Querida, você é meu único amor
Atrás de toda a verdade sobre mim
Está tudo o que você é
(Everything You Are – Ed Sheeran)
Longos anos depois...
Bruno Pov’s
Estava saindo do meu show, apressado, louco para chegar o mais rápido possível no teatro para assistir meu bebê se apresentar.
Meu bebê... Que mania feia! Lana está maior que eu, uma mulher linda. Cada dia que passa eu fico mais e mais orgulhoso dela e de tudo que ela faz. Minha pequena entrou na faculdade, deixou que eu pagasse apenas o muito caro, pois a maior parte ela quis conquistar com o dinheiro dela e eu não me opus, até porque isso mostra que ela cresceu e mostra a sua independência. Ela me faz tão feliz.
Cindia estava com as crianças no camarim, ela sorri pra mim e eu aceno com um beijo pra ela.
-Nos vemos mais tarde?
-Com certeza. – Respondo. – Ela irá amar a festa.
-Tio! – Mila corre com os braços abertos pra mim, eu costumava dizer que ela era minha pequena também, mas aos seus treze anos, ela está mais inteligente e alta que eu. Também não é necessário muita coisa pra tal. – Vocês arrasaram, aliás, como sempre. – Ela tinha um jeito todo delicado e meigo de falar.
-Muito obrigada, você está uma princesa. – Pego em sua mão e a faço girar. – Onde está Chloe?
-Ela viu o papai e saiu correndo. – Mila balança a cabeça ao falar da sua irmã de nove anos. – O Liam irá nos encontrar em casa. Ele foi buscar a namorada.
Terminei minha conversa com a minha sobrinha e entrei no camarim. Tomei um banho rápido, sem muitas delongas, o caminho ainda era bem longo até o teatro e eu esperava que desse tudo certo.
Respondo a mensagem da minha irmã sobre as flores que irei comprar no caminho e volto a me ajeitar. Eric bate na porta, todo arrumado, e diz que está indo pra casa e irá nos esperar lá.
Minha filha está se apresentando pela primeira vez como principal numa peça. Depois de tantos anos, não é? Mas foram tantos acontecimentos que ela teve que parar por um tempo com os treinos. E quando Lana entrou na faculdade, ela se voltou ainda mais para os estudos, então agora que está mais estável, ela retornou... E retornou com tudo. Hoje ela apresenta O Cisne Negro, uma de suas peças favoritas.
Eu não poderia estar mais orgulhoso.
E por mais que ela tenha um gene abençoado para a arte, ela escolheu outra profissão, algo que é seu coração que manda. Minha pequena escolheu a psicologia.
Dou um toque final em meus cabelos e pego a jaqueta sobre a cadeira. Lonnie está ali fora, com um sorriso de orelha a orelha.
-Como está?
-Bem. – Respondo. – Orgulhoso.
-Está bem mesmo? – Ele pergunta-me novamente. Fita-me com caridade no olhar.
-Estou. – Respiro fundo e chegamos em frente ao carro. – Estou sim.
-A festa para Lana está linda, Eric me mandou algumas fotos. – Ele estende o celular pra mim no banco de trás.
Há balões espalhados pela sala, uma mesa repleta de doces, os seus preferidos, algumas bebidas também. O nome dela está em balões atrás da mesa.
-Lana vai surtar de alegria.
-Do jeito que ela é, capaz de chorar a festa toda.
-Não duvido. – Entrego o celular pra ele, rindo e imaginando minha filha chorando por isso.
Paramos no caminho para eu comprar um lindo buque de paeonia. Ao chegarmos lá, procurei George, o namorado de Lana. Ele estava vestido em um terno, parado próximo as escadas, um balão e uma caixa de bombons compunham seu figurino.
-Hey. – O cumprimento. – Como está?
-Oi. – Ele dá um tapinha em minhas costas. – Nervoso. Ela não quer ver nenhum de nós antes de entrar, somente após a apresentação.
-Eu entendo ela. Quando tive meu primeiro show, não quis ver ninguém antes porque isso me deixava mais ansioso ainda.
-Ela mal falou comigo hoje. – George enrosca seus dedos nervosamente na corda do balão que dizia “parabéns”.
-Cara, não fica nervoso... – Parei de ouvir por ali quando Lonnie estava falando com ele. Não via Tiara em lugar nenhum, ninguém me deu notícias. Meu coração estava num aperto só.
Eu não sei se era pela ansiedade. Se era pela saudade. Se era por tudo junto. Não dava pra entender o real motivo.
-Vamos para nosso camarote? – George pergunta.
-Claro. – Assenti.
Subimos até o nosso camarote. Há poucas cadeiras ali, infelizmente o pessoal do teatro não disponibilizou muitos convites para familiares.
Sentei na minha e mantive meu olhar lá pra baixo, vendo aquelas pessoas andando de um lado para o outro, procurando seus lugares para sentar, umas conversando, outras caladas, algumas com os olhos em seus celulares, outras já estavam sentadas olhando o catálogo de peças do teatro.
-Pensei que ia me atrasar. – Ouço a sua voz e meu corpo ainda se arrepia todo. Lea chegou, esbaforida, mas ainda sim perfeitamente linda. Ela estava elegante num vestido um pouco acima dos joelhos, na cor cinza chumbo, colar pequeno e brincos grandes. Seu cabelo estava curto, bem curtinho como cortou há dois meses atrás pois tinha cansado do visual de sempre. Nosso filho veio logo atrás dela. – Estava com saudades. – Disse em meu ouvido. Beijei seus lábios de leve, passando a mão por seu pescoço.
-Pensei que não chegaria a tempo.
-Oi, pai. – Ele me abraça com força.
-Olha que cara mais cheiroso. – Seguro em seu braço. – Como foi lá na casa da tia?
-Foi ótimo. Nós poderíamos nos mudar para Boston. – Ele dá de ombros.
-Não dá ideias ao seu pai, Dan. – Lea balança a cabeça, largando a bolsa na parte de trás da cadeira. – Oi, meu querido. – George dá um beijo na bochecha da minha esposa.
-Quase se atrasaram. – Olho no relógio.
-Eu nunca iria perder nossa filha se apresentando. Nunca perdi antes. – Ela sorri. – Mas o voo atrasou.
-Mas você chegou antes do esperado, pensei que iam se atrasar mais. – Franzo meu cenho.
-Bruno, o voo atrasou. – Ela respira fundo, falando baixinho e segura minha mão.
-Lea? – Ela não me fala nada, continua olhando pra frente. – Filho. Na verdade, George, leve o Dan para comprar refrigerantes e pipocas, por favor.
-Ok. Vamos? – Dan levanta rapidamente para ir com seu cunhado. Nunca vi duas pessoas que se dão tão bem quanto eles.
-Bruno.
-Eleanor, repete.
-Minha menstruação está atrasada. – Meu corpo gela.
-Há quanto tempo?
-Duas semanas. Eu estava ajudando minha irmã com a casa nova, com tantas coisas dela e falando sobre coisas de nossos pais, que nem me liguei nisso. Antes de ontem recebi uma notificação do meu aplicativo, dizendo que eu tinha esquecido de pôr que minha menstruação desceu. – Ela fechou os olhos. – Eu não esqueci, foi ela que não desceu.
-Lea, você está grávida?
-Não sei. – Ela ri nervosamente.
-Lea, você quer ter mais um filho comigo?
-Eu vou surtar lendo mais livros de psicologia. – Ela ri. – Eu tenho tanto medo desde a gravidez do Dan e de tudo que aconteceu...
-Mas agora nós sabemos cuidar de menina e de menino. E agora nós moramos juntos, nós vamos tirar de letra, meu amor.
-Eu vou engordar mais vinte quilos que engordei na gravidez do Dan.
-Você quer ter mais um filho comigo, Lea?
-É claro que sim. – Eleanor me olha, aperta minha mão. – Eu quero ter qualquer coisa com você.
Eu a beijo de leve, passo a mão por cima de sua aliança. Eu lembro todos os dias tudo que nós passamos para estarmos onde estamos hoje. Pra sermos quem somos hoje. Eleanor, Lana, Daniel, eles são os maiores motivos de minha alegria, de minha vida.
-Eu queria poder elogiar a sua mãe com esse bebê se for menina, mas Presley se adiantou disso. – Ela ri, escorada em meu ombro.
-Se for menino, podemos elogiar o seu pai.
-Ele iria amar. – Seu suspiro me faz suspirar. – Mas eu nem sei se estou grávida. Não vamos criar expectativas.
-Ok. Assim que saímos daqui vamos comprar quatro testes, para termos certeza.
-Você é maluco.
-É mesmo! – Dan concorda, chegando no meio de nós.
Eleanor Pov’s
O tempo passou rapidamente. As luzes diminuíram-se até chegar somente num único holofote no palco. Lana entra, com um vestido comprido de cor clara, saltos altos, seus cabelos presos num elaborado rabo de cavalo. Seus olhos estavam brilhantes e ela estava muito confiante. Sentou-se em frente ao piano, preparou-se rapidamente e começou a tocar. Sentia nela a mesma leveza que Bruno tinha para tocar, exatamente iguais.
Sua melodia teve uma introdução, logo ela começou a cantar. Sua voz era tão gostosa de se ouvir. Bruno estava com seus olhos brilhantes olhando para sua pequena Lana no palco, trilhando algo e tendo o mesmo talento que ele. É muito orgulho, que não cabe somente no peito.
A música continuou, com uma voz de fundo, ela levantou-se de onde estava, puxou o a saia do vestido, mostrando um body sem o famoso tutu. Seus saltos foram rapidamente tirados e seus pés ficaram descalços. Seu corpo caiu pra trás e um homem a segurou.
Artisticamente eles interpretaram todo um número. Várias músicas eram cantadas pouco a pouco, e eles mostravam toda a intensidade naquelas danças magnificas.
Com muitos aplausos e saudações, foi assim que acabou o espetáculo. Ela agradeceu ao público, juntamente do parceiro de dança. Em instantes estávamos todos do lado de fora do salão de atos, esperando por ela. Algumas pessoas falaram com ela antes de nós, professores, colegas e alguns admiradores.
-Família!
Primeiramente ela abraçou seu pai, antes de todo mundo. Era mais do que expressivo o amor que ela sentia por ele, o orgulho e admiração. Abraçou todos nós e agradeceu. Bruno entregou pra ela um buquê de flores e logo depois parou ao meu lado. Lana pegou uma das flores em mãos e entregou na minha.
-Pra minha mãe! – Ela beija minha bochecha e me abraça com força. Me passa toda uma segurança e orgulho de ser sua mãe. – Eu te amo!
-Eu amo você, Lana. – Beijo sua bochecha e logo em seguida sua testa. – Você estava esplendorosa.
-Obrigada. – Ela fica com suas bochechas vermelhas.
Assim que ela abraçou seu irmão, e depois de uma rápida conversa, Lana abraçou George e beijou sua bochecha, dizendo baixinho que o amava. Era tão lindo vê-los assim.
-Papai está bufando de ciúmes, Lana. – Daniel disse, fazendo-nos rir.
-É muita coisa num dia só! – Ele arregala os olhos.
-Seu pai vai ter um ataque do coração. – Eu rio.
-O que aconteceu demais hoje? – Lana pergunta, curiosa como sempre.
-Ah... – Balanço a cabeça. – Nós nem sabemos ao certo ainda.
-O quê?
-Eu acho que estou grávida. – Sorrio, de canto e todos me olham meio pasmos.
-Sério? Eu vou ter uma irmãzinha? – Os olhos de Lana brilham. – Essa é a melhor notícia que eu poderia receber!
-A senhora não é velha pra ter bebê, mamãe?
-Daniel! – Bruno beliscou de leve o seu braço. Até eu tive que rir com a piada.
Realmente, a idade pode estar um pouquinho mais avançada, mas se essa criança está em meu útero realmente após tanto tempo, eu tenho certeza que é por algum propósito.
-Um dia vai ser meu neto, sim? – Bruno implica com ela.
-Você vai ter muito tempo para paparicar o novo bebê, deixe o neto para quando não houver um bebê na família.
-A gente não vai demorar tanto assim, ou vamos? – Pergunta George.
-Amor... – Eles se olharam. – Um dia.
-Você está me enrolando.
-Não se preocupe, porque isso é do sangue. – Aponto com o polegar para o Bruno.
-Calada. – Belisca minha mão de leve. – Vamos indo?
As irmãs de Bruno com a minha montaram uma festa para Lana. Nem todas poderiam vir ao concerto, então tivemos a ideia da festa para reunirmos todos juntos, já que não precisa de muito para estarmos unidos na casa de um ou de outro.
Quando descobri que estava grávida do Daniel e falei para o Bruno, houve um incêndio em minha casa. Tudo porque eu fui idiota o suficiente para não me preocupar com o que tinha no fogo e ir pro quarto chorar de nervoso. Graças a Deus o alarme de incêndio acuou assim que as primeiras chamas se propagaram. Perdi quase todas as coisas da minha casa e quase perdi minha vida.
Os médicos disseram que se não tivesse aquele alarme lá, era provável que eu tivesse morrido.
Não perdi o Daniel, ainda bem. Porém ele nasceu com alguns problemas, como asma. Eu tive algumas sequelas também. Por tentar sair da casa com todo aquele fogo, queimei uma parte da minha coxa, criei problemas respiratórios como, quando faço muito esforço físico, tenho falta de ar. Tive muitas crises à noite, criei um certo pânico de fogo. Tive que tomar alguns remédios para nervosismo. Tive acompanhamento psicológico.
Mas com todo amor que tive da minha família, eu fiquei bem.
Minha irmã perdeu meu sobrinho, com cinco meses de gestação, mas com o tratamento conseguiu ter um filho único após o trauma. Perdemos nosso pai há dois anos atrás. Perdemos Geronimo dois anos atrás, também. Houveram tantas perdas e tantos ganhos, a família passou por algumas mudanças, mas no fim continua louca, unida e bem grande.
Agora faz parte da nossa família, mesmo não tendo o sobrenome, Megan e Caleb, com nossos afilhados. Um menino lindo, chamado Leonard e um cachorro maravilhoso e querido, primeiro filho deles, chamado Geronimo. E sim, foi uma coincidência do destino, pois quando o pegaram no abrigo, o chamavam de Geronimo, e ele atendia somente assim.
E não foi somente Megan que ficou, acabou que com o tempo Richard também ficou conosco. Terminou sua faculdade e com a ajuda dos pais, montou seu próprio consultório. Ele se deu bem, casou uma de suas clientes e não teve filhos até agora, já que também nunca os quis verdadeiramente. Continuamos amigos após esses anos passados.
Parei uns metros antes do carro. Vi meu pequeno entrar, seguido de George e Lana. Bruno ajeitou-se na direção e levou um peteleco de Daniel, que levou um de Lana, que para se cobrar deu um em George.
Rio sozinha, olhando para eles e com a mão repousada sobre a barriga nem perceptível. Essa é a família que eu sempre pedi a Deus, que mesmo com todas as desavenças e quebradas do tempo, permaneceu intacta. Que mesmo sendo posta à prova, duvidosa, de que um dia fosse dar certo, ela deu. Essa é a minha vida, a minha história, minha família e meu grande amor. Tudo que ele é, tudo o que eu sou, tudo o que somos, é a consequência de nossos sentimentos e atitudes. No final, meu amor sempre esteve ao meu lado, ele fez de mim o que sou hoje, não tenho remorsos, tenho agradecimentos.

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