Acordei pela manhã com o barulho ensurdecedor do despertador, mas se não fosse ele, ainda estaria dormindo e não posso perder nenhum dia de trabalho, ou melhor, não quero. Eu amo exercer o que faço, adoro ver as pessoas comprando suas casas novas, pessoas com sonhos, pessoas solitárias, recém casados, velhinhos afim de um cantinho só deles. É maravilhoso poder auxiliar cada passo disso, por isso ponho um sorriso no rosto, mesmo que esteja morrendo de sono.
-Bruno. - Balanço sua perna descoberta e nua. - Acorda, você tem que ir pro banho primeiro.
-Eu não quero trabalhar, quero ser rico.
-Mas é justamente por isso que vai trabalhar, pra ser rico.
-Quero acertar milhões no cassino. - Sua voz sai abafada pelo travesseiro.
-Enquanto você sonha acordado, pode ir tomando banho, o que acha?
-Acho que você é um pé no saco.
-Legal. - Levanto da cama dele, que tinha sentado para chama-lo. - Quando for rico me agradecerá por isso.
-E irei me certificar de que não entrará no meu quarto pela manhã. - Atira o travesseiro em minhas costas. - Vou ter um segurança apenas para a porta do meu quarto.
-Aham. - Atiro o travesseiro de volta, sem força o suficiente. - Vou preparar o café, vá para o banho.
Tínhamos rotina para isso de manhã, senão não conseguíamos nos ajustar. Enquanto ele tomava banho, eu preparava o café, assim que ele saía do banho, eu entrava e me arrumava enquanto tomava café, às vezes dava tempo de se arrumar antes de tomar café, mas de qualquer forma Caleb e Megan, nosso casal de amigos, nos pegavam para dar uma carona. E no fim do mês ajudávamos com a gasolina, era simples. Muito melhor do que depender do transporte - quase inexistente - de Los Angeles.
-Onde você pôs minha toalha? - Ele grita do banheiro! Idiota não sabe que temos vizinhos.
-Dá pra gritar mais baixo? - Pergunto chegando perto da porta.
-Ai não seria um grito, correto?
-Argh, Bruno. Você me entendeu.
-Eu gosto de te deixar com um nó no cérebro.
-Vou deixar você com um nó nos braços e nas pernas, passando fome, vamos ver o que acha. - Entrego a toalha, abrindo uma fresta da porta.
-Só deixo me amarrar se me fizer de escravo sexual.
-Não posso. - Torço os lábios. - Você já é negro, se eu invento de brincar de escravo com você, vou presa.
Depois de arrumar nosso café, tomei meu banho e vesti minha roupa confortável e social. Já peguei minhas coisas, minha pasta e minha bolsa, que sempre deixo pronta de um dia para o outro, e pus sobre o sofá. Sentei a mesa perto dele, que já devorava algo.
Cinco minutos antes do combinado de sempre, saí para a rua, antes mesmo do Bruno. Pensei pela primeira vez no dia sobre tudo que soube esse final de semana, e deu um leve aperto no meu coração. Posso perguntar como Bruno está se sentindo em relação à isso, mas tenho medo de acabar trazendo aquele pequeno sofrimento para o seu peito, ainda mais quando eu olhei pra trás e ele carregava as suas cópias das chaves na mão, fazendo barulho, e um sorriso no rosto. Não posso estragar isso.
Antes que falasse algo, ouço a buzina de Caleb, e o "hey" que Megan sempre faz quando chegam. Bruno deu um sorriso passando por mim e abrindo a porta.
-Quem vê pensa que é um cavalheiro. - Comenta Caleb nos olhando pelo retrovisor. - Bom dia, pessoal.
-Bom dia, gente. Depois de um final de semana preguiçoso, acho que ninguém merece a segunda feira.
-Preguiçoso pra vocês. Passamos o final de semana com minha irmã e minhas duas sobrinhas. - Megan começa a falar, e quando toca em "sobrinhas", remete a criança, e logo olho para o Bruno que para minha surpresa está tranquilo demais.
-Crianças são assim mesmo. - Bruno faz o comentário referente ao que ela falou.
-Mas Anne Marie é demais, aquela menina tem mais disposição do que nós quatro juntos. - Caleb sempre com os melhores comentários possíveis.
-Isso é bom, desde que não se torne uma adulta sedentária que nem uns e outros. - Olho diretamente para o Bruno.
-Isso foi uma indireta, eu sinto. - Megan comenta.
-Indireta? Amor, ela quase esfregou isso na cara dele.
-Quer dizer o que com isso, Viúva Negra?
-Viúva Negra é nova. - Ouço a voz baixinho que acompanha o riso de Caleb.
-Quero dizer que você foge dos exercícios.
-Mas isso não é só ele, não é amorzinho? - Megan passa a mão sobre o braço de Caleb.
-Sem contatos físicos.
Megan e Caleb são nossos amigos, assim como Philip e Urbana. Conhecemos eles em uma noite que Bruno cantou num barzinho, um pouco mais chique que o normal. Phil e Urbana sentaram perto deles, e consequentemente quando cheguei sentei junto, então nos apresentamos e a merda toda estava feita, pois somos o que somos. Quando nos juntamos, pode ter certeza que não sai nada que preste, parecemos adolescentes. E claro, sempre tem aquela parte que mexe comigo e com Bruno, dizendo que deveríamos ser um casal, porque supostamente eles também são.
Caleb foi com quem peguei afinidade mais rapidamente. Ele foi super simpático e me escutou a todo tempo, já Megan pensou que eu estava dando em cima do seu namorado, então ficou com raiva de mim, por mais ou menos um mês, até eu esclarecer à ela que nem que eu quisesse, Caleb definitivamente não faz meu estilo, e ele ama ela, está mais do que visível. Maleb, Philbana e de acordo com eles "Brulea", são os melhores casais da cidade, mesmo que de amigos.
-Se fosse comigo não deixava. - Dissemos eu e Bruno ao mesmo tempo, fazendo Megan virar pra trás.
-Viu amor, eu falei que eles tem uma conexão.
-Eu falo junto até com a minha mãe, às vezes. - Reviro os olhos.
-Não adianta negar o que há entre nós, Eleanor. - Bruno segura minha mão, e se eu não caísse na gargalhada, continuaria a brincadeira.
-Acho que se até os 30 anos, ambos estiverem solteiros, deveriam se casar.
-Hm, um pacto de casamento. - Bruno aperta os olhos, pensativo.
-Casarei com você quando for rico. - Comento.
-Ela é exigente. - Caleb se mete.
-Eu vou ser, quando tiver 30 anos, estarei tão rico que comprarei o que quiser pra você.
-Isso tudo é um pedido de casamento? - Franzo o cenho.
-Aceita ser minha noiva estepe?
-Estepe? Não, isso não... Reserva, é mais bonitinho! - Megan volta a sua posição normal, pegando a bolsa do chão.
-Ok, reserva, que seja.
Megan se despede de nós assim que Caleb estaciona em frente ao seu curso. Por enquanto Megan ainda faz o curso de culinária, e estagia na parte da tarde no restaurante onde Caleb é chefe de cozinha. Caleb é um pouco mais velho que a maioria de nós, já que Phil tem 27 e ele 26, e Megan com 6 anos de diferença dele, 20. Philip segue o mesmo sonho do Bruno, mas com um pouco menos de ambiciosidade, e Urbana, que esbanja sensualidade e beleza, é estilista recém formada.
Bruno Pov's
-Nunca nem pensou em ficar com ela?
-Somos amigos. - Desconverso.
-Também sou amigo dela, sou praticamente noivo da Megan, mas não posso deixar de olhar. Lea é linda, inteligente, e tem um corpo... Aposto que manda bem na cama.
-Iria estragar a coisa toda, entende?
-Ok! - Deu de ombros. - Mas que ela tem uma bunda maravilhosa, ah, ela tem.
-Precisa ver sem roupa.
-Você já viu sem roupa? - Se emociona no volante.
-Ela é minha melhor amiga, e moramos juntos. Óbvio que sim.
-E como você controla seu amigo aí?
Nunca tinha parado pra pensar em como controlo ele, acho que apenas não sinto a mesma coisa do que ver qualquer outra mulher de biquíni na minha frente, ou de lingerie. Lea, acima de qualquer coisa, é minha amiga, e apesar de ser linda, e muito gostosa, poderia estragar tudo, e eu quero aproveitar e justamente por conhecer ela, sei que ela vai querer um namorado mais cedo ou mais tarde, mas eu não quero, quero aproveitar. Temos nossas brincadeiras internas, mas são brincadeiras.
Quando chego ao serviço, dou bom dia e me enfio no pequeno cubículo de sala, com uma mesa e duas cadeiras, dois arquivos que ocupam mais da metade do espaço, e um ventilador. Não tenho o melhor serviço do mundo, reveso entre estar cuidando da parte administrativa e ir atender mesa de clientes, fico apertado aqui, com uma pilha de papéis, um telefone, e várias combinações ao dia. Me estresso fácil com várias coisas, mas sou persistente e sei que isso vai passar um dia, e todos esses nãos que recebo são para o meu bem, e cada um deles um dia irá se arrepender disso. Digo cada um literalmente. Cada pessoa que fechou as portas pra mim, um dia vai querer gravar comigo, Bruno, e eu estarei pronto para ser acima de qualquer coisa, profissional, e gravar, mostrar que eu sou bom, e que eu tenho talento, e que estavam totalmente enganados quando nem ao menos deixaram eu entregar minha demo para escutarem.
Estalo meu pescoço verificando o que tinha para hoje, e na parte administrativa nada, então me resta atender pedidos nas mesas e me concentrar na minha vida. Antes de levantar e vestir o avental, bato a caneta na mesa lembrando do que evitei pensar por hoje: meu filho.
Eu vou ser pai, e não quero isso. Eu acho que não quero por agora. Tenho tanta estrada pela frente, tantas mulheres, tantos shows, tantos fãs que conquistarei, tantas coisas pra fazer que não posso pensar em ter um filho que dependerá de mim. Se não fosse por Lea, eu não teria metade das coisas que temos em casa hoje, ou melhor, eu não teria a casa, pois é dela. Agora me imagino com um filho. Caramba, eu não sei dizer que estou pronto, eu estou surtando, pensando em mil coisas ao mesmo tempo, e pensando na mãe que essa criança vai ter. A menina quer ser uma viajante... Viajante! Daqueles que não tem casa em lugar nenhum, que somente andam de um lado para o outro, mochileiros. Não tenho nada contra ao estilo que cada um quer seguir, porque uns até podem me denominar louco quando digo que quero ser um cantor famoso, mas imagina uma menina assim, que não tem lugar fixo, criando um filho.
Esfrego as mãos no rosto, pensando que não posso me esconder aqui e tenho que ir atender mesas, auxiliar meus colegas. Trabalhar para talvez sustentar um filho.
Atendo à várias mesas de acordo com que a manhã passa, então a tarde vem e traz com ela uma sensação estranha, principalmente quando vejo um pai entrando com um filho no colo. Presumo que seja seu filho por seus olhos serem iguais, e o queixo idêntico. Espero que eles se sentem na mesa e vou até eles, perguntarem se estão servidos de café ou apenas vieram comprar algo na padaria. Pego a prancheta e ando ternamente até eles, que riem de algo.
-Olá, boa tarde. - Os cumprimento.
-Oi! - Diz o menino, olhando para o meu rosto.
-Boa tarde. O que vai querer, meu pequeno? - Pergunta ao menino, pequeno ainda para saber o que quer. Mas aponta para o cardápio mostrando um belo sorvete. - Não, isso pode ser depois da comida. Primeiro algo de sal.
-Hm! - Ele resmunga, fazendo uma careta adorável. - Esse.
-Uh, então eu quero um sanduíche e para ele um pequeno salgado, que não seja frito, somente assado.
-Papai, o que é assar?
Enquanto anotava os pedidos na caderneta, o homem atentamente explicava ao menino o que era assar e o que era fritar, explicando até que assados fazem melhor a saúde do que fritos.
Na minha cabeça se passava uma bela melodia mestrada pelo piano de causa, saindo um som feliz, mas romântico ao mesmo tempo. Aguçando os sentimentos, causando uma espécime de frenesi, um batimento um pouco mais acelerado. E se ser pai não seja tão ruim quanto o que eu penso que será? E se foi Deus que mandou aqueles dois ali para me mostrar que ficar com o filho será uma coisa boa. Eu tenho certeza que posso ser pai, eu posso cuida-lo, dar amor, carinho e nunca deixa-lo desamparado.
-Desculpe, mas quantos anos ele tem? - Pergunto ao homem, que tira a atenção do menino para me olhar.
-4 anos.
-Vou fazer 5 em pouco tempo!
-Não, filho, você fez 4 apenas a um mês.
-Falta muito para fazer assim? - Indicou o número cinco com a mão, usando os dedinhos. Nunca senti o que senti no momento.
A música que escutava dentro de mim era River flow in you. Com apenas quatro anos aquele serzinho roubou toda minha atenção, fazendo-me repensar sobre tudo o que já tinha certeza. Eu precisava tomar o controle da situação, eu queria sentir o mesmo, a mesma alegria todos os dias, aquela mesma felicidade instantânea que aquele pai e filho me fizeram.
Fiquei de longe os observando. Observando o modo com que o homem olhava para o pequeno, como ele lhe dava comida, como ele limpava a sua boca e sujava a sua para mostrar que também errava e fazer a criança rir. Eu quero isso pra mim.
O dia passou mais rápido do que eu imaginava, e eu não via a hora de estar a sós com a Lea para lhe contar a maior novidade, a mais bela notícia que ela está afim de ouvir, e eu sei que sim. Seu extinto maternal apitou quando disse que poderíamos levar a criança para adoção, mas mesmo que a Diana não queira ficar para cuida-la, eu vou obter isso, vou cumprir isso.
-Até amanhã. - Dizem, Megan e Caleb, juntos.
-Até. - Diz Lea e eu apenas aceno.
Espero ela estar a vontade assim que chegamos, e o que indica isso é quando ela tira seus sapatos no quarto e já volta com sua pantufa de cor clara.
-Pode conversar? - Sento no sofá antes dela.
-Posso, só deixa pegar uma água.
-Eu pensei sobre a criança hoje à tarde, Lea. - Respiro fundo e ela volta da cozinha com uma garrafa de água.
-E aí, o que tirou disso?
-Tirei que mesmo sendo difícil, sendo arriscado, eu irei cria-la, ela irá ser minha filha e não filha de um casal desconhecido.
-Bruno... - Vi seu sorriso, mais uma das coisas que fazem meu dia melhor. Ela estava com orgulho de mim.
-Eu vou ficar com ela, lutar por ela, mesmo que a mãe não a queira, eu quero! E quero pedir que me ajude, como sempre.
-É claro que eu vou te ajudar. - Passou suas mãos pelos meus ombros, me abraçando. - Ela vai ser minha filha também. Sem mãe ela não ficará.
-Eu sei que ela vai ter a melhor mãe do mundo, então?
-Sim! - Ouço seu choro baixinho em meu ombro, da mesma forma que sempre chora, baixinho, sem incomodar ninguém. O choro ela de alegria, de orgulho, até isso eu sei identificar.
Eleanor Pov's
Estava contente com a ideia de ser meia-mãe, meia-tia, meia-madrinha, dessa criança. Era uma ótima razão para ele tirar mais forças para não desistir de sonhar e tentar alcançar seus sonhos. Derrubo um dos pratos no chão, e Bruno se abaixa bem na hora para me ajudar a recolher os cacos.
-Hey, o que houve no telefone?
-Recebi um lindo sermão, incentivos e palavras lindas.
-Eu sabia que sua família não iria deixar você na mão.
-Eu também sabia disso, mas toda a desculpa é válida para escapar da realidade e da culpa.
-E agora? - Coloco todos os cacos sobre o pedaço maior e vou em direção a cozinha, com ele me seguindo.
-Agora é esperar meu filho nascer.
-Ou filha.
-Sabe que meu pai disse algo que me tocou profundamente.
-O que?
-Qualquer homem faz um filho, mas somente os de verdade são pais. Além de me exaltar, dizendo que sabe que eu irei ser um bom pai, e que quem dera se ele pudesse ainda ter filhos, já que são uma benção.
-Eu não disse que as coisas iam dar certo?
-Vão dar!
Aquele sorriso otimista, tinha certeza de que ele encararia tudo e todos por isso. Assim como ele corre atrás dos seus sonhos, correrá atrás de sua criança.
Fiquei muito contente com os comentários do capítulo anterior, e vou pedir que continuem, por favor UBIDBAUIDOA. Não é uma intimação, mas eles me fizeram ter inspiração pra escrever, então postarei bem mais rápido tendo inspiração. É um jogo em conjunto, uma reação em cadeia, sabe? Obrigada e beijos <3 até!

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