quarta-feira, 15 de junho de 2016

Capítulo 71



Eu deveria resistir?
Seria um pecado
Se eu não consigo evitar
De me apaixonar por você?
(Can't help falling in love - Elvis Presley)

Você acorda pela manhã, feliz, diga-se de passagem. O que você pensa é que tem uma vida cheia de alegrias pela frente, um namorado, amigos, uma filha e família. Tudo o que um ser humano precisa para ser completamente feliz.

Ou não.

Ou você acorda já pensando que terá de enfrentar mais um dia de trabalho, que hoje ainda não é sexta feira, que você tem amigos com a vida melhor que a sua, que seu namorado passou o tempo todo querendo que você viajasse e levasse sua filha para passear.

Isso é o que aconteceu.

Minha casa estava uma bagunça, eu tinha que ir trabalhar ainda e para completar o dia, os pais de Richard vão vir pra cá à noite. É por isso que ele queria me despachar, como malas trocadas, para que eu não precisasse vê-los e conhece-los. Eu não estava nervosa sobre isso, até ver que desde terça feira ele vem pesquisando trabalhos para ele em Nova Iorque, para que possa dizer aos pais dele que foi chamado de emergência.

Se isso me deixou nervosa, com certeza. Se agora eu quero ver eles? Não tenho tanta certeza assim.

-Vamos lá, tire essa cara amarrada e se anima.

-Não dá. – Reviro os olhos para Tiara que está no FaceTime comigo. – Simplesmente não consigo agir normalmente sabendo que ele não quer que eu conheça seus pais.

-Talvez ele apenas esteja inseguro.

-Ou tenha, sei lá, vergonha de mim. Talvez. – Levo o dedo na boca.

-Você me xinga, dizendo que não devo roer as unhas, e é isso que está fazendo nesse exato momento, Lea?

-Estou tirando a pele do cantinho... – Suspiro fundo. – Eu não quero trabalhar.

-Vá, aproveita que só vai pela tarde mesmo.

-Eu estou arrumando a casa pra pessoas que não querem me conhecer.

-Eles querem Lea!

-Você não sabe!

-E você sabe se eles não querem?

-Não...

-Então, fica quieta.

Desligamos o FaceTime logo após isso, eu precisava limpar a casa, deixar tudo em ordem. A dúvida que mais martela em minha cabeça é o porquê que ele tentou me despachar para longe?

β

11 de Setembro de 2015
(Memorial Day)

Richard tinha ido ao aeroporto para buscar os pais dele e eu aproveitei para combinar com o Bruno de ir buscar a Lana assim que saísse do serviço amanhã. Coloquei uma roupa legal, apresentável, e não muito dona-de-casa, para me apresentar para eles. Não sei como eles são, mas são donos de uma fábrica de sapatos, empresários se vestem muito bem e adoram elegância.

Não que eu tenha que agradar eles, nunca me prendi em agradar alguém, mas somente pela forma que ele tentou evitar esse nosso encontro, fiquei intrigada sobre o que eles irão achar da minha pessoa e não quero que fique possibilidades do meu relacionamento ser estragado.

Checo meu celular, as mensagens das meninas no grupo vindo toda a hora. Ria como doida das coisas que elas falavam. Verifiquei a comida novamente que estava no forno e fui para o meu quarto, seria bom deitar e espairecer a cabeça.

-Lea? – Ouço a voz de Richard da sala. Ajeito minha roupa antes de sair do quarto e toco o celular para o lado da cama.

-Olá. – Anuncio, assim que estou chegando a sala.

Os dois estavam com aparentes sorrisos grandes nos seus rostos, mas quando me viram, talvez a perspectiva tenha diminuído bastante, então seus sorrisos aos poucos foram desaparecendo e dando lugar a sorrisos amarelados.

Seu pai esticou a mão primeiramente.

-Bom conhecer você, Eleanor. – Apertei sua mão.

-Prazer é meu, Sr.

-Senhor não, por favor, me chame de Jason.

-Oh. – Olho para Richard, o nome do seu irmão é Jason também, ele nunca havia me mencionado que seu pai também se chamava assim, já que o trata pelo sobrenome. – A senhora é muito mais bonita do que Richard me falou. – Estico a mão para a mãe dele.

-Muito obrigada. – Disse, um pouco sem jeito. – Bom te conhecer.

-Ótimo. – Sorri, alegremente, dando esperanças que eles passassem a me olhar de forma melhor.

No fim, eu posso estar apenas sendo implicante e nada disso estar acontecendo, pode ser apenas coisa da minha imaginação.

O pai dele é bem diferente do que pensei que era. Tem barba, mas é bem feita, cabelos quase grisalhos, é alto e possuí o corpo bem possante. Já sua mãe é mais parecida com ele. Loira, cabelos bem hidratados e presos em um rabo de cavalo, um corpo mais cheio do que a maioria das mulheres Californianas. Ombros largos, roupas claramente caras e chiques, mãos fortes e olhos compenetrados de cor clara.

Nós nos sentamos na sala, mas minha comida não poderia esperar por muito tempo, então logo levantei para dar privacidade a eles e arrumar a mesa para o jantar.

Minha comida estava com uma cara ótima, e parecia estar saborosa também. Nos sentamos perante a mesa e acompanhei os pais dele em uma pequena oração em agradecimento a comida. Demos o amém e deixei que se servissem primeiro.

Eu e Richard comíamos muito bem, diga-se de passagem, a comida estava boa. É raro ter momentos em que eu me auto elogie. Mas os pais dele não pareciam ter gostado muito, tocavam na comida com o garfo parecendo àquelas coisas manhosas de criança, como Lana tinha com ervilhas e frutos do mar.

Não posso pensar coisas, não posso pensar coisas. Repetia o mantra em minha cabeça diversas vezes. Lavei a louça e deixei que eles ficassem sozinhos para conversar, não iria atrapalha-los. Deveriam estar com muitas saudades.

Fui para o quarto, retirei minha maquiagem e roupa, coloquei uma mais confortável para dormir e chequei o quarto em que eles ficariam dormindo, o quarto da Lana. Pus meu hobby por cima e anunciei que iria dormir.

π

12 de Setembro de 2015

-Hey, minha pequena. – Abro os braços para Lana, que vem em frente de Tiara. – Como você está?

-Oi, mamãe. – Ela respira fundo, afagando-se em meu abraço. – Eu estou bem.

-Que bom, meu amor. – Beijo sua bochecha gordinha. – Casaco novo. De quem ganhou?

-Diz que foi da titia maravilhosa.

-Da Yara.

-Então não foi da titia maravilhosa. – Faço as duas rirem e dou um beijo no rosto da Tiara.

-Onde está o tio Rick?

-Ele está chegando. Os papais dele estão aqui, foram dar uma passeada.

Elas foram entrando e se aconchegando no sofá da sala.

-Como estão as coisas com eles?

-Estranhas. – Digo baixinho para Lana não ouvir. – Só nos vimos ontem à noite e hoje acordei com um bilhete de que eles tinham ido passear pra ver Los Angeles. Estranhei não ter ido junto.

-Estranho mesmo, mas pode não ser nada.

-Claro, ele também tem que ter seu tempo a sós com seus pais. Quais são os planos de hoje?

-Ainda não sei, mas a insuportável da Mia não está em casa, então talvez eu fique lá no Bruno.

-Isso é bom.

Nós conversamos um pouco enquanto Lana tomava seu café e via televisão. Ajeitei as coisas por ali e Tiara logo foi embora. Brinquei com Lana um tempo, de bonecas e médicos, ela tinha delicadeza para todas as brincadeiras, mas seu gênio e sua hiperatividade não permitiam que permanecêssemos na mesma brincadeira por mais de quarenta minutos, assim como quando era bem menor.

Sempre me impressiono com a genialidade dela, com a inteligência e rapidez com que aprende as coisas. Há tantas coisas nela que me lembram o Bruno, outras que talvez ela tenha herdado do gene de sua mãe, e outras parece que ela herdou de mim. Bobagem, sei que não herdou, mas pode ter copiado algo no meu temperamento. Nos entendemos perfeitamente bem e mantemos uma conexão mais forte do que um dia imaginei ter.

Chegou o meio dia e o sol apitou lá fora, mas com ele o vento gelado que anunciava a chegada do inverno que vinha aos poucos. Outono em Los Angeles pode ser uma passarela de moda, mas é difícil de se acostumar.

Comecei com o almoço mesmo sabendo que talvez eles não almoçassem em casa. Modéstia parte, eu acho que estou melhorando nisso. Minha comida está mais cheirosa e melhor.

-Mãe, eu tô com fome. – Lana estava deitada no sofá, de barriga pra cima, com a roupa toda torta e os cabelos emaranhados de tanto brincar.

-Eu sei, Lana. Vamos esperar mais uns minutinhos e ver se eles chegam.

Uns minutinhos se passaram e Lana ainda reclamou de fome. Não iria dar nada para tapar o buraco do seu estomago antes de almoçarmos, e não era justo deixar ela sem almoço porque estou esperando pela boa vontade deles. Talvez nem irão almoçar em casa.

Servi a comida para nós e Lana realmente estava com fome. Normalmente um prato a satisfaz, mas ela comeu um prato e pediu uma pequena porção para repetição. Brincou um pouco com a comida até derrubar em sua blusa. Ela estava toda sujinha e ainda sim ria, ria dos seus cabelos despenteados e da sua roupa suja e eu deixei ver ela assim, porque ela estava feliz e eu amo aquele sorriso.

-Olá. – Richard estava todo sorridente quando entra pela porta e seus pais vem logo atrás. Ele estava com duas sacolas grandes em suas mãos. – Pequena! – Ele disse quando viu Lana sair da cadeira e ir em sua direção.

-Oi, tio Rick. – Ela o abraçou. Seu sorriso desapareceu quando viu seus cabelos bagunçados e sua roupa. Pareceu algo como nojo? Não sei bem, mas sei que foi exatamente o mesmo olhar que os pais dele largaram para Lana quando a viram.

-Ah... Esses são meus pais, L. Minha mãe e meu pai.

Lana esticou a mão para eles com um grande sorriso exposto, mostrando sua simpatia. Os dois apenas apertaram de leve, com um sorriso amarelado que me fez ter náuseas.

-Olá. – Levanto. – Já almoçaram?

-Na verdade, sim. Comemos no Marcus.

-Ótimo lugar lá. Eu amo a comida deles. – Sorrio, tentando ser ao máximo simpática.

-É boa. – Sua mãe concorda. – Preciso tomar um banho, se me dão licença.

-Claro. – Assenti positivamente.

O pai dela a seguiu para o quarto e Richard veio em minha direção. Lana foi para o sofá e tomou sua boneca novamente em mãos.

-Não me falou que ela viria esse final de semana.

-Bruno tem algumas coisas pra fazer...

-Mas ele não poderia deixar com outra pessoa, sei lá, Tiara, Mia?

-Eu queria ficar com ela, queria ficar com a minha filha. Por quê?

-Onde ela vai dormir? Meus pais estão no quarto dela.

-Eu durmo na sala, ou ela dorme conosco. Tanto faz, isso não é problema.

Ele passa a mão pela cabeça, típico de quando está sem paciência.

-Ok.

π

Lana adormeceu no fim da tarde, acho que de tanto brincarmos, seu corpo se cansou. Sábado à tarde trancada em casa não nos disponibiliza muitas opções do que se fazer. Depois de tapa-la com uma manta fina, sai do quarto mexendo no celular. Um burburinho na sala me fez parar antes de aparecer na ponta do corredor.

-Você não tinha nos dito nada sobre isso, Richard. – Ouvi a voz da sua mãe, parecendo autoritária demais.

-Eu não precisava. Já passamos por isso antes, estamos em dois mil e quinze, os tempos são outros, são novos.

-Mas nossa família é a mesma. Temos genes puros, Richard!

-Meu Deus, pai! – Podia ver ele passando a mão em sua cabeça, deu vontade até de rir se eu não precisasse saber o que estava acontecendo por ali. É feio escutar conversas alheias, aprendi isso e eu sei. Mas não poderia evitar.

-Ela é negra, Richard.

-Ela é latina, americana, ela é de tudo um pouco.

-Qual a religião dessa menina?

-Ela não tem uma...

-Richard! – Sua mãe fala um pouco mais alto. – Ela não é o exato exemplo de mulher com quem você deve viver.

-Mãe...

-Ela tem uma filha, de outro homem...

-Não é dela. Quer dizer, é adotada... Eu não concordo com isso, mas ela a adotou antes de me ter na vida dela. Eleanor tem conteúdo, papai, ela pode ser negra, latina, ter traços que não são iguais aos nossos e nem os olhos claros, até uma filha adotada, mas ela é legal...

-Legal não vai fazer você nos dar netos bonitos.

-Ela irá te desvirtuar, filho. Pense nisso.

-Não. Nós já fomos claros, eu não quero adotar.

-Mas se tiver filhos com ela pode ser pior. Ela tem o mesmo QI que você?

-Não sei.

Eu escutava aquilo ainda incrédula. Esmagava meu celular com minha mão direita, enquanto a outra estava na parede, me apoiando para não cair ou ir em direção deles e manda-los sair da minha casa.

Os pais do meu namorado estão me insultando por eu ser negra, por minha pele ter um pouco mais de melanina do que a deles, ou pelos meus olhos não serem azuis, ou por eu ter a sensibilidade de adotar uma criança.

Respiro fundo enquanto ainda ouço o que dizem, horrores sobre eu ser negra, sobre a adoção e casamento. O que minha falta de religião tem a ver com o meu eu?

-Você viu aquela criança, Richard. Eles são porcos. Olha o cabelo daquela menina!

-Sem contar aquela blusinha, toda suja. Ela é filha de quem? De um catador de lixo?

Meu coração parecia pulsar em minha garganta e o que eu mais queria era gritar, pegar os dois pelo pescoço e toca-los da janela. Eles estão ofendendo a minha filha! É justo me ofender, mas ela é uma criança, ela não tem nem como se defender. Ela não é suja, muito menos filha de catador de lixo. Ela tem um pai, uma mãe, uma família e eles devem respeitar minha filha.

Me segurei de ir lá. Minhas pernas travaram. Eu poderia ir e xinga-los, falar tudo quanto é coisa, mas simplesmente eles não mereciam que eu fizesse isso, não mereciam que eu perdesse meu tempo xingando-os.

Ouvi risadas da sala, algo eles falavam sobre cabelo afro.

Todo esse tempo eu não estava errada quando achei que eles me olharam de maneira torta. Eu estava certa de que eles não passavam de pessoas dignas de pena e que estavam me julgando sem ao menos me conhecer.

O que batia em meu peito como estaca afiada era que Richard estava ali na frente deles e ele me conhecia, me conhecia muito bem e sabia que eu não era nada daquilo. Ele me conhecia e estava os deixando falarem aqueles absurdos. A vontade que eu tinha não era mais de ir lá e levanta-los pelo pescoço e sim, entrar no quarto e repensar cada passo da minha vida e chorar um pouco. Eu tenho esse direito de me sentir humilhada.

Eu estava brava demais para deixar alguma lágrima de decepção cair do meu rosto.

-Hey. Está ai. – Richard estava sorrindo quando entra no quarto, falando baixo para não acordar Lana. – Ela estava cansada mesmo.

-Brincou desde manhã cedo. – Olho para minha pequena, que mantém o rosto tranquilo.

-Deixa nosso anjinho ai e vamos pra sala! – Ele estica a mão pra mim. Meu corpo se nega a tocar na mão dele, quero evitar o contato, pelo menos por agora. Anjinho? Sério que eu ouvi isso? Como ele pôde deixar os seus pais falarem aquelas coisas horríveis e agora vir chamar minha filha de “nosso anjinho”. Hoje o dia é propenso a me tirarem do sério.

-Acho que vou ficar aqui mais um pouco. Estou cansada também.

-Eles querem conversar com você, conhece-la melhor. Irão ir embora amanhã, é muito pouco tempo. – Sentou-se ao meu lado e eu vou um pouco para o outro lado, como se tivesse dando espaço para ele, mas apenas estou querendo me esquivar.

-Eu sei, mas ando cansada demais, Ric. – Respiro fundo.

-Eu não sou de implorar coisas, Lea. – Ele pega em minha mão. Seu toque me causa repulsa. – Por favor.

Levantei com ele e decidi ir a sala. Fiz cara de paisagem para eles, sorri a todo momento e respondia suas perguntas, mas evitava fazer questionamentos, até porque eu nem estava processando o que estava acontecendo por ali, estava apenas de corpo presente. Queria minha mãe naquele momento, ela nunca o tratou mal, então porque a dele precisa ser repugnante a este ponto? Qualquer coisa que ela fazia, qualquer movimento, criava uma espécie de vômito em meu estomago, pronto para ser exposto naquela cara branca, cheia de sardas, que daqui a pouco as plásticas não ajudarão mais.

-Acho que a Lana acordou, um momento. – Levanto do sofá e nem espero que me perguntem algo, apenas dou essa desculpa e entro no quarto, fechando a porta e abrindo minha mochila.

Soquei um pijama, itens de higiene pessoal e beleza, uma roupa qualquer e roupas intimas. O carregador e meus documentos pus no bolso da frente, onde enfiei meu celular. A bolsa de Lana nem tinha sido desfeita ainda, então a peguei, puxei as alças para ficarem maiores e deixei-as em cima da cadeira.

Chamei minha pequena, que me olha com mau humor e nem fala nada. Coloco uma jaqueta por cima da sua roupa, a fecho e ajeito sem cabelo apenas por cima. Precisava sair dali logo.

Eu não sei onde ele estava com seus pais, mas não estavam na sala, o que eu dei graças a Deus. Saí pela porta puxando Lana pela mão, com duas mochilas em minhas costas e pressa, muita pressa.

-Onde estamos indo? – Me pergunta, num tom de braveza, acho que não gostou mesmo que eu tenha a acordado.

-Vamos dar uma volta, meu bem. – Largo a sua mão, procurando as chaves do carro na minha mochila.

Coloco Lana no banco de trás, prendo seu cinto e assumo o volante. Do celular, passo meu dedo pelos contatos e penso para onde eu poderia ir, bem longe daquele lugar.

Não é extremismo, eu juro, mas fiquei com nojo do que ouvi e garanto que qualquer um em meu lugar também ficaria. Quero apenas poder ir para algum lugar onde eu esteja bem recepcionada.

Olho pelo retrovisor e Lana está olhando pra rua, o beiço inferior esticado, como o do seu pai.

Bruno.

O celular chama duas vezes e ele atende.

-Oi. Aconteceu algo?

-Sua casa abriga dois?

-Hm, claro que sim. Mas o que houve?

-Nada. – Balanço a cabeça. – Quero apenas ir ai, tudo bem?

-Claro, pode vir.

-Obrigada. Até logo.

-Até.

Desligo rapidamente e volto minha atenção à direção. Coloco uma música para o humor dela melhorar e logo ela já estava cantando comigo.

Buzinei na frente do portão e logo ouvimos o barulho, ele estava sendo aberto lentamente. Bruno estava saindo pelo quintal, de bermuda larga feita de moletom e uma camisa velha, calçando velhas chinelas.

-Você já esteve melhor. – Falo, enquanto estou entrando com o carro.

-Obrigada, Lea. Você é gentil.

-Sou muito. – Rio. Paro o carro e Lana já abre a porta para descer. Mal fala com seu pai e entra pra casa. – Ela está de mau humor, porque acordei ela. – Reviro os olhos.

-Vai se sair uma bela adolescente.

-Dará muito trabalho pra você, isso sim.

-Não quero pensar nisso.

-Imagina quando chegar os primeiros namoradinhos.

-Namoradinhos? – Ele toma a mochila dela de mim. – Terá um só, e vai casar com esse.

-Qual é, não seja tão mau com a sua filha.

-No máximo dois, ok? Ela terá uma reputação a zelar. – Entramos na casa e ela estava no sofá, com a televisão ligada. – Mocinha, sem sapatos em cima do sofá.

-Argh. – Ouvimos o bufo dela e rimos.

-O que você fez com a minha filha?

-Ela estava bem hoje pela manhã, brincamos até ela se cansar e ir dormir.

-Agora está explicado. – Caminhamos lado a lado até a sala. – Quer sair mais tarde para tomar um sorvete, L?

-Talvez. – Ela vai abrindo o seu casaco.

-Você estava rolando na lama, porquinha Lana?

Ela ri gostosamente.

-Ela se sujou enquanto comíamos e brincávamos. Não dei banho nela porque ela estava dormindo já, não achei justo. Aí eu a chamei rapidamente para virmos, nem deu tempo de arruma-la.

-Parece uma moradora de rua. – Ele pega o casaco dela.

-Vamos tomar um banho, Lana?

-Quero assistir televisão.

-Depois você assiste, vamos lá. A mamãe toma banho com você!

-Oba!

Só assim para comprar ela. Bruno hesita por alguns instantes, tentando explicar onde ela o quarto dela, mas eu ri e continuei andando. Sei que não tinha mudado de lugar e continuava ali, conheço muito bem essa casa.

Fiquei de calcinha e sutiã enquanto tomava banho com ela, uma questão de higiene e privacidade, ela ainda é pequena demais para me fazer perguntas sobre anatomia e eu já estou me preparando para chegar a época em que começar a perguntar sobre o que é que os meninos têm no meio das pernas, e porque o das meninas é diferentes, e etc.

A arrumei direitinho, penteei seus cabelos, mas não prendi, deixei que ela abusasse dos seus cachinhos soltos por hoje. Quando ela era menor, achei que seus cabelos seriam afros, como os do Bruno, mas eles tornaram-se cachos comportados, volumosos e bem definidos.

-Vou usar meus converse. – Ela pega-os do seu closet.

-Quer ir com a jaqueta jeans?

-Pode ser.

Eu sou uma boba, palhaça, que me emociono até com ela escolhendo roupas, mas algum tempo atrás, ela não escolhia sozinha, eu tinha que escolher e vestir, agora ela escolhe, ela veste. Minha pequena já está com sete anos, já não é mais um bebê.

-Vai ir assim, mamãe? – Ela pergunta, olhando para minha toalha enrolada em meu corpo.

-Ah, claro que não. – Rio. Pego minha mochila da sua cama e saio do quarto. – Bruno, posso ir para o meu antigo quarto ou para algum de hospedes? – Grito para que ele ouça.

-Oi? Não escutei... – Fiquei naquele constrangedor momento em que ele me vê daquela forma e não sabe exatamente o que dizer, não consegue nem completar a sua frase e minhas bochechas queimam. Nós parecemos duas crianças.

-Posso? – Aponto para o quarto.

-Claro. – Ele anda em direção do quarto comigo e abre a porta.

-Você o manteve como eu deixei?

-É, um ano que ele está assim. Só peço que o deixem sempre limpo.

-Obrigada. – Entro para o quarto. – Bem, eu vou me trocar, se não se importar.

-Oh, claro que não. Desculpe.

Fecho a porta e tiro as roupas da mochila. Por instantes que meus olhos se fecham, imagino o que aconteceria se fosse antes, uns anos atrás, quando ele me visse dessa forma. Provável que me trancaria no quarto e ali ficássemos por um tempo.

Meu corpo chega a se arrepiar.

Passo a mão sobre o rosto para tirar esses pensamentos e começo a me arrumar.

Não tinha trazido nada de muito especial, digo, apenas uma calça jeans, sapatilhas leves e uma camisa jeans.

Vesti e penteei meus cabelos, pegando meu celular e saindo do quarto. Respondi a mensagem no grupo das meninas, falei com elas rapidamente e ia encaminhando uma nova mensagem para Richard, avisando que estou na casa de Tiara, quando ele começa a me ligar. Disse rapidamente onde eu estava e que saí, pois Lana queria passear um pouco e os procurei para dar tchau, mas não achei, o que era uma grande mentira, mas eu realmente não estava nem ai.


-Eu quero de morango! – Lana disse, ao apontar para o cardápio. – Não! Eu quero de baunilha. – Torce a cabeça para o lado.

-O que você vai querer? – Bruno me pergunta.

-Suco de laranja, sem açúcar e um pretzel.

-Ótima escolha. – Ele continua olhando seu cardápio e Tiara passa a perna na minha por debaixo da mesa e fica fazendo “olhinhos” pra mim. Seguro a risada.

Nós a pegamos quando saímos de casa para vir a cafeteria. Bruno pressupôs que ela gostaria de se juntar a nós e quando eu perguntei, ela disse rapidamente que sim.

Tomamos nosso café, mas já estávamos falando da nossa janta. Minha barriga doía de tanto que ríamos de algumas situações que falávamos. Lana ria também, querendo se mostrar que estava por dentro do assunto. É difícil ser criança no meio de adultos que são mais crianças que a própria criança.

Decidimos que a noite seria pizza.

Tiara e eu ficamos sozinhas em meu antigo quarto, enquanto Bruno falava com alguém no telefone e Lana estava desenhando na sala.

-O que houve que te fez vir pra cá repentinamente?

-Lembra que eu falei sobre ele não querer que eu conhecesse seus pais? Acho que seria bem melhor não ter conhecido.

-Como assim?

-Ah, Yara. – Respiro fundo. – Eu o adoro, amo tudo nele. Mas hoje, assim que eu coloquei a Lana na cama para dormir, estava indo pra sala e ouvi tantos comentários racistas sobre minha cor de pele.

-Como?!

-Sim, comentários extremamente racistas, de darem nojo. Como por exemplo, a mãe dele falando basicamente que eu não era ninguém e que não poderia ter filhos comigo ou eles nasceriam feios. Dá pra acreditar? Nós estamos em dois mil e quinze e ainda passamos por isso!

-O que ela queria?

-Pelo que eu entendi, uma loira, de olhos claros, assim como eles, para continuar com a geração. Isso me deixou tão angustiada que saí daquela casa.

-Mas você não deveria ter saído de lá, deveria ter os expulsado. O que Richard fez?

-Nada. Absolutamente nada. Eu queria ignorar o fato de sempre achar estranho ele ser um pouco racista, achei que era apenas coisa da minha cabeça, mas ele não me defendeu, em nenhum momento. – Balanço a cabeça negativamente.

-Lea...

-Ok. Não precisamos falar disso agora. Nem para o Bruno. Não quero que ele se zangue porque sua filha estava lá, ou pense algo errado.

-Agora que está tudo dando tão certo.

-Exatamente. – Mordo meus lábios e em seguida os curvo. – Eu pensei que estava tudo se encaminhando para o caminho certo. Tenho minha filha, minhas amigas, minha família, meu namorado e meu melhor amigo de volta. Pensei que estava tudo bem encaixado, mas sempre tem uma peça fora do lugar.

-Talvez ai esteja a brecha para você modificar o molde e encaixar com as peças boas, colocando as ruins, fora. – Deu de ombros.

Desde a festa da Lana esse ano, ela vem falando metáforas pra mim, coisas que dão a entender que eu devo largar o Richard e viver minha vida, feliz. Tento não ficar pensando nessas coisas, mas Tiara é realmente convincente.

-Com licença. – Bruno deu batidinhas na porta que estava entreaberta. – Vamos pedir a pizza? Estou com fome. – Passou a mão pela barriga.

-Eu também. – Rio.

-Claro que vamos.


Esperei que Lana dormisse para então ir pra casa. Peguei minha mochila e me despedi de Tiara, que iria ficar com a Lana para vigia-la.

-Tem certeza de que não quer ficar?

-Tenho sim. – Digo, abrindo a porta do carro.

-Está tarde para sair dirigindo por aí, ainda mais sozinha.

-Está tudo bem, são só alguns minutos até chegar em casa.

-Você que sabe. – Ele dá de ombros. – Deixa eu levar você, então?

-Preciso levar meu carro.

-Tiara o leva amanhã.

-Bruno... – Rio dele. – Tudo bem. – Fecho a porta e aciono o alarme. Coloco as chaves em sua mão. – Peça pra ela cuidar do meu bebê.

-Com certeza. – Ele assovia, caminhando em direção ao carro preto, que está usando com mais frequência. – Hey, você não vai ir atrás.

-Mas...

-Você tem sete anos como a Lana?

-Não.

-Então, sente aqui no carona.

-Ok! – Bati contingencia e ele ri, abrindo a porta do carro pra mim.

Fomos o caminho escutando música. As ruas perto do canion não estavam cheias, é claro, mas ao chegarmos um pouco perto dos bairros, fomos vendo algumas pessoas nas ruas. Sábado à noite, todos estavam aproveitando.

-E chegamos. – Ele estaciona o carro.

-Desculpe chegar de repente hoje. – Agarro minha mochila e desprendo o cinto.

-Tudo bem, foi ótima a sua visita. Gostaria que tivéssemos mais tempos assim.

-Podemos ter. É só combinarmos.

-Claro. – Ele sorri. – Ah, Lea... – E fico olhando para ele, esperando o que tinha pra falar. – Me desculpe, eu escutei a sua conversa com a Tiara hoje.

-Qual conversa?

-Sobre os pais de Richard. Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você, mas ninguém está livre. Apesar de ser um crime, de estarmos no século vinte e um e as pessoas deveriam estar mais mente aberta, elas não estão. Eu sofri cada segundo em que entrava em gravadoras de Los Angeles pedindo uma chance de escutarem minhas músicas, sempre sofria calado quando fechavam a porta em minha cara dizendo que não tinham espaço para negros em músicas com aquele estilo. Você estava comigo e viu o que eu passei durante anos, mas nãos deveríamos passar por isso. Por anos eu deixei isso como se me afetasse, mas quanto mais baixamos a cabeça, mais eles irão cometer essas injúrias. Você é linda, talentosa, não tem que provar nada a ninguém e não é a sua cor de pele que dirá ao contrário. Terá filhos lindos e saudáveis, eu garanto!

Escutei atentamente cada palavra que ele disse.

-Obrigada, Bruno. – Me inclino para abraça-lo. – Isso foi um grande gesto. Obrigada de verdade.

-De nada, Lea. Não quero te ver novamente refugiada em minha casa porque não quer encarar esses racistas de frente. Na próxima vez, tire-os da sua casa. Esse é o seu lugar, não deixe que eles digam quem você é ou não e nem que eles façam se sentir menor do que você verdadeiramente é. Ninguém pode rotular você, Lea. Ninguém! Até hoje eu lido com pessoas racistas, mas o melhor que tem para fazer com estas é se orgulhar da cor de pele que tem, dos seus antepassados, bater no peito e dizer que sim, você é mestiça e isso faz de você uma grande mulher.

-Você é incrível. – Sorrio, me encolhendo no banco. – Obrigada, mais uma vez, por tudo o que disse e pelo dia de hoje.

-De nada. Qualquer coisa que precisar, você sabe meu número e sabe onde eu moro.

-Ok.

-Tem certeza que não quer ir lá pra casa?

-Tenho sim. Preciso encarar as coisas de frente, não é mesmo?

-Isso ai, garota! Até mais.

-Até.

Nenhum comentário:

Postar um comentário