Você nunca sabe o caminho
um dia vai levar você
há sempre alguma surpresa
que vem para agitar você
(You Never Know - Ringo Star)
Desci tentando disfarçar a cara de choro que estava, mas era aparentemente relevante demais. No meio do caminho ainda algumas pessoas pegaram o elevador para descer. Desci em um andar qualquer e andei pelo corredor sozinha pensando em tudo isso.
Decepcionante.
Era essa a palavra correta. Dessa vez não era nenhuma tempestade em copo da água, era a realidade. Meu amigo virou um drogado quando? Cheirando a sexo e a única coisa que pareceu se importar é com a fama.
Ele não se importa mais comigo? Porque isso mudou?
Ajeito minha roupa e desço para a recepção encontrar um quarto pra mim. O homem procurou algum barato que estivesse disponível, mas não achou nada. No bolso da minha calça o cartão do Bruno parecia gritar para que eu o usasse. Sou bem maior que isso, irei passar aperto por uma única noite, mas não irei usar o dinheiro dele que ele conquistou com a fama dele.
-Desculpe senhora, temos somente esses quartos disponíveis. – Torceu os lábios pra mim, como se sentisse pena do que estava vendo.
-Tudo bem. – Ofereci meio sorriso e ajeitei minha mochila nas costas.
Subi até o andar que estávamos novamente. Estava tudo silencioso por ser madrugada, meu sono estava apertando. Pensei em chamar o Phil, mas seria injusto. Seria injusto chamar qualquer pessoa para me ajudar.
Sentei-me no chão do corredor e por ali fiquei. Meu celular estava com a bateria fraca, mas deu tempo de entrar em algumas redes sociais que agora fiz, como twitter e facebook. Acompanho o Bruno pelo twitter e ajudo a divulgar, por mais que eu não tenha tantos seguidores como ele, e no facebook uso mais para conversar com minha mãe e agora com meus amigos do Havaí.
E mais uma vez caio em lágrimas ao lembrar rapidamente de como estávamos antes da fama dele. O que me conforta é saber que isso pode ser apenas temporário, que talvez daqui poucos meses ele melhore e isso tenha sido apenas uma fase ruim.
-Lea? – Kenji aparece com um dos meninos ao lado. – O que houve?
-Noite ruim. – Tento sorrir pra ele, em vão.
-Noite ruim? Porque não está no seu quarto? Aconteceu algo?
-Vocês saberão amanhã... Ou melhor, Bruno não estava com vocês quando aconteceu...?
-Não, nós não o vimos desde que voltamos do show. Fomos até uma pequena boate. Onde ele está?
-Agora deve estar dormindo. – Olho para o lado quando ele se abaixa na minha frente.
-Foi algo grave, sim? Seus olhos estão tristes e você estava chorando...
-Eu sou uma boba, sentimental. – Sorrio novamente, sem vontade nenhuma.
-Vamos para o nosso quarto. Eu durmo no sofá que tem nele e você fica com a cama.
-Não se preocupe. Posso ficar no sofá, eu já estou acostumada há tempos com isso.
Ele ajuda-me a levantar. Passo a mão na minha roupa para tirar qualquer sujeira e vou até o quarto deles.
Kenji foi atencioso comigo, deu-me água com açúcar, pediu que eu me acalmasse e até remédio ofereceu. Deitei-me na sua cama, no final das contas, e não falei para eles o que tinha acontecido. Deixei a entender que seria algo pessoal, mas amanhã espero que o Bruno diga o que houve, até porque terá que ficar o dia todo aqui com eles. Não terá como esconder.
Ao acordar, a televisão estava ligada e os meninos em volta. Disfarçadamente tento levantar para ir até o banheiro, mas quando pego a mochila, algo cai no chão. Todos me olham, dão bom dia, e o único que vem ao meu encontro é o Kenji.
-Bom dia. Dormiu bem?
-Só dormi porque estava cansada, porque senão estaria acordada até agora. – Ri sem vontade e ele continuou a olhar-me com pena.
-Saiu na internet sobre o Bruno e você sabe, as drogas... Eu nunca imaginaria que fosse isso.
-Foram só algumas gramas de cocaína. – Ryan comenta.
-Algumas gramas? Trezentas gramas, Ryan. – Me obriguei a gritar. – Ele é a porra do seu amigo, ele está numa fria, e você ai fazendo piadinhas que não são cabíveis para o momento.
-Deixa o cara, ele queria aproveitar. – Rebate.
-Não se estresse Lea. – Kenji pegou em minha mão. – Vá se trocar, tome um banho, que eu vou ver o que vai ser de nós agora e do Bruno.
Depois de eu fazer minha higiene e sairmos do quarto, acompanhei Kenji até o quarto onde Bruno estava. O encontramos sentado numa poltrona, com um copo de água – aparentemente – na mão e uma cara horrível. Além de muito arrependido, parecia pensativo, acabado.
-Mãe! – Ouvi minha princesa e procuro de onde vem sua voz. Só vejo suas perninhas correrem ao meu encontro.
-Princesa. – Passo a mão nos seus cabelos, pegando-a no colo.
-Papai tá triste. – Fez uma carinha tão compreensível. Lana é uma das crianças mais inteligentes que já conheci (ok, não foram muitos).
-Eu sei meu amor. Papai precisa de um tempo sozinho. – Disse para ela que tornou a olhar pra ele, fazendo meu olhar seguir o dela e ver um meio sorriso se formar na boca dele.
-Lea, precisamos conversar. – Eu odeio quando dizem isso.
Larguei a Lana com o Kenji, que pulou direto para o colar que estava usando para mexer no pingente e perguntar o que era aquilo. Fui para a frente do Phil e ele gentilmente puxou meu braço indo para fora do quarto.
-Você que é uma pessoa sensata, me explica o que esta acontecendo, porque eu não estou entendendo mais nada. Acordei com a ligação do Brandon hoje de manhã falando que o Bruno foi preso por porte de drogas ontem. Foi por isso que largou a pequena comigo?
-Sim, falei pra você ontem... – Não poderia julgar ele, porque se me acordam de madrugada para falar algo, é certo que eu vou estar dormindo ainda e não processar a ideia. – Espera, Brandon já sabe?
-Está em tudo quanto é noticiário. – Passou a mão pela cabeça. – Porque é que ele foi fazer isso, hein? – Perguntou mais para si do que para mim.
-Eu também não entendo.
-Como você está?
-Arrasada? Não tem palavras. Talvez decepcionada... eu não sei! Estou de tudo um pouco, principalmente surpresa. Ele nunca foi disso, era completamente contra drogas, se enjoava até com o cheiro da maconha...
-As coisas mudam Lea. – Respirou fundo. – Ele é jovem, está passando por um momento. Nós o conhecemos e sabemos que ele está arrependido disso.
-Claro que está, mas ai me preocupa a imagem dele... Ele foi preso por cocaína, acha que pais de adolescentes iram querer comprar o CD de um drogadinho? – Pode até ter suado rude demais o que disse, mas não foi a intensão. – Ele lutou pra conseguir um lugar de destaque na música. Há anos está tentando, e quando consegue, faz algo que pode manchar o nome dele pra sempre?
-Isso é verdade. O que o delegado falou?
-Os policiais até brincaram com ele, pra descontrair, mas ele estava completamente alucinado, noiado. Acredita que ele sorriu pra foto do arquivo? – Repreendi o riso, querendo mesmo gargalhar. – Mas o delegado falou que o liberaria por ser reu primário, por que ele é famoso e terá a turnê agora e porque eu estava pagando a fiança, porque do contrario ele ficaria até o juiz dar um pré julgamento.
-E vai ocorrer o júri?
-Claro! Vai ser indiciado o processo para ver se ele será preso, ou pagará por isso, ou sairá impune, caso alguém prove que a droga não era dele. Mas ele também disse que se o Bruno acabar confessando, a pena é diminuída.
-Que confusão, meu Deus. Espero que dê tudo certo.
-Tem que dar. O negócio agora é conversar com ele. – Bufo, sem paciência alguma.
-Te peço pra ter calma. Ele está arrependido e cheio de problema nas costas, não vamos o sobrecarregar mais agora. Deixamos os xingamentos e lições para depois, quando tudo estiver mais ameno.
-Vou fazer isso porque você está pedindo, porque se fosse por mim estaria dando tapas na cara dele. Sabe que eu não tenho paciência para esse certo tipo de burrice.
-Sei e é por isso mesmo que estou pedindo. – Beijou o topo da minha cabeça e abriu a porta com o cartão, deixando que eu passasse primeiro.
Kenji estava a sua frente falando algumas coisas e Bruno o olhava atentamente. O clima estava bem estranho e ele parecia estar tomando um sermão. Olhei para o Phil que assentiu pra mim.
-Ken? Vamos comigo à farmácia? – O chamou com olhares sugestivos e Kenji captou na hora que era para deixar eu e ele a sós.
A pequena foi com eles, com a promessa de que ganharia um pedaço de picolé, já que não deixamos comer muita porcaria com essa idade, apenas poucas coisas com poucas quantidades.
Ao ouvir a porta bater o olho sem saber como começar e nem o que falar. Queria socar a cara dele, de raiva, faze-lo voltar à realidade, mas ao mesmo tempo queria seguir o conselho do Phil e abraça-lo, dizer que tudo vai ficar bem.
-Hã. – Os dois começam juntos e rimos juntos também. – Pode falar. – Ele me permite.
Puxo uma cadeira da pequena mesa para dois que há atrás de mim e sento na frente dele.
-Tudo vai ficar bem, ok? Isso foi apenas um momento. – Pego a sua mão e ele me olha, parecendo estar bem surpreso. Lembrei do choro dele à noite, em frente ao espelho, e me pego querendo chorar também. Phil tem razão, ele só precisa de bons conselhos agora e não apedrejas.
-Eu juro que eu não pensei em nada mais naquele momento. Eu fiz por fazer, porque outras pessoas me disseram que seria legal. Eu não pensei nas consequências, eu não pensei na carreira, não pensei na minha mãe, na minha filha e nem eu você. – Uma única lágrima escorre do seu olho, lágrima que ele não faz questão de secar, pois a vergonha e o medo são tão grandes que vencem a pose de macho. – Lea, eu só queria voltar no tempo pra apagar esse borrão.
-Hey, todos nós temos borrões escuros na história. São eles que nos fazem crescer, é o medo que nos mostra que somos melhores para enfrentar coisas maiores.
-Eu queria ser um exemplo para todos, inclusive para a minha filha. O que eu vou ser agora, Lea? O negro, drogado, pobre... – Balança a cabeça deixando mais lágrimas caírem.
Levanto da cadeira e o puxo para um abraço. Dói ver meu melhor amigo sofrendo, vê-lo tão preocupado agora me faz esquecer todas as coisas ruins e me concentrar somente na sua dor que deve estar sendo bem maior que a minha. Pra que se por para baixo desse jeito? Se Deus quiser ninguém irá tratar esse assunto como relevante na sua carreira, e sim apenas um deslize de artista iniciante. Não é como se ele fosse a Lindsay Lohan, que já tinha uma carreira antes de se entregar para as drogas, ou Amy Winehouse... Ele é apenas o Bruno Mars, artista iniciante, que ainda irá servir de exemplo para muitos.
-Nunca vou deixar que esses males te afetem. Sempre estarei aqui para mostrar que você é maior que tudo isso e que irá servir de exemplo sim.
-Eu amo você. Não sei como aguenta ser minha melhor amiga durante todos esses anos.
Mesmo que de muito leve, a palavra amiga atinge o peito doendo um pouco, é inevitável. Estamos há um ano e pouco ficando junto quase todas as noites, não é como se fossemos apenas amigos. Somos mais que amigos, sendo apenas amigos. Entende?!
-Ser irmã serve pra isso. Quase um casamento... Nas horas boas e nas ruins, até que a morte nos separe!
-Desculpa ter gritado com você ontem. Sabe que eu não queria dizer aquilo sobre a Lana ser apenas minha filha. Foi puro impulso.
Tenho o impulso de afasta-lo de mim e passar o dorso de minha mão no rosto. Ter apenas um resquício daquilo em minha mente me fez retornar para a noite passada. Eu odeio ser um pouco bipolar.
-Me desculpa pelo tapa... Você mereceu!
-Eu mereci. – Consigo arrancar um sorriso dele. – São tantas coisas que eu tenho que te agradecer que eu nunca ficaria bravo por um tapa que eu mereci.
-Faz parte de tudo isso. – Sinalizo um círculo e ele puxa meu braço, parando meu corpo de frente pro dele.
-Desculpa pessoal, mas alguém tem um termômetro? - Ouvimos a voz de Phil que rapidamente eu saio da frente dele, que puxa meu braço, mas tiro a tempo.
-O que houve? - Pergunta o Bruno.
-Eu tenho um para a Lana... - Ando em direção da mala.
-Hã, é com ela mesmo... Ela ficou bem estranha depois que saímos daqui, está caidinha e Urbana tem quase certeza de que ela está passando de estar apenas febril.
-A febre. - Ponho a mão sobre a cabeça. - A Lana tem uma espécie de... - Fico procurando o termômetro e não consigo terminar de falar o que queria.
-Ela sofre de febre emocional. Quando sente algo deslocado, brigas, e etc, ela fica assim. É normal.
-Normal não é, né, Bruno! - Digo impaciente, pegando a pequena bolsinha de remédios. - Vou com você.
-Eu vou junto. - Ele se aponta.
-Vá tomar um banho e tirar esse cheiro de você. - Pode ter soado grosseiro, mas é meu jeito. Não estava tudo bem entre nós ainda, eu ainda estava visivelmente brava e alucinada com toda aquela situação, e agora mais ainda por acarretar dor a minha pequena.
-Estarei ali daqui uns minutos. - Grita enquanto ia para o banheiro do quarto.
Batemos a porta fazendo um barulho e Phil passa o cartão dele na porta do seu quarto. Urbana está com ela deitada na cama enquanto sua pequena filha dorme. Ela dá tapinhas na coxa da Lana, contando uma história, e a princesa olhando para o nada se alerta com a nossa chegada.
-Oh meu amor. - Corro para a ponta da cama com o kit em mãos. Largo ao seu lado e pego na sua pequena mão. - A mamãe está aqui, nada irá acontecer. - Beijo sua mão e ela dá uma tentativa de sorriso.
-Pai. - Fala, sem entender se está perguntando por ele ou falando dele.
-Daqui a pouco ele irá vir ver você. - Pego o termômetro e coloco nela. - Fica quietinha, ok?
Perguntei a Urbana se ela deu algum trabalho naquele curto tempo, mas ela disse o que todos dizem, que ela não dá trabalho algum, somente quando demos corda pra ela, aí sim ela se abusa e faz coisas que todas as crianças fazem. O que é absolutamente normal e saudável.
Babei um pouco na pequena Zaima e retornei para ver a febre dela. Trinta e sete com nove, precisava medica-la com umas gotas de remédio, o que ela não gosta muito.
-Dodói? - Pergunta, unindo as sobrancelhas fazendo-me rir.
-É, mas agora a mamãe vai dar remédio pra melhorar. Vamos? Aí podemos passear, que tal?
-Parque? - Balança a cabeça bem feliz e eu concordo.
Dei a ela as gotas do remédio e uns minutinhos depois dei água para tirar o gosto ruim que deve ficar, apesar de que o remédio tem gosto de tutti fruti, o que não é nada ruim. Ruim é os de adultos.
-Se não for pedir muito, pode me dar um paninho molhado? - Perguntei ao Phil, que prontamente saiu à procura.
Bruno entrou no quarto deixando-me completamente silenciosa. Acho que Urbana entendeu que estávamos brigados, acho que ela também já sabia o motivo. Cumprimentou o Bruno e levantou da cama, verificando se a sua filha ainda dormia.
-Amor, acho que vou tomar algo ali embaixo! - Disse da porta, fazendo um sinal para Phil.
-Pegue esses lenços umedecidos. - Entregou-me um pacote. - Vou junto, amor.
Entendi o porquê queriam sair. Queriam me deixar com ele para ver o que aconteceria. Nenhuma cabeça iria rolar, não enquanto minha pequena estivesse daquela forma.
Ajeitei-me na cama e falei que iria cuidar de Zaima para eles. Pus a Lana sobre minhas pernas a envolvendo com meus braços. Lana ainda ficou babando pelo seu pai por alguns minutos, sabia que daqui uns instantes ela cairia de sono, é efeito colateral do remédio.
Quando ela dormiu, arrumei o lado da cama para que pudesse deita-la ali e levantei. Não poderia ficar muito tempo parada naquele estado de nervos que eu estava.
-Lea?
-O que houve? - Despejo um tom de nojo na resposta.
-Eu ia falar que... Bom, esquece.
-Fale.
-Pensei que tinha me desculpado. Eu já disse que estava mal, que eu não sabia o que estava fazendo, somente deixei levar-me pelo momento e agora estou arrependido. Se quiser, eu me ajoelho! - Dramatizou, com encenação de suas mãos e tudo mais.
-Pare com isso. Já desculpei, eu te entendi, mas não esqueci. Provavelmente hoje eu ficarei assim com você, ou não. Sabe que eu tenho uma tendência bipolar no meu sangue, e sou imprevisível!
-Seja previsível! - Pegou meus pulsos com força. - Seja comigo agora. Bata em mim, chore, desconte a sua raiva, mas não me trate como um ninguém e não me ignore dessa forma.
Tive que absorver para o lado bom tudo que ele disse, pois se deixasse para apenas minha mente comandar o que eu estava querendo fazer, provavelmente iria acabar arrebentando pratos na sua cabeça, o chamando de tantas coisas, batendo no seu corpo e no final, chorando, por pena pelo que faria. Usei do meu melhor filtro para deixar tudo da melhor maneira.
-Eu tentarei, mas não hoje! Eu estou realmente chateada e decepcionada. Deixe-me absorver, por favor.
ზ
-Bom dia. - Falo confusa quando vejo o Bruno no quarto. - Não ia sair com os meninos?
-Bom dia. - Sorriu pra mim, ajeitando a camisa. - Sairei, mas quis esperar que acordasse para reparar na Lana. Ela está bem e está assistindo desenho. - Apontou para o sofá bem em frente.
-Ah sim. - Esfrego a mão no rosto.
Faço minha higiene no banheiro e saio prendendo o cabelo com a boca cheia de gostinho de pasta de dente. Como eu amo essa sensação.
-Hey. - Ela parou em minha frente.
-Oi. - Tento me desviar.
-Está tudo bem entre nós hoje?
Olho para os meus pés, dou um meio sorriso e assinto positivamente. Tá tudo bem, não irá levar a nenhum lugar ficar de mal com ele para o resto da vida.
-Está.
-Obrigada. - Abraçou-me. Sem querer, quando envolvo minhas mãos pelo seu corpo, o arranho. Rio que nem boba do que aconteceu e da fisgada que ele deu. -Eu quero você, Lea.
-Bruno... – Como eu iria dizer que não o quero porque ontem a noite provavelmente ele pegou algumas vadias? E bêbado e drogado ele pode não ter usado camisinha?
-Eu não transei com ninguém.
-Hm. – Esperei que ele falasse a verdade.
–Ok! Uma mulher.
-Bruno! – Começo a rir pela careta que ele fez. – Se protegeu?
-Sempre. Sabe que eu não sou um sujo.
-Eu ia falar uma coisa, mas eu prefiro calar minha boca antes que acabamos discutindo.
-Pode dizer...
-Ia falar que eu também pensei que nunca iria usar drogas, mas... – Ele continuou a me olhar sério. – Viu, eu falei!
-Para. – Começou a rir. – Eu sempre me cuido.
-Tudo bem, garanhão. Ela era bonita? – O abraço de lado.
-Traços orientais... Muito funda, parecia não ter um limite, sabe? Apertadinha, mas ia até o talo e não parecia.
-Muito magra então?
-Demais. Orientais, né. Prefiro o seu corpo. – Deu um tapa estalado na minha bunda.
-A Lana. - Belisco seu braço, procurando-a por cima para ver se ela estava alerta a nossa conversa, mas sua concentração estava apenas na televisão. - Ainda estou puta com você.
-O que eu fiz dessa vez?
-Digamos que eu chorei por você aquela noite toda...
-Lea. – Ele interrompe meu pensamento, parando para me olhar. – Me desculpe, novamente. Meu Deus, eu sou um merda. Onde você dormiu ontem? Nem nos falamos o resto do dia.
-Tentei conseguir um quarto, mas todos baratos estavam ocupados e o resto luxuoso demais para apenas uma noite de sono. Sentei no corredor e ali fiquei por um tempo, até o Kenji me acolher.
-Ah, claro. – Soou irônico seu comentário, mas dispensei qualquer pergunta sobre. – Dormiu com ele?
-E com o Phred e seus dreads muito loucos.
-Você dormiu na mesma cama que o Kenji ou que o Phredley?
-Hm, dormi na cama do Ken sozinha, ele dormiu no pequeno sofá, coitado. E quando acordei estavam a maioria dos meninos no quarto.
-Hm. – Ficou calado, somente me olhando. – Você sabe que o momento que você quiser, o Kenji leva você pra cama, não é?
-E daí? Ele levará se eu quiser, e outra, somos completamente abertos. Se algo rolar, rolou. – Eu precisava sair por cima da carne seca, já que falou da vadia japonesa, eu falo do querido japonês! Oriental por oriental, né?!
-Você que sabe, Eleanor.
-O que foi?
-Você que sabe se vai ficar com ele ou não! Pode dar pra ele, agora se quiser.
-Que isso, Bruno. Eu posso ficar com quem eu quiser, sim?
-Não com ele... É meu amigo, companheiro de banda.
-E o que tem? – Era isso que eu queria entender, queria que ele dissesse algo, mas ele não disse.
Fechou a cara e andou em direção da sua mala, abrindo-a e procurando algo que eu acho que nem ele sabe o que era. Cheguei perto dele, pondo a mão nas suas costas, sentindo a tensão que estava sobre o seu corpo quente. Beijei sobre a sua blusa, seu braço, e acariciei seu cabelo. Quando virou para mim, a fim de falar algo, creio eu, eu o beijei.
Não foi impulso, foi vontade e momento. Eu queria fazer aquilo para mostrar mesmo que estava tudo bem entre nós.
-Você é um idiota. – Murmuro quando separo nossas bocas.
-Devo ser. – Balançou a cabeça, envolvendo suas mãos no meu corpo. – Um idiota que te fode melhor que ninguém. - Murmurou.
-Sempre acaba em sexo, isso. – Mordisco a ponta da sua orelha e ele se arrepia todo. – Eu sou a melhor que você já comeu e que irá comer, anota isso.
-A melhor bunda também. Por falar nisso... Faz tempo que não fazemos um anal, não?
-Quando voltarmos pra casa, isso se você merecer!
O ver sorrir após esse baque de problemas era gratificante, e no fundo o Bruno estava lá, apenas assustado e com medo de toda essa coisa nova que está girando ao seu redor.
Durante a tarde, quando os meninos saíram para curtir Vegas, juntei-me a Urbana, Cindia e Liam, o filho dela com Eric – o primeiro, afilhado do Bruno ainda por cima, só para deixa-lo mais bobo com o pequeno -, e nossas duas princesas. Olhávamos algo na televisão e fofocávamos sobre de tudo um pouco. Elas começaram com o assunto de maternidade, mas não me envolvo porque disso eu não sei nada.
Parei para pensar somente no que aconteceu nesse longo final de semana, e pensando no quanto mudará daqui para frente. Bruno está adquirindo mais fama, agora com essa pequena turnê com o Maroon 5, mais seu CD que está chegando, e muito mais apresentações que virão... Seu nome já está bem conhecido e ficará mais. Um dia ele irá arranjar alguém para juntar as escovas de dente e eu também terei que seguir meu rumo. Até lá espero que a Lana esteja grande o suficiente para entender que nós não somos um casal e que eu não sou a sua mãe biológica.
Tem muita estrada para se trilhar, mas são coisas que não posso deixar de pensar.
É inevitável não pensar no futuro, que pode ser próximo ou não.
-Bruno foi até a delegacia ou saiu com os meninos?
-Saiu com os meninos.
-Coloque rédeas no seu homem, mulher! – Urbana toca em minha perna.
-Meu homem? – Começo a rir. – Não é meu homem, e Bruno não é o tipo de pessoa que é fácil se pôr rédeas. Difícil de lidar.
-Acho que nunca irei entender o que acontece entre vocês. – Cindia arruma seu seio que Liam termina de mamar.
-Nem eu. – Respondo na mais perfeita sinceridade. – Nem eu! – Repito baixinho, pensando com meus botões.




