sexta-feira, 8 de maio de 2015

Capítulo 3


Uns dias a mais se passaram, e minha amizade com Laila se tornando o pior impossível. Já não conseguimos mais ficar sozinhas, e por consequência eu acabo não falando nada pra ela, estamos desatualizadas uma na vida da outra. Ela está diferente, eu sei, e eu sinto. Sinto que ela viu que estou mais próxima do Bruno, e que estamos criando um laço de amizade mais forte, mas por outro lado ela não fala nada, afinal quem não dá assistência, abre concorrência.

Passei o intervalo sozinha, e Kai apenas me deu um oi de longe, com um sorriso meia boca. Claro que Bruno não falaria nada do que confidencio à ele, ou falaria? Provavelmente não.

Mas querendo ou não, aquela foi a dúvida que martelou em minha mente o dia todo, até eu me encontrar com Bruno na praça principal. Passava um pouco mais de sete da noite, e eu usava uma roupinha básica, com um casaquinho pela brisa da noite.

Sentada no banco, vendo todos saírem da praça, menos eu, e Bruno nunca chegar, avisto Kai chegando, com uma jaqueta colegial, cabelo mais bagunçado, e andar descontraído, apesar do seu maxilar estar trincado.

-Ah, oi. - Fico surpresa por ele sentar ao meu lado.

-Hey, tudo bem?

-Huh, tudo, e você?

-Estou bem. - Vejo um sorriso se formar, meio sem graça, e seu olhar percorrer pela praça.

-Veio encontrar alguém? - Não poderia ficar com a matraca fechada. Saco!

-Na verdade, sim. E você, pequena?

-Ah... - Óbvio que ele veio encontrar alguém, idiota sou eu por acreditar que ele poderia estar sentindo algo por mim também. - Também, mas acho que o Bruno me deu bolo.

-Sério? Então ele deu bolo em nós dois.

-Como assim?

-Ele marcou comigo aqui, perto das sete e meia.

-Sim, exatamente o que ele me disse, falou que precisava me ver e falar algumas coisas.

-Ele disse que precisava me mostrar umas letras, e uma melodia que compôs.

-Isso está no mínimo...

-Estranho. - Dissemos num uníssono.

Ficamos calados por um tempo, alguns minutos pelos meus cálculos, e o último casal que estava na praça se distancia para partir pras suas casas. O vento que o mar propagava agora bate em meu rosto, levando meu cabelo pra trás, e me causando arrepios.

-Ai. - Passo a mão sobre meu braço direito, me aquecendo daquela corrente fria.

-Seu cabelo está lindo.

-Obrigada. - Respondo sem graça ao seu elogio.

-Acho então que recebemos um bolo, sim?

-Acha? - Rio, na verdade sem achar graça. - O que deu nele em marcar os dois no mesmo horário.

-Talvez ele quisesse que a gente se encontrasse.

Meu rosto corou somente em pensar que essa fosse a real possibilidade do que ele fez. Caramba, poderia ter me avisado, agora estou um trapo na frente dele, e passando vergonha por ser burra, tapada, que não entendi o que estava acontecendo. Ele riu sem graça, mexendo o pé no chão. Podia ouvir sua respiração meio descompassada.

-Ah... - Dissemos ao mesmo tempo.

-Pode falar. - Limpou a garganta.

-Obrigada... Ia perguntar sobre você, sobre o que tá acontecendo ultimamente, e tal.

-Realmente? Nada. – Gargalhou, me fazendo o acompanhar.

-É que essa semana você estava mais afastado, aí pensei que pudesse estar mais ocupado.

-Apenas não queria sufocar você, e nem estragar seus momentos com a Laila.

-Acho que ela mesmo está fazendo isso. – Dou um sorriso sem graça. – Mas o que tinha para me perguntar?

-Ah. – Ficou um tempo analisando tudo, e então olhou para o meu rosto. – Você não vai sair correndo, vai?

-Depende! – O faço rir. – Claro que não. – Empurro seu braço de leve, é tão bom poder tocar nele.

-Passei afastado porque estava pensando, sabe, essa coisa de pensar muito tempo em uma pessoa só não é normal pra mim.

Bateu medo e pavor na hora. Ele está pensando em alguém, e por que eu tenho a leve impressão de que essa pessoa é uma menina? Argh! A raiva toma um pouco do meu corpo, junto com um ciúmes, pelo menos eu acho que é ciúmes.

-Ah. Ai queria um tempo para pensar?

-Sim! Falei com o Bruno sobre isso ontem, até achei que fosse por isso que ele tivesse me chamado aqui, pra conversar melhor.

-Talvez. Mas já que não tem ele, se quiser e sentir-se a vontade, tem eu! – Abri os braços, sinalizando de que só havia eu por ali mesmo. – Juro que não falarei nada.

Se não pode com eles, junte-se a eles. Se meu sonho de adolescente pode ser frustrado em segundos, que reste pelo ou menos uma amizade como a minha e do Bruno, porém com o Kai.

-Lea, eu nunca pensei em uma menina antes como estou pensando em você.

Não havia adjetivos para descrever o frenesi que estava sentindo. Fogos de artifício dispararam do meu peito, e era tudo que eu precisava ouvir. Então, foi por isso que Bruno armou esse encontro, porque Kai falou de mim pra ele, e ele sabe que eu tenho essa pequena paixão por ele. Eu tenho um dos melhores amigos do mundo!

Sorri, sem saber o que falar, nem o que fazer. E quando senti que ele ficou sem graça por ter falado aquilo, antes de fazê-lo se arrepender, segurei a sua mão e tomei coragem para olhar dentro dos seus olhos levemente rasgados e intimidantes.

-Que bom que compartilhamos pensamentos tão parecidos, Kai.

Não sabia o que vinha depois. Digo, já beijei dois meninos na minha vida, mas foram dois, e apenas uma vez cada um, tenho receio dele não gostar, de eu ser mal nisso. De fazer algo errado, principalmente. E, sem contar que, os outros beijos foram programados, do tipo: “ás 14:00, atrás da escola”. Eu já estava me preparando nesse meio tempo, mas agora além de ser do nada, há todo esse contexto de que, por um milagre, ele também está pensando em mim!

Kai se ajeitou no banco, de forma que conseguisse virar um pouco mais para o meu lado, e eu ajudei, me inclinando um pouco pra frente. Ele pôs a sua mão em minha bochecha, e fechou os olhos se aproximando do meu rosto lentamente. Fui indo no seu embalo, mas de olhos regalados, com medo de ficar com o rosto estranho e ele se arrepender do que está fazendo.

O beijo foi como comer abacaxi. Me senti nos céus com aquele sabor em meus lábios, algo mágico que sinto pela primeira vez. Não acostumada a fazer isso, o beijo acabou e ele me olhou, sorrindo, e logo em seguida dando um selinho em meus lábios.

-Foi bom o Bruno não ter vindo.



Havia largado os materiais sobre a classe da escola, Laila não estava na sala, então sentei na cadeira e fiquei olhando para a janela. O tempo estava meio estranho, havia sol, mas ele estava se escondendo todo o tempo atrás de nuvens xaropes. Nuvens que estavam tirando a beleza do dia.

Ouvi meu nome ser chamado, bem baixinho, então virei para a porta e lá estava Kai, sorrindo, e me chamando com o dedo. Verifiquei o horário no relógio, ainda tinha alguns minutos até a entrada do professor.

-Enfornada dentro da sala, que milagre. – Me cumprimenta com um selinho.

-O dia está meio xarope. – Torço os lábios. – E Laila ainda não chegou.

-Não chegou ou está com o namorado?

-Tanto faz.

Conversamos no corredor da escola, onde a maioria das pessoas estavam. Até seus amigos, mais ao fundo, conversando, e pelo que julgo, sobre futebol. Kai e eu estamos há mais ou menos cinco semanas ficando todos os dias juntos. Não juntos sempre se agarrando, mas procurando sempre estar no mesmo ambiente. Claro, sempre que possível nos beijamos, e até semana passada ele passou as mãos em minhas coxas, insinuando algo a mais.

Agradeço ao Bruno todos os dias, claro, ele é o melhor nisso. Ele é o melhor em me fazer sentir melhor. Ao falar nele, também o ajudei com Bethany, o ajudei a conquista-la, e claro, eles estão ficando, mas a maneira dele. Agora digo que está tudo se encaixando, ao não ser pelo fato de que perderei meu melhor amigo em pouco tempo, já que a formatura de Bruno será em um mês e alguns dias.

-Me perguntaram hoje se estávamos namorando, sabia? – Disse, enquanto acariciava minha mão. Quando estávamos somente eu e ele éramos assim, mas com os outros nos tratávamos normalmente, como amigos, mas todos do nosso grupinho sabem que estamos ficando.

-É, e o que você falou? – Passo a mão nos seus cabelos, tirando uma sujeira.

-Não respondi, não sabia o que falar.

-Porque? – Rio, um pouco nervosa.

-Porque você nunca me disse o que é minha.

-Até onde eu saiba, somos amigos... – Seu olhos me encararam por um tempo. Droga, eu precisava concertar o que falei. – Quer dizer, eu não fui pedida em namoro.

-Então é por falta de pedido?

-Talvez seja. – Abro um sorriso sapeca, e ele me beija.

Algo que já coloquei mais do que em prática. Passou a mão em meus cabelos.

-Eleanor, você quer namorar comigo?

Não fiquei vermelha, fiquei roxa! Caramba, como se reage a um pedido desses e principalmente pelo menino mais lindo e mais querido que já me apareceu, tirando meu melhor amigo, que pra mim é mulher. Eu não sei como é namorar alguém, posso me basear somente pelo exemplo de meus pais, minha irmã com Eric, e nos filmes que passam na televisão ou o que vimos em vídeo cassete. Claro, quero tornar longe de exemplo o casal Laila, porque não quero ser aquele tipo de pessoa que abandona tudo e todos pelo namorado.

Acho que não precisei responder ao Kai, pelo menos não lembro dessa parte. Fiquei toda boba durante a aula, e quando o intervalo chegou, ficamos com seus amigos, que foram super receptivos. E no final, acabamos reservando alguns minutinhos a sós.

Após a aula, me despedi de Kai e fui o mais rápido possível para casa. Precisava contar para a minha mãe, e para Bruno. Eles amariam saber. E minha mãe teria que preparar o campo com o meu pai, já que ele não vai aceitar ver a sua caçula crescer. Mas qual é, ano que vem eu já irei sair dessa cidade, desse estado, estarei sim, oficialmente uma garota crescida. Tenho que mostrar minha responsabilidade.

Minha mãe arrumava a cozinha, enquanto minha irmã estava pronta para sair ao trabalho. Papai como sempre trabalhando, então no momento que minha irmã sair, posso falar tranquilamente com minha mãe.

-Mamãe? – A chamei na porta da cozinha.

-Oi, meu bebê. – Ela retira a luva amarela que estava usando para lavar a louça. Coisa de mulher que não quer estragar as unhas.

-Podemos conversar?

-Claro. Agora?

-De preferência. – Abri um sorriso, para que ela se aliviasse e deixasse de pensar toda e qualquer bobagem que viesse a sua cabeça.

Nos sentamos no sofá da sala, e eu a observei prender o cabelo. Temos o mesmo jeito até pra isso.

-Mãe, a senhora lembra do Kai?

-Sim, como vou esquecer o menino que arranca suspiros dessa garota.

Sorrio boba, com vergonha de falar isso. Mas a verdade é que eu queria poder explodir dizendo que eu estou namorando.

-Hoje na escola, nós estávamos conversando, e ele... bem, mãe...

-Ele o que, meu amor?

-Ele me pediu em namoro! – Suspiro, aliviada. – Nós já estávamos nos encontrando, lembra...

-Meu bebê namorando, meu Deus. – Ela bate a palma das mãos, e me abraça, como se tivesse orgulhosa. – Como você está crescendo rápido, meu bem.

-É, mamãe, acho que não devo ser mais o bebê.

-Você sempre será meu bebê! – Minha mãe beija o topo da minha cabeça.

-Então, mamãe, preciso que a senhora prepare o caminho para o papai aceitar isso numa boa.

-Calma, querida. É claro que ele vai, não digo que ele não ficará meio com o pé atrás, afinal, é a segunda bebê que consegue um namorado, e que está crescendo rápido.

Tive um bom papo com minha mãe, ela é uma das melhores pessoas para se conversar, já que ela me vê além de filha, me vê como amiga também, isso facilita. Subi correndo para poder ligar para o Bruno, já que essa hora ele já deveria ter chego da escola.

-Alô? – Atende uma de suas irmãs.

-Oi, é a Lea. Posso falar com o Bruno?

-Oi Lea, só um minuto, vou chama-lo.

-Ok.

Esperei ouvindo a conversa. Ela gritando pra ele, o chamando de preguiçoso por querer que ela levasse o telefone até o seu quarto. Tocava alguma música bem alta, garanto que as meninas estavam limpando a casa. Bruno reclamou um pouco, e pigarreou antes de antes.

-Alô.

-Então quer dizer que você não quer me atender. Ótimo amigo que eu tenho!

-Lea? Droga, a Tahiti não disse que era você.

-Ah, então se fosse eu você atenderia rapidinho, não é? O que o medo não faz com uma pessoa.

-Medo de você? Eu? – Ele gargalha. – Aham!

-Eu sei que você tem, Peter.

-Peter não, sabe que prefiro Bruno.

-De acordo com os Estados Unidos da América, o nome que consta em sua certidão de nascimento é Peter.

-Certo, agora pare de agir como se fosse minha professora e me diga, está tudo bem?

-Maravihosamente, apesar do dia estar meio xarópe.

-Você falando xarópe parece minha avó. – Ouço sua risada e uma tosse junto.

-E você, como está?

-Eu estou bem, obrigada.

-Bem que hoje poderia ser sexta, não é? Estou louca pra ir no fliperama.

-Que bicho lhe mordeu?

-Por quê?

-Sei lá, está tão... alegre.

-Quer dizer que eu sou triste?

-Não... Hoje, particularmente, está mais viva.

-Quer dizer que eu sou uma morta?

-Cala a boca, Lea. Você me entendeu! Está até fazendo piadas.

Gargalhei, enquanto puxava o fio e a base do meu telefone para cima da cama. Deitei de bruços e suspirei.

-Tenho novidades.

-Eu também, mas não são empolgantes. Diga.

-Adivinha quem está oficialmente namorando?

-Fala sério! Kai finalmente tomou coragem?

Rimos um pouco mais, ele fazendo piadas sobre minhas perguntas, afinal eu não tenho essa intimidade com o que chamam de namoro, eu não sei como agir, o que fazer, então combinamos de eu receber aulas, do que ele auto intitula de “o mestre de tudo”.

-Mas, agora mudando de assunto, qual a novidade que me contaria?

-Ah, sobre a formatura! Vamos ter que usar terno mesmo, no baile e no dia da graduação.

-Eu falei! É assim mesmo, se acostume.

-Eu me odeio de terno.

-Ah, para!

-Fala assim porque nunca teve a oportunidade de me ver com um.

-Deve ficar lindo.

-Obrigada, mas é sério. Estou surtando.

-E quanto a acompanhante do baile?

-Convidei a Tami.

-Que fofo! E ela aceitou, claro?

-Óbvio. Quem recusaria?



Passei pelo menos duas horas me arrumando. Sim, baile era do Bruno, e não ficaríamos por muito tempo, mas a ocasião merece tudo isso. Após o baile iremos para a casa de uma das meninas. Formamos uma festa apenas para nós, onde podemos fazer o que quiser, já que a casa dela está liberada. A noite será maravilhosa.

Desci as escadas, e vi Kai ao lado do meu pai. Parece que em um mês e três semanas de namoro fizeram do meu pai e Kai amigos bem próximos. Eliza me olhou dos pés a cabeça.

-Até parece gente! – Pôs a língua pra mim, assim quando ela falou, chamou a atenção de Kai.

-Você está linda, filha. – Minha mãe diz, na ponta da escada. – Até parece o seu baile.

Recebi quinhentas recomendações de minha mãe, e claro, meu pai encheu Kai de coisas que eu não poderia fazer e que ele deveria ter cuidado, afinal, já programei que não voltaria pra casa após essa noite, assim posso beber sem pensar em como vou vir pra casa sem parecer uma alcoólatra. Entramos no carro do pai de Kai, que nos largaria no baile de Bruno. Combinamos de nos encontrar na frente do ginásio.

Sobre como foi meu encontro com os pais de Kai, diria eu que foi mil maravilhas. Adorei a mãe dele e sua irmã mais nova. Seu pai parece ser mais sério, mas quando abriu a boca, soltou cada piada engraçada, que sua visão de homem sério foi pelo ralo comigo. Kai tem um irmão mais velho, o qual mora com a esposa do outro lado da ilha.

Descemos do carro, e eu peguei a sua mão. Muitas pessoas estavam chegando, e nosso grupinho de amigos já estava ali. Todos bem produzidos, e claro, ansiosos para a noite.

-E ai pessoal! – Kai cumprimenta todos de longe.

-Oi, gente.

-Oi. – Disseram num uníssono.

-Pronto para levar a coroa de rainha, Bruno? – Perguntei enquanto beijava a sua bochecha.

-Sempre. Desculpa Tami, mas a coroa é minha!

Não pude deixar de notar o quanto Bruno estava lindo. Usando seu afro penteado, e com os cachinhos modelados, molhados com algum produto. Um terno, sem gravata, apenas a manta de flores finas em sua mão para pôr assim que entrar. Estava todo de preto, como ele estava lindo. E Ryan, outro que não se escapa. Ele realmente estava lindo e me surpreendeu. Seus cabelos lisos penteados naquele corte meio H-man.

Prosseguimos por um tempo conversando, até todos chegarem e entrarmos no ginásio. Conversei com as meninas, e conheci Tami melhor, ela realmente é um amor de menina, super atenciosa e querida.

O baile foi lindo, e com certeza Bruno não ganhou como rei, já que ele nem quis se inscrever. Fiquei a todo o momento imaginando o meu baile, e até me emocionei com tudo aquilo.

Sei que ta meio parado ainda, mas isso é até o capítulo que vem, depois as coisas melhoram. E desculpa se está meio apressado, mas não quero estar enchendo vocês de capítulos grandes e coisas maçantes que não trazem nada a história. Espero que estejam gostando <3

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