terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Capítulo 80



Eu quero cada pedaço de você
Eu quero o seu céu e seus oceanos também
Trate-me suave, mas me toque cruel
(I miss you - Adele)

Uma semana passou desde que terminei com Richard. Devo dizer que não foi a melhor semana da minha vida. Em pleno sábado estou indo a minha casa para ver como ela está. Quero redecora-la e talvez morar aqui sozinha.

Bruno ofereceu-me para voltar a morar com ele. Lana está naquela fase que precisa de uma figura feminina por perto – não que o Bruno não tenha capacidade de explicar muitas coisas pra ela, mas ela precisa começar a aprender sobre menstruação, por exemplo. Estacionei o carro e Megan me olhou, pegou-me olhando para a janela.

-Você quer entrar lá?

-Não é como se ele tivesse morrido. – Dou de ombros, fingindo-me não importar.

-Mas ele partiu. Você tem um coração tão grande que está se auto depreciando por ele ter ido embora magoado. Eu conheço você e a sua alma, Eleanor. – Sua mão paira sobre a minha no volante e eu agarro seus dedos com pressa.

-Ele foi um bom namorado.

-Mas acabou. Você e ele irão ficar bem.

-Eu queria tanto pensar mais em mim nessas horas.

-Olha, você tomou um grande passo, Lea. Você pensou em você quando decidiu finalmente largar ele e viver a sua vida.

-Acha que essa foi a melhor decisão?

-Você, Lea, acha que essa foi a melhor decisão?

-Sim... – Falo receosa.

-Então ela foi! – Me responde com convicção. – Olha, amiga, você é a pessoa mais altruísta que eu conheço. Pensa na sua vida daqui pra frente, e não lá no passado!

Eu nem sabia porque aquilo estava em discussão. Eu, Eleanor Winters, tinha decidido que o término seria melhor para ambos. Eu acabei com ele e preciso me sentir liberta quanto a isso, preciso seguir em frente e olhar para o futuro e não no passado. O que passou não tem como mexer, mas posso aprender pra consertar problemas futuros.

-Vamos subir?

Nem respondi, apenas o olhar confirmou. Fomos até o apartamento. Achei estranho, parecia que não faltava nada por ali, materialmente falando. Mas faltava presença, faltava vida.

Os dois porta retratos da sala estavam vazios, ele levou nossas fotos. Na cozinha senti a ausência do relógio da parede e de um imã de geladeira. Não havia recados pendurados no post it.

Pela casa toda faltava algo. No banheiro, seus produtos de cabelo, sua escova de dente, seu kit de dentista neurótico que eu ria tanto. No corredor o quadro que pintou quando tinha sete anos na escola. No quarto, seu lado do guarda roupas estava vazio, e nos meus cabides senti falta de um dos seus casacos que eu mais gostava. Na gaveta não tinha nenhuma roupa intima, seus sapatos não estavam mais na sapateira. Na parede ficou um pedaço do adesivo que prendia um pôster dos Beatles.

-Vou ver as coisas que venderemos no bazar. Começando pela cozinha. – Megan dá um giro com seus calcanhares, me fazendo rir baixinho.

Abro minha gaveta da mesa de cabeceira e acho uma caixinha. Abro, com toda a curiosidade do mundo, mas ela está vazia, assim como muitos cômodos e lugares dessa casa. Fecho-a em meu punho e suspiro fundo.

Eu terminei com ele, pensei nas coisas ruins, falei das coisas ruins, o trai com meu amigo, mas agora eu me lembro de tantos momentos bons que passamos juntos. Lembro-me da primeira vez juntos, da patinação no gelo em Nova Iorque, das risadas.

No fundo da gaveta estava minha Lei que ganhei no aeroporto a última vez que estive no Havaí. Ah, se minha mãe estivesse aqui comigo e não tão distante, ela teria tantas coisas para me dizer.

-Eu acho que sua cozinha toda vai para o bazar, e quando decorarmos, vamos comprar tudo novo!

-Você está colocando minha casa abaixo, Meg?

-A única coisa que está pra baixo aqui é você, meu bem. Estou listando tudo o que é necessário se livrar e o que podemos dar uma repaginada.

22 de Abril de 2016

Bruno Pov’s

Sexta à noite e eu resolvi ficar em casa ao invés de estar no estúdio novamente. Foi uma das melhores escolhas a se fazer. Lea e Lana estavam fazendo a janta e eu observando, quieto, enquanto fingia que lia algo no jornal.

Meu bebê já não é mais um bebê. Ela está enorme. E eu me impressiono a cada dia mais em como ela é inteligente, linda, educada. Minha filha é meu maior orgulho.

-Amanhã podemos fazer mais uma receita? – Lana pergunta enquanto vai alcançando a louça suja para Lea lavar.

-Amanhã... – Ela iria continuar a sua resposta, mas a interrompi.

-Amanhã a senhorita vai pra casa do Eric. Lembra que conversamos?

-Ah, vocês vão no show! – Ela vira os olhos. – No show da Adele você não me leva.

-Posso levar um dia, mas amanhã é algo mais especial. – Voltei meus olhos para o jornal.

-Especial? – Nem preciso olhar para Eleanor para saber que ela está com uma das sobrancelhas arqueadas.

-Sim. Vou apresentar um amigo meu para Megan. Comentei com você!

-Ah, eu não tinha lembrado que era amanhã. – Ouço o barulho da água. – Eu chamei Tiara para ir conosco.

Droga, meu objetivo era fazer disso um encontro duplo. Pego meu celular disfarçadamente e abro a conversa de Tiara. Encaminho para ela algo como “dê qualquer desculpa, mas não vá amanhã”.

Queria que fosse só nós três porque estou vivendo num dilema. Eleanor topou ficar aqui em casa, ela está conosco agora e está melhor para todos nós, porém sempre que eu tento uma aproximação, ela parece ficar na defensiva e muda o rumo do assunto. Desvia dos meus toques. Tenho medo que ela tenha se arrependido de terminar com o Richard, tenho medo de perde-la logo agora que eu a posso ter.

Eu estou de coração aberto, estou disposto a mostrar pra ela que o melhor lugar que ela tem é ao meu lado, recostada no meu peito, nos amando. Mas ela parece que está sempre tentando mudar isso.

Eu pensei que após o término dela com o Richard nós iríamos ficar juntos, já que andávamos nos encontrando algumas vezes enquanto eles namoravam. Mas parece que depois disso ela ficou mais distante do que quando paramos de ficar na primeira vez.

-Estou com dúvida em que roupa usar amanhã. Não vou num show há anos. – Ela puxa assunto comigo, sentando a minha frente com seu celular numa mão e na outra um copo de água.

Lana não estava por ali. Acho que fiquei tão concentrado nos pensamentos que nem vi o que aconteceu.

-Hm. – Torço os lábios. – Vá com algo se sinta confortável.

-Vou ver com a Urbana o que ela usaria.

-Com certeza seria um Louboutin com alguma roupa chique.

-Ou não. Muitas vezes ela é mais casual.

-Para shows e eventos? Até parece que não conhece a sua amiga. – Reviro os olhos. Urbana tem um ótimo olhar para moda, tanto que é estilista. Eleanor sabe disso e está tentando disfarçar. Será que ela quer ir mais comum para não parecer que é um encontro disfarçado.

Quer dizer, será que ela desconfia?

-Isso é. Eu estou tão por fora de roupas e sapatos novos que nem sei mais o que se usar.

-Muitos anos confinada dá nisso. – Passo a página do jornal e ela finge dar um tapa em mim, que pega somente no ar.

-Idiota. – Diz entre algumas risadas.

-Estou sendo sincero. – Fica um momento de silencio. Talvez ela concorde comigo que não foi a mesma que era antes com o Richard. – Você quer sair amanhã na parte da manhã para comprar algo?

-Bruno...

-Sério. Aproveite e compre algo pra eu vestir, como uma camisa. Eu não sei o que vestir.

-Versace é sempre uma boa opção.

-Claro! Dê uma olhada pra mim?

-Dou sim, pode deixar.

-Sabe uma marca que fica maravilhosa em você?

-Qual?

-Valentino!

-Obrigada. Vou olhar amanhã.

Eleanor Pov’s 

Duas mulheres loucas por roupas, sapatos e bolsas soltas em um shopping obviamente não iria dar boa coisa. Apenas passamos por ali para comprar a camisa de Bruno e depois iriamos na boutique onde tem Valentino maravilhosos.

Megan estava ansiosa, não parava de fantasiar sobre o cara.

-Já pensou que estamos saindo num Double Date?

-O que? – Pergunto. – Não. – Balanço a cabeça.

-Qual é. Eu e o moço, você e o Bruno...

-Nada a ver, Megan. Ele apenas quer que você conheça o amigo dele.

-Será que ele é legal? É gente boa?

-Não sei, nunca o vi.

-Nunca? Ah, meu Deus, Eleanor. E se ele for feio? Ou se ele não gostar de mim? Não tinha pensado nessas possibilidades.

-Bruno parece conhecer bem o seu gosto para não chamar caras que não fazem o seu tipo. Sim?

-Isso é... Estou nervosa agora.

-Não fique.

Mergulhei numa arara de vestidos aleatórios enquanto na minha cabeça um pouco infantil apenas se passava uma coisa: double date.

Eu não me sinto preparada pra embarcar em algo agora. E se eu e o Bruno confundimos mais uma vez o amor com a amizade? Não quero por em risco a amizade tão linda que estamos tendo novamente. Não quero arriscar passar muitos anos sem falar com ele direito.

Parece que esses pensamentos até dor de cabeça me geraram.

-Olha esse aqui! – Megan praticamente grita quando encontra um vestido branco, e por sinal muito lindo.

No final das contas, após experimentar muitos e montar looks apenas para rirmos como não fazíamos há tempos, eu escolhi um. Apaixonei-me por um vestido jeans, Valentino, com algumas manchas. Ele é completamente lindo.

Assim que mandei uma foto para Urbana, ela mandou-me diretamente a foto de um Jimmy Choo. Montei o look com a minha mente e já consegui ama-lo.

-Temos que passar na Urbana. Quer pegar algo na sua casa antes de irmos pra minha? Ai vamos no caminho...

-Peguei tudo quando foi me buscar. –Apontou com o polegar sobre o ombro e continuou comendo o canto da unha.

-Megan! – A repreendo.

-Relaxa, vou fazer as unhas assim que chegar.

-Pensei que iria pegar uma piscina comigo, traíra.

-Eu vou... Ah, eu dou um jeito.

π

Bruno disse que seria algo discreto, apenas nós quatro. Falou que não queria muita mídia em seu pé por enquanto, que estava querendo paz para relaxar. Claro, eu entendi o seu lado, mas minha cabeça ainda martelava sobre aquilo ser um encontro duplo e ele querer discrição para não me assustar.

-Ele parece ser bem mais interessante do que Bruno dizia. – Megan escreveu em seu celular e mostrou pra mim.

Realmente. Achei que ele seria apenas mais um dos amigos de Bruno, ou um daqueles chatos que vivem presos nos seus mundos ricos. Mas o cara falou de tudo, e isso que ainda nem iniciamos nosso “encontro oficial”. Ele estava interessado em saber também, não só em falar.

Encantador.

Nós fomos a um restaurante numa ala mais reservada. O champanhe de entrada foi servido junto com frutos do mar. Nós conversávamos e eu não conseguia deixar de ficar encantada pelo assunto dele.

Acho que estava assim por negação. Talvez não quisesse enfrentar o Bruno. Talvez não quisesse ter que admitir que ele tramou aquilo com segundas intensões.

Eu ainda não estou preparada para ter alguma coisa.

-Acho que o horário apertou um pouco. – Bruno diz ao olhar no seu relógio de pulso. Aquele ouro todo chegava a reluzir. – Temos que terminar e irmos para não perdermos o concerto.

-Claro.

Prontamente estávamos todos servidos e ajeitados. Quando Damien pegou o braço de Megan para conversarem sobre literatura, Bruno cutucou-me de leve e sorriu de canto ao mostrar-me o que eu já tinha visto.

Reparei que ele deixou sua mão à frente da sua barriga, era um sinal para eu encaixar meu braço ali, assim como eles fizeram. Eu sei que pode parecer errado, mas eu pus e quis manter distância.

-Você parece estar com medo de mim. – Comenta.

-Não. – Respondo rápido demais para alguém que não se importaria em responder aquilo. – Porque estaria?

-É a pergunta que eu faria. Porque estaria com medo de mim?

-Eu não estou com medo, Bruno, isso é bobagem. – Balanço a cabeça.

-Ok. Tudo bem.

Eu estava rezando para aquele momento não ser mais estranho do que estava, até que Damien e Megan sentam no banco de trás e eu e Bruno nos da frente. Pois lá estávamos nós um do lado do outro.

Mantive meus olhos em meu celular até chegarmos no local.

Pegamos nossas credenciais e nos alocamos em nosso camarote. O show já iria começar.

Tudo estava tão perfeito. Àquela mulher era mais encantadora e linda pessoalmente do que pela televisão. Sua voz, seu timbre, sua melodia. Ela conseguia por todos os sentimentos certos em cada uma das suas músicas.

Ela reverenciou Bruno, discretamente, quando foi cantar a música do seu novo álbum que tem a colaboração dele.

Não pude deixar de notar o quanto ele ficou feliz com aquilo, o quanto ele se orgulhava de ter ajudado.

Cantei junto com ele, com ela e com todos que estavam ali. Segurei sua mão e deixei meus pensamentos bobos de lado por um momento e concentrei-me apenas em ser uma boa amiga. Claro, depois gravei um pedacinho e mandei para minha mãe, ela ama a Adele.

Nós saímos um pouco depois da multidão toda sair do estádio. Megan e Damien estavam num papo empolgante. Ela realmente gostou dele e eu estou feliz por isso.

-Você nunca me falou a história dessa música. – Digo como quem não quer nada, enquanto ele beberica um copo de whisky.

-É basicamente a mesma história de todas as músicas. – Dá de ombros, com um sorriso amarelo.

-Não é.

-Ela procurou-me para ajuda-la. Já havíamos mantido o contato algumas vezes. Fui pra Londres e passei uma semana. Ela falou que precisava de alguma melancolia no seu CD.

-Não é essa a história toda. – Cerrei meus olhos e ele riu de canto.

-Claro que não. O resto fomos eu e ela construindo aos poucos.

-Bruno!

-Ok. – Ele olhou para os lados como se estivesse preocupado com algo. Suspirou fundo e ficou olhando para o copo. – Eu tinha alguns rabiscos em meu caderno, coisas que não tinham muito nexo. Foi uma parte ruim da minha vida. Ela entrou em contato, nós conversamos horas a fio, então eu me mandei para Londres porque sentia que tinha que mostrar aquilo pra alguém. – Bebeu mais um gole. – Em menos de uma semana eu e ela construímos toda a música. Conversamos sobre nossos trabalhos e eu decidi que aquela música não me pertencia e que seria maravilhosa apenas com ela. Nós testamos com a minha voz, com as nossas vozes e com a dela, e está ai a vencedora. Ela é uma mulher encantadora, uma amiga e tanto, eu apenas a ajudei.

-E ela ajudou você com algo naquela época?

-Não, eu não estava inspirado a fazer nada, apenas besteiras. Era o que eu fazia de melhor.

-Ah. – Fiquei calada por alguns instantes. – Essa música foi...

-Foi escrita quando nós brigamos feio. Naquela época melancólica minha.

-Ah... Bom, de nada.

-Obrigada. – Nós rimos juntos e Damien chega ao seu lado.

-Vamos indo?

-Claro. – Levanto-me da cadeira. – O show acabou há tempos.

-Nos perdemos em assuntos. – Megan riu. – Mas não vai faltar oportunidade para conversarmos.

-Com certeza não. – Ele sorri pra ela.

Bruno e eu nos juntamos e saímos comentando sobre os dois. Por alguns momentos eu esqueci que aquilo poderia ser uma armação pra ele passar um tempo comigo como casal. Ou talvez não tenha nada a ver o que eu pensei e ele apenas quisesse que Megan se desse bem, já que os dois criaram uma amizade legal.

Enfim. Não quis perder mais tempo com aquilo.

-Esqueci que Lana não estaria em casa essa noite. – Fui voltando do corredor onde estava indo direto ao seu quarto.

-Pois é. – Ele suspirou e colocou a mão em um dos seus bolsos. – Cansada demais para ver um bom filme?

-Bruno...

-Eleanor!

Olhei em seus olhos. Não quis que aquilo fosse chato. Estendi minha mão pra ele.

-Você faz a pipoca. Eu nunca nego um bom filme.