quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Capítulo 61


Ultimamente nada que eu faço parece te agradar
E talvez virar as costas seria muito mais fácil
Porque ofensas são as únicas coisas que trocamos
(Carry Underwood - I just can't live a lie)


30 de Julho de 2013

Bruno Pov’s

Nas vésperas de completar dois meses da morte da minha mãe, a dor ainda parecia morar em meu peito. A sensação é de que ela nunca mais sairá dali. Parece que sempre vai ter essa dor, essa angústia dentro de mim. Lembro como se fosse algumas horas atrás a notícia de que ela faleceu.

Isso detona comigo.

Mas a vida tem que andar. Todos dizem o mesmo, após muitos sermões de lições de vida e aprendizagem, de coisas que a vida dá, que esse é ciclo comum, que temos que nos adaptar. Mas como? Eles dão esse sermão e logo depois me incentivam a continuar. Eu quero e tento. Por mim, pela minha filha, meu pai, meus irmãos...Mas não é nada fácil.

Tenho que cumprir o contrato sobre minha turnê, não pude quebra-lo. Tive apenas uma semana de recesso e dia vinte e dois, mês passado, junho, dei início a turnê. Optei por não divulga-la, já que teria que faze-la de qualquer forma. Tive meus momentos mais só, repensando em tudo e vendo como a vida é curta.

Agora já consegui twittar sobre os shows, já consigo sorrir sem ser forçado. Isso é um progresso, sim? Tomara!

-Hey, cara. Vai acabar furando esse violão de tanto que bate o dedo nele.

-Ah. – Balanço a cabeça, aterrissando na Terra e suspirando fundo. – Estava pensando longe daqui.

-Deu pra perceber. Os caras desertaram daqui. Estão querendo ir dar uma volta na cidade.

-Nem ouvi.

-Estava desligado mesmo. – Respirou fundo e se ajeitou na cadeira. – Você está bem?

-Estou.

-Okay, cara, pode ser sincero comigo... Eu espero que seja.

-Eu estou levando Phil. – Dou um sorriso amarelado. – Estou com medo, tem uma dor no meu peito que parece não cessar nunca e um bolo na garganta que não desce. É difícil essa sensação.

-Eu devo imaginar. Mas com calma nós vamos caminhar juntos pra que essa dor amenize.

Dou uma risada nostálgica.

-Lea me disse o mesmo.

-Nós combinamos em dizer isso. – Rimos juntos e ele passa a mão sobre a cabeça. – Falando em Lea... Como ela está? Digo, como você e vocês estão?

-Eu estou bem e não há mais nós, apenas eu e ela amigos.

-Esse Richard chegou pra abalar com tudo de uma vez nela, hein.

É, foi bem assim que ele chegou. Maio foi o pior mês da minha vida, e começou com ele entrando no meio de nossas vidas e afastando aos poucos quem era pra ser somente minha. Até a minha pequena é toda dele, mal o conheceu e já ficou toda empolgada com a ideia do novo namorado da sua mãe.

Mas tudo bem, assim como aconteceu com o Kai, não dou muito tempo para eles terminarem. Lea não gosta de monotonias, de rotinas, e ele tem cara de quem não gosta de aventuras. Lea não se apega por muito tempo, ele irá ver que ele não é o cara certo pra ela e isso não irá demorar.

28 de setembro de 2013

Eleanor Pov's

Havia feito um acordo com o Ric, ele viria um mês para Los Angeles e no outro eu iria para Nova Iorque. Não nos vemos por muito tempo, geralmente quem pode ficar mais é ele por aqui. Como ele veio em maio, eu fui em junho para lá, então, como estamos em setembro, ele veio na semana do seu aniversário, que coincide com o aniversário de Tiara.

Não tínhamos muito clima para festas ainda, mas levamos nossas vidas em frente. Tiara veio do Havaí essa semana e estamos combinando uma pequena comemoração numa balada bem legal, e claro que antes terá um belo happy hour.

Bruno está em turnê, que está um sucesso pavoroso diga-se de passagem. Ele veio três vezes em casa e uma delas foi para buscar Lana pra viajar com ele. Tivemos uma pequena discussão, como é de praxe, mas seguimos em frente e acho que aprendemos a lidar com nossos problemas.

-Amor, levante. - Ric cutucou meu ombro e eu resmungo, mesmo que estivesse acordada já.

-O que foi?

-Vá para o banho que eu lido com isso.

-Com o que? - Olhei para baixo e vi o que não desejava. Tinha um pequeno risco de sangue no lençol branco e provável que meu short esteja manchado. - Droga!

-Eu cuido disso, só vá para o banho. Bem quentinho, viu. - Beijou meu ombro. - Eu levo suas roupas e estará tudo bem.

-Me desculpa.

-Não precisa se desculpar, isso acontece e é normal. Agora vá lá, se cuide para não ficar com cólica.

-Você, definitivamente, não existe. - Levanto da cama, com vergonha, mas atiro um beijo pra ele e agradeço mentalmente por ele ser um cavalheiro.

Me despi no banheiro e entrei rapidamente para o chuveiro. Deixei que a água quente caísse sobre o meu corpo, levando embora uma sensação de cansaço.

Assim que sai, uma toalha estava estendida e minhas roupas penduradas, roupas quentes e confortáveis. Eu fico imaginando, pensando, quem faria isso por mim, sem ser a minha mãe?

Quando me vesti, voltei para o quarto. Ric estava lá, arrumando a cama, trocando os lençóis. Agradeço por ele ter aparecido em minha vida.

-Pronto! - Bateu sobre o travesseiro fofinho duas vezes. - Está quentinho e confortável.

-Hmmm. Deite comigo?

Caminho até a cama.

-Só depois que eu fizer algo. Aliás, a Lana volta que horas?

-Umas quatro. Ela está sendo paparicada pelas tias.

Richard voltou da cozinha com um belo café da manhã sobre uma bandeja. Aproveitei os mimos e me aninhei novamente, pretendia aproveitar o sábado na cama, até dar a hora de irmos para a comemoração de aniversário da Tiara.

§

Sentamos a mesa de um bar bem legal. Estávamos esperando por todos chegarem para começarmos a comemorar. Ric usava a camisa que dei de presente para ele e o relógio também, havia combinado bastante como suspeitei.

-Eu só quero devorar uma travessa inteira de batata frita.

-Gorda. - Tiara implica com a Presley.

-Não é gordura, apenas gosto do que é bom, aliás muito bom.

-Gosta de mim, é claro. - Kealoha mexe nos cabelos de Presley e ela o bate, dizendo que se ele estragar seus cachos e ela acabar virando um leão, ela o mata. É o amor.

-Boa sou eu! - Tocou seu cabelo para o lado. Caímos na gargalhada.

Nós começamos a comer mesmo sem a presença do Bruno e Jaime, que ainda não tinham chego.

A risada é algo que não faltava em nossa mesa, fotos e muitos vídeos legais, piadas internas e o que eu mais gostei da noite até então: elas consideram o Ric como cunhado delas. Ele, além de conquistar o seu lugar na amizade delas, conquistou a posição de cunhado, como se eu fosse irmã. Realmente, eu me sinto parte da família há muito tempo.

-Desculpem a demora. - Bruno chegou falando e dando um beijo em Tiara. - Jaime acabou ficando com a Lana e eu recebi umas ligações. Coisas da turnê. - Deu um beijo em Presley.

-E meus filhos? - Pergunta Tahiti. - Estão com ela, ao invés da Umma?

-Yep! Lá em casa.

Bruno sentou-se e me cumprimentou de longe, assim como fez com Ric. Acho que todos sentimos o clima que ficou pesado de repente.

Machucou meu coração ser ignorada assim. Acho que ele não fez por querer, eu sou melhor amiga dele e ele não faria isso, mas então porque me cumprimentar de longe, como se fôssemos meros conhecidos?

Nós continuamos a comer, saímos de lá, nos despedimos do pai de Bruno e de Tahiti, que voltariam pra casa e tiramos mais algumas fotos na rua, com brincadeiras. Nos dividimos em carros e fomos para a festa.

Ouvi Bruno dizer para Tiara que chamou uma pessoa para a festa e que esperava que ela não se importasse. Eu queria saber quem era, ainda tenho ciúmes do meu melhor amigo e sinto falta dele. Caramba, ele passou dois meses sem vir pra casa e quando vem não me da nenhum abraço?

Essa TPM também não me ajuda nenhum pouquinho.

-Chama ele! - Ric beija o topo da minha cabeça logo que entramos na balada. - Pergunta se ele está bem e como foi as viagens e os shows?

-Eu… - Olho para ele. - Se ele não veio falar comigo, ele deve ter seus motivos, então, deixa assim.

-Lea, não tem deixar assim. Ele é seu amigo e você sente falta dele. Vá lá.

-Mas… Ele nem olhou na minha cara direito. Não sou de correr atrás.

-Bom, você que sabe.

Ficamos em uma área reservada, com vista VIP de tudo e acesso VIP a tudo. Aproveitei para dançar e pegar umas bebidas, ainda eram uma da manhã e a noite era uma criança.

-Bruno! - O chamo quando vejo-o saindo do banheiro. - Tudo bem?

-Oi, Lea. - Me dá um sorriso aberto e abre os braços para um abraço. - Não te cumprimentei melhor porque senti que ele poderia ficar com ciúmes.

-Vá se catar! Desde quando eu te troco por alguém ou ele sente ciúmes? Pare de bobagem. - O abraço fortemente. - Senti sua falta.

-Eu também! Mas sobre o Ric… Sinto que ele sente ciúmes do nosso passado.

-Bobagem, Bruno! Ele adora nossa amizade, ele que pediu que eu viesse falar com você antes, mas tenho meu orgulho também.

-E eu tenho o meu.

-Então estamos quites!

-Ok! Estamos. Mas então… Não o vi dançar muito. Que houve?

-Estou esperando alguém.

-Hm. Me conta quem é?

-Não… Surpresa. - Riu. - Você não conhece ela.

-Mais uma para a coleção de bonecas de porcelana?

-Essa é um pouco mais legal que as sem utilidade pós sexo. – Nós rimos e ele abraçou-me de lado. – Será que levo uns tapas se Richard me ver assim em você?

-Talvez. – Torço a boca para o lado e logo complemento. – De mim! Se não parar de falar besteira.

-Pra que ser grossa assim?

-Eu não sou grossa.

-Porra, imagina se fosse.

Pelo menos fiquei mais aliviada em estar rindo com ele. Nós nos juntamos com o pessoal para curtir mais um pouco todos juntos, com as bebidas e risadas, mas quando Bruno recebeu uma ligação, distanciou-se de nós e voltou uns cinco minutos depois.

Ao seu lado tinha uma mulher, não era uma das mais lindas que ele já pegou, mas com certeza uma das mais nariz empinado. Tinha cabelos longos e lisos, provável que seja algo de salão, na cor preta. Seus olhos puxavam um pouco, lembravam de índias. Boca carnuda e corpo violão, baixinha como eu.

Bruno ficou com ela por lá e nós curtimos juntos, apesar de que as poucas palavras que ela disse, foram bostas.

-É só eu que não gostei dessa menininha? – Tiara para ao meu lado, segurando um copo de Martini em mãos. – Ela parece estar forçando a barra.

-Ela parece querer impressionar a todos. – Disse.

-Como é o nome mesmo? – Tiara pergunta. Faço um esforço para lembrar.

-Mia? Acho que é isso.

-Deus. – Revirou os olhos. – Ela que não queira bancar a amiguinha para o meu lado.

-Se Bruno adota-la como nova foda-certa, pode ter certeza que ela irá querer se apegar com uma de vocês.

-Você morre pela boca, hein. – Tiara deu um tapinha em minhas costas e riu. – Ainda bem que nós combinamos tanto.

-Sempre!

A festa estava boa, mas quando todos se distanciaram para fazer coisas sozinhos, passou a perder a graça, então olhei para o Ric e parece que nossos olhares se conversaram. Queríamos ambos ir embora dali.

Dei tchau para Tiara e peguei o carro para sair.

Ao chegar em casa, não havia ninguém. Lana provavelmente deve ter ido para a casa de Jaime, já que ela deve ter pensado que Bruno chagará bêbado em casa, ainda bem que ela está correta, porque não imagino menos.


A parte pior é dar tchau ao Ric e saber que só o verei daqui um mês. Ele foi embora na tarde de domingo, logo que larguei-o no aeroporto, busquei Lana para ela voltar pra casa, achei uma babaquice Bruno não ter ido busca-la somente para ficar comendo aquela menina. Falando na tal de Mia, ele teve a audácia de leva-la na casa dele.

-Papai tá em casa? – Pergunta Lana assim que chegamos na garagem.

-É para estar. – Dou de ombros.

-Estou com saudades dele, mas ele chegou e eu mau o vi. – Torceu seus lábios numa carinha tão triste. A peguei no colo com dificuldade.

-Você está pesadinha pra isso, mocinha. – Assopro de cansaço. – Seu pai esteve ocupado, mas ele também sente a sua falta. Aposto que quando ele chegar em casa, vai ir correndo te ver.

-Eu quero.

-Imagina se ele tem um enorme presente pra você?

-Não preciso de presente, mamãe. Quero apenas ele em casa.

Parte meu coração ouvir uma coisa dessas. Ela não merece estar passando por isso, mas filhos de pop star’s tendem a ter essa vida. Se não estão grudados em seus pais, estão em casa com saudades deles. Não queria que isso acontecesse com ela, mas nada posso fazer.

-Ele estará. – Abri a porta de casa e eu e minha boca santa. Ele estava lá, estava indo em direção ao seu quarto, com uma garota loira no colo, aos beijos. Ela nua e ele com cueca. Tapei imediatamente os olhos de Lana e gritei, mesmo sem querer alarmar tudo.

-Lana! – Ouço ele dizer.

-Bruno, vista-se! – Resmungo, com os olhos totalmente fechados. Não queria ter que presenciar essa cena.

-Oh meu Deus, é a sua filha? – Ouço a loira perguntar.

-Sim... Meu Deus. – Aposto que suas mãos estão sobre a cabeça ainda perguntando o que fazer. – Hã, Marie, vá para o quarto vestir-se, por favor. Já vou pra lá.

-Papai? – Lana se mexe em meu colo para tentar descer e ver seu pai.

-Largue ela, Lea. – Ele me pede. Largo Lana no chão e abro os olhos pouco a pouco. – Amor do papai. – Ele estava abaixado, de braços abertos para recebe-la.

Seria uma cena linda se não fosse pelo que vi uns minutos atrás. Passo por eles rapidamente e vou até o quarto dela largar a sua mochila, quando volto para a sala, eles estão vindo corredor adentro. Ela falando sobre o balé e ele escutando atentamente carregando-a no colo.

Passei por eles e fui até a cozinha, mexi nas coisas e reforcei um bom café para tomar. Liguei a televisão e sentei na cadeira para tomar o café e assistir algo por ali mesmo, evitando ver o Bruno e a sua loira.

-Hey. – Chamou minha atenção. – Desculpa pela cena.

-Hey. – Mexi em minha colher. – Não tem que pedir desculpas pra mim, é para a sua filha.

-Já me entendi com ela.

-E a moça? Já foi embora?

-Ainda não. Vou conversar com ela antes.

-Ok, vá lá. – Aponto para a porta.

-Está me expulsando?

-Não, só não quero que perca o tesão.

-Você me conhece, sabe que eu nunca perco.

-É – Ri, tentando não lembrar de nada. Não preciso mais disso. – E a Mia? Você disse que não era mais uma de suas bonecas!

-Ela não é! – Balançou a cabeça. – Mas a sua voz enjoa um pouco.

-Ih. – Balanço minha cabeça. – Volta quando para a turnê?

-Terça. Amanhã quero aproveitar ao máximo com a Lana, então cancele os compromissos dela.

-Você é quem manda. – Dou uma mordida da maçã e ele para ao meu lado, me olhando enquanto mastigo. – O que houve?

-Nada...

-Bruno? – O chamo e ele vira para me ver. – Só não traga tantas mulheres aqui, por favor.

-Está pedindo por você?

-Não... É pela sua filha. Não quero que a confunda.

-Ela sabe quem é seu pai.

-Mas ainda não tem consciência dessas loucuras que acontecem em sua vida.

-Ok, Lea... E você não a confunde com o Richard?

-Ele é meu único. – Respondo. – Não tem como ela confundir a única pessoa que está comigo.

-Mas você estava comigo.

-Tecnicamente não. – Dou um sorriso amarelo. – Nós nos pegávamos quando dava vontade.

-Ok, Lea. Vou ir ao quarto.

-Boa conversa.

-Obrigada, pode deixar que eu terei.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Capítulo 60


Eu sinto a sua falta
Sinto muito a sua falta
Eu não te esqueço
Oh, é tão triste
Eu espero que você possa me ouvir
Eu lembro claramente
O dia que você partiu
Foi o dia que eu descobri que não seria a mesma coisa
(Avril Lavigne - Slipped Away)


Bruno Pov’s

Meu mês tinha começado uma porcaria. Bastei na primeira semana saber que Eleanor tinha começado a namorar e meu interior querer gritar de ciúmes, ainda tive uma briga com Ryan, depois com Philip. Agora nos acertamos, mas foi bem difícil passar uma semana sem falar com eles.

Viajei para umas entrevistas e acertos de últimos detalhes da divulgação da turnê mundial. Estava super ansioso com tudo isso acontecendo.

Até que recebi uma mensagem nada legal no dia vinte e oito de maio. Minha irmã havia me ligado e eu não pude atender, disse baixinho que era somente mensagem e assim ela fez.

“Bruno, estamos indo para o Havaí. Mamãe não está muito bem e está indo para o hospital. Esperamos que não seja nada grave, não queríamos atrapalhar o seu momento, mas precisávamos avisar. Qualquer coisa eu comunico você. Te amo”

Presley postou a notícia que me deixou na sarjeta.

Depois de ter lido aquilo o que eu queria fazer era pegar minha pequena e ir para o Havaí. Liguei para Eleanor e avisei, pedi que deixasse tudo mais ou menos pronto porque a qualquer momento eu estaria ligando para avisar que estaria embarcando para o Havaí.

Houve todos os possíveis empecilhos para que eu chegasse ao Havaí. Ficamos presos no aeroporto de Washington, alegavam que havia uma tempestade se aproximando e então atrasaram todos os voos. O meu ainda tinha uma conexão antes de ir para o Havaí. Minha irmã ligou dizendo que mamãe iria ficar pelo hospital para uma bateria de exames. Nesses momentos meu coração gela e eu não consigo pensar em nada. Apenas deixei que o pessoal cuidassem da mídia, não queria que me expusessem num momento desses, é pessoal demais.

Levei um enorme baque quando adormeci na cadeira e sonhei com algo ruim. Liguei para Eleanor e pedi que fosse para o Havaí o mais breve possível, pois ainda esperávamos a liberação do voo.

Eleanor Pov’s

Eu derretia com o calor do Havaí. Coloquei um vestidinho leve e solto e sandálias. Iria sozinha ao hospital, Bruno preferiu que Lana ficasse em casa, pois Bernie está na UTI e ela não poderia entrar. Aquela casa nunca esteve tão silenciosa quanto estava agora. Não tinha ninguém, estavam todos pelo hospital, e eu somente a espera de Tahiti chegar para ficar com as crianças para que eu pudesse visita-la.

-Cheguei. – Avisou-me assim que abriu a porta, com óculos escuros e nada de astral. Não quero nem imaginar como essa dor é. – Está tudo bem por aqui?

-Sim. – Observei-a tirar os óculos. – E como está lá?

Ela engole a seco, arqueando a sobrancelha. Seus olhos estão vermelhos, deve ter passado um bom tempo chorando.

-Está tudo na mesma. – Fui até sua frente e abracei seu tronco, não esperei que ela me abraçasse de volta, ela apenas precisava saber que não estava sozinha. – Estou com medo, Lea. – Passou a mão sobre meus cabelos.

-Não tenha medo, tenha fé. – Beijo seu rosto, com seus cabelos tapando. – Ela sairá de lá e estará aqui dando bronca em nós e cuidando das suas plantinhas.

- Eu me sinto culpada, sabe? Ela está naquele hospital e não há nada que eu possa fazer. Nós simplesmente saímos do Havaí e fomos viver nossa vida em Los Angeles, deixamos a aqui...

-Hey. – Seguro os dois lados da sua cabeça e beijo sua testa. – Ela queria que vocês fizessem isso. Ela estava na torcida por vocês, e ainda está. Isso não aconteceu por culpa de ninguém, isso aconteceu porque aconteceu. Não foi culpa de vocês. Não quero ver você se culpando. Quero ver você indo abraçar seus filhos e orando para Deus! Tudo vai dar certo.

-Eu estou tão nervosa.

Minha conversa com a Tahiti ainda demorou um tempo. Precisei acalmar seus ânimos, dar uma injeção de positividade e de fé. Tudo vai dar certo, eles só precisam acreditar, assim como eu acredito.

Liguei para minha mãe antes de pegar o carro e sair a caminho do hospital. Ela havia saído de lá algumas horas, mas iria voltar à noite para visita-la.

Nessas horas todos estavam respeitando a privacidade. Bruno estava no hospital, mas não havia nada sobre ele lá e nenhuma foto, graças a Deus. Ele precisa desse tempo para ele. Não o vi desde que ele veio de viagem. Bruno não passou na casa da sua mãe, foi direto para o hospital ontem à noite e eu cheguei e fui direto pra casa, não vim no hospital. Apenas nos falamos pelo telefone rapidamente sobre a Lana.

Todos estavam numa sala de espera reservada. A UTI fica ao lado e médicos passam sempre por ali. Abri a porta e os olhos de todos ergueram-se para me ver. Meu único objetivo foi ver o Bruno e seus olhos pequenos de tanto chorar.

Fui ao seu encontro e o abracei, usando toda minha força e carinho. Queria mostrar que eu estava ali, que independentemente do que estamos passando, eu estou com ele e sempre estarei. Beijei sua bochecha e ouvi seu choro baixo em meu ouvido.

-Que bom que está aqui! – Abraçou-me novamente, com mais força.

-E onde mais eu poderia estar?! – Respirei fundo, inalando todo o cheiro do seu corpo. Seu pescoço, lugar onde eu costumava beijar e habitar. Estávamos mais distantes agora, ele com suas viagens e eu com minha vida social um pouquinho mais agitada com a presença do Ric. – Vou cumprimentar os outros.

Dei um beijo em cada um que estava ali e, sinceramente, não sei pra que tantas pessoas. Não havia mais ninguém naquela sala reservada além da família do Bruno e só ali tinham umas dez pessoas. Cumprimentei seu tio e perguntei sobre Soledad, ele disse que ela ficou em casa por conta de ser um hospital e ficar ruim expor ela a doenças que possam estar circulando por aqui. Entendo o fato, ela é idosa e não pode se descuidar.

Depois de Bruno, a pessoa com quem fiquei mais tempo abraçada, foi com Tiara. Ela estava precisando de colo, era mais do que transparente isso. Abracei Pete por um longo tempo também. Conversamos sobre a melhora dela e sobre outras coisas, até um médico dizer que ela poderia receber mais uma visita de duas pessoas por cinco minutos no máximo.

-Vai você, Lea. – Jaime apontou suavemente para a porta.

-Eu? – Arqueei a sobrancelha.

-Sim. Você, que não foi ainda, e o Bruno.

Levantei e passei o braço pela sua cintura. O sentia mais fraco, cansado, mas que estava levando tudo em frente.

Chegamos à repartição da sua maca, uma cortina que separava com as outras. Uma poltrona ao seu lado e muitos aparelhos ligados ao seu corpo. Há um tubo saindo de sua boca e canutilhos de seu nariz. Alguns pontos estão ligados ao seu peito e a máquina faz “bip” a cada segundo. Apertei meus olhos e segurei o Bruno. Quando abri, ele ainda estava estático, olhando para ela e deixando apenas as lágrimas caírem.

-Fale com ela. – Apoio minha mão em suas costas. – Ela pode escutar você.

Bruno me olhou, formando um ponto de interrogação no olhar. Sorrio de canto, amarelado e sem muita vontade. Tomou coragem e andou em frente, parando ao lado da maca e segurando a mão da sua mãe com uma agulha onde passa o soro.

-Não me deixe. – Segurou seu choro, mas as lágrimas caíam mesmo assim. – Eu nunca fui o que esperava que fosse. Assim como te dei alegrias, lhe dei tristezas. Lembra quando eu quebrei o vaso da vovó? – Riu amargurado, com a lembrança distante. – Você me pôs de castigo por dois dias e disse que eu vivia no mundo da lua. – Coçou a cabeça. – Troque de lugar comigo... Deixe que eu sofra um pouquinho e venha cá viver. Dói vê-la assim... Quero o seu sorriso e suas ligações de sempre.

-Bruno... – Percebi que ele estava se exaltando, segurando a mão da sua mãe e quase deixando cair o soro. – O soro. – Apontei para minha mão o local onde estava o soro dela.

-Ah, desculpe. – Ajeitou e riu. – Viu, garanto se fosse você aqui e eu aí, você não estaria fazendo isso.

Eu apenas o assisti falando muitas coisas para a sua mãe e rindo, remetendo-se a acontecimentos antigos. Fiquei tão emocionada com a série de coisas que aconteceu ali que mal consegui vê-la de perto. Segurei a sua mão com cuidado, dei um beijo em sua testa e dei um até breve. Sei que ela irá melhorar.

Fui embora do hospital e carreguei Bruno, Pres e seu namorado, Kealoha, junto comigo. Eles estavam há muito tempo naquele lugar e precisavam de uma noite de sono, um bom banho e uma boa comida de verdade, ao invés de lanche da cantina.

Lana brincava com seus primos quando cheguei. Ela abraçou seu pai e eles tiveram a conversa que a vovó estava mal e precisava de forças. A casa estava bem silenciosa. Assumi a cozinha, fazendo uma janta bem reforçada para eles e cantarolando baixinho alguma música de baixo astral, porque era assim que eu estava me sentindo no momento. Não tinha clima para músicas alegres.

Eric e Cindia chegaram do hospital e se uniram a nós. Coloquei a mesa e chamei todos para jantar. Todos nós comemos como podemos, já que quando estamos assim, pra baixo, nem fome sentimos direito.

Ajeitamos as crianças e peguei Pres, Cindia e Tahiti para me ajudarem com as plantinhas. Consegui faze-las rirem algum tempo com a água nas plantas e dizendo coisas engraçadas para distrair elas. Estava conseguindo, até ouvirmos um barulho e Eric aparecer na porta dos fundos. Estava esbaforido, chorando e balançou a cabeça negativamente.

Eu soube na hora o que aquilo significava. Olhei para as meninas, que pareciam estar assimilando as coisas. A minha primeira reação foi correr para dentro da casa e ir atrás do Bruno, que estava ajoelhado na frente de cacos de vidro do que antes era um copo.

Abaixei-me ao seu lado, passando a mão por cima dos seus ombros.

-NÃO! – Gritou, soluçando. – Por quê? – Me olhou. Meus olhos já estavam cheio de lágrimas, mas ao ver o seu rosto, não consegui ser forte. Chorei também. O abracei fortemente e o ouvi repetir várias vezes “não” em meus ombros. Mal posso imaginar o tamanho da sua revolta. – Ela não pode ir, não pode!

-Shhh... – Pedi, acariciando sua cabeça.

-Lea... Como ela pode me deixar aqui? – Ouvi perguntar, baixinho. Era devastador vê-lo assim. – Ela se foi. Ela se foi. Ela se foi. – Repetia um mantra em minha cabeça e ali perto eu ouvia o choro das meninas e do Eric. Não sabia quem apartar primeiro, depois que eu conseguisse deixar Bruno um pouco mais calmo.

-MÃE. – Tahiti chorou como uma criança. Espiei e a vi sentar no chão como eu e Bruno.

-Eu preciso dela comigo. – Bruno continuou a falar, além do seu mantra. – Fica comigo, mãe. Por favor! – O afastei do meu abraço e olhei seu rosto completamente molhado. Seus olhos vermelhos, pequenos, abria a boca para soluçar e chorar e até sua baba estava parecendo como a de uma criança. – Eu não sei viver sem ela, eu não sei.

Deus, se eu pudesse fazer algo com que ele parasse de sentir isso.

-Tome isso. –Pres parou ao nosso lado. Seus olhos estavam fixos no nada, ela estava distante dali. Ainda não tinha caído a sua ficha. – É água com açúcar. – Peguei o copo e dei na boca do Bruno, que relutante, não quis beber.

-Beba, por favor. – Olhei nos seus olhos e prontamente ele bebeu, deixando cair um pouco. Assim que terminou, pus o copo ao nosso lado e retomei nosso abraço. – Ela ama você, Bruno. Não importa onde ela está.

-Eu a queria comigo, Lea. Porque esse mundo é injusto assim?

-É preciso passar por isso. – Afago seu cabelo. – É duro encarar, mas é necessário. Pense que ela ainda está aqui. Ela te ama mais que tudo e você ama ela. Isso nunca vai morrer.

-Eu quero o último abraço!

-E do último abraço, você iria querer mais um, e mais um e mais um... A morte não é justa, se ela fosse, nunca iríamos querer dar adeus a quem amamos.

-Minha mãe... – Ele olhou para algum ponto fixo, obteve o pensamento distante. Segurei sua mão e ele apertou a minha. – NÃO! – Voltou a chorar e soluçar. – Eu não posso acreditar. Ela se foi... Ela se foi! – Respirou fundo, procurando ar.

-Vá falar com a Lana... – Cindia parou ao meu lado. – Irei dar conta deles.

-Tudo bem. – Tentei levantar, mas ele segurou minha mão firmemente.

-Não me deixe. – Seu corpo se balançava com a intensidade do seu choro.

-Está tudo bem. – Beijo o topo da sua cabeça. – Eu irei falar com a Lana... Está tudo bem.

Caminhei até a porta do quarto em que ela estava. O mesmo que eu e o Bruno.

Entrei no quarto da Lana, era de noite e ela ainda estava acordada. Penteava uma das suas bonecas enquanto no notebook a sua frente passava algum desenho. Ela me olhou esperta e soltou sua boneca ao lado. Meu olhar já dizia tudo, estava com os olhos avermelhados de segurar o choro de agora, mas as bochechas úmidas ainda e geladas e ela entende disso. Baixou a tampa e engoliu a saliva a seco.

-A vovó está melhor?

-A vovó... - Tive que parar de falar durante o tempo que me sentava na cama. - Lana, você sabe onde os anjinhos ficam?

-Sim, no céu. - Ela aponta pra cima.

-A vovó vai virar um anjinho agora. Uma estrelinha, a mais brilhante. - Deixei escapar as lágrimas que correram soltas ao meu rosto.

-Ela se foi? E como pode deixar o papai pra trás?

-Sim... ela deixou o papai porque ele tem coisas a fazer por aqui. - Passo a mão em sua cabeça.

-Eu sei me cuidar. - Como pode uma criança de quatro, quase cinco, falar dessa forma. - Mas ela precisa estar aqui pra cuidar do papai.

-Meu amor. - Seguro o choro com força, e a puxo para abraça-la. - O papai saberá se cuidar sozinho, a gente aprende um dia.

-E se eu chamar a vovó, ela volta?

-Ela vai estar sempre aqui com você. - Beijo o topo da sua cabeça. - Dentro do seu coração.

-Mãe, ela me amava? - Meu coração parte em pedaços quando ouço isso, atinge com toda a força.

-Ainda ama, meu amor. E muito. - Seco minha lágrima.

-Eu também amo ela. Eu amo todos vocês. O vovô vai sentir falta dela?

-Todos nós vamos.

-Eu o vi pintando as unhas dela, na última vez que a vi. Ela estava com dor nas costas e não conseguia se abaixar pra pintar, e ele pintou.

Eu estava sofrendo, mais do que imaginei que sofreria. Tomei todas as dores possíveis do Bruno e da Lana, queria poder não permitir que eles sentissem isso e deixassem apenas pra mim. Bruno sofrerá por perder a sua mãe, como eu estava sofrendo por perder ela, minha mãe por perder a amiga de anos, e Lana por perder sua avó. Passo minhas mãos por seus cabelos refletindo sobre o que ela falou. Tão pequena e tão sábia.

-Eu quero falar com a vovó!

-É impossível, meu amor.

-Por oração. Eu sei que ela vai me ouvir, e Deus também.

-Como cresceu tanto? - Porque diabos eu tenho que ser tão chorona.

Lana se ajeita na cama, passa sua pequena mão em meu rosto e pede para que eu não chore. Se ajoelhou e juntou suas mãozinhas pedindo que eu fizesse o mesmo.

-Papai do Céu, receba minha vovó com todo o carinho e amor aí em cima. Ela merece estar num lugar maravilhoso. Não sei porque a levou, mas deve ter seus motivos e bem, eu não entendo muita coisa. Deixe uma caminha bem quentinha pra ela, e um travesseiro fofo. Não deixe que ela ande de pés descalços. - Tive que dar um pequeno riso ao meio de tantas lágrimas. - Que ela vire nosso anjinho e proteja meus tios, minha mamãe, meu vovô e meu papai. E, por favor, não leve mais ninguém assim. Diga a ela que nós a amamos.

-Amém. - Dissemos juntas.

A deixei no quarto para dormir e fui até o banheiro passar uma água no rosto. Ainda estava duro de acreditar que isso tinha acontecido, justamente com ela. Mas como disse para o Bruno, a morte não é justa. Ela vem e não há como impedir ou escapar. Simplesmente arrebate tudo assim, dessa forma. Dói e sempre irá doer.

Chegou dois tios deles na casa que estava num choro completo. Cada um chorava mais do que o outro, era impossível saber a quem recorrer primeiro. Bruno estava sentado no sofá, olhando para baixo, ainda chorando.

O celular tocou e Cindia me chamou, era Richard. Peguei-o e fui para os fundos da casa.

-Oi. – Disse ao atender.

-Oi. Ia perguntar o que aconteceu, mas acho que isso fala muita coisa.

-O clima está pesado por aqui.

-Como ela está?

-Ela faleceu, Ric. – Era duro falar isso. – Ela faleceu e eu não sei o que fazer.

-Meus pêsames. Isso deve ser tão difícil.

-Você não imagina o quanto. Todos estão chorando. Todos amavam ela. Você deveria ter conhecido-a. Ela era uma pessoa maravilhosa.

-Eu imagino. A família dela é tão unida, todos são amorosos, posso imaginar como ela era.

-Exatamente.

-E o Bruno?

-Ele está mal. Chorando.

-Manda um abraço pra ele. Bem, eu não vou tomar o seu tempo, amor. Falamo-nos depois.

-Obrigada. Por tudo.

-Se cuida e cuide de todos.

-Ok.

Desliguei o telefone e entrei diretamente para perto do Bruno. Seu tio estava afagando a sua cabeça num abraço. Aproximei-me sem interromper nada e esperei por minha vez. Quando ele deixou que eu o abraçasse, Bruno grudou-se em mim de uma forma necessária. Era como se ele implorasse por um carinho a mais naquele momento, como se ele estivesse gritando por ajuda.

Sabia que meu amigo estava mal.

-Eu...

-Shh. Não fala nada. – Afago seus cabelos, dando um beijo na sua cabeça. – Eu estou aqui com você e sempre estarei.

β

A noite foi longa, mais longa do que eu imaginava. Quando Bruno e todos saíram, cada um para uma coisa, eu fiquei com as crianças. Expliquei da melhor maneira possível que a vovó deles estava no céu, que ela era um anjinho agora, mas era impossível controlar o choro. Todos ficaram cabisbaixos e vê-los assim doeu muito mais do que eu imaginava.

O telefone tocou, atendi sem nem ver quem era.

-Oi, Lea. – Ouvi a voz de Bruno.

-Bruno! – Suspirei aliviada por ouvir a sua voz, ainda de choro.

-Estamos resolvendo a papelada dela, estou com o papai.

-Tudo bem.

-Você pode ficar um pouco mais com as crianças? Não sei que horas irá acabar aqui.

-Tudo bem, posso sim.

Retornei a ligação para minha mãe, cuja voz estava irreconhecível. Ela soluçou de chorar, algo que quase nunca vi acontecer. Pedi que ela fosse até lá já que estava com as crianças e não poderia sair. Fiz o café delas e servi.

Atendi a porta para minha mãe e ela desabou em meus braços. Apertei seu corpo contra o meu, e pedi a Deus que não me deixe passar por essa dor, não tão cedo. Não quero perder meus pais, nem meus avós, nem ninguém. Na verdade ninguém quer perder, mas sinto que se perde-los, posso perder meu chão, aí sim não sei como retornaria.

Dei uma xícara de chá para minha mãe e sentei ao lado dela no sofá. Ela olhava para a poltrona com nostalgia.

-Pensei que iria antes dela.

-Não diga isso. – Apressei-me em responder.

-É verdade, filha. Bernadette era cheia de vida, de alegria, saúde... Mas no fim, isso não quer dizer nada, quando é a hora, simplesmente é a hora.

-Você também tem tudo isso.

-Ela deixou os netos, os filhos, os irmãos... São muitas pessoas.

-Mamãe, não vamos ficar pensando na morte. Vamos pensar nas coisas boas de quando ela estava entre nós.

-Ela sempre estará.

-Sempre! Nas pessoas, nos filhos, netos, nas plantas, nos quadros... Em tudo o que quiser.

-Filha. – Virou-se pra mim, pegou minhas mãos e deu um sorriso terno. – Conserve boas coisas, ok?

-Ok.

-E conserve sua amizade com o Bruno. Ele precisa muito de você e você dele. Vocês são pedestais um para o outro.

-Eu o amo. Ele é meu melhor amigo.

-Conserve isso. E o apoie. Ele precisa de um colo bem confortável agora. Isso demorará a passar, então fique ao lado dele e não o deixe se perder.

-Vou fazer o possível.

-E o impossível, não podemos nunca perder nossos verdadeiros amigos. É como casamento filha, na saúde e na doença, na alegria ou na tristeza...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Capítulo 59


Eu só quero sentir amor verdadeiro
Sentir o local onde vivo
Porque eu tenho muita vida
Fluindo nas minhas veias
E sendo desperdiçada
(Feel - Robbie Williams)

Passei um sábado maravilhoso com minhas irmãs e minha filha. Ligamos para minha mãe através do Skype, que apesar de estar com uma leve dor de cabeça, ria e brincava conosco. Essas foram minhas distrações, pois quando cheguei em casa tive um enorme baque. Lembrei da Lea dizendo sobre seu novo namoro, mostrando seu anel. É errado ficar com esse remorso, mas eu estou me sentindo assim e nem sei como concertar.

Lana correu com o Liam para os fundos da casa para brincarem com o Gege. Fui até o estúdio com o Eric e Tiara. Ela posaria aqui novamente.

-Vocês não podem discutir assim sobre as músicas. – Eric dava um sermão em Tiara. – São irmãs. Se amam. Não é por uma música que irão brigar.

-Mas elas não me perguntam as coisas! – Gesticulou as mãos. – Simplesmente me tocam um papel e dizem “olha, você vai fazer isso”. Eu não sou capacho de ninguém. Tenho meus gostos e quero também opinar.

-Então diga isso pra elas. – Disse.

-Mas é aí que entra a questão maior, irmãozinho. Elas não me escutam. É só na briga e ameaça.

-Elas escutam sim! Mas eu garanto, te conhecendo como conheço, que você não chega numa boa. Já chega com quinhentas pedras em mãos. – Eric cruzou os braços e ela soltou a respiração.

-Eu não estou afim de estragar meu final de semana com isso. – Bufou.

-Pensa bem no que está fazendo.

-Odeio você! – Gritou, dando as costas. – E você também, nanico.

-Blá, blá, blá. – Revirei os olhos e nos entregamos para a risada.

-Está calado depois que chegamos aqui. – Eric me observa, sentando na cadeira da bateria.

-Cansado. – Deixo meus ombros caírem e me recosto na cadeira.

-Imagina quando chegar a turnê! Você morre.

-Nem quero imaginar. – Pego o violão preguiçosamente.

-Não está só cansado, né? – Nem vi que Tiara estava tocada no sofá do estúdio, pensei que tivesse saído dali. Virei-me pra ela.

-Estou.

-O que tem nesse meio que não estou sabendo? – Pergunta meu irmão.

-Tem nada. – Devolvo o olhar intimidador que Tiara dá em mim.

-Você está com ciúmes!

-Não estou. – Balanço a cabeça. – Cala a boca.

-Tá sim.

-De quem? – Pergunta novamente. Meu irmão está completamente perdido. Tiara já deve saber que ela está namorando. Idiota. – Da Lea?

-Dela mesmo.

-Fica quieta, Yara. Você não sabe de nada.

-Ela está namorando, Eric, aí ele está assim, morrendo de ciúmes. Garanto que pensa que poderia estar no lugar do Ric.

-É Richard!

-Viu, até me corrige. – Ela dá altas gargalhadas. – Mano, desencana. Você teve seu tempo.

-Teve tempo de sobra com ela.

-Dá pra vocês dois darem um tempo? Eu não ligo pra essas coisas. Não ligo pra ela ou pro namoro dela. Lea continua sendo minha melhor amiga e deu.

-Até ela começar a ser mais amiga do namorado do que de você, porque ele pode sentir ciúmes de você, aí pouco a pouco você vai perder ela.

-Por isso que as meninas brigam com você. Porque você é chata!

-Eu só estou falando a verdade. – Deu de ombros.

-Deixa ele, Tiara.

-Tudo bem. – Dedilhei umas notas desconexas no violão e mudamos o assunto rapidamente para música.

Treinamos um pouco e voltamos pra sala. Na hora, Lea chegou. Estava com uma sacola em mãos e um enorme sorriso. Esse sorriso me incomoda bastante. Ela deu um beijo em cada um de nós e disse que ia tomar um banho.

-Papai. Titio. O Liam pode dormir aqui hoje? – Chegam os dois ofegantes de tanto correrem.

-É com o seu tio, porque por mim esse carinha morava aqui em casa. – O peguei no colo.

-Eu posso, papai?

-Sua mãe... – Pareceu pensar bem no assunto, deu um sorriso que eu pude entender que era mais tempo sozinho com ela. – Ela não verá problema. Claro que pode.

-Eeeeeh! – Lana gritou em comemoração. – Solta ele. – Puxou minha perna.

-Porque mocinha?

-Ela está com ciúmes de você, assim como você morre de ciúmes...

-Calada. – Falei para Tiara, que se deita rindo de mim. – Vá brincar com a sua prima enquanto podem. Daqui a pouco vamos dormir.

-Tá.

Sentei no sofá e continuei a conversar com eles enquanto estava uma atualizada nas minhas redes sociais. Curti algumas fotos e senti o perfume dela chegando à sala. Sorri pra ela, mas ela nem me olhou direito. Será que já começou a troca do Richard por mim?

Meu irmão foi embora assim que tomamos um sorvete. Tiara brincou com os dois, deu banho neles e pôs para dormir. Lea e eu fomos pra rua. Sentamos na beira da piscina, sentindo aquela brisa da noite, um clima bem legal.

-Vai voltar amanhã pras suas viagens? – Me pergunta.

-Não. Segunda à tarde. À noite temos que estar em Nova Iorque, novamente. – Respiro fundo.

-Ah.

-Porque?

-Richard voltará amanhã de noite para Nova Iorque. Queria fazer o almoço amanhã, tudo bem por você?

-Claro. – Dou de ombros, fingindo não me importar. Mas, quando a ficha caiu... O almoço seria na minha casa? Mas de jeito nenhum! – O almoço será aqui ou nos seus avós?

-Aqui. – Me segurei pra não gritar. Quer dizer que ela, além de me trocar, vai trazer um macho para debaixo do meu teto? Não... Nunca.

-É que... Sei lá. Não irá ser estranho?

-O que?

-Eu e ele... Ou melhor, ele aqui em casa.

-Porque seria?

-Porque nós ficávamos antes, Lea.

-Relaxa, ele é tranquilo sobre isso. Nem deve se lembrar de que nós ficávamos.

Ele ou ela que não se lembra? Porque não faz muito que isso acabou! Idiota. Se acha mesmo que eu vou deixar aquele pivete modelo pisar dentro da minha casa, ela está enganada.

-Mas se você não se sentir a vontade, posso fazer em outro lugar, mas daí você não iria.

-E porque não? – Perguntei um pouco mais alto.

-Porque não faz sentido você estar reclamando que ele irá achar estranho o fato de nós termos um caso no passado, e ir no almoço amanhã e ver ele. Então poderia ser aqui. Mas aí é que entra a questão. Você não quer que ele venha aqui! Certo?

-Nada a ver. – Reviro os olhos.

-Bruno, acha que eu não conheço você? – Ela ri. – Tudo bem que você não o queira aqui.

-É que Lea... – Imaginei uma cena idiota na minha mente, onde ela está vestida de donzela e eu e Richard duelamos com espadas por ela e o castelo é minha casa. Eu sou infantil demais. Reconheço.

-Tudo bem, vou perguntar pra minha avó.

-Não. – Chamo sua atenção. Qual é, eu não posso ser um imbecil e magoa-la justamente agora, apesar de não querer realmente que seja aqui, mas a felicidade dela me importa... – Pode ser aqui sim. Faremos uma lista do que cozinharemos.

-Nós, eu e ele, faremos a comida.

-Ah, ele cozinha?

-Sim! Ama cozinhar e é super boa a comida dele. Verá amanhã.

-Ah... – O panaca além de ser alto, boa pinta, modelo, amigão e um caralho a quatro, ainda cozinha? E daí, eu canto! Isso é um dom. Modelar não é um dom!

Eleanor Pov’s

Parecia que então a vida tinha sorrido pra mim. Foi naquela quinta feira de novembro que ele apareceu em minha vida, justo quando tinha decretado que só me entregaria para quem me transbordasse. Descobri que Ric não só me transborda, mas me faz ir além.

Passar um dia inteiro com ele fazendo programa de namorados, sem precisar se esconder de ninguém, podendo beija-lo e acaricia-lo quando bem entendesse.

Nós tomamos café num quiosque na beira da praia, depois fomos ao shopping, passeamos e nos divertimos, além de comermos alguma guloseimas e comprarmos coisinhas para nós. Final da tarde pegamos uma sessão de cinema. Não preciso dizer como fiquei encantada pelo meu dia.

Nós combinamos de fazermos o almoço amanhã e quando disse isso ao Bruno, ele estava inventando coisas para não quere-lo dentro da casa dela. Uma baboseira chamada: orgulho de macho. Interpretei essa urgência dele de não trazer o Richard aqui como um alerta de que ele se sente ameaçado por ele. O porquê eu não sei, mas acho que é aquela coisa idiota de um tentar ser melhor que o outro. Bobagens.


Quando o busquei na cidade baixa de Los Angeles, não imaginei que ele estaria tão lindo. Segurava uma mochila nos seus ombros fortes e tinha um sorriso aberto em seu rosto. Conseguia me fisgar somente com o jeito em que andou até chegar ao carro. Nós nos beijamos e nos abraçamos brevemente e então entramos, para que não nos atrasássemos.

Meus avós iriam mais para perto do horário do almoço. Eric e Cindia foram convidados, já que Liam estava lá e eles iriam de qualquer forma. Liguei para Jaime, mas ela e as meninas terão outro compromisso. Mas, no final da tarde, quando Ric estiver indo embora, o pai de Bruno chegará para ficar uma semana por ali.

-Estou nervoso. – Pôs a mão, que estava gelada de suor, sobre minha coxa.

-Não fique! Nem são meus pais ainda, são meus avós.

-Quer dizer que eu tenho que ficar nervoso quando forem seus pais? – Sua voz deu um tranco, quase não entendi o que disse, pois depois começou a falar rapidamente.

-Não, de jeito nenhum. Meus pais são legais. Talvez minha mãe te encha de perguntas, mas isso é comum, não? Afinal, eu sou a caçula.

-E eles não têm nenhum neto para se preocupar, então o peso vai pra você.

-Exatamente. Eu sou o bebê da família.

-Agora sim que tenho mais medo. Imagino seu pai puxando uma espingarda de cima da lareira e me correndo da casa dessa forma.

-Primeiramente... Não existem motivos para ter uma lareira no Havaí.

-Droga. Às vezes esqueço que você é de lá.

-Tudo bem.

-Enfim, como o Bruno está? Finalmente vou conhecer a Lana, que você tanto fala.

Como o Bruno está? Bem?! Pelo menos é para estar bem. Eu vi que ontem ele não aceitou tão bem assim sobre o almoço com o Richard. Eu sinto muito por ele, até ia desistir de fazer lá, mas ele me convenceu dizendo que não tinha nada a ver. Eu espero realmente que não tenha nada a ver.

-Ela vai adorar você.

Assim que estaciono o carro no na estrada do pátio de casa, a porta já se abre. Umma estava saindo para algo. Pedi que ela deixasse aberta e me aproximei.

-Umma! – A abraço. – Esse é Richard.

-Prazer. – Esticou a mão para ele apertar, mas Ric a pegou e deu um beijo sobre ela.

-Encantado. – Deus, como ele pode ser tão cavalheiro.

-Mãe! – Vejo somente um vulto correndo em minha direção e uma risada gostosa, que abraça minhas pernas e me faz sempre sentir em casa.

-Amor. – Me inclino para beijar o topo da sua cabeça. – Cumprimente o tio Ric.

-Ric? – Ela o olhou. – Você é o namorado da mamãe? – Richard me olhou sem saber o que responder, talvez tivesse medo do que falar, mas assenti para ele disser o que tivesse vontade e se sentisse bem.

-Sim. – Baixou-se para ficar do tamanho dela. – E você deve ser a Lana, a princesa da Lea, sim?

-Sim, sou eu. – Lana oferece um grande sorriso.

-Você é mais linda pessoalmente. E muito inteligente.

-Obrigada. – Ric a abraçou e ela não desviou, o abraçou também e Liam vem em nossa direção. – Liam. Esse é o Richard, namorado da mamãe!

-Você tinha me dito que era somente ela. – Ficou confuso vendo Liam vir em nossa direção, mas disse baixinho perto do meu ouvido.

-Ele é sobrinho do Bruno, filho do seu irmão, veio passar o final de semana aqui.

-Que susto.

Liam ficou meio acanhado, por ter seus três aninhos ainda, ele é tímido. Bruno disse que ele mudará daqui uns dois anos, mas acho que ele tem tendência a ser mais tímido do que mais extrovertido, como a Lana.

Entramos dentro da casa e lá no fundo vi o vulto do Bruno, ele passou para o lado do corredor, com o celular pendurado na orelha. Levei Richard até a sala e ofereci coisas para ele beber, aceitou um suco então eu o busquei e quando estava voltando, topei com o Bruno mexendo no celular.

-Bom dia, garanhão.

-Bom dia. – Disse, parecendo meio nervoso.

-O que houve?

-Nada. Estava falando com o Brandon.

-Algum problema?

-Não, nenhum. Está tudo bem. E aí, o seu namorado não veio?

-Veio. Está na sala, vamos lá.

-Eu vou depois.

-Bruno!

-Sério... – O olhei, não acredito que ele faria essa desfeita de ir até a sala dar pelo menos um oi para o Richard. – Ok.

Bruno chegou mais acanhado atrás de mim, parecia estar querendo se esconder. Richard levantou prontamente e sorriu de primeira, parecia que era uma honra estar perto dele.

-Ric, este é o Bruno, meu melhor amigo.

-Bruno, que prazer conhecer você!

-Opa, cara. Prazer é o meu. Richard, isso? – Deram um aperto de mão, desses que os homens dão.

-É isso mesmo!

Não senti clima estranho na sala, nenhum, até eles conversaram um pouquinho, quatro ou cinco frases. Bruno disse que iria pedir o almoço e que precisava saber quantas pessoas estariam ali.

-Mas já tinha dito que eu e Richard iríamos cozinhar.

-Não quero dar trabalho pra vocês. – Senti tanta ironia nisso.

-Não irá dar. Eu amo cozinhar. Aliás, acho que já temos que começar. – Richard olha para o seu celular para ver a hora.

-Então vamos. – Levanto e ele também.

Seguimos para a cozinha e suas mãos seguraram as minhas. Um arrepio percorreu minha espinha, era tão mágica a sensação de estar com ele que eu me sentia tão segura.

O desandar do almoço foi bom, nós nos dividimos para fazermos as coisas. Richard era um palhaço e sempre estava me sujando no rosto, depois limpava com a boca e ríamos como uns idiotas.

-Você quer um avental?

-Querer eu até queria, para não sujar a camisa, mas odeio aventais. Eles me sufocam.

-Droga, eu só tenho os que amarram no pescoço também. – Torço os lábios.

-Eu posso ficar sem camisa. Não tenho problema nenhum com isso!

-Eu também não.

-Mas Bruno não acharia anti-higiênico?

-Não. – Passo o dedo pelo seu peito.

Bruno Pov’s

Queria ficar em algum lugar da casa que não desse para pensar naquele nojo que estava a cozinha. Ouvia a risada deles de qualquer canto que estivesse, até dentro do estúdio. Estava estagnada na minha cabeça e não saía por custo nenhum.

Irritado, sentei na sala e pus música para as crianças. Liam adorava um DVD de criança, com bichinhos animados e cantorias, Lana já sabia de cor e salteado. Coloquei e me diverti com eles.

-Papai, estou com sede.

-Eu também. – Disse Liam.

-Vou pegar água pra vocês. – Andei em direção da cozinha e vi o que mais me deu raiva e nojo no dia. Ele estava sem camisa, dizendo para ela o que fazer e volta e meia se davam sorrisos e atiravam beijinhos. E eu tenho paciência pra esse tipo de coisa? Voltei para a sala, sem pegar água. – Que tal vocês irem pedir pra tia Lea fazer um suco bem gostoso pra vocês?

-Vamos! – Lana pegou a mão de Liam e saiu praticamente o arrastando.

Peguei meu celular para futricar em minhas redes sociais. Postei alguns tweets, respondi alguns e quando me cansou, larguei o celular e percebi que Lana e Liam não tinham voltado da cozinha.

Fui até a porta da cozinha e vi a seguinte cena: Lana estava sentada no colo do Richard, tomando suco em uma garrafinha, haviam bagaços de laranja sobre o balcão. Era isso que ela estava tomando. Liam estava sentado na cadeira com recosto, eles riam e se finavam do que Richard ia falando e Lea tinha um sorriso largo e sincero em seu rosto.

Não era isso que teria que acontecer. Lana tinha que interromper eles e não ficar no meio e os dois rindo como idiotas. Do que tanto riem? Parece um circo, um stand-up.

Volto para a sala e rezo para que meu irmão chegue de uma vez, e parece que pelo menos essa reza deu certo. Em cinco minutos Cindia chegou com Eric. Fomos para a área dos fundos, sentamos nas cadeiras e conversamos sobre a turnê. Liam e Lana ficaram agora em nossa volta, mas mal podia pensar no que acontecia lá dentro.

Os avós de Lea chegaram e conheceram Richard. Pareciam estar encantados com ele e até Cindia estava toda para o seu lado, dizendo que ele era lindo e simpático.

O almoço foi servido e nós comemos. Não queria admitir, mas a comida estava um espetáculo. Bem temperada e saborosa. O

Após isso ficamos sentados na mesa, conversando. O foco era Richard e eu senti até inveja de tanto que falavam dele e babavam seu ovo. As mãos deles estavam entrelaçadas sobre a mesa e riam sem parar. Era a inveja misturada com o ciúmes, tenho que confessar.

-Você canta que nem o papai?

-Não. Não queiram me ouvir cantar. Se tem algo para o qual eu não nasci, foi para cantar. – Ainda bem que não, né, senhor Perfeitão.

-Então o que você faz?

-Eu sou modelo. – Sorriu e a avó de Lea pareceu ficar mais encantada.

-Eu sei desfilar, sabia?

-É? Como você desfila?

-Assim.

Minha filha levantou da cadeira, colocou as duas mãos na cintura e olhou para frente, forçando um olhar matador. Andou em frente, toda pomposa e lindinha. Se fosse em outro momento estaria super orgulhoso da minha pequena, mas agora estava com ciúmes. Essa é a minha filha.

-Mas você quis ser modelo desde pequeno? – Eric pergunta.

-Não. Modelo veio como paraquedas em minha vida. Queria fazer odontologia. Amo sorrisos.

“Amo sorrisos”. Sério? Que legal! Ninguém quer saber, ninguém se importa.

-Área da saúde, admiro quem se dedica à ela!

-É, eu ainda pretendo terminar a faculdade, até o fim do ano que vem, talvez.

-Mas o que te impediu de continuar? – Pergunto.

-Dinheiro.

-Não conseguiu bolsa?

-Consegui meia bolsa, em Nova Iorque, mas como ainda é caro a metade da bolsa, mais as despesas para viver longe de casa. Ficou difícil. Foi aí que consegui essa coisa de modelo emergente.

-De onde você é?

-Texas. Minha família toda é de lá, só eu por aqui.

-Deve ser difícil estar longe da família. – Cindia lamentou.

-Mas eles não ajudaram você? – Tinha que especular mais.

-Ajudaram significativamente. Foi bem pouco, somente para minha mudança. Nunca quis depender deles.

-A família dele é dona de uma grande fábrica de calçados. – Eleanor se vangloria, com sua cabeça repousada sobre seu braço.

Tentei me desligar daquela babação de ovo que estava sendo após o almoço. Servimos a sobremesa e decidimos dar um mergulho. Eu dei um pouco e deixei as crianças lá aos cuidados de Eric e Cindia. Richard não iria entrar, então Lea preferiu não entrar também. Agora se ele se atirar de um penhasco, ela se atira também?

Quase pro fim do dia, um pouco antes de Richard ter que ir embora para Nova Iorque, inventaram de jogar basquete. Philip foi lá pra casa, pois à noite tínhamos coisas para tratar e eu alguns arranjos pra mostrar pra ele.

O time era, eu e Eric contra Phil e Richard. Começamos a jogar numa boa, dei o meu melhor logo de inicio para mostrar pra ele que em certas coisas uns são melhores que os outros.

Eleanor Pov’s 

Estava na tardezinha quando o basquete começou. Ficamos na plateia e as crianças também.

Bruno estava dando o melhor de si e Richard ainda meio acanhado, mas foi quando Eric fez um ponto, Richard bateu nas mãos de Philip e disse algo. Estalou os dedos para frente e enfim, começou a jogar.

Não sabia que ele jogava tão bem. Somente a sua altura já tinha alta vantagem com o Bruno, mas a marcação dele, os passes, tudo era bom demais. Diria até que seria um semi profissional.

O jogo começou a ficar sério demais. Os pontos vinham como água corrente para Phil e Ric e Bruno começava a espumar pela boca.

-Seu merda. – Esbravejou, raivoso por ter mais um ponto para a dupla de Phil e Ric.

Assim começou os seus palavrões, até que ele empurrou Ric no peito. Levantei na hora, fiquei com medo do que pudesse acontecer. Phil colocou a mão no peito de Bruno e disse algo.

-Cara, calma aí, é só um jogo. – Richard disse rindo. Para ele tanto fazia ganhar ou perder.

-Bruno não aceita perder, de jeito nenhum. – Cindia balança a cabeça.

-Se é só um jogo não precisa agir como um profissional em quadra. – Bruno esbravejou, andando em nossa direção, mas passando reto para pegar água na mesa.

-Cara, isso é um jogo apenas. – Ouvi Phil falar e fui em direção do Richard.

-Você está bem?

-Claro. – Ele ainda ri. – Só não entendi o que aconteceu pra ele me tratar assim.

-Bruno não aceita perder.

-De nenhuma forma. Pois ele está me tratando assim desde que cheguei aqui.

-Ele está apenas...

-Com ciúmes. – Complementou. – Mas tudo bem, eu entendo. Também estaria se tivesse perdido uma garota de ouro. – Beijou o topo da minha cabeça.

Não é por mim esse ciúmes todo, ou só se ele é idiota o suficiente para aprender depois que perde, mas Bruno teve todas as chances possíveis. Teve tudo para ser feliz e me deixar feliz também, mas ele sempre fica em cima do muro. Agora, eu não quero me importar com isso. Me importo apenas com o meu amigo, meu melhor amigo, o Bruno, e não aquele que transava comigo em qualquer cômodo, que me beijava.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Capítulo 58



Agora que te encontrei, meu coração bate mais rápido
Podemos ser felizes para todo o sempre
(Love is on the radio – McFly)

Logo já estávamos entrando em maio e eu nem senti o tempo passar. Foi tão rápido após o ano novo.

Nós passamos o ano novo em Nova Iorque, o Bruno em Vegas, mas no outro dia foi pra lá. Eu encontrei com o Richard, é claro. De inicio apenas tivemos conversas amigáveis, nada demais, mas no fim da noite nós ficamos. E ficamos durante os quatro dias que passamos em Nova Iorque.

Fevereiro e março foram meses inúteis, nada aconteceu. Abril foi quando Lana teve mais uma apresentação em um teatro, e agora estava começando a se acostumar com um grande público. Em abril também tivemos a mudança definitiva das irmãs do Bruno para cá. Passaram alguns dias na nossa casa, após foram pra casa da Jaime, que surtou com as meninas, mas elas conseguiram comprar a casa delas compartilhada. Até o namorado da Presley está aqui agora. Os meses foram uma loucura, elas lançaram sua primeira música em janeiro, mas estão trabalhando secretamente dentro dos estúdios para formar um CD. A convivência com elas quase que diariamente está sendo muito bom pra Lana e pra mim também, já que nem sempre tenho a Urb ou a Megan ao meu lado.

Bruno as apoia e incentiva, mas não passa a mão por cima de nada e nem ajuda com nada, já que elas mesmas querem ter fama por si e não por serem irmãs do Bruno Mars.

Definitivamente, essa família de talento me deixa muito orgulhosa.

E bem, a questão final... Eu e o Bruno não tivemos mais nada, como disse, e nem vamos ter, como eu disse também. Nós estamos muito bem como amigos, apesar de que às vezes acho que ele faz algumas coisas com o intuito de me deixar com ciúmes. Pode ser da minha cabeça também.

07 de Maio de 2013

Eu estava feliz por Richard ter ido até Los Angeles para me ver. Estava ansiosa e sentia meu suor correr pelo rosto, sentia minhas mãos ficarem geladas por sem motivo aparente. Mas tinha motivo, era ele.

Nunca tinha me sentido assim depois de Kai. Senti com o Bruno quando estava me apaixonando por ele, mas passou rapidamente. É diferente com o Ric, tudo parece ser mais intenso e real. Ele me tem de igual para igual, ele gosta de mim de igual para igual. Eu adoro isso. Adoro a forma com que ele me faz viver e sentir a adrenalina na pele. E mesmo passando a maior parte do tempo conversando por mensagens, computador e ligações, ainda sim me sentia viva e o sangue fervia em minhas veias. Adrenalina pura.

Releio nossas conversas no celular, quando já estou pronta e esperando dar certo horário para sair de casa.

01/05/2013

Ric-quik

“Wow. Ficou lindo em você. Deveria apostar numa carreira de modelo. Já pensou nisso?”

01/05/2013

Eleanor

“Obrigada, mas eu não acho que tenha porte pra isso. Deixa pra quem sabe e gosta.”


01/05/2013

Ric-quik

“Se eu fosse você, tentaria. Irei mostrar para meu agente essas fotos suas, com certeza ele irá amar. Se eles lhe chamarem, topa uma sessão de fotos? Experimental...”


01/05/2013

Eleanor

“Não insista nisso, Quik. Acho que não gostaria, mas tirar fotos é algo a se pensar.”


01/05/2013

Ric-quik

“Acho que devo ir à Los Angeles conversar com você pessoalmente. Que tal?”


01/05/2013

Eleanor

“Eu adoraria que viesse. Nunca veio me visitar. É sempre eu... Injusto isso”


02/05/2013

Ric-quik

“Mil desculpas, eu peguei no sono. Para ter noção minha televisão está ligada num canal de culinária. E quanto à mensagem de ontem... Sei que nunca fui aí, e agora mesmo estou comprando passagens para ir. Embarco dia sete ou oito? Qual seria melhor? Aliás, prepare-se para conversarmos.“


Foi aí que declarei minha morte. Meu corpo treme desde então só de pensar o que ele quer falar comigo. Pode ser algo banal, já que ele nunca mais tocou no assunto nas mensagens que trocamos após isto, mas mesmo assim me deixa nervosa. Queria poder ficar mais tranquila, mas acho que não tem jeito.

Ric me causa reações assim. Estou chamando-o de Quik, pois em uma das nossas chamadas de vídeo, me bateu um soluço repentino e acabei tentando pronunciar o seu nome, mesmo soluçando, o que resultou nesse apelido. Tive um ataque de risos na hora e Bruno até veio me chamar no quarto, dizendo que Lana tinha que descansar e ele também. Por milagre ele estava em casa, já que estava mais ausente por conta dos lances do CD, mas já voltou pras suas correrias essa mesma semana. Agora não sei exatamente quando volta.

- Mãe! – Lana desvencilhou das mãos de Umma assim que chegou em casa. Correu até meus braços e beijou minha bochecha.

- Oi, meu amor. – Beijei o topo da sua cabeça e ela observa minha roupa.

- Que cheiro bom! Você está linda, mamãe. Vai sair?

-Mamãe tem que sair sim, mas volta a tempo de lhe por na cama, ok?

- Tudo bem. – Sorriu.

-E o que fez na escolinha hoje? – A vejo tirar sua mochila das costas.

- Nós desenhamos, depois tivemos aula de música, aí assistimos a uma peça de teatro de fantoches e eu fui para o balé de manhã.

-Que menina aplicada. – Pego sua agenda. – O que achou de hoje?

-Eu amei. – Ergueu os bracinhos.

Olhei a agenda para ver se não havia nenhum recadinho das professoras da escolinha dela. Lana é uma criança aplicada, só teve um bilhete até hoje, justamente por falar demais dentro da classe, mas ensinamos a ela e desde lá nada mais ocorreu. Seu relatório de aulas sempre é produtivo, assim como no balé, quando já agendaram a próxima peça que elas farão, onde todas tem papeis iguais, para que não haja atritos.

Meu celular vibra ao meu lado. Pensei que fosse Richard, mas era o nome de Bruno piscando. Lana já ficou eufórica só de ver o nome do seu pai. Estendi a mão pra ela esperar e atendi primeiramente.

-Alô.

-Buenos dias. – Forçou o sotaque espanhol, me fazendo rir. – Como está?

-Bem e você, Bruno?

-Ótimo. – Respondeu-me.

-Oi, papai. – Lana grita para que ele a ouça.

-Minha filha. – Riu, abafando o som. – Passe pra ela, por favor? Aliás, acho que vou esse final de semana pra casa, ficar um pouquinho ai, pois já tenho mais viagens. Não aguento mais, Lea.

-Viu, há seus prós e contras. – Rio e ele gargalha. – Mas está se divertindo?

-Foi como te falei pelo telefone. Nem tenho muito tempo. Se não estou envolvido com o trabalho, estou dormindo. Mas às vezes saio.

-Procure esvair a cabeça. Não quero que te prejudique.

-Hey, fique calma. Vou me cuidar. Depois nós nos conversamos, deixa eu só falar com a pequena rapidinho? Preciso ouvir a voz dela.

Concordei e entreguei o celular a Lana, que segura com todo o cuidado para não deixa-lo cair no chão – como já aconteceu. Ela aprende a usar tecnologias, sabe melhor que o Bruno, mas não deixamo-la mexer por muito tempo – ela tem um notebook, mas não tem um celular -, pois preferimos que ela viva do que se vicie nisso e não aproveite a melhor parte da vida.

-Vai levar umas palmadas quando chegar em casa, porque está demorando demais. – Começo a rir das coisas que Lana fala no telefone para o Bruno. – Mamãe não merece tapas, ela se comporta.

-Abusado. – Grito para ele.

-Não, papai. – Ela balança a sua cabeça e seus pés acompanham. – Ela vai sair agora. Papai quer falar com você.

Pego o telefone da sua mão.

-Você vai sair?

-Sim?!

-Onde?

-Tá querendo saber demais, querido. – Rio. – Vou deixar a Lana com as meninas e vou sair um pouco.

-Aonde vai?

-Por aí, Bruno.

-Por aí não me diz nada, Lea. E se acontecer algo?

-Nada vai acontecer. Eu sei me cuidar e as meninas sabem onde me encontrar.

-Faça o que quiser.

-Ué, eu não estou te entendendo.

-Boa saída, Lea. Manda um beijo pra minha pequena.

-Boa noite, querido. Um beijo.

Ele nem me respondeu e desligou o telefone. Nunca vou entender esses ataques que ele dá. Nunca! Bruno tem uma bipolaridade incrível, está sempre em cima do muro, nunca dá pra entender o que ele verdadeiramente tá querendo se ele também nunca fala.

A verdade é que nem ficarei muito tempo fora de casa, apenas encontrarei ele e voltarei aí amanhã nos encontraremos novamente. Tiara realmente virá pra cá, já que Umma tem que ir pra sua casa também.

Dou uma ajeitada na roupa, retoco meu batom e passo as últimas instruções para Umma, em pouco tempo Tiara chegaria. Saí de casa pegando um dos carros do Bruno, o mais básico que usamos diariamente e dirigi pelas ruas afora até chegar ao restaurante que combinamos.

O restaurante não estava tão cheio, era praticamente proposital, já que quando pensei que iríamos nos encontrar queria mesmo algo mais reservado, mas não tão íntimo. Toda a vez que eu e Ric nos vemos, nós transamos. Talvez eu possa fazer diferente dessa vez mostrando o meu eu normal, meu eu do dia a dia.

Como cheguei antes dele, sentei-me a mesa e tamborilei meus dedos, enquanto os outros digitavam rapidamente uma mensagem para ele avisando que já havia chego.

-Calma, não ia me atrasar tanto assim. – Richard soprou em minha nuca fazendo cada pelo do meu corpo se ouriçar. O olhei com um enorme sorriso estampado na boca, levantando-me para cumprimenta-lo.

-Vá que seu plano fosse deixar-me plantada aqui... Já iria saber o quanto antes e ir embora mais rápido para não ser tão trouxa.

-Olha minha cara de quem te deixaria assim.

-Desculpe. – Rio, colocando a mão na boca.

-Já pediu algo?

-Ainda não, mas estava pensando já no que pedir.

Ric levantou sua mão, mostrando seu relógio de pulso com seu antebraço forte, coberto por pelos quase invisíveis e a camisa social remangada até seu cotovelo.

-O cardápio, por favor. – Gentilmente pediu ao garçom e lhe deu um sorriso, tão simpático. – Bom te ver. Só mensagens dão agonia.

-É ruim querer falar com uma pessoa e ficar com medo de estar incomodando. Bom te rever, Ric.

-Você nunca me incomoda, por favor! – Esticou seu braço sobre a mesa, tive receio de pega-lo e ser rápida demais. – Está nervosa, Lea?

-Não... Ou sim, não sei. Estou confusa.

-Calme... Eu estou aqui e tenho certeza que meus pensamentos estão pareados com os seus.

-Será?!

-Claro. – Piscou e sua mão tomou a minha.

Eu estava nervosa em fazer algo errado, parecia que se eu pisasse fora da linha, estaria me crucificando. Não queria dar mancada logo com ele e logo depois de tanto tempo sem nos vermos. E ele estava tão lindo. Seus cabelos bagunçados propositalmente, seus olhos bem vivos, cheios de cor e brilho. Havia algo especial nele e não sabia decifrar o que seria.

Nós fizemos nossos pedidos e enquanto esperávamos, papeamos sobre as coisas da vida. Sobre nossos trabalhos, nossas famílias, a pequena briga que ele teve com seu amigo e etc. Assuntos banais, coisas mais corriqueiras, nada de muito urgente, mas que eu amava saber.

- Vamos pedir uma sobremesa?

-Claro.

Quando pegamos o cardápio escolhemos três coisas para votarmos, e por coincidência eram as mesmas. Tínhamos os mesmos gostos para doces também e isso foi motivo de risadas.

-Podemos dividir algo então. Tenho alguns biscoitos no carro, aposto que irá ama-los.

-Biscoitos?

-Sim, biscoitos da sorte. Não sei se gosta, mas tenho vários.

-Claro, eu amo. – Sorrio.

Optamos por um musse de chocolate com sorvete. Estava maravilhoso e foi bom dividir com ele já que era um recipiente bem grande – apesar de que, se eu quisesse, teria comido tudo sozinha, mas também não quero assusta-lo.

-Quer dar uma volta? – Perguntou-me quando saíamos do restaurante.

-Podemos dar sim, mas não quero demorar muito. A Lana me espera para ir pra cama.

-Que linda.

-Meu carro está pra cá. – Aponto para o outro lado do estacionamento.

-Eu também estou de carro. Consegui pegar o do meu agente emprestado.

-Que legal. – Ofereci mais um sorriso para ele, que esticou a mão e tomou a minha. O contato já me fez ver estrelas. – Nós podemos estacionar lá no alto. Eu vou no meu carro e você no seu, assim quando chegarmos podemos ficar apenas apreciando a visão.

-Hm, podemos deixar esse programa pra amanhã? – Tirou a mão da minha para abrir a porta do carro. – Hoje queria apenas entregar isso pra você.

Ric deu em minha mão um lindo buquê de rosas vermelhas, bem vivas e lindas. Engoli minha saliva com dificuldade ao ver aquilo. Estava sobre o banco do carona com uma sacolinha ao lado.

-Isso é pra você. – Tomei-o em mãos. – Por ser uma amiga que eu não tinha e estava precisando. Por se tornar tão especial em tão pouco tempo.

-Obrigada. – Apertei meus olhos controlando para não chorar. – Acho que nunca ganhei um buque assim!

-Mas o... – Balançou sua cabeça parecendo pensar melhor, mas sem tirar o sorriso do rosto. – A gente pode apenas sentar aqui no carro e ficar mais um tempinho, aí amanhã nos vemos. O que acha?

-Ótimo.

Sentei no banco do carona, pondo a pequena sacola nos meus pés e apreciando o buque em meu colo. Tirei algumas fotos dele e uma selfie com ele. Estava tremendamente apaixonada por ele. Pelo buque e talvez ficando pelo Ric.

Não queria ficar apaixonada, mas é inevitável quando um cara é fofo, lindo e bom de cama. Ele é basicamente tudo o que pedi para Deus e um dos únicos que sabem como agradar e o que falar na hora certa.

Tenho medo de me apegar em alguém depois do Bruno. Bruno foi uma decepção que eu tive sozinha, porque sabia que não deveria me apaixonar, me envolver, mas mesmo assim fui pega por ele e eu mesma tive que por um ponto final. O que foi mais fácil que eu pensava, pois logo chegou o Ric.

Richard abriu a sacolinha e tirou três biscoitos pra ele e deixou mais três pra mim. Peguei um e abri. Uma frase um pouco desconexa apareceu, a dele também não fazia sentido algum, mas riamos e nem nos importávamos com isso.

Comi o último biscoito e juntei todas as frases.

-Nenhuma delas fez sentido. – Curvei os lábios.

-Falta essa! – Ele abriu o seu último biscoito. O comeu e entregou o papel fechado pra mim. O abri e fiquei chocada com o que li.

Em letras garrafais, feitas em computador, estava escrito com todas as letras: “ Lea, namora comigo?”

-Porra, Ric. – Passo o dedo por debaixo dos meus olhos, onde uma lágrima estava prestes a escorrer.

-Se eu fosse você tentava juntar todos os papeis.

Fui lendo, tentando montar o quebra cabeça. Tinha muitas frases que pareciam desconexas, mas parando pra pensar, depois de lê-las mais de uma vez, se completavam. Indiretamente.

-Achei. – Pigarreio. – Vou ler em ordem. – Respiro fundo. – O mundo está tão cheio de coisas ruins, que parece surreal quando encontramos alguém com quem possamos compartilhar as alegrias. – Parti para o segundo e assim por diante. – O seu sorriso é iluminado. Você tem um brilho próprio e um grande coração, qualquer um se apaixonaria por você. Rir é o melhor remédio sempre, dizem que o único ataque que deveríamos ter é aquele de risadas. Dizem que a distância serve para esfriar relações, esquecimentos, mas quando gostamos de verdade, não há nada que nos impeça, nada que nos pare, ela acaba servindo para intensificar mais o que sentimos e apreciarmos mais o que temos longe. Lea, namora comigo?

Comecei a rir de nervoso enquanto sentia as lágrimas escorrerem em meu rosto. Estava nervosa e feliz ao mesmo tempo, queria agarra-lo, mas e se fosse apenas um sonho? Não tenho experiência com coisas muito fofas quando se trata de namorados, apenas o Kai há muitos anos atrás. Meu coração parecia querer correr do meu peito.

Coloquei os papeis sob o painel do carro e virei o rosto para o dele.

-Ric, onde você se escondia todos esses anos?

-Eu não estava me escondendo, estava, talvez, esperando por você.

-Ric... Eu. Eu estou sem palavras!

-Você pode começar respondendo um sim ou não, depois nós conversamos.

-Com certeza sim. Quer dizer, se isso não é uma pegadinha, porque... Desculpa, estou nervosa.

-Não é pegadinha. – Deu um beijo em minha mão e colocou a língua pra mim. – Será uma honra te ter como namorada.

-Ai meu Deus.

Eu não estava nem acreditando pra dizer a verdade. Estava com uma felicidade que mal podia segurar dentro de mim, era algo inexplicável. Sentia borboletas no estomago. Como que ele foi querer logo eu?

Ficamos por ali algum tempo ainda, nos namorando e conversando. Do seu bolso ele puxou uma caixinha simples e tirou um singelo anel. Ele não tinha nada de especial, era apenas um anel, mas que valia muita coisa pra mim. O colocou em meu dedo para simbolizar nossa nova relação e nos despedimos para que no outro dia nos encontrássemos.

Fui pra casa sem conseguir segurar os sorrisos bobos. Tiara estava na sala com a Lana brincando e gravando algumas coisas no celular. Lana girava sem parar e parou quando me viu.

-Não precisava de rosas pra mim. – Tiara abriu os braços.

-Mas eu fiz questão. – Ri.

-Que lindas!

-Não é?! Estou apaixonada por elas.

-Só por elas, uh? Ok... De quem ganhou?

-Do Ric... Aquele cara que falei pra você, o modelo de Nova Iorque.

-Foi se encontrar com ele hoje?

-Sim!

-E nem me avisou? Eu poderia ter posto a Lana para dormir para você aproveitar mais.

-Mas está tudo bem, amanhã nós nos vemos novamente.

-Opa, está ficando sério assim?

-Digamos que passou para sério hoje. – Ergui a mão com o anel.

-Que isso, mãe? – Lana curiosa aponta para o meu dedo.

-Que lindinho. Você está namorando. – Tiara abriu um grande sorriso.

-O papai voltou?

Nós rimos.

-Não é o seu papai, L. Eles são amiguinhos. Agora a Lea tem um namorado bem lindo.

-Mas o papai é lindo.

-Sim, mas é só amigo da mamãe. – Respondo.

-Meu Deus, posso ficar essa noite aqui para poder ver o escândalo que Bruno irá armar?

-Por mim você moraria aqui, mas não há motivos para escândalos. Não irá acontecer nada.

-Você verá que acontecerá sim. Ele ficará muito bravo. Puro ciúmes.

-O problema será todo dele, Ti.

Ainda conversamos por um tempo. Contei para ela como foi e ela se encantou. Mandei mensagem para Urbana e Megan, avisando a novidade. Pedi que não contassem para ninguém por enquanto, até eu falar com o Ric e ver se podemos nos divulgar para mais pessoas que não sejam as próximas, pois as notícias correm.

Tomei meu banho e já senti o peso do cansaço. Vesti apenas minha lingerie e deitei na cama, com o buque na mesa ao lado. Adormeci olhando para ele.

Bruno Pov’s

Cheguei em casa muito cedo, muito mais do que previa. Não pegamos nenhum tipo de tranqueira e saímos antes do previsto de onde estávamos. Estavam todos dormindo, então para não acordar ninguém, resolvi fazer o mesmo, mas antes chequei minha filha em seu quarto.

Ao acordar duas horas depois do que fui dormir, às nove da manhã, minha filha pulava em minha cama me dando beijos e Tiara estava na porta com a cara de quem estava gostando de me ver sendo acordado. Lancei a língua para ela e brinquei com a minha filha, fazendo cócegas e beijando-a.

-Estava com saudades, papai.

-Papai também estava. Comportou-se com a tia e com a mamãe?

-Sim! – Abriu um largo sorriso.

-Muito bem, é assim que tem que ser.

-Vamos tomar café?

-Não estou com fome. – Sentei-me para deixar a Lana se acomodar no meu colo. – Mas faço companhia pra vocês.

-Tem que chamar a mamãe! – Avisa Lana.

Lembrei-me diretamente da Lea e da saída que ela deu ontem à noite. Não sei o que dá em mim, mas desde que ela decretou que entre nós seria apenas amizade, eu tenho raiva quando ela sai e eu não estou junto. É raiva, não é ciúmes.

-Ela está em casa?

-Sim. – Responde Tiara de imediato. – Deixa que eu chamo ela enquanto você vai se arrumando para tomar café.

-E não demora, papai.

Minha pequena abusada desceu da cama e saiu atrás da sua tia. Começo a rir dessa pequena figura, às vezes é difícil de acreditar que ela é minha. Que ela tem meu sangue, meu DNA. Tão esperta, tão linda... Me pergunto como aquela bruxa teve coragem de largar alguém tão especial.

Tomei um banho rápido e vesti uma roupa qualquer de ficar em casa. Quando saio do meu quarto, espio o de Lea que está com a porta aberta e ela surge com uma toalha na cabeça, um vestido florido e rodado, chinelos e com um olho maquiado e outro não.

-Onde vai com tanta produção? – Dou um beijo em sua bochecha.

-Vou sair. – Sorrio, andando novamente para frente da sua penteadeira.

Entrei logo atrás dela e a primeira coisa que me deparo é com um grande buque de rosas sobre a sua cama.

-Wow, são lindas.

-Obrigada. Estou apaixonada por elas.

-Ganhou dos seus avós? De aniversário antecipado. – Eles que costumavam gostar de flores e agrada-la com elas.

-Tenho que te contar algo. – Virou-se, mostrando uma grande empolgação. – Senta aqui. – Apontou para seu pequeno sofá.

Sentei e ela sentou ao meu lado.

-Olha. – Mostrou sua mão, com o anel. – Lembra daquele meu amigo, o Ric?

-O modelo ala Victoria Secrets masculino?

Ela riu.

-Esse mesmo. Foi com ele que saí ontem à noite.

-Mas ele não mora em Nova Iorque?

-Sim, mas veio pra cá. – Fechei minha mão numa figa só de imaginar o que viria pela frente. – Nós saímos num restaurante bacana, depois ficamos comendo biscoitos da sorte e ele me entregou o buque.

-Que legal. – Não consegui falar nada além disso.

-Foi então que percebi que por dentro dos biscoitos havia uma mensagem. Ele me pediu em namoro. Não é lindo?

-Você aceitou? – Pergunto de imediato. Não pode ter aceitado.

-Sim. – Mostrou o anel novamente.

Senti socos acertarem meu estômago. Há tempos não sentia o peso que senti agora. Meu coração ficou, mais uma vez, pequeno dentro do meu peito, apertado. Abruptamente pensei que ele iria parar quando ela tocou-me.

Não sei qual foi a pior coisa daquele dia: a notícia ou o sorriso feliz assim que me deu a notícia. Ela estava radiante com aquilo, ela gostava dele com muita intensidade. Ela havia esquecido que gostava de mim, nesse mesmo mês, ano passado, é por mim que ela estava apaixonada.

A ideia de lembrar e pensar nisso fez meu estômago revirar. O que eu falaria pra ela, que estava em minha frente, com um grande sorriso estampado em seu rosto, com um anel simples em seu dedo anelar da mão direita, olhos brilhantes como o de quem recebe uma maravilhosa benção.

-Eu... – Respirei profundamente, tentando achar um modo de sair daquela situação. Ela continuava com seu olhar radiante perante a mim. Como iria dizer que eu estava com ciúmes dela? Ou raiva? Já nem sabia mais. Mas eu sou egoísta. Eu estou com ciúmes e não quero que ela arranje outra pessoa.

-Parece recente, não? – Riu. – Mas se pararmos pra pensar, faz seis meses que nos conhecemos.

-Eu... Eu desejo que você seja feliz. – Não ao lado dele, de preferência do lado de ninguém, ninguém que não seja eu. Eu iria falar que estava feliz por ela, mas essas palavras se trancam em minha boca, já que não é isso que eu estou sentindo.

-Eu estou muito feliz. – Passou seus braços em volta do meu corpo, me envolvendo num abraço de urso, de irmão carinhoso. Demorei em assimilar o que fazer. Envolvi meus braços em sua volta e aos poucos fui dando tapinhas, com meus olhos vidrados no meio do nada daquele quarto. – Obrigada por ser um amigo maravilhoso e sempre estar ao meu lado.

Algo me dizia que aquele não era meu dia. Eu sou normalmente um cara confuso, sou um cara indeciso. Por isso não sabia ao certo como reagir, então preferi agir roboticamente e me adaptar a tudo com o tempo.

Eu sei que sinto ciúmes dela agora, já que o que tivemos foi recente e por muito tempo ela era somente minha e também é minha melhor amiga. Eu tenho o pleno direito de sentir ciúmes disso. E tenho quase certeza de que isso irá acabar em pouco tempo. Acabarei esquecendo que ela está namorando, principalmente agora quando a turnê começar, as coisas voltarão ao normal.

Mas em compensação me aterroriza pensar que ela poderá falar comigo sobre seu namorado. Me deixa nervoso só de imaginar ela o levando em minha casa. Meu Deus. Não a quero com outro cara.

Beijo o topo da sua cabeça e a tiro de perto de mim, mas quando vejo a dúvida em seu rosto, volto a abraça-la rapidamente. Ela é minha melhor amiga e merece viver e eu estou sentindo isso apenas por idiotice. Vai passar.

-Que você seja feliz, Lea. Eu desejo o melhor, sempre.

-Obrigada. Quero que você o conheça, adequadamente e apresentavelmente. Quero marcar um jantar. Estou pensando em chamar minha irmã e o Kyle, minha avó e meu avô...

-É cedo demais pra isso. – Digo, interrompendo a sua fala. – Desculpe. Claro que você que sabe, mas acho que deve esperar um pouco mais pra isso. Apresentar oficialmente logo de inicio pode ser um balde de água fria. Pode assusta-lo.

-Tem razão. – Suspirou. – Me sinto uma adolescente.

Lembro de qualquer coisa que convenha a ela e a nossa amizade. Lembro principalmente quando ela dizia que a única pessoa que a fazia sentir como se vivesse um sonho adolescente foi o Kai. Apenas ele. Ela acabou de dizer que Richard a faz sentir da mesma forma. E eu, nunca a fiz se sentir assim?

Isso me deixou, de certa forma, com raiva e nojo ao mesmo tempo.

-Você dizia isso sobre o Kai.

Eu precisava tocar em alguma coisa sobre ele.

-Por isso mesmo, eu era uma adolescente e precisava sair de lá. Éramos inocentes nessa história, mas aposto que se eu continuasse no Havaí, estaríamos um bom tempo juntos.

-Ah. – Fiquei sem respostas para dar a ela.

-Por falar em Kai... Quando pretende viajar para o Havaí?

-Acho que até outubro não irei. Como as meninas estão morando em Los Angeles, a mamãe está quase sempre aqui, o papai também. Acho que não irei por um tempo.

-Hm. Ok.

-E você? Quando vai ir ver seus pais?

-Estou tentando ver se consigo ir em julho ou agosto. Queria ir para o dia dos pais, fazer uma surpresa para o meu velho. – Ela tocou seu corpo sentado na cama e jogou o tronco pra trás.

-Se eu não estivesse com a agenda dos shows lotadas para esses meses, iria junto com você. Mas as meninas estão indo pra lá no fim do mês, perto do aniversário da Tahiti. Porque não vai com elas?

-Mas meu melhor amigo é um popstar e não pode. – Deu a língua pra mim e eu me toquei ao seu lado. – Talvez eu vá. Tenho que ver quando recebo férias ou folgas.

-Ok... Vamos tomar café? Estou com muita fome e saudades de casa.

-Irei terminar de me arrumar, tenho que sair daqui a pouco.

-Ah... – Não! Vai começar assim e daqui a pouco perderei minha melhor amiga para esse cara. Eu não posso deixar isso acontecer. – Passe na cozinha para se despedir.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Capítulo 57


Você sempre estava lá, você estava em toda parte
Mas agora eu queria que você estivesse aqui
(Wish You Were Here - Avril Lavigne)

Quando cheguei ao hotel uma hora após a ligação do Bruno, estavam todos dormindo. Ele dormia tão profundamente que roncava alto, seu peito subia e descia. Olhei pra ele ali, parecendo bem melhor.

Ao deitar na cama tudo que eu conseguia pensar era que aquilo foi surreal. Nunca iria conseguir acreditar que fui pra cama com um modelo, que transamos logo no primeiro encontro. Sorria, boba, olhando pro teto pensando em mil e uma coisas.

Pela manhã cedo estávamos de pé. Bruno arrumava suas coisas na mala e falava com a Umma, enquanto minha pequena grudou-se em minha pernas e brincava de não querer deixar arrumar a mala.

-Cadê minha blusa daqui? – Pergunto em tom de brincadeira e ela ri, já se entregando. – Ué, estão sumindo minhas coisas. Que estranho.

-Tem um fantasminha por aqui, Lea. – Ouvi Bruno dizer e rimos.

-Muito estranho. Esse fantasminha merece uns tapas na bunda. Não acha?

-Acho. Vou providenciar.

Rimos bastante por muito tempo, fazendo brincadeirinhas e palhaçadas. Eu amava quando estávamos assim, juntos e brincando com ela. Era uma das minhas horas favoritas.

Quando saímos para pegar o carro, Ric mandou-me uma mensagem de bom dia. Aí começamos a conversar e ele disse algo sobre não querer que eu fosse embora, pois ainda poderíamos nos ver mais. Falei para ele não se preocupar que eu poderia voltar e ele também poderia ir, e que não iríamos perder o contato.

Bruno Pov’s

E novamente estávamos nós, Lea sem largar a porcaria do celular, cheia de sorrisinhos e cara de quem estava satisfeita, sexualmente falando. Lana estava dormindo nos meus braços e Umma vinha tranquila ao nosso lado. Já estávamos no aeroporto prontos para voltar pra Los Angeles. Mais uma viagem vinha na segunda feira e eu já estava cansado só de pensar.

Ontem a noite foi legal. Tomei meu esquenta sozinho no bar do hotel, encontrei com os caras. Paquerei uma e outra menina, mas com quem fui para a cama foi com Grace. Quando vi que nada me agradava muito por ali, disquei seu número e marcamos um encontro diretamente num hotel. Não no mesmo que eu estava hospedado, até porque não queria nenhum tumulto sobre mim na mídia e nem prejudicar a Lana. Transamos e cada um foi para o seu canto.

Não adiantou muito ficar com ela, ela era boa demais, mas acho que meus pensamentos estavam acumulados demais para conseguir me concentrar profundamente com o sexo. Muita coisa acontecendo de uma só vez me deixa assim.

Agradeci quando entramos no avião e Lea teve que desligar o celular. Ajeitou-se na poltrona ao meu lado e falou algo com Umma que estava com Lana nas poltronas atrás de nós.

-Não vou perdoar a Megan por ir antes. - Emburrada, disse.

-Ela estava com aqueles problemas do restaurante. Difícil. - Torci os lábios. - Mas acho que ela resolveu tudo.

-Talvez. Caleb não colabora também.

-A única coisa que ele está com foco no momento é voltar com ela.

-E a única coisa que ela quer sair de foco é voltar com ele. Sem chances.

-Nunca vou entender.

-Caleb pintou e bordou quando estava com ela. - Lançou-me um olhar como quem falasse que sabe das coisas que Caleb me falava sobre como ela é gostosa, como sua bunda é curvilínea e que queria fazer espanhola com ela. Engoli um bolo que estava em minha garganta, mas não perdi um sorriso brincalhão do rosto. - Ela gostava dele e ele foi um idiota.

-Somos homens, Lea.

-Ratos. - Arqueou a sobrancelha. - Tudo cansa um dia, Bruno. O ruim é quando bate o arrependimento depois, quando não se pode fazer mais nada.

-Ai vem da mulher saber entender também.

-Entender o que? Que ao mesmo tempo que está com ela, quer estar com mais vinte, mas não permite que ela tenha o mesmo? Isso é machismo.

De repente sinto que não estávamos mais falando de Caleb ou de Megan, ou de qualquer outro casal do universo. Estávamos pondo nossas situações ali. Eu via isso, e tenho certeza que ela também.

-Não é isso! - Eu nem sabia o que era. No fundo, queria apenas acabar com aquele assunto. - Caleb e Megan são grandes, eles irão se entender.

-Claro.

Ela virou-se pra frente, ajustando a poltrona e recostando-se novamente. Seus olhos se fecharam e o comissário deu algumas instruções, além de falar sobre nossas luzes próprias nos assentos. Eleanor se mexeu e permanecia de olhos fechados.

-Bonita aquela foto na patinação.

Caralho, não consegui ficar sem falar algo sobre. Eu precisei dizer, mas saiu quase sem querer.

-Ah. - Seus olhos se abrem e acompanham a curva dos seus lábios. - Eu adorei patinar. É muito bom.

-É mesmo. - Concordo. - Na verdade, eu imagino. - Corrigi, já que nunca me atrevi a andar.

-Quando vier pra cá novamente, vá lá. Não irá se arrepender. - Olhou pra mim, por poucos segundos, e fechou os olhos novamente.

-Pode deixar. – Minha língua coçava de anseio para falar mais alguma coisa. Perguntar com quem foi, perguntar como foi, com quem foi novamente, se ela gostou mais do que os nossos passeios, com quem foi, porque ela não me convidou, e por fim, com quem ela foi. Soltei um pigarreio. – Poderia ter ido com você ontem se soubesse.

-Ah, poderia... Mas é que foi de última hora.

-Mas você foi sozinha? Digo, não é meio perigoso?

-Não. Lá é super tranquilo. Até fui numa cafeteria que tem na frente.

Ela fala tudo, mas não diz nada sobre com quem foi. Lea está fugindo do assunto ou realmente não quer que eu saiba? A vi se ajeitar novamente na poltrona e respirar profundamente, acho que estava com sono ainda. A deixei tentar dormir e fiz a nota mental de investigar melhor quando chegássemos em Los Angeles.

β

Fazia frio em Los Angeles. Precisei colocar meu moletom e pegar um casaco meu para cobrir Lana, que estava escutando música com a Lea e cantando. Pedi para Dre levar Umma para casa, ela precisava descansar e eu iria dirigindo para casa.

Lana foi na cadeirinha no banco de trás e Lea ao seu lado.

Peguei meu celular e entre um sinal e outro entrei nas redes sociais. Olhei a sua foto novamente, vi as curtidas, um comentário da sua mãe. Continuei a olhar e deixei escapar um grunhido estranho quando vi que ela havia começado uma nova amizade e começado a seguir a mesma pessoa: Richard Haskett. Isso lá é nome de gente?

Entrei no seu perfil e olhei suas fotos. Um modelo? Um modelo que por acaso estava no coquetel pós desfile. Larguei o celular, deixando aberto em sua página e estacionei dentro de casa.

As meninas desceram na frente e eu fiquei pra trás avisando que já levaria as malas. Pus o celular novamente em minhas mãos e olhei mais fotos suas. Um sorriso grande sempre estampado em seu rosto, cabelos com cortes variados, olhos expressivos. Lea o adicionou apenas por ele ser um semi-famoso ou o que?

Daria tudo pra entender os motivos.

-Papai, olha isso. – Lana me chama quando estou entrando na casa com a minha mala e última. – Aprendi a fazer. – Ela pôs a mão sob a sua cabeça e girou duas vezes seguidas, parando e fazendo uma reverência.

-Opa, que linda que minha princesa está. Quando irá apresentar o cisne negro para o papai?

-Não sei. – Mexeu o pé, olhando para ele. – Ainda tem muito pela frente.

-Muito o que, L? – Achava engraçado quando ela tomava algumas posições de adultos, com frases feitas por nós. Um espelho refletindo.

-Não sei, papai. – Saiu pirueta, rindo.

β

Eleanor Pov’s

Eram pouco mais de sete da noite quando desci do táxi, em frente ao pequeno teatro que seria a apresentação da minha pequena. Lana tinha ido para lá às cinco com Dre, para se arrumar, mas os responsáveis não podiam ficar com as alunas durante a preparação. Uma pena, porque eu queria tirar várias fotos dela se arrumando.

"Onde você está?"

Envio para Bruno.

Tirei o ingresso verde e vermelho que recebemos junto com o convite, mas antes que pudesse entrar, meu celular começou a tocar.

- Eu já saí da gravadora. - Bruno fala, antes mesmo de dizer "Olá". - Está tudo parado pelo Oaks. - Ouvi o barulho de buzina. - Não sabe dirigir, não sai de carro, porra!

- Hey, se acalme.

- Não quero perder a primeira apresentação em teatro da minha menina, Lea. - Outra vez a buzina. - Juro que tentei sair o mais cedo possível, mas ficamos vendo a agend...

- Eu entendo. De verdade. - Entrego meu ingresso. - Tome cuidado na pista, e tente chegar logo. Só isso. Ainda tem uns quinze minutos.

- Ok. Obrigado. - Ele solta uma risada baixa. - Eu vou me atirar de uma ponte se perder a Lana dançando, eu juro.

- Dramático. - Acuso, e ele gargalha.

- Um pouco. Tchau, Eleanor. Guarde meu lugar na frente!

Desligo o telefone ao mesmo tempo que dou um abraço de leve na professora de Lana, que está logo na entrada do teatro.

- Minha princesa se comportou? - Pergunto, logo depois de cumprimenta-la.

- Não há dúvidas quanto a isso. Uma perfeita lady. Adorou ser toda maquiada. - Parece tão orgulhosa dela quanto eu mesma. - Sr. Hernandez vem?

Era engraçado como chamava o Bruno pelo nome de cartório, provavelmente pelo sobrenome de Lana.

- Está a caminho. Quando vou poder ver as fotos da arrumação dela? Vocês têm previsão?

- Entram no site ainda este mês... - Deu um sorriso cúmplice. - Mas como você pediu, nenhuma da Lana vai ser colocada lá, chegarão no seu e-mail no mesmo dia. Uma pena, porque a garotinha de vocês é linda.

Agradeço e me afasto, para pegar um lugar bom.

Quando recebemos a circular, pedindo permissão para publicar fotos da Lana no site da escolinha, Bruno e eu entramos numa longa conversa. Porque, querendo ou não, Lana era uma criança pública. Bruno quase nunca postava fotos dela, apenas uma ou outra, bem raramente. Não gostava de sair com ela quando descobria a presença de paparazzi e evitava falar sobre nossa bebê em entrevistas. Nós dois concordamos que enquanto Lana não tiver idade para assimilar como as coisas são, ela deve ter a vida normal, como qualquer outra de sua idade. Quando ficar maior, se for sua vontade, pode acompanhar Bruno em eventos e essas coisas.

Bruno Pov’s

Como se não bastasse meu quase-atraso, eu simplesmente não conseguia achar a porcaria do ingresso para adentrar o teatro. Procurei rapidamente no porta-luva, nos bolsos e pelo chão do carro, já preocupado em perder ainda mais a apresentação, quando me lembrei que tinha colocado na carteira, já para não esquecer.

Chequei se realmente estava lá, e peguei minhas coisas, andando apressado para dentro.

Para meu alívio, a apresentação ainda não havia começado. As luzes já estavam apagadas e tudo mais, mas as cortinas continuavam fechadas.

Nem precisei desbloquear meu celular para ver a mensagem de Lea, que dizia apenas "4D", então segui para lá.

Pedi licença, meio atrapalhado, abaixando a cabeça e quase me escondendo embaixo do chapéu, para não ser reconhecido.

- Hey. - Lea olhou para minha mão e franziu a sobrancelha, confusa.

- São para a Lana. - Expliquei, depois de dar um beijo rápido em sua bochecha. Sentei ao seu lado, no único lugar vazio da fileira e pus o pequeno buque de flores, em vários tons de rosa, no meu colo.

- São lindas. Ela vai ficar toda boba.

- Eu vi como ela achou lindo aquele que você ganhou. - Eu falei, tentando não demonstrar nem um pingo de ciúmes na minha voz. Só de lembrar quando ela recebeu um enorme buquê em casa, com rosas e tulipas, daquele modelo de Nova Iorque, me arrepia tudo e me dá ânsia de vomito. O sorrisinho que ela ficou, toda boba com o agrado que ele deu. Garanto que deu para outras também. Iludida.

Ela balançou a cabeça rapidamente e eu a imitei, sentindo o clima pesar levemente com a menção daquele assunto.

- Por que atrasou?

- Eles disseram que estavam terminando de arrumar as meninas. - Me explica, ainda olhando para flores no meu colo.

- E eu me atrasei porque estava procurando uma floricultura aberta. - Estralo meus dedos. - Quero dar muito apoio para ela e incentivar. - Continuo. - Quero que ela seja o que quiser ser.

- Lana tem sorte de ter um pai que a incentive tanto. - Lea dá um tapinha incentivador no meu braço. - Ser pai é mais uma das coisas que você consegue fazer perfeitamente. Você é um herói para ela, um príncipe.

- Obrigado. - Respondi, meio sem jeito. Puxo uma flor do buquê de Lana e ponho na mão de Lea, para que fique para si. - Não sei o que seria de mim sem você. Teria desistido da minha carreira para cuidar da nossa bebê, sem dúvida alguma.

- Esse clima de fim de ano deixa todo mundo muito emotivo. - Lea ri, brincando com a flor que lhe dei. - Nem faria essa diferença toda.

- Eleanor? - Uma professora, vestida de vermelho da cabeça aos pés, chama Lea, ao lado de sua cadeira. Sem muito alarde, avisa: - É a Lana.

- O que aconteceu com ela? - Interrompo, me adiantando.

- Oh! Sr. Hernandez, é uma honr...

- Obrigado, senhora. E pode ser só Bruno. O que foi com a Lana?

- Não foi nada sério. Ela só está assustada de entrar no palco... A apresentação dela é a primeira. Não queremos forçar nada mas achei que... Se algum de vocês pudesse ir falar com ela...

- Você quer que eu vá? - Lea dá de ombros.

- Vá. Você sabe essas coisas de subir em palcos melhor que eu.

Deixo-a para trás, e sigo a professora para a lateral do teatro, e rapidamente passamos para trás da coxia.

Aceno para um grupo de meninas, com uns 13 anos de idade e, continuo-o seguido-a até paramos em frente um grupo de bem umas 20 crianças, da idade de Lana.

- Cadê ela?

- Ali. - Aponta para o cantinho, e vejo os cabelos da minha pequena presos em um coque.

Ela estava de costas, meio escondida, encostada na parede.

Me aproximo dela e me agacho no chão, para ficar de sua altura.

- Oi, L.

- Papai! - Ela praticamente se joga no meu colo. Soluça, agarrando meu pescoço. - Quero ir pra casa, papai. Vamos pra casa.

- O que foi, meu amor? - Aliso suas costas, e ela esconde o rosto na minha camisa. Me levanto do chão, trazendo-a nos meus braços e tento não babar na forma que ela está linda, de ajudante de papai Noel.

- Não quero mais me apresentar, papai. Por favor, vamos pra casa. O Gege tá me esperando.

- Hey, olha pro papai, L. - Sorrio, incentivando-a. - Por que você não quer mais, princesa?

- Tem muita gente lá fora... E a tia disse que estão esperando pela gente...

- E o que tem de errado nisso? - Pergunto, baixinho.

- E se eu errar? Todo mundo vai rir de mim, papai.

- Oh, L... Não fica assim. - Beijo seu rosto, enxugando suas lágrimas. - Você sabe quando o papai vai cantar naqueles palcos cheio de luzes? Com o tio Eric e o tio Phil? - Ela balança a cabeça de forma afirmativa. - Todos às vezes, o papai tem medo de errar, de fazer feio e do pessoal não gostar, sente esse friozinho na barriga igual a você, meu amor. Mas toda vez que eu subo lá... Eu erro e amo isso. Não adianta, faz parte do show. Nada é perfeito, L. O papai não é. E você também não. E nem precisa ser! Não existe essa de não errar. - Coloco-a no chão. - O papai só quer que você vá lá e se divirta, certo? Dance, cante as músicas... Só precisa fazer com amor, L, que ninguém vai rir de você. Funcionou para mim, e para você também vai. Não precisa ter medo. - Beijo sua cabeça. - Mas se quiser ir para casa... Papai te leva. Você só precisa fazer isso se tiver vontade.

Por mais que eu queira que ela ame os palcos como eu, não quero lhe forçar a nada. Lana me encarou com um biquinho por alguns segundos, e depois pareceu mudar de ideia.

- Tudo bem, papai. - Franziu a testa, igual Lea diz que eu costumo fazer. - Mas você vai ter que me contar mais sobre esse friozinho na barriga depois, certo? É estranho.

Eu ri, do jeito lindinho que a minha pequena artista falava.

- Conto tudo, L. - Dou um último beijo em seu rosto. - Vai lá e se divirta. Eu e Lea estaremos te vendo, ok?

- Aham

- Me beija de volta. - Te amo, papai. Obrigada.

- Meu Deus, como você cresceu. Te amo também, filha. - Rio, mandando um beijo no ar e me afastando.

Vejo ela correr para um grupo de amiguinhas, todas naquele vestidinho vermelho e sapatilha preto e me tranquilizo, sabendo que ela está bem.

Volto pro meu lugar e Lea pergunta se está tudo bem com Lana, respondo que ela estava apenas com um pouco de nervosismo, o que a faz se tranquilizar também. Iria falar da roupa que Lana vestia quando um narrador começou pedindo atenção, e pouco menos de dois minutos depois, a cortina se abriu.

Uma bailarina, que eu acreditava ser professora, estava vestida de fada e sua voz deu início ao espetáculo, falando de amor e união no Natal.

Não demorou muito para minha menina entrar, de mãos dadas com outra.

As duplas se espalharam pelo palco e dançaram lindamente, ainda que algumas vezes olhando para a professora no canto do palco, que mostrava os passos caso se esquecessem de algum.

Lea secava as lágrimas ao meu lado, toda derretida, murmurando o quão linda Lana estava, com o celular filmando algumas partes da dança. E eu, claramente, não estava menos emocionado do que ela.

Lana retornou no final da peça, quando todos os números foram colocados juntos para cantar Jingle Bells enquanto se balançavam para cá e para lá.

E realmente bem no final, logo antes da cortina cair, uma menina de casa número, foi para frente do palco, formando uma linha com todas as fantasias da apresentação.

Passei os olhos por uma fantasia de árvore de natal, de elfo, mas parei quando vi quem das ajudantes de natal estava ali, na frente de todos.

Minha menina.

Sorriu lindamente e se abaixou, em uma mesura, com as mãos dadas com as outras, ouvindo os aplausos.

Enxuguei uma única lágrima que caiu dos meus olhos e olhei para Lea, que se derretia toda.

- Bruno. - Passou as mãos por debaixo dos olhos. - Ela vai ser uma artista igualzinha a você.

Vinte e Quatro de Dezembro de Dois Mil e Doze

Eleanor Pov’s

Finalmente o natal havia chego. Depois de uma semana longa que parecia não passar nunca, ele veio. A casa do Bruno estava lotada. Crianças, adultos, brinquedos, bebidas, comidas e tudo que dá para imaginar. Ele abusou da festa, fazendo algo bem grande e especial, pois disse que sentia necessidade de fazer esse natal mais do que especial. Quem seria eu para tirar isso dele?

Meus pais, para minha felicidade vieram, e estarão em breve aqui, já que estão vindo com meus avós. Minha irmã ligou, está no Canadá com uns parentes do Kyle e passará por lá mesmo.

-O que está fazendo no quarto ainda? – Tiara para na porta, com as mãos na cintura e segurando o seu celular com uma delas.

-Ah. – Olhei para meu quarto e logo depois para meu próprio corpo. – Vou tomar um banho ainda para me arrumar.

-Ainda não tomou?

-Na verdade, não. – Ri, passando a mão sobre o cabelo. – Estava no celular com Elisa.

-Maravilha. – Revirou os olhos. – Como ela está? Vindo pra cá?

-Ela está bem, graças a Deus, mas passará com o marido em Vancouver.

-Chique! Porque?

-Tem uns parentes dele por lá, parece que a avó dele também e ela está bem velhinha... Essas coisas.

-Eu entendo. Ok, se arrume e desça para começarmos com a nossa festa.

-Ok.

Entrei para o banho e não demorei muito. Assim que saí, tomei meus cuidados de sempre, passei uma maquiagem super de leve e vesti minha roupa. Um jeans básico, uma blusa de manga comprida e botas fofas. Claro que não poderia faltar um belo suéter por cima com algumas renas.

Quando estava vestindo meu gorro de papai noel, meu celular apita loucamente. Era o Skype. Uma chamada com o Ric.

Atendi e esperei estabilizar.

-Oi, mamãe noel.

-Oi. – Coloco a mão sobre o gorro para retira-lo e ele ri, dizendo que não precisava. Que vergonha. – Estou um caco.

-Tá nada. Está linda, diga-se de passagem.

-Obrigada. Mas e aí, como está o natal?

-Maravilhoso. Estou em Ohio com a família.

-Mas vocês não são do Texas?

-Sim, mas meus avós paternos moram aqui... História longa! Esse ano resolvemos juntar a família toda, mas reservei um tempo da loucura para poder ver você.

-Nós mal nos falamos esses dias. – Faz uns dois dias que não nos falamos direito, já que ele estava nuns trabalhos e eu empenhada em ficar com as crianças e dar atenção aos meus pais e a família do Bruno.

-Esse é um dos principais motivos que chamei você por aqui. Queria ver você.

-Pena que não é pessoalmente.

-Logo, logo, será! – Ofereceu-me um sorriso lindo.

-Uhuh. – Bruno tosse forçadamente e percebi que ele estava na porta do meu quarto.

-O que faz aí? – Estranhei.

-Que? – Ric pergunta.

-Estou buscando você! Ordens expressa de todos que estão lá na sala comemorando o natal.

-Eu já vou lá.

-A onde? Tá doida? – Ric pergunta, rindo.

-Desculpe, Ric, estava falando com o Bruno.

Escuto Bruno dizer um AF com toda a altura e fechar a porta.