domingo, 29 de maio de 2016

Capítulo 69



Temos que nos libertar de todos os nossos fantasmas
Nós dois sabemos que não somos mais crianças
Envie meu amor para sua nova amada
Trate-a melhor
(Send my love - Adele)


20 de Agosto de 2015

Eleanor Pov’s

Olhávamos juntos a semifinal de modelos da Costa Leste, eu torcia para Naomi, que por coincidência é uma mulher linda, negra, mostra força e não nega suas raízes. Ela é linda e talentosa. Já Richard estava torcendo para uma loira, robusta demais para ser modelo de passarela, pelo pouco que conheço do mundo limitado dessas modelos e dessa vida.

-Ela precisa ganhar. – Ajeitou-se no sofá.

-Hoje nem é a final. – Rio, pondo outra bala em minha boca.

-Eu sei, mas essa Naomi não pode ganhar da Christina. Olhe essa mulher, olhe o jeito que ela encara a passarela! – Apontou para a televisão.

-Estou torcendo para Naomi. Ela é completa e linda, sem falar que tem talento para a coisa.

-Mas é negra!

-Como? – Arregalo meus olhos, segurando a bala próximo da minha boca.

-Isso, ela é negra. Quer dizer... Não é fácil conseguir patrocínio para negros nesse mundo, Lea. Temos que ser sinceros.

-Tudo bem o lance do patrocínio, mas está torcendo pela loira só por causa da cor da pele dela?

-Não... Quer dizer, talvez. Ela, claramente, tem um pouco menos de segurança que a Naomi, mas terá mais sucesso.

-Então, eu como uma negra, não posso ter mais sucesso que uma branca?

-Você não é negra!

-O que eu sou? Latina? Por que você sabe que existem apenas três raças para os americanos! Brancos, negros e latinos. O que vai dizer que eu sou? Branca?

-Você... Apenas não é negra, entende?

-Sou suja? Ou melhor, sem raça? – Franzo minha testa e ele balança a cabeça com reprovação.

-Está vendo coisa onde não tem...

-Outro dia você falou de um casal homossexual que estava no shopping, depois comentou algo sobre o ator que faz nossa série que é gay, depois perguntou como mulheres faziam sexo, comentário extremamente machista. Agora, você está sendo racista, dizendo que essa mulher não terá o mesmo sucesso que a loira de olhos claros?

-Mas esse não é o óbvio, Lea?

-Não é, Richard. Isso é pensamento de gente pequena. Enxergue que você está no século vinte e um.

-Está me transformando num monstro por causa das minhas opiniões, é isso.

-Não estou lhe transformando num monstro, estou apenas comentando que acho isso errado.

Fico calada e ele também, permanecemos assim por um bom tempo. Sei que brigar por essas coisas pode ser considerado um ato infantil, mas vivo pela liberdade, gosto que as pessoas sejam como são, façam o que querem fazer, sejam felizes sem precisar dar infelicidade à alguém por conta disso. Não admito que um homem diga que as mulheres precisam estar apenas servindo para eles, não admito que digam que não existe amor entre pessoas do mesmo sexo, e nem acredito que o pensamento de que os negros são inferiores aos brancos ainda exista.

Respiro fundo, indo até a cozinha e pegando uma garrafa de água. Bebo-a toda e vou diretamente para o banho, porque o final de semana está chegando e eu preciso ocupar minha cabeça com coisas mais importantes, como minha viagem para Las Vegas amanhã com a família do Bruno.

22 de Agosto de 2015 

Não podemos vir na sexta feira, houve um tempo horroroso e os voos cancelados para Las Vegas. Tempo para aproveitar Vegas hoje nem pensar. Assim que o avião pousou, fomos levados para o hotel. As meninas estavam a todo o vapor, tirando fotos e Eric, Billy e Ric estavam conversando.

Falando em Richard, nós ficamos melhor após nossa discussão, mas ainda não consigo aguentar seus comentários, só estou guardando para não explodir e acabar estragando tudo. Só preciso mostrar para ele como é que as coisas funcionam de verdade.

-Sorri pra essa agora. – Tiara tira a selfie, com todas nós sorrindo. – Opa, cortei a Lea. – Começou a rir, apagando a foto e colocando novamente na câmera.

-Desculpa por ser tão feia. – Me faço de ofendida e levo um tapa nas paletas da Presley. – Delicada! – Torço meu rosto numa careta e ela beija meu ombro.

-Faz cara de rica agora.

-Não preciso, eu já tenho. – Diz Tahiti.

Demos altas gargalhadas. Nosso quarto foi entregue assim que chegamos ao hotel. Um para as meninas, outro para os meninos. Espero que o Ric fique bem por lá.

Separamos nossas roupas para irmos ao jantar de noivado. Billy combinou conosco que não íamos dizer para ela o que era, apenas algo do Bruno que seria bem importante e que deveríamos ir de modo chique.

Meu vestido era rosa fraco, de alças e grudadinho no corpo. O plano era ir de cabelo solto, mas o vestido combinou perfeitamente com meu cabelo preso. Calcei meus sapatos e arrumei minha pequena bolsinha. A parte da maquiagem foi o mais simples, nada de muito espalhafatoso, apenas o básico para a pele, rímel, delineador em gel e batom matte.

-Há boatos que irá matar o Ric do coração hoje. – Comenta Tahiti, pegando-me pela mão e girando meu corpo.

-Mato todos os dias. – Brinco, pensando que quem irá morrer irá ser ela.

-Todos os dias? Wow. – Tiara se impressiona, passando o batom e sem querer acerta no dente.

-Digamos que de uma semana, cinco dias estão certos. Às vezes menos, já que ambos cansamos bastante. – Dou de ombros e coloco a língua para elas.

-Você é como a deusa do sexo. – Presley ri.

-Ah, eu... Esquece! – Tiara começa a rir, dando o lugar para Presley passar o batom dela.

Fomos de limusine para o restaurante. Os meninos já estavam lá, e cada um veio para nos buscar na porta, inclusive o Ric, que trouxe uma rosa com ele. Retirei meu casaco, que ele pegou para guardar. Havia uma parte reservada do restaurante somente para nós.

-Depois daqui vamos ver o Bruno? – Pergunta Tahiti.

-Me ver? – Ele chega, só sorrisos, olhando diretamente para a sua irmã.

-Não estou entendendo mais nada. – Balançou a cabeça, cumprimentando ele.

Bruno passou um por um para cumprimentar. Atrás dele estava a Mia, mas ela somente deu oi de longe. Ele cumprimentou o Ric com uma batida de mão, suspeito. Desde quando eles se cumprimentam assim? Será que é só para agradar a noite da sua irmã? Ao passar por mim e me encarar, ele travou, assim como eu. Levantei da cadeira, ajeitando o vestido e nós nos confundimos. Quando ele esticou a mão para apertar, eu entreguei minha bochecha para ele beijar. Quando eu estiquei meus braços para abraça-lo, ele deu a bochecha para eu beijar. Quando eu dei a bochecha, ele veio me abraçar. Nós rimos, rapidamente, acho que nenhum dos dois sabia como se comportar de verdade. Me sentei novamente, e no fim, nós não nos cumprimentamos.

Assim que eles se sentaram, Billy chamou Tahiti.

Ao ficarmos diante de uma cena tão linda, e de um discurso emocionante, todos aplaudimos quando ela aceitou e deixou-se chorar. Segurei a mão do Ric firmemente e com a outra ele secou uma lágrima fujona dos meus olhos. Sorri para o ato dele e escorei-me em seu peito, admirando a cena linda que estava presenciando.

Nunca fui de fantasiar meu casamento, meu noivado, nem nada assim. Já pensei em como poderia ser, num celeiro, longe da cidade, num lugar calmo e pacato, mas nunca pensei em mais coisas.

Dois músicos entraram no local, enquanto dois garçons serviam o champanhe para o brinde. Ric beija a minha mão antes de nos levantarmos. Brindamos com uma linda música de fundo, depois somente os casais brindaram, somente as meninas, após, somente os meninos.

Compartilhamos de uma refeição maravilhosamente boa, muitas risadas e claro, histórias para contar. O fundo do baú foi bem remexido, até eu apareci nas histórias da família, com direito a interpretações de cenas, das vezes que pagamos micos e tudo mais. Foi ótimo tudo isso.

Por um longo tempo Bruno me olhava como se quisesse falar comigo, eu via no fundo dos seus olhos a mesma coisa que vi há um tempinho atrás, vontade de ter as memórias e sentimentos compartilhados com alguém. E esse alguém não é ela, sou eu. Não é querer me achar, mas desde sempre eu fui a confidente dele, eu e sua mãe. Agora sem ela, sou somente eu.

Eu sinto falta do meu melhor amigo. Eu não queria que nada tivesse acontecido da forma como aconteceu. Nós dois somos terrivelmente culpados por isso.

-Uma foto de todas as meninas! – Tahiti ergueu a taça praticamente vazia.

-Pra já. – Tiara levantou, ajeitando o vestido e puxando a sua câmera. Entregou na mão do Eric e deu as dicas.

Levantei-me e me posicionei ao lado delas para a foto. Fizemos várias poses legais e algumas fotos que irão nos garantir boas gargalhadas. Tudo nos favorecia naquele ambiente, principalmente a luz. Estávamos lindas em todas.

-Ok, agora uma só das meninas da família. – Pres disse alto.

-Aonde vai? – Tiara puxou meu braço quando eu ia me afastando.

-São só as meninas da família. – Disse um pouco sem graça, por todos estarem observando.

-Você é da família. – Falou.

-E a Mia? – Ouvi Bruno perguntar.

-Mamãe chamava e tinha a Lea como filha, não quer que eu diga mais nada, não é? – Presley se impôs, pegando meu outro braço e puxando-me para a foto.

-Sou substituta da Jaime nessa noite. – Dei a língua pra fora e Eric não aguentou a risada.

Tiramos mais fotos, muitas delas. Mia não voltou para o nosso meio. Bruno ficou por um tempo de cara fechada e ela com cara de quem não fazia questão mesmo, mas forçando o sorriso. Falsa!

Quando os meninos tiraram as fotos, e nós ficamos vendo, Ric atirou beijos pra mim, fez corações e ouvíamos aquele coral de “aw” por toda a parte.

Bruno se afastou das fotos e atendeu ao telefone, falou por um tempo e depois desligou. Tiara o chamou de canto e conversou com ele por um tempo. Só deu tempo de virar o rosto deles e ela chamar meu nome. Levantei-me e caminhei até eles, com um sorriso no rosto, mostrando que nada estava me afetando, por mais que não fosse verdade.

-Nossa mãe tinha você como filha, e você a tinha como uma segunda mãe, sim? – Concordei, não fazendo ideia do que estava rolando por ali.

-Não precisava chamar ela. – Bruno bufou.

-Ficou bravo porque eu tirei foto com elas e sua namorada não? – Arqueei a sobrancelha. – Você era menos superficial. – Ri, para descontrair, mas não adiantou muito.

-Não foi por isso. – Revirou seus olhos. – Eu...

-Eu não quero ouvir, tudo bem? Precisa de mais alguma coisa, Yara?

-Não, nada. Obrigada, Lea.

Virei às costas assim que disse “disponha”. Não estava com paciência alguma para dramas do Bruno, para dramas de ninguém, muito menos para os meus. O porquê ele ficou bravo por causa da foto? Porque elas não a consideram parte da família? Não o suficiente para tirar uma foto com elas? Faz favor, ele já foi bem melhor que isso. O quanto ele regrediu nesse tempo que estamos sem nos falar?

Distancio-me de todos quando vejo que Ric está numa conversa bem engajada com Luke e Billy. Vou até o banheiro e fico mexendo em meu celular por um tempo, curto a foto que as meninas postaram, comento algumas e dou uma olhada em quais fotos tinha no meu celular para postar.

Deixo para mais tarde e retorno para a parte onde estávamos, mas no vão entre o corredor da cozinha e a entrada da reserva, Bruno me puxa. Ficamos por alguns poucos segundos um de frente para o outro. O toque dele, após tanto tempo, me traz tantas reações e arrepios.

-O que houve? – Retiro meu braço da sua mão e dou dois passos pra trás.

-Só queria te pedir desculpas por isso. Fiquei sem jeito pela Mia, não queria estar na pele dela sendo excluída de todas. – Fez um movimento estranho com os lábios, pondo sua mão para suas costas. – E desculpas, por ter privado você da festa da Lana.

-Tudo bem. Faz tanto tempo isso. – Preparo-me para sair dali.

-Lea? – O olho. – Como você está?

-Bem, e você? – Baixo a guarda.

-Cansado.

-Dá pra perceber. Está com olheiras... Tem posto aquele chá que eu falei para Tiara, nos saquinhos, todas as noites? Ela comentou que você estava com olheiras profundas...

-Ás vezes esqueço, tem dias que durmo até no estúdio. Super cansado.

-Volte a pôr, sabe que elas amenizam. Não vai querer aparecer nas premiações dessa forma.

-Claro que não. – Gargalha, caminhando até o meu lado. Ficamos olhando para o povo que estava ali jantando, normalmente. – Essa é a última semana de férias da Lana, ela perguntou se poderia ficar na sua casa. Te falou algo?

-Ela me ligou para perguntar, e sabe que ela pode ir pra lá sempre que ela quiser. Nunca a privei disso.

-Ouch. – Faz um barulho estranho e ri sozinho. - Busque ela domingo ou segunda, ela amará passar o tempo com você. Ela sente a sua falta todo o tempo.

-E eu com ela, e eu também sinto a sua falta a todo momento. – Droga. Droga, Lea. Você fez isso parecer que era pra ele, mas não é pra ele. Mas é, ao mesmo tempo. Você está se deixando atrapalhar pelas palavras. Tome atitudes. Falar comigo mesmo não resolve meus problemas, sou bipolar demais para dar conselhos a si. – Vou voltar pra lá. Vamos? – Precisava sair dessa torta onde me enfiei.

-Ah, claro. – Fez sinal para que eu passasse na frente. – Lea, você está linda. Parece feliz!

-E eu estou. Obrigada, Bruno. – Agradeço, oferecendo um sorriso para ele.

Queria dizer que ele também está lindo e parece feliz, mas ele não está lindo e nem parece feliz. Na verdade, ele parece um pouco desleixado, sua aparência um pouco abatida, não dá pra identificar felicidade em seus olhos, eles parecem cinzentos agora, até mesmo quando falou no nome da Lana.

Ele sentou-se ao lado de Mia, enquanto eu não consegui me concentrar o suficiente para sentar. Mal sabia dizer o que tinha acontecido ali. Uma hora nós estávamos nem nos falando, e, de repente, ele começou a falar comigo como se tivesse passado apenas duas semanas sem me ver. Isso era algo que me deixava completamente sem reação para nada, quando ele inventava de fazer algo do tipo.

-Eu estou noiva. - Tahiti parou ao meu lado. - Vocês me enganaram direitinho.

-Você caiu como uma patinha na lagoa.

-Eu sou inocente.

-Não depois de três filhos. Aliás, como está o Haze? Preciso vê-lo! Você morando no Havaí não facilitou em nada a minha vida.

-Sabe que meu lugar é lá, e o seu também. Sempre que quiser, será bem vinda.

-Eu sempre quero, mas meu lugar é aqui.

-Vi sua mãe esses tempos. Ela está tão diferente!

-Mais velha? - Ri. - Nós nos falamos praticamente todos os dias. Me fala sobre cada fio de cabelo branco que acha na cabeça.

-Sério? - Ela ri, balançando a cabeça e provavelmente lembrando algo que se remetesse a Bernie. - Ela é uma figura.

-Ela é mesmo.

-E você... Como estão?

-Ric e eu estamos bem…

-Não digo você e ele, pois sei que estão bem. Mas, você e meu irmão, como andam as coisas?

-Ah! Nós voltamos a nos falar hoje, eu acho. - Rio, olhando para ele rapidamente. - Mas passamos esse tempo todo sem nos falar. Sabe que ele é orgulhoso, eu também. É complicado.

-Mas no fim vocês sempre estão juntos.

-Naquelas. - Nós rimos e pegamos nossas taças para beber o resto do champagne.

E se nós nos falamos apenas por calor do momento e eu estou fantasiando como se nós já tivéssemos nos falado há dias? E se isso não passa de algo da minha cabeça? Sozinha, começo a rir das próprias loucuras. Penso que posso estar ficando louca com toda essa situação, mas que se for mesmo verdade, semana que vem eu estarei com minha pequena para aproveitar o fim das suas férias.

Tomara que seja verdade.

-Rindo sozinha, já? O efeito caiu rápido. - Richard abraçou minha cintura de lado. - Luke é legal, mas ele parece querer mostrar que é amigão do Billy e ele se mostra nem ai pra isso. - Ele ri.

-Quer achar o lugar dele, mostrar que tem um propósito ali. - Dou de ombros.

-Hey, Richard. Aqui tá o vídeo que eu disse. - Luke apareceu com o celular e Ric o acompanhou.

Novamente fiquei ali, olhando para todos eles. Pete me olhava em seguida e sorria, tão querido. Puxo meu casaco, para caso tenha aquele famoso ventinho fresco na rua, e saio para a área externa do restaurante. Havia algumas pessoas por ali, jantando e conversando, e eu, parada sobre o parapeito e olhando para o nada.


Nós viemos para o hotel em seguido ao jantar. Viemos na van, todos conversando como loucos e felizes. Tiara estava ao meu lado, falava sobre alguma coisa com Presley, mas eu estava em outro mundo pra poder prestar atenção e participar do assunto.

Ao chegarmos, me despedi do Richard e dei boa noite coletivo. Nosso quarto agora tinha mais uma integrante, ainda bem que conseguimos a suíte com divisória, e não precisávamos necessariamente dormir com ela muito perto. Mia não era agradável para a maioria de nós.

-Hey, Lea? - Tiara sacudiu meu braço e eu acordo no susto.

-Oi. O que foi? Aconteceu alguma coisa? - Passo a mão em meus olhos.

-Não, não aconteceu nada, mas estão te chamando lá no hall de entrada.

-Oi?

-Vá lá ver o que é. Recebi a ligação e estou passando o recado, agora eu preciso dormir, porque ainda sinto minha cabeça girar levemente.

-Ok.

Estava de pijama e não iria tira-lo. No mínimo era Richard, tentando aproveitar o tempo por aqui. Coloquei o roupão do hotel por volta do meu corpo, calço um chinelo qualquer e desci. Os corredores estavam vazios, milagre. O movimento deveria estar concentrado apenas no cassino.

Ao pé da escada principal, próximo aos elevadores, estava Bruno. Parado, com uma roupa qualquer, olhando para seu celular. Olhei em volta a procura do Richard, mas ao meu ver ele não estava por ali.

-Oi. - Disse ele, tímido, me desconcentrando da busca. - Pensei que não iria descer.

Então foi ele quem me chamou? Tiara!!!

-Oi. - Encolhi os ombros. - Tiara disse que estavam me chamando.

-Preferi não bater lá, sabe como é. - Nós rimos.

-Oi. – Encolho meus ombros no roupão. – Eu deveria ter descido com outra roupa. – Rio, provocando o seu também.

-Vamos... Vamos apenas ali pra fora. – Ele aponta para a saída do hotel para o pátio.

-Claro. – Ajeito meu roupão, ultrapassando mais uma vez a faixa pela cintura para apertá-lo.

Havia mais pessoas por ali. Quatro ou cinco dentro da piscina, algumas espalhadas pelos bancos, bebendo e conversando, e nós, que estávamos apenas procurando algum lugar pra ficar.

-Ali. – Apontou para o pequeno parque de crianças. – Aquele banco parece confortável. – Ele riu, indo em direção do banco embaixo da casinha.

Sentei-me ao seu lado, olhando para o nada, esperando que ele tomasse a atitude de dizer algo, qualquer coisa. E assim ele fez.

-Passamos um bom tempo sem nos falar.

-É. – Brinco com meus dedos. – Um ano e pouco.

-Desculpe...

-Pelo que? – Pergunto e ele ri, meio encabulado.

-Por ter tomado dores inexistentes e ter parado de falar com você. Eu fiquei magoado, um pouco triste por ter nos deixado, mas eu sabia que era o melhor pra você.

-Pra ser sincera... – Me ajeito no banco. – Nunca achei que pararia de falar comigo por conta disso.

-Eu espero que me perdoe por isso.

-Não tenho o que perdoar você. As coisas acontecem como tem que acontecer.

-Fico feliz por isso.

-O que lamento foi ter posto a Lana no meio desse fogo cruzado. Ela não tinha nada que ver com isso, ela não precisava ser posta na história.

-Eu estava magoado, sou orgulhoso e egoísta, de certa forma achei que se a Lana parasse de ir tanto na sua casa, você iria correr atrás de mim. É coisa de criança.

-Sim, é mesmo. – Arqueio a sobrancelha. – Eu ia correr, mas depois que Tiara começou a resolver, trazendo-a pouco a pouco na minha casa, deixei assim. Ela é a sua filha, você tinha todo o direito.

-Mas eu fiz mal a ela.

-Isso eu já não posso opinar. – Rio. – Acontece.

-Estava com saudades das suas risadas. Nós fomos ao Havaí, eu vi a sua mãe, ela falou?

-Comentou sobre.

-Pois é. Senti a sua falta lá. Senti falta quando fui a praia, quando estava na casa da minha mãe, quando passei na frente do nosso colégio e, quando vi Kai, desejei que não estivesse lá. – Ele ri. – Nunca vou gostar dele.

-Coitado. – Tiro o pigarro da minha garganta. – Ele é um bom homem.

-Lea. Em algum momento você também sentiu minha falta?

Segurei um riso sucumbido de mágoa. Não iria dizer que a todo tempo eu sentia a sua falta, não iria dizer que ele é uma pessoa mais que especial na minha vida e que o que ele fez, me deixou bem mal. Eu tenho meus orgulhos, e no final, eu fiquei bem. Sobrevivi ao tempo sem falar com ele.

-Em alguns momentos, sim. – Dou de ombros. – Mas o tempo fez com que isso passasse.

-Não vamos mais fazer isso, ok? Vamos apenas fingir que esse tempo não existiu.

-Foi você quem começou. – Rio. – Por mim nada mudou.

-E como você está? Seu trabalho, seu relacionamento, a casa... Como estão as coisas?

-Está tudo bem. – Respondo. – Meu trabalho é sempre essa montanha russa, ações indo e vindo, baixas e altas, tudo bem instável. Ric e eu estamos bem, moramos juntos agora. Ele voltou pra faculdade e deixou o emprego de modelo somente para emergente.

-Ah. – Ele suspira. – E como estão lá na casa?

-Muito bem. Foi ruim me adaptar no inicio a uma casa bem menor, mas agora já estou até acostumada, como antes. – E como estão por lá? E a carreira, namorada, e outras coisas?

-Ah, agora que estou dando um tempo, tenho me dedicado apenas para músicas novas. Estou trabalhando com artistas, conhecendo outros. Digamos que está tudo bem. – Encolheu seus ombros. – O resto está tudo como antes. Lana crescendo e aprendendo, como você mesma sabe, eu e Mia juntos ainda, levando em frente.

“Levando em frente” seria um termo para “empurrando com a barriga”? Sempre disse que essa mulher não é a certa pra ele.

Ficamos em silêncio, talvez tenhamos desaprendido a conversar um com o outro, ou é apenas esse quebra gelo inicial que sempre me mata. Fico acanhada, estalo meus dedos e um pouco nervosa por não saber o que dizer.

Sinto seu braço envolver meu corpo, e ele me abraça de lado. Soltei o ar que estava segurando e pus uma das mãos por cima da sua. É tão bom senti-lo de novo. Oxitocina, conhecido como hormônio do amor, é o que produz quando também um abraço é sincero e o precisamos. Eu não entendo muita coisa de biologia, medicina, e etc, mas sei que esse hormônio traz muitos benefícios para a saúde e nos faz sentir seguros.

Seguro, era essa a palavra.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Capítulo 68



Se você me amava
Porque você me deixou
Tudo que eu quero
E tudo que eu preciso
É encontrar alguém
(All I Want – Kodaline)


Ainda estava me acostumando com a casa um pouco mais vazia. Mas não tanto.

Olhei para o lado, com o corpo nu e quase todo descoberto do lençol, Mia tinha curvas lindas, fazia qualquer homem se perder por ali, até mesmo eu me perdi, mas somente nisso. Sua expressão enquanto dormia, leve e tranquila, fazia-me pensar que eu sou horrível por estar ao lado dela e não pensar nela nunca. Quando estamos transando eu penso nela, mas fora isso penso apenas em Eleanor. No que ela está fazendo. No que ela está pensando.

Pego meu celular e ligo o WiFi. Na maioria do tempo ando deixando-o desligado, já que preciso me concentrar em músicas novas e tudo mais. As notificações correm, as fãs que não desistem de mim ainda estão ali. Graças a Deus. Eu também não desisti delas, mas não consigo postar algo, não consigo me concentrar numa rede social sem pensar em milhares de indiretas para a Eleanor.

Entro em meu Instagram e atualizo a timeline, logo quem me aparece é Urbana com uma foto delas. Não pode ser... Desde que eu parei-a de seguir, tudo se converte em ela aparecer pra mim de qualquer forma.

Não resisto ao toque de entrar no seu perfil e ver o que ela anda fazendo. Há semanas eu não via, não procurava, achei até que tinha superado a situação, mas agora vi que não.

Em seu perfil, a primeira foto que aparece é a do seu perfil. Era de estúdio, parecia ser mais de algum book. Olho rapidamente para Mia que ainda dormia tranquilamente. Cliquei foto por foto, havia ela, ela e seus pais, ela e minhas irmãs, ela e a Tiara, ela e Urbana, até ela e o Phil. Ah, também tinha algumas fotos da minha filha, mas sem aparecer o seu rosto. Lea a protegia e protegia sua imagem... Coisa que nem eu fiz quando tive a ideia maluca de leva-la ao Grammy.

E então há fotos com o Richard. Várias também, em vários momentos, de todas as formas. A maioria eram mais reservadas, mas de qualquer forma, ali estavam as fotos deles. Rodei a sua linha até o inicio de sua conta, onde tem as primeiras fotos postadas. E depois de 146 fotos, descobri que apenas duas fotos eu estou.

Uma quase nem apareço, apenas tem meu corpo num pedaço. Foi no Havaí, uns anos atrás. A outra é eu e ela, no Píer de Santa Monica. O cabelo estava batendo no seu rosto, enquanto eu estava rindo dela e a olhando. Nós nos olhávamos... Como nunca percebi que nosso olhar era tão intenso? Nessa época ainda ficávamos ou não? Não consigo lembrar, minha memória bloqueou muitas coisas.

-Manda imprimir essa foto! Coloque no lugar de onde está a nossa. Irá ficar lindo.

Me assustei com a voz de Mia preenchendo o quarto. Quando olhei para o lado, ela estava levantando e caminhando nua até o banheiro, com passos largos, nada gentis.

Retirei do perfil dela rapidamente.

-Você faz criar urubu onde não há carniça, Mia! – Retruco para ela, que para e vira seu corpo.

-Eu? Caralho, Bruno, eu estava dormindo ao seu lado. Eu sou a sua namorada e você está olhando foto da sua ex.

-Primeiramente que ela é minha melhor amiga, e não minha ex.

-Não minta! Quando você vai cair na real de que ela não é mais a sua melhor amiga?

-Depois que ela me disser que não somos mais. – Minha voz saí um pouco mais alta.

-Ela já disse, para de ser idiota.

-Você não sabe de nada, Mia. De nada!

-Essa mulher é uma pedra em meu sapato. Porque você estava olhando o perfil dela?

-Apareceu no meu! Urbana postou uma foto com ela e eu resolvi ver como estava, se tinha fotos da minha filha...

-Invente uma desculpa melhor, por favor! Eu não aguento mais essas mesmas porcarias de desculpas. Não é a primeira vez que você faz isso!

-Mia, quando que você vai parar de ter ciúmes dela? Já não chega ter excluído o número dela, bloquear ela do twitter, apagar todos os seus e-mails... O que quer mais?

-Que ela suma da sua vida.

-Ela é a mãe da minha filha! Ela é minha amiga! Entenda que nunca irei me desvincular dela.

-A sua filha não tem mãe, para de se iludir.

-Talvez seja melhor ela não ter tido a mãe biológica, do que ter uma mãe como você! – Levantei-me da cama, largando o celular por cima do edredom branco. – Porque ninguém merece ser fruto seu.

-Você está me magoando, Bruno!

-E você por acaso não me magoa? – Fiquei-a encarando. Não dava pra levar tão a sério nossa discussão vista de fora, já que ela estava nua e eu com uma boxer azul clara. Mas era bem sério! – Talvez seja hora disso ter um fim.

-O quê?

-É, hora de você pensar um pouco. Ir pra casa dos seus pais, ficar afastada para poder rever o que realmente quer...

-Não! – Seu corpo se aproxima rapidamente do meu, numa colisão forte. – Não fale isso novamente. Eu não vou me afastar de você, apenas tenho muito ciúmes. Tenho medo de te perder, e não saberia o que fazer sem você.

07 de Junho de 2015

Eleanor Pov’s

Hoje era aniversário de Lana, eu sabia disso.

De um ano pra cá as coisas parecem estar como batimentos cardíacos. Elas sobem, descem e eu continuo sempre nessa mesma coisa. Minha relação com o Richard estava boa, como sempre, apesar de termos tido uma grande briga por causa do seu amigo. Sam alistou-se para o exército. Teve ajuda de um tenente que é amigo do seu pai, mas Richard não concordou com isso, disse que era suicídio. Já eu acho que ele está fazendo uma coisa fantástica.

Ele vai defender nosso país, nossa pátria, e nós mesmos.

Esse foi o motivo dele ter ido para a casa dos seus pais por uma semana, e nós termos nos falado apenas uma semana após o ocorrido. Relevei tudo, pois gosto dele e também não consigo me imaginar sem Megan ao meu lado, ou agora, Tiara.

Falando nelas. Tiara e Megan decidiram sair mais para curtir a vida. Até viajar no final do ano elas foram. França e Itália. Dá pra acreditar? Senti inveja delas e ciúmes quando elas retornaram com milhares de novidades e eu aqui, presa ao trabalho e Richard.

Sabe aquela história de batimentos cardíacos? Ela esteve presente em tudo na minha vida sempre, mas nesse um ano foi pior. Tinha momentos bons e ruins no mesmo dia. Quando eu acordava, nunca sabia se seria um grande dia ou um dia de bosta. Simplesmente me arrumava e encarava a vida.

Digo isso, pois, Lana começou a vir pra minha casa até setembro de dois mil e quatorze diretamente. Todos os finais de semana e algumas semanas por completo, estava tudo bem maravilhoso. Mas, a turnê do Bruno acabou. Ele ficou dentro de casa, socado, por dias. Tiara disse que nem fazia a barba direito, e como ele tem essa coisa de bugre em sua genética, a barba não cresce rente e completa como a de todos, é uns tufos em pequenas partes, com grandes falhas. Estranho. No mínimo.

Isso custou-me Lana. Lana ficando sempre naquela casa com ele e Mia pendurada junto. Vinha pra minha casa um final de semana sim e outro não. Em dezembro eu a vi somente duas vezes. Uma vez em que a busquei na escola de balé e outra quando ela veio com Tiara até a minha casa e passamos o dia no shopping.

Isso não é um ponto alto.

Estamos em Maio e, se eu vi Lana mais de vinte vezes esse ano, é muito. Ainda em Maio e Bruno e eu não nos falamos. Nem olhamos cara-a-cara. Nós simplesmente ignoramos a existência um do outro. Um ano e ainda estamos nisso.

Eu não escolheria esse lado, eu juro. Fiquei com Richard, sai de casa, mas eu nunca pararia de falar com ele por causa disso. Ele ainda é, ou era, meu amigo. Pra mim, nada acabou.

Mas ele quer o afastamento necessário. Ele está evitando ao extremo nos vermos, por isso está dando uma festa para Lana hoje, uma festa com direito a tudo, e não me convidou.

Até Megan foi convidada e eu não.

Se isso me magoou? Muito! Pensei que nós ainda tivéssemos uma chance, aquela velha chance de um dia nos falarmos novamente e contarmos tudo o que aconteceu um para o outro depois de um tempo sem nos falar, mas não. Ele quis me excluir da vida dele, isso dói, mas é o que ele quis e eu preciso respeitar a sua vontade.

-Vai ficar cortando essa cebola até ela desaparecer? – Richard olha para a tábua de madeira a minha frente, a faca em minha mão e a cebola cortada bem pequena.

-Opa. – Começo a rir, nervosamente. – Eu nem prestei atenção.

-Você está aérea. – Sua respiração sai profundamente. – Todos os dias eu penso que sou um dos mais velhos na faculdade, que é melhor eu desistir e que isso não é pra mim. Mas, quando eu estou chegando lá na porta, isso tudo é esquecido e eu fico bem. No final do dia sempre estou feliz com a aula que tive.

-Isso não tem a ver com o Bruno. – Balanço a cabeça.

-Ah, Lea... Sei que as coisas não parecem nada legais, e que você amaria estar lá hoje e garanto que todos vão sentir a sua falta, mas, o que é pra ser, será.

-Você se contradisse.

-Não mesmo.

-Acabou de dizer que pensa em largar a faculdade, mas que quando chega lá tudo muda, e no final do dia está tudo bem, mas já parou pra pensar que não há relação alguma isso com a minha história? – Largo a faca e fico olhando fixamente para a cebola cortada. – Nós não falamos há um ano, isso afetou minha relação com a Lana. Ela é minha também, Ric. Ela é a minha pequena.

-Eu sei.

-Se você sabe, então apenas respeite a ideia de que eu estou triste por ver tudo isso escorrendo pelas minhas mãos e não saber o que fazer.

-Abra um processo e tome parte da guarda dela.

Meu namorado dá as costas pra mim. Já disse que não vou envolver nada disso na relação, Lana não é minha. Nunca ganharia nada e isso é uma ideia ruim.

-Quer saber, Lea? – Olho para a porta da cozinha e Richard está ali novamente. – Se arrume, temos uma festa para ir.

-Que?

-Isso mesmo! Ela é a sua filha, você tem direito de estar com ela e eu tenho certeza que está fazendo falta.

-Mas há segurança, provavelmente.

-E você não é melhor amiga da irmã dele, por acaso?

-Sim, mas... – Aquilo me deu uma injeção de ânimo repentina. – É melhor não.

-Tiara vai abrir a porta para nós, já estamos dentro.

-Como você...? Isso já estava planejado?

-Não, acabei de mandar uma mensagem pra ela. Guarde suas cebolas estripadas e coloque uma roupa, temos uma festa para ir.

-Ok. – Pego a faca e coloco dentro da pia. – Ok!

α

Tranquei quando cheguei no portão. Eu nunca mais tinha ido lá, desde que sai. Uma mão de Richard estava entrelaçada com a minha e a outra estava transpassada em minhas costas. Ele estava seguro de tudo, isso estava me dando coragem até chegarmos aqui, agora isso passou e eu simplesmente só consigo pensar em tudo sobre nós. Sobre os bons tempos que tive na casa, nas boas memórias e nas nossas aventuras. Nos sorrisos que me foram arrancados, das viagens para longe, de tudo o que eu passei, até mesmo de quando entramos aqui pela primeira vez para ver a casa e depois com a decoradora e planejadora. Tudo o que passamos para conquistarmos isso.

O que passamos, sim. Pois eu estive ali o tempo todo e agora eu não estou mais. Talvez seja coisa da minha cabeça, mas isso é ruim, sim? Não posso chegar ali agora, nós construímos e eu abandonei. Abandonei e ele ajudou com esse propósito, nós dois somos culpados.

É muita coisa para absorver.

Meus pés travaram e Ric me puxou com delicadeza, mas não adiantou, ali eu fiquei, estática.

-Lea? – Me chamou. – Vamos entrar?

-Vá na frente, eu já vou.

-Mas... – Sua respiração foi profunda demais, como quem diz “me poupe de mais dramas”. – Vou chamar suas amigas.

Não contestei, acho que nem tinha como. Parada ali, as lembranças voltaram para quando fomos à Paris, quando briguei com ele e fui até a igreja sozinha, onde fiquei parada por um longo tempo, admirando a imensidão daquilo, viajando em pensamentos e profundamente triste por descobrir que tinha me apaixonado por Bruno. Pelo meu melhor amigo.

Eu estava sem chão, e a sensação disso tinha retornado agora.

Não vou ser bem vinda ali, vou ir de penetra, uma penetra que ninguém quer, por isso ninguém convidou.

-Eleanor? – Tiara estalou os dedos em minha frente. – Você veio até aqui, pode andar mais alguns passos e entrar. Já preparei todos sobre a sua vinda.

-Não minta pra ela, isso pode apavorar. – Megan disse baixinho. – Nós estamos esperando você e vai ser uma coisa boa.

-Viu, amor?! Vamos apenas entrar. – Pegou em minha mão.

-Eu acho que não quero. – Pigarreio. – Tenho certeza de que não quero.

-Você quer sim.

-Eu não quero. Nós não estamos nos falando, seu irmão cortou relações comigo e não me convidou. Não me sinto à vontade sendo penetra.

-Você quer drama, Lea? Então vamos fazer um. Porque eu estou doida pra dizer algumas coisas.

-Então, apenas fale! – Estufei meu peito.

-Richard, você poderia dar um minutinho pra nós, por favor? – Megan perguntou.

-Claro. Vou dar uma olhada pelos redores.

-Ok. – Tiara respondeu. – Você quer o que, Lea? Meu irmão é um idiota, pode até ser um crápula, mas você também o magoou. Magoou com a história de sair de casa e morar com o Richard, ele nunca falou sobre isso, mas eu sei, eu sinto. E você se também se magoou sozinha, saindo de casa daquela forma e fazendo tudo do seu jeito. Agora quer que ele simplesmente convide você? Você tem que tomar atitude.

-Tiara, não diga isso pra mim. Sou eu quem estou com ele há anos. Sou eu com quem ele ficou por muito tempo, que ajudou ele sempre que ele precisou, que esteve com ele nos piores momentos. Por ele criei uma filha, que não é minha, mas me despertou o instinto maternal. Não diga que eu o magoei. – Recupero meu fôlego. – Passei por tudo, sofri estando apaixonada por ele, carregando tudo nas costas, até começar a ser maltratada quando resolvi seguir a minha vida. Ou você não sabe o que ele fazia? Ah, claro que sabe, mas vai defender o seu irmão. Eu posso ter sido extremista, ter largado tudo que eu tinha aqui e ido fazer minha vida sozinha, como você disse, magoando ambos, mas eu sempre estive aqui! Ele ainda é meu melhor amigo, você sabe melhor que ninguém que eu não parei de falar com ele, e sim ao contrário, então, por favor, não me pregue morais.

-Você tem que tomar atitude, Lea. – Tiara arregala os olhos. – É sobre isso que estou falando.

-Atitude pra entrar ali e confronta-lo? Dizer que mesmo não sendo convidada, eu vou ir igual? Desculpe, eu não sou assim.

-Lea, escute! – Megan pega meu braço. Meus poros estão todos abertos, eu bufo como um gato bravo.

-Você o ama, caramba. Por isso que não quer ir lá, por isso aceitou isso numa boa, porque você o ama e precisa tomar atitude quanto a isso.

-Eu amo o Richard.

-Você está apaixonada por ele! – Megan aperta minha mão.

-Eu...Não. Ok?

-Pare de lutar contra isso!

-Eu não o amo, eu amo o Ric. É com ele que estou, e eu estou bem. Não quero entrar lá e espero que respeitem minha vontade. Deem um beijo em minha pequena e entreguem isto a ela. – Puxou um saquinho lilás de minha bolsa. – Diga que eu sinto muito e que nós nos veremos essa semana. Preciso ir.

Bruno Pov’s

As coisas não estavam tão simples. Não fiquei bem após terminar minha turnê. Meu corpo parecia não responder a nada que eu queria e nem dedilhar alguma canção eu consegui. Ou eu estava entrando em depressão, ou estava precisando tirar umas férias.

Mas dois meses depois eu me encontrei dentro do estúdio, escrevendo uma canção triste. Eu a fiz por várias vezes, escrevendo mil e uma palavras que queria colocar nela, escrevendo pequenas frases que eu precisava encaixar e isso me deu ânimo.

-Eu te desejo o melhor de tudo que este mundo pode dar. E eu te disse, quando você me deixou, que não há nada para perdoar, mas eu sempre pensei que você ia voltar. Diga-me que tudo o que você encontrou foi um coração partido e miséria. É difícil pra mim dizer que estou com ciúmes da maneira que você é feliz sem mim. – Li o trecho recém escrito para Phil, que me analisou por alguns momentos. Em alguma outra vida, ele foi um psicólogo, pode apostar.

-Me diz que essa música tem fundamento.

-Tem! É a história de alguém triste, sentindo ciúmes daquilo que não tem mais.

-É a sua história?

-O quê?

-É a sua história, Bruno?

-Não. – Rio. – Nada a ver.

-Você sabe que sempre pode desabafar comigo. Sempre. Eu sei que essa música não é apenas uma música qualquer. Continue escrevendo que eu darei um ritmo para ela. Vai ser um sucesso no próximo álbum.

E eu escrevi ela completa até o final de dois mil e quatorze ela estava prontinha. E Phil fez o que prometeu, um ritmo para a música. Depois disso escrevi mais algumas e uma outra que ainda não dei título, mas que estou trabalhando duro até hoje. Ela está quase pronta, mas ainda falta algo nela. Só não sei o que.

-Talvez eu não queira perder uma amante e amiga em uma noite só. Se estiver bom pra você, eu não devia ter brincado com a sua mente e com a sua vida tantas vezes. E, talvez, eu não queira ficar sozinho. Querida, você é meu único amor, atrás de toda a verdade sobre mim, está tudo o que você é.

Leio ela em voz alta e tento encaixar o ritmo que acho perfeito. Ela tem tudo, menos um final. Não consigo de jeito nenhum achar algo para que possa completa-la e todos os dias eu tento, eu juro.

Philip continua dizendo que essas músicas que simplesmente saem da minha cabeça, são expressões da realidade, que eu sinto isso, mas por não admitir por mim mesmo, eu acabo dizendo que não é. Não é algo para a Eleanor como ele acha, é apenas algo que sai sem um por que. Nem tudo se precisa de um por quê. Não é?

Nós estamos há um ano sem nos falar, chegou o dia do aniversário da minha filha e ela não foi convidada. Não fiz por mal, mas talvez eu não esteja preparado para vê-la em minha frente, para talvez ter que falar com ela, ou acabar tendo que sair em alguma foto junto. Admito que posso ser o homem mais egoísta e orgulhoso da face da Terra, mas é assim meu jeito e não vou mudar.

A festa estava rolando tão bem, vários convidados e muitos sorrisos. Os presentes enchiam a caixa e Lana estava distribuindo sorrisos. Música boa e doces. Minhas irmãs fizeram um ótimo trabalho de decoração.

Tiara e Megan estavam em uma mesa com minhas outras irmãs, mas saíram por alguns minutos quando receberam uma ligação. Eu sei que elas são melhores amigas de Lea, e isso me deixa curioso. Levanto e vou atrás delas. As duas saem porta a fora, não corro para ir atrás, então procuro ir até o quarto de hospedes que tem uma visão boa do portão.

Espiei pela janela, já que minha curiosidade fala mais alto. Lá estava ela, parada, sozinha. Seu rosto não tinha expressão nenhuma, ela apenas estava estática. Seu cabelo estava mais comprido, as pontas diferentes, mais claras.

Puxei a cortina para ela não me ver e fiquei apenas espiando através do quarto escuro. As grades me impediam de ter uma visão melhor, mas Richard chegou com as meninas. Eles falaram algo e ele saiu, simplesmente deixando-as ali.

Não sei o que estava rolando para simplesmente elas começarem a, claramente, discutir. Megan pegou a mão de Lea e falaram mais algumas coisas, até ela pegar um saco de sua bolsa, entregar na mão de Tiara e sair.

Minha irmã e Megan ficaram ali, paradas, sem reações. Apenas olhando para o caminho que ela seguiu e falando alguma coisa.

Saí do quarto, fechando a porta e parando um pouco para fingir que amarrava meus sapatos. Eu sou tão infantil assim? Ao mesmo tempo que me arrependo de não ter convidando-a, meu coração diz que seria ótimo vê-la. E, por mais que nós tenhamos nos visto de longe, ou melhor, eu ter visto-a, ele ainda continua assim.

-Estava procurando por você. – Mia me encontrou no meio do caminho. – Minha mãe chegou, perguntou onde estava. – Ajeitou minha gola. – Você está lindo. – Beijou minha boca superficialmente. – Vamos lá, comporte-se. Você está gelado. – Observou ao pegar minha mão.

-É o tempo. – Dou de ombros.

Falei com a mãe dela e seu pai. Não que eu não goste deles, mas a mãe dela parece me olhar como se eu fosse uma grande nota de dinheiro, uma pilha deles ou até mesmo uma chave de cofre e isso não me deixa nada confortável. Mas, infelizmente, eu preciso aguentar.

Para minha sorte vi minha irmã entrar para ir até o jardim, onde estava rolando a festa. Pedi licença e a alcancei.

-Estava procurando você. – Falei, ajeitando minha gola que Mia tirou do lugar.

-É. Pra que?

-Precisava que tirasse mais umas fotos antes do parabéns. – Sorri pra ela, mas ela não me retribuiu.

-Como você pode estar tão tranquilo?

-Como?

-É, Bruno, tranquilo. Parece que Lea nem existiu na sua vida e não ajudou a criar Lana. Você não a convidou para esse aniversário. Tem noção do quanto isso pode ter machucado?

-Não a convidei porque eu não falo com ela. Não montei a lista de convidados sozinho, foi ajuda de Jaime. Mia que enviou os convites.

-Tudo bem, Bruno. Onde está a câmera?

-Você está braba comigo?

-Ela estava aqui, Bruno. – Megan dá de ombros. – Achei que quisesse saber que ela estava aqui e não entrou, apenas entregou o presente da Lana. – Ela torce seus lábios e dá meia volta por nós, saindo pela porta dos fundos.

-Onde está a câmera?

-No armário da cozinha, coloquei lá para as crianças não pegarem.

-Ok.

Parei próximo a porta, observando pela camada do vidro dela, a felicidade das pessoas, os sorrisos e conversas. Aquilo... Era para eu estar ali aproveitando também, era pra eu estar ali, sendo feliz e estando com a minha pequena menina. Ela está completando sete anos e o que eu estou fazendo? Privando-a de ver a sua mãe, tentando convencer ela e a mim mesmo que Mia é mãe dela também, tentando mostrar pra todos que sei me virar sem a Lea e que estou bem?

Eu sou um idiota. Um idiota, orgulhoso e egoísta.

Eleanor Pov’s

21 de Junho de 2015

O celular sobre a mesinha ao lado da minha cama vibrava incisivamente. Não quero atender, meu corpo está cansado demais para responder algo. Viro para o outro lado sentindo falta de Ric ao meu lado na cama. Fico com os olhos entreabertos quando ouço o roncar da mesa com a vibração do celular.

Reviro meus olhos ao ver o nome do Bruno piscando na tela.

-Alô.

-Lea? – Ouço a voz de Tiara. – É a Yara! Preciso de você!

-O que aconteceu? Porque está me ligando do celular do Bruno?

-Eu estava na casa dele esse final de semana... Lea, ele está indo para a emergência.

-O quê? – Arregalo meus olhos e, abruptamente, levanto-me.

-Você pode me acompanhar? Estou sem carro, sem nada. Umma está com a Lana...

-Ok, claro que sim! Pego você ai em minutinhos.

-Ok.

Fico perdida assim que desligo o celular, a dor parece desaparecer do meu corpo e ele se treme por completo. Eu sou tão idiota que nem perguntei o que aconteceu.

Pego uma roupa qualquer dentro do meu guarda roupa, a primeira que avisto. Coloco meus cabelos presos num coque, sem nem penteá-los e calço qualquer par que vejo a frente, puxo a bolsa da cadeira e saio às pressas.

Fico criando mil teorias em minha mente, teorias que me deixam ainda mais aflita, sem saber ao certo o que aconteceu com o Bruno. Será que foi acidente? Pode ter sido algo que ele comeu, ou também alguma emergência odontológica. Ou pode ser nada... Ou pode ser tudo. Definitivamente eu odeio minha mente que embaralha mil e uma coisas.

Tiara estava parada na frente da casa. Mal estaciono e ela já entra. Diz que foi para o UCLA, então sigo pra lá antes de qualquer coisa.

-Agora sim... O que aconteceu?

-Ah, Lea, ele andava muito trancado no estúdio. Sabe, só trabalho, só trabalho... Ninguém sabia o que rolava quando ele estava ali dentro sozinho. De repente hoje, ouvi um barulho peculiar e resolvi investigar, até brinquei com ele antes de entrar. – Ela ri, parecendo querer amenizar. – Mas ele estava lá, Lea... Caído no chão, tendo uma convulsão e eu não sabia o que fazer. Eu sei que nós não nos falamos desde domingo, no aniversário da Lana, mas, eu precisava de você.

-Tudo bem, eu não te culpo por isso. Do que foi isso?

-Eu não sei. – Deu de ombros. – Chamei a ambulância e em instantes ela estava lá, aí liguei pra você. Achei uma garrafa de Bourbon pela metade e um maço de cigarro quase vazia.

-Temo que ele tenha voltado com o cigarro.

-Mas ele nunca mais se envolveu com isso. Faz anos e anos...

-Sim, aqui em Los Angeles mesmo, quando nos mudamos, ele fumou uma carteira, se muito...

-Será que ele não fumou escondido?

-Não... Ele não faria isso com a Lana. Ele decidiu mudar de vida por ela, ele não largaria tudo no lixo. Seu irmão faz tudo pela filha, Yara.

-Eu sei... Mas tem aquela namorada dele... Eu nem liguei pra ela pra avisar, acho que quanto menos tumulto agora, melhor pra nós e pra ele.

-Isso. – Concordo com ela e permanecemos em silêncio por um breve tempo.

-E as drogas?

-Não, Yara... Ele se envolveu uma vez, e se deu bem mal. Prometeu que não faria novamente, e eu aposto que não faria...

-Não sei o que há com o Bruno, sinceramente. Será que ele está com muita pressão pro próximo álbum?

-Não sei. – Torço meus lábios. – Não ando falando com ele seguido.

-Diante de toda a situação ruim, preciso descontrair falando algo.

-O quê? – Pergunto, curiosa.

-Como falei, estou passando alguns dias lá. Quando estive lá na semana passada, me deu aqueles episódios de insônia, então peguei minhas coisinhas e fui pra sala. Passei pelo corredor e ouvi a discussão da Mia com o Bruno. – Ela ri e coloca a mão sobre a boca. – Não é do meu feitio escutar conversas alheias, mas a curiosidade bateu mais forte. Ouvi a Mia dizendo que ele falou o seu nome enquanto transava com ela.

-Poxa.

Comecei a rir juntamente dela, mas pensava ao mesmo tempo no porque ele falou meu nome enquanto estava com ela. Ou ele pensou em nossas transas, ou entrou em transe e precisava descarregar a fúria. Há duas possibilidades que eu enxergo, mas vá que haja mais delas.

Pelo ou menos essa foi nossa distração até chegarmos no hospital.

-Tiara... Quem veio na ambulância com ele?

-Ele veio sozinho.

-Por quê?

-Porque eu entrei em pânico, não sabia se chorava ou tremia, ou simplesmente caía no chão... Definitivamente eu não sabia o que fazer.

-Isso é assunto pra outra hora, mas nunca mais faça isso. Principalmente nas circunstancias dele como pessoa da mídia.

-Não me julga!

-Ok. Deixa isso pra outra hora.

Paramos em frente a moça com cabelos presos, unhas compridas e azuis claras. A vestimenta é um uniforme padronizado do hospital. Ela nos olhou de cima a baixo e antes de atender-nos, atendeu ao telefone.

-Pois não, o que posso ajuda-las?

-Viemos para acompanhar meu irmão. – Tiara sai em disparado.

-Nome do paciente?

-Peter. – A moça nos olhou com uma cara de deboche. Daqui a pouco sairia algo como “jura? Há pelo menos uns vinte com esse mesmo nome”. – Peter Hernandez. – Complemento.

-Gene?

-Isso!

-Ele deu entrada na emergência, de ambulância, sem nenhum acompanhante... Qual seria o grau de parentesco?

-Eu sou a irmã dele, e ela é a namorada. – A olho rapidamente, arqueando as sobrancelhas, ela pisca pra mim.

-Vou precisar de um número de documento. Somente uma está autorizada a falar com o doutor para ver se é liberada a visita, a outra pode esperar no saguão da emergência.

Dissemos nossos documentos e dois crachás foram entregues. Entramos pelas portas que se abrem para ambos os lados, com os olhos curiosos, procurando encontrar o doutor Cramaat.

Deixei que Tiara falasse com ele e fosse ver o Bruno, já que ela que o encontrou. Fiquei esperando ao fundo do cenário, roendo as unhas. Tiara falava e gesticulava, enquanto o médico observava e opinava de vez em quando.

Ela fez um sinal com as mãos, estava me chamando. Enquanto ia me aproximando, o médico pega uma prancheta em mãos e explica algo para Tiara.

-Olá. – Colocou uma mão sobre meu ombro. – Estava aqui explicando para a irmã do seu noivo que a situação dele está tranquila. Ele está estável agora e passa bem. Em algumas horas ele acordará, já que tivemos de colocá-lo no sedativo após as convulsões.

-Graças a Deus e vocês! – Respiro fundo. – O que ele teve?

-Peter teve uma convulsão devido ao uso do cigarro em local fechado, o acumulo de fumaça fez com que tivesse falta de ar e a pressão que o álcool causou em seu corpo, fez com que ele não tivesse forças para conseguir sair ou respirar mais afundo. Ele é fumante há quanto tempo?

-Ele não é fumante... Começou agora. – Tiara responde por mim.

-Certo, então menos uma preocupação. E quanto à bebida, ele bebe bastante?

-Bebe... Não é nenhum alcoólatra, mas ele bebe socialmente.

-Vou pedir exames do fígado. – Anotou na prancheta. – O exame de sangue estará pronto em alguns instantes, mas você pode me adiantar algumas coisas. Você e Bruno mantém uma relação saudável?

E agora, como responder isso? Que sinuca de bico você me pôs, Tiara!

-Sim!?

-Usam camisinha?

-Sempre. Acho que duas ou três vezes que esquecemos.

-Ok!

-Então, doutor, nós precisamos nos preocupar?

-Claro que não! Vou dar uma olhada nos exames dele, se estiver tudo ok, ele passará a noite conosco somente por observação.

-Ok, obrigada. Muito obrigada. – O olho com compaixão e o vejo virar as costas.

O doutor para, vira e nos olha.

-Vocês podem entrar ali. Ele está no quarto. Só nos chamem quando ele acordar para que possamos fazer alguns testes.

-Obrigada.

Tiara foi ao banheiro assim que entramos, deixando eu ali, olhando para o seu corpo repousando sobre a cama de hospital. Ele parecia tão pálido, preocupado. Me aproximo, com receio, tocando sobre a sua mão que está um pouco mais quente que a minha.

-Você me assustou... – Rio, sentindo o peso da lágrima se formar em meu rosto. – Porque se sobrecarregou dessa forma? Se precisava de alguém pra compartilhar as dores e angústias, tinha eu ao seu lado.

Aperto sua mão, querendo que ele aperte de volta.

O olhando assim, frágil, a saudades dos nossos tempos bate mais forte. É esse homem que conseguiu me tirar da atmosfera e me fazer viajar. Viajei pra longe, pra Vênus, pra Marte, por todo o espaço.

Pensar que tudo isso poderia ser diferente, que eu realmente poderia ser sua namorada, como Tiara disse para a recepcionista de unhas compridas, quiçá ser sua noiva, como o doutor disse.

-Melhore logo. Seus exames vão dar todos bons e vamos sair dessa, juntos. – Me inclino sobre a mesa. Passo a mão sobre seus cabelos, mais curtos agora do que da última vez que o vi. – Eu te amo! – Beijo a ponta do seu nariz. Encosto minha testa na dele, meu corpo se arrepia inteiro. Esse é o mais próximo dele que chego durante tempos. Deposito rapidamente um selinho sobre seus lábios e posso jurar que ele correspondeu. É coisa da minha cabeça, eu sei, tenho ciência disso, mas foi tão real, eu senti que ele estava correspondendo.

Ouço o barulho de Tiara e me afasto, passando o dorso da mão nos olhos para secar qualquer vestígio de lágrimas.

-Não se assuste e nem se preocupe. Eu vi o que aconteceu. – Tiara me abraça de lado, olhando para o Bruno. – Ele gostaria de saber o que aconteceu também.

-Mas não vai saber, não é mesmo? – Digo, um pouco mais severa.

-Não... Nada que você não concorde irá sair da minha boca. – Repousou a cabeça em meu ombro. – Mas saiba que eu amo você, amo meu irmão, amo vocês dois juntos e não sou a única nesse time.

-Nós somos passado.

-Você o ama, Lea!

-Isso não é suficiente, Tiara.

-O que é suficiente pra você? Que você consiga unir o Ric e o Bruno num só?

-Não quero o Ric...

-Eu sei, você quer meu irmão!

-Não foi isso que eu quis dizer. Eu quero o Ric. Quero o bem dele.

-Você gosta dele!

-Exatamente.

-Mas quem você ama é meu irmão. Você acabou de dizer isso.

-Eu não estou sozinha nesse jogo, Tiara. Tem muitas pessoas envolvidas. Desculpe, mas eu passei longos anos ao lado dele esperando que um dia fossemos nos resolver e ficaríamos juntos. Sonhei com conto de fadas, e você sabe que eu não acredito e nunca sonhei com isso. E o que ele fez?

-Nada.

-Exatamente! É aí que está o ponto que ninguém me entende. Todos querem que eu volte com ele, todos acham que seria lindo após tantas desavenças o amor prevalecer, mas ninguém, ninguém, sente o que eu sinto!

-Desculpe...

-Ninguém sabe como dói lembrar disso todas as noites, de querer chorar sem motivo nenhum, de querer ligar pra ele no meio da madrugada com uma desculpa boba somente pra ouvir sua voz. Ninguém entende o que é estar com uma pessoa, gostar dela, mas amar outra. O que está nesse jogo é a confiança também! É, além de amor, respeito, amor próprio.

-Orgulho...

-Claro, eu também sou orgulhosa, como ele! É aí que ninguém me entende. Eu quero, mas não posso querer. Desculpa falar tudo isso, mas eu precisava dizer isso ou iria explodir a qualquer momento, queria poder ter dito no dia em que me falou aquelas coisas.

-Você pode contar comigo sempre que precisar. Se é essa a sua escolha, eu vou respeita-la e te ajudar no que for necessário. Eu estou contigo, eu te amo, Lea!

-Me desculpe. – A abraço, deixando aquelas lágrimas que segurei por tempos, caírem. – Te amo!

-Se eu disser algo, vou atrapalhar sua linha de pensamento?

-Não, óbvio!

-Se serve de consolo, ele também sofre por amar alguém que não pode ter. Ele te ama, Lea. Ele te ama como nunca amou e nunca será capaz de amar outra pessoa. Você é a alma dele!

-Eu... – Passo mais uma vez o dorso das mãos nos olhos, enquanto Tiara me segura pelos ombros, observando meu rosto. – Eu preciso ir, ok?

-Tudo bem... Eu vou ligar pras meninas, avisar o que aconteceu.

-Ok. – Me viro para pegar a bolsa.

-Se cuide, por favor. Não faça nada sem pensar, e quando quiser desabafar, seja qualquer assunto, me chame.

-Obrigada. – Respiro fundo. – Boa noite, Tiara.

-Boa noite, Lea.

Saio do quarto do hospital com pressa, nem olho para os lados, me concentro para as lágrimas não caírem. Lá fora a madrugada pesa nos ombros, um vento gelado passa por mim, tirando o conforto em que estava. Caminho até meu carro e antes de o ligar, encosto minha cabeça na direção e choro. Deixo as lágrimas retraídas caírem todas sobre meu rosto. De todas as vezes que dormi segurando-as, agora as libertei. Há vários pesares nessas lágrimas. Nome sobre elas. Bruno. Richard. Meus pais.

Bruno Pov’s

Sentia meu corpo mole. Tentei mexer minhas mãos, mas elas estavam com pequenos tubos conectados. Meus olhos pareciam estar cheio de remelas e minha boca seca.

-Bruno? – Ouço a voz de Tiara.

Respiro fundo.

-Água.

Prontamente ela deu-me água num copo plástico. Minha mente ainda estava contorcida, tentando entender o que de fato aconteceu comigo. Lembro que estava no estúdio, que fiquei sem ar e abri a janela, bebi um gole do Bourbon e depois disso é um branco total.

Minhas narinas se abriram melhor assim que tomei agua. Respiro fundo novamente e sinto o perfume.

-Lea?

-Oi?

-Tiara... Lea está aqui?

-Não...

-Estou sentindo o perfume dela.

-É... – Ela trava. – É o meu.

-Tiara... Não. – Repouso meus olhos, com as pálpebras pesadas e muita indisposição.

Queria questionar mais, sei que o perfume de minha irmã não é esse, assim como sinto o dela por aqui e algo me diz que ela esteve aqui. Uma enfermeira entra, me faz perguntas, examina meu peito e ajusta o soro que estava ligado para minhas veias. Sinto-me mais preguiçoso que o normal.

sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 67



Olá do outro lado
Devo ter ligado umas mil vezes
Para lhe dizer que sinto muito
Por tudo o que fiz
Mas quando eu ligo você parece
Nunca estar em casa
(Hello - Adele)

02 de Julho de 2014

-Papai, eu não quero ir. – Lana olhava para a mala posta perto da porta do seu quarto.

-Você precisa ir com o papai, ou prefere ficar sozinha em casa?

-Prefiro ficar com a mamãe. Ela vai fazer almoço com meus amiguinhos.

-Você não pode ficar com ela. Não no quatro de julho, Lana. E deu com esse assunto, ok? Não quero mais ouvir falar disso.

Só a vejo sair de perto de mim, birrenta, com um beicinho de dar pena, o rosto coberto de lágrimas. Ela chora em silêncio perto da janela. Deixo o quarto com o peito estufado, estou cansado de ter que ouvir minha filha falar que precisa estar com a Lea, que precisa ficar com ela, que quer estar lá. Eu estou simplesmente cansado. Na reta final da minha turnê, o que já me deixa triste de certa forma, só para ajudar tem essa barra de aguentar meu bebê preferindo estar com outra pessoa além de mim.

No feriado combinei com minha irmã, Tahiti, e seu namorado e meus sobrinhos, de irmos para Washington. Vamos ter uma ótima hospedagem lá, já conversei com uns conhecidos e vamos participar de uma grande festa. Queria poder passar esse tempo com a minha pequena e consequentemente com Mia, que está mais ao meu lado que minha filha, já que ela pode me acompanhar em alguns lugares da tour.

Já Eleanor – falando o que ouvi através da minha irmã e do meu melhor amigo -, irá dar um almoço num quiosque que locaram juntos. Um almoço com direito a fogos e tudo mais. Urbana e Tiara estão planejando com ela, minha irmã e meu melhor amigo já irão nisso, agora minha filha quer me abandonar por causa disso também. Eu não posso sair perdendo, por isso estou sendo egoísta ao dizer que minha filha não vai para lá e vai ir comigo para Washington somente para alimentar minha vontade. Sei que ela não ficará completamente feliz, mas farei o possível para que ela sinta-se em casa.

-Amor. – Mia aparece na porta do meu quarto, com a camisa da minha turnê e uma calcinha preta, bem pequena. Qualquer momento que fosse eu a atacaria, mas estou sem cabeça pra isso. – Preciso de ajuda com a mala. Não sei o que levar.

-Dizem que está marcando chuva, mas vai estar calor, então balanceie suas roupas entre confortáveis, quentes e fresquinhas. – Ando em direção da sala.

-Onde vai?

-Pegar um ar fresco. – Passo a mão pela cabeça, fecho meus olhos e me guio pelo conhecimento da casa.

Pensei que tudo mudaria quando Lea saísse daqui. E mudou.

Minha filha está mais distante de mim, prefere estar com ela do que comigo. Minha irmã virou sua melhor amiga, meu melhor amigo está sempre comentando algo sobre ela, e ela não sai dessa casa mesmo que eu queira. Parece que em cada canto, ela está lá. Parece que quando eu vou dormir, ela aparece para me dar boa noite e dar algum lembrete de algo importante que eu tenho que fazer no outro dia. Quando eu acordo no sábado, de folga, ela tinha um café pronto e um plano para me fazer descansar e ao mesmo tempo aproveitar o dia com minha família.

Isso enche o saco, ter que lembrar dela a cada segundo enquanto estou aqui ou quando tocam no seu nome, mas é inevitável. Por isso preferi cortar as relações com ela.

Não a procuro mais, quem leva Lana e busca ela é o Phil, Tiara ou Umma.

É uma atitude infantil? Sim! Se eu me arrependo? Não! Se eu acho que está melhor assim? Talvez! E ela também acha que deve estar melhor, pois em momento algum ela correu atrás. Ninguém diz que ela perguntou de mim, nem mesmo Phil que vivia me falando quando ela tocava no meu nome antes. Se ela me esqueceu, eu posso esquece-la, sim? 
04 de Julho de 2014

Eleanor Pov's

O campo aberto que locamos para nosso feriado estava cheio. Chamamos amigos, família e até alguns conhecidos. O churrasco estava por conta dos homens, enquanto nós mulheres fazíamos algumas outras coisas e as crianças brincavam no pequeno parquinho. Estava sentindo falta da minha pequena por ali, sentindo falta dos seus gritos e risadas e do seu sorriso puro de felicidade. Ela deve estar se divertindo com o pai dela em outro lugar. Mas não queria pensar sobre. Nada que estrague meu dia!

-Amor, onde está o outro culler?

-Ficou na camionete do Taylor. - Aviso a Ric.

-A cerveja daquele já está acabando.

-Nada de abusos. - Bato com o pano em seu braço. - Urb, me passa esses pêssegos, por favor. - Estendo o braço pra ela.

-Vai usar no que? Porque pretendo usar alguma parte para o doce.

-Eu ia ajeita-los pra isso. - Começo a rir. - Posso ir ver a piscina, então. O que acha?

-Acho uma boa. Preciso pegar uma cor. - Ela ri.

-Trouxe biquíni para a Zayma?

-Trouxe tudo para todos. Não queria que faltasse nada.

-Então está ótimo.

Me afastei de todos, caminhando com meus chinelos em direção a grade que cerca a piscina. O pagamento dela é separado, mas pagamos igual para caso tivesse sol, e como sol é o que não está faltando, tivemos sorte.

Abro a grade e dou uma olhada na piscina, ela estava mais do que convidativa. Pego a sacola que está ao lado e levo-a ao banheiro, colocando os papéis higiênicos, toalhas, sabonete e até um shampoo. Após ajeitar tudo, volto para o redor da piscina e vejo Liam subindo com o filho de Taylor, amigo de Caleb e Eric.

-Onde vão, garotos?

-Queremos ir na piscina, Lea. - Liam disse.

-Piscina somente depois do almoço. Ainda temos a queima de fogos e tudo mais, e não queremos perder nada, não é?

-Sim!

-Então vamos lá. Ainda temos a tarde toda para aproveitar a piscina.

Eles saem correndo em minha frente e eu retorno devagar até o quiosque. As mesas já estavam arrumadas.

-Seu celular estava tocando. - Richard disse.

-Quem era?

-Não sei, não vi. Só o vi vibrando e tocando aquela musica chata. - Ele se referia a Umbrella, da Rihanna.

-Não é chata. - Reviro os olhos e vou até a mesa onde estão os celulares.

-Era o Bruno. - Cindia falou antes mesmo de eu tomar o celular em mãos. - Ligou umas três vezes. - Fez uma cara meio incompreensível.

-Será que a Lana está bem?

-Acho que ele não ligou para falar somente da Lana.

-Pra que mais que ele ligaria? - Rio. - Nós nem nos falamos mais.

-Isso não vai durar muito tempo, você sabe.

-Eu sei que eu não fiz nada pra ele e não fui feita pra correr atrás das pessoas. - Olho as chamadas em meu celular. - Ele não deixou nenhuma mensagem.

-Olhe no seu Kiki. Talvez tenha algo lá.

-Aqui pega internet? - Pergunto, já que estávamos na sede de um campo de golfe.

-E muito bem.

Ligo meus dados móveis e veio 3 mensagens dele. Duas de voz.

"-Feliz dia da independência, mamãe! - Ouço a voz de Lana.

-Deu?

-Deu."


E a outra em seguido.

"-Te amo, mamãe. Queria estar ai com você."

E a mensagem de texto.

"Lana pegou meu celular, desculpe por isso. Tenha um feliz dia da independência."


Respondi rapidamente.

"Feliz dia da independência pra vocês. Mamãe também te ama, princesa."

Fui curta e objetiva. Não estava ali para dar rodeios na conversa dele. Como disse antes, não fui feita para correr atrás de ninguém, e ele parou de falar comigo a mais ou menos dois meses, e foi porque ele bem quis, então que assim seja.

Sei que parece birra de criança, papo de adolescente, mas Bruno sabe o que faz e eu prezo muito meu orgulho e sei que ele também, então vamos simplesmente deixar assim.

-Venha pra foto. - Eric grita, fazendo um gesto com a mão.

Desligo minha internet e me misturo com todos, chegando com um sorriso no rosto e meus braços bem abertos, fazendo todos rirem.

-Acabei de falar com a Tahiti.

-E? - Perguntei a Tiara.

-Ela está lá com o Bruno e a Lana. - Megan completa.

-Em Washington. - Tiara revira os olhos. - Com a vaca da Mia.

-Argh. - Faço cara de nojo e ambas riem.

-Ela falou que lá está chato. Que a Mia não fala com ninguém além do Bruno e não sai do celular. Que a Lana está meio cabisbaixa e o Bruno está tentando fazer de tudo para alegrar a todos, mas não está tendo muito sucesso.

-Que fracasso. - Rio baixinho. - Desculpe, não posso rir. Falei pra Tahiti vir pra cá conosco.

-Acho que ela queria ficar um pouco com o Bruno e o papai.

-Ah, e como ele está lá?

-Está com a Tahiti, Billy e as crianças. Disseram que mais tarde vão ir numa festa, mas que Bruno até está sem clima por conta da Lana que não quer fazer nada.

-Ninguém mandou obrigar a menina a ir num negócio que ela não queria. Lana não é mais um bebê. - Megan diz, se colocando ao meu lado.

-Ele acha que tudo que ele faz é o correto para Lana, e ele tenta compensar o tempo que passa na turnê em poucos dias. Ele está fazendo tão mal à nossa pequena. - Tiara usa um tom de reprovação.

-É uma pena. - Estalo os lábios. - Vamos petiscar?

Bruno Pov's

Nós viajamos no dia 03 e desde lá Lana não está com a sua melhor cara. Ela fica quieta, não é má educada, mas sinto que gostaria de ser. Não quis nem sair pra conhecer a cidade e quando saímos, ficou quieta o tempo todo e nem aproveitou.

Eu estava me sentindo mal por privar minha filha da sua felicidade, mas fico pensando em como eu estaria com ela longe de mim, já que nós já passamos um tempo afastados devido ao meu calendário e agenda.

Tento fazer ela rir enquanto estávamos indo em direção ao almoço na casa do meu amigo pessoal, mas ela não se deixou levar com isso. Nem para sua tia ela se alegrou muito.

-Lana, papai pegou pra você. - Estiquei minha mão para ela com um cupcake, uma bandeira dos Estados Unidos estava sobre ele.

-Eu não estou com fome, pai. Obrigada. - Agradeceu, dispensando o doce.

-Eu quero, amor. - Diz Mia, de forma melosa, sentada próxima de Lana.

-Pegue outro pra ela, talvez Lana irá querer mais tarde. - Tahiti avisou e olhou para minha pequena, pareciam cúmplices.

-Quando vamos ligar para a Lea, para a Tiara?

-Eu… - Coço o cabeça. - Eu não sei.

-Já falei com a Tiara. - Tahiti diz. - Eles estão todos bem, fazendo a bagunça. - Ela ri e vê que eu permaneço sério e então limpa a garganta. - Qual é, Bruno. Nós sabemos que lá está bem melhor do que aqui.

-O que vale é a companhia. Não é, meu bem? - Mia pega minha mão.

-A companhia de lá está mil vezes melhor do que a de cá. - Sinto as faíscas que minha irmã solta para Mia, mas prefiro ignora-las.

-Lá tem todas as pessoas que eu gosto. Até meu primo está lá. - Lana respira fundo. Ela refere-se ao Liam.

-Mas você tem nós aqui, e tem seus primos. - Apontei para Nyah e Zyah. - Eles estão brincando, bem felizes. Porque não vai lá?

-Não quero, papai. Obrigada. - Balançou a cabeça.

-Você está com frio, bebê? - Mia se direciona para Lana, passando a mão sobre a sua cabeça. Minha filha a encara com toda a serenidade do mundo, só tirando a parte do sereno. Era um olhar pra lá de frio.

-Não. Mas não gosto de frio, e em Los Angeles não está assim.

-Não está mesmo, tanto que Tiara falou que daqui a pouco eles irão mergulhar. - Tahiti deixa escapar. A encaro de longe e meu pai pega minha filha pelas costas, a fazendo rir.

-O que você quer? Me diz qualquer coisa que eu irei realizar. - Ele diz a ela, abaixando-se no seu tamanho.

-Quero estar com a minha família. - Ela fala baixinho, olhando para o chão. - Quero poder escolher.

-Você tem seis anos, Lana. Tem que esperar um pouco mais, filha.

-Já ligou pra ela? - Pete, Pete, você está inventando moda. Não quero que minha filha crie falsas esperanças e depois acabe pior.

-Não.

-O que você está esperando, Bruno?

Pego meu celular e disco o número da Lea. Seu celular chama e ninguém atende. Tento mais duas vezes e nada dá. Minha filha continua cabisbaixa, então ligo pela internet, mas ela não estava online. Coloco para gravar um áudio e o mando separadamente.

-Você estava ligando pra ela? – Mia puxa meu braço como minha mãe puxava, tinha seis anos e aprontava tudo o que não deveria. Isso não é jeito de tratar assuntos.

-O que interessa pra você, Mia?

-O que interessa? Você estava ligando pra ela, caramba!

-Estava! Ela continua sendo a mãe da minha filha. – A olho, e por momentos consigo ver como se fossem os olhos de Diana, mãe biológica da Lana. – Ela sempre será minha filha e filha dela. Não venha com essas crises de ciúmes.

-Eu não estou com crise nenhuma.

-Então está ficando paranoica.

-Você ouviu o que acabou de falar? – Ela me deu um tempo para responder. Não fiz. – Me chamou de louca, Bruno. Mais uma vez nós vamos discutir por conta daquela mulher?

-Chega, Mia! Você não vai estragar mais ainda o meu feriado, por favor. Eu quero passar um tempo com a minha filha, tenho escolhas, espero que as respeite.

-Se um dia eu deixar você, não me culpe por isso.

-Está me ameaçando?

-Não, Bruno. Só estou com estresse, ok?

-Mia...

-Não quero brigar com você, amor. – Colocou suas mãos em minha gola, como de costume quando quer algo. – Vamos apenas voltar pra lá e ficarmos bem. Eu cuido da garota.

-Lana!

-Isso, eu cuido dela.

domingo, 1 de maio de 2016

Capítulo 66


Eu ainda me lembro
Quando o tempo estava congelado
Quando parecia para sempre
Foi apenas um momento
(Feel the Light - Jennifer Lopez)


10 de Abril de 2014

-Não vou deixar você sair daqui. – Tiara estava na porta do meu quarto, com as pernas abertas e os braços também, tampando minha saída.

-Você pode ir me visitar.

-Isso não é suficiente. – Ela revira os olhos. – Não me deixe aqui!

-Num grau de cem a mil, o quanto você é bipolar? Porque você mesma disse que era pra eu aproveitar e me mandar daqui, tocar a vida em frente!

-Mas pensando bem não quero mais. – Sentou-se no chão, de pernas cruzadas, na entrada do quarto. – Eu poderia amarrar você nessa cama.

-Não adiantaria. – Pus a última leva de roupas sobre a cama.

-Vou dopar você, te colocar num cofre e só irá sair de lá quando mudar de ideia.

-Yara. – Começo a rir. – Você poderia morar comigo, sim?

-Eu?

-É... Quer dizer, você não vai morar no Havaí. Presley se mudou para o namorado...

-E a Tahiti...

-Ela já disse que está esperando o momento certo para voltar pro Havaí. Vamos lá, pense com calma. Nós duas daríamos belas donas de casa.

-Daríamos mesmo. – Piscou pra mim. – Isso vai ser meio lésbico.

-Não, eu tenho namorado...

-Agora mesmo que não vou! – Disse em tom mais alto. – Imagina se eu vou morar com você, dormir no quarto do lado do seu e enquanto você transa eu estou no twitter.

-Narra minha transa.

-Que nojo!

-Isso, vai. – Gemo. – Me chama de puta!

-Para com isso. – Ela gargalha. – Você é nojenta!

-Ai, papi. – Começo a rebolar.

-Você é uma idiota, sabia disso?

-Sabia. – Coloco a língua pra ela. – Vocês viajam quando pro Havaí?

-Quinta. Ele terá shows na sexta e no sábado, e outro na segunda. Passaremos a semana e depois ele retorna com outros shows.

-Então Bruno vem hoje pra casa e só viaja na quinta, certo?

-Acho que ele vai na quarta, vai antes para acertar algo. Não sei bem. – Ela dá de ombros. – Queria que você fosse para o Havaí conosco.

-Eu também queria. – Torço os lábios. – Mas a situação não tá das melhores. Mia vai junto também, sem contar que eu teria que faltar o serviço, porque já usei minhas férias.

-Ok. Não vou mais falar sobre isso. – Tiara ergue as mãos em forma de rendição. – Você falou para eu ir morar com você, mas e a Megan?

-Megan tem o apartamento dela, nunca que iria morar lá comigo. Ela tem um apego àquele lugar. Sem contar que ela está conversando demais com o Caleb...

-Não acredito! Será que eles voltam?

-Será? Eu tenho quase certeza. Sempre disse que eles não acabariam de vez.

-Ela gosta dele e ele dela, porém ele não quer compromisso.

-Homens...

-Você que deu sorte, não pode falar nada.

-Dei mesmo. – Suspiro.

Eu tirei na sorte grande com o Ric, acho que depois de tanto tempo com o relacionamento incerto do Bruno, eu merecia algo estável, algo que fosse concreto e durasse. Agora, olhando pra trás, nem parece que faz um ano que estou com o Ric. Não completo, mas no inicio de maio já fará um ano e isso me deixa empolgada. Empolgada porque Richard e eu, em um ano, tivemos apenas três brigas. Uma delas foi séria, ficamos realmente bravos um com o outro porque ninguém quis baixar a crista, mas o importante é que nos resolvemos muito bem. Ele é uma pessoa maravilhosa com quem é prazeroso estar ao lado. Companheiro pra tudo, isso me cativa muito.

Minha mudança estava pronta. Três malas grandes de roupas, mais duas caixas com roupas de inverno, sem contar com as que eu dei, pois sabia que não iria mais usar. Sapatos todos em três caixas grandes, mais outras caixas com outras coisas, como maquiagens, acessórios, entre outros.

-Ric vai vir amanhã?

-Não, hoje à noite. Ele tem que voltar daqui três dias para fazer uma sessão de fotos, então vai ficar aqui por três dias pra ajudar com as coisas.

-Hm. – Ela pegou uma das sacolas e levou até a sala, andando ao meu lado. – Nunca imaginei você se mudando da casa do Bruno.

-Um dia teria que acontecer. Mas confesso que eu também nunca achei que esse dia chegaria.

-Vou perder o bolão. – Revira os olhos. – Droga.

-Que bolão? – Pergunto.

-O que fizemos, eu e minhas irmãs, sobre você e o Bruno.

-Ah. – Balanço a cabeça. – Como estava o placar?

-A mais próxima é a Tahiti.

Evitei saber do resto. As lembranças sempre aparecem quando falo dele. Não pedi pra nada ser assim, foram as consequências dos nossos atos. Eu e ele erramos, desde o inicio.


Sentei-me a ponta da cama e olhei ao redor do grande quarto, estava tudo pronto para sair. Isso não pertence a mim, nenhuma pequena parte, nada. Eu estou aqui por estar, porque nem necessária acho que sou mais. Ao não ser pela Lana, mas com ela a história é diferente.

Ouço a batida da porta e peço que entre.

-Com licença, Lea... – Umma olhou para as malas primeiramente, em seguida pra mim. – Ia perguntar se iria se juntar ao nosso café.

-Acho que não dará tempo, quero sair antes que o Bruno chegue.

-Ele ligou e Lana atendeu, avisou que em poucos minutos estará aqui.

-Então é hora. – Forço um sorriso, quando na verdade quero chorar por tudo isso. – Umma, cuide bem da minha pequena. Continue a deixando viver uma infância de verdade, com amiguinhos de verdade, mostrando pra ela o bom e o ruim. Por favor. – Peço e ela arqueia as sobrancelhas.

-A senhora está indo embora? Eu pensei que não iria. Sei que me falou por várias vezes, mas a ficha não está caindo. – Pareceu engolir a saliva forçadamente.

-Definitivamente.

-E-eu estou sem palavras, Lea. Nunca imaginei que isso chegaria a esse ponto. O que vai ser dessa casa sem a sua presença?

-Nem eu, mas agora eu sou apenas mais um peso aqui dentro. Ele tem a Mia. Minha pequena e você têm a mim a qualquer hora, sempre que precisar.

-Isso é uma fase. Você precisa dele e ele com certeza precisa de você. Nunca os vi separados... Isso que faz tempo que estou junto com vocês.

-Falei o mesmo. – Tiara aparece na porta do quarto.

-Você é incrível e sei que ela estará em boas mãos. – Meu celular vibra, sei que já é o Ric me ligando. – Preciso ir.

-Irá se despedir dela?

-Claro. Mas eu virei aqui para vê-la, acho que não vivo sem vê-la pelo menos uma vez na semana. Lana já sabe o que está acontecendo em partes, acho que ela sabe melhor que ninguém.

-Ela tem mais maturidade que meu irmão. – Tiara faz-nos rir.

As coisas já estavam postas há tempos perto da porta, somente esperando o tempo certo. Umma chamou Lana, que correu para o nosso encontro, os cabelos voando e o vestidinho solto. Toda menina delicada.

-Oi mamãe. – Deu um beijo em minha bochecha. – Pra que isso?

-Oi pequena. – Coloco uma mecha do seu cabelo para trás da orelha, tentando segurar as lágrimas que querem muito cair. – A mamãe vai fazer aquilo que conversei com você. Ok?

-De ir morar com o Tio Ric?

-Isso. – Uma escapa da minha lágrima e ela prontamente secou.

-Tudo bem. Eu vou sentir a sua falta, mamãe.

-Eu também vou sentir a sua. – Beijo sua testa macia.

-E o papai também não vai gostar de dormir sozinho. – Olhou pra cima, parecendo pensar bem longe. – O que farei quando for dormir?

-Umma e seu pai a colocarão na cama. – Deixei que as lágrimas caíssem. Nunca aguentaria tudo isso.

-Eles não sabem contar histórias como você, mamãe. Papai só sabe cantar, e a Umma sabe rezar, mas nenhum conta as histórias como você conta.

-Eles irão aprender, sim? – Direciono-me a Tiara. – Sua tia sabe contar histórias maravilhosas.

-Vadia. – Tiara diz, sem omitir sons. - Com certeza. – Responde-me em voz alta.

-Agora a mamãe precisa ir, ok?

-Ir aonde, Lea? – Ouço a voz dele atrás de nós e meu corpo se arrepia por completo.

-Papai. – Lana corre para abraça-lo. – A mamãe...

-Lana, amor, vamos lá servir o café antes que esfrie. – Umma oferece a mão pra ela, que sai correndo para fora da casa.

Levanto-me, procurando um resquício de vontade de olhar para o seu rosto. Não tenho medo de fraquejar, ser fraco nos mostra que somos humanos, tentar mostra que somos melhores. Enfrentei o medo de olhar para o seu rosto, sabia que depois dali a conversa poderia ser um pouco longa. Não tinha planejado encontra-lo aqui.

-Onde vai? – Torna a perguntar. - O carro está aberto lá, mal cabe suas malas. Garanto que viajar que não é.

-Estou saindo daqui, Bruno.

-Quando?

-Se você está vendo as malas hoje e o carro hoje, amanhã é que não vai ser.

-E a Lana?

-Ela entende melhor do que qualquer pessoa o que está acontecendo dentro dessa casa. Você ainda não abriu os olhos pra isso, somente.

-O que tá acontecendo, Lea? Eu não entendo sua personalidade. Quer o que de mim? Atenção?

-Talvez! – Bufo. – Queria meu melhor amigo, aquele que estava comigo sempre.

-Hey. Hey. Hey. – Tiara mete suas mãos entre nós dois. – Vejo o fogo saindo pelas ventas. Que isso, vamos ser amiguinhos.

-Para com esse papo chato, Eleanor. É sempre a mesma picuinha.

-Ah claro, sempre a merda da sua carreira na frente de qualquer coisa. Como sempre, você acima de qualquer um, até mesmo de todos aqueles que te amam, não é? Talvez seja por isso que goste de parecer preservado, porque se acha melhor que tudo e todos para ser mostrado sempre. Certo? – Ele continua a encarar meu rosto, sem expressão alguma. – Eu deveria saber que essas coisas aconteceriam.

-Eu não sou seu namorado para estar sempre na sua cola! Eu não sou seus pais para te ligar quase todos os dias. Isso sufoca, sabia? É chato pra mim e pra você. Parece que não entende que eu tenho coisas pra fazer além de te dar atenção. Acho que quem está querendo ser o centro de tudo aqui é você.

-Claro que sou eu. – Deixei apenas que minhas lágrimas caíssem, não perdi a pose daquela discussão. – Desculpa tomar o seu precioso tempo.

-À vontade. – Sorriu ironicamente.

Juntei minha bolsa do chão e passei por ele. Claro que o olhei nos olhos pela última vez, eu queria ver se ele estava completamente fora do que era antes. Mas não havia nada ali. Nada além de um vazio, escuro, solitário, que é salvo apenas por sua filha. Nem mesmo sua família tem mais a devida importância que tinha antes. Penso em quando foi à última vez que ele foi procurar suas irmãs para saber como elas estão. Isso conta com a Tiara, que se não fosse ela vir pra cá atrás de nós, ele nunca iria.

Isso não é mais da minha conta.

Pego meu molho de chaves, onde estão as da casa, as da minha e a do carro. Retiro o anel que envolve as chaves da casa dele e do alarme. Largo minha chave dentro da bolsa e viro-me. Ele continua parado onde estava, mas agora virado para a porta, me olhando.

-Suas chaves. – Toco no ar e ele pega. – Obrigada. – Digo em voz alta. – Por tudo. – Digo somente a mim, com a voz baixa.

Limpo a lágrima do canto da minha boca e no fundo do meu coração, espero que ele fale algo, mas nada sai. Eu sei que ele não falaria porque não quer saber nada. Nada mais importa pra ele.

-Não vai! – Tiara envolve seus braços em torno do meu corpo. – Fica aqui comigo, me leva com você, qualquer coisa, mas não se vai.

-Você sabe meu endereço. – Rio em seu ombro. – Tiara... Você viu como seu irmão é?

-Um babaca. – Garanto que ela está revirando seus olhos. – Vou visitar você antes mesmo de ir para o Havaí. Ok?

-Ok. – Beijo seu rosto e entro no carro.

Quando fecho a porta, olho em frente e mentalizo um único pensamento: Não olhar pra trás!

Creio que olhar pra trás num momento desses significará que ainda há assuntos no caminho, mas não há mais nada. Não com ele. Quero pensar somente à frente, cuidar de mim e do meu coração. Estou apaixonada pelo Ric e ele por mim, somos os melhores um para o outro, e é nisso que eu tenho que pensar. Pensar em minha família, meu namorado, meus amigos e Lana.

Ao ligar o carro, escuto um choro um pouco alto demais para ser do Bruno. Isso parte meu coração.

Bruno Pov’s

Amassei aquele molho de chaves em minha mão como queria amassar a cara dela, a cara do Richard, a cara de qualquer um. Gosto quando tudo sai do meu jeito, mas ela tem uma vida, e se ela não sentiu-se a vontade do jeito que estava tudo por aqui, eu lamento muito, mas não há nada o que se fazer e ela teve aquela única saída.

-Papai. – Minha filha está na porta, de longe vejo seu rostinho espantado, ela quer chorar, mas está com raiva. – Vocês estavam discutindo, de novo! E ela foi embora. Eu quero minha mãe.

-Meu amor. – Caminho na sua direção, puxando-a para um abraço.

Enquanto a ouço chorar em meu ombro, com seu peito trêmulo, vejo Umma atrás. Ela me olha com um leve ar de decepção, mas apenas sorri levemente pra mim. No cenário, atrás dela, há o quadro de minha mãe. Ela não gostaria desse momento.

-A mamãe foi viver um pouco, filha. Ela voltará.

-Ela não vai voltar. Você não iria entender os motivos dela. Você não sabe o que ela me disse. – Dá um soco no meu braço, brava comigo. A repreendo, segurando-a pelo braço e olhando nos seus olhos pequenos e vermelhos, seu rosto molhado de lágrimas que caem sem parar. Umma a puxa e ela abraça sua babá, com tanta vontade, chorando alto e berrando, como faz raramente.

Doeu ver meu anjinho fazer isso comigo. Parte meu coração vê-la chorar, ter esse comportamento estranho é pior ainda.

A casa ficou completamente silenciosa conforme a noite ia chegando. Fiquei na sala junto da minha filha, que estava quietinha, sentada no sofá, olhando para a televisão. Umma ficou por aqui mesmo, estava fazendo a janta na cozinha.

-Que clima mais mórbido. – Disse Mia, pegando-me de surpresa.

-Ah, oi. – Dou-lhe um selinho sobre os lábios secos. – Agora que você chegou o clima vai melhorar.

-Oi, Lana. – Diz ela para minha filha, que apenas diz um “oi” seco, sem nem olhar para Mia.

A puxei pelo braço, chamando-a para me acompanhar até o quarto. Mia largou suas coisas no closet e pôs seu celular e tablet para carregar, então sentou-se ao meu lado e ficou me encarando.

-A Eleanor foi embora hoje.

-Embora? – É ruim dizer isso, mas vi uma alegria se estampar em seu rosto.

-Sim... Ela acabou pegando as suas coisas e saindo de casa.

-E vai morar onde? Acho que ela não tem nem onde cair morta.. – Deu um riso, mas quando viu meu semblante sério, pediu desculpas.

-Lea tem uma casa, quitada, tem economias grandes em bancos. Ela é muito mais organizada que eu e você juntos. Nunca precisei dar nada a ela. Não é porque não nos falamos muito bem, que eu vou deixar de defende-la pelo que ela é.

-Eu nunca posso falar no nome da sua amada que sou recepcionada com vinte mil pedras, Bruno! – Ela levantou na cama, bagunçando o lado que sentou e indo para perto do seu celular.

Estava cansado demais, pensativo demais, para poder discutir ou questionar qualquer ação ou palavra dita. Quero apenas que esse dia acabe, porque de bom ele não trouxe nada.

β

FIM DO FLASHBACK

Não foi uma noite fácil de se dormir. Virei-me o tempo todo tentando achar uma posição perfeita, um ponto crucial, onde eu apenas apagasse por mais de cinco minutos, mas isso não acontecia. Meu sono vinha, eu dormia por pouquíssimos minutos e novamente acordava. Assim seguiu a noite toda.

Motivo esse que me ajudou a acordar com um humor bem pior do que era para estar.

Nem peguei meu celular sobre a mesa de cabeceira, apenas levantei e fui direto tomar um expresso e passar uma água no rosto.

Quando estou retornando para o quarto, ouço um ruído baixinho. Abro a porta do quarto de Lana e ela está tapada até o pescoço, com seus olhos inchados.

-Meu bem! – Corro até a ponta da cama. – O que houve?

-Nada. – Falou baixinho.

-Como nada. – Chego perto do seu corpo e sento na cama. Levo minha mão até seu rosto, suado, e sua testa pegando fogo. – Você está ardendo em febre, Lana. Porque não chamou o papai?

-Quero minha mãe. – Ela respira fundo.

-Você poderia ter chamado o papai, eu estava à noite toda acordado... Onde está doendo? Vamos tomar um banho pra ir no médico.

-Eu não quero médico, eu quero minha mãe.

-Você vai ao médico sim, você não se governa.

-Eu não chamei você porque não iria dar à mínima.

-Como não, Lana? Você está delirando. – Retirei a coberta de cima dela e seu corpo estava encolhido, quente, mas ela tremia de frio ao mesmo tempo.

-Você nunca dá à mínima quando está com ela, papai.

A pego no colo, carregando-a para o seu banheiro.

Tirei sua roupa e a pus embaixo do chuveiro entrando junto com ela. A água gelada caia sobre nós, minha roupa estava pesada por estar molhada, mas sabia que precisava fazer algo para que ela melhorasse.

A vesti e acordei Mia no susto enquanto me arrumava para sair. Ela ficou em casa, não quis me acompanhar ao médico, pois diz que tem medo de hospitais. Respeito a sua opinião.

β

Ficamos boa parte da tarde no hospital. Submeteram a Lana alguns exames para ver se realmente não tinha alguma complicação em sua saúde, mas de acordo com o médico, ela estava completamente saudável, e que sua febre é emocional, como ela tem desde pequena.

Voltamos para casa quietos. Apesar do médico ter dado um remédio em gotas para ela melhorar, seu rostinho continuava corado e seu corpo quente, até estava com o corpo mais mole.

-Eu não sei mais o que fazer. – Falei para Jaime no telefone.

-Bruno, nós não temos muito o que fazer! Sabe que só vai passar quando ela ver a Lea. Você pelo menos avisou ela que a Lana está mal?

-Não. Não quero falar com ela.

-Mas vai ter que falar, desculpe. Vai deixar a sua filha sofrendo por causa do seu orgulho idiota. – A ligação falha rapidamente.

-Às vezes, tudo o que eu mais quero, é o colo da minha mãe.

-Todos nós queremos, Bruno. Mas somos adultos, precisamos resolver nossos problemas. No final do dia, quando resolver tudo, pode deitar e imaginar estar no colo dela. Ela sempre está conosco.

-Vou leva-la na casa da Lea. O que acha?

-Acho que é o melhor que tem a fazer.

Não esperei por muito. Tirei a roupa que ela usou no hospital, ouvindo suas reclamações baixinhas e sua má vontade. Se não fosse tão importante, a deixaria assim e iria dormir, pois a única coisa que sinto é exaustão.

Estaciono e saio, pedindo que Lana ficasse quietinha no banco de trás. As luzes estavam acessas, ela estava em casa. Toquei a campainha e logo ela abre, olhando-me com pavor. Devo estar uma bagunça.

-Lea. – Respiro fundo. Isso não foi somente pela Lana e pela situação, foi por mim, foi por vê-la. Ela foi embora ontem e eu sinto como se tivesse ido há meses.

-Oi, o que foi?

-A Lana... – Respiro fundo novamente. – Eu tentei te ligar, mas você não ouviu... – Me refiro a duas ligações que fiz quando estava a caminho.

-O que aconteceu? – Ela olha para os lados, um pouco desnorteada.

-Ela está no carro. – Ela sai junto comigo, seguindo em direção do meu carro. Quando chegamos perto, dá para ouvir seu chorinho. Isso parte meu coração. – Ela está ardendo em febre, e chama pelo seu nome. Está delirando e o médico disse que é a febre emocional.

-Porque não me avisou? – Ela se estica para dentro do carro, tomando Lana em seus braços. – Oi, meu amor, a Lea está aqui!

-Mãe. – Ela fala baixinho, se aninhando no peito dela, abraçando-a. Sinto de longe a dificuldade que Lea tem em mante-la nos braços. – Mãe.

-Shhh, eu estou aqui. – Ela passa a mão sobre seus cabelos e beija a sua testa.

-Eu tentei avisar. – Porque sinto essa raiva repentina dela? Isso não é nem justo.

-Eu ouvi, vi, suas ligações, mas não perdi meu tempo atendendo para ouvir aquele seu discurso estúpido. – Meu discurso? Eu estou aqui somente pela minha filha e não por ela! – Calma, meu amor. A Lea está aqui agora, não tem porque chorar. Ela ficará comigo essa noite.

-Tudo bem. – Caminho ao seu lado até a porta. Só consigo pensar em mil e uma respostas arrasadoras para deixa-la mais brava comigo. Não consigo sair perdendo. –Vou ficar também? – Dou um riso assim que ela entra.

-É que... Bem...

Atrás dela vejo ele passando. A imagem de Richard passando atrás dela, sem camisa, com uma calça de abrigo, completamente em casa, me remete aqueles tempos em que ele ia para minha casa passar uns dias com Lea. Nada agradável. Não imaginei que ela já superaria menos de um dia depois o fato de ter deixado a Lana pra trás e estar aproveitando com o Richard.

-Ah... Não sabia que tinha visitas.

-É.

-Pequena! – Richard larga algo que está segurando – um prato? – e abaixa para abraçar Lana.

-Ela está doentinha, Tio Rick. – Beija o topo da cabeça de minha filha. – Vá lá com o tio, amor.

-Você tem as coisinhas dela aqui?

-Tenho o que ela precisa. Não se preocupe, ela ficará bem.

A pior parte é que eu sei que sim, eu sei que agora minha filha ficará bem e me sinto, de certa forma, inútil.

-Eu sei que sim. Amanhã à noite passarei aqui.

-Tudo bem.

-Boa noite, desculpa o horário. Lana, vem dar tchau para o papai.

-Boa noite, papai. – Ela corre para o meu encontro e me abraça. – Eu amo você.

-Papai também te ama.

Ela poderia dizer para eu ficar assim que me afastei da porta. Cheguei a caminhar lentamente para lhe dar mais chances de pensar rapidamente sobre o assunto. Cheguei a pensar numa coisa idiota sobre ela largar o Richard naquela hora e voltar para meus braços.

Mas eu não queria.

Quero poder seguir em frente.

Mas ao mesmo tempo tenho que seguir com ela ao meu lado. Até minha filha precisa disso.

Quando foi que tudo se perdeu dessa forma?

Eleanor Pov’s

-Eu estou bem, mãe. – Lana virou-se na cama que deixei para ela.

-A febre já passou. – Observo o termômetro.

-O papai disse que minha febre passaria quando eu viesse pra cá. – Ela respira fundo, passando a mão no rostinho. – Eu vim e passou. Onde está o Tio Ric?

-Ele está dormindo, meu amor. – Largo o termômetro dentro da caixinha novamente. – Agora você precisa dormir para amanhã passearmos, ok?

-Ok.

-Boa noite. – Beijo sua testa.

-Mãe?

-Oi?

-Quando você vai voltar para a casa do papai? Não é a mesma coisa sem você lá.

-Também não é a mesma coisa sem você comigo, mas eu e Bruno... Nós temos muitas coisas a pensar ainda.

-Papai sente a sua falta.

-E eu sinto a dele, meu amor. – Acaricio seu cabelo, sua cabeça. Seus olhos, por mais que tudo isso tenha acontecido, brilham como estrelas novas.

-Um dia você vai voltar, sim?

-Talvez um dia, meu bem. Agora você tem que dormir, ok?

-Ok. Boa noite.

-Boa noite.

Desligo a luz do seu abajur e fecho a porta. Quase tropeço numa caixa quando estou indo para a sala. Sento sobre o sofá e fico encarando a parede, parece fria, perfeita para poder me encostar e passar dias ali.

O pior vazio é aquele que nós temos quando nossos sentimentos estão confusos e você tem pra onde correr, mas quer apenas correr no sentido oposto, justamente para onde não deve ir.

Sou uma mulher forte, pelo menos me considero assim. Eu consegui sair de lá, consegui vencer meus medos, consegui um namorado. Quer dizer, somente ter saído de lá já foi muita coisa, já mostrou o quanto eu sou forte.

É, eu sou forte.

Mas na minha mente há algo que fica “você não é forte, você é mais fraca do que pensa.”.

Se eu realmente fosse forte, não estaria aqui pensando em todas estas coisas, em todas essas besteiras e nem estaria abalada pelo fato de que eu não consigo deixar de pensar nele um minuto.

-Eu sou melhor que isso, eu sou bem mais que isso! – Respirei bem fundo. – Eu sou...Sou!


Acordei perdida, mal sabendo onde estava. Segundo dia nessa casa, pequena, mas com milhares de lembranças. Ouvi barulho na cozinha e levantei, ainda um pouco desorientada.

-Vocês podem tentar não quebrar tudo o que vêm pela frente? – Paro em frente a porta da cozinha.

-Estamos fazendo panquecas. – Ric vira, mostrando o prato com a massa.

-Eu sou a ajudante. – Minha pequena ainda estava de pijama.

-Eu estou vendo. Só quero saber da bagunça depois.

-A bagunça eu limpo. – Richard pegou o vidro de mel, o qual ele deve ter comprado hoje mesmo. – Você está bem, sem nenhuma dor?

-Hm... Não?! Por quê?

-Porque você dormiu a noite toda no sofá. Coloquei você na cama hoje de manhã.

-Ah... Eu peguei no sono lá.

-Eu percebi. Você está bem?

-Ah, claro. Por quê? Pareço mal?

-Não. – Ele ri. – Claro que não.

-Então está tudo bem.