segunda-feira, 3 de abril de 2017

Capítulo 86


De todas as meninas
Você é a minha única menina
Não há ninguém no mundo esta noite
(You and I - John Legend)

E no embalo de muitas conversas da madrugada, e porque o sono não deixou mais tempo, nós dormimos já era três horas da manhã. Acordo com o barulho do Bruno mexendo em algumas coisas. Espio meu celular sobre a mesinha e nele marcam sete da manhã.

-Você só pode estar maluco. – Balanço minha cabeça, colocando a coberta sobre ela e fechando os olhos.

-Eu já ia chamar você.

-Chamar para o que?

-Nós vamos sair! – Ouço a animação em sua voz.

-Bruno. – Resmungo. – Não!

-Antigamente você dizia que eu dormia demais.

-Mas isso não mudou. – Tiro a coberta de cima de mim, dando um pulo. – Você ainda é o maior dorminhoco, mas fomos dormir tarde e eu não sei porque cargas d’água quer acordar cedo.

-Vamos sair, somente eu e você. Chamei a Umma para ficar com a Lana, vamos sair foragidos. Ninguém saberá onde estaremos.

-Bruno, você só pode estar doido. – Resmungo. – Onde vamos?

-Não vou dizer.

-Bom, eu só irei sair da cama quando souber onde iremos.

-Vamos na praia. Sem mais perguntas.

Realmente, era sem mais perguntas. Todas as perguntas relacionadas aonde iríamos, ele não respondia. Só enrolava ou apenas ignorava. Coloquei uma roupa um pouco mais quente e confortável após o banho, prendi meu cabelo num rabo de cavalo, calcei meus tênis e preparei minha bolsa.

Ele também estava super simples, então imagino que não vamos em nenhum lugar muito chique.

Entrei no carro bem antes dele e já liguei a rádio. Fui respondendo as mensagens da madrugada e vendo algumas coisas em minhas redes sociais enquanto ele não chegava.

-Vamos a praia, então?

-Praia? – Rio. – Tem um sol lindo, mas não tem clima pra banho, Bruno. Eu nem trouxe roupa. – Reviro os olhos.

-Calma. – Sua risada me contagia. – Vamos em um lugar onde temos muitas lembranças. Não precisamos tomar banho, apenas fugir de tudo e todos e aproveitarmos.

-Posso dormir na viagem? – Ele ri da minha pergunta. – Ok.

-Eu prometo que será bom.

-Eu sei que será. – Sorrio e lhe dou um selinho.

Bruno irá para alguns lugares nessa semana, passará uns dias fora e então tenho certeza que quer aproveitar um pouco mais antes de ir. Não duvido que irá querer sair com a Lana assim que voltarmos.

E então nós seguimos pela longa estrada que tínhamos a frente.

-Estar nessa viagem com você só me lembra uma coisa. – Sua mão repousa em minha coxa.

- Ah, é? Do que?

- Da nossa outra viagem, quando fiz aquela tatuagem.

- Aquele foi um ótimo dia.

-Esse pode ser melhor.

-Pode sim. – Coloco minha mão sobre a dele. – Estou me sentindo culpada sobre deixarmos tudo lá e não avisarmos nada.

-A Umma é a única pessoa que sabe o que iremos fazer.

-Pensei que ela não sabia. – O olho, desconfiada.

-Eu não ia falar, mas pensei na Lana. Ela irá perguntar algo, então disse que eu iria passar o dia em função de estúdio e que você ia sair um pouco.

-Claramente, com esta desculpa esfarrapada, ela não desconfiará de nada. Com certeza. Foi bem inteligente. – Eu rio e ele aperta minha coxa.

-Nós podemos voltar agora mesmo e fazer o noivado hoje mesmo. Pode ser?

-Não, para. – Eu rio. – Seria legal fazer de uma vez, mas preciso dos meus pais e você precisa da sua família.

-Por isso mesmo precisamos esperar. O que vai dizer para os seus pais?

-Acho que vou dizer que consegui uns dias de folga, mas que não são suficientes para ir até o Havaí, e que então quero eles aqui.

-E pra sua irmã?

-Não faço ideia.

Sentia vergonha de mim mesmo por ter me afastado assim da Eliza. Nós éramos unha e carne, e fomos nos afastando de um modo devastador. Há um tempo atrás ainda nos falávamos por mensagem de vez em quando, mas agora nem isso. Eu não sei como como está a vida dela com seu marido, eu não sei absolutamente nada. E agora chegar do nada e dizer “Oi, mana. Tudo bem? Você pode vir na casa do Bruno tal dia, estamos fazendo uma janta para comemorar o álbum e quero que você esteja aqui.”, isso soará estranho. É como se eu não tivesse intimidade com minha própria irmã e eu me sinto horrível por isso.

-No que está pensando?

-Na Eliza. – Balanço a cabeça enquanto olho os coqueiros da estrada. – Nós... Eu sinto falta dela.

-Porque você não vai atrás?

-Eu tenho vergonha, Bruno. Eu sou covarde, deixei minha irmã de lado e agora não consigo ter cara de pau o suficiente para convida-la para o jantar, ou ao menos para chamá-lo sem propósito algum, apenas pra saber como ela está. Eu me desnaturei dela.

-Lea... Ela também não procurou você. Não se sinta culpada sozinha. Eliza sabe onde você mora e sabe seu número. Talvez ela esteja com o mesmo conflito interno que você está agora.

-Talvez você tenha razão. – Respiro fundo. – Você não tem esse sentimento de nostalgia?

-Tenho, quase sempre. – Seu pensamento voa bem longe. – Mas não fique pensando besteiras. Sua irmã te ama. – Aperto sua mão que ainda está em minha perna.

Meu peito se aperta em saudades dos meus pais, da minha família. Não sei se esse sentimento de nostalgia vem mais por que acabo de selar secretamente uma coisa que irá mudar toda a minha vida, ou se é apenas a saudade falando mais alta hoje.

Aproveitei o tempo em que estávamos na estrada para me atualizar sobre o álbum, agora já não estava mais em sigilo absoluto, então poderia ganhar mais detalhes. Bruno falou sobre o processo do álbum, falou sobre a turnê que virá ano que vem, e as guerras que ele estava tendo com algumas coisas dentro do estúdio.

-E o ano novo será em Vegas novamente. – Ele bufa. – Eu gosto de lá, amo lá, mas gostaria de passar em outro lugar.

-Então porque ainda aceita? Você não tem um contrato com eles.

-Porque... Eu não tenho certeza.

-Dinheiro?

-Não, acho que não.

-Ano que vem, se nós estivermos casados ou noivos, que seja, nosso ano novo será em outro lugar. OK?

-Já está fazendo exigências?

-Não. – Rio. – Somente se você quiser Vegas, aí vamos para lá, porque do contrário, nada fará nós irmos pra Vegas na virada.

-Hm. – Ele olha para mim de canto, um sorriso maroto nos lábios. – E onde iríamos?

-Não sei. – Torço os lábios. – Poderíamos ir pra Londres.

-Parece legal, mas acho que Punta Cana seria maravilhoso.

-Sim! – Sorrio. – A agua de lá. As praias. Sim, por favor, vamos a Punta Cana! – Me empolgo com a ideia. – Posso pedir para darem minhas férias no fim do ano que vem, eu aguento até lá, assim posso ter mais dinheiro.

-Dinheiro você não precisaria se preocupar, você sabe.

-Eu sei, mas você sabe que eu não irei me encostar em você.

-Sim. – Ele torce os lábios. – Ok. Ano que vem vamos para Punta Cana.

-Eu estou tão empolgada com essa ideia.

-Mais do que com o nosso casamento?

-Mais. – Respondo na hora e ele arregala seus olhos. – Brincadeira. Eu estou ansiosa pra tudo que virá ao seu lado. – Olho para a estrada em frente. – Garota, você me fez tropeçar no sol. Deus sabe que você só fez o meu dia desde que você chegou.

-Oh, não. – Ele ri dá música que começo a cantar. – Alguém está escutando Jesus Jackson.

-Estou assistindo um seriado, num dos episódios tocou essa música e era exatamente essa cena. Um casal num carro. Ou pelo menos em algumas partes. – Rio.

-Qual seriado você resolveu assistir agora?

-Grey's Anatomy. – Bruno revira seus olhos. – Não julgue antes de assistir.

-Você me dizia mais ou menos isso sobre aquela serie de vampiros.

-Mas essa é diferente, é muito boa. É, na verdade, maravilhosa.

-Talvez eu dê uma chance para ela. OK? Mas só porque já ouvi de muitas pessoas que é legal.

-A Urbana que me indicou. Achei que fosse odiar, mas assisti muitos episódios em muito pouco tempo. – Rio.


Queria tanto que o tempo estivesse quente para poder dar um mergulho naquele mar lindo. O céu estava se refletindo na água, formando um azul tão límpido, glorioso. Tirei algumas fotos do meu celular e Bruno ficou ao meu lado, olhando para o longe por um longo tempo. Nós estávamos com nossos corpos colados, joguei minha cabeça para cima do seu ombro e sua mão envolveu minha cintura.

Havia muito mais além daquele mundo. Havia tantas outras coisas no mundo para se ver, para se viver, que nós acabamos nos limitando e nos contentando com tão pouco. O mundo é tão vasto e bonito.

-O quão diferente as coisas seriam se tivéssemos feito outras escolhas?

-Como por exemplo? – Pergunto.

-Sei lá. E se a Diana nunca tivesse ido embora? E se eu tivesse ficado com a Mia? E você com o Richard? Ou sei lá, até mesmo com o Kai.

-Talvez nossa amizade não fosse tão forte assim em todas as opções. Tudo o que vivemos, se a Diana não tivesse ido embora, não existiria, e talvez eu estivesse até agora procurando a pessoa certa para eu poder me alojar.

-Então agora você achou a pessoa certa?

-Mais do que isso! – Olho para o seu rosto. – Eu descobri que nunca a tinha perdido. – Dou um beijo em sua bochecha e logo em longo e estalado selinho em seus lábios gelados.

-Demorei tanto tempo para admitir que te amava. – Sua mão passa pela minha cabeça, seus dedos pelos meus cabelos.

-Eu quero fazer uma tatuagem!

-Que?

-Uma tatuagem. Foi aqui nessa praia que você fez a sua tatuagem em homenagem a Lana. Agora eu quero fazer uma.

-Mas, Lea... Você tem certeza?

-Tenho!

-E o que quer fazer? Já sabe?

-Claro.

-E o que é?

-Não falarei, você verá assim que estiver pronta.

-Hm. – Ele lança-me aquele olhar de desconfiado, mas balança a sua cabeça positivamente. - Vamos nessa.

Pegamos o carro e Bruno foi percorrendo o caminho no qual achava que era o certo. Nos perdemos duas vezes e em uma delas estávamos ao lado dá rua. Tivemos que pedir informações pelas ruas e as pessoas ficavam meio apreensivas, pois Bruno Mars estava dirigindo um carro, com uma garota ao lado e pedindo informações. Tenho certeza que sairá alguma foto, mas por outro lado, torço que não.

Enfim, nós chegamos no local. A atendente ficou alucinada quando viu quem entrou, gaguejou por várias vezes e disse que o tatuador acabaria um serviço daqui uns vinte minutos. Perguntou se queríamos esperar por ali, mas preferimos ir até o outro lado da rua comer alguma coisa.

Bruno tentou arrancar de mim toda e qualquer informação sobre a tatuagem. Fiquei calada, eu realmente queria fazer suspense.

Voltamos ao estúdio e prontamente o moço nos recebeu. Ficou eufórico com o Bruno e disse que lembrava-se de sua tatuagem, mas nunca a ligou com o famoso Bruno Mars.

Elogiou as outras e perguntou diversas vezes se ele não queria fazer mais nada. Bruno negou e então eu entrei para o pequeno quarto. Ele perguntou se eu estava certa de que queria isso, disse que sim e aprovei o seu desenho. Optei por fazer em minhas costas, pois poderei assim aumentar se um dia quiser.

Fiquei com medo, achei que fosse doer muito, mas então ele começou e eu sentia apenas como se fossem pequenas picadas de mosquito em minha pele. Claro, houve partes mais próximas do meu osso onde doeu mais, mas era suportável. No fim, ela ficou extremamente linda.

Bruno já tinha pago a tatuagem mesmo quando eu disse que iria pagar, porém não pode se discutir com teimosos.

No carro, ele pediu para ver, então pedi que fossemos com o carro para algum lugar mais discreto. Bruno deu um sorriso safado e eu ri, coitado achou que eu tinha feito algo onde? Na virilha?

Retirei minha blusa e virei de costas para ele.

-Que lindos. – Ele passa a mão onde não há tatuagem. – O que significa estes pássaros?

-São seis. Meus pais, minha irmã, minha filha, eu e você. São meus bens mais preciosos no mundo.

-Lea!

Virei-me normalmente, ainda sem por a blusa. Hesitei quando vi seu rosto, não soube dizer que expressão era aquela.

-Não me deixe apreensiva!

-É lindo. – Ele suspira. – Quer dizer, eu nunca poderia adivinhar que estava fazendo algo tão significativo pra mim! É simplesmente maravilhoso.

-Não é algo grande, mas interprete os pássaros como lindas andorinhas. Andorinhas essas que voam pra longe, constroem seus ninhos, mas nunca esquecem suas origens. Andorinhas que amam se sentirem livres, mas que a família sempre será o seu bem maior. Mesmo quando éramos apenas amigos, você já era minha família.

-Nosso amor é épico, Lea. – Bruno me abraça, sinto sua respiração em meu pescoço. – Épico. Agora, por favor, coloque sua blusa, antes de infringirmos a lei e transamos aqui nesse carro.

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