terça-feira, 13 de outubro de 2015

Capítulo 41


Eles permitiram você respirar
Não dou a mínima se você ainda não pode ver
Ver meu coração bater por você
(Broken - Jake Bugg)

De duas semanas que se passaram e quatro dias que o Bruno ficou em casa, foi o suficiente para descobrir o porque escolheu aquela babá.

Estava ajeitando meu quarto e pondo algumas roupas para lavar, enquanto a Lana assistia televisão ao mesmo tempo que estava com um livro e sua frente para colorir, quando vi um pacote de camisinha dentro do lixo.

É óbvio que eu não usei camisinha já que quando o Bruno veio pra cá, não transamos. Só poderia ser de Audrey.

Passei uns dias a observando e observei ainda mais o quanto ela se importava com o Bruno, perguntando quando que ele vinha, observando algumas fotos, mexendo compulsivamente no celular e Lana continuava lá, largada em cima do sofá.

Soube que eram eles que estavam transando pela casa quando Lana avisou-me de barulhos estranhos e que seu pai a fez dormir de tarde ao invés de brincar com ela. Usou toda a inocência de criança para contar-me, sem querer, a idiotice que seu pai estava fazendo.

Se eu fiquei com raiva? Talvez. Não raiva dele estar pegando ela, mas por estar pegando ela dentro de casa, por ela ser a babá da filha dele, por ele dever respeito à mim e a sua filha pequena. Coisa que já tínhamos conversado antes por um longo tempo, desde que achei aquele sutiã azul embaixo do sofá.

Da Audrey encontrei uma foto.

É assustador a maneira que ele não consegue esconder algo por muito tempo. A foto era linda, Audrey é linda. Ela estava de roupas íntimas, no que creio ser um vestiário de escola, a que ela deve ter estudado. Parecia estar desprevenida, mas mesmo assim a foto ficou magnífica. Seu corpo era lindo, tudo no perfeito lugar em tamanhos proporcionais. Seu rosto como de um anjo, um olhar matador e cabelos loiros com franja, que caíam sobre os ombros cobrindo os seios.

Era linda e Bruno tinha um bom gosto.

Como já sabia de toda a situação, não falei nada a ele, não o alertei sobre nada, esperei com que ele me dissesse algo. Mas isso é claro que não aconteceu. Ela está conosco há um mês, e quando entramos em Novembro, Bruno avisou-nos que iria passar uma semana corrida em casa. Isso foi motivo de festa para Lana e para a babá, e eu apenas computando em minha cabeça quanto tempo demoraria para ele me dizer sobre a babá.

Meu celular toca sobre a mesa de vidro do serviço, não deveria atender, mas olhar o nome do Bruno piscar na tela coça minhas mãos para saber o que vem pela frente.

-Alô. – Pigarreio.

-Hey, boneca.

-Boneca? Que coisa mais piegas. – Balanço a cabeça. – Tudo bem?

-Tudo em perfeito estado. Cheguei em casa agora, dispensei a babá e já reservei a nossa casa em Malibu.

-Passaremos esse final de semana lá?

-Com certeza. Levarei Audrey, para caso queiramos dar uma escapada. – Ouço seu riso. Escapada com ela, e eu ficaria cuidando da Lana, sim? É claro que sim.

-Ah sim. – Ri do que ele falou, mesmo não achando graça nenhuma. Não posso ter nenhuma cena, não posso falar absolutamente nada, por que além de eu querer que ele confesse, não iria adiantar bater boca com ele sobre se ele pega mesmo a babá ou não. Resultaria numa briga feia, então deixe que ele coma ela, ela é linda e legal.

-Preciso que faça um favor à nós. – Ouvi um barulho do outro lado. – Passe no mercado e compre algumas coisas para comermos hoje à noite.

-Mas eu estou sem carona... Claro. – Acabo concordando.

-Quer que eu vá buscar você? Aí passamos juntos no mercado...

-Não precisa, eu passo lá e depois pego um ônibus, metrô...


Cheguei podre de cansada. Meus braços doíam e minha cabeça também. Peguei chuva no meio do caminho, estava com a roupa ensopada, não aguentava mais com o peso do meu corpo e das sacolas. Apenas as larguei sobre a mesa, sem nem dar oi, e fui para o banheiro.

Liguei o chuveiro no quente e aproveitei a água que descia no meu corpo, carregando um pouco do cansaço.

-Você está bem, Lea? – Perguntou atrás da porta. – Porque trancou? – Forçou a maçaneta.

-Estou bem. – Respondi alto o suficiente para não precisar trocar.

-Você está bem, mamãe? – Ouço a voz da Lana, bem baixinho e Bruno gargalha ao seu lado.

-Ela está me imitando. – Riu e eu desligo o chuveiro para conseguir ouvir.

-Abre a porta. – Ouço-a dizer. Abusada da minha vida.

Sorri mesmo ao meio de um dia bosta, ela é minha fonte de alegria.

-Diga para ela que conversou com a vovó hoje!

-Eu falei com a vovó. – Disse do seu jeito, errado e fofo. – Vovó está longe. – O jeito de pronunciar a “vovó” é o mais fofo que já ouvi.

-Quando que a vovó vem visitar você? – Pergunto puxando a toalha para secar meu corpo. Destranco a porta e envolvo a toalha, prendendo-a.

-Amanhã.

-Amanhã? – Olhei surpresa até para o Bruno.

-Não é amanhã. – Senti o abraço caloroso dela e Bruno explica. – É semana que vem.

-Isso.

-Ela virá pra Los Angeles?

-Ela quer ver a Lana, o Liam, o Marley e o Jaimo. Irá vir com a Tahiti, trazendo meus sobrinhos.

-Mas Zyah não é muito pequeno pra viajar assim? – Torço os lábios, levantando-me.

-Tomou todas as vacinas, está tudo bem pra ele vir.

-Vão ficar na casa da Jaime? Elas podem ficar aqui em casa, se a Tiara vir ela pode dormir comigo...

-Tiara ficará no Havaí e elas ficarão na casa da Jaime mesmo, é maior e melhor para se localizar.

Bruno pediu desculpas mil vezes por ter feito-me passar no mercado para comprar as coisas, mas se disponibilizou para fazer a comida. Eu lavei minhas roupas molhadas com algumas poucas peças que havia no cesto. Peguei Lana no colo para brincar com ela e com um dos livrinhos.

-O que é isso? – Pergunto apontando para a figura do livro.

-Banana. – Responde-me corretamente. Vou apontando para cada uma das figuras e as que ela não sabe, me olha como se quisesse ajuda. Explico pra ela, lendo juntamente cada letra até formar a palavra. Ela não as lê, eu apenas aponto para a letra e digo o nome da letra, ela repete, então no fim da palavra eu falo ela e ela consegue repetir assim como eu falei. – Cachorro.

-Muito bem. – Beijo sua testa. – E essa?

-Mão.

-Isso mesmo. – Fico encantada por ela. Aponto para a figura e para a sua. - Onde está a sua cabeça?

-Aqui. – Apontou para o mesmo local que eu estava apontando.

-Então o que é isso? – Mostrei o desenho.

-Cabeça. – Respondeu. Comecei a rir me sentindo tão feliz por estarmos progredindo tão bem e por ela estar aprendendo tudo tão rapidamente.

Quando o jantar foi servido, sentamo-nos à mesa. Lana estava na sua cadeirinha e nós nas cadeiras normais, de frente para o outro. A comida estava uma delícia e ele super orgulhoso daquilo. Dei o jantar para a Lana e a vi por muitas vezes mexer no seu dentinho.

Pensei que tinha prendido um pedaço de carne, mas ao abrir a boca dela, vejo que além da sujeirinha da comida recém-mastigada, há um resquício leve de uma cárie, prontinha pra nascer.

-Lana, você anda escovando os dentes? – Pergunto, mas ela não faz ideia de como responder. – Bruno, sabe de alguma coisa?

-Não, por quê?

-Porque o dente dela está pra ficar careado. Já tem uma pontinha bem pequena ali. – Mostro a boca dela para ele, que levanta e vem olhar de perto.

-Estranho... Escovamos os dentes dela todos os dias antes de dormir.

-E durante o dia?

-A Audrey escova, ela cuida dela. – Responde-me, um pouco ríspido.

-Não quero dizer que ela não cuida, foi apenas uma pergunta. Isso nunca tinha acontecido.

-Talvez porque pra tudo há uma primeira vez. – Arregala os olhos. – Não foi a Audrey.

-Como você tem tanta certeza? – Não implique comigo, Bruno. Eu já estou sabendo de todas essas coisas que ele está querendo omitir.

-Tendo! Você está implicando com ela sem motivos! – Diz entredentes, intercalando os olhares comigo e com a Lana.

-Eu não falei nada dela. – Resmungo. – Não disse que ela não estava escovando os dentes da Lana, apenas perguntei se sabia de algo. Mas você sempre fazendo isso, não é? Achando que está certo e recobrando com sete pedras. – Tento manter o tom normal.

Levanto da mesa, puxando a Lana no colo, que já estava olhando sem entender nada, ou apenas entendendo tudo. Levo-a para o banheiro e faço a sua higiene e escovo os dentes dela. Fico contemplando a beleza da minha pequena por um tempo. Ela se parece tanto com ele, mas ao mesmo tempo não parece.

Chamo Bruno para dar boa noite pra ela e sento-me na sua cama para embala-la. Vou contando alguma história que sabia de cor até ela adormecer nos meus braços. Ajeito-a no berço e apago a luz do quarto.

A chuva caí lá fora deixando, naturalmente, o clima mais tenso. Fui para a sala, onde ele estava sentado no sofá assistindo televisão. Peguei uma garrafinha de água na cozinha e dou boa noite, passando para o meu quarto.

-Não quero que tenhamos outra discussão na frente dela. – Disse de tom ameno, fazendo-me parar no corredor.

-Tudo bem, Bruno. – Queria jogar na cara dele que, quem começou isso, não fui eu.

-Será que ela acordará com febre?

Espirro, antes que possa responder.

-Eu não sei. – Se soou rude ou não, pouco me importa. Não estava nem entendendo o porque ele estava fazendo aquela tempestade num copo d’água. – Vamos ir mesmo assim para a praia? Mesmo com a sua mãe vindo pra cá amanhã?

-Acho que não. – Ele vem até mim. – Vamos ver amanhã.

-Me avise antes. – Dou as costas.

Fecho a porta do quarto e deito-me na cama. Tomo uns goles da água e pego meu celular pra reportar a mensagem à Megan.

“Vamos fazer algo esse final de semana? Somente nós duas, amigas solteiras... Estou a fim de ter aqueles finais de semana menina, sabe? Por favor!”


Acordei com o choro da Lana. Movimentei-me na cama, sentindo meu corpo pesar três vezes mais do que o normal. Estava com tudo cansado, meus ombros pareciam carregar duas pessoas em cada logo e minha garganta estava arranhando.

Superei-me ao calçar os chinelos e ir ver a Lana. Dei uma cambaleada, estava um pouco fraca talvez, olhei para o relógio e constei que eram quatro da manhã. Eu só queria dormir!

-O que houve, bebê? – A vejo, chorosa, no colo do Bruno, que a embala de um lado para o outro.

-Mãe. – Diz, esticando os beicinhos pequenos.

-Acho que ela está com febre. – Bruno estava todo preocupado.

-Acha? – Satirizo. – Ela está ardendo. – Tomo-a do seu colo, de um jeito grosso.

Ando com ela até a sala e a ponho sentada no sofá. Vou até o armário do banheiro e pego o kit de remédios. Seu pequeno frasco de gotas para febre está pela metade, um remédio amargo e com cheiro ruim, ela odeia, mas não há nada que eu possa fazer.

Dei o remédio pra ela contragosto e fiquei com ela até que ela adormecesse novamente. Estava toda suada, mas estava com sono. Não iria acorda-la para dar banho, então deixei que dormisse daquele modo.

A pus no berço, com a visão de Bruno sobre nós, com as mãos na cabeça e cara de cansado.

-Amanhã dê um banho nela assim que ela acordar. – Aviso-o. – Ela está suando demais. – Minha voz arranha e minha garganta dói um pouco.

-Pode deixar.


O final de semana passou e eu com uma gripe que me derrubou de um jeito nunca visto. Fiquei de cama sábado inteiro sendo cuidada pela Megan, que fez tudo por mim, enquanto Bruno aproveitava com a sua mãe, suas irmãs e a Lana.

No domingo tive a visita da minha avó, com suas plantas, que fizeram um chá horrível, porém maravilhoso. O gosto era como se eu estivesse bebendo água de esgoto, mas em menos de uma hora eu já me senti mil vezes melhor do que estava. Consegui levantar da cama sem estar cambaleando, consegui me concentrar em algo ao invés de escutar as vozes quilômetros de distância de mim e consegui destrancar meu nariz.

Dezessete de dezembro de dois mil e dez

De um mês para cá havíamos, Lana e eu, visto o Bruno apenas duas vezes e por algumas horas somente. Ele estava entrando para seus shows solos, com a Janelle, uma simpática e querida cantora. Então a carência nessa casa por estar perto dele era grande. O queríamos por aqui, mas era difícil, mas como estamos nos habituando, com o tempo foi até fácil. Além de que Bruno está com a corda toda. Vejo falar dele por toda a parte, entrevistas, fotos, photoshoots, e até alguns cliques de paparazzi. Fiquei tão orgulhosa dele, mal cabia em meu peito! O orgulho e a saudade que apertam no peito – confesso que até aquela inveja branca pelos lugares que ele está visitando... Paris? Sério? Como eu queria!

Nesta semana ele virá pra casa, passar o natal conosco, depois voltará aos seus shows. Ainda nem sabemos o que será de nós no ano novo.

Aproveitei a semana de folga e tirei a segunda feira para arrumar o guarda roupa da Lana. Tirei todas as roupinhas e as que estavam pequenas, separei para a caridade. Bruno estava comprando mais coisas pra ela, pra ele, e algumas até pra mim.

No final da tarde ele chegou, trazendo uns pequenos presentes para a Lana e uma roupa pra mim. Deu um beijo em minha testa e disse que estava com saudades.

A noite, quando Lana dormiu, fomos para a sala. Escutei por um longo tempo ele me falar de como eram os lugares, as pessoas. De como ele estava feliz e do sucesso que seu álbum está sendo. Além dos detalhes dos clipes que já estão acertando com a gravadora, já que escolheram os singles.

-Acho que precisamos conversar. – Soltei o ar preso pela boca.

-Lá vem bomba. – Fez um sinal bobo com as mãos. – O que houve?

-Levei a Lana nas consultas... Estou preocupada. O médico disse que ela está comendo pouca comida de sal, mas ao chegar de noite eu sempre lhe dou janta. Então, no dentista, ele tratou da cárie dela, que aumentou, e disse que ela precisa comer menos doce e escovar os dentes.

-Hm. – Somente murmurou.

-Hm? Estou falando que a sua filha está sendo mal cuidada. E sim, dessa vez eu estou acusando a babá. – Gesticulei com os braços e ele ri.

-Lea... Você apenas está com ciúmes!

-Ciúmes? – Aperto os olhos, fazendo careta. – Ah, claro. Porque novamente gira em torno de você!

-E não está?

-Não! Se estivesse, já teria feito alarde quando descobri que estava comendo ela por todos os cômodos da casa. E olha que eu descobri isso na segunda semana de trabalho dela. – Joguei na cara dele o que há tempos guardava pra mim.

-Descobriu como? – Franziu a testa.

-Eu posso ser qualquer coisa, mas não sou burra. Até foto dela de roupa íntima eu achei no seu quarto.

-Você revirou meu quarto?

-Eu não precisei! Estava no seu cesto de roupas sujas. Talvez tenha se masturbado e esquecido de guardar. – Porque ele havia me pegado justamente num dia de TPM. A culpa não era minha. – Mas, sabia que tudo isso ia acontecer, então pedi que o medico prescrevesse tudo que ele me falou e assinasse em baixo com seu carimbo, somente pra mostrar pra você.

-Eu acredito em você. – Revirou os olhos. – Mas não acredito que ela tenha feito isso.

-Pare de proteger ela, pelo amor de Deus. – Coloco a mão na cabeça. Isso dramatizou bem mais a cena. – Pare! Ela está fazendo isso ou sou eu, mas eu seria muito tapada por deixar a minha pequena ficar mal assim, além do que, eu cuidei dela desde que ela nasceu, eu estaria desperdiçando tudo que já fiz por ela. E sinto lhe informar, não é pra afasta-la de você, é somente para a integridade da sua filha.

-Eu nem falo mais com ela direito. – Deu de ombros. – Somente acho engraçado você estar com ciúmes.

-Eu não estou com ciúmes, Bruno. – Disse pausadamente cada palavra.

-Ok! – Riu, debochado. – Vamos trocar a babá.

-Dessa vez eu aceito somente por indicação. Possa demorar o tempo que for, mas não irei escolher babás, muito menos deixar você escolher. Porque parece mais um desfile da Victoria Secrets do que babás que precisam cuidar de crianças.

-Tá vendo, isso é ciúmes.

-É! – Atirei-me em seu lado no sofá. – Eu morro de ciúmes de você, nossa. Eu sou uma mulher muito ciumenta, Bruno. Não me deixe, fique somente ao meu lado. – O abraço rapidamente, satirizando toda aquela cena, fazendo-o rir e descontraindo o clima.

-É bom estar em casa. – Beijou o topo da minha cabeça. – É bom ouvir você ao vivo, do que por um aparelho telefônico.

-É bom saber que está bem. – Acaricio seu rosto. – Senti saudades suas.

-Eu sempre sinto. – Puxou-me para um abraço de urso.

Não éramos o Bruno e Eleanor que se pegavam. Não éramos o Bruno e a Eleanor que estavam somente por curtir e por sexo. Éramos aquele Bruno e aquela Eleanor que saíram do Havaí, amigos, em busca de uma vida melhor num lugar mais propício para isso. Éramos aqueles que estavam felizes por termos um ao o outro e por não precisarmos de muita coisa para isso.

Eu era aquela que estava orgulhosa dele – mesmo com tudo que estamos passando, mas por complicações todos passam.

Ele era aquele que enche meu peito de alegria e que eu penso “que bom que está em casa novamente”.

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