Se eu sou um pagão dos bons tempos
Minha amante é a luz do Sol
Para manter a Deusa ao meu lado
Ela exige um sacrifício
(Take me to church - Hozier)
Cinco de setembro de dois mil e onze
Lana está no auge dos seus três anos. Sapeca e inteligente a cada dia que passa. Já fala de tudo, e a maioria das coisas não erra tanto. Assiste filmes e os compreende, desenhos, exercita o cérebro com livrinhos fáceis, pinturas, e alguns jogos que fazemos com ela, além de brincar bastante com seus primos e ter um relacionamento bom com os filhos da Urbana. Umma está se saindo uma babá e tanto, ela está virando a terceira avó pra ela, já que se apegou de maneira rápida e impressionante. Ás vezes até rola um ciúmes da minha parte, por vê-la mais grudada na Umma do que comigo, mas sei que é normal e sei que ela não deixa de gostar menos de mim por isso.
Estou na procura da escola de balé para ela começar ano que vem, e já venho ensinando alguns passos, bem básicos e como posso, que ela se encanta. Nunca vi uma criança tão concentrada como ela, com a dança principalmente, mas ela adora estar no meio da música – como seu pai -, e ouvir os sons. Sempre que pode está no estúdio com ele, fazendo barulho e rindo bastante.
Pouco a pouco estamos desvendando a sua personalidade. Sensível, delicada, mas bem forte. Gosta da natureza por influência de suas duas avós, e ama os animais. É maravilhoso descobri-la devagar assim.
As malas estão prontas próximas a porta. Bruno tem duas entrevistas e uma sessão de fotos na Inglaterra e levará eu e a Lana junto, já que peguei minhas férias, porém vamos para Paris e esperar ele por lá. Será uma viagem de uma semana e dois dias ele estará fora, mas da Inglaterra até a França é um pulo.
-Vou ter que ficar tanto tempo longe da minha boneca? – Umma pegou a Lana no colo, beijando sua bochecha.
-Eu volto já, já. – Repete uma das frases que Bruno diz quando despede-se dela.
-Ela está crescendo tão rápido. – Largou-a no chão, que correu para o sofá pegar a sua boneca.
-Nem me fala. Parece que foi ontem que eu estava pegando-a no colo, recém nascida.
-Um dia, se quiser, pode me contar essa história. – Umma não sabe o que aconteceu ainda, sabe somente que Lana não é minha filha, mas me chama de mãe.
Fiquei receosa de contar para ela logo que estava conhecendo-a. Nunca se sabe pra quem está falando e qual é o estranho que habita a sua casa, não o conhecemos. Ela foi dormir aqui a primeira vez após dois meses de trabalho. Bruno tirou toda a sua vida da policia, puxou ficha de tudo quanto é coisa para termos certeza que não era nenhuma estelionatária, assassina – não dá nem pra rir porque isso pode realmente acontecer -, nem nada do tipo.
-Dre está a cinco minutos daqui. – Bruno aparece, colocando a carteira no bolso da sua calça.
-Todo o respeito... Está bem bonito. – Umma deu a sua opinião e em seguido o furacão Lana passou por nós, abraçando seu pai pelas pernas e recostando a cabeça nelas.
-E cheiroso. – Completou Lana.
-Estou sempre. – Passou a mão pelo cabelo, ainda não coberto pelo chapéu. – Obrigada minhas garotas. – Bruno também pegou intimidade com a Umma, depois de ver que ela é uma boa pessoa e que a Lana gosta tanto dela. – Não vai dizer que eu estou lindo também, Lea?
-Precisa que eu fale isso, mesmo com duas mulheres dizendo? Não vive sem mim. – Balanço a cabeça no embalo do riso.
-Claro. Gosto de me sentir bonito.
-Ok, senhor Bonito, pegou a sua mochila?
-Peguei. A bolsa? Sua e da Lana...
-Pegarei a da Lana agora.
-Eu fiz duas mamadeiras para a viagem. – Umma parece ter lembrado e corre até a cozinha.
-Essa mulher é um anjo. – Digo em voz alta, enquanto caminho até o quarto da Lana.
Pego a sua bolsa e mais um brinquedo pequeno para caso ela queira largar a boneca e volto para a sala. Bruno está se despedindo de Umma e Lana está na porta, olhando para a rua. O verão de sol escaldante pedia que pelo ou menos levássemos uma garrafa de água. Peguei-a na cozinha, dei um beijo na Umma e sai atrás do Bruno e da Lea que estavam bem a frente, carregando as malas – ele levando as duas e ela empurrando uma, para ajudar.
Tiara ficaria na casa essa uma semana para cuidar, junto do seu amigo Jonah e em poucos minutos eles chegariam, por isso deixamos a casa com a Umma por enquanto.
Fomos derretendo até o aeroporto. Passamos na frente da fila de embarque e direcionados ao avião. Senti muitos cliques sobre o Bruno e a Lana, garanto que em alguma foto eu estará dando o ar da graça.
Liguei para minha mãe antes de embarcarmos e partimos com o voo para longe dali.
ზ
Era uma atmosfera completamente diferente que a dos Estados Unidos. Me sentia num filme, algo bem surreal. Nunca fui do tipo de menina que sonhava em estar na França, Paris, mas quando se está aqui parece que essa vontade surge dentro do peito. Me emocionei ao olhar para os lados, ver pessoas novas, uma nacionalidade bem diferente. Pessoas bonitas, diga-se de passagem. Todos bem portados e como estávamos no aeroporto, bem arrumados, pois provavelmente todos irão viajar.
Bruno parou para duas ou três pessoas enquanto Dre nos guiava para a van que nos esperava na saída do aeroporto. Ajeitei a Lana na cadeira e coloquei meu cinto. Bruno chegou e se aconchegou no banco em minha frente. Quando sorri para ele, ele sorriu de volta, mas não foi um sorriso verdadeiro, foi falso. Foi como ele sorri quando não está confortável e nem afim de algo.
Não sei controlar meu jeito, nem soube o que houve, mas já havia fechado meu rosto e ficado calada. Olhei para as ruas quando a van partiu, e de onde quer que estivéssemos, poderíamos ver a Torre.
-Como ela é grande. - Comenta Lana, olhando para a janela.
-Enorme, não? - Bruno riu. - Papai irá levar você lá.
-Lá em cima?
-Sim, lá em cima. Podemos gritar bem alto de lá.
-E as pessoas irão escutar?
-Sim, todas elas.
-Eu quero gritar que amo batata frita. - Levantou os bracinhos. - Que eu amo vocês também...
-Papai irá gritar que você é a melhor coisa que me aconteceu. - Esticou-se para pegar a sua mão. - Lea irá gritar que você é a melhor filha que poderia ter. Não é?
-Claro. - Respondi séria para ele, mas sorri quando vi o rosto emocionado da minha pequena. Olhos bem brilhantes.
-Num dos vídeos de balé que eu estava vendo, a final do campeonato era aqui. As meninas fizeram um grande espetáculo em volta dessa Torre. - Explicou, mexendo no cabelo da boneca.
-E você quer fazer o que? - Dre pergunta.
-Dançar balé como elas. Flutuar. - Fez um movimento com a mão no ar, na gravidade.
Foi somente até nossa chegada ao hotel, o tempo de arrumarmos nossas malas no lugar, para o Bruno pegar a mala dele que iria levar para a Inglaterra e descermos para o hall de entrada do hotel. Esperamos o Dre chegar e o acompanhamos até a entrada.
-Dre voltará com vocês até aqui. - Diz quando paramos na estação do trem onde iria pegar.
-Não precisa, voltaremos a pé. É muito perto.
Muito perto sim, me refiro a mais ou menos uns dez minutos de carro, o que resultará em poucos minutos a pé, e também poderei conhecer a cidade um pouquinho com a Lana.
-Tudo bem. - Disse, baixando-se para beijar a Lana. - Vou sentir saudades, meu amor. Voltarei depois de amanhã.
-Ok, papai. Eu te amo.
-Também te amo. - Deu um beijo em sua testa, fazendo-a até cambalear. - Até daqui a pouco, Lea. - Beijou levemente minha bochecha.
-Se cuide, boa sorte com as coisas pela Inglaterra e me mantém informada.
-Com certeza. Me deixe a par da minha pequena, qualquer coisa me ligue ou ligue para o Dre.
-Pode deixar.
O vemos entrar no trem e ele partir. Como as coisas da Europa são tão mais emocionantes e lindas? O trem tinha traços fortes de antiguidade e luxo ao mesmo tempo, mas mesmo assim parecia moderno demais.
Comprei um chocolate para a Lana e saímos de mãos dadas pelas ruas. Parei para tirar muitas fotos minhas e dela, das paisagens e até das pessoas que por ali estavam. É um hobby bem legal tirar fotos, registrar memórias e ter lembranças.
ზ
Passou mais da metade do segundo dia em Paris e eu e Lana não fizemos nada. Ficamos dentro do quarto do hotel, assistindo filmes e brincando. Ensinei algumas coisas a ela na medida do possível, sobre a língua inglesa e outras coisas. Lana pega tudo com muita facilidade, o difícil é ela querer prestar atenção somente em aprender, pois quer fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo.
-Vamos sair, Lana? - Pergunto para ela, enquanto olhava pela janela e via a Torre Eiffel e as outras belezas que a cidade nos trazia.
-Vamos. - Comemorou rapidamente, largando seu lápis de cor no chão e indo para a cama.
-O que você quer vestir?
A ajudei a escolher a roupa perfeita para o passeio. Não fazia ideia de onde eu a levaria, mas precisava escolher um lugar bom. Talvez comêssemos em algum café e após caminharíamos até o rio, mas algo precisaríamos fazer.
Novamente caminhamos um pouco mais, tiramos mais fotos e sentamos num café para conversar com algumas pessoas. Não são muito simpáticos, mas as duas mulheres que conversavam comigo porque acharam a Lana encantadora, eram bem legais.
Compramos um crepe e fomos até a ponta da Torre. Lana ficou babando quanto ao tamanho dela, achou imensa e eu também. Ficamos por muito tempo em silêncio somente analisando. Comemos nosso crepe de nutella e eu tirei uma foto dela com a torre atrás. Ficou tão linda que eu precisei compartilha-la com o Bruno. Mandei a foto e guardei meu celular na bolsa por estar quase sem bateria.
Voltamos para o hotel quando já estava anoitecendo. Cantei algumas musiquinhas com a Lana enquanto dava banho nela. Tomei o meu e ajeitei nossas camas para assistirmos um filme, amanhã Bruno chegaria e finalmente poderíamos ter o inicio das nossas “férias em família”.
Peguei meu celular sobre a escrivaninha e vi uma mensagem do Bruno. Já a abri com um sorriso nos lábios.
“Porra, Eleanor. Que merda você fez? As férias eram pra ser em família e não somente vocês duas.”
“Bruno... Estávamos sozinhas aqui. Não tínhamos nada para fazer. Absolutamente nada! Não fiz por mal, me perdoe.”
“Vai à merda, Eleanor. É sério, você estragou tudo.”
-Idiota. – Bufei.
-Papai?
-É ele mesmo. – Respondi, digitando a mensagem.
“Obrigada por entender o meu lado sempre. Afinal, o mundo gira somente em torno de você não é? O que queria que eu fizesse com ela? Passássemos mais um dia trancafiadas dentro do quarto do hotel? Eu não sou assim e você me conhece.”
-Porque ele é isso, mãe?
-Ele não é meu amor. – Não podia pô-la contra seu próprio pai. – Apenas estamos conversando e eu soltei uma palavra sem querer. Não a repita ok?
-Por quê?
-Porque é feio... Nem adultos deveriam falar isso.
O celular vibra com a mensagem dele. Olho para o celular.
“Isso é o que você acha, eu faço de tudo por vocês, sou um trouxa mesmo. A única coisa que eu queria era um tempo com a minha filha, só isso, mas você sempre quer toma-la de mim, certo? Aí vai uma novidade, Lea, ela é MINHA filha! E eu só queria poder aproveitar com ela. Desculpa se não estava ai para passear com vocês, mas estou trabalhando, não tenho tempo para suas impaciências”
“Caralho, Bruno, o que aconteceu? Eu somente a levei pra passear. Amanhã quando chegar leve ela e pronto, ficará tudo bem. Acha que ela ficará mais ou menos triste por ter ido à primeira vez comigo? Como você disse, você é o pai dela, ela irá amar ir com você”
-Eu te odeio. – Aperto o celular em minha mão e olho para a Lana, que não presta atenção em mim e sim para a televisão. Doeu profundamente sobre o que ele falou de eu não ser nada dela. Ok, eu não sou, mas quantas brigas nós teremos que ele irá esfregar isso no meu rosto?
É sempre assim, brigamos feio e ele joga na minha cara que eu não sou a mãe dela e que ele é o pai. Eu não tenho culpa se ele estava preso na Inglaterra a trabalho, eu não tenho culpa que ele é impulsivo, eu não tenho culpa nenhuma quanto a ele um dia ter sido menos babaca e ter precisado da minha ajuda.
Nunca jogarei na cara dele que o ajudei com a Lana porque quis, porque eu realmente quis. Ele é meu melhor amigo e estava num beco sem saída, o que mais poderia fazer? Se eu tivesse cruzado os braços para ele e o bebê recém-nascido, ele jogaria na minha cara também?
“Eu não quero conversar, Lea. Amanhã à noite chegarei aí. Tchau.”
ზ
Bruno chegou e mal falou comigo. Passou o tempo todo com a Lana e quando ela chamava por mim, ele que atendia, dizendo que estava ao lado dela e que ela podia pedir qualquer coisa pra ele. Uma criança grande, ele consegue ser pior que uma criança, na verdade.
-Que linda. – Beijou a cabeça dela, ajeitando a sua boina. – Vamos lá, capitã?
-Vamos papai. – Deu a mão pra ele e parou na porta. – Vamos, mãe!
-Ah... – Iria responder, mas ele cortou minha fala.
-Lea tem que ficar aqui no quarto, irá chegar uma coisa pra ela e ela precisa esperar.
-Eu pensei que ela iria conosco. – Resmungou.
-Não, meu amor. Seu pai tem razão, tenho muitas coisas pra fazer aqui. – Respondi, olhando nos olhos dele e sentindo os meus marejarem.
ზ
Já tinha posto a Lana para dormir, esperava o Bruno acordada. Estava preocupada de onde ele pudesse estar, já que nem o Dre está aqui em Paris, estamos somente nós nesse quarto escuro e Bruno soltos pelas ruas de uma cidade onde mal conhece.
Virei-me na cama, liguei a televisão baixinho e olhei para o celular. Disquei o número dele mais uma vez, só chamava, mas ele não me atendia. Não entendi o porque ele sempre tem que fazer isso comigo, me deixar preocupada quando está bravo e simplesmente sair.
Ponho alguma música calma, bem baixinho para não acordar a Lana e desliguei a televisão.
A porta destrancou e ele entrou, um cheiro inebriante de sabonete e perfume. O olho passando até a sua mochila com um largo sorriso nos seus lábios.
-Boa noite. - Digo para chamar a sua atenção, sentando na cama.
-Boa noite. - Faz questão de olhar em meus olhos estampando um sorriso nos lábios. Pelo menos ele estava bem e isso me confortava.
-Onde foi? Tomou banho... - Brinco com ele, tocando meu celular para o lado.
-Sai por Paris, conhecer mais a fundo a cidade.
Pude ver somente o seu olhar sugestivo através da luz da rua que entrava pela fresta da janela. O quarto estava todo escuro e ele parou onde tinha aquele feixe somente para me olhar. Engulo minha saliva com dificuldade.
-Eu estava esperando por você para dormir. Me preocupei com o horário.
-Não precisava, se algo tivesse acontecido eu te ligaria. Tenho o seu número, lembra? - Balançou o celular e andou para o banheiro.
Meu coração apertou quando ele fechou a porta de madeira. Sinto todo meu corpo se contrair, meus olhos marejam rapidamente. Odeio sentir as coisas com tanta intensidade como sinto, odeio levar tudo para o coração e sentir todo o peso da culpa que muitas vezes não é minha. Não posso crer que ele ainda está bravo comigo pelo passeio que tive com a Lana. Eu sei que não tenho culpa e que nem devo me sentir mal por isso, mas quando ele me trata com desdém e fala essas coisas, me machuca. Eu sei que ele saiu para ficar com alguém, no mínimo comeu algumas garotas por aí e tomou um banho para não chegar cheirando a sexo. É isso que ele passou o dia fazendo que não pode dar a notícia de que estava bem.
Essa viagem está se saindo uma grande porcaria.
Quando Bruno sai do banheiro carregando suas roupas nas mãos e estando somente de cueca, ajeitei-me no meu lado da cama, pegando meu celular e encarando o papel de parede. Nós três, minha pequena família-não-família.
Sentia todo o drama de uma briga de casal quando ele deitou-se ao meu lado sem falar nada, apenas encarando o teto com o mesmo sorriso de antes. Virei para o lado de coração apertado e deixei que as lágrimas corressem silenciosamente dos meus olhos.
Não sei a hora que ele adormeceu, ouvi seus roncos baixos e virei-me de barriga pra cima. Meus olhos estavam pesados e queriam se fechar, mas eu não tenho sono, então desbloqueei meu celular e cacei as mensagens. Abri uma nova conversa entre a Megan e eu.
"Eu quero minha casa, eu quero um abraço. Estou me sentindo uma adolescente sofrente... Odeio sentir meu peito se espedaçar e eu não estar entendendo o porque... Me ajuda. Sinto sua falta."
Não esperei que ela fosse me responder, mas para minha surpresa a sua resposta chegou em segundos.
"Estou na sala, sentada no sofá, com cabelos bagunçados e olhos inchados. Mais uma briga com o Caleb! Sinto meu coração da mesma forma... O que houve entre você e o Bruno? Sinto sua falta também."
Parece que nós duas estamos tendo uma péssima noite. Ou melhor, eu tendo uma péssima noite e ela um péssimo dia.
"Ele ficou bravo porque passeei com a Lana quando ele estava na Inglaterra... Pensei que tinha passado isso, mas ele continuou me tratando com frieza e hoje ele foi sair, não deu sinal de vida, e quando chegou falou que estava conhecendo mais 'a fundo' Paris. Ele deveria estar com algumas muitas vagabundas. O que houve com você e Caleb?"
"Ele é o idiota de sempre, os mesmos motivos idiotas também. Mas... Você está magoada com ele porque ele ficou com algumas garotas? Não são vocês que mantém algo baseado somente no sexo?"
"Sim, somos nós, mas eu não sei o que é isso. Chorei, meu peito está todo apertado. Não sei o que eu estou sentindo."
"Você está apaixonada"
"Ele é lindo, mas é um babaca."
"Eu sabia que isso iria acabar acontecendo."
"Paixão acaba com desilusões. Tomarei alguns tapas e a paixão irá acabar. Isso é bom para viver."
"Paixão acaba, amor não. Cuidado, Lea..."
Olhei para o lado encarando o rosto delicado e másculo que ele tem. Sua respiração estava pesada e o sonho não parecia estar muito bem. Virei-me para o seu lado, apertando meu celular contra o peito e com a outra mão encostando levemente nos seus cabelos.
Tudo isso era para ser uma brincadeira, dois amigos que se divertem juntos, até eu começar a ter ciúmes dele.
Se eu dormir, e amanhã ele estiver falando comigo, tudo mudará.
-Deus, minha meta será não levar nada dele para o coração. Eu sou forte e não irei me abalar. Isso é apenas fraqueza. Deve ser algo da TPM. - Converso com Ele baixinho e faço o sinal da cruz. - Sei que irá me trilhar para o caminho certo. Amém.
Pela manhã acordei antes dos dois e arrumei-me, colocando um casaquinho pelo vento frio que batia na rua. Andei pelas ruas, peguei um táxi - que no fim quase nem foi preciso - e fui até a Catedral de Notre-Dame.
Passei muito tempo lá, tirei muitas fotos, li muitas coisas e o principal, orei. Conversei com o Poderoso, pedi que ele zelasse por todos que amo, que os proteja de tudo quanto é mal. Sinto que devia fazer isso. Acendi uma vela e fui embora de lá, pegando meu celular para checa-lo e havia duas ligações dele.
Entrei no nosso quarto assim que cheguei no hotel. Lana estava tentando cantar a música de um desenho que passava na televisão e ele roendo o canto das unhas com um caderno em sua frente e o celular ao lado.
-Por onde andava? - Vociferou para mim, mas não deixaria que nada me tirasse daquela paz com que vim da catedral.
-Passeando um pouco.
-Custava atender a porcaria desse celular? - Levantou para chegar perto de mim.
-Onde eu estava não podia atender ligações. - Respondi calmamente.
-Estava transando, no mínimo. Porque eu fiz isso e você achou justo fazer também. - Troveja em minha frente, sem importar se Lana estava ouvindo algo, mas creio que não pois estava bem concentrada.
Baixo minha cabeça, desbloqueio meu celular e mostro a foto da catedral para ele, que tirei assim que cheguei lá.
-Estava tendo um momento meu. - Dou um meio sorriso, amarelado, e saio da sua frente.
-Ótimo. - O ouço resmungar.
Falei com a minha pequena e cantei um pedaço da musica com ela. Mostrei as fotos do local e expliquei para ela porque que oramos. Na verdade, desde pequena, na maioria das vezes eu rezava para ela antes de dormir, assim que acabava a musica ou história, para ela se acalmar e sempre adiantou.
O clima estava insuportavelmente chato. Eu falava o básico, ele também, nada demais. Seguimos nosso dia dessa mesma forma. A noite, Bruno saiu com a Lana para jantar, dessa vez me convidou, mas eu preferi fazer alguma coisa a sós.
Arrumei-me, uma calça jeans, um sobretudo preto, botas e cachecol. Estava bem friozinho na rua e o primeiro pensamento que tive quando pus os pés para fora do hotel foi na Lana e se ela estava bem agasalhada.
Desliguei meu celular e andei até um bar com música ao vivo. Claramente eu não entendia quase nada do que conversavam, ninguém fala minha língua por aqui? Sentei-me no balcão, pedi uma travessa pequena de petiscos e uma bebida pra acompanhar. Sex on the beach, que por sinal estava maravilhoso.
Um homem sentou-se ao meu lado, dando sorrisos em minha direção. Quando o garçom entregou a sua bebida, ele olhou-me e ergueu o copo como se fizéssemos um brinde. Fiz o mesmo, entregando-lhe um sorriso de volta dos muitos que ele me deu.
-Qual sua graça? – O moço de olhos claros, cabelos combinando, e com uma roupa linda, puxou o seu banco para o meu lado.
-Eleanor. A sua?
-Pierre. – Esticou sua mão em minha direção e eu a apertei. O sotaque Francês falando inglês, sinceramente, deixou-me perdida no espaço. Que homem lindo.
Bruno Pov’s
-Aí nós tiramos muitas fotos. – Lana estava sentada ao meu lado no restaurante fora do hotel, conversando sobre a Lea e o que elas fizeram quando eu estava na Inglaterra.
-É? – Coloquei mais comida em seu garfo e ela pegou com sua mãozinha.
-Nós aprendemos mais coisas também.
Lana poderia ficar falando por horas a fio o que elas fizeram naqueles dias, ela a ama e a admira, e também não paga imposto para falar. Esperei que ela falasse e pacientemente ia dando a comida pra ela.
Eu estava bravo com a Lea, é claro, agora a raiva estava passando e hoje vê-la daquela forma com a minha filha, agora ouvindo ela falar sobre a Eleanor, me faz sentir um idiota por ter dito aquelas coisas, novamente. Queria enfiar a cabeça num buraco e não sair mais, mas sou orgulhoso também, e não irei pedir desculpas agora. Eu errei, mas ela também errou.
O que compensa tudo isso é que estou com minha filha agora e depois me entenderei com a Lea.
ზ
Acordamos cedo, o que era de fato estranho. Nove da manhã e estávamos todos em pé. Dei bom dia para a Lea, que me respondeu na mesma altura, sei que ela ainda está bem chateada comigo.
Fiquei passando umas notas no meu violão, Lana rabiscando nos seus cadernos e Lea foi para o banho. Levou até suas roupas para não se trocar na minha frente... É, ela está bem magoada.
Estranhei quando a campainha tocou, não pedi nenhum serviço de quarto. Larguei o violão e abri a porta.
Em minha frente estava um homem alto, loiro, olhos claros e sorriso bem branco. Tinha um nariz avantajado e o porte de quem corre pelo menos uma vez na semana.
-Olá. – Cumprimentou-me, arregalando os olhos de leve. – Você é quem eu acho que é?
-Bom dia. – Franzi o cenho. – O que procura? – Porra, eu pedi completo sigilo sobre estar aqui.
-Eleanor. – Sorriu. Continuei a olha-lo. Encarei sua roupa de cima a baixo, tudo parecia bem caro e de boa qualidade.
-Quem gostaria?
-Jean Pierre. – Estendeu a mão. – Prazer.
-Prazer, Bruno. – Estendi a minha.
-Quem é, papai? – Minha pequena se alerta e levanta da cama, vindo até as minhas pernas, empurrando-as e olhando para o tal de Jean. – Oi. – Disse para ele, nada tímida.
-Olá, doçura. – Abaixou-se e tentou tocar nela. – Como vai?
-Bem. – Respondeu e eu não consegui nem sorrir pela educação que a minha filha tem, somente ficou encarando o homem... Como a Lea teve a capacidade de entregar o endereço daqui?!
-O que procura com ela? Ela está no banho, posso deixar recado.
-Ah, diga apenas que eu estou esperando-a lá embaixo para irmos ao café.
-Ok.
-Obrigada, prazer conhece-lo.
Não foi um prazer conhecer você, Jean. Pensei comigo mesmo e fechei a porta. Lana questionou quem era o moço, disse apenas que era um amigo da Lea, por que na verdade até eu queria saber quem ele era.
-Um amigo seu bateu aqui, disse que está esperando lá no hall. – Falei, levantando da cama e largando meu violão novamente.
-Ah, merda. – Resmungou baixinho. – Demorei demais. – Puxou a escova de cabelo e começou a penteá-los.
-Quem é ele? – Perguntei mesmo sabendo que ela pode me mandar a merda.
-Pierre, um cara legal que conheci ontem à noite.
-Uh.
Fiquei de boca fechada vendo-a se arrumar. Em menos de cinco minutos, ela estava pronta. Deu um beijo na Lana e disse que estava descendo. Então, ontem à noite quando ela demorou para chegar e estava com o celular desligado, ela estava com ele? Ótimo, percebi que ela deu o troco com a mesma moeda.
Mas ao mesmo tempo percebi que a viagem, que era pra ser legal para todos nós, virou um fardo ruim de carregar. Cada um está para um lado e a única que está sendo a vítima disso tudo é a Lana, que não teve nenhum momento legal comigo e com a Lea. Eu não a levei em nenhum lugar, não a levei para tomar café, não a levei para passear, para conhecer o rio, a ponte, o arco, a torre... Nada! Eu apenas fechei-me no meu mundinho de ficar bravo com ela, como sempre faço, e nada mais.
Passou meio dia, passou duas da tarde, quatro da tarde, e Lea não voltou. Levei a Lana a uma loja de brinquedos e comprei algumas coisinhas pra ela. Testei algumas guitarras em uma loja, comprei duas camisas num shopping e reservei três entradas para o Louvre.
Quando voltamos para o hotel, Lea já estava lá. Mexia no celular enquanto ouvia música pela televisão. Estava só sorriso e meu peito aperta levemente.
Guardo as coisas da Lana, deixo-a brincar com uma boneca. Separo a minha roupa, a roupa dela e quando crio coragem para sentar ao lado da Lea e conversar com ela, seu celular toca e ela atende.
Sua mãe fala por um tempo com ela, tempo suficiente para que eu pudesse arrumar a Lana e dar uma mamadeira.
-Hey. – Chamo a atenção quando ela desliga. – Vamos jantar?
-Ah...
-Antes que diga algo, isso não foi um convite. – Coço minha cabeça, dando um sorriso tímido. – Quero que vá comigo.
-Aonde vamos? – Levantou-se prontamente.
-Ainda estou escolhendo.
Arrumamo-nos e descemos. Tinha pedido algumas indicações e recebi várias que pareciam ser boas, mas decidi que iríamos ficar com a mais longe dali, próxima a ponte, de onde podemos enxergar a torre – não sei qual o lugar de Paris que não se possa enxergar a torre...
A reserva da mesa estava no melhor lugar possível, estratégico, diria eu. Fizemos nossos pedidos e começamos a comer escutando a Lana falar, falar e falar. Foi quando minha pequena disse que estava sentindo muitas saudades da sua avó Bernie que meu peito apertou de vez. Estava com saudades dela também, a queria do meu lado todos os dias.
-No ano novo irei pra Vegas. – Comento.
-Combinei com a minha mãe de ir pro Havaí. – Ela lamenta.
-Eu sei, e é por isso que vou pedir que a leve junto. Quero que ela veja a sua avó, passe um tempo com a família de lá. Ela sente falta. Além do que, Vegas não é um lugar para bebês.
-Eu sou criança. – Disse esticando os lábios e fazendo cara de braba, seus gestos se igualando de um adulto.
-Vegas não é lugar pra você igual. – Aperto seu nariz. – Depois do show, no dia primeiro, pegarei um voo e vou pra lá.
-Pode ser. – Ela concorda comigo.
Fomos pra casa e Lana dormiu no meio do caminho. Sabia que ela não duraria por muito tempo, já que tivemos um longo dia.
Lea a largou na cama e foi para o banheiro se trocar. Pôs um pijama e sentou na cama, pegando seu celular e o controle da televisão. Sentei-me ao seu lado após vestir uma calça de moletom e uma regata.
-Tenho que começar por onde?
-Que? – Me questiona.
-A pedir desculpas... Não sei o que dizer, só sei que eu fiz mal, muito mal. Estraguei a viagem por uma coisa boba.
-Tá tudo bem, Bruno.
-Não está não. – Pego sua mão e ela tenta desviar. – Se tivesse tudo bem nós não estaríamos assim. Eu não sei o que dizer, somente que sinto muito.
-É passado. – Deu-me um sorriso torto.
-Porque foi à igreja aquela manhã?
-Eu passei a madrugada toda, praticamente, acordada. Estava mal, com um peso nos ombros e meu peito apertado. – Respirou fundo, puxando a sua mão da minha. – Precisava de um momento assim.
-Culpa minha.
-Também. – A sua sinceridade quase sempre dói. – Mas é mais por que precisava esclarecer meus pensamentos.
-Eu nunca quis dizer que você não é uma mãe para a Lana.
-Engraçado. – Riu baixinho. – Você nunca quer dizer isso, mas sempre diz, percebeu? Sempre joga na minha cara que eu não sou mãe dela. Aí fiquei pensando, e se eu não tivesse ajudado você? E se você ficasse a ver navios com uma recém-nascida nos braços, não sabendo nem trocar uma fralda direito. Você ia jogar na minha cara também?
-Não! – Rebato. – Entenda que eu nunca quero dizer isso por mal. Sempre falo isso, mas falo num momento de fúria.
-É nesses momentos que falamos as verdades, não é? Eu cuidei dela aqui Bruno. Desculpa se não esperei para ir à porra daquela torre com você, mas tínhamos passado um dia já dentro desse quarto e qualquer lugar que você vá, em Paris, você bate de cara com a torre. – Evitou olhar pra mim, mas pela luz do abajur pude ver o brilho dos seus olhos, ela iria chorar a qualquer momento. – Não me arrependo de ter vindo pra cá, não me arrependo de conhecer Paris sozinha... Inclusive, quero agradecer você por me proporcionar isso.
Com o impulso, fiquei frente a frente com seu rosto e a beijei. Lea não correspondeu nada, empurrou meu corpo de leve e balbuciou um “não”, baixinho e lamentável.
-Por quê? – Pergunto.
-Nós estamos bem, como amigos, Bruno. Não quero ficar com você agora... Acho que já confundimos demais as coisas.
-Não confundimos nada. – Digo.
-Confundimos sim. – Respirou fundo e passou a mão no meu rosto, dando-me um sorriso.
-O que nós confundimos?
-Eu fiz isso. – Deu-me um sorriso. – Carência, Bruno.
-Eu posso matar isso. – Pus a mão sobre a sua barriga.
-Nem tudo se resume a sexo. – Deitou-se, cobrindo seu corpo e virando para o meu lado. Esticou a mão e desligou o abajur. – Vamos dormir? Estou cansada.
-Claro. – Engoli a seco. – Desculpa por estragar essa viagem.
-Não se preocupe, nós sempre teremos Paris.
Foi por conta desse sorriso e dessa frase que eu deduzi que ela não está dando um ponto final no nosso sexo casual, apenas ainda está magoada pela nossa briga. Mas tudo o que ela me disse, todas as coisas que estão cobertas de razão, resultaram no meu peito mais uma vez inflar e ficar pesado. Estranhamente fiquei me sentindo um lixo por brigar com ela e depois querer sexo. Ela pôde ter ficado com aquele Parisiense a tarde toda e apenas queira um descanso, mas só de pensar no seu corpo colado ao dele me dá arrepios.
Meninas, seguinte, estou sem notebook temporariamente por motivos técnicos e tive que mandá-lo para a assistência :/
Então, espero que me entendam se eu demorar pra postar - se alguém sentir saudades né :p

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