sexta-feira, 24 de junho de 2016

Capítulo 72


Há uma luz no final de cada túnel, você grita
Porque está tão longe aí dentro
Como se nunca fosse sair
Esses erros que você cometeu, vai cometê-los de novo
Se continuar persistindo
(Breathe - Anna Nalick)


A casa estava num completo silêncio quando entrei. Deveriam já estar todos dormindo e a parte mais difícil seria entrar e deitar ao lado do Richard sem o acordar. Fecho a porta da frente, passando a chave e largando-a no chaveiro ao lado. O sofá estava desarrumado e de longe eu enxerguei louça pra lavar na pia. Mas nunca que ele está achando que eu vou lavar a louça que eles sujaram.

Entro no quarto e ele está esparramado, virado de costas para a porta. Largo a mochila sob o cabideiro e tiro meu celular de dentro, deixando todo o resto ali para amanhã arrumar. Coloco meu pijama de soft, prendo meu cabelo num coque e deito na cama ao lado dele.

-Foi bom o passeio? – Assustei-me com a sua voz.

-Estava sim. Não sabia que estava acordado. – Viro-me para o seu lado.

-Não consegui dormir ainda, a comida pesou no estômago.

-Precisa descansar, está saindo direto desde sexta e segunda já terá aula.

-Vou ter saída de campo segunda.

-Principalmente por isso. – Passo a mão no seu cabelo. Ele parecia ser ali aquele mesmo que eu me apaixonei, sem essas frescuras de cor de pele, de filhos e de família tradicional. – Dorme pra descansar.

-Estava com o Bruno?

-Sim, saímos eu, ele, a Tiara e a Lana.

-Meus pais ficaram perguntando de você. – Sua voz já estava mais abafada de sono.

-Peço desculpas, mas não queria interromper o momento de vocês.

-Você que sabe.

-Boa noite.

-Boa noite, Lea.

Viro de costas pra ele e pego meu celular, deixando com pouco brilho na tela e revirando por tudo. Respondi as mensagens das meninas, da minha mãe, da minha irmã e então a do Bruno.

“Não sabia que iria estar acordada.
O que acha de sairmos amanhã?
Quero levar a Lana para passear um pouco. Preciso sair também.”

“Já chamou a Tiara? Acho que ela vai gostar de sair amanhã.
E é claro que eu topo sair.
Qual é o roteiro?”

“Talvez no observatório?! Fomos lá quando ela era muito pequena, acho que agora ela vai saber melhor.
Aliás, eu adorei cada minuto do dia de hoje.”

“Eu também adorei. J
Vamos ao observatório então. Boa noite, Bruno. Tenha bons sonhos.”

Largo meu celular ao meu lado, bloqueio a tela e então fecho os olhos para enfim descansar depois de um longo dia.

π

Acordei com meu celular vibrando na mesinha. Pego-o e desligo a chamada do Bruno, entro no app e respondo suas mensagens dizendo que estará aqui em meia hora. Tenho meia hora pra me arrumar.

Levanto tomando todo o cuidado do mundo para Richard não acordar, mas ele roncava como quem está com um sono pesado demais. Visto uma roupa mais simples. Um macacão de pernas, sem braço, na cor preta e meus all star, pus algumas coisas numa bolsa qualquer e puxei minha jaqueta do armário. A única coisa que fiz em meu rosto foi passar um rímel e um batom mais nude.

Na hora em que pego o celular, Bruno diz que está esperando. Abro a porta do quarto e Richard faz um barulho, quando me viro pra fechar, já fora do quarto, ele está olhando pra mim.

-Não sabia que iria sair.

-Vou passear com a Lana. Combinei ontem e esqueci de te dizer.

-Poxa, Lea! – Ele senta na cama. – E meus pais? Eles vão embora hoje.

-Eu estarei aqui daqui a pouco.

-Não, você não estará, eu conheço você. O voo deles é a uma da tarde, íamos sair para almoçar e depois o levaríamos no aeroporto.

-Tiara trouxe meu carro, pode usar ele.

-Já está alegando que não virá.

-Richard!

-Tchau, Lea. Eles não podem esperar muito por você.

Fechei a porta sem querer pensar que ele estava magoado, porque quem está ainda verdadeiramente magoada sou eu. Sou eu quem não consegue pensar que eles estão embaixo do meu teto e me odiando ao mesmo tempo. Sou eu quem teve que aturar ouvir aquelas merdas. Não sentirei pena de não leva-los no aeroporto e nem me despedir.

A porta do carro já estava entreaberta.

-Bom dia. – Sorri para eles. – Bom dia, minha princesa. – Apertei a mão dela, virando-me pra trás.

-Bom dia. – Eles disseram quase num coro.

-Vamos tomar um café antes de irmos. Ok?

-Ok. – Respondi.

-Me largue em casa depois, Bruno. – Tiara estava prendendo seus cabelos, com cara de cansada.

-O que houve?

-Não dormi a noite toda, muita dor de cabeça. Só quero a minha cama, minha casa, e mais nada.

-A tia tá um saco. – Lana diz, revirando seus olhos.

-Eu só não bato em você porque tenho testemunhas oculares.

-Você nunca bate em mim. – Ela oferece a língua para Tiara, que a pega de lado e brinca com cócegas em sua barriga.

Nós passamos em uma padaria, eu e Tiara descemos para pegar os cafés e algumas rosquinhas fofinhas e açucaradas para comermos no carro mesmo. Ela foi me falando que Bruno chegou depois que me levou embora e foi diretamente para o estúdio e ali ficou por um bom tempo. Era bom saber que ele teve alguma inspiração a mais.

-Tchau, Yara. – Dei um beijo em sua bochecha.

Nós seguimos com nossa viagem, não muito longe dali.

- Lana, você sabia que nós fomos nesse observatório quando você era só uma bebezinha?

- Eu não lembro, pai. - Assoprou seus cachinhos, que caiam por seu rosto. - Bebezinha tipo a Mila?

- Bebezinha tipo a Mila. - Bruno confirmou. - Você se lembra, Lea?

- Lembro. A gente brigou, não foi?

- Acho que foi, mas deve ter sido uma daquelas besteiras.

- É.

Olho pelo retrovisor, observando minha pequena, que já está gigante. De rabo de olho, encaro Bruno. Meu amigo está com um sorriso idiota na cara, o que me faz abrir um parecido.

- O que foi?

- Nada. - Ele gargalha.

- Bruno, te conheço. - Tento me manter séria, mas acabo dando uma pequena risada. - Não vai dizer o que foi?

- Se eu disser, você vai querer me dar uns tapas. - Ele mordeu os lábios, tentando esconder o sorriso. Não deu muito certo.

- Vamos, desembucha.

- Ah, Lea... – Ele encara sua filha rapidamente pelo retrovisor. - Estava lembrando das coisas que a gente costumava fazer naquela época.

Dei um tapa de leve em seu braço. Ele deu uma gargalhada.

- Bons tempos, huh?

-Foram ótimos tempos. – Me sentia culpada por passar todos os bons momentos na cabeça, mas não bons momentos apenas como bons amigos, e sim todos os bons momentos como amantes que tivemos. Eu lembro muito bem quando visitamos esse observatório, quando ele parou atrás de mim, pondo as mãos em minha cintura e me segurando de um jeito que eu não queria que ele me soltasse, nunca mais. Quando nós subimos caminhando, sem perder o fôlego, apostando quem chegaria primeiro.

Eu lembro de todos esses detalhes, e quando encaro seu rosto pelo canto de olho, seu sorriso me diz que ele está viajando naqueles bons momentos também. Ele não deveria estar pensando nisso, assim como eu também não. Nós somos outros na pele dos mesmos, temos outras prioridades. Um dia eu vou me casar, ele também, ele será meu padrinho de casamento, padrinho dos meus filhos, e eu definitivamente não posso estar pensando em quando nós nos despíamos e transávamos como se não houvesse um amanhã.

-A Tiara comentou comigo, quando nós não estávamos nos falando, que a Cindia convidou a Mia para ser madrinha da Mila, é sério isso?

-Ah. – Bruno solta uma gargalhada. – Eu sou o padrinho dela, mas não, a Mia não é e a Cindia nem quis convida-la. Minha família não é tão receptiva com ela assim.

-Também não é da noite para o dia...

-Vou fazer dois anos com ela, Lea. – Ele ri, parando o carro na sinaleira.

-Ninguém gosta dela, nem eu. – Lana intromete-se em nosso assunto.

-Assunto de adulto a senhorita não pode opinar, ouviu? – Bruno a olha pelo retrovisor.

-Desculpa, pai. Mas só queria dizer que eu não gosto dela.

-Você vai gostar dela um dia, Lana. – Era bom saber que minha pequena não gostava dela. Me senti melhor por dentro.

-É, é uma questão de tempo.

-Isso!

Ao chegarmos no observatório, estacionamos o carro e pegamos o que tínhamos de pegar. O resto faríamos a pé e o dia era bem longo. Lana colocou um chapéu, que provavelmente seu pai deu pra ela, porque era bem parecido com aqueles milhares de Fedoras que ele tem, e Bruno colocou um boné.

-Não gosto dessa coisa. – Digo.

-Quem está usando?

-Grosso! – Bato no seu braço.

Subimos metade e Bruno já estava pedindo pra parar um pouquinho para respirarmos. Lana deitou-se em cima dele de tanto chama-lo de gordo, que ele precisava se exercitar mais e que estava ficando pra trás. Bruno correu atrás dela por um bom pedaço e aí que eu peguei meu celular para tirar foto dos dois. Eu amo pega-los nesses momentos desprevenidos, eles ficam perfeitos.

-Papai! Olha como é alto aqui. – Lana estava próxima ao parapeito.

-Cuidado, meu bem. – O costume de achar que ela é pequena, que ainda não sabe os riscos, é grande demais pra lidar tão rapidamente quanto o seu crescimento.

-Olha isso, mamãe. – Ela aponta.

-Olha aqui então, L. – Bruno a chama para um dos telescópios. Olho para nossa volta e já percebo que algumas pessoas o reconhecem, possivelmente turistas que ainda não estão acostumados a darem de cara com artistas por essas voltas.

-Mãe, vem cá. – Ela me chama, fazendo gestos com as mãos, sem tirar seus olhos do telescópio.

-Olhe, Lea. – Bruno coloca sua mão em minhas costas. – Tudo isso que o sol toca é nosso reino.

Gargalho alto com a referência dele e seguro a sua mão, sem tirar os olhos daquela vista.

-Se as pessoas soubessem as tantas belezas que esse mundo guarda, será que elas seriam menos egoístas?

-Acho que não. – Ele dá de ombro.

-Bem... Mas e aquela parte escura lá? – Largo sua mão para apontar um lugar qualquer.

-É nosso reino também, anta. Deve ter dado alguma queda de luz.

Ríamos como crianças, nos divertíamos como há tempos não fazíamos. Entramos ao planetário e olhamos uma palestra, que deve ser o mesmo texto que vimos há anos atrás. Pegamos algumas coisinhas no café, comemos e voltamos ao museu que há ali. Muitas coisas sobre astrologia, sobre astros, curiosidades... Tantas coisas que me despertavam interesse.

-Se irmos embora daqui a pouco, podemos comprar algumas coisinhas e fazemos um pique nique. O que acham?

-Ótima ideia. – Concordo com ele.

Desci do carro junto com a Lana para comprar algumas coisas num supermercado. Compramos até uma cesta para fazermos um belo pique nique, que de acordo com ela, deveria ser como nas histórias. Comprei algumas borrachinhas para cabelo e antes de deixarmos o supermercado, passamos no banheiro e fizemos chiquinhas iguais.

-Estamos lindas.

-Só faltou uma coisa em você. – Peguei meu batom na bolsa e passei de leve em seus lábios. – Agora sim.

Pedimos que ele abrisse o porta malas e colocamos as coisas por lá.

-Posso saber o que é isso? – Ele toca rapidamente em nossos cabelos.

-Estamos lindas, huh?

-Ah sim, parece que eu estou saindo com duas personagens de animes japoneses.

-Não é pra tanto. – Ri dele. – Vamos lá?

-Claro.

Tiramos fotos no carro, tiramos fotos arrumando nosso local de pique nique, tiramos fotos de tudo quanto era jeito. Eu tinha esquecido todos meus problemas, tanto no serviço quanto com o Richard, tinha esquecido o que passei ontem, aquele episódio desnecessário com os pais dele, até ver uma mensagem dele em meu celular, dizendo que estava com Caleb, indo para o shopping e que deveria chegar um pouco mais tarde em casa.

Nem respondi, pois também chegaria tarde em casa e talvez até mais tarde que ela.

-Vou ir lá. – Lana apontou para o parquinho.

-Tudo bem, se cuide.

-Às vezes eu perco a noção do tempo e do quanto passamos para estarmos aqui.

-Diz isso com um ar de nostalgia, Bruno. Os tempos foram ruins e bons, mas foram passados. Daqui pra frente só sopraram boas marés.

-Que maré de positividade. – Ele ri. – Mas olha a Lana... Quem diria que eu daria bem nesse negócio de ser pai? Quem diria que eu seria pai tão cedo.

-Quem conhecia sua fama antes, sabia que logo, logo você seria pai.

-Idiota. – Nós rimos.

-Deve ter mais uns dois perdidos por aí, sim?

-Só se estão bem escondidos e escaparam muito bem da segurança.

-Nunca se sabe.

-Mas e você, Lea... Sei que antes não queria filhos tão cedo, nós falávamos disso, mas algo mudou nesse ano que não nos falamos?

-Hmmm... Acho que não muito. Mas eu pretendo ter filhos, daqui uns dois anos, talvez.

-É um bom objetivo.

-Imagina a Lana com uma irmã... – Ele me olhou, parecendo estar com um ponto de interrogação no rosto com o que acabei de dizer. – Ah, digo... Irmã porque eu sou meio que a mãe dela, sim? Quer dizer... Minha filha será meia irmã dela, sim? Ah, vamos lá, Bruno, você me entendeu. – Reviro os olhos, minhas bochechas queimaram de vergonha.

-Sim, eu entendi. Mas penso em dar um irmão pra ela, talvez um pouco mais pra frente.

-É um bom objetivo.

-Use suas próprias palavras, Eleanor.

-Me obrigue.

Estava gostando daquele tempo, de voltarmos a ser praticamente como éramos antes. Talvez esse tempo que ficamos sem nos falar tenha sido crucial para nós aprendermos que no fim do dia, o que conta é nossa amizade.


Bruno Pov’s


Eu vinha cantando músicas com minha filha, enquanto ela intercalava em dizer o quanto amou o dia e folgar em mim.

-Você está ficando abusada, Lana. – Fechei a porta do carro e ela me esperou para entrarmos juntos.

-Tenho um colega na escola, o Josh, ele também fica pra trás nas corridas, porque ele é gordinho. Mas não tem nada demais em ter barriga, papai.

-Você está me chamando de gordo pela quinquagésima vez hoje, Lana. Eu deveria deixar você de castigo. – Mas eu estava adorando aquilo.

-Não, deveria não. – Ela sorri, colocando a mão na maçaneta.

-Então vamos mocinha, está tarde, você ainda tem que tomar banho porque amanhã tem aula.

-E balé também.

-Isso, e balé também. Mr. Millers não vai adorar ver você bocejando na aula dela. – Quando me dou por conta que iria ligar a luz da sala, percebo que ela já estava ligada. – Acho que o papai...

-Chegaram! – Mia vem com uma caneca em mãos. – Vim pra cá assim que desembarquei.

-Oi, Mia.

-Oi, Lana. – Ela dá um sorriso amarelado para minha filha, que pega sua mochila e vai para o seu quarto. – Oi, papai. – Segurou-me pela gola da camisa e deu-me um selinho nada gentil.

-Não sabia que viria hoje.

-Estraguei algo.

-Não. – Balanço a cabeça. – Só fiquei surpreso, e confesso que levei um susto.

-Não se assuste. – Ela senta ao lado da bolsa e liga a televisão. – Por onde andou hoje?

-Fomos ao observatório.

-E ontem? Tentei ligar pra você, mas não dava pra completar a ligação.

-Meu celular perdeu a bateria quando estávamos saindo para tomar café. Dei um passeio para aproveitar o tempo com a Lana. Como foi por lá?

-Foi bom, confesso que seria melhor ter você no meu quarto a noite, mas foi bom.

-Mmm, Mia. Preciso tomar um banho, me certificar que Lana está dormindo e ir dormir também. Vai ficar essa noite?

-Claro. Vá lá.

Fui para o meu banho e esqueci que Mia estava ali de volta e foquei somente no final de semana maravilhoso que tive. Por mais que eu fiquei distante todo esse tempo, onde a gente nem olhava um pra cara do outro, foi como se nunca tivéssemos nos distanciados, e eu amei isso. Amei a forma com que me senti completo de maneira especial.

Saí do banho, com a roupa vestida e fui diretamente no quarto da Lana. Ela estava se tapando, somente com a luz do abajur.

-Boa noite, Lana. Até amanhã.

-Boa noite, papai.

Fechei a porta e fui para meu quarto. Mia estava sentada na ponta da cama, com meu celular em mãos e a televisão ligada num canal qualquer. Fechei a porta e tomei meu celular da mão dela.

-Que diabos...

-Porque não me disse que o passeio era com a Lea? Esperava que eu fosse xingar você?

-O que está tentando fazer? Foi com ela, a propósito, foi muito bom. Aproveitamos muito.

-Ah, claro. Lá vem a pobrezinha se enfiar na minha família de novo. Escuta, Bruno. Essa mulher quer apenas seu dinheiro, você não vê isso? Onde ela estava quando você terminou a turnê? Ela quer pegar a sua fama junto e você não percebe isso.

-Mia, cala a boca. Você está falando merda atrás de merda. Conheço a Lea há muitos anos, mais do que você imagina. Sei quando alguém está se aproveitando de mim, e não é ela.

-Está insinuando algo, Bruno?

-Não, Mia. Não estou.

-Pois parece.

-Parece que você está com ciúmes também!

-Eu não estou com ciúmes da pobrezinha. Eu só quero me certificar que você é meu.

-Está insegura de si, Mia? – Dei uma risada para provoca-la mais. – Coloque mais força nesse taco, jogadora.

-Eu entendi... Você nunca pergunta se eu vou dormir aqui, pois sabe que sempre que passa das dez da noite, eu fico. E ultimamente nem precisa passar desse horário, por que vivo mais aqui do que no meu apartamento. Você iria chamar essa mulher pra cá, Bruno?

-Melissa, chega! – Passo a mão pelo cabelo. Antes eu estava me divertindo com a discussão de ciúmes, mas ela está levando a sério demais.

-Melissa não, Mia! É Mia, Bruno. Sua namorada, e não aquela carniça.

-Se é minha namorada, como diz, honre seu título e respeite meus amigos. Principalmente a Lea, nunca ouse a falar dela.

-O que mudou? Há um ano atrás você mesmo falava dela.

-Nunca falei nada de mentiras sobre ela, nunca pus apelidos nojentos. Você está insultando-a e ela nem está aqui pra se defender.

-Então você defende ela, porque está transando com ela novamente, sim?

-Sim, Mia. Estou transando loucamente novamente com a mãe da minha filha e minha melhor amiga. Será que você não entende que as pessoas podem ser amigas sem terem segundas intenções? Ou então vou passar a desconfiar de você e dos seus trabalhos, seus negócios e etc.

-Não tem o que desconfiar de mim, meu amor. – Ela se aproxima.

-Mia... Ainda não passou das dez, dá tempo de você ir embora. O que acha?

-Como? Está me expulsando?

-Eu estou pedindo para que saia da minha casa, pra que eu possa ter um sono tranquilo sem pensar que daqui a pouco irá me estrangular ou algo assim, apenas porque está com raiva.

-Bruno? – Eu olhei pra ela, da mesma forma com que olho sempre, sem expressar nada demais. Ela me mirou, fitou-me de cima a baixo, pegou o celular dela sobre a cama e saiu batendo a porta se falar nada.

Não deu um minuto e ela voltou, pegou sua bolsa e saiu novamente. Eu estava rindo naquela altura da situação, porque não tinha motivos para estar triste ou magoado, ela sentiu ciúmes de mim e da Lea, brigou por isso, mandei ela embora porque não quero estragar toda essa minha felicidade que pode virar alguma forma de inspiração daqui a pouco.

-Foi um longo dia. – Deito-me na cama, pegando meu celular e abrindo onde ela parou de ver.

Uma foto nossa. Lea estava tirando a selfie e eu ao lado de Lana, mais para o fundo. Era só sorrisos, assim como foi nosso dia. Isso estava me fazendo sentir-me mais vivo que nunca.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Capítulo 71



Eu deveria resistir?
Seria um pecado
Se eu não consigo evitar
De me apaixonar por você?
(Can't help falling in love - Elvis Presley)

Você acorda pela manhã, feliz, diga-se de passagem. O que você pensa é que tem uma vida cheia de alegrias pela frente, um namorado, amigos, uma filha e família. Tudo o que um ser humano precisa para ser completamente feliz.

Ou não.

Ou você acorda já pensando que terá de enfrentar mais um dia de trabalho, que hoje ainda não é sexta feira, que você tem amigos com a vida melhor que a sua, que seu namorado passou o tempo todo querendo que você viajasse e levasse sua filha para passear.

Isso é o que aconteceu.

Minha casa estava uma bagunça, eu tinha que ir trabalhar ainda e para completar o dia, os pais de Richard vão vir pra cá à noite. É por isso que ele queria me despachar, como malas trocadas, para que eu não precisasse vê-los e conhece-los. Eu não estava nervosa sobre isso, até ver que desde terça feira ele vem pesquisando trabalhos para ele em Nova Iorque, para que possa dizer aos pais dele que foi chamado de emergência.

Se isso me deixou nervosa, com certeza. Se agora eu quero ver eles? Não tenho tanta certeza assim.

-Vamos lá, tire essa cara amarrada e se anima.

-Não dá. – Reviro os olhos para Tiara que está no FaceTime comigo. – Simplesmente não consigo agir normalmente sabendo que ele não quer que eu conheça seus pais.

-Talvez ele apenas esteja inseguro.

-Ou tenha, sei lá, vergonha de mim. Talvez. – Levo o dedo na boca.

-Você me xinga, dizendo que não devo roer as unhas, e é isso que está fazendo nesse exato momento, Lea?

-Estou tirando a pele do cantinho... – Suspiro fundo. – Eu não quero trabalhar.

-Vá, aproveita que só vai pela tarde mesmo.

-Eu estou arrumando a casa pra pessoas que não querem me conhecer.

-Eles querem Lea!

-Você não sabe!

-E você sabe se eles não querem?

-Não...

-Então, fica quieta.

Desligamos o FaceTime logo após isso, eu precisava limpar a casa, deixar tudo em ordem. A dúvida que mais martela em minha cabeça é o porquê que ele tentou me despachar para longe?

β

11 de Setembro de 2015
(Memorial Day)

Richard tinha ido ao aeroporto para buscar os pais dele e eu aproveitei para combinar com o Bruno de ir buscar a Lana assim que saísse do serviço amanhã. Coloquei uma roupa legal, apresentável, e não muito dona-de-casa, para me apresentar para eles. Não sei como eles são, mas são donos de uma fábrica de sapatos, empresários se vestem muito bem e adoram elegância.

Não que eu tenha que agradar eles, nunca me prendi em agradar alguém, mas somente pela forma que ele tentou evitar esse nosso encontro, fiquei intrigada sobre o que eles irão achar da minha pessoa e não quero que fique possibilidades do meu relacionamento ser estragado.

Checo meu celular, as mensagens das meninas no grupo vindo toda a hora. Ria como doida das coisas que elas falavam. Verifiquei a comida novamente que estava no forno e fui para o meu quarto, seria bom deitar e espairecer a cabeça.

-Lea? – Ouço a voz de Richard da sala. Ajeito minha roupa antes de sair do quarto e toco o celular para o lado da cama.

-Olá. – Anuncio, assim que estou chegando a sala.

Os dois estavam com aparentes sorrisos grandes nos seus rostos, mas quando me viram, talvez a perspectiva tenha diminuído bastante, então seus sorrisos aos poucos foram desaparecendo e dando lugar a sorrisos amarelados.

Seu pai esticou a mão primeiramente.

-Bom conhecer você, Eleanor. – Apertei sua mão.

-Prazer é meu, Sr.

-Senhor não, por favor, me chame de Jason.

-Oh. – Olho para Richard, o nome do seu irmão é Jason também, ele nunca havia me mencionado que seu pai também se chamava assim, já que o trata pelo sobrenome. – A senhora é muito mais bonita do que Richard me falou. – Estico a mão para a mãe dele.

-Muito obrigada. – Disse, um pouco sem jeito. – Bom te conhecer.

-Ótimo. – Sorri, alegremente, dando esperanças que eles passassem a me olhar de forma melhor.

No fim, eu posso estar apenas sendo implicante e nada disso estar acontecendo, pode ser apenas coisa da minha imaginação.

O pai dele é bem diferente do que pensei que era. Tem barba, mas é bem feita, cabelos quase grisalhos, é alto e possuí o corpo bem possante. Já sua mãe é mais parecida com ele. Loira, cabelos bem hidratados e presos em um rabo de cavalo, um corpo mais cheio do que a maioria das mulheres Californianas. Ombros largos, roupas claramente caras e chiques, mãos fortes e olhos compenetrados de cor clara.

Nós nos sentamos na sala, mas minha comida não poderia esperar por muito tempo, então logo levantei para dar privacidade a eles e arrumar a mesa para o jantar.

Minha comida estava com uma cara ótima, e parecia estar saborosa também. Nos sentamos perante a mesa e acompanhei os pais dele em uma pequena oração em agradecimento a comida. Demos o amém e deixei que se servissem primeiro.

Eu e Richard comíamos muito bem, diga-se de passagem, a comida estava boa. É raro ter momentos em que eu me auto elogie. Mas os pais dele não pareciam ter gostado muito, tocavam na comida com o garfo parecendo àquelas coisas manhosas de criança, como Lana tinha com ervilhas e frutos do mar.

Não posso pensar coisas, não posso pensar coisas. Repetia o mantra em minha cabeça diversas vezes. Lavei a louça e deixei que eles ficassem sozinhos para conversar, não iria atrapalha-los. Deveriam estar com muitas saudades.

Fui para o quarto, retirei minha maquiagem e roupa, coloquei uma mais confortável para dormir e chequei o quarto em que eles ficariam dormindo, o quarto da Lana. Pus meu hobby por cima e anunciei que iria dormir.

π

12 de Setembro de 2015

-Hey, minha pequena. – Abro os braços para Lana, que vem em frente de Tiara. – Como você está?

-Oi, mamãe. – Ela respira fundo, afagando-se em meu abraço. – Eu estou bem.

-Que bom, meu amor. – Beijo sua bochecha gordinha. – Casaco novo. De quem ganhou?

-Diz que foi da titia maravilhosa.

-Da Yara.

-Então não foi da titia maravilhosa. – Faço as duas rirem e dou um beijo no rosto da Tiara.

-Onde está o tio Rick?

-Ele está chegando. Os papais dele estão aqui, foram dar uma passeada.

Elas foram entrando e se aconchegando no sofá da sala.

-Como estão as coisas com eles?

-Estranhas. – Digo baixinho para Lana não ouvir. – Só nos vimos ontem à noite e hoje acordei com um bilhete de que eles tinham ido passear pra ver Los Angeles. Estranhei não ter ido junto.

-Estranho mesmo, mas pode não ser nada.

-Claro, ele também tem que ter seu tempo a sós com seus pais. Quais são os planos de hoje?

-Ainda não sei, mas a insuportável da Mia não está em casa, então talvez eu fique lá no Bruno.

-Isso é bom.

Nós conversamos um pouco enquanto Lana tomava seu café e via televisão. Ajeitei as coisas por ali e Tiara logo foi embora. Brinquei com Lana um tempo, de bonecas e médicos, ela tinha delicadeza para todas as brincadeiras, mas seu gênio e sua hiperatividade não permitiam que permanecêssemos na mesma brincadeira por mais de quarenta minutos, assim como quando era bem menor.

Sempre me impressiono com a genialidade dela, com a inteligência e rapidez com que aprende as coisas. Há tantas coisas nela que me lembram o Bruno, outras que talvez ela tenha herdado do gene de sua mãe, e outras parece que ela herdou de mim. Bobagem, sei que não herdou, mas pode ter copiado algo no meu temperamento. Nos entendemos perfeitamente bem e mantemos uma conexão mais forte do que um dia imaginei ter.

Chegou o meio dia e o sol apitou lá fora, mas com ele o vento gelado que anunciava a chegada do inverno que vinha aos poucos. Outono em Los Angeles pode ser uma passarela de moda, mas é difícil de se acostumar.

Comecei com o almoço mesmo sabendo que talvez eles não almoçassem em casa. Modéstia parte, eu acho que estou melhorando nisso. Minha comida está mais cheirosa e melhor.

-Mãe, eu tô com fome. – Lana estava deitada no sofá, de barriga pra cima, com a roupa toda torta e os cabelos emaranhados de tanto brincar.

-Eu sei, Lana. Vamos esperar mais uns minutinhos e ver se eles chegam.

Uns minutinhos se passaram e Lana ainda reclamou de fome. Não iria dar nada para tapar o buraco do seu estomago antes de almoçarmos, e não era justo deixar ela sem almoço porque estou esperando pela boa vontade deles. Talvez nem irão almoçar em casa.

Servi a comida para nós e Lana realmente estava com fome. Normalmente um prato a satisfaz, mas ela comeu um prato e pediu uma pequena porção para repetição. Brincou um pouco com a comida até derrubar em sua blusa. Ela estava toda sujinha e ainda sim ria, ria dos seus cabelos despenteados e da sua roupa suja e eu deixei ver ela assim, porque ela estava feliz e eu amo aquele sorriso.

-Olá. – Richard estava todo sorridente quando entra pela porta e seus pais vem logo atrás. Ele estava com duas sacolas grandes em suas mãos. – Pequena! – Ele disse quando viu Lana sair da cadeira e ir em sua direção.

-Oi, tio Rick. – Ela o abraçou. Seu sorriso desapareceu quando viu seus cabelos bagunçados e sua roupa. Pareceu algo como nojo? Não sei bem, mas sei que foi exatamente o mesmo olhar que os pais dele largaram para Lana quando a viram.

-Ah... Esses são meus pais, L. Minha mãe e meu pai.

Lana esticou a mão para eles com um grande sorriso exposto, mostrando sua simpatia. Os dois apenas apertaram de leve, com um sorriso amarelado que me fez ter náuseas.

-Olá. – Levanto. – Já almoçaram?

-Na verdade, sim. Comemos no Marcus.

-Ótimo lugar lá. Eu amo a comida deles. – Sorrio, tentando ser ao máximo simpática.

-É boa. – Sua mãe concorda. – Preciso tomar um banho, se me dão licença.

-Claro. – Assenti positivamente.

O pai dela a seguiu para o quarto e Richard veio em minha direção. Lana foi para o sofá e tomou sua boneca novamente em mãos.

-Não me falou que ela viria esse final de semana.

-Bruno tem algumas coisas pra fazer...

-Mas ele não poderia deixar com outra pessoa, sei lá, Tiara, Mia?

-Eu queria ficar com ela, queria ficar com a minha filha. Por quê?

-Onde ela vai dormir? Meus pais estão no quarto dela.

-Eu durmo na sala, ou ela dorme conosco. Tanto faz, isso não é problema.

Ele passa a mão pela cabeça, típico de quando está sem paciência.

-Ok.

π

Lana adormeceu no fim da tarde, acho que de tanto brincarmos, seu corpo se cansou. Sábado à tarde trancada em casa não nos disponibiliza muitas opções do que se fazer. Depois de tapa-la com uma manta fina, sai do quarto mexendo no celular. Um burburinho na sala me fez parar antes de aparecer na ponta do corredor.

-Você não tinha nos dito nada sobre isso, Richard. – Ouvi a voz da sua mãe, parecendo autoritária demais.

-Eu não precisava. Já passamos por isso antes, estamos em dois mil e quinze, os tempos são outros, são novos.

-Mas nossa família é a mesma. Temos genes puros, Richard!

-Meu Deus, pai! – Podia ver ele passando a mão em sua cabeça, deu vontade até de rir se eu não precisasse saber o que estava acontecendo por ali. É feio escutar conversas alheias, aprendi isso e eu sei. Mas não poderia evitar.

-Ela é negra, Richard.

-Ela é latina, americana, ela é de tudo um pouco.

-Qual a religião dessa menina?

-Ela não tem uma...

-Richard! – Sua mãe fala um pouco mais alto. – Ela não é o exato exemplo de mulher com quem você deve viver.

-Mãe...

-Ela tem uma filha, de outro homem...

-Não é dela. Quer dizer, é adotada... Eu não concordo com isso, mas ela a adotou antes de me ter na vida dela. Eleanor tem conteúdo, papai, ela pode ser negra, latina, ter traços que não são iguais aos nossos e nem os olhos claros, até uma filha adotada, mas ela é legal...

-Legal não vai fazer você nos dar netos bonitos.

-Ela irá te desvirtuar, filho. Pense nisso.

-Não. Nós já fomos claros, eu não quero adotar.

-Mas se tiver filhos com ela pode ser pior. Ela tem o mesmo QI que você?

-Não sei.

Eu escutava aquilo ainda incrédula. Esmagava meu celular com minha mão direita, enquanto a outra estava na parede, me apoiando para não cair ou ir em direção deles e manda-los sair da minha casa.

Os pais do meu namorado estão me insultando por eu ser negra, por minha pele ter um pouco mais de melanina do que a deles, ou pelos meus olhos não serem azuis, ou por eu ter a sensibilidade de adotar uma criança.

Respiro fundo enquanto ainda ouço o que dizem, horrores sobre eu ser negra, sobre a adoção e casamento. O que minha falta de religião tem a ver com o meu eu?

-Você viu aquela criança, Richard. Eles são porcos. Olha o cabelo daquela menina!

-Sem contar aquela blusinha, toda suja. Ela é filha de quem? De um catador de lixo?

Meu coração parecia pulsar em minha garganta e o que eu mais queria era gritar, pegar os dois pelo pescoço e toca-los da janela. Eles estão ofendendo a minha filha! É justo me ofender, mas ela é uma criança, ela não tem nem como se defender. Ela não é suja, muito menos filha de catador de lixo. Ela tem um pai, uma mãe, uma família e eles devem respeitar minha filha.

Me segurei de ir lá. Minhas pernas travaram. Eu poderia ir e xinga-los, falar tudo quanto é coisa, mas simplesmente eles não mereciam que eu fizesse isso, não mereciam que eu perdesse meu tempo xingando-os.

Ouvi risadas da sala, algo eles falavam sobre cabelo afro.

Todo esse tempo eu não estava errada quando achei que eles me olharam de maneira torta. Eu estava certa de que eles não passavam de pessoas dignas de pena e que estavam me julgando sem ao menos me conhecer.

O que batia em meu peito como estaca afiada era que Richard estava ali na frente deles e ele me conhecia, me conhecia muito bem e sabia que eu não era nada daquilo. Ele me conhecia e estava os deixando falarem aqueles absurdos. A vontade que eu tinha não era mais de ir lá e levanta-los pelo pescoço e sim, entrar no quarto e repensar cada passo da minha vida e chorar um pouco. Eu tenho esse direito de me sentir humilhada.

Eu estava brava demais para deixar alguma lágrima de decepção cair do meu rosto.

-Hey. Está ai. – Richard estava sorrindo quando entra no quarto, falando baixo para não acordar Lana. – Ela estava cansada mesmo.

-Brincou desde manhã cedo. – Olho para minha pequena, que mantém o rosto tranquilo.

-Deixa nosso anjinho ai e vamos pra sala! – Ele estica a mão pra mim. Meu corpo se nega a tocar na mão dele, quero evitar o contato, pelo menos por agora. Anjinho? Sério que eu ouvi isso? Como ele pôde deixar os seus pais falarem aquelas coisas horríveis e agora vir chamar minha filha de “nosso anjinho”. Hoje o dia é propenso a me tirarem do sério.

-Acho que vou ficar aqui mais um pouco. Estou cansada também.

-Eles querem conversar com você, conhece-la melhor. Irão ir embora amanhã, é muito pouco tempo. – Sentou-se ao meu lado e eu vou um pouco para o outro lado, como se tivesse dando espaço para ele, mas apenas estou querendo me esquivar.

-Eu sei, mas ando cansada demais, Ric. – Respiro fundo.

-Eu não sou de implorar coisas, Lea. – Ele pega em minha mão. Seu toque me causa repulsa. – Por favor.

Levantei com ele e decidi ir a sala. Fiz cara de paisagem para eles, sorri a todo momento e respondia suas perguntas, mas evitava fazer questionamentos, até porque eu nem estava processando o que estava acontecendo por ali, estava apenas de corpo presente. Queria minha mãe naquele momento, ela nunca o tratou mal, então porque a dele precisa ser repugnante a este ponto? Qualquer coisa que ela fazia, qualquer movimento, criava uma espécie de vômito em meu estomago, pronto para ser exposto naquela cara branca, cheia de sardas, que daqui a pouco as plásticas não ajudarão mais.

-Acho que a Lana acordou, um momento. – Levanto do sofá e nem espero que me perguntem algo, apenas dou essa desculpa e entro no quarto, fechando a porta e abrindo minha mochila.

Soquei um pijama, itens de higiene pessoal e beleza, uma roupa qualquer e roupas intimas. O carregador e meus documentos pus no bolso da frente, onde enfiei meu celular. A bolsa de Lana nem tinha sido desfeita ainda, então a peguei, puxei as alças para ficarem maiores e deixei-as em cima da cadeira.

Chamei minha pequena, que me olha com mau humor e nem fala nada. Coloco uma jaqueta por cima da sua roupa, a fecho e ajeito sem cabelo apenas por cima. Precisava sair dali logo.

Eu não sei onde ele estava com seus pais, mas não estavam na sala, o que eu dei graças a Deus. Saí pela porta puxando Lana pela mão, com duas mochilas em minhas costas e pressa, muita pressa.

-Onde estamos indo? – Me pergunta, num tom de braveza, acho que não gostou mesmo que eu tenha a acordado.

-Vamos dar uma volta, meu bem. – Largo a sua mão, procurando as chaves do carro na minha mochila.

Coloco Lana no banco de trás, prendo seu cinto e assumo o volante. Do celular, passo meu dedo pelos contatos e penso para onde eu poderia ir, bem longe daquele lugar.

Não é extremismo, eu juro, mas fiquei com nojo do que ouvi e garanto que qualquer um em meu lugar também ficaria. Quero apenas poder ir para algum lugar onde eu esteja bem recepcionada.

Olho pelo retrovisor e Lana está olhando pra rua, o beiço inferior esticado, como o do seu pai.

Bruno.

O celular chama duas vezes e ele atende.

-Oi. Aconteceu algo?

-Sua casa abriga dois?

-Hm, claro que sim. Mas o que houve?

-Nada. – Balanço a cabeça. – Quero apenas ir ai, tudo bem?

-Claro, pode vir.

-Obrigada. Até logo.

-Até.

Desligo rapidamente e volto minha atenção à direção. Coloco uma música para o humor dela melhorar e logo ela já estava cantando comigo.

Buzinei na frente do portão e logo ouvimos o barulho, ele estava sendo aberto lentamente. Bruno estava saindo pelo quintal, de bermuda larga feita de moletom e uma camisa velha, calçando velhas chinelas.

-Você já esteve melhor. – Falo, enquanto estou entrando com o carro.

-Obrigada, Lea. Você é gentil.

-Sou muito. – Rio. Paro o carro e Lana já abre a porta para descer. Mal fala com seu pai e entra pra casa. – Ela está de mau humor, porque acordei ela. – Reviro os olhos.

-Vai se sair uma bela adolescente.

-Dará muito trabalho pra você, isso sim.

-Não quero pensar nisso.

-Imagina quando chegar os primeiros namoradinhos.

-Namoradinhos? – Ele toma a mochila dela de mim. – Terá um só, e vai casar com esse.

-Qual é, não seja tão mau com a sua filha.

-No máximo dois, ok? Ela terá uma reputação a zelar. – Entramos na casa e ela estava no sofá, com a televisão ligada. – Mocinha, sem sapatos em cima do sofá.

-Argh. – Ouvimos o bufo dela e rimos.

-O que você fez com a minha filha?

-Ela estava bem hoje pela manhã, brincamos até ela se cansar e ir dormir.

-Agora está explicado. – Caminhamos lado a lado até a sala. – Quer sair mais tarde para tomar um sorvete, L?

-Talvez. – Ela vai abrindo o seu casaco.

-Você estava rolando na lama, porquinha Lana?

Ela ri gostosamente.

-Ela se sujou enquanto comíamos e brincávamos. Não dei banho nela porque ela estava dormindo já, não achei justo. Aí eu a chamei rapidamente para virmos, nem deu tempo de arruma-la.

-Parece uma moradora de rua. – Ele pega o casaco dela.

-Vamos tomar um banho, Lana?

-Quero assistir televisão.

-Depois você assiste, vamos lá. A mamãe toma banho com você!

-Oba!

Só assim para comprar ela. Bruno hesita por alguns instantes, tentando explicar onde ela o quarto dela, mas eu ri e continuei andando. Sei que não tinha mudado de lugar e continuava ali, conheço muito bem essa casa.

Fiquei de calcinha e sutiã enquanto tomava banho com ela, uma questão de higiene e privacidade, ela ainda é pequena demais para me fazer perguntas sobre anatomia e eu já estou me preparando para chegar a época em que começar a perguntar sobre o que é que os meninos têm no meio das pernas, e porque o das meninas é diferentes, e etc.

A arrumei direitinho, penteei seus cabelos, mas não prendi, deixei que ela abusasse dos seus cachinhos soltos por hoje. Quando ela era menor, achei que seus cabelos seriam afros, como os do Bruno, mas eles tornaram-se cachos comportados, volumosos e bem definidos.

-Vou usar meus converse. – Ela pega-os do seu closet.

-Quer ir com a jaqueta jeans?

-Pode ser.

Eu sou uma boba, palhaça, que me emociono até com ela escolhendo roupas, mas algum tempo atrás, ela não escolhia sozinha, eu tinha que escolher e vestir, agora ela escolhe, ela veste. Minha pequena já está com sete anos, já não é mais um bebê.

-Vai ir assim, mamãe? – Ela pergunta, olhando para minha toalha enrolada em meu corpo.

-Ah, claro que não. – Rio. Pego minha mochila da sua cama e saio do quarto. – Bruno, posso ir para o meu antigo quarto ou para algum de hospedes? – Grito para que ele ouça.

-Oi? Não escutei... – Fiquei naquele constrangedor momento em que ele me vê daquela forma e não sabe exatamente o que dizer, não consegue nem completar a sua frase e minhas bochechas queimam. Nós parecemos duas crianças.

-Posso? – Aponto para o quarto.

-Claro. – Ele anda em direção do quarto comigo e abre a porta.

-Você o manteve como eu deixei?

-É, um ano que ele está assim. Só peço que o deixem sempre limpo.

-Obrigada. – Entro para o quarto. – Bem, eu vou me trocar, se não se importar.

-Oh, claro que não. Desculpe.

Fecho a porta e tiro as roupas da mochila. Por instantes que meus olhos se fecham, imagino o que aconteceria se fosse antes, uns anos atrás, quando ele me visse dessa forma. Provável que me trancaria no quarto e ali ficássemos por um tempo.

Meu corpo chega a se arrepiar.

Passo a mão sobre o rosto para tirar esses pensamentos e começo a me arrumar.

Não tinha trazido nada de muito especial, digo, apenas uma calça jeans, sapatilhas leves e uma camisa jeans.

Vesti e penteei meus cabelos, pegando meu celular e saindo do quarto. Respondi a mensagem no grupo das meninas, falei com elas rapidamente e ia encaminhando uma nova mensagem para Richard, avisando que estou na casa de Tiara, quando ele começa a me ligar. Disse rapidamente onde eu estava e que saí, pois Lana queria passear um pouco e os procurei para dar tchau, mas não achei, o que era uma grande mentira, mas eu realmente não estava nem ai.


-Eu quero de morango! – Lana disse, ao apontar para o cardápio. – Não! Eu quero de baunilha. – Torce a cabeça para o lado.

-O que você vai querer? – Bruno me pergunta.

-Suco de laranja, sem açúcar e um pretzel.

-Ótima escolha. – Ele continua olhando seu cardápio e Tiara passa a perna na minha por debaixo da mesa e fica fazendo “olhinhos” pra mim. Seguro a risada.

Nós a pegamos quando saímos de casa para vir a cafeteria. Bruno pressupôs que ela gostaria de se juntar a nós e quando eu perguntei, ela disse rapidamente que sim.

Tomamos nosso café, mas já estávamos falando da nossa janta. Minha barriga doía de tanto que ríamos de algumas situações que falávamos. Lana ria também, querendo se mostrar que estava por dentro do assunto. É difícil ser criança no meio de adultos que são mais crianças que a própria criança.

Decidimos que a noite seria pizza.

Tiara e eu ficamos sozinhas em meu antigo quarto, enquanto Bruno falava com alguém no telefone e Lana estava desenhando na sala.

-O que houve que te fez vir pra cá repentinamente?

-Lembra que eu falei sobre ele não querer que eu conhecesse seus pais? Acho que seria bem melhor não ter conhecido.

-Como assim?

-Ah, Yara. – Respiro fundo. – Eu o adoro, amo tudo nele. Mas hoje, assim que eu coloquei a Lana na cama para dormir, estava indo pra sala e ouvi tantos comentários racistas sobre minha cor de pele.

-Como?!

-Sim, comentários extremamente racistas, de darem nojo. Como por exemplo, a mãe dele falando basicamente que eu não era ninguém e que não poderia ter filhos comigo ou eles nasceriam feios. Dá pra acreditar? Nós estamos em dois mil e quinze e ainda passamos por isso!

-O que ela queria?

-Pelo que eu entendi, uma loira, de olhos claros, assim como eles, para continuar com a geração. Isso me deixou tão angustiada que saí daquela casa.

-Mas você não deveria ter saído de lá, deveria ter os expulsado. O que Richard fez?

-Nada. Absolutamente nada. Eu queria ignorar o fato de sempre achar estranho ele ser um pouco racista, achei que era apenas coisa da minha cabeça, mas ele não me defendeu, em nenhum momento. – Balanço a cabeça negativamente.

-Lea...

-Ok. Não precisamos falar disso agora. Nem para o Bruno. Não quero que ele se zangue porque sua filha estava lá, ou pense algo errado.

-Agora que está tudo dando tão certo.

-Exatamente. – Mordo meus lábios e em seguida os curvo. – Eu pensei que estava tudo se encaminhando para o caminho certo. Tenho minha filha, minhas amigas, minha família, meu namorado e meu melhor amigo de volta. Pensei que estava tudo bem encaixado, mas sempre tem uma peça fora do lugar.

-Talvez ai esteja a brecha para você modificar o molde e encaixar com as peças boas, colocando as ruins, fora. – Deu de ombros.

Desde a festa da Lana esse ano, ela vem falando metáforas pra mim, coisas que dão a entender que eu devo largar o Richard e viver minha vida, feliz. Tento não ficar pensando nessas coisas, mas Tiara é realmente convincente.

-Com licença. – Bruno deu batidinhas na porta que estava entreaberta. – Vamos pedir a pizza? Estou com fome. – Passou a mão pela barriga.

-Eu também. – Rio.

-Claro que vamos.


Esperei que Lana dormisse para então ir pra casa. Peguei minha mochila e me despedi de Tiara, que iria ficar com a Lana para vigia-la.

-Tem certeza de que não quer ficar?

-Tenho sim. – Digo, abrindo a porta do carro.

-Está tarde para sair dirigindo por aí, ainda mais sozinha.

-Está tudo bem, são só alguns minutos até chegar em casa.

-Você que sabe. – Ele dá de ombros. – Deixa eu levar você, então?

-Preciso levar meu carro.

-Tiara o leva amanhã.

-Bruno... – Rio dele. – Tudo bem. – Fecho a porta e aciono o alarme. Coloco as chaves em sua mão. – Peça pra ela cuidar do meu bebê.

-Com certeza. – Ele assovia, caminhando em direção ao carro preto, que está usando com mais frequência. – Hey, você não vai ir atrás.

-Mas...

-Você tem sete anos como a Lana?

-Não.

-Então, sente aqui no carona.

-Ok! – Bati contingencia e ele ri, abrindo a porta do carro pra mim.

Fomos o caminho escutando música. As ruas perto do canion não estavam cheias, é claro, mas ao chegarmos um pouco perto dos bairros, fomos vendo algumas pessoas nas ruas. Sábado à noite, todos estavam aproveitando.

-E chegamos. – Ele estaciona o carro.

-Desculpe chegar de repente hoje. – Agarro minha mochila e desprendo o cinto.

-Tudo bem, foi ótima a sua visita. Gostaria que tivéssemos mais tempos assim.

-Podemos ter. É só combinarmos.

-Claro. – Ele sorri. – Ah, Lea... – E fico olhando para ele, esperando o que tinha pra falar. – Me desculpe, eu escutei a sua conversa com a Tiara hoje.

-Qual conversa?

-Sobre os pais de Richard. Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você, mas ninguém está livre. Apesar de ser um crime, de estarmos no século vinte e um e as pessoas deveriam estar mais mente aberta, elas não estão. Eu sofri cada segundo em que entrava em gravadoras de Los Angeles pedindo uma chance de escutarem minhas músicas, sempre sofria calado quando fechavam a porta em minha cara dizendo que não tinham espaço para negros em músicas com aquele estilo. Você estava comigo e viu o que eu passei durante anos, mas nãos deveríamos passar por isso. Por anos eu deixei isso como se me afetasse, mas quanto mais baixamos a cabeça, mais eles irão cometer essas injúrias. Você é linda, talentosa, não tem que provar nada a ninguém e não é a sua cor de pele que dirá ao contrário. Terá filhos lindos e saudáveis, eu garanto!

Escutei atentamente cada palavra que ele disse.

-Obrigada, Bruno. – Me inclino para abraça-lo. – Isso foi um grande gesto. Obrigada de verdade.

-De nada, Lea. Não quero te ver novamente refugiada em minha casa porque não quer encarar esses racistas de frente. Na próxima vez, tire-os da sua casa. Esse é o seu lugar, não deixe que eles digam quem você é ou não e nem que eles façam se sentir menor do que você verdadeiramente é. Ninguém pode rotular você, Lea. Ninguém! Até hoje eu lido com pessoas racistas, mas o melhor que tem para fazer com estas é se orgulhar da cor de pele que tem, dos seus antepassados, bater no peito e dizer que sim, você é mestiça e isso faz de você uma grande mulher.

-Você é incrível. – Sorrio, me encolhendo no banco. – Obrigada, mais uma vez, por tudo o que disse e pelo dia de hoje.

-De nada. Qualquer coisa que precisar, você sabe meu número e sabe onde eu moro.

-Ok.

-Tem certeza que não quer ir lá pra casa?

-Tenho sim. Preciso encarar as coisas de frente, não é mesmo?

-Isso ai, garota! Até mais.

-Até.

domingo, 5 de junho de 2016

Capítulo 70


De repente, eu me sinto corajoso
Não sei o que deu em mim
Por que me sinto assim
Podemos dançar devagar?
(All About Us - He is We)


-Vamos lá. – Digo. – Elemento químico com símbolo Co?

-Hm, cobalto? – Responde-me. – Eu sinto que ele não gostou da ideia.

-Você é tão inteligente! – Escrevo. – Ele vai se acostumar. Também, eu não gostaria de receber a notícia de que vou perder um dos melhores modelos emergentes. – Richard tinha decidido parar um pouco com a coisa de modelo para somente se dedicar a faculdade. Mas a agência está o convencendo de ficar somente para emergências, mas dessa vez somente mesmo.

-Perder para a odontologia. – Ele ri. – Mas eu sinto que essa é a minha coisa, entende?

-Claro que entendo. – Balanço os pés distantes do chão e me ajeito no balcão da cozinha onde estava sentada. – Setembro é o ... nono mês do ano! – Respondo em voz alta.

-Perdi meu livro de palavras cruzadas. Isso mesmo? – Ric aproxima-se de mim, com maior carinha de cachorro pidão.

-Nem vem, mocinho. Eu pedi, você deixou, simples assim.

-Você está me saindo uma espertalhona.

-Com certeza. – Beijo seus lábios rapidamente. – Ellen. Apresentadora.

-DeGeneres. – Dissemos juntos.

-Eu amo tanto ela. – Respiro fundo, enquanto escrevo o seu sobrenome no pedaço disponível.

-Você fez quantas já?

-Desde que acordei? – Pergunto. – Umas quatro.

-Você acordou faz menos de três horas.

-E ainda parei para separar as roupas pra lavar, fiz nosso café e ajeitei a sua roupa. Sou tão eficiente.

-Vou contratar para limpar meu quarto.

-Já faço isso e não ganho nada.

-Ganha sim! Meu pagamento é em beijos. – Ele sela nossos lábios e quando desço da bancada para poder beija-lo melhor e aprofundar as coisas, sexo pela manhã é algo maravilhoso, a campainha toca.

-Chegou meu pacotinho. – Digo baixinho.

-Convide Umma pra ficar para o almoço. Irei cozinhar hoje.

-Que moço maravilhoso. – Caminho em direção a porta de entrada e a abro com um sorriso para recepcionar Umma e Lana.

A primeira coisa que vejo é seu sorriso meio deslocado, sem nem saber onde enfiar o rosto. Bruno estava ali, sua cara estava amassada e ele parecia não ter dormido a noite toda. Olhei para minha pequena, que estava sorridente e grudou-se em minhas pernas.

-Meu amor! – Me abaixei para abraça-la. – Tudo bem, princesa?

-Sim, mamãe! – Beijou minha bochecha. – Cadê o Ric?

-Aqui. – Gritou da cozinha e ela corre para vê-lo.

-Oi, Bruno.

-Oi, Lea. Umma ficou doente. – Não consegui nem negar a cara de apavorada. – Calme, é apenas um resfriado. Por isso trouxe a Lana, ela estava ansiosa, chegou a acordar mais cedo. E isso é milagre durante as férias dela.

-Espero que ela fique bem logo. Gostaria de entrar? – Convido.

-Até aceitaria, mas o estúdio me espera. Tenho que fazer muitas coisas ainda. - Torceu seus lábios. – Bom ver você, Lea.

-Bom te ver, Bruno. Lana, venha dar tchau para o papai. – Grito para ela que aparece correndo rapidamente para seus braços.

-Tchau papai.

-Tchau, amor.

-Não precisa ter pressa. Mamãe cuida de mim.

-Eu sei que sim, minha linda. Amo você.

-Te amo.

Bruno deu as costas e antes de fechar a porta fiquei olhando para aquele homem que caminhava em direção ao carro.

Desde que conversamos no hotel naquela noite, não nos falamos direito. Ficamos todo o final de semana em Vegas, mas ele foi embora no outro dia pela manhã. Então, viemos pra casa e eu falei com ele no telefone na terça, hoje é sábado e ele teve tempo de trazer a Lana pra mim. Pelo menos ela tem a semana toda comigo.

Meu coração ainda aperta de saudades dele, eu nunca negarei isso para mim mesma, mas foi uma das melhores opções sair da casa dele e viver minha vida normalmente.

Fecho a porta e ando para a cozinha. Ric e Lana já estavam brincando, então minha angústia foi embora e eu pude me juntar à eles e brincar junto, rindo e me divertindo com meus bens preciosos.

β

-Lana me dá um cansaço. – Bufou, quando conseguiu se jogar na cama após um dia longo com muita correria e brincadeiras e agora um bom banho quentinho.

-Não só cansa você, cansa todos. – Rio. – Ela está crescendo tão rápido, Ric... Queria meu bebê de volta.

-Você sabe que criamos nossos filhos para o mundo. – Deu de ombros. – Ela está crescendo, isso será inevitável. Um dia irá se desapegar e sair mundo afora assim como você fez.

-O bom filho à casa torna. – Digo. – Ela irá sair, irá viver a sua vida, mas sempre voltará pra nós.

-Mais é para o Bruno, sim?!

-Sim. – Respondo com a dor de pensar nisso. – Um dia nós teremos os nossos.

-Lea... – Franziu seu cenho. – Eu não quero ter filhos.

-Hã?

-Digo, não agora. Quero aproveitar minha vida.

-Claro, eu também quero aproveitar, mas penso que estou ficando velha. – Torço meus lábios. – Apesar que tem a adoção...

-Nada contra, amor, mas adoção acho que só se realmente precisarmos. Se for para ter um filho, que ele seja meu.

-Algo contra? – Infelizmente, meus pensamentos viajam sobre aqueles maldizeres dele sobre racismo e homofobia.

-Não por mal, amor, mas sinceramente... Só em casos emergentes para adotar uma criança.

-Lana é minha, eu a adotei!

-Eu sei!

-Então...

-Mas se eu posso ter meus filhos, com meu sangue, meu DNA e tudo mais, porque terei o de outros? – Virou-se pra mim. – Quero filhos com a nossa beleza, nosso jeito...

-Nem tudo se trata de beleza, Richard. – Aquele papo não iria dar em boa coisa, assim como o outro.

-Sei que não, mas e se adotarmos uma criança ruiva? Negra? Como vamos dizer que é nosso?

-Simplesmente dizendo que são nossos. Eles não precisam ser nossas duplicatas, eles vão ser nossos, somos ligados ao sentimento e não a cor da pele!

-Agora vai pensar que eu sou preconceituoso, de novo!

-E não é? Minha avó por parte de pai é índia, ela tem a pele negra. Eu tenho a pele amorenada, não sou branca! Mas não sei se você estudou biologia, então vou explicar, nossos filhos podem nascer da minha cor, da cor da minha avó, da cor dos seus avós, com meus olhos, seus olhos, isso se chama gene! Nunca vamos saber qual gene prevalecerá quando gerarmos nossos filhos. E quanto ao jeito, a criança não nasce de um jeito, ela se torna através da sua educação e o que seus pais lhe dão. Você pode sim ter um filho mal educado, chato, quem sabe um psicopata, sei lá o que. Não é porque é adotado que irá ser ruim!

Ele me olhava, parecia prestar atenção em tudo que eu tinha dito, mas ainda havia um ar de deboche em seu rosto. Esse é o que estava elevando minha fúria.

-Você está de TPM.

-Não! Você nunca me pegou na minha TPM forte, reze pra não pegar. As únicas pessoas que sabiam lidar comigo nesses tempos é minha mãe, Megan e Bruno!

-Ah, claro, o Bruno! Que dúvida. Ele sempre sabe mais de você do que eu.

-Cala a boca, não fale merda. Ele sabia porque era meu melhor amigo, eu morei com ele praticamente minha vida inteira.

-Está reclamando de estar comigo?

-Não! – Passo a mão pela cabeça, sentando na cama. – Só estou dizendo que ele já viu momentos meus e esteve comigo muito mais do que você.

-Que tal convida-lo pra morar com a gente? Ou pra adotar uma criança? Talvez ele doe seu esperma pra você ficar grávida de uma vez, se é isso que tanto quer.

-Você é doido? Eu falei que quero esperar, foi você que começou essa confusão toda.

-Você nunca começa nada, é claro. – Seu ar debochado estava me irritando.

-É tão mais fácil quando você admite que está errado e para de discutir.

-Estou errado que você queria estar com o Bruno?

-Não, não está! Sinto saudades do meu amigo, e ai? Mudou alguma coisa? Porque você sabe o tempo todo disso.

-Sei sim! Sei há tempos. Não faz muito que você estava transando comigo e gemeu o nome dele, não?!

-Vai me jogar isso na cara quanto tempo?

-O tempo que eu quiser. Isso foi horrível. É a mesma coisa de transar com você e falar o nome da Ashley!

-Por que toda a porra de discussão você fala no nome dela? Porque sabe que me afeta?

-Talvez!

-Mas não me afeta, Richard. O que me afeta é esse cérebro pequeno que tem dentro da sua cabeça. Meus filhos terão uma ótima educação e por favor, não os deixe preconceituosos como você!

-Eu não sou preconceituoso, Eleanor. – Estava pronta pra rebater, quando ele continua a falar. – Eu sou do Texas. Meus avós paternos são alemães, filhos de sobreviventes do holocausto. Meus avós maternos são patriotas, criam os filhos para servirem a pátria e dar continuidade a linha pura. Meus pais criaram eu e meu irmão assim, essa é a minha educação!

-Não me venha colocar as desculpas em cima da base da sua educação, isso não é nada. Sabe que se a pessoa quer, ela muda.

-Mas eu não vou mudar, você me conheceu assim.

-Tá ai a questão, verdadeiramente eu não conhecia, porque se conhecesse...

-Se conhecesse não iria ficar comigo, sim?

-Não...

-Claro que é. Eu também odeio vários defeitos seus e não fico tocando nisso toda a hora. Espero que respeite meus princípios.

-Respeitar os seus princípios? – Rio, de escárnio. – Faça-me o favor, Richard. Eu não vou respeitar alguém que me julga pela cor da pele ou até mesmo pela orientação sexual.

Ele iria falar mais coisas, mas a porta do nosso quarto se abre. Lana está com o travesseiro em mãos, cara de sono e olhos bem inchados. Acordamos minha pequena por conta dessa discussão boba.

-Dá pra falar mais baixo? – Ela boceja.

-Dá sim, meu amor. Desculpa. – Fuzilei Richard com os olhos, que mal olhou pra ela e virou-se para o lado.

Acompanhei Lana até a porta do seu quarto e ela deitou-se sozinha. Admirei-a por um período.

-Você e o Ric estavam brigando?

-Discutindo opiniões, meu bem. Adultos fazem isso o tempo todo.

-Papai às vezes faz isso com a Mia lá em casa. Ou com a tia Tiara.

-Desculpe. – Me aproximo dela e beijo sua testa. – Não vai mais acontecer, eu prometo.

-Tudo bem. – Ela dá um sorriso amarelado, caindo de sono. – Boa noite, mamãe.

-Boa noite, meu bebê.

Vou para a sala direto e nem penso em ficar no quarto. Não hoje. Ele conseguiu tirar minha paciência com esses discursos bobos sobre seus preconceitos. Não aguento esses pensamentos pequenos. Será que ele não vê que está errada, ou errada estou eu por achar que ele deve ter o mesmo pensamento? Pelo menos ele não é um machista.

Porque aí sim, nós dois não estaríamos mais juntos. Também não sei quanto tempo mais vai durar.


Pela manhã, ao acordar com aquela cara amassada e com meus pensamentos um pouco mais organizados, fiz um café reforçado e chamei Lana. Ela estava a todo o vapor, dizendo que estava ansiosa por voltar suas aulas do balé, já que ouve uma pequena pausa, e estava mais ansiosa porque havia sonhado com isso. Escutei todo seu sonho e ri junto com ela.

-Você quer ver a vovó April?

-Faz tanto tempo que eu não vejo ela, mãe. – Ela toma um gole escasso de suco. – Eu quero sim. Quero ver o jardim dela também.

-Ok. Então, assim que tomar seu café, vamos trocar de roupa para irmos. Sim?

-Sim. – Lana deu um sorriso largo, como estou acostumada a ver estampado em seu rosto.

Nós nos arrumamos e eu deixei o café preparado para o Richard sob a mesa, quando ele acordasse não precisaria se preocupar. Deixei junto um bilhete dizendo que voltaria logo após o almoço e que ele não precisaria se preocupar.

No caminho, na rádio tocou a música do Bruno, parceria com o Mark, o velho amigo com quem ele anda falando mais seguido. Quando nós conversamos esses tempos, Bruno disse que está planejando mais coisas com ele e que ele o ajudará nesse novo álbum.

Lana cantava a música empolgada e bem direitinho e eu olhando pelo retrovisor, só tenho aquela velha sensação de que ela está ficando maior cada vez mais, que já não é mais aquele bebê que precisava de cadeirinha.

Meus avós nos abraçaram fortemente e mimaram muito a Lana, eles estavam com saudades de nós duas, confesso que até eu deixei de vir diretamente aqui como vinha antes. Fiquei feliz por eles estarem bem e felizes.

-A melhor parte disso é saber que você resolveu seus problemas com o Bruno.

-É, vó. – Encosto minha cabeça sobre seu ombro e ela passa seu braço pelas minhas costas. – Eu estava com saudades dele.

-Eu sei, como não saber. Você transpirava saudades dele.

-Não era pra tanto.

-Não vou insistir. Há quanto tempo não fala com a sua irmã?

-Não sei. – Dou de ombros. – Eu chamava ela todos os dias no celular, mas ela respondia de vez em quando, então deixei de ir atrás.

-Ela veio aqui semana passada, disse que não tinha mais notícias suas.

-E não tem mesmo, eu disse pra mamãe que se ela quer saber de mim, ela tem que vir atrás também.

-Eu pensei que vocês já tinham evoluído no quesito de briguinhas.

-Evoluímos. – Coloco a língua. – Só não disse se é pra mais ou menos.

-O que eu faço com você, hein?

-Comigo nada, mas aceito um belo bolo!

Bruno Pov’s

Eu não conseguia parar de pensar nela. Ela parecia estar sempre na volta dos meus pensamentos, e voltar a falar com ela faz bem não só a mim, mas a minha filha.

“Embaixo da árvore ainda restava um presente para ser aberto, endereçado ao Liam, mas que estava ocupado demais brincando para ver. Tirei ele dali e vi uma cartinha dentro da meia, pendurada na lareira.

-Lana? – Nem sabia que minha filha tinha escrito algo, nem sabia se tinha auxílio de alguém. – É errado ler? – Olhei pra cima como se falasse com alguém.

Não era errado, era minha filha e eu tinha minha curiosidade para ler.

“Querido Papai Noel

Sei que o Senhor está ocupado demais nesses dias, tratando das outras crianças do mundo todo e cuidando de suas renas, mas eu preciso pedir algo especial e que não envolve dinheiro nem tempo.

Meu papai e minha mamãe estão separados. Não é apenas uma separação, é uma briga. Quando nos encontramos, eles mal se olham. Me divido indo para casa de um e de outro. Dói muito isso. Ela saiu de casa, pois não estava contente com o papai e suas atitudes. Mas acho que ela não entende que o papai quer somente o seu bem.

Papai também não entende que eu quero o bem deles.

Tudo mudou depois que ela saiu daqui. A comida continua gostosa, mas não tem a mesma alegria. E quando dá cinco horas da tarde e ela não chega, me entristece.

Santa, queria pedir para o senhor, por gentileza, fazer papai e mamãe se darem bem novamente. Quero que voltem os sorrisos e passeios legais. Eu adoro o Ric, ele me dá sorvete e faz eu rir contando piadas e fazendo caretas, mas minha mamãe Eleanor é do meu pai. Eles se completam!

Obrigada por tudo.

Lana H.”


Havia uma cratera em meu peito, algo bem profundo que ia além do que eu pudesse imaginar. Sei que aquela não era a sua letra, era da Tiara. Somente na escrita do seu nome era a dela. Mas eu tenho certeza que minha filha disse cada palavra que estava escrito ali, ainda posso ouvir sua voz as pronunciando.

Tahiti estava com Billy olhando as crianças, o que me fez pensar que Tiara deve estar com os outros na cozinha.

Caminhei até lá e o primeiro sorriso que vi foi o dela. Meu coração já estava todo apertado. A chamei com um sinal pelas mãos e prontamente ela pediu licença e veio me seguindo.

-O que foi isso? – Entreguei a carta em suas mãos e um sorriso se forma em seus lábios.

-Olá, papai Noel. – Riu de mim, abrindo a carta. – Me conhece tão bem?

-Não sabe o quanto! – Reviro os olhos. – Tiara, eu preciso saber, quem teve a ideia dessa carta?

-A Lana. – Fechou a carta e entregou em minhas mãos novamente. – Eu estava no seu estúdio e ela entrou para ficar comigo. Cantamos umas músicas de natal e ela mostrou uns passos novos que aprendeu no balé. Então teve a ideia de fazer uma carta e eu disse que poderia escrever para ficar mais bonitinho.

-Hum. – Balbucio.

-Você sabe que a Lana é uma das crianças mais puras que já conheci. Seu coração é de ouro e parte o meu vendo-a triste por tudo isso.

-Eu não tenho culpa. – Tiara olhou-me com seu olhar “extra-julgador”. Entendi o recado. – Eu tenho culpa, mas eu tento.

-Estou vendo. – Balançou a cabeça em reprovação. – Já ligou pra ela para dar um feliz natal?

-Ela está com o Ric, não irá me atender.

-Mas tente!

-Ok. Foi ela que disse tudo que está aqui?

-Sim, sua filha que disse. E mais, se quiser mesmo que Eleanor volte, tenha consciência do que realmente quer. Se quiser somente a sua melhor amiga, se quer sua companheira de foda ou se quer a sua melhor-amiga-e-companheira-para-sempre!”

Se eu tivesse escutado minha irmã no dia de natal, talvez precavesse tanto sentimento triste da Lana, tantas lágrimas que ela derrubou por saudades da mãe, e eu fui um pouco idiota – agora admito – de deixar isso acontecer.