamos conseguir vender uma canção para o Flo Rida. MAS, não é nada certo. Ele andou vendo nossas letras e quer uma reunião.

-Mentira? - Ao menos uma notícia maravilhosa nesse dia cheio.

-Irmão, eu sei que você vai ser um sucesso, eu acredito!

Passamos bons momentos conversando e relembrando algumas coisas, colocando algumas coisas no lugar. Ajeitei meu celular e cadastrei meu novo número, não era muito ligada e apegada ao mundo virtual, mas talvez agora eu me cadastre em alguma coisa quando tiver tempo. Ajeitamos a mamadeira da Lana, para que a noite não perdêssemos tempo fazendo, e fomos dormir.

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