quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Capítulo 38


Oh querido, não cresça, não ouse crescer
Poderia ficar simples assim
Eu não vou deixar ninguém te machucar
Não vou deixar ninguém partir seu coração
Ninguém jamais vai te abandonar
Apenas tente nunca crescer

(Never Grow Up - Taylor Swift)


Era para ser somente um dia mais feliz, legal, mas nada começou bem.

No inicio da manhã, o carro de Megan estragou no meio do caminho. Ao chegar no serviço, vi que tudo estava estranho quando o quadro motivacional estava vazio e não havia os pequenos chocolates para alegrar nosso dia. O gabinete do chefe estava fechado, com luzes apagadas. Ninguém sabia o que realmente tinha acontecido, somente fofocas pelos corredores, mas nenhum de nós foi para a rua, até vir o boletim oficial, mandando-nos para casa, pois a irmã do chefe foi brutalmente assassinada na noite passada.

Foi chocante, nunca esperamos por uma notícia dessas. A morte nunca avisa quando vai chegar. Ela sopra um vento para nós, avisando-nos antecipadamente que devemos demonstrar todo o carinho pela pessoa, e estranhamente você se vê perto da pessoa, querendo mostrar que gosta dela, para depois vir e acabar com tudo. Conheço muitas situações parecidas com isso.

Paro para refletir que a vida não é nada. Que nada não é nada. Nos preocupamos com coisas tão pequenas que esquecemos de dar valor aos pequenos detalhes da vida, e esquecemos de lembrar que o amanhã pode acabar tão cedo quanto o crepúsculo do outro dia. Que a noite mal dormida pode ser a última das nossas vidas, ou a última da vida da pessoa que tanto amamos.

Tenho medo da morte mais do que qualquer outra coisa, tenho medo de acordar pela manhã com uma ligação dizendo que alguém que eu amo faleceu. Meus avós, que chegam a idade avançada, tenho muito medo, mas não posso esquecer que isso é a lei natural da vida, que nós nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. Porém, parece tão injusto. Deve ser mais injusto nós pensarmos assim e ver alguém que amamos, que é mais novo que nós, morrendo antes mesmo da gente. O quão difícil deve ser enterrar um filho? Deve ser mais do que enterrar um pai ou uma mãe...

Procurei elevar meus pensamentos para outras coisas, mas em casa o clima também não estava dos melhores. Lana estava febril, com uma gripe bem chata, tomando antibióticos e sem fome alguma, e Bruno estava em casa, o que era no mínimo estranho.

-O que houve? – Perguntamos juntos. – O que houve? – Repito sozinha.

-Atrasaram o lançamento do CD. Daqui mais três dias, e chegou à carta da justiça.

-Meu Deus. – Pego o papel de sua mão. – Terá que se apresentar no final do mês. – Passo os olhos corridamente até a parte destacada.

-Primeiramente. Liguei para o advogado e ele disse que é para ficar tranquilo, pois não irá acontecer nada, provavelmente o julgamento será pro ano que vem.

-Menos mal. – Dobrei o papel, entregando para ele novamente. – Que dia mais estranho.

-O que aconteceu?

-A irmã do dono foi assassinada brutalmente. Não soube de detalhes, também não quiseram nos falar, mas havia os boatos de que realmente foi terrível. – Cuidei com as palavras para que nosso pequeno papagaio não as repetisse. – Como ela está?

-Bem. A febre baixou um pouco. Mas que situação ruim essa, que Deus os conforte.

-Amém.

Bruno deu a mamadeira para Lana, que segurou sozinha e a levou para o quarto. Achei ruim ele trancafiar a menina sendo que ela mal sai de casa, mas permaneci calada. Tomei um copo de água e no banheiro levei água ao meu rosto para ver se algo melhorava. Voltei para a sala e Bruno estava em pé, olhando para a televisão.

-A boa notícia é que essa semana, antes de eu ir viajar, vou contratar a babá e a diarista.

-Ostentando com a ideia de ser famoso e ter dinheiro. – Joguei-me no sofá. – Gostei da ideia.

-Nós precisamos disso, passamos muitos dias trabalhando, suando, agora temos que ter um conforto. Você principalmente.

-Que lindo, pensando em mim. – Sorrio para ele, atirando um beijo.

-E no seu bem estar. Aliás, quando não penso em você? – O diabinho que vive no meu ombro esquerdo estava doido para dizer que ele não pensou em mim e nem na filha quando ficou com as vadias e usou drogas. Mas me controlo, sorrindo, mostrando que achei fofo. O que de fato, foi. – Essa casa está pequena demais. Quero que veja uma para nós. Tem que ser num bairro onde tenha famosos, talvez lá pra cima! – Apontou para perto do parque onde às vezes corro.

-Preços? – Pergunto, anotando mentalmente o que pediu.

-Sério? Não precisa se importar com isso, apenas veja uma grande! Com piscina, bastante quartos, sem andares, e que tenha um espaço amplo para ajudar o desenvolvimento da Lana.

-Não cansarei de dizer “que ostentação”. Minha comissão será bem gorda pelo valor da casa. – Suponho.

-Terá comissão pelo trabalho e por mim. – Aproximou-se, encostando-se ao meu ombro de forma delicada e em seguida apertando-o. – Terá uma compensação grande na cama.

O olho, movendo apenas meus olhos, o que ele disse que é completamente excitante. Não transamos desde Vegas. Não sei se foi por vontade, mas acho que foi ocasional. Tivemos poucos momentos juntos, apenas pela manhã alguns dias, quando eu saio para o trabalho e ele para o estúdio, e a noite antes de dormirmos – ambos cansados – e ainda temos que ficar com a Lana até que ela durma.

-Hey, papai. – A ouvimos chamar.

-Por favor, me diga que de hoje não passará?!

-De hoje não passará. – Dou um sorriso de lado e ele ri, virando as costas.

Quando Bruno deu as costas, uma sensação tomou conta do meu peito. Nada alarmante, mas lembrei-me de toda a decepção da história da droga, e não tem como isso se apagar do meu peito, foi um choque grande. Agora está estranho isso, eu não sei bem como categorizar.


-Já vai! – Grito, assim que desligo o aspirador de pó. Pego o telefone da casa que tocava sem parar e atendo. – Alô.

-Lea? – Ouço a voz da minha irmã no outro lado da linha.

Por mais ou menos vinte minutos ficamos conversando, eu ia observando Lana brincar com seus brinquedos no tapete da sala e ela falando. Somente no final da ligação ela avisou que viria para Los Angeles no final de semana, que seria uma visita rápida, mas que gostaria de fazer uma janta comigo e meus avós.

Fiquei radiante e feliz por poder vê-la depois de um tempo. Por mais que tenhamos nossas diferenças, ela é minha irmã, meu sangue. Convivíamos dia a dia no Havaí, e agora é raro vê-la.

-Lana, não é pra mexer ai. – Alerto sobre a estante, um pequeno enfeite que ela faz questão de pegar.

Me olha sapeca, rindo e senta-se novamente no tapete. Volto a minha faxina de sábado e a aspirar o tapete do quarto. Tusso por causa do pó e ouço o choro da Lana. Esguiniçado.

-Meu Deus! – Encontro ela no chão, chorando, com a mão na cabeça e o enfeite de porcelana sobre o tapete ao seu lado. – Eu falei pra não mexer ali, não foi? – Sento-me ao seu lado, puxando-a para o meu colo.

-Desculpa. – Baixou o rostinho, deixando as lágrimas caírem.

-Deixa a mamãe ver o machucado. – Tiro sua mão da testa e há um pequeno corte superficial, e uma vermelhidão por volta. – Deu meu amor, não precisa chorar. Já tá passando. – Puxo-a para o meu peito e embalo em meu colo.

Seu choro vai cessando, e ela para de gritar. Pego a caixa de primeiros socorros e faço o curativo em sua cabeça. Ela chora mais uma vez por conta do remédio ser ardido, mas logo depois para.

Bruno Pov’s

Buzino na frente da casa pela décima vez, e não sossego até ver Lea saindo com a Lana. Porque mulheres demoram a se arrumar? Ela vem cheia de bolsa e minha pequena ao seu lado, conversando sozinha e olhando pro chão, parecia estar contando – se ela soubesse.

-Que demora. – Reclamo, abrindo a porta.

-Vestir ela tá cada vez mais difícil. – Colocou a bolsa no banco de trás e pegou Lana para ajeita-la na cadeirinha. – Ela não para quieta. Que cheirinho bom. – Respira fundo.

-Morango. Viciei nesse cheiro e é o único que comprarei para o carro.

-É o primeiro carro que tem, deixa de ser besta, os outros podem ser bons. Tem aroma até de menta.

-Menta irá me lembrar de camisinha. – A olhei, sugestivo, é óbvio. Lea ajeitou seu vestido assim que se sentou e puxou o cinto de segurança. Suas pernas de fora são uma afronta ao volume da minha cueca. – Antigamente você iria falar alguma besteira.

-Não quando a Lana é capaz de ouvir e repetir o que eu falei.

-Me esqueci, droga. – Olhei minha pequena pelo retrovisor e ela brinca com seu ursinho em mãos. – Lana? – A chamo e seu olhar encontra o meu através do espelho. – Papai te ama.

-Também amo o papai. – Mostrou seus dentes bem cuidados.

Não precisei nem olhar para a Lea para saber que ela estava sorrindo feito boba, e ela sempre sorri quando eu digo que eu amo a minha filha. Ela é uma das coisas mais importantes na minha vida.

Dou partida no carro em direção da casa da sua avó, não muito distante dali. Lea dizia empolgada sobre a sua irmã estar aqui e queria muito saber o porquê. Confesso que não escutei por muito tempo o que ela falou, fiquei pensando no estúdio e no tempo que terei que compensar por hoje. Há tanta coisa para se fazer ainda.

Estaciono na frente da casa e antes de ajudar Lea com as coisas, pego meu celular e confiro a mensagem que recebo.

“Está disponível essa noite? Queria tanto te encontrar...”.

Ella, uma das meninas que pego de vez em quando, quando a carência bate, manda-me a mensagem. Penso nas hipóteses da noite e respondo que podemos nos encontrar. Apago a mensagem, como faço com todas, e retorno a si para ajudar Lea com as coisas.

Carrego as sacolas do super mercado e ela a bolsa dela e da Lana. Lana foi na frente, conhecendo bem o caminho, já que viemos aqui sempre que podemos.

Eleanor Pov’s

Estar abraçando minha irmã é como abraçar meus pais. Há um pouquinho dos dois nela. No sorriso, na fala, no calor, nos olhos, em tudo. Nos abraçamos por longos minutos, e até arrisquei algumas lágrimas, poucas. Estava radiante de felicidade por vê-la.

Por falar nela, está diferente, uma luz a mais, algo sem explicação. Seus cabelos ficaram levemente dourados, um novo corte, roupas mais despojadas.

-Sabia que o Eric está morando aqui em Los Angeles? – Fofocávamos na sala da casa, na companhia do Bruno. Minha avó estava na cozinha com sua amiga de anos e meu avô havia saído para algum lugar.

-Sério? – Abriu um grande sorriso de espanto. – Todos estão adotando Los Angeles?

-Todos? – Acho estranho e paro por uns segundos. – Parece que sim.

Ajudamos a colocar a mesa e ligamos para minha mãe. Ela chorou de emoção por estar nos ouvindo e ouvindo minha avó ao mesmo tempo. Nós também choramos, coisa que é mais o meu feitio chorar, mas Elisa chorou também dessa vez. A saudades deve ser bem maior do que qualquer coisa.

Almoçamos tranquilamente e tivemos nossa pausa antes de servirmos a sobremesa, enquanto isso conversávamos sobre várias coisas. Kyle, o marido da minha irmã, chegou, falou com ela e sentou-se conosco, cumprimentando um por um.

-Não viemos para cá sem querer. – Ela respirou fundo, segurando a mão do marido sobre a mesa. – Kyle foi agora fechar nosso contrato e bem, vamos morar aqui na Califórnia, muito perto de vocês.

-Não acredito! Vadia, você me deixou saber disso agora. – Levo minha mão no peito. – Lana você não ouviu nada disso. – Digo e todos riem.

-Minhas duas netas perto de mim, agora já posso ficar mais do que 50 por cento feliz. – Minha avó bate palmas e meu avô parabeniza minha irmã.

-Kyle ganhou uma proposta para cá e bem, meu emprego lá é bom, mas aqui pode ser bem melhor. Já estou olhando novos lugares...

-Seja bem vinda a Los Angeles, nova Californiana. – Bruno sorriu, sendo bem receptivo para ela.

-Obrigada, quer dizer que morarei perto do Bruno Mars... Minha irmã é amiga dele! Meu Deus arranje um programa de televisão pra mim, Bruno!

-Quero um bico na sua banda. Nas horas vagas toco guitarra imaginária, cara. E sou um ótimo cantor de chuveiro. – Meu cunhado brinca com ele.

Ficamos de conversas para lá e para cá. Entendi o porque ela estava ficando diferente e mais emocional. Minha irmã está tentando engravidar, e com isso está tomando um comprimido de hormônios para ajudar, assim ficando bem mais vulnerável.

Nem posso acreditar com a quantia de notícias boas que tenho. Agora só falta meus pais saírem do Havaí e vierem morar próximo a mim e a nossa família. Estamos todos pra cá, felizes, e serei feliz completamente com eles aqui também.

-Bruno, que história é aquela da prisão? – Elisa aproveitou o momento que minha avó carregou Lana para o jardim e perguntou para ele.

Bruno engoliu a seco a pergunta, parecia nem querer responder pra ela, mas tinha que enfrentar o que ele mesmo se causou. A imagem suja que fez.

-Sabe o que é... Infantilidade! Imbecilidade. Não pensei direito, somente estava ali naquele cassino, tinha dinheiro, jogos, garotas... – Ouvir isso me causa arrepios. Fiquei olhando para ele enquanto ele explicava para ela tudo o que aconteceu.

-Mas vai ficar tudo bem. Só não faça uma bobagem dessas novamente, por favor.

-Não irei. Já prometi para mim que nunca mais irei fazer isso, tenho uma filha, uma vida, uma família... Não posso me entregar. Foi apenas um momento.

-E cuidado com essas garotas... Nunca se sabem de onde veem e o que exatamente querem.

-Dinheiro e diversão. – Ele dá de ombros.

Dinheiro e diversão paga duas mulheres para a noite dele ficar completa. Achei um nojo quando começou a falar sobre elas, sobre seus corpos nojentos, suas bocas nojentas. Com quantos mais elas fazem esse tipo de coisa?

Me retiro da sala, dou a desculpa de ir para o banheiro, mas vou até o jardim. Minha avó me convida para mexer nas plantas, mas recuso, observando apenas de longe o cuidado e dedicação que ela tem com suas plantinhas e o quanto Lana gosta delas.

-Mamãe, pra você! – Corre até mim, entregando-me um punhado de margaridas pequenas. – Pra você.

-Obrigada, minha princesa. – A amasso num abraço apertado, cheirando seu pescoço e fazendo-a rir.

Corri pelo pátio atrás dela, que me deu um baile. A peguei por várias vezes, mas fingi que ela se soltava por ser mais forte que eu, e assim corríamos novamente e novamente. Até eu não ver a pequena pedra no caminho e cair no chão.

Tive um joelho ralado e a queda me deu uma dor de cabeça, mas aguentei o resto do dia para ficar junto da minha irmã.

À noite, quando nos despedimos e fomos embora, passamos numa farmácia e comprei alguns analgésicos para dor.

Arrumei as coisas em seus lugares, dei banho na Lana e tomei banho. Quando sai do banheiro, Bruno estava saindo de cantinho pela porta.

-Vai sair? – Estranhei.

-Vou. – Coçou a cabeça, não estando muito confortável. – Se sente melhor?

-Um pouco. – Esfrego a toalha em minha cabeça e ele fica em silêncio. - Vai ao estúdio?

-Hã... – Olhou para os lados, confuso. – Vou. – Pigarreou.

Tá tão na cara que ele está mentindo.

-Tudo bem.

-Qualquer coisa me liga, ok?

-Ok. – Vou até a porta para fecha-la e ele vira as costas. – Boa festa.

Não quis nem ouvir se ele de fato ouviu o que eu disse, ou se iria contestar, tentar continuar mentindo, apenas fechei a porta e voltei para si.

Tudo bem ele querer sair, querer se divertir. Ele é jovem, solteiro, tem dinheiro para isso. Nada o prende, já que eu cuido da sua filha, mas eu queria que ele cuidasse de mim apenas essa noite. Sei que sou eu que estou negando fogo o tempo todo, que enrolo ele desde que foi preso, mas queria ele dentro de casa. Comigo.

Porém, ele sabe o que é melhor para ele e o que faz da vida dele, e eu não sou mulher para me lamentar dessas coisas.

Contei uma pequena história para Lana dormir e me cobri no sofá, colocando CSI para assistir e fazendo um balde de pipocas. Que noite de sábado bem empolgante.

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