Temos que nos libertar de todos os nossos fantasmas
Nós dois sabemos que não somos mais crianças
Envie meu amor para sua nova amada
Trate-a melhor
(Send my love - Adele)
20 de Agosto de 2015
Eleanor Pov’s
Olhávamos juntos a semifinal de modelos da Costa Leste, eu torcia para Naomi, que por coincidência é uma mulher linda, negra, mostra força e não nega suas raízes. Ela é linda e talentosa. Já Richard estava torcendo para uma loira, robusta demais para ser modelo de passarela, pelo pouco que conheço do mundo limitado dessas modelos e dessa vida.
-Ela precisa ganhar. – Ajeitou-se no sofá.
-Hoje nem é a final. – Rio, pondo outra bala em minha boca.
-Eu sei, mas essa Naomi não pode ganhar da Christina. Olhe essa mulher, olhe o jeito que ela encara a passarela! – Apontou para a televisão.
-Estou torcendo para Naomi. Ela é completa e linda, sem falar que tem talento para a coisa.
-Mas é negra!
-Como? – Arregalo meus olhos, segurando a bala próximo da minha boca.
-Isso, ela é negra. Quer dizer... Não é fácil conseguir patrocínio para negros nesse mundo, Lea. Temos que ser sinceros.
-Tudo bem o lance do patrocínio, mas está torcendo pela loira só por causa da cor da pele dela?
-Não... Quer dizer, talvez. Ela, claramente, tem um pouco menos de segurança que a Naomi, mas terá mais sucesso.
-Então, eu como uma negra, não posso ter mais sucesso que uma branca?
-Você não é negra!
-O que eu sou? Latina? Por que você sabe que existem apenas três raças para os americanos! Brancos, negros e latinos. O que vai dizer que eu sou? Branca?
-Você... Apenas não é negra, entende?
-Sou suja? Ou melhor, sem raça? – Franzo minha testa e ele balança a cabeça com reprovação.
-Está vendo coisa onde não tem...
-Outro dia você falou de um casal homossexual que estava no shopping, depois comentou algo sobre o ator que faz nossa série que é gay, depois perguntou como mulheres faziam sexo, comentário extremamente machista. Agora, você está sendo racista, dizendo que essa mulher não terá o mesmo sucesso que a loira de olhos claros?
-Mas esse não é o óbvio, Lea?
-Não é, Richard. Isso é pensamento de gente pequena. Enxergue que você está no século vinte e um.
-Está me transformando num monstro por causa das minhas opiniões, é isso.
-Não estou lhe transformando num monstro, estou apenas comentando que acho isso errado.
Fico calada e ele também, permanecemos assim por um bom tempo. Sei que brigar por essas coisas pode ser considerado um ato infantil, mas vivo pela liberdade, gosto que as pessoas sejam como são, façam o que querem fazer, sejam felizes sem precisar dar infelicidade à alguém por conta disso. Não admito que um homem diga que as mulheres precisam estar apenas servindo para eles, não admito que digam que não existe amor entre pessoas do mesmo sexo, e nem acredito que o pensamento de que os negros são inferiores aos brancos ainda exista.
Respiro fundo, indo até a cozinha e pegando uma garrafa de água. Bebo-a toda e vou diretamente para o banho, porque o final de semana está chegando e eu preciso ocupar minha cabeça com coisas mais importantes, como minha viagem para Las Vegas amanhã com a família do Bruno.
22 de Agosto de 2015
Não podemos vir na sexta feira, houve um tempo horroroso e os voos cancelados para Las Vegas. Tempo para aproveitar Vegas hoje nem pensar. Assim que o avião pousou, fomos levados para o hotel. As meninas estavam a todo o vapor, tirando fotos e Eric, Billy e Ric estavam conversando.
Falando em Richard, nós ficamos melhor após nossa discussão, mas ainda não consigo aguentar seus comentários, só estou guardando para não explodir e acabar estragando tudo. Só preciso mostrar para ele como é que as coisas funcionam de verdade.
-Sorri pra essa agora. – Tiara tira a selfie, com todas nós sorrindo. – Opa, cortei a Lea. – Começou a rir, apagando a foto e colocando novamente na câmera.
-Desculpa por ser tão feia. – Me faço de ofendida e levo um tapa nas paletas da Presley. – Delicada! – Torço meu rosto numa careta e ela beija meu ombro.
-Faz cara de rica agora.
-Não preciso, eu já tenho. – Diz Tahiti.
Demos altas gargalhadas. Nosso quarto foi entregue assim que chegamos ao hotel. Um para as meninas, outro para os meninos. Espero que o Ric fique bem por lá.
Separamos nossas roupas para irmos ao jantar de noivado. Billy combinou conosco que não íamos dizer para ela o que era, apenas algo do Bruno que seria bem importante e que deveríamos ir de modo chique.
Meu vestido era rosa fraco, de alças e grudadinho no corpo. O plano era ir de cabelo solto, mas o vestido combinou perfeitamente com meu cabelo preso. Calcei meus sapatos e arrumei minha pequena bolsinha. A parte da maquiagem foi o mais simples, nada de muito espalhafatoso, apenas o básico para a pele, rímel, delineador em gel e batom matte.
-Há boatos que irá matar o Ric do coração hoje. – Comenta Tahiti, pegando-me pela mão e girando meu corpo.
-Mato todos os dias. – Brinco, pensando que quem irá morrer irá ser ela.
-Todos os dias? Wow. – Tiara se impressiona, passando o batom e sem querer acerta no dente.
-Digamos que de uma semana, cinco dias estão certos. Às vezes menos, já que ambos cansamos bastante. – Dou de ombros e coloco a língua para elas.
-Você é como a deusa do sexo. – Presley ri.
-Ah, eu... Esquece! – Tiara começa a rir, dando o lugar para Presley passar o batom dela.
Fomos de limusine para o restaurante. Os meninos já estavam lá, e cada um veio para nos buscar na porta, inclusive o Ric, que trouxe uma rosa com ele. Retirei meu casaco, que ele pegou para guardar. Havia uma parte reservada do restaurante somente para nós.
-Depois daqui vamos ver o Bruno? – Pergunta Tahiti.
-Me ver? – Ele chega, só sorrisos, olhando diretamente para a sua irmã.
-Não estou entendendo mais nada. – Balançou a cabeça, cumprimentando ele.
Bruno passou um por um para cumprimentar. Atrás dele estava a Mia, mas ela somente deu oi de longe. Ele cumprimentou o Ric com uma batida de mão, suspeito. Desde quando eles se cumprimentam assim? Será que é só para agradar a noite da sua irmã? Ao passar por mim e me encarar, ele travou, assim como eu. Levantei da cadeira, ajeitando o vestido e nós nos confundimos. Quando ele esticou a mão para apertar, eu entreguei minha bochecha para ele beijar. Quando eu estiquei meus braços para abraça-lo, ele deu a bochecha para eu beijar. Quando eu dei a bochecha, ele veio me abraçar. Nós rimos, rapidamente, acho que nenhum dos dois sabia como se comportar de verdade. Me sentei novamente, e no fim, nós não nos cumprimentamos.
Assim que eles se sentaram, Billy chamou Tahiti.
Ao ficarmos diante de uma cena tão linda, e de um discurso emocionante, todos aplaudimos quando ela aceitou e deixou-se chorar. Segurei a mão do Ric firmemente e com a outra ele secou uma lágrima fujona dos meus olhos. Sorri para o ato dele e escorei-me em seu peito, admirando a cena linda que estava presenciando.
Nunca fui de fantasiar meu casamento, meu noivado, nem nada assim. Já pensei em como poderia ser, num celeiro, longe da cidade, num lugar calmo e pacato, mas nunca pensei em mais coisas.
Dois músicos entraram no local, enquanto dois garçons serviam o champanhe para o brinde. Ric beija a minha mão antes de nos levantarmos. Brindamos com uma linda música de fundo, depois somente os casais brindaram, somente as meninas, após, somente os meninos.
Compartilhamos de uma refeição maravilhosamente boa, muitas risadas e claro, histórias para contar. O fundo do baú foi bem remexido, até eu apareci nas histórias da família, com direito a interpretações de cenas, das vezes que pagamos micos e tudo mais. Foi ótimo tudo isso.
Por um longo tempo Bruno me olhava como se quisesse falar comigo, eu via no fundo dos seus olhos a mesma coisa que vi há um tempinho atrás, vontade de ter as memórias e sentimentos compartilhados com alguém. E esse alguém não é ela, sou eu. Não é querer me achar, mas desde sempre eu fui a confidente dele, eu e sua mãe. Agora sem ela, sou somente eu.
Eu sinto falta do meu melhor amigo. Eu não queria que nada tivesse acontecido da forma como aconteceu. Nós dois somos terrivelmente culpados por isso.
-Uma foto de todas as meninas! – Tahiti ergueu a taça praticamente vazia.
-Pra já. – Tiara levantou, ajeitando o vestido e puxando a sua câmera. Entregou na mão do Eric e deu as dicas.
Levantei-me e me posicionei ao lado delas para a foto. Fizemos várias poses legais e algumas fotos que irão nos garantir boas gargalhadas. Tudo nos favorecia naquele ambiente, principalmente a luz. Estávamos lindas em todas.
-Ok, agora uma só das meninas da família. – Pres disse alto.
-Aonde vai? – Tiara puxou meu braço quando eu ia me afastando.
-São só as meninas da família. – Disse um pouco sem graça, por todos estarem observando.
-Você é da família. – Falou.
-E a Mia? – Ouvi Bruno perguntar.
-Mamãe chamava e tinha a Lea como filha, não quer que eu diga mais nada, não é? – Presley se impôs, pegando meu outro braço e puxando-me para a foto.
-Sou substituta da Jaime nessa noite. – Dei a língua pra fora e Eric não aguentou a risada.
Tiramos mais fotos, muitas delas. Mia não voltou para o nosso meio. Bruno ficou por um tempo de cara fechada e ela com cara de quem não fazia questão mesmo, mas forçando o sorriso. Falsa!
Quando os meninos tiraram as fotos, e nós ficamos vendo, Ric atirou beijos pra mim, fez corações e ouvíamos aquele coral de “aw” por toda a parte.
Bruno se afastou das fotos e atendeu ao telefone, falou por um tempo e depois desligou. Tiara o chamou de canto e conversou com ele por um tempo. Só deu tempo de virar o rosto deles e ela chamar meu nome. Levantei-me e caminhei até eles, com um sorriso no rosto, mostrando que nada estava me afetando, por mais que não fosse verdade.
-Nossa mãe tinha você como filha, e você a tinha como uma segunda mãe, sim? – Concordei, não fazendo ideia do que estava rolando por ali.
-Não precisava chamar ela. – Bruno bufou.
-Ficou bravo porque eu tirei foto com elas e sua namorada não? – Arqueei a sobrancelha. – Você era menos superficial. – Ri, para descontrair, mas não adiantou muito.
-Não foi por isso. – Revirou seus olhos. – Eu...
-Eu não quero ouvir, tudo bem? Precisa de mais alguma coisa, Yara?
-Não, nada. Obrigada, Lea.
Virei às costas assim que disse “disponha”. Não estava com paciência alguma para dramas do Bruno, para dramas de ninguém, muito menos para os meus. O porquê ele ficou bravo por causa da foto? Porque elas não a consideram parte da família? Não o suficiente para tirar uma foto com elas? Faz favor, ele já foi bem melhor que isso. O quanto ele regrediu nesse tempo que estamos sem nos falar?
Distancio-me de todos quando vejo que Ric está numa conversa bem engajada com Luke e Billy. Vou até o banheiro e fico mexendo em meu celular por um tempo, curto a foto que as meninas postaram, comento algumas e dou uma olhada em quais fotos tinha no meu celular para postar.
Deixo para mais tarde e retorno para a parte onde estávamos, mas no vão entre o corredor da cozinha e a entrada da reserva, Bruno me puxa. Ficamos por alguns poucos segundos um de frente para o outro. O toque dele, após tanto tempo, me traz tantas reações e arrepios.
-O que houve? – Retiro meu braço da sua mão e dou dois passos pra trás.
-Só queria te pedir desculpas por isso. Fiquei sem jeito pela Mia, não queria estar na pele dela sendo excluída de todas. – Fez um movimento estranho com os lábios, pondo sua mão para suas costas. – E desculpas, por ter privado você da festa da Lana.
-Tudo bem. Faz tanto tempo isso. – Preparo-me para sair dali.
-Lea? – O olho. – Como você está?
-Bem, e você? – Baixo a guarda.
-Cansado.
-Dá pra perceber. Está com olheiras... Tem posto aquele chá que eu falei para Tiara, nos saquinhos, todas as noites? Ela comentou que você estava com olheiras profundas...
-Ás vezes esqueço, tem dias que durmo até no estúdio. Super cansado.
-Volte a pôr, sabe que elas amenizam. Não vai querer aparecer nas premiações dessa forma.
-Claro que não. – Gargalha, caminhando até o meu lado. Ficamos olhando para o povo que estava ali jantando, normalmente. – Essa é a última semana de férias da Lana, ela perguntou se poderia ficar na sua casa. Te falou algo?
-Ela me ligou para perguntar, e sabe que ela pode ir pra lá sempre que ela quiser. Nunca a privei disso.
-Ouch. – Faz um barulho estranho e ri sozinho. - Busque ela domingo ou segunda, ela amará passar o tempo com você. Ela sente a sua falta todo o tempo.
-E eu com ela, e eu também sinto a sua falta a todo momento. – Droga. Droga, Lea. Você fez isso parecer que era pra ele, mas não é pra ele. Mas é, ao mesmo tempo. Você está se deixando atrapalhar pelas palavras. Tome atitudes. Falar comigo mesmo não resolve meus problemas, sou bipolar demais para dar conselhos a si. – Vou voltar pra lá. Vamos? – Precisava sair dessa torta onde me enfiei.
-Ah, claro. – Fez sinal para que eu passasse na frente. – Lea, você está linda. Parece feliz!
-E eu estou. Obrigada, Bruno. – Agradeço, oferecendo um sorriso para ele.
Queria dizer que ele também está lindo e parece feliz, mas ele não está lindo e nem parece feliz. Na verdade, ele parece um pouco desleixado, sua aparência um pouco abatida, não dá pra identificar felicidade em seus olhos, eles parecem cinzentos agora, até mesmo quando falou no nome da Lana.
Ele sentou-se ao lado de Mia, enquanto eu não consegui me concentrar o suficiente para sentar. Mal sabia dizer o que tinha acontecido ali. Uma hora nós estávamos nem nos falando, e, de repente, ele começou a falar comigo como se tivesse passado apenas duas semanas sem me ver. Isso era algo que me deixava completamente sem reação para nada, quando ele inventava de fazer algo do tipo.
-Eu estou noiva. - Tahiti parou ao meu lado. - Vocês me enganaram direitinho.
-Você caiu como uma patinha na lagoa.
-Eu sou inocente.
-Não depois de três filhos. Aliás, como está o Haze? Preciso vê-lo! Você morando no Havaí não facilitou em nada a minha vida.
-Sabe que meu lugar é lá, e o seu também. Sempre que quiser, será bem vinda.
-Eu sempre quero, mas meu lugar é aqui.
-Vi sua mãe esses tempos. Ela está tão diferente!
-Mais velha? - Ri. - Nós nos falamos praticamente todos os dias. Me fala sobre cada fio de cabelo branco que acha na cabeça.
-Sério? - Ela ri, balançando a cabeça e provavelmente lembrando algo que se remetesse a Bernie. - Ela é uma figura.
-Ela é mesmo.
-E você... Como estão?
-Ric e eu estamos bem…
-Não digo você e ele, pois sei que estão bem. Mas, você e meu irmão, como andam as coisas?
-Ah! Nós voltamos a nos falar hoje, eu acho. - Rio, olhando para ele rapidamente. - Mas passamos esse tempo todo sem nos falar. Sabe que ele é orgulhoso, eu também. É complicado.
-Mas no fim vocês sempre estão juntos.
-Naquelas. - Nós rimos e pegamos nossas taças para beber o resto do champagne.
E se nós nos falamos apenas por calor do momento e eu estou fantasiando como se nós já tivéssemos nos falado há dias? E se isso não passa de algo da minha cabeça? Sozinha, começo a rir das próprias loucuras. Penso que posso estar ficando louca com toda essa situação, mas que se for mesmo verdade, semana que vem eu estarei com minha pequena para aproveitar o fim das suas férias.
Tomara que seja verdade.
-Rindo sozinha, já? O efeito caiu rápido. - Richard abraçou minha cintura de lado. - Luke é legal, mas ele parece querer mostrar que é amigão do Billy e ele se mostra nem ai pra isso. - Ele ri.
-Quer achar o lugar dele, mostrar que tem um propósito ali. - Dou de ombros.
-Hey, Richard. Aqui tá o vídeo que eu disse. - Luke apareceu com o celular e Ric o acompanhou.
Novamente fiquei ali, olhando para todos eles. Pete me olhava em seguida e sorria, tão querido. Puxo meu casaco, para caso tenha aquele famoso ventinho fresco na rua, e saio para a área externa do restaurante. Havia algumas pessoas por ali, jantando e conversando, e eu, parada sobre o parapeito e olhando para o nada.
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Nós viemos para o hotel em seguido ao jantar. Viemos na van, todos conversando como loucos e felizes. Tiara estava ao meu lado, falava sobre alguma coisa com Presley, mas eu estava em outro mundo pra poder prestar atenção e participar do assunto.
Ao chegarmos, me despedi do Richard e dei boa noite coletivo. Nosso quarto agora tinha mais uma integrante, ainda bem que conseguimos a suíte com divisória, e não precisávamos necessariamente dormir com ela muito perto. Mia não era agradável para a maioria de nós.
-Hey, Lea? - Tiara sacudiu meu braço e eu acordo no susto.
-Oi. O que foi? Aconteceu alguma coisa? - Passo a mão em meus olhos.
-Não, não aconteceu nada, mas estão te chamando lá no hall de entrada.
-Oi?
-Vá lá ver o que é. Recebi a ligação e estou passando o recado, agora eu preciso dormir, porque ainda sinto minha cabeça girar levemente.
-Ok.
Estava de pijama e não iria tira-lo. No mínimo era Richard, tentando aproveitar o tempo por aqui. Coloquei o roupão do hotel por volta do meu corpo, calço um chinelo qualquer e desci. Os corredores estavam vazios, milagre. O movimento deveria estar concentrado apenas no cassino.
Ao pé da escada principal, próximo aos elevadores, estava Bruno. Parado, com uma roupa qualquer, olhando para seu celular. Olhei em volta a procura do Richard, mas ao meu ver ele não estava por ali.
-Oi. - Disse ele, tímido, me desconcentrando da busca. - Pensei que não iria descer.
Então foi ele quem me chamou? Tiara!!!
-Oi. - Encolhi os ombros. - Tiara disse que estavam me chamando.
-Preferi não bater lá, sabe como é. - Nós rimos.
-Oi. – Encolho meus ombros no roupão. – Eu deveria ter descido com outra roupa. – Rio, provocando o seu também.
-Vamos... Vamos apenas ali pra fora. – Ele aponta para a saída do hotel para o pátio.
-Claro. – Ajeito meu roupão, ultrapassando mais uma vez a faixa pela cintura para apertá-lo.
Havia mais pessoas por ali. Quatro ou cinco dentro da piscina, algumas espalhadas pelos bancos, bebendo e conversando, e nós, que estávamos apenas procurando algum lugar pra ficar.
-Ali. – Apontou para o pequeno parque de crianças. – Aquele banco parece confortável. – Ele riu, indo em direção do banco embaixo da casinha.
Sentei-me ao seu lado, olhando para o nada, esperando que ele tomasse a atitude de dizer algo, qualquer coisa. E assim ele fez.
-Passamos um bom tempo sem nos falar.
-É. – Brinco com meus dedos. – Um ano e pouco.
-Desculpe...
-Pelo que? – Pergunto e ele ri, meio encabulado.
-Por ter tomado dores inexistentes e ter parado de falar com você. Eu fiquei magoado, um pouco triste por ter nos deixado, mas eu sabia que era o melhor pra você.
-Pra ser sincera... – Me ajeito no banco. – Nunca achei que pararia de falar comigo por conta disso.
-Eu espero que me perdoe por isso.
-Não tenho o que perdoar você. As coisas acontecem como tem que acontecer.
-Fico feliz por isso.
-O que lamento foi ter posto a Lana no meio desse fogo cruzado. Ela não tinha nada que ver com isso, ela não precisava ser posta na história.
-Eu estava magoado, sou orgulhoso e egoísta, de certa forma achei que se a Lana parasse de ir tanto na sua casa, você iria correr atrás de mim. É coisa de criança.
-Sim, é mesmo. – Arqueio a sobrancelha. – Eu ia correr, mas depois que Tiara começou a resolver, trazendo-a pouco a pouco na minha casa, deixei assim. Ela é a sua filha, você tinha todo o direito.
-Mas eu fiz mal a ela.
-Isso eu já não posso opinar. – Rio. – Acontece.
-Estava com saudades das suas risadas. Nós fomos ao Havaí, eu vi a sua mãe, ela falou?
-Comentou sobre.
-Pois é. Senti a sua falta lá. Senti falta quando fui a praia, quando estava na casa da minha mãe, quando passei na frente do nosso colégio e, quando vi Kai, desejei que não estivesse lá. – Ele ri. – Nunca vou gostar dele.
-Coitado. – Tiro o pigarro da minha garganta. – Ele é um bom homem.
-Lea. Em algum momento você também sentiu minha falta?
Segurei um riso sucumbido de mágoa. Não iria dizer que a todo tempo eu sentia a sua falta, não iria dizer que ele é uma pessoa mais que especial na minha vida e que o que ele fez, me deixou bem mal. Eu tenho meus orgulhos, e no final, eu fiquei bem. Sobrevivi ao tempo sem falar com ele.
-Em alguns momentos, sim. – Dou de ombros. – Mas o tempo fez com que isso passasse.
-Não vamos mais fazer isso, ok? Vamos apenas fingir que esse tempo não existiu.
-Foi você quem começou. – Rio. – Por mim nada mudou.
-E como você está? Seu trabalho, seu relacionamento, a casa... Como estão as coisas?
-Está tudo bem. – Respondo. – Meu trabalho é sempre essa montanha russa, ações indo e vindo, baixas e altas, tudo bem instável. Ric e eu estamos bem, moramos juntos agora. Ele voltou pra faculdade e deixou o emprego de modelo somente para emergente.
-Ah. – Ele suspira. – E como estão lá na casa?
-Muito bem. Foi ruim me adaptar no inicio a uma casa bem menor, mas agora já estou até acostumada, como antes. – E como estão por lá? E a carreira, namorada, e outras coisas?
-Ah, agora que estou dando um tempo, tenho me dedicado apenas para músicas novas. Estou trabalhando com artistas, conhecendo outros. Digamos que está tudo bem. – Encolheu seus ombros. – O resto está tudo como antes. Lana crescendo e aprendendo, como você mesma sabe, eu e Mia juntos ainda, levando em frente.
“Levando em frente” seria um termo para “empurrando com a barriga”? Sempre disse que essa mulher não é a certa pra ele.
Ficamos em silêncio, talvez tenhamos desaprendido a conversar um com o outro, ou é apenas esse quebra gelo inicial que sempre me mata. Fico acanhada, estalo meus dedos e um pouco nervosa por não saber o que dizer.
Sinto seu braço envolver meu corpo, e ele me abraça de lado. Soltei o ar que estava segurando e pus uma das mãos por cima da sua. É tão bom senti-lo de novo. Oxitocina, conhecido como hormônio do amor, é o que produz quando também um abraço é sincero e o precisamos. Eu não entendo muita coisa de biologia, medicina, e etc, mas sei que esse hormônio traz muitos benefícios para a saúde e nos faz sentir seguros.
Seguro, era essa a palavra.

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