terça-feira, 2 de junho de 2015

Capítulo 9


Eram altas horas da madrugada, meu sono já estava alto, quando ouço gritos pela casa e Bruno batendo na porta, como doido. Levantei da cama num grande surto, porque ou ela está com as contrações, ou aconteceu algo pior, Deus nos livre.

-Oi. - Abri a porta e Bruno estava branco, pálido.

-Diana está gemendo na sala, diz que está doendo demais e fica se contorcendo.

-Bruno, ela está com contrações. - Puxo um casaquinho do cabeiro e saio o vestindo. - Verificou a temperatura dela?

-Não, pra que? Tenho até medo de chegar perto dela... - Ouvimos seu grito alto e a olho encolhida no sofá. - Olha isso. - Ele passou a mão na cabeça.

-Vá se arrumar. Pegue tudo que arrumamos, a bolsa da bebê, e o que mais precisar.

-Quer algo?

-Vá rápido Bruno, deixa que de mim eu cuido depois.

-Ok.

Diana segura minha mão, dizendo que está doendo e que sente algo queimando dentro de si, parecendo que seus ossos estão à beira de quebrar. Disse para ela manter a calma e apenas se manter firme e manter o bebê dentro dela, pois já iríamos sair. Peguei o telefone com a outra mão e disquei o número das emergências, pedi número de táxis próximos de mim e a ligação retornou para o número. Pedi que o homem viesse com urgência.

Ela estava morando aqui em casa, praticamente, desde que completou oito meses. Bruno ficou com medo que ela resolvesse sumir, ou simplesmente não se alimentar corretamente, e afins, então pediu que ela ficasse aqui e eu que não iria negar, era maravilhoso estar em contato com aquele pequeno ser todos os dias antes de dormir. Ela já se meche bastante na barriga quando falamos com ela, e eu sei que ela entende e sabe quem a ama. Os pais de Bruno irão vir semana que vem para a cidade, mas com o que está ocorrendo, acho que virão essa semana mesmo. Suas irmãs irão vir junto, e meus pais apenas orando e dizendo que é uma benção. Meus avós já se prontificaram em dizer que o que precisar, podemos pedir à eles.

Ganhamos muitas roupinhas, no meu serviço mesmo meu chefe deu algumas coisinhas. Minha avó comprou um berço, meu avô está ajudando com fraldas, e Phil e Urbana ajudando sempre no que podem, assim como Caleb e Megan. Estão todos apoiando o Bruno da forma que conseguem, e já o tranquilizando. Na realidade ele não tem mais nada a temer, tudo está dando certo de uns tempos pra cá. E espero que assim continue.

-Eleanor, eu não aguento MAIS. - Gritou com força, fechando os olhos bem forte.

-Segura um pouquinho mais. - Levantei e estendi a mão pra ela. - Vai ter que se levantar agora.

-Não dá.

-Dá sim, faz um esforço. - Bruno estava cheio de coisas, sacolas e bolsas, até as coisas de Diana. - Vamos, Di. Eu sei que consegue.

Com um pouco mais de esforço e tempo, ela levantou. Saímos porta a fora fazendo o taxista abrir a porta de trás com rapidez e deixando pronto para que ela entrasse. Pedi que Diana respirasse fundo várias vezes, para controlar a dor. Sentei ao seu lado enquanto Bruno foi na frente. Segurei a sua mão o trajeto todo, o que lembro de quando estava indo para o aeroporto, uma das últimas lembranças que tenho do Kai, quando ele segurou fortemente minha mão no carro e me aconchegou no seu colo. Não tinha ideia do que ele iria me causar depois, não pensei que a saudades dele seria tão grande como foi, a ponto de lembrar dele 6 anos depois.

O táxi estacionou. Bruno pagou o moço que me ajudava a tirar Diana do carro enquanto ia atrás de uma cadeira de rodas. Ela reclamava mais de dor, mais seguida.

-Isso é horrível. - Diz chorosamente. Diana suava, e não era pouco, o suor escorria por seu rosto e até seu cabelo já estava molhando.

-Bruno, vá na frente e faça o boletim dela.

-Ok.

Coitado, eu sei que ele estava mais perdido que eu. Aquela noite de junho estava ficando tensa. Junho! Agora que pensei algo. Ela é meu presente de aniversário, um pouquinho atrasado, mas é. Minha princesa. Não sei se é bem egoísmo isso, mas ela é meu bebê, eu estou ao seu lado tanto quanto seu pai e a pseudo-mãe que a carrega. Ela é minha também, eu sinto ela. Sorri, tão feliz quanto antes. A porta do hospital se afastou quando chegamos perto, entrei recepção a dentro onde já tinha um paramédico vindo ao meu encontro.

-A bolsa estourou. - Só consigo ouvir isso antes de mais um grito dela.

-Agora é comigo, senhora. - O homem pegou a cadeira e arrastou para dentro.

Levei a mão ao peito e fiz o sinal da cruz. Seja o que Deus quiser, e ele há de querer somente o bom, mas não custa pedir mais uma vez por proteção. Bruno pegou minha mão livre e me puxou para sentar ao seu lado.

-Calma, você parece mais nervosa que eu. - Tirou uma mecha do meu cabelo do rosto.

-Medo. - Ri, de nervoso.

-Eu vou ser pai dentro de algum curto tempo.

-E eu serei uma madrinha com um presente de aniversário muito grande.

-Verdade! Agora vai ser mais babona do que antes?

-Você sabe que sim.

Bruno já tinha ligado, pelo telefone do hospital, para algumas pessoas, sua família, nossos amigos, e o médico já tinha vindo avisar que ela, Diana, não queria que ninguém assistisse o parto, mas mesmo assim veio perguntar se o pai da criança queria. Achei bonito Bruno não querer entrar para respeitar ela.

-Bruno, minha mão está virando um pão sovado, de tanto que está amassando. - Reclamei para ele, que quase quebrava meus ossos das mãos.

-Me desculpa, mas eu não sei onde por meu nervosismo.

-Que tal pegar isso? - Entrego minha agenda pra ele, já que ele pegou minha bolsa pra mim. - E escrever alguma coisa. O que está sentindo. Expressa isso. Você sabe como fazer isso.

-Eu sei, mas não sei se consigo fazer uma música.

-Anota! Faz pequenas lembranças e lembretes, depois junta tudo e tenta.

-Talvez seja uma boa ideia. - Ele toma a agenda de minhas mãos. - Obrigada.

-De nada.

Não sei quanto tempo mais ficamos ali, no silêncio. Bruno escrevia algumas palavras, mas não sei se é algo que dê para uma música, nem que seja futuramente, porque pelo que espiei, nada está combinando com nada. A cada médico que passava, a ansiedade aumentava. Mandaram-nos para o quarto andar, andar do neo natal, pós parto, berçário e etc. Subimos pelo elevador, e nos sentamos o mais próximo possível do pós parto. Se o hospital já estava vazio lá embaixo, aqui em cima está um pouquinho pior. Só estávamos eu, Bruno e mais três pessoas, um casal e uma senhora de meia idade.

-Já preparamos ela, pode receber visitas. - Um homem possante, alto, com voz grossa, avisa para a senhora de meia idade, que esboça um sorriso e levanta da cadeira.

-Com licença! - Chamo a atenção do médico. - Como posso saber se uma pessoa já saiu da sala de parto?

-Esperando vir lhe falar.

A grosseria dele fez com que Bruno risse, pelo menos isso, já que ele estava com aquela apreensão. Sentei-me no banco novamente, abrindo minha bolsa para olhar as coisas que tinham ali. Definitivamente eu não tinha mais nada pra fazer.

Mais uns vinte minutos e um obstetra apareceu, já dizendo que o parto tinha ocorrido maravilhosamente bem e que agora iriam preparar a criança e ela para receber visitas. Bruno estava mais do que alegre, parece que finalmente aquele peso que ele estava nas costas havia sumido, dando lugar para a alegria e o sorriso sincero.

-Obrigada por aguentar essa comigo. - Me abraçou de lado.

-Sabe que eu faço de tudo por você.

-Sei, e não poderia ser mais grato à isso.

Bruno Pov's

Depois de tempos esperando, de tempos ficando nervoso e balançando a perna como doido, o médico avisa que tudo ocorreu bem com ela e com a bebê e que em minutos poderia receber visitas. Estou sendo um pouco chato, hipócrita, mas não queria ver Diana, nem estava pensando nela. Queria minha filha, meu pequeno ser, minha pequena princesa.

Escolhi ver minha filha primeiro, e ao adentrar aquela sala cheia de bebês em suas encubadoras, seus bercinhos de plásticos bem forrados para o conforto. O choro de alguns, e o sono profundo de outros. Uns 6 tinham ali. Quatro meninos, e duas meninas. Uma delas é a minha. A enfermeira me guiou até onde ela estava e assim vi minha filha pela primeira vez. Pele avermelhada, até um pouco roxa, rostinho redondinho e corpo encolhido, onde fazia pequenos movimentos. Mexia a boquinha e mal abria os olhos. A enfermeira disse que ela estava dormindo, mas como ainda não tinha se acostumado com a atmosfera fora da barriga, estava de olhos entreabertos. Bastante cabelo em sua cabeça, preto, e os lábios bem desenhados como os meus.

-Você tem cinco minutos, tenho que levar ela para mamar e fazer alguns exames.

-Ok.

Queria poder encostar no meu bebê, mas tinha medo de acontecer algo a ela, tão frágil. A manta rosinha que a envolvia estava se abrindo, por ela se mexer. Mexendo-se bastante como fazia na barriga de Diana.

-Oi, filha. - Me inclino um pouquinho, sentindo aquela lágrima fujona sair do meu olho. - Sou eu, seu pai. - Queria conseguir dizer mais alguma coisa, mas não sabia o que dizer. Meu peito estava totalmente contorcido em alegrias, e as palavras queriam pular, mas simplesmente não saia nada. E as lágrimas, essas saiam livremente, mas como disse Lea pra mim: "Lágrimas são lembranças de que você está vivo". Eu estou, e estou sentindo uma das maiores alegrias que poderia sentir. - Assim que você mamar, fazer os exames, estarei esperando para te segurar. - Ela mexe a boquinha, colocando a pequena língua pra fora. Ri, de forma boba.

Quando retornei ao corredor, disse para Lea com riqueza de detalhes o jeito que minha filha é. Disse que mesmo não sabendo muito bem a quem ela puxará, seus lábios já são parecidos com os meus. Ela vai ser minha princesa.

-Vá ver a Diana! - Eleanor toca em meu ombro. - Ela deve estar precisando ver alguém.

-Não sei se é um bom momento. - Queria qualquer desculpa para trocar a vez de ver ela, por ver minha pequena filha.

-Vá, talvez encontre sua filha mamando pela primeira vez.

Isso me encorajou a entrar no quarto de Diana, mas ela ainda não estava nos braços dela.

-Oi. Não trouxe balões, acho que não tenho dinheiro pra isso e nem lugar para comprar. - Coloquei as mãos no bolso, e disse tentando arrancar um sorriso dela.

-Oi, Bruno.

-Está tudo bem?

-Eu estou aberta, sentindo uma dor de cabeça horrível... Eu não estou bem. - Revirou os olhos de maneira que nunca vi ela fazendo.

Fiquei ali por alguns momentos, quase num completo silêncio. Em nenhum momento ela perguntou por nossa filha, apenas dizia que estava com dor de cabeça e queria silêncio. Quando pensei em sair dali e ir ficar com Lea, a mesma enfermeira entra no quarto trazendo minha filha naquele "berço" em que ela estava.

-Mamãe, é hora de dar o primeiro mama. - Diz, bem delicada ao pegar minha filha no colo, que ainda dormia.

-Ah. - Diana fica olhando para a enfermeira, que entregava nossa filha pra ela pegar no colo.

-Diana. Pegue nossa filha. - Toco na sua perna para ela sair do transe, mas ela apenas respirava, olhando para nosso pequeno embrulho nas mãos da mulher.

-Não. - Disse um pouco mais alto, com a voz mais grave. Minha filha se mexe, provavelmente se assustando do grito dela.

-Pegue ela, é uma sensação maravilhosa. Ela está ansiosa para conhecer o colo da mamãe.

-Eu não irei encostar nela! - Gritou, fazendo meu bebê se mexer mais uma vez, mas agora chorando, por acordar no susto. - Tira essa criança daqui. - Pôs as mãos na cabeça. - Tira!

-Calma, Diana. - Passo a mão em seu braço.

-Bruno, tira essa criatura daqui, faz ela parar de chorar, pelo amor de Deus. - Puxou os cabelos da própria cabeça com muita força, ficando vermelha por gritar.

A enfermeira balança minha filha, tentando fazer-la parar de chorar, enquanto ia para a porta gritar para outra enfermeira ajudar. Diana estava descontrolada, berrava dizendo que o choro "daquela criatura" à incomodava. Que era para tirar nossa filha de perto dela. As enfermeiras correram para segura-la e seda-la, e eu permaneci ali, abismado. Diana não faz o tipo estressada, mesmo quando aturou noites e noites chorando de dor, ela aguentou firme, se manteve tranquila, e às vezes até conversava com o bebê, o que era uma raridade. A ver dessa forma, agressiva, gritando e berrando, com nossa pequena princesa, me deixou com raiva. Nunca tive um sentimento por ela, além daquele de "uma conhecida minha que carrega minha filha", ou simplesmente "a barriga que abriga minha joia". Era assim que eu via ela, mas agora tudo o de pouco que eu cultivava dela tinha ido embora.

Uma das mulheres pediu que eu me retirasse e eu voltei para Lea, retornando a dizer sobre tudo que tinha acontecido lá dentro.

-Ouvimos alguns gritos, mas não sabia que eram dela. - Discretamente fala.

-Ela está pirada. - Passo a mão sobre a testa. - Vamos descer para comer algo, por favor?

-Vamos, claro.

Comemos algo de café da manhã na cantina do hospital, e retornamos para o andar onde ela estava. Uma mulher veio me dizer que o médico queria falar comigo, e que a hora que pudesse vê-lo, ele iria me receber. Pedi que Lea entrasse comigo e fomos até o consultório.

-Olá, sou o doutor James. - Apertou minha mão e em seguida a de Lea. - Você é o pai da criança, certo?

-Sim, sou.

-Bom, ela já tem um nome?

-Ainda não, estamos pensando bem em qual será.

-Ok, então nós a tratamos como Baby Diana. - Ele pegou uns papéis. - Obtemos alguns exames da bebê, como o teste dos olhos, do ouvido, quadril, coração, e está tudo em ordem. Ainda terá que permanecer no hospital até amanhã para checarmos mais algumas coisas e esperarmos completar quarenta e oito horas para fazermos o teste do pezinho, mas pode ficar tranquilo, sua filha está cheia de saúde.

-Que notícia maravilhosa.

-E quando poderei vê-la? - Pergunta Lea.

-Creio que daqui umas três horas.

-E sobre a Diana, e aquela reação dela? - Estava curioso para saber sobre aquilo.

-O que a Diana tem é depressão pós parto, e ela teve uma crise aguda. Geralmente é um pouco raro pra quem não tem histórico, ou quem não sofreu durante a gravidez, mas quando puxei seu histórico logo vi que sua mãe sofreu de depressão quando era jovem, isso pode ser hereditário, então irá passar logo. Já demos os remédios corretos, ela está tranquila agora e sedada.

-Doutor, ela me queixou de dores quando eu estava no quarto com ela. Parecia que nada estava bom.

-Ela está com depressão pós parto, como disse, então isso é completamente normal. Ela irá ter crises de choros, cansaço, não quer pegar a filha no colo, está irritadiça, temos que dar esse tempo à ela.

-Quando isso passará?

-Creio que dentro de uma semana, ou menos, dependendo de como ela agirá com os comprimidos e a terapia uma vez por dia.

 

Falei desde o inicio que teria partes mais corridas, mas agora elas acabaram. Com o nascimento da Lana, tudo mudará. E espero que vocês gostem, e estejam gostando. Faço por vocês e para vocês. 
Beijos tchutchucas
PS: Essa foto é de uma recém nascida com 7 dias de vida. Não achei outra mais bonitinha e que tivesse qualidade para representar, então foi essa mesmo :p

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