domingo, 5 de junho de 2016

Capítulo 70


De repente, eu me sinto corajoso
Não sei o que deu em mim
Por que me sinto assim
Podemos dançar devagar?
(All About Us - He is We)


-Vamos lá. – Digo. – Elemento químico com símbolo Co?

-Hm, cobalto? – Responde-me. – Eu sinto que ele não gostou da ideia.

-Você é tão inteligente! – Escrevo. – Ele vai se acostumar. Também, eu não gostaria de receber a notícia de que vou perder um dos melhores modelos emergentes. – Richard tinha decidido parar um pouco com a coisa de modelo para somente se dedicar a faculdade. Mas a agência está o convencendo de ficar somente para emergências, mas dessa vez somente mesmo.

-Perder para a odontologia. – Ele ri. – Mas eu sinto que essa é a minha coisa, entende?

-Claro que entendo. – Balanço os pés distantes do chão e me ajeito no balcão da cozinha onde estava sentada. – Setembro é o ... nono mês do ano! – Respondo em voz alta.

-Perdi meu livro de palavras cruzadas. Isso mesmo? – Ric aproxima-se de mim, com maior carinha de cachorro pidão.

-Nem vem, mocinho. Eu pedi, você deixou, simples assim.

-Você está me saindo uma espertalhona.

-Com certeza. – Beijo seus lábios rapidamente. – Ellen. Apresentadora.

-DeGeneres. – Dissemos juntos.

-Eu amo tanto ela. – Respiro fundo, enquanto escrevo o seu sobrenome no pedaço disponível.

-Você fez quantas já?

-Desde que acordei? – Pergunto. – Umas quatro.

-Você acordou faz menos de três horas.

-E ainda parei para separar as roupas pra lavar, fiz nosso café e ajeitei a sua roupa. Sou tão eficiente.

-Vou contratar para limpar meu quarto.

-Já faço isso e não ganho nada.

-Ganha sim! Meu pagamento é em beijos. – Ele sela nossos lábios e quando desço da bancada para poder beija-lo melhor e aprofundar as coisas, sexo pela manhã é algo maravilhoso, a campainha toca.

-Chegou meu pacotinho. – Digo baixinho.

-Convide Umma pra ficar para o almoço. Irei cozinhar hoje.

-Que moço maravilhoso. – Caminho em direção a porta de entrada e a abro com um sorriso para recepcionar Umma e Lana.

A primeira coisa que vejo é seu sorriso meio deslocado, sem nem saber onde enfiar o rosto. Bruno estava ali, sua cara estava amassada e ele parecia não ter dormido a noite toda. Olhei para minha pequena, que estava sorridente e grudou-se em minhas pernas.

-Meu amor! – Me abaixei para abraça-la. – Tudo bem, princesa?

-Sim, mamãe! – Beijou minha bochecha. – Cadê o Ric?

-Aqui. – Gritou da cozinha e ela corre para vê-lo.

-Oi, Bruno.

-Oi, Lea. Umma ficou doente. – Não consegui nem negar a cara de apavorada. – Calme, é apenas um resfriado. Por isso trouxe a Lana, ela estava ansiosa, chegou a acordar mais cedo. E isso é milagre durante as férias dela.

-Espero que ela fique bem logo. Gostaria de entrar? – Convido.

-Até aceitaria, mas o estúdio me espera. Tenho que fazer muitas coisas ainda. - Torceu seus lábios. – Bom ver você, Lea.

-Bom te ver, Bruno. Lana, venha dar tchau para o papai. – Grito para ela que aparece correndo rapidamente para seus braços.

-Tchau papai.

-Tchau, amor.

-Não precisa ter pressa. Mamãe cuida de mim.

-Eu sei que sim, minha linda. Amo você.

-Te amo.

Bruno deu as costas e antes de fechar a porta fiquei olhando para aquele homem que caminhava em direção ao carro.

Desde que conversamos no hotel naquela noite, não nos falamos direito. Ficamos todo o final de semana em Vegas, mas ele foi embora no outro dia pela manhã. Então, viemos pra casa e eu falei com ele no telefone na terça, hoje é sábado e ele teve tempo de trazer a Lana pra mim. Pelo menos ela tem a semana toda comigo.

Meu coração ainda aperta de saudades dele, eu nunca negarei isso para mim mesma, mas foi uma das melhores opções sair da casa dele e viver minha vida normalmente.

Fecho a porta e ando para a cozinha. Ric e Lana já estavam brincando, então minha angústia foi embora e eu pude me juntar à eles e brincar junto, rindo e me divertindo com meus bens preciosos.

β

-Lana me dá um cansaço. – Bufou, quando conseguiu se jogar na cama após um dia longo com muita correria e brincadeiras e agora um bom banho quentinho.

-Não só cansa você, cansa todos. – Rio. – Ela está crescendo tão rápido, Ric... Queria meu bebê de volta.

-Você sabe que criamos nossos filhos para o mundo. – Deu de ombros. – Ela está crescendo, isso será inevitável. Um dia irá se desapegar e sair mundo afora assim como você fez.

-O bom filho à casa torna. – Digo. – Ela irá sair, irá viver a sua vida, mas sempre voltará pra nós.

-Mais é para o Bruno, sim?!

-Sim. – Respondo com a dor de pensar nisso. – Um dia nós teremos os nossos.

-Lea... – Franziu seu cenho. – Eu não quero ter filhos.

-Hã?

-Digo, não agora. Quero aproveitar minha vida.

-Claro, eu também quero aproveitar, mas penso que estou ficando velha. – Torço meus lábios. – Apesar que tem a adoção...

-Nada contra, amor, mas adoção acho que só se realmente precisarmos. Se for para ter um filho, que ele seja meu.

-Algo contra? – Infelizmente, meus pensamentos viajam sobre aqueles maldizeres dele sobre racismo e homofobia.

-Não por mal, amor, mas sinceramente... Só em casos emergentes para adotar uma criança.

-Lana é minha, eu a adotei!

-Eu sei!

-Então...

-Mas se eu posso ter meus filhos, com meu sangue, meu DNA e tudo mais, porque terei o de outros? – Virou-se pra mim. – Quero filhos com a nossa beleza, nosso jeito...

-Nem tudo se trata de beleza, Richard. – Aquele papo não iria dar em boa coisa, assim como o outro.

-Sei que não, mas e se adotarmos uma criança ruiva? Negra? Como vamos dizer que é nosso?

-Simplesmente dizendo que são nossos. Eles não precisam ser nossas duplicatas, eles vão ser nossos, somos ligados ao sentimento e não a cor da pele!

-Agora vai pensar que eu sou preconceituoso, de novo!

-E não é? Minha avó por parte de pai é índia, ela tem a pele negra. Eu tenho a pele amorenada, não sou branca! Mas não sei se você estudou biologia, então vou explicar, nossos filhos podem nascer da minha cor, da cor da minha avó, da cor dos seus avós, com meus olhos, seus olhos, isso se chama gene! Nunca vamos saber qual gene prevalecerá quando gerarmos nossos filhos. E quanto ao jeito, a criança não nasce de um jeito, ela se torna através da sua educação e o que seus pais lhe dão. Você pode sim ter um filho mal educado, chato, quem sabe um psicopata, sei lá o que. Não é porque é adotado que irá ser ruim!

Ele me olhava, parecia prestar atenção em tudo que eu tinha dito, mas ainda havia um ar de deboche em seu rosto. Esse é o que estava elevando minha fúria.

-Você está de TPM.

-Não! Você nunca me pegou na minha TPM forte, reze pra não pegar. As únicas pessoas que sabiam lidar comigo nesses tempos é minha mãe, Megan e Bruno!

-Ah, claro, o Bruno! Que dúvida. Ele sempre sabe mais de você do que eu.

-Cala a boca, não fale merda. Ele sabia porque era meu melhor amigo, eu morei com ele praticamente minha vida inteira.

-Está reclamando de estar comigo?

-Não! – Passo a mão pela cabeça, sentando na cama. – Só estou dizendo que ele já viu momentos meus e esteve comigo muito mais do que você.

-Que tal convida-lo pra morar com a gente? Ou pra adotar uma criança? Talvez ele doe seu esperma pra você ficar grávida de uma vez, se é isso que tanto quer.

-Você é doido? Eu falei que quero esperar, foi você que começou essa confusão toda.

-Você nunca começa nada, é claro. – Seu ar debochado estava me irritando.

-É tão mais fácil quando você admite que está errado e para de discutir.

-Estou errado que você queria estar com o Bruno?

-Não, não está! Sinto saudades do meu amigo, e ai? Mudou alguma coisa? Porque você sabe o tempo todo disso.

-Sei sim! Sei há tempos. Não faz muito que você estava transando comigo e gemeu o nome dele, não?!

-Vai me jogar isso na cara quanto tempo?

-O tempo que eu quiser. Isso foi horrível. É a mesma coisa de transar com você e falar o nome da Ashley!

-Por que toda a porra de discussão você fala no nome dela? Porque sabe que me afeta?

-Talvez!

-Mas não me afeta, Richard. O que me afeta é esse cérebro pequeno que tem dentro da sua cabeça. Meus filhos terão uma ótima educação e por favor, não os deixe preconceituosos como você!

-Eu não sou preconceituoso, Eleanor. – Estava pronta pra rebater, quando ele continua a falar. – Eu sou do Texas. Meus avós paternos são alemães, filhos de sobreviventes do holocausto. Meus avós maternos são patriotas, criam os filhos para servirem a pátria e dar continuidade a linha pura. Meus pais criaram eu e meu irmão assim, essa é a minha educação!

-Não me venha colocar as desculpas em cima da base da sua educação, isso não é nada. Sabe que se a pessoa quer, ela muda.

-Mas eu não vou mudar, você me conheceu assim.

-Tá ai a questão, verdadeiramente eu não conhecia, porque se conhecesse...

-Se conhecesse não iria ficar comigo, sim?

-Não...

-Claro que é. Eu também odeio vários defeitos seus e não fico tocando nisso toda a hora. Espero que respeite meus princípios.

-Respeitar os seus princípios? – Rio, de escárnio. – Faça-me o favor, Richard. Eu não vou respeitar alguém que me julga pela cor da pele ou até mesmo pela orientação sexual.

Ele iria falar mais coisas, mas a porta do nosso quarto se abre. Lana está com o travesseiro em mãos, cara de sono e olhos bem inchados. Acordamos minha pequena por conta dessa discussão boba.

-Dá pra falar mais baixo? – Ela boceja.

-Dá sim, meu amor. Desculpa. – Fuzilei Richard com os olhos, que mal olhou pra ela e virou-se para o lado.

Acompanhei Lana até a porta do seu quarto e ela deitou-se sozinha. Admirei-a por um período.

-Você e o Ric estavam brigando?

-Discutindo opiniões, meu bem. Adultos fazem isso o tempo todo.

-Papai às vezes faz isso com a Mia lá em casa. Ou com a tia Tiara.

-Desculpe. – Me aproximo dela e beijo sua testa. – Não vai mais acontecer, eu prometo.

-Tudo bem. – Ela dá um sorriso amarelado, caindo de sono. – Boa noite, mamãe.

-Boa noite, meu bebê.

Vou para a sala direto e nem penso em ficar no quarto. Não hoje. Ele conseguiu tirar minha paciência com esses discursos bobos sobre seus preconceitos. Não aguento esses pensamentos pequenos. Será que ele não vê que está errada, ou errada estou eu por achar que ele deve ter o mesmo pensamento? Pelo menos ele não é um machista.

Porque aí sim, nós dois não estaríamos mais juntos. Também não sei quanto tempo mais vai durar.


Pela manhã, ao acordar com aquela cara amassada e com meus pensamentos um pouco mais organizados, fiz um café reforçado e chamei Lana. Ela estava a todo o vapor, dizendo que estava ansiosa por voltar suas aulas do balé, já que ouve uma pequena pausa, e estava mais ansiosa porque havia sonhado com isso. Escutei todo seu sonho e ri junto com ela.

-Você quer ver a vovó April?

-Faz tanto tempo que eu não vejo ela, mãe. – Ela toma um gole escasso de suco. – Eu quero sim. Quero ver o jardim dela também.

-Ok. Então, assim que tomar seu café, vamos trocar de roupa para irmos. Sim?

-Sim. – Lana deu um sorriso largo, como estou acostumada a ver estampado em seu rosto.

Nós nos arrumamos e eu deixei o café preparado para o Richard sob a mesa, quando ele acordasse não precisaria se preocupar. Deixei junto um bilhete dizendo que voltaria logo após o almoço e que ele não precisaria se preocupar.

No caminho, na rádio tocou a música do Bruno, parceria com o Mark, o velho amigo com quem ele anda falando mais seguido. Quando nós conversamos esses tempos, Bruno disse que está planejando mais coisas com ele e que ele o ajudará nesse novo álbum.

Lana cantava a música empolgada e bem direitinho e eu olhando pelo retrovisor, só tenho aquela velha sensação de que ela está ficando maior cada vez mais, que já não é mais aquele bebê que precisava de cadeirinha.

Meus avós nos abraçaram fortemente e mimaram muito a Lana, eles estavam com saudades de nós duas, confesso que até eu deixei de vir diretamente aqui como vinha antes. Fiquei feliz por eles estarem bem e felizes.

-A melhor parte disso é saber que você resolveu seus problemas com o Bruno.

-É, vó. – Encosto minha cabeça sobre seu ombro e ela passa seu braço pelas minhas costas. – Eu estava com saudades dele.

-Eu sei, como não saber. Você transpirava saudades dele.

-Não era pra tanto.

-Não vou insistir. Há quanto tempo não fala com a sua irmã?

-Não sei. – Dou de ombros. – Eu chamava ela todos os dias no celular, mas ela respondia de vez em quando, então deixei de ir atrás.

-Ela veio aqui semana passada, disse que não tinha mais notícias suas.

-E não tem mesmo, eu disse pra mamãe que se ela quer saber de mim, ela tem que vir atrás também.

-Eu pensei que vocês já tinham evoluído no quesito de briguinhas.

-Evoluímos. – Coloco a língua. – Só não disse se é pra mais ou menos.

-O que eu faço com você, hein?

-Comigo nada, mas aceito um belo bolo!

Bruno Pov’s

Eu não conseguia parar de pensar nela. Ela parecia estar sempre na volta dos meus pensamentos, e voltar a falar com ela faz bem não só a mim, mas a minha filha.

“Embaixo da árvore ainda restava um presente para ser aberto, endereçado ao Liam, mas que estava ocupado demais brincando para ver. Tirei ele dali e vi uma cartinha dentro da meia, pendurada na lareira.

-Lana? – Nem sabia que minha filha tinha escrito algo, nem sabia se tinha auxílio de alguém. – É errado ler? – Olhei pra cima como se falasse com alguém.

Não era errado, era minha filha e eu tinha minha curiosidade para ler.

“Querido Papai Noel

Sei que o Senhor está ocupado demais nesses dias, tratando das outras crianças do mundo todo e cuidando de suas renas, mas eu preciso pedir algo especial e que não envolve dinheiro nem tempo.

Meu papai e minha mamãe estão separados. Não é apenas uma separação, é uma briga. Quando nos encontramos, eles mal se olham. Me divido indo para casa de um e de outro. Dói muito isso. Ela saiu de casa, pois não estava contente com o papai e suas atitudes. Mas acho que ela não entende que o papai quer somente o seu bem.

Papai também não entende que eu quero o bem deles.

Tudo mudou depois que ela saiu daqui. A comida continua gostosa, mas não tem a mesma alegria. E quando dá cinco horas da tarde e ela não chega, me entristece.

Santa, queria pedir para o senhor, por gentileza, fazer papai e mamãe se darem bem novamente. Quero que voltem os sorrisos e passeios legais. Eu adoro o Ric, ele me dá sorvete e faz eu rir contando piadas e fazendo caretas, mas minha mamãe Eleanor é do meu pai. Eles se completam!

Obrigada por tudo.

Lana H.”


Havia uma cratera em meu peito, algo bem profundo que ia além do que eu pudesse imaginar. Sei que aquela não era a sua letra, era da Tiara. Somente na escrita do seu nome era a dela. Mas eu tenho certeza que minha filha disse cada palavra que estava escrito ali, ainda posso ouvir sua voz as pronunciando.

Tahiti estava com Billy olhando as crianças, o que me fez pensar que Tiara deve estar com os outros na cozinha.

Caminhei até lá e o primeiro sorriso que vi foi o dela. Meu coração já estava todo apertado. A chamei com um sinal pelas mãos e prontamente ela pediu licença e veio me seguindo.

-O que foi isso? – Entreguei a carta em suas mãos e um sorriso se forma em seus lábios.

-Olá, papai Noel. – Riu de mim, abrindo a carta. – Me conhece tão bem?

-Não sabe o quanto! – Reviro os olhos. – Tiara, eu preciso saber, quem teve a ideia dessa carta?

-A Lana. – Fechou a carta e entregou em minhas mãos novamente. – Eu estava no seu estúdio e ela entrou para ficar comigo. Cantamos umas músicas de natal e ela mostrou uns passos novos que aprendeu no balé. Então teve a ideia de fazer uma carta e eu disse que poderia escrever para ficar mais bonitinho.

-Hum. – Balbucio.

-Você sabe que a Lana é uma das crianças mais puras que já conheci. Seu coração é de ouro e parte o meu vendo-a triste por tudo isso.

-Eu não tenho culpa. – Tiara olhou-me com seu olhar “extra-julgador”. Entendi o recado. – Eu tenho culpa, mas eu tento.

-Estou vendo. – Balançou a cabeça em reprovação. – Já ligou pra ela para dar um feliz natal?

-Ela está com o Ric, não irá me atender.

-Mas tente!

-Ok. Foi ela que disse tudo que está aqui?

-Sim, sua filha que disse. E mais, se quiser mesmo que Eleanor volte, tenha consciência do que realmente quer. Se quiser somente a sua melhor amiga, se quer sua companheira de foda ou se quer a sua melhor-amiga-e-companheira-para-sempre!”

Se eu tivesse escutado minha irmã no dia de natal, talvez precavesse tanto sentimento triste da Lana, tantas lágrimas que ela derrubou por saudades da mãe, e eu fui um pouco idiota – agora admito – de deixar isso acontecer.

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