domingo, 24 de maio de 2015
Capítulo 6
Eu ainda o olhava, com uma mão na boca, pensando o que deve estar passando pela sua cabeça. Tenho medo de falar algo agora e deixar ele mais desesperado do que parece estar, ou acabar plantando algum sentimento, tipo raiva, em seu coração. Estico minha mão pra pegar a sua.
-Preciso perguntar como está se sentindo?
-Mal? Com medo? - Sua risada nervosa me faz ter arrepios. - Eu estou surtando, não sei o que fazer.
-Bruno, se ela tiver de pouco tempo, ainda pode tomar algo pra tirar o bebê, apesar de que eu sou contra a isso.
-Eu não quero tirar, ela está carregando um filho meu na barriga, não irei mata-lo, arriscando a acabar com a vida dela também.
-E ela está de acordo com isso?
-Ela está pior do que eu, sem rumo e sem saber o que fazer. Acha que seus pais irão lhe matar.
-Seus pais irão lhe matar! - O lembro desse fato, que faz ele sorrir, mas no fundo querendo me esganar com os olhos.
-Eu sei, obrigada por lembrar disso também.
-Bruno... eu não sei o que dizer, ok? Não quero deixar você mais nervoso, mas caramba, dê adeus a essa sua vida doida de beber aos finais de semana, de sair com várias sem se importar em voltar cedo pra casa...
-Tô sabendo de tudo isso. - Bruno passa a mão sobre seu cabelo, soltando o ar.
-Eu não sei o que dizer! - Estalo o pescoço. - Talvez seja bom pra você criar juízo.
-Eu já tenho.
-Mesmo? E não usa, né? Porque senão essa menina não estaria grávida... Aliás, como é o nome dela, mesmo?
-Diana. - Sua mão mais uma vez passa pelo rosto, mostrando muito mais da sua nervosidade. - Mas quem é você pra ditar sobre juízo agora?
-Aquela que está sempre com você, e que não vai deixar você passar nenhuma necessidade! - Seguro seu rosto com minhas mãos, me aproximando dele. - Aquela que é sua amiga. Nós vamos passar por isso juntos, como sempre passamos por tudo.
-Você não existe.
Bruno choraminga baixinho enquanto eu beijo sua testa e lhe dou um abraço. Em todo o momento que eu precisei, ele sempre esteve aqui. E em todo o momento que ele precisou, eu também estive, agora mais do que nunca ele precisa de apoio, de incentivo. Não é porque um bebê vai vir, que sua carreira que nem começou tem que acabar.
-Será que você vai precisar ficar com a garota, Diana?
-Não. - Balançou a cabeça. - Não quero e nem vou ficar. Darei tudo que precisará, mas não ficarei com ela.
-Eu te amo, ok! Tudo vai ficar bem, pode acreditar em mim.
O aconcheguei em meus braços, tomando seu corpo num abraço. Depois pus sua cabeça em meu colo, e o senti como se fosse uma criança indefesa. Quase da mesma forma que ele me tomou nos seus muitas vezes que precisei chorar, seja por saudades, ou simplesmente TPM. Assoviei uma canção enquanto ele segurava uma das minhas mãos, e a outra fazia cafuné em sua cabeça.
Sei que tem vezes em que o mundo parece estar conspirando contra nós, mas são nesses momentos que devemos lembrar de tudo feliz que já passamos, e lembrar que a Terra gira. O tempo passa, as coisas que um dia nos fizeram mal, hoje podem ser para o nosso bem, assim como tudo o que já nos fez bem, pode virar para o mal. Todos lutamos contra os problemas diários, enfrentamos monstros grandes, e passamos por coisas que juramos que seriam as piores, mas aí vem outras, mostrando que sempre há maior. Assim a vida é, depois da tempestade, sempre vem a bonanza. Digo para ele acreditar que o amanhã vai ser melhor porque vai! Eu sei que um dia verei meu melhor amigo numa capa de revista, eu sei que o verei em uma grande premiação, sei que ele será maior que tudo isso, maior que as muralhas que o impedem.
Bruno tem o temperamento forte, nunca mostra estar mal. Todos o veem sorrindo, veem-o feliz, alegre, sempre contando uma piadinha, ou fazendo graça de alguma coisa, mas só eu sei que por baixo de todo esse homem forte, engraçado, tem o mesmo menino de anos atrás, o mesmo que chorou em meu colo com saudades da mãe.
Bruno adormeceu em meu colo, e eu acabei por dormir sentada, desacreditada ainda em tudo que está acontecendo. O domingo não passaria de monótono, apesar de eu não gostar, não posso exigir muito dele. Então assim que eu o acordei para ele dormir na cama, tomei meu banho e pus uma roupa mais confortável. O que me restava daquele lindo dia era correr. Agora tenho que dar adeus junto com ele nessa vida de beber e comemorar todos os finais de semana, e ser uma tia responsável para esse pequeno que vem por ai.
Comecei com a corrida tranquila, fones de ouvido em uma rádio qualquer de músicas legais, pensamentos no futuro, em como tudo será, e concentração em manter o ritmo.
Até chegar ao parque, onde já tinham pessoas correndo, estava quase morrendo. Definitivamente o sedentarismo tinha tomado conta do meu corpo, o que eu não poderia mais deixar acontecer. Um parque pequeno, um dos poucos que tem perto de casa para correr, mas ainda anseio em morar na parte alta, onde poderei correr no Runyon Canyon todos os dias, sempre que quiser.
Parei para me esticar, fazer alguns exercícios de alongamento, onde outras pessoas faziam o mesmo, e estava conseguindo me distrair. O problema não é comigo, não sou eu que estou grávida, e não sou eu que serei pai, mas carrego junto com o Bruno toda essa coisa nova que ele terá que aprender. Amigos são amigos para todas as horas.
Ao voltar pra casa e abrir a porta, dei de cara com Bruno e a menina, que eu me esqueci o nome novamente, sentados bem longe um do outro no sofá. Ela não parecia ter dormido, suas olheiras estavam profundas, e Bruno parecia estar em choque ainda, mas não aparentava ter chorado.
-Ola. - Disse, fechando a porta e largando a chave sobre a mesa.
-Lea, essa é Diana. - Bruno aponta para ela. - Diana, essa é minha amiga, Lea.
-Prazer, Diana. - Estico a mão para ela apertar.
-Prazer. - Diz, dando um sorriso meia boca, ainda meio triste, e suas mãos geladas como se estivéssemos no inverno.
-Vou tomar um banho, rapidinho. Bruno já preparou algo para comer? Um café?
-Não... - Responde sem jeito.
-Assim que você sair do banho e ficar aqui pra fazer companhia pra ela, eu faço algo. - Responde um pouco frígido demais.
-Tudo bem!
Tento tomar um banho rápido, a pobre coitada da menina deve estar morrendo de fome, ou com sede, e Bruno nem pra isso serviu, para ser gentil com ela. Ele pode estar apavorado, mas ela também está, e garanto que pra ela o peso é um pouco maior, já que é ela que vai carregar durante nove meses esse bebê.
Visto uma roupa leve e vou para a sala. Ligo a televisão para ajudar a não ter um silêncio absoluto, enquanto Bruno levanta para ir a cozinha fazer algo pra ela.
-Então, como está se sentindo? - Pergunto, puxando assunto.
-Não posso dizer que bem. - Ela demonstra sua nervosidade mexendo com as mãos. - Ansiosa, com medo...
-Não fique. Olha, nós estamos nos conhecendo agora, e eu sei que é difícil ouvir conselhos de estranhos, mas tudo vai dar certo. Nós vamos ajudar com tudo o que precisar.
-Meus pais, Lea. Meus pais vão me matar. Eu não tenho nem 21 anos ainda!
-Eles vão entender! É uma criança, eles não vão obriga-la a abortar.
-Você não conhece meus pais, eles nunca irão entender.
-Se você está nervosa assim, imagine o Bruno. Eu sei que pra ele parece mais fácil porque ele é homem e não precisa carregar a criança, mas não é. Ele tem sonhos e planos assim como você. E pais também.
-Garanto que os pais dele irão entender.
-Você não os conhece. - Rebato, somente para não perder a oportunidade, porque sei que os pais de Bruno irão lhe dar uma bronca, mas irão amar ter mais um neto. - E tem mais, se seus pais lhe tirarem de casa, na rua não ficará.
-É quase certo que isso acontecerá! Eu estou surtando.
-Acredite que não é só você, eu que estou do lado de fora disso, estou me sentindo ai dentro, nervosa igualmente.
-Vou perder minha vida.
-E eu? De certo não perderei também. - Bruno diz de maneira grosseira, trazendo com ele um prato de waffles e um copo de leite, eu acho.
-Hey, fica quieto, eu estou conversando com ela. - Balanço a cabeça, em repreensão.
-Essa noite não fui pra casa, fiquei vagando por aí, até chegar aqui.
-Porque não foi pra casa?
-Porque eu estou com medo! Surtando. Eles vão descobrir.
-Então quem sabe não fala de uma vez, enfrenta esse problema, uma hora ou outra eles vão descobrir, e é bom que seja pela sua boca.
Diana larga o copo na mesa de centro, passando a mão no rosto e começando a chorar. A puxo para um abraço, afagando sua cabeça. Bruno balançava as pernas sentado na poltrona, ainda querendo digerir tudo aqui. Ela soluçava em meu abraço, repetindo o mantra de que essa criança estava sendo um peso, de que sua vida iria se tornar o inferno na Terra. Espero que essas energias negativas não afetem o bebê, de maneira nenhuma.
Não sabia mais o que dizer e a quem confortar. Agora era o momento de dar um pouco mais de atenção à ela que com certeza também precisa, mas Bruno também parece bem desolado, e sua pose de badboy, de quem está bravo, é pura fachada. Ele está surtando, eu sei disso assim como ele também sabe. A mantive em meus braços, sentindo suas lágrimas caírem, seu choro amenizar um pouco e sua respiração pouco a pouco voltar ao normal.
-Tudo bem! - Passo a mão pelo seu cabelo. - Você sabe que agora tem que tomar uma decisão.
-Vou tentar conversar com eles hoje mesmo. - Se afasta de mim, procurando minhas mãos para segurar.
-Vem cá! - Chamo o Bruno, que relutante, levanta, e se abaixa perto de nós. Pego sua mão e a mão dela, olho para os dois, apavorados. Nem quero me colocar no lugar deles, mas sei que deve estar sendo difícil. - Se não ficarem juntos, me prometam que irão cuidar dessa criança, que ela será o amor de vocês.
-Eu prometo! - Bruno diz rapidamente, e Diana não diz nada.
-Diana, eu sei que está sendo bem complicado agora, mas assim que ver o rostinho da sua filha, ficará contente.
-Posso ser sincera?
-Deve.
-Meus pais...Eles não me matarão por ter um filho, mas sim porque eles me tem como companhia para as loucuras de viagens, não queremos ter que carregar uma criança. Nós somos viajantes, amantes das culturas, aproveitadores da vida, não queremos criar raízes. Eu disse isso ao Bruno logo que nos conhecemos.
-Eu sei, Diana. Mas podemos combinar algo, se você não for ficar com ela, podemos colocar para a adoção, mas não matar essa criança. Eu também tinha planos, e vou ter que muda-los. Somente segure esse bebê com você, e quando nascer, nós vemos o que podemos fazer. Tantas pessoas querem um filho, nós podemos doa-la, será benéfico à nós e aos novos pais. - A primeira coisa sensata que Bruno fala a menina, e vejo em seus olhos a esperança nascer levemente, bem ao fundo.
-Isso! Viu como conversando se ajeita? Tudo vai dar certo, e eu sei disso. E se não der, podem cobrar de mim. - Digo, aumentando o humor da conversa, fazendo os dois rirem, mesmo que uma risada ainda triste.
No final do dia, Diana foi embora, e já avisei para ela que se algo acontecer, ela pode correr pra cá. Me preocupo com a criança, e agora um pouco com ela. Bruno estava me auxiliando na cozinha, estávamos fazendo a nossa janta, bem reforçada, para amanhã irmos ao serviço com vontade.
Depois de comermos bem, com legumes, verduras, e carne, um dos mais importantes, sentamos no tapete da sala, abrindo a janela que cobre uma parte da parede da pequena sala, ligando o rádio e deitando para trás. Fazíamos isso às vezes, dava uma boa visão do céu estrelado de Los Angeles, além de ser um momento para nossos pensamentos e nossa conexão.
-Estava pensando em como contar aos meus pais. - Bruno coloca as duas mãos embaixo da cabeça.
-Da mesma maneira que contou a mim. Qual é, seus pais são os pais mais compreensíveis que existem.
-Não sei em relação à isso.
-Bruno, você mesmo disse que eles levaram numa boa quando sua irmã chegou grávida aos 17 em casa.
-Mas... ainda tenho medo, não caiu a ficha.
-Mas vai cair, e você vai ver que nem tudo é um bicho de sete cabeças, e que irá sair dessa, porque a cada problema existe solução.
-Não importa o quanto demore para acha-la. - Ele põe a mão sobre a minha. - Ah, Lea. O que seria de mim sem você, sinceramente?
-Um bêbado, assustado com o mundo, sem esperança, e talvez ainda residente do Havaí.
-Não, não estaria no Havaí.
-Então residente das ruas de Los Angeles.
-Será que eu teria conhecido o Philip? Será que eu teria engravidado alguém?
-A pergunta é quantas você teria engravidado, não é, senhor Fodão?!
-Já expliquei que eu não sei que mel é esse.
-Eu sei qual é.
-E qual é? - Já estávamos brincando, como sempre fazíamos. Nada era sério por muito tempo.
-Seu pau tem açúcar e você sabe disso, então aprendeu a usa-lo para conquistar as meninas.
-Como sabe que eu sei usa-lo, Eleanor? Anda sonhando com meus dotes sexuais?
-Vai a merda, Hernandez! É o que eu vejo, pelos gemidos. - Viro a cabeça para o seu lado. - Oh, Bruno, isso! Vai gostoso, mete mais fundo. - Imito os gritos e os gemidos.
-Parece mais sexy com você fazendo.
-Pareço uma morça! - Reviro os olhos.
-É assim que grita com suas presas, Viúva Negra?
-Viúva Negra? - Dou uma gargalhada. - Fala sério, meu apelido agora?
-Pode ser que sim, mas não desconverse. Geme assim com seus homens?
-Nossa senhora. - Rio, passando a mão no rosto. Sinto minhas bochechas ficarem levemente ruborizadas. - Talvez seja.
-Vou perguntar para o seu chefe.
-O que?
-Seu chefe. Vou perguntar se geme assim.
-Primeiro que eu nunca dormi com ele.
-Jura? Idiota, não fez o teste do sofá.
-Você fazia se tivesse uma empresa, Hernandez?
-Quem sabe? Provar todas que trabalhariam comigo. Seria uma boa. Vou desistir da música e montar uma empresa.
-Eu trabalharia pra você, mas não iria fazer o teste do sofá.
-Quem disse que não? Faria mais de uma vez ainda.
-Claramente você está alucinado. - Rio, sentando no chão e me apoiando para levantar. - Vamos dormir, amanhã é um longo dia.
-Vamos. - Ele se sentou e eu caminhei para o corredor. - Lea?
-Oi?
-E se eu fosse mais uma presa sua, me mataria depois da transa?
-Talvez, mas iria aproveitar para transar várias vezes, assim como faria se eu fosse trabalhar pra você.
-Amanhã vou abrir uma empresa. - Ele chega se rindo para perto de mim. Sempre estamos nessas brincadeiras de amigos, chega ser engraçado, porque todos pensam que namoramos. - Vai ser de estofados.
-Porque? - Pergunto enquanto vamos em direção do banheiro.
-Porque assim faço o teste do sofá com minhas empregadas, todas mulheres, e com minhas clientes. Que serão mulheres, porque homens não vão em estofarias... Sou tão inteligente.
-É, e um idiota também. - Pego minha escova de dentes e estico para ele por pasta na minha também.
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