domingo, 20 de março de 2016

Capítulo 63


Não estou te descartando como vidro quebrado
Não há vencedores quando a sorte é lançada
Há apenas lágrimas quando se chega na última tarefa
Então não desista

(Sia - Broken Glass)

20 de dezembro de 2013
Meu corpo estava fervendo de cansado. Minhas costas ainda estavam moídas. Como entrei de férias ontem, minha semana foi mais corrida que o normal. Não que tivesse mais trabalho somente pra mim, mas para todos. Todos nós nos encalacramos em pesquisas de mercado, já que está desfavorecendo aos poucos. Começo a pensar que poderia procurar outro ramo no mercado. Mas agora estamos acertando contratos com os bancos e tudo vai melhorar.
Eu e Megan estávamos ao meio dia no shopping fazendo as compras de final de ano. Tudo estava uma tremenda bagunça, muitas pessoas de um lado para o outro e eu odeio deixar tudo para última hora, mas a culpa não é minha.
O plano era ir para o Havaí, eu e Ric, passar o natal e ano novo com a minha família, mas como minha irmã só estará para o final de ano, falei com a minha mãe e decidimos que seria melhor e mais barato ficar por aqui mesmo.
Aí combinamos algo legal para o natal. A família do Bruno, nossos amigos e Ric.
-Não podemos perder o horário de buscar a Lana. – Avisa Megan.
-Terá um café depois da aula, ela sairá de lá umas três horas. Confraternização antes das férias.
-Percebo que minha vida está uma bosta quando até a Lana, que tem cinco anos, é mais agitada e disputada que a minha.
-Que a nossa. – A corrigi.
-Mas você tem um namorado. Pode não ser uma grande parte da sua vida social, mas tem alguém e eu só tenho... Ninguém. – Revira seus olhos.
-Você têm muitas pessoas, Meg. Calada. – A direciono para uma loja de lingeries.
-Pretende fazer algo especial pro Richard? – Olhou diretamente para uma manequim com um belo conjunto rosa.
-Claro que não. – Começo a rir. – Talvez.
-Hoje vai rolar. – Ela levanta as mãos, chamando atenção de algumas pessoas por ali. Finjo que não é comigo, enfiando o rosto numa arara com conjuntos.
-Ele ainda não chegou.
-Que dia ele vem?
-Hm, acho que mais pra perto do natal.
-E o Bruno?
-O que tem ele?
-Como vocês estão depois daquela pequena discussão sobre sentimentos, na qual ele assumiu que você é a melhor.
-Acho que estamos bem. – Dou de ombros. Não o vi mais depois daquele final de semana. Ele se fixou na turnê até chegar o feriado de final de ano. Voltará antes do natal pra casa também. Mas acho que nós estamos bem, pelo menos é o que parece. Nos falamos normalmente no telefone, não como antes de estarmos sempre pendurados pra lá e pra cá, mas normal para quem está longe e está com saudades.
-Isso não me soou bem.
-É sério.
-Ok.
Continuamos nossas compras. Saímos do shopping carregando as sacolas e cada uma um sorvete. Não era época, mas eu amo sorvete no inverno.
Ajeitamos tudo no porta malas e seguimos para a escolinha de balé da Lana. Entramos no meio da confraternização, nem sei se ela nos viu ao fundo, mas minha pequena estava brincando com as suas amiguinhas lá na frente, dando alguns passos que aprendeu junto com as outras, enquanto as duas professoras olhavam para elas, embasbacadas de tanto orgulho.
Aplaudimos nossos nenéns e ela, quando me vê, corre para me abraçar.
-Estava vendo isso? – Apontou para trás.
-Estava! Você manda muito bem. É a melhor. – Digo baixinho.
-Obrigada. Oi, tia Meg. – Dá um beijo na bochecha de Megan e um abraço.
24 de dezembro de 2013
E o natal chegou. A festa sempre começa uns dias antes, então no dia vinte e quatro tudo já estava preparado para a noite e o dia de natal. As crianças corriam na casa desde cedo, o sol mal tinha raiado. Quer dizer, se tiver sol, pois com esse frio é meio impossível.
Richard mexeu-se na cama quando levantei, não queria acordá-lo, pois chegou tarde da noite aqui em Los Angeles e trabalhou o dia todo em Nova Iorque, seria uma pena acordá-lo.
Como fiquei de férias e estarei até o final de janeiro, com muitas folgas acumuladas, arrumei todas as coisas com antecedência. Roupa para usar hoje à noite já estava separada, a minha e a de Lana.
Andei para a sala e lá estavam as crianças, brincando enquanto a televisão estava ligada num canal de desenhos.
-Meu Deus, ainda bem que alguém acordou. – Jaime aparece lambendo o dedo sujo de algo da cozinha. – Estou ficando louca com as crianças e as comidas.
-Bom dia! – Sorri para ela. – Falei que era pra me chamar de manhã cedo. Umma abriu pra você?
-Sim. Ela é um anjo, está me ajudando na cozinha, mas as crianças dão um baile também.
-Se tivesse calor, tocava todos na piscina e poderíamos ter uma pequena paz. – Nós rimos. – Prefere que eu ajude você lá ou dê uma olhada nas crianças?
-Agora pode me ajudar na cozinha, chamei Marley para vir mais cedo e dar uma olhada neles.
-Ok.
Auxiliei no que pôde na cozinha. Era muita gente, consequentemente muita comida também. Ainda chegariam salgadinhos e aperitivos que foram encomendados, as bebidas e um prato especial que Tiara pediu para vir, porque segundo ela, todos iremos amar.
-Bom dia, meninas. – Pete chega na cozinha, com cara de sono e até seus cabelos bagunçados. – Que cheiro bom!
-Bom dia. Obrigada, ainda nem tomei banho. – Digo e provoco riso neles.
-Você pode servir o café deles? – Jaime me pergunta.
-Claro.
Ajeito a mesa na sala de jantar e ligo o rádio para dar uma alegrada na casa. Chamo as crianças para comerem e tomo café juntamente delas.
Boa parte da nossa manhã foi assim, pura diversão e trabalho, para nos dar uma tarde menos corrida. Estava quase tudo pronto antes das três, faltava apenas uns toques finais. As irmãs do Bruno já estavam ali, as crianças também. Eric e Cindia iriam um pouco mais tarde, pois passariam na casa da irmã dela rapidamente para vê-los antes do natal.
Todos conversamos na sala, as crianças brincavam, era uma harmonia maravilhosa.
-Chegou a alegria que faltava nessa casa! – Tiara grita da porta e Megan aparece logo atrás.
-Que, no caso, sou eu! – Levantou os braços chegando na sala.
As duas aparecem rindo e cumprimentam todos. Megan estava com um brilho diferente, talvez seja o novo corte de cabelo que a rejuvenesceu. Seus longos loiros foram cortados num Chanel sobre os ombros, com classe, mas bem despojado. Combinou com ela.
-Trouxe as especiarias da minha casa, digo, da minha cozinha.
Como Megan tem gastronomia no seu currículo, todas as especiarias que ela faz/inventa ficam maravilhosas. Megan prende qualquer um pelo estomago. E pela beleza. E pela inteligência. E pela harmonia... Por tanta coisa.
-Esse ano que ninguém vai para o Havaí no final do ano, você resolve ir. – Tahiti revira os olhos.
-Eu até queria ficar por aqui, mas a saudades de casa sempre bate. E quero que o Richard conheça o meu lugar.
-Depois você conhece o meu. – Diz ele. – Na verdade todos vocês estão convidados a irem ao Texas comigo. Tem uma casa bem grande para nos suportar. E muita diversão.
-Será que eu consigo um caipira bem gato? – Todos ficaram em silêncio e ouviram o que Tiara falou para Tahiti. Foi gargalhadas de se finar.
-Acho que o único caipira lindo é o meu! – Me uno com o braço de Richard e ele revira os olhos.
-Vocês precisam conhecer meus primos.
-Primos?! – Perguntaram Meg e Tiara juntas.
Foi risadas para todos os lados, mas logo depois tivemos que começar a nossa longa jornada novamente. Era arrumar as crianças, nos arrumar, ajeitar todos as comidas direitinho. Por isso nos dividimos em tarefas.
-Eu quero ficar com o Ric. – Disse Lana.
-Ric vai ajudar os meninos com o som, amor. Eu vou vestir e arrumar você.
-Mas... Tá bom. – Suspirou fundo. – Papai vem hoje?
-Vem! Ele está vindo junto com o papai noel. – Respondo ao entrar no quarto dela.
-Eu fui uma boa menina esse ano. O que será que vou ganhar?
-Hm, eu não sei, mas eu soube que ele terá uma ajudante que conhece você!
-Quem é a ajudante? – Ela levanta os braços para que eu tire a sua blusa.
-Hm, eu não sei o nome dela. Sei que ela é baixinha, magra, tem os cabelos castanhos. Adora você.
-É a titia?
-Eu sou sua titia?
-Não, você é minha mamãe!
-Então a ajudante é sua mamãe.
-Sério? – Seus olhinhos brilham. – O que eu vou ganhar?
-Não posso falar. Prometi ao papai Noel que não diria.
-Eu juro juradinho que não contarei a ninguém. Será nosso segredo. – Pôs o dedo indicador em frente dos lábios, como se selasse sua boa. Não tem como não rir da minha pequena prodígio.
-Sei que não irá falar, mas se as fadinhas ouvirem, elas contarão ao Noel e ele não deixará que eu fique com você.
-Mas as fadinhas não estão aqui.
-Estão aqui sim, sempre estão, mas elas não podem aparecer para não quebrar a magia.
Terminei de dar banho nela e vestir a sua roupa. Ela estava lindinha com a roupa que tinha comprado para o natal. Logo que eu a liberei, fui para o meu quarto e tomei meu banho. Coloquei um vestido branco, manga comprida e decote cavado. A sua saia transpassada, um pouco cima do joelho, era uma das coisas que eu mais gostava.
Deixei meus cabelos soltos, completamente lisos depois de hidratação e a ajuda da chapinha. Batom vermelho e sem muita maquiagem nos olhos. Calcei sandálias pretas. Estava pronta quando Ric terminou o seu banho.
-Você está simplesmente magnífica.
-Obrigada. – Sorri para ele, que estava com uma toalha enrolada na cintura.
-E se a toalha caísse, o seu vestido rasgasse... Iríamos passar a noite aqui? – Aproximou-se de mim.
-A noite é uma criança. – Sua mão apalpa minha bunda e eu gemo baixinho em seu ouvido. – Isso é injusto. – Tento não encostar minha boca em sua orelha para não mancha-lo de batom vermelho.
-Não. Não é. – Apertou muito mais a bunda e aos poucos levantou o vestido. – Isso é injusto. – Colocou minha mão sobre a toalha. Seu pênis estava ficando duro e levantando sem ao menos precisar tocar ele.
-Acho que guardaremos isso para depois.
-Mas eu queria entrar aqui. – Sua mão foi por debaixo do vestido e cobriu o meu monte de vênus. – Queria enfiar tudo dentro de você, aqui. – Colocou um dedo no meio das minhas coxas, colado com o tecido fino da calcinha.
-Para! – Começo a rir. – Temos a noite toda. Vá se arrumar.
-Só se você não ficar aqui, porque não vou saber me controlar.
-Ok!
-Lana, larga isso. - Falei para minha pequena que pegava um dos vasos da mesa. - Essa menina é impossível.
-Crianças. - Ric deu uma risadinha e ficou olhando elas brincarem pela casa. Era bom ter crianças em casa, tudo parecia bem mais alegre. Fiquei perdida no seu olhar e em tudo que ele dizia. Definitivamente, ele seria um belo pai.
-Papai chegou! - Lana gritou, largando sua boneca no chão e correndo em direção ao hall de entrada.
-Bruno chegou. - Traduzi, por mais que não precisasse.
-Chegou o ilustre. - Megan satiriza. - Ouvi que ele iria convidar o Caleb, tomara que não venha. - Revirou os olhos.
-Ele trouxe outra pessoa. - Ric chamou nossa atenção. Bruno estava com uma menina ao seu lado, e se eu não estou enganada, é menina do aniversário da Tiara. Não lembro o nome.
-Namorada nova? - Ouço Megan perguntar, mas parei pra prestar atenção no que estava rolando. Ele estava de mãos dadas com ela e conversando com Jaime. Ela parecia muito a vontade logo de entrada.
-Eu acho que é… Ela foi com ele no meu aniversário e da Tiara na boate, lembra? - Ric relembrou-a.
-Ah, claro.
Não consegui tirar os olhos dos dois. Bruno tirou a mão da sua e passou em volta da sua cintura, Lana ficou agarrada na sua perna e olhava eles conversarem com Jaime. Essa mulher nem cumprimentou minha pequena direito!
-Caleb chegou. - Alerto Meg que, prontamente, se ajeita no sofá. - Fala, fala e fala, mas quando disse que ele chegou, chegou a se ajeitar no sofá.
-Nada a ver…
-Tudo a ver.
-Idiota. - Tacou uma almofada em mim.
Por mais que Megan queira ser feliz e está sendo, ela ainda ama o Caleb, por mais que ele também não preste. Ela o adora e até mesmo a sua fala muda quando ele está por perto. Não é fácil esquecer alguém, pra ela deve ser bem mais difícil quando se passou uma vida toda ao lado dele. Brincando, foram quase nove anos da sua vida, desde sua adolescência basicamente, namorando com ele.
-Hey. - Bruno chega a sala e Lana fica ao seu lado, sem ficar próxima de Mia. - Tudo bem?
-Hey! - Levanto para cumprimenta-lo. - Quanto tempo. - O abraço de mal jeito, pois somente um braço seu corresponde, já que o outro está com as mãos entrelaçadas com Mia.
-Muito. - Riu baixinho. - E aí, cara! - Deu um aperto de mão em Ric e beijou Megan no rosto.
-Lea! - Caleb aparece logo atrás. - Você está linda.
-Obrigada. - O abraço rapidamente. - Você parece bem.
-E estou. - Olhou para Megan, que desviou o olhar dele, passando a cumprimentar Mia.
Dei oi para ela, nada de muitos gestos, apenas um abraço rápido e um "tudo bem".
-Falou para o papai que estava morrendo de saudades dele? - Abaixei-me para falar com Lana.
-Falei. - Balançou sua cabeça positivamente.
Bruno mal falou conosco e já saiu. Caleb se uniu a nós, ficou meio deslocado no inicio, não sabendo o que falar nem onde se posicionar, mas sem tirar o olhar de Megan. No fundo ele adora ela, ou ama, mas é um homem cafajeste, assim como muitos que conheci.
Mas parando para pensar, eu dei uma tremenda sorte, já que Kai foi um passado maravilhoso e Ric está sendo meu melhor presente. O único problema foi o Bruno, no qual eu errei, me apegando e apaixonando por alguém cujo eu sabia que não daria muito certo.
-Será que eu poderia ser um modelo? – Em meio a muitos assuntos diferentes, Caleb pergunta.
-Claro. Mas precisaria ganhar mais massa muscular, começar com corridas matinais, que não podem ser dispensadas.
-Falou em correr o gordo já não irá mais querer. – Meg dá seu pitaco.
-Gordo que você gosta.
-Vai à merda, Caleb. – Ela atira uma almofada nele.
Bem na hora que estávamos entrando no assunto Megan e Caleb, na hora que a gente poderia colocar mais pingos nos “is”, Jaime avisou que o jantar estava pronto. Nem vi a hora passar, mas no relógio já marcava dez para as onze.
A folia foi até na hora de nos sentarmos à mesa para ceiar. Sentei ao lado de Richard e puxei Lana para meu colo para dar comida pra ela também.
-Você está grandinha para comer no meu colo, mocinha.
-Você que me puxou, mamãe. – Ela dá de ombros. Faço uma careta e ela se joga pra cima de mim, abraçando-me.
-Vejamos... O que vai querer? – Olho para as comidas postas na mesa. Muitas variedades.
-Eu vou querer...
-Lana, vem comer com o papai! – Bruno para um pouco distante de nós e abre os braços para pega-la.
-Quer ir com o papai? – Pergunto.
-Queria ir com os dois. – Torceu os lábios.
-Não vou ficar esperando, meu amor. Venha com o papai e a tia Mia.
-Bruno, ela quer ficar por aqui. – Digo em tom baixo, para não chamar a atenção de ninguém.
-Não me importa. – Mexe apenas os lábios para dizer e Lana vai ao seu encontro.
Me ajeito na cadeira e Ric coloca a mão sobre minha coxa. Olho para ele que entende o recado de que eu estava muito brava com a situação, mas é natal, preciso relevar, ser light e esquecer disso. Não foi nada.
Durante o jantar, Bruno empurrava Lana para cima de Mia que não parecia nada contente em ter a criança entre eles. Ela dava sorrisos falsos e mal encostava em Lana. Lana pediu várias vezes para poder ficar com seus priminhos e mal comeu para ficar por ali.
A meia noite chegou com muitos abraços e dizeres bonitos. Primeiro natal ao lado do Richard e eu sinto como se fosse vários incontáveis. O abracei fortemente e agradeci por ter uma pessoa tão boa em minha vida e por finalmente o amor sorrir pra mim.
Fui abraçar o Bruno, mas ele pareceu ocupado conversando com o pessoal. Ele nem ao menos me deus feliz natal de longe. Isso machucou. Bruno preferiu ficar ao lado daquela menina, Mia, do que vir dar um abraço na sua melhor amiga. Respiro fundo tentando colocar minha cabeça voltada as coisas boas. Agarro Lana com toda a força em meus braços e brinco com a minha pequena. Richard a enche de cócegas e ela gargalha super alto.
A cantoria em volta do piano começou. Músicas alegres natalinas, Bruno quem estava cantando e tocando, com a ajuda do coro de suas irmãs. Jaime se ocupava em gravar tudo e mostrar a felicidade que a família se encontrava.
Cantou e tocou Feliz Navidad, foi quando dancei com Lana e a fiz rir alto, chamando a atenção de todos. Ela simplesmente levitava seus pés dançando, era impressionante.
-Lana! – Ouvi a voz de Bruno chama-la, mas quis ignorar e continuei a dançar com ela. – Filha, vem aqui cantar com o papai.
-Não posso acreditar. – Larguei das mãos de Lana, que sorriu antes de correr para perto dele.
-Impressão minha ou ele está tentando tirar ela de perto de você?
-Não é impressão. – Estalo meu pescoço e dou a mão para Richard. – Só não consigo entender o porque ele está fazendo isso! – Observo ele tocar piano e cantar, com ela sentada ao seu lado.
-Ele parece incomodado com algo.
-Nem quero saber disso. – Dou de ombros.
-Famílias são complicadas.
Enquanto conversava com ele, pensava com meus botões o porque ele tinha dito aquilo. Talvez tenha sido paranoia, mas soou como se ele não gostasse de família, ou eu posso ter pensado isso pois em nenhum momento ele ligou para seus pais ou contestou minha vontade de passar no Havaí um feriado que geralmente passamos com a família.
Ignoro meus pensamentos idiotas, devo estar paranoica com essas atitudes do Bruno.
Quando anoiteceu um pouco mais todas as crianças foram preparadas para dormir, cansadas e exautas da folia que estava aquela noite. Nós estávamos com menos luzes ligadas e um clima mais adulto. Todos conversando civilizadamente e uma música de fundo, risadas e bebidas embalando a noite.
-Estou feliz por estar aqui. - Ric beijou minha cabeça.
-Esse seu bafo de bebida diz que você está começando a ficar alegrizinho. - Viro-me para fala com ele frente a frente.
-Nada a ver. - Tapou a boca e me fez rir. - Talvez um pouquinho. Estou ficando com sono.
-Quer ir dormir?
-Irá comigo?
-Ah, não… Quero aproveitar um pouco mais ainda. Mas vá lá, eu lhe mostro o quarto.
-Tem certeza? Podemos aproveitar mais. - Apertou minha cintura de leve.
-Absoluta. A ideia pode ser tentadora, mas prefiro ficar acordada um pouco mais.
-Tudo bem então.
Puxei Ric pelo braço, que saiu dando boa noite para todos. Andei pelo corredor atrás do meu quarto e Ric veio brincando com meu braço, fazendo gracinhas a fim de me provocar para ficar ali com ele.
-Você não vai conseguir, garanhão. - Dou de ombros, abrindo a porta o máximo possível. - Vá lá. Boa noite.
-Boa noite, amor.
Ainda não tinha me acostumado com esses pronomes fofos de namorados. É Ric e ponto.
Fecho a porta e ando para a sala de volta. Megan está sentada ao lado de Caleb, conversando e rindo, coisa que admiro por um tempo. Não adianta de nada ele ter sido um cafajeste, quando nós amamos, nós simplesmente amamos.
-Olha ela aí. - Cindia apontou pra mim. - Pensamos que tivesse ido dormir sem se despedir.
-Ah, para. - Ri. - Quero aproveitar nossa noite ainda.
-Ainda temos muitas bebidas para detonar dentro daquele freezer, Lea. Sei que você é minha parceira pra isso.
-Com certeza. - Passei por Eric e bati em sua mão. - Aliás, caía bem uma agora. Sim?
-Claro. - Diz ele. - Traz uma pra nós, Phil?
-Tem que ser eu, não é mesmo?
-Sempre. - Fez um coração com suas mãos para ele.
-Eu vou, porque sou uma pessoa maravilhosa.
-E com um ego do tamanho dessa casa. - Acrescenta Eric.
Nós rimos, menos o Bruno, que parecia estar em outro mundo ao lado da sua namorada. Ela olhava para o nada, hora ou outra forçava um sorriso e depois continuava a encarar o nada. Bruno estava praticamente a mesma coisa, porém sem dar nenhum sorriso.
É estranho vê-lo assim para quem está acostumado a vê-lo fazendo festa e tudo mais.
Sentei-me e quando Phil trouxe as bebidas tentei me concentrar na nossa brincadeira, nas doses e tudo mais, mas depois já não conseguia mais. Me dava um aperto no peito vê-lo tão quieto, esse não é o seu normal.
Quando Mia deu um folga, não sei para o que necessariamente, Bruno permaneceu sentado com o copo esquentando em suas mãos ainda. Me aproximei dele devagar.
-Essa bebida vai chocar em suas mãos. - Disse, colocando a mão no seu ombro.
Ele pareceu levar um susto de mim, mas deu um sorriso de meia boca e levou o copo para um gole escasso.
-Nem tinha percebido.
-Vamos jogar conosco? Convide a Mia. Vamos lá, se mexer. Não é o seu normal ficar assim.
-Eu estou bem assim. - Tirou minha mão do seu ombro. - Não precisa preocupar-se comigo.
-Apenas quero que você se divirta.
-Como? - Me encarou. Seus olhos estavam distantes ainda. Impossível não lembrar que ele ficou assim durante uns dois meses após a morte da sua mãe.
-Bruno… - Torço os lábios. - Me desculpe.
-Está tudo bem. Você estava ocupada demais para lembrar disso, não?
-Não, não estava. Lembraria se você tivesse tido a decência de me dar oi como meu melhor amigo, e não como se eu fosse uma mera convidada. Faz tempo que não nos vemos.
-Você estava agarrada com o Richard, não queria atrapalhar.
-Bruno, vai a merda. - Controlo meu tom de voz. - Você sabe que eu não fico agarrada com ele.
-OK, Lea.
-Não vou insistir. Estou oferecendo meu abraço e meu conforto e você está o desperdiçando por uma coisa que nem cabimento tem.
-OK, Lea. - Tornou a repetir.
-Vou deixar você em paz. - Dei as costas para ele com meu peito pegando fogo. Uma vontade imensa de me aproximar dele e gritar muitas coisas, mas de abraça-lo ao mesmo tempo porque imagino a dor que ele está sentindo. Porque ele está agindo assim comigo? Eu não mudei com ele por estar namorando, eu não me afastei, eu não fiz nada que pudesse deixá-lo assim. Ao menos que a nova namorada tenha pedido para ele se afastar de mim por algum ciúmes bobo.
Idiota.
Seja lá o que for, é idiota.
Sentei-me na poltrona e continuei com a bebedeira e conversa. Se ele quer ficar assim, pode ficar. Nunca fui de implorar a atenção, não será agora que mudarei isso.
Olhei diversas vezes para o seu rosto, quando a namorada dele já tinha voltado para o seu lado e ele não estava nada contente. Tenho que parar de me importar assim. Se ele está assim comigo, é porque ele quer.
Porém, aquela pequena parte de mim ainda está angustiada lembrando que ele está mal por dentro, que sente saudades da sua mãe e que precisa de um forte abraço. Essa parte é que me deixa mal e pensativa. Essa parte é aquela que eu fico com o coração na mão, querendo correr até lá e deixa-lo chorar sobre meus ombros e conforta-lo com palavras bonitas.

sábado, 5 de março de 2016

Capítulo 62



Você e eu temos muita história
​Nós poderíamos ser o melhor time que o mundo já viu
Você e eu temos muita história
Não deixe isso acabar, podemos fazer um pouco mais
Nós podemos viver para sempre
(History - One Direction)


15 de Novembro de 2013

E mais uma vez estou eu indo para Nova Iorque. Não deixei que Richard viesse, já que ele abriu mão de estar com a família dele no natal para ficar comigo, e do ano novo com os amigos, para estar comigo também. Nada mais justo. Afinal, aquela casa está cada vez pior.

Já perdi a conta de quantas vezes Bruno foi pra casa e nós brigamos todas às vezes. O que era para ser a saudades de dois amigos que estão longe, vira uma briga idiota, que parece mais uma disputa de galos. Eu estou cansando das suas atitudes idiotas, das mulheres diversas pela casa, da pobre Lana me perguntando quem é a namorada do papai dela, já que ela vê tantas por ali. Isso não é vida para nenhuma de nós.

Aceitei rapidamente a ideia de vir pra cá, pra Nova Iorque, sair daquele lugar, principalmente porque ele estaria em casa durante o final de semana. Bruno está no auge da carreira, ganhou vários prêmios e está para ganhar muitos outros, estou muito feliz por ele, mas nem posso dizer isso, capaz de virar outra discussão.

Peguei uma semana de folga do meu banco de horas, já que acarretei minhas férias para dezembro e janeiro. Aproveitar o máximo o Havaí e meus pais.

Bruno Pov’s

Acordo afobado, meu rosto está completamente molhado de suor que escorre pelo meu corpo. Meu coração se aperta e quando fecho os olhos por uns segundos, às lágrimas veem. Odeio ter esses sonhos ruins, mas esse foi de longe o pior de todos.

Não queria repassar o pesadelo em minha mente, mas ele aparecia para me assombrar.

Minha pequena estava no colo da minha mãe, estávamos em uma estação de trem esperando por alguém. Haviam muitas pessoas, mas ninguém me reconhecia, eu poderia ser apenas um cara comum. Minha pequena sorria para sua avó e ambas conversavam coisas fofas. Tiara chegou ao lado de uma mulher, bonita, estavam no banheiro e riam como melhores amigas. Essa moça que estava ao lado dela, parou do lado do meu e disse que a hora estava chegando. Em minha concepção era porque alguém iria chegar. O trem estava vindo ao longe, então minha pequena lançou-me um beijo no ar, a amiga de Tiara sorriu para mim e minha irmã apenas balançou a cabeça. Dona Bernadette, minha mãe, esticou a mão e tocou na minha, ouvi-a dizer “te amo”, bem baixinho e então o trem se aproximou e mal deu tempo de olhar para o lado e escutei o barulho. Era macabro, eu sei, mas minha mãe, minha irmã e minha filha haviam se atirado em frente de um trem e tinham pessoas gritando por isso. O choque foi grande.

O sonho não acabou ai, garanto que aí foi onde meu corpo produziu mais suor.

O pior foi quando me chamaram no necrotério para reconhecimento do corpo. Primeiramente vi o de minha irmã que continha umas escoriações e um grande machucado no pescoço. Assim que o legista puxou o lençol branco que tapava minha filha, eu já estava desidratado de chorar, mas vi ali minha pequena, branca e gelada, olhos estatizados e muitos machucados e roxos. Quando o pano puxou para minha mãe, eu desmaiei ao ver o quão desconfigurada ela estava e o quão não se parecia com ela. Foi aí que acordei!

-Mãe. – Lamento baixinho em minha cama, me jogando para o lado e abraçando o travesseiro com força.

Eu precisava de um abraço. Um afago. De alguém para me dizer que estava tudo bem, que tudo não passou de um sonho e que eu posso ficar tranquilo.

Em partes foi um sonho. Um pesadelo. Um péssimo, horrível, horripilante e macabro pesadelo.

Mas a outra parte, a parte real, é que realmente minha mãe se foi e eu não posso fazer nada para reverter isso.

Esse é um dos motivos que minha turnê me ajuda, eu não paro tanto em casa para ter tempo e coisas que me lembrem ela o tempo todo. Em outros lugares é bem diferente daqui ou do Havaí, aqui são lugares onde eu sempre irei me lembrar dela com mais intensidade e isso me deixa péssimo.

Faço um esforço para levantar da cama e vou até o corredor. Bato três vezes no quarto de Lea, mas ela não me atende. Na hora lembro de uma cena pior, ela está com o Ric em Nova Iorque.

O que poderia me deixar pior hoje?

Minha filha está com sua tia porque eu estava em uma festa. Que merda está acontecendo com a minha vida e onde isso vai parar? Perco muitos momentos da minha pequena, preciosa. Perdi minha melhor amiga que seria a única pessoa que me deixaria melhor nesse momento. Perdi minha mãe, meu pilar maior, minha sustentação emocional. A única coisa que cresceu nessa bosta de ano foi minha carreira, mas eu trocaria ela, trocaria os prêmios, o dinheiro, as viagens, apenas para poder ter tempo com minha filha, minha melhor amiga e minha mãe.

Nem tempo com a minha família eu tenho. Tenho mais convivência com meu pai porque ele está sempre comigo na turnê.

Dou um soco na parede de raiva. Justamente na semana onde passarei em casa, ela está com o seu namorado, me trocando, como eu suspeitei que seria. O próximo passo é ela se mudar, depois se casar e depois esquecer de mim. É sempre assim. Se é com os outros e é nos filmes, vai ser assim comigo também. Apesar de que, quando eu venho para casa, a briga é certa com ela. Nós não estamos tão bem.

Na correria até meu quarto, no mais perfeito teatro dramático, pego meu celular e disco seu número. Imploro para que eu atrapalhe um momento bem intimo dos dois, mas nada acontece, porque está desligado.

Perfeito!

Ligo para Tiara e peço que ela traga minha pequena para casa e que ela fique por aqui comigo também. Quero dar atenção a minha filha e minha irmã por enquanto.

De agora por diante procurarei quem me procura. Me ocuparei com coisas que valham a pena. Não vou correr atrás de amizades e deixarei de ir em festas, vou me aproximar de alguém e tentar me apaixonar de verdade. Quem sabe eu não dê um irmão e uma mãe para Lana?! Tudo é possível.

-Alô? Phil?

-Fala Bro. – Ouço a sua voz e me alivio.

-Tô precisando de um amigo. Você tem um tempinho pra mim?

-Eu sempre terei!

π

-Que pesadelo, hein. – Deu um risinho bobo, temeroso, mas continuou. – Cara, sabe que nossa vida é feita de altos e baixos.

-Eu sei, Phil... Mas estão tendo baixos demais, tenho medo de acabar pirando com tudo. Eu não sei o que acontece comigo, estou completamente perdido.

-Você não está perdido, só precisa ir pra casa.

-Eu estou em casa.

-A sua casa, Bruno. A sua casa interior. – Apontou para a cabeça, seguida do seu peito. – Às vezes, pra nos sentirmos melhor, precisamos daquela velha dose de nós mesmos, de rejuvenescimento, de amor próprio, de renovação!

-O que quer dizer com isso?

-Você está se sentindo afastado da sua filha? A leve mais para a turnê, faça chamadas com ela todos os dias, mande cartinhas, faça de tudo, assim como eu faço com a minha família. – Assenti e continuei ouvindo tudo o que me falou. – Você quer sua melhor amiga de volta?

-Lea... Ela tem alguém agora.

-Eu não estou falando de quem ela está namorando, não perguntei se você quer ela de volta na cama, perguntei que quer aquela amiga de volta?

-Ela é minha amiga ainda...

-Mas então não entendi qual é a reclamação.

-É de ela não estar aqui quando eu mais preciso! Droga. – Dou um soco na própria perna e ele ri.

-Então vá mais atrás dela.

-Não quero correr atrás, não quero ser um rastejo, uma pedra no sapato.

-Bruno, vou dizer algo... Se você é orgulhoso, o que eu e todo mundo sabemos que é, o que acha que é melhor para isso?

-Não procurar ela. Oras.

-Você pode procura-la, mas com menos frequência. Está mais do que na hora de arranjar uma mulher. Você já pintou e bordou com muitas por ai. Falta pouco para ter trinta anos e até hoje você não se arranjou. Percebeu isso? Nunca vi com uma namorada! Arranje alguém com quem ficar, pare um pouco com essas boemias, você tem uma filha que ama, uma família, amigos, uma carreira... Não acha que está na hora de se afirmar?

-Mas...

-Mas?

-Nenhuma parece boa o suficiente.

-Nunca serão boas o suficiente, e se forem, essa é a mulher errada. Você tem que procurar aquela que lhe faz bem, que lhe faz rir naturalmente, que lhe dê amor e carinho e que puxe suas orelhas se for preciso. Você tem que vê-la como ela é, para ver se aquela seria uma boa mãe para seus filhos, se ela amaria a Lana como uma filha.

-Isso vai demorar.

-Não demora se você procurar, só que você ainda não está procurando. Apenas fica com uma, com outra, depois nem nomes se lembra. Não estou certo?

-Está!

-Não adianta ficar bravo.

-Eu não estou bravo.

-Eu lhe conheço como conheço meus filhos. Você parece com eles, tem umas atitudes iguais as deles.

-O negócio é que eu não consigo imaginar uma mulher assim.

Philip parou, ficou sério, olhou-me de cima a baixo e riu, baixando a cabeça e a balançando. Não tinha entendido o que era aquilo e continuei sem intender.

-Quem sabe você procura melhor!

-Você iria dizer outra coisa... Não?

-Ia, mas acho melhor ficar calado em certas situações. Apenas... Viva. – Deu de ombros. Não me convence, Philip!

-Fale.

-Ok. – Mais uma vez deu de ombros. – Você conheceu e conhece a mulher perfeita pra você. Você sabe muito bem quem é, mas por várias vezes pisou na bola, talvez por nunca ter pensado em namoro, principalmente com ela.

-Lea?

-Claro.

-Philip, eu e ela... Nada a ver, ela nunca quis namorar comigo, nunca quis algo mais sério.

-Você já disse que queria algo a mais com alguém? – Neguei com a cabeça. – Você já fez algo que demonstrasse o quanto gosta dela?

-Fiz, várias vezes.

-Como amigos, correto?

-Nós não éramos nada mais que isso, como eu poderia fazer um programa fora de amigos? Às vezes nós tínhamos algo como casais, pensei nisso várias vezes, mas parecíamos confortáveis com a situação em que estávamos, então, não... – Respiro fundo. – Pra mim era diferente com ela.

-Mas você nunca deixou ela saber disso. Mulheres sentem, Bruno. Se ela ficou com você e aguentou tudo isso, é porque gosta de você. E não estou falando somente como amigo, estou falando que poderia ter ali um sentimento que você não conheceu.

Fechei meus olhos e passou várias cenas em minha mente, uma espécie de flashback, uma montagem de pequenos pedaços que formaram um vídeo de tudo que passamos. Ela sempre esteve ali, mas nunca vi que nós poderíamos ser um casal de verdade. Eu mal pensava em namorar, quem dirá com ela.

Ela é minha melhor amiga, eu gosto dela, eu sinto ciúmes e falta dela.

-E se eu tentar agora? – Encorajei-me em dizer.

-Tentar o que?

-Ficar com ela, falar com ela. – Empolguei-me, mexendo minhas mãos freneticamente. – Como eu nunca pensei nisso?

-Bruno...

-Eu posso fazer um jantar, algo especial. Mulheres gostam disso.

-Bruno?!

-Oi? – Sorrio para ele até ver que ele não abre nem um pouco a sua boca. Apenas balança a cabeça negativamente. – O que foi?

-Ela está bem. Ok? Você não vai estragar a vida da sua melhor amiga por causa dessas suas loucuras e dessas vezes que fica em cima do muro...

-Eu não estarei estragando, estarei ajudando. Você disse que ela gosta de mim...

-Eu disse que ela te ama como melhor amigo dela, mas acho que a paixão que ela sente não é mais por você nem pelo seu nome. Acho que não existe um Bruno na vida amorosa dela.

-Ela largaria do Richard pra ficar comigo, com certeza. – Dou uma risada nervosa.

-Não apostaria nisso.

-O negócio é que não é você quem tem que achar... – Aponto o dedo para ele e aí percebo que estou indo longe demais. Phil está apenas tentando me ajudar, ele já iluminou minha vida. Eu não preciso pedir pra ele para falar com a Lea, eu posso tomar conta disso sozinho e eu sei que ela voltará pra mim.

Vou começar a vê-la de outra forma, vou me apaixonar por ela. Leva-la para a felicidade completa. Ela será a mãe da Lana, com todos os motivos.

Como eu nunca tinha pensado nisso?

-Desculpe. – Peço ao Phil e entico minha mão para que ele aperte.

-Ok, Bro. Só não faça nada do qual possa se arrepender depois.

-Não farei.

22 de Novembro de 2013

Eleanor Pov's

Foi uma surpresa abrir a porta de casa e dar de cara com o Bruno, esperava que a casa tivesse vazia, já que ele está na turnê e muito ocupado com os programas de final de ano. Sorri para ele, que retribui gentilmente.

-Pensei que voltaria mais cedo. - Comenta, ajudando-me com a mala. Até estranho sua atitude, mas não digo nada.

-Na verdade ia vir mais tarde, porém pensei na Lana e na escolinha, então quis vir mais cedo para busca-la, mas não fazia ideia de que estava por aqui.

-Meu show é só segunda, mas viajo depois de amanhã. Resolvi aproveitar um pouco mais. - Deu um sorriso aberto e abriu a porta do meu quarto, deixando-me passar na frente.

-Obrigada.

-Disponha.

-Então, vai buscar ela?

-Pensei em irmos juntos, o que acha?

-Ok, ainda bem que tenho duas horas pra poder tomar um banho…

-Não demore para tomar café comigo.

-Ah… claro.

Ele saiu corredor afora e eu fiquei com as pulgas fervendo atrás das orelhas. Que diabos ele estava tão carinhoso, cadê aquele cara que já chegava brigando e discutindo? Passo a mão sobre a mente e balanço a cabeça. Quanto mais eu tento entender o Bruno e os homens, mais eu me perco. Acho que isso é para não tentar mais.

Arrumo minhas coisas nos seus lugares e tomo um banho descansada pós-viagem. Era tudo que eu precisava.

Sai com a toalha ainda enrolada na cabeça e de blusa de manga comprida e calça de abrigo. Vou até a cozinha e Bruno olha diretamente para minhas pantufas.

-Fofinhas. - Deu de ombros. - Senta aí pra comer algo.

-Claro. - Sentei-me, puxando algumas coisas que já estavam por ali. - Estou com tanta fome.

-Nem me fala. - Arrancou um pedaço de bolo do prato e praticamente o engoliu inteiro.

-Estava pensando em dar um passeio com a Lana amanhã.

-Ela vai amar. Sente sua falta todos os dias.

-Eu sei, eu sinto falta dela também. - Deu um sorriso de lado, maroto. - E sinto sua falta.

-Também sinto a sua. - Torço meus lábios para o lado e ele estica a mão para que eu possa segurar. - Mas a única coisa que você faz quando chega aqui é brigar comigo. - Desabafo.

-Não é intencional. Desculpe.

-Eu sei que não, mas odeio quando nós brigamos.

-Eu odeio tanta coisa, Lea…

-Precisa conversar? - Pergunto, ao comer um pedaço do bolo.

-Preciso. - Respirou fundo. - Mas eu espero você comer.

-OK.

Continuei a tomar um bom café e olhando para a televisão. Bruno me encarou durante muito tempo, o que me fez pensar que ele está mesmo estranho e não é eu que estou imaginando coisas.

Sinto mais uma vez que ele me olha e dessa vez quase engasgo.

Respiro fundo e tento terminar o café. Levo a louça para a pia e ele pede para que eu não a lave, já que depois terão mais louças e podemos lavar tudo junto. Definitivamente, ele está mesmo precisando conversar.

O guiei até a parte da piscina, o dia estava um pouco gelado, mas nada que não tenha um bom sol e grado por estar na rua aproveitando dessa visão.

-Pode me dizer o que houve. Não tenha medo. - Pedi, quando sentamos nos bancos.

-Semana passada precisei de você…

-Como?

-Eu estava em casa, tive um sonho muito ruim. Lana não estava, ficou com a Tiara porque eu tinha ido a uma festa… Eu sou um péssimo pai, Lea.

-Não diga isso.

-Digo, porque é verdade. - Respirou fundo. - Minha filha estava com a tia dela porque o pai irresponsável foi sair para as noites de Los Angeles ao invés de aproveitar o tempo que tem em casa para ficar com ela.

-Bruno, você também tem as suas vontades, todos entendemos isso. Mas não posso negar que você deveria estar mais presente com ela, ao menos quando está por aqui.

-Eu sei… Mas eu não sei o que acontece comigo.

-Você está confuso com algo?

-Sim.

-Com o que? Me conte como foi o sonho.

-Minha mãe estava numa estação. - Ouvi cada parte que ele ia me relatando. Eu senti como se realmente tivéssemos vivido aquilo. Senti meus olhos marejarem quando ele falou sobre o necrotério e eu sei que isso dói profundamente nele. - Eu queria um abraço, alguém me dando um afago, mas não tinha ninguém. Porque eu sou solitário, Lea. - Bateu com as mãos nas laterais do corpo. - Porque todos me largam, eu deixo todos irem.

-Calado. Isso foi apenas um momento. Escuta, eu estou aqui, não estou?

-Mas eu me pergunto por quanto tempo!

-Pra sempre. - Digo e pego a sua mão para unir com a minha.

-Lea... Eu tenho algo pra dizer, mas não sei por onde começar. - Bruno não tirou os olhos das nossas mãos.

A minha começou a ficar pálida e suar gelado. Não sei se ele percebeu, mas ainda sim não tirou os olhos dali. Será que ele estava com medo de me encarar?

Somente senti que não seria uma boa coisa que sairia da sua boca.

-Pode dizer. - Gaguejo um pouco no início, com medo.

-Eu tenho pensado sobre isso essa semana inteira. Pedi conselhos ao Phil, ele é o melhor nisso.

-Sobre o sonho?

-Sobre a minha vida. - Pude sentir seu coração acelerar dentro do peito. - Eu quero dar um rumo nela. Estou com quase trinta anos e até hoje não tive nada muito sério com alguém. Lana precisa de alguém também, e ter alguém me esperando quando eu chego de viagem ou a pessoa ir até mim, não tem preço.

-Sabe, eu concordo plenamente. Você deveria arranjar alguém que lhe faça sorrir. Um alguém pra te acompanhar em todas as horas… Acho legal estar pensando nisso.

-Eu também estou começando a achar. Phil me disse para procurar alguém que seja boa pra mim e para minha filha.

-Você encontrará!

-Eu já encontrei, Lea. - Meu medo foi olhar pra ele e acontecer exatamente o que estava acontecendo. Ele estava me encarando como se eu tivesse algo haver com a situação ou com o que ele falava. Não preciso de sarna para me coçar logo agora que estou bem. Deve ser coisa da minha cabeça.

-É a Mia? - Inverto o assunto.

-Não, é você!

-Bruno…

Era esse meu pior medo, que ele falasse justamente isso e justamente agora. Eu sentia algo por ele, e era forte, mas agora eu não sinto mais. Eu estou apaixonada pelo Richard, é isso que eu sinto. Bruno é meu melhor amigo e eu confundi muitas coisas quando estávamos nos relacionando e fim. Mas isso foi no passado. Fantasmas devem ficar por lá, e não virem para me azucrinar tempos depois.

-Você é a pessoa perfeita pra tudo. Pra mim. - Como queria ouvir isso antes de tudo. - A Lana é sua filha e pode ser de verdade. Nós poderíamos nos dar muito bem com tudo isso. Nos encaixamos perfeitamente e sabemos o que o outro gosta. Por favor, não diga que isso é mentira.

-Isso não é mentira. Isso foi verdade.

-Foi?

-É, foi. - Respiro fundo, passando a mão sobre o rosto e encarando a piscina. - Eu estive ali o tempo todo. Com você, sempre. Qual pessoa aturaria tudo o que passei ao seu lado, gostando de você, sem te largar?

-Você foi a única.

-Porque você não permitiu mais, porque eu garanto que teria uma fila de meninas iludidas por você.

-Eu iludi você?

-Não… Eu me iludi sozinha, foi pior.

-Mas eu gostava de você.

-E ainda gosta, mas como amigo. Você sempre gostará de mim assim, Bruno. No momento você está confuso por tudo o que está acontecendo, mas vai ver que não é nada dessa forma.

-Eu não estou confuso, eu sei o que eu quero. Eu quero você.

-Bruno, você me teve por boa parte da sua vida. Eu sempre estive lá. Eu que aturava suas bebedeiras, suas pegadas pelas noites com mulheres desconhecidas que depois eu tinha que agir como se fosse somente sua amiga. Eu que tinha que ficar discutindo com você por causa de tudo. Era eu que estava lá. Era eu que limpava cada vômito, que torcia para que me olhasse de outra forma. Por Deus, era sempre eu.

-Eu sei.

-Você não sabe! - Aponto o dedo indicador pra ele. - Você acha que sabe. Você acha que entende, mas não entende.

-Eu estou aqui agora, e acho que o agora conta muito mais do que antes.

-Conta, quando somos estáveis e quando temos palavra.

-Eu tenho palavra.

-Me diz que não vai querer aproveitar pela turnê?

-Eu… - Vi nos seus olhos aquele mesmo Bruno que pegaria qualquer mulher pela turnê, que faria a maior bagunça se brigassemos e depois voltaria com o rabo entre as pernas. Não quero isso na minha vida. Já chega de bagunças.

-Você faria, você sempre faz. Mas, tudo bem, Bruno, eu não estou falando como se isso fosse possível, já que você sabe que eu estou com o Richard e estou muito bem com ele.

-Você mudou desde que começou a namorar com ele, isso sim.

-Eu não mudei, eu cresci. Parei pra ver a bagunça que minha vida estava, eu não poderia mais conviver com aquilo. Você mal viu, mas eu dediquei muitos anos da minha vida a você e nada pra mim.

-Eu vi… Eu sou grato por isso.

-Eu não quero que seja grato, mas obrigada. Apenas quero que entenda que você precisa crescer e agir como um adulto. Eu sou sua melhor amiga e isso não vai mudar, mas falando como uma pessoa que já foi apaixonada por você, eu mudaria. Porque assim você pode subir na sua carreira, mas a sua vida sempre será mais solitária.

-Não pode me chamar de solitário!

-Posso, porque é o que está sendo. E por que? Por orgulho! Orgulho de se apaixonar, orgulho de correr atrás das pessoas. Orgulho de tudo. Você não vive!

-Eu vivo! Eu sinto orgulho, eu sou assim e nada vai me mudar.

-É por isso que vai continuar desse jeito. O pesadelo foi apenas pra ver que as pessoas se vão Bruno, se você não conquista-las e mostrar que vale a pena estar com você, elas se vão… Não vou estar todo o tempo ao seu lado.

-Não é só você que pode me ajudar.

-O Phil, também pode, é claro… Mas lembre-se que ele tem uma vida e uma família.

-Eleanor, eu não queria transformar isso numa discussão.

-Não é uma discussão.

-Parece.

-Em fim. - Relaxo meus ombros. - Você tem notícias do Caleb?

-Não. - Responde um pouco confuso.

-Porque ele saiu da vida da Megan, ele deixou de ter a máxima importância pra ela. Ela foi viver. Mas acha que se o Caleb fizesse tanta falta assim, nós não correriamos atrás dele?

-Claro.

-Então, Bruno… Batalhe pra fazer a diferença na vida de alguém. Batalhe por ser a pessoa que nós iremos atrás caso um dia a gente se perca. Eu te amo tanto. - Repouso minha mão sobre seu ombro. - Mas eu me amo também.

-Não acha que somos legais juntos? Eu e você?

-Somos. Teríamos filhos lindos, mas não é o que eu quero e não é o que você quer também.

-Eu sei o que quero.

-Tudo bem…

-Você poderia me dar essa segunda chance!

-Viu como você não percebe o que está ao seu redor. Eu já lhe dei mais de segundas chances. Já lhe dei muitas e muitas.

-Mas dessa vez vamos namorar, vamos ser um casal de verdade. Posso mostrar que sou capaz.

-Eu sei que é, mas não mais comigo. Eu tenho outro, Bruno. Eu estou apaixonada pelo Richard.

Falar em voz alta fez aquilo soar bem mais duro do que pensava. Falar em voz alta me fez ver que eu estou realmente me apaixonando pelo Ric, não é mais uma simples coisa. É um grande sentimento. Ele me faz enxergar além do que eu achava que podia. Dou um sorriso para o nada, me contentando com o fato de que sim, eu estou apaixonada e namorando. Bruno reclama algo baixinho, mas não entendo o que é.

-Eu vou esperar pelo dia que vocês terminarem e você correr pra cá.

-Bruno, não força. - Rio. - Sabe que não faço o estilo lamentações.

-Tanto faz, Eleanor.

-Grosso.

Ele levanta dali e da alguns passos para longe.

-Vou buscar minha filha sozinho, depois iremos sair.

-Ok.

Não iria me intrometer. Ele está apenas com o ego ferido e contradito, por isso essa estupidez. Daqui a pouco passa e ele volta ao normal. Não é motivo para rebeliões. E sobre ele ir buscar a Lana, tudo bem, eu passo muito tempo com ela e ele pouco, ele merece ter um tempo somente com a sua pequena.

Espero que ele entenda como as coisas acontecem.

Explicando meu sumiço, de novo. Perdi meu pai nesse final de semana que passou... Não sei se vão me entender, mas a dor é forte, a saudades também... É terrível passar por isso, principalmente eu que morava junto com ele e minha tia. Espero que entendam se eu demorar um pouco mais, eu peço que não me abandonem, porque irei fazer de tudo para não abandonar vocês. Até porque ele não queria que eu abandonasse meus sonhos. Esse capítulo já estava pronto e o outro está fluindo...
Ah, eu espero que tenham gostado do gelo que ele tomou ndsanidasodnas
Amo vocês e obrigada por estarem comigo e acompanharem <3
Até mais. Beijinhos!