quarta-feira, 26 de abril de 2017

Capítulo 90

(Para melhor experiência, escute Off I Go, do Greg Laswell e Hold On, do Chord Overstreet)

Lá vou eu
Onde eu cair
É onde eu aterrissarei
(Off I Go – Greg Laswell)



08 de Janeiro de 2018

Eu não sabia se queria. Eu sei que nós estamos bem agora, que nós estamos mais fortes que nunca, mas não sei se estamos prontos para um bebê, não sei se essa é a hora. Eu nem sei se ele quer. Não agora, pelo menos.

Eu nem sei se estou preparada.

Sei que mandam nos focar então no que nós queremos, pensamentos positivos, mas acho que meu corpo sabe, eu sei que há algo modificando nele e isso eu posso atestar.

Vamos, Eleanor, basta você fazer xixi nesse potinho!

Tento me concentrar, olhando para aquele pequeno pote de plástico em minhas mãos enquanto estou sentada na privada.

-Vai dar tudo certo. - Respiro fundo.

Posiciono-me de uma forma que consiga fazer xixi nele. O mais nojento é minha mão completamente molhada do meu xixi, mas é necessário. Saí até a pia e coloco o recipiente em cima. Desembalo a ponta do palito e retiro um pouco do excesso. O coloco dentro e viro de costas, quero evitar olhar enquanto está em processo. Marco cinco minutos em meu celular e vou para a sala. Fico olhando qualquer coisa nele, mexendo em fotos, apagando algumas, apenas para me distrair, mas isso não parece ser suficiente, até porque o tempo parece não passar.

O celular desperta em minhas mãos e eu vou até o banheiro. Meu corpo já sabia do resultado, eu só precisava acostumar a minha mente. Só precisava ver que aqueles dois risquinhos bem fortes que apontavam ali eram reais. Pego novamente a bula para ler - mas eu sei que é positivo, já tinha lido milhares de vezes.

Deito no sofá da sala com os pés pra cima e no celular pesquiso coisas sobre gravidez. Meu calendário já não mentia há muito tempo e dessa vez não foi diferente. No aplicativo mostrava que minha última transa havia sido há uma semana atrás, porém a última antes da menstruação não vir mais foi há seis semanas. No fundo eu sabia que algo não estava certo, mas acho que eu não queria ver.

É óbvio que eu quero uma família, e principalmente com ele que é o amor da minha vida. Mas eu não sei ser mãe. Digo, é diferente do que eu passei com a Lana. É diferente de tudo. Essa criança vai sair do meu ventre, essa criança vai ser meu sangue. E se eu for uma péssima mãe?

Eu não sei.

Estou nervosa.

Suando gelado e pernas bambas.

Mando uma mensagem para o Bruno, onde reescrevo diversas vezes até escolher que eu não deveria dar essa notícia por mensagem, que deveríamos nos ver e conversar.

"Bruno, você pode vir na minha casa? Por favor, é urgente. Nós precisamos conversar."

"Estava indo pra casa agora. É urgente mesmo? E porque na sua casa, amor?"

"Eu estou aqui, preciso que venha até mim. Por favor."

"Está acontecendo algo, Lea?"

"Está, mas não se assuste. Só venha. Eu amo você."

"Também te amo. Estarei aí em questão de minutos."


Não seriam poucos minutos, minha casa é ao caminho oposto da sua, então se ele está a caminho da dele, estará aqui em torno de meia hora, ou até uma hora.

Ligo a televisão e no telejornal está Laurel Di'Loiuse, uma apresentadora linda que está em alguns meses de sua gestação. Eu não acredito que agora que sei, essas coisas de grávidas irão me perseguir como em filmes e livros. Só pode ser brincadeira.

Preferi deixar nas músicas e começar a preparar um jantar, Bruno chegaria com fome e nós não podemos apenas ir direto a esse assunto.

Corto todos os temperos e deixo tudo a vista para depois apenas cozinhar.

A campainha toca e eu ando até a porta. Ele está com uma expressão preocupada, mas assim mesmo não deixa de sorrir lindamente.

-Você me assustou. - Ele diz, assim que deposita um selinho em meus lábios.

-Desculpa. - Lamento e tranco a porta. - Eu não queria falar nada por mensagem.

-Mas o que é? Você está bem?

-Estou!? Eu pareço mal?

-Não... Por que pareceria? Está doente?

-Não! - Balanço a cabeça. - Estou fazendo o jantar pra nós dois.

-Mas tínhamos combinado de jantar com a Lana, ela quer nos mostrar os trabalhos que irá apresentar segunda na escola.

-Ah, eu tinha esquecido completamente. Nós vamos ao shopping amanhã, ela quer comprar algumas coisas. Não me pergunte o que. - Pego o pano de prato. - Mas não posso deixar essas coisas assim. – Gesticulo para os pratos sob a mesa.

-Podemos levar pra lá. - Ele dá de ombros e entra na cozinha, debruça-se no armário da pia e vira a cabeça para o meu lado. - O que houve, Lea? O que você já ouviu de fofoca sobre mim e quer conversar achando que essas bobagens são verdades.

-Não ouvi nada sobre você. Deveria?

-Claro que não, você sabe que essas coisas são tudo uma grande mentira.

-Eu sei. - Assenti.

-Então... O que é que está te incomodando?

-Bruno... - Ligo o fogão e coloco os legumes dentro da panela. - Nós dois nunca tivemos uma conversa de como será nossa família. Se vamos ter filhos. Nós vamos nos casar daqui algumas semanas e eu estou surtando.

-É sobre isso? Conversar sobre nosso futuro? - Ele dá um sorriso aliviado. - Meu amor, você sabe que eu quero você na minha casa definitivamente, e você praticamente vive lá, mas ainda insiste em manter esse lugar. Me promete que após a nossa lua de mel, você virá morar comigo de vez por todas?

-Eu prometo. – Dou um sorriso meio amarelado.

-Nosso casamento é daqui algumas semanas e eu não poderia estar mais ansioso por isso. Ansioso por poder chamar você de minha esposa, finalmente. - Ele se aproxima de mim. Bruno toca em minhas mãos e eu gelo por completo, ele é lindo e se fosse somente isso que eu tivesse pra falar, nossa noite acabaria em muito sexo de comemoração.

-Pode apostar que eu também estou ansiosa. Ansiosa e nervosa. - Rio e beijo de leve seus lábios. - Vem, vamos sentar no sofá. - O puxo pela mão.

-Lea, você é uma figura. - Ele ri e quando senta-se em meu lado, puxa minha cabeça para o seu colo. - Eu amo você. Mas não precisa ficar nervosa. A ansiedade eu entendo, mas nervosa não tem porque. Seremos eu e você naquele altar, as pessoas que amamos na plateia. E a partir dali, felizes para sempre.

-Bruno, não é isso. – Respiro rapidamente e digo o que preciso dizer finalmente. - Eu estou grávida. Nós dois vamos ter um filho e eu não se isso é bom ou ruim, eu não sei o que pensar porque nós dois não tivemos essa conversa ainda. Eu estou com medo, eu estou apavorada, meu nervosismo é por isso também. E se eu não souber mais como cuidar de uma criança? E se for diferente com um filho do meu ventre? E se eu não me adaptar? - Eu não tinha parado de falar um minuto e nem dado tempo para ele assimilar as coisas. Bruno estava com a expressão mais apavorada que tinha visto desde que ele descobriu que Diana estava grávida da Lana.

-Lea...

-Eu falei pra mim mesmo que seria um erro te contar assim. Mas eu estou perdida, Bruno.

-Eu não estou sabendo assimilar as coisas, calma. - Suas mãos passam pelo cabelo afro, fazendo com que seu boné caia pra trás. Eu levanto a cabeça do seu colo e encaro a parede esperando que ele diga algo. Mas o tempo passa e ele não diz mais nada, ele apenas fica ali, olhando pro nada como eu.

-Eu posso tirar, Bruno. - Digo, quebrando nosso silencio. - Nós tiramos e então seguimos com nossas vidas e decidimos se queremos filhos ou não depois do casamento... Eu posso tirar.

-Eu sei. - Ele fecha seus olhos.

-Eu vou tomar banho, ok?

-Ok.

Levanto do lado dele e vou até o banheiro.

O teste ainda está sobre a pia. Jogo o xixi que ali contém fora e olho-me pelo espelho. Digo que vou ser forte e não vou chorar, que preciso dar um tempo para ele assimilar as coisas e que quando eu sair do banho nós iremos resolver tudo o que temos para falar.

Entro no box e deixo a água cair por cima do meu corpo. Evito de olhar minha barriga, é difícil acreditar que tem alguém em formação dentro de mim, mas quando passo o sabonete por ela, pairo as mãos sobre e balanço a cabeça. Seja o que Deus quiser.

-Bruno, eu estive pensando... - Sai do banheiro, ainda secando meu corpo com a toalha, mas não havia ninguém ali. Não pelo menos na sala. - Bruno? - Pergunto mais alto! Nada, ninguém respondeu. Será que ele dormiu no quarto?

Vou até o quarto, abro a porta devagar para não acorda-lo, mas acordar quem? Não tinha ninguém ali. No quarto ao lado, vazio, só algumas coisas avulsas. Ele tinha ido embora? Ele fugiu só pra não ter que encarar nossa conversa? A minha gravidez é tão ruim que ele não aguentou ficar por ali e conversar comigo para decidir o que fazer?

Enrolo a toalha no meu quarto e sento na cama.

Bruno Pov's

Passo dois sinais vermelhos antes de encontrar um posto de gasolina. Diminuo a velocidade aos poucos até encostar e só então percebo que talvez estivesse andando um pouco mais rápido do que pretendia, mas minha cabeça ainda estava muito cheia para pensar nisso. Pulo do carro, enfiando meus cabelos num boné de qualquer jeito e entro na convivência, atrás de qualquer coisa que talvez fosse colocar minha cabeça em ordem.

Passo direto pelas geladeiras, mas acabo voltando para buscar uma lata de Red Bull. Prateleiras depois, uma vodca e uma grade de cervejas. Levo para o caixa e o rapaz parece me reconhecer, mas me adianto e encho as mãos de balas e confeitos na prateleira abaixo do caixa, apenas para me abaixar. Definitivamente não estava com cabeça para ser famoso no momento.

Volto para o carro e dirijo para casa, distraído. Grávida. Eleanor. Casamento. Semanas.

A situação parecia tão diferente daquela que originara Lana...

Grávida. De mim. Como ainda não tínhamos tido essa conversa?

Sinto um arrepio passar por todo meu corpo ao lembrar da última - e até então única - pessoa a ficar grávida de mim. O que me garantiria que Lea não fosse fugir da maternidade como fizera Diana? O que poderia me garantir que o bebê que ela esperava fosse tão amado por mim quanto Lana? O que me garantiria que Lea não surtasse e me deixasse no altar? Eu não tenho mais tanto tempo como tinha naquela época. Talvez eu não seja o suficiente. Talvez Lea fuja, também. Talvez nós tenhamos uma briga e eu não os veja mais.

Entro em casa transtornado, ainda mais confuso com tudo. Por mais que minha melhor amiga tenha sido uma perfeita mãe para Lana, talvez...

- Pai? - Minha menina aparece coçando os olhos, vestindo uma calça de pijama colorida e blusa branca.

- Hey. - Jogo a chave em cima da mesinha. - O que ainda faz acordada, mocinha?

- Ouvi o barulho do carro. - Ela se espreguiça. - Acho que perdi o sono. O que é isso?

- Ah, nada. - Dou um beijo em sua cabeça e ela me segue para a cozinha. Ajudo-a a sentar na mesa e ela balança os pézinhos.

- Estava no estúdio, papai?

- Na verdade, fui ver a Lea. - Guardo as bebidas no armário, pois não gosto de beber na frente de Lana. - Ela falou com você hoje?

- Aham, antes do almoço... Vamos para o shopping amanhã.

- Entendi... - Me sento na cadeira em sua frente e lhe entrego uma sacola com os doces que comprei na conveniência. - Você está tão grande, L.

- De novo, papai? Você não vai chorar, vai? - Implica, agarrando uma mini barra de chocolate.

- Só se for de orgulho por você estar assim. - Beijo sua bochecha. - E não conte a sua mãe que eu te dei doce essa hora, pelo amor de Deus. - Completo, abrindo a lata de Red Bull. - Posso te contar um segredo, Lana? Mas você precisa guardar ele igual vai guardar essa história de confeitos de madrugada.

- Ok. - Morde a barra distraída, antes de mostrar a língua suja de chocolate para mim. Demoro um pouco para responder. - Vamos, papai. Pode dizer.

- Nosso segredo, ok? - Ela confirma, mostrando os dadinhos em juramento. - Sua mãe... Me contou hoje, L. Você vai ganhar um irmãozinho. - Lana escancara a boca em choque. - E o papai não sabe o que fazer.

- PAPAI! - Pula no meu colo. - EU VOU GANHAR UM IRMÃOZINHO! PAPAI! - Ela gargalha. - OBRIGADA!

- Calma, bebê. - Não consigo não rir junto com ela.

- Estou tão feliz. - Ela volta a mexer na sacola de confeitos. - Quando ele vai vir? É um menino? Menina? A mamãe já está com barrigão? Como vai ser o casamento com o bebê? Eu preciso arrumar brinquedos para ele.

- Não, L. - Sorrio com sua inocência. - Vai demorar um pouquinho. E o papai espera conseguir descobrir o que fazer até lá.

- Por que, pai? A gente pode fazer o quarto branco, se não souber o que fazer.

- Não é isso, bebê. - Roubo uma bala de seu saco. - É mais complicado.

- É sobre você e a mamãe?

- Também.

- Papai. - Me olha tão seriamente que parece ser mais velha que eu. - Eu sei que vocês se amam. Tipo amam como a Bela e a Fera... Eu não sei porque vocês não são como o tio Eric e a tia Cindia... Mas eu sei que vocês se amam, como a Bela e a Fera.

- Como seus tios? Casados, você quer dizer, Lana?

- É, papai. Eu sei que vocês vão se casar, mas eu não entendo porque nós todos não moramos juntos de uma vez, já que somos uma família. - Ela coça os olhos. - Eu sinto falta da mamãe com a gente todos os dias.

- Desculpa, L. - Ajudo-a a pular da mesa. - O papai vai deixar tudo certo, eu prometo. - Termino a lata de energético. - Agora, escovar os dentes e cama, e vamos!

Escovo meus dentes junto de Lana e a levo para deitar comigo, como ela não fazia há um tempo. Nos enrolamos embaixo das cobertas e eu me sinto em casa, faltando apenas uma coisa.

- Papai. - Lana me chama, no escuro.

- Hm, L?

- Eu acho que é um irmãozinho. Um menino.

Sorrio.

- Eu também, bebê. - Beijos seus cabelos. - Amanhã papai tem muita coisa para resolver e você mais uma prova do vestido, então vamos só dormir.

Ouço sua voz murmurar um "Hmmm" e tento dormir, também. Minha cabeça mais calma, clareada pela minha menina, me faz ter uma certeza: o lugar de Lea é aqui. Comigo. Conosco. Como uma família de quatro. Eu, ela, Lana e o nosso filho. Nosso.

Sei que Eleanor não fugirá de ser mãe. Ela não fugiu nem quando a filha não era dela. Ela apenas está com medo, assim como eu também estou. Sei que ela tem medo do parto também, mas nós vamos perder todos nossos medos juntos.

Farei tempo para meu menino, nem que signifique dar uma pequena pausa em outros assuntos.

Nós vamos dar um jeito. Vamos ser pais melhores, juntos.

Amanhã, falarei com Lea. Está mais que na hora de viramos uma família de vez. Talvez eu use flores e balões, chocolates e velas. Amanhã. Amanhã eu o farei.

Quando tudo parece em ordem em minha cabeça, espero o sono vir. Ele não vem. Talvez fosse culpa do energético, mas me levanto para não acordar Lana.

Remexo na cozinha e paro do lado de fora da casa. Sento-me numa espreguiçadeira e olho o relógio do celular. 3:14 da manhã.

Resolvo mandar uma mensagem para Eleanor.

"Nós vamos dar um jeito"


Envio.

Alguns minutos depois, algo me parece errado. Não que ela fosse responder àquela hora, mas... Apenas errado. Ligo uma vez, mas cai na caixa. Não me preocupo em ligar de novo, ela provavelmente está dormindo.

Quando pisco novamente, já está amanhecendo. Acabei dormindo na espreguiçadeira.

Meu celular toca e eu pego-o do gramado onde caíra durante a noite afobado, achando ser Lea.

Um número desconhecido está na tela.

- Alô?

- Senhor Peter Hernandez?

- Sim? - Olho novamente a tela, estranhando meu nome de nascença.

- Aqui é Marie Stuart, da Central dos Bombeiros da cidade de Los Angeles. Não quero alarmar o senhor, mas seu contato é o de segurança, logo...

- Quem? O que foi?

- Houve um incêndio durante a madrugada... No Vale.

- Não.

- Talvez queira...

- Não!

- Foi na residência de Eleanor Winters, senhor. Sinto muito trazer tais notícias, mas...

O mundo parece abrir nos meus pés. Como um filme, vejo tudo passar na minha frente.

Passado, presente e futuro.

Vejo o dia que nos conhecemos, na casa dela no Havaí. Vejo-a escolhendo o nome de Lana e hoje, contando sobre nosso filho. Vejo-a com uma barriga linda de grávida enquanto entra numa igreja para se casar. Comigo.

Não!

Não consigo entender sequer uma palavra do que a mulher falar no telefone.

Eleanor... Não consigo raciocinar.

Dizem que quando recebemos uma carga emocional maior que podemos aguentar, nosso corpo simplesmente os deleta de nossa mente. O meu nem sequer a recebeu. Meu cérebro se recusa a ouvir o fim de qualquer que fosse o que a mulher queria me dizer.

Apenas repetia imagens aleatoriamente de Lea em minha cabeça.

Minha cabeça girava. Ouvia todos dizerem para aproveitarmos o hoje, pois do amanhã ninguém sabe. Porque isso é tudo que temos.

E amanhã tudo pode ter desaparecido.

Eu sabia. Talvez sempre tivesse conhecimento, apenas não tivesse admitido para mim mesmo.

Naquele momento, como clarão, eu soube.

Tudo que eu era... Era ela. Tudo era sobre ela.


Segure firme, eu ainda quero você
Volte ainda preciso de você
Deixe-me pegar sua mão, vou fazer tudo certo
Eu juro te amar toda a minha vida
(Hold On – Chord Overstreet)

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