Se você me amava
Porque você me deixou
Tudo que eu quero
E tudo que eu preciso
É encontrar alguém
(All I Want – Kodaline)
Ainda estava me acostumando com a casa um pouco mais vazia. Mas não tanto.
Olhei para o lado, com o corpo nu e quase todo descoberto do lençol, Mia tinha curvas lindas, fazia qualquer homem se perder por ali, até mesmo eu me perdi, mas somente nisso. Sua expressão enquanto dormia, leve e tranquila, fazia-me pensar que eu sou horrível por estar ao lado dela e não pensar nela nunca. Quando estamos transando eu penso nela, mas fora isso penso apenas em Eleanor. No que ela está fazendo. No que ela está pensando.
Pego meu celular e ligo o WiFi. Na maioria do tempo ando deixando-o desligado, já que preciso me concentrar em músicas novas e tudo mais. As notificações correm, as fãs que não desistem de mim ainda estão ali. Graças a Deus. Eu também não desisti delas, mas não consigo postar algo, não consigo me concentrar numa rede social sem pensar em milhares de indiretas para a Eleanor.
Entro em meu Instagram e atualizo a timeline, logo quem me aparece é Urbana com uma foto delas. Não pode ser... Desde que eu parei-a de seguir, tudo se converte em ela aparecer pra mim de qualquer forma.
Não resisto ao toque de entrar no seu perfil e ver o que ela anda fazendo. Há semanas eu não via, não procurava, achei até que tinha superado a situação, mas agora vi que não.
Em seu perfil, a primeira foto que aparece é a do seu perfil. Era de estúdio, parecia ser mais de algum book. Olho rapidamente para Mia que ainda dormia tranquilamente. Cliquei foto por foto, havia ela, ela e seus pais, ela e minhas irmãs, ela e a Tiara, ela e Urbana, até ela e o Phil. Ah, também tinha algumas fotos da minha filha, mas sem aparecer o seu rosto. Lea a protegia e protegia sua imagem... Coisa que nem eu fiz quando tive a ideia maluca de leva-la ao Grammy.
E então há fotos com o Richard. Várias também, em vários momentos, de todas as formas. A maioria eram mais reservadas, mas de qualquer forma, ali estavam as fotos deles. Rodei a sua linha até o inicio de sua conta, onde tem as primeiras fotos postadas. E depois de 146 fotos, descobri que apenas duas fotos eu estou.
Uma quase nem apareço, apenas tem meu corpo num pedaço. Foi no Havaí, uns anos atrás. A outra é eu e ela, no Píer de Santa Monica. O cabelo estava batendo no seu rosto, enquanto eu estava rindo dela e a olhando. Nós nos olhávamos... Como nunca percebi que nosso olhar era tão intenso? Nessa época ainda ficávamos ou não? Não consigo lembrar, minha memória bloqueou muitas coisas.
-Manda imprimir essa foto! Coloque no lugar de onde está a nossa. Irá ficar lindo.
Me assustei com a voz de Mia preenchendo o quarto. Quando olhei para o lado, ela estava levantando e caminhando nua até o banheiro, com passos largos, nada gentis.
Retirei do perfil dela rapidamente.
-Você faz criar urubu onde não há carniça, Mia! – Retruco para ela, que para e vira seu corpo.
-Eu? Caralho, Bruno, eu estava dormindo ao seu lado. Eu sou a sua namorada e você está olhando foto da sua ex.
-Primeiramente que ela é minha melhor amiga, e não minha ex.
-Não minta! Quando você vai cair na real de que ela não é mais a sua melhor amiga?
-Depois que ela me disser que não somos mais. – Minha voz saí um pouco mais alta.
-Ela já disse, para de ser idiota.
-Você não sabe de nada, Mia. De nada!
-Essa mulher é uma pedra em meu sapato. Porque você estava olhando o perfil dela?
-Apareceu no meu! Urbana postou uma foto com ela e eu resolvi ver como estava, se tinha fotos da minha filha...
-Invente uma desculpa melhor, por favor! Eu não aguento mais essas mesmas porcarias de desculpas. Não é a primeira vez que você faz isso!
-Mia, quando que você vai parar de ter ciúmes dela? Já não chega ter excluído o número dela, bloquear ela do twitter, apagar todos os seus e-mails... O que quer mais?
-Que ela suma da sua vida.
-Ela é a mãe da minha filha! Ela é minha amiga! Entenda que nunca irei me desvincular dela.
-A sua filha não tem mãe, para de se iludir.
-Talvez seja melhor ela não ter tido a mãe biológica, do que ter uma mãe como você! – Levantei-me da cama, largando o celular por cima do edredom branco. – Porque ninguém merece ser fruto seu.
-Você está me magoando, Bruno!
-E você por acaso não me magoa? – Fiquei-a encarando. Não dava pra levar tão a sério nossa discussão vista de fora, já que ela estava nua e eu com uma boxer azul clara. Mas era bem sério! – Talvez seja hora disso ter um fim.
-O quê?
-É, hora de você pensar um pouco. Ir pra casa dos seus pais, ficar afastada para poder rever o que realmente quer...
-Não! – Seu corpo se aproxima rapidamente do meu, numa colisão forte. – Não fale isso novamente. Eu não vou me afastar de você, apenas tenho muito ciúmes. Tenho medo de te perder, e não saberia o que fazer sem você.
07 de Junho de 2015
Eleanor Pov’s
Hoje era aniversário de Lana, eu sabia disso.
De um ano pra cá as coisas parecem estar como batimentos cardíacos. Elas sobem, descem e eu continuo sempre nessa mesma coisa. Minha relação com o Richard estava boa, como sempre, apesar de termos tido uma grande briga por causa do seu amigo. Sam alistou-se para o exército. Teve ajuda de um tenente que é amigo do seu pai, mas Richard não concordou com isso, disse que era suicídio. Já eu acho que ele está fazendo uma coisa fantástica.
Ele vai defender nosso país, nossa pátria, e nós mesmos.
Esse foi o motivo dele ter ido para a casa dos seus pais por uma semana, e nós termos nos falado apenas uma semana após o ocorrido. Relevei tudo, pois gosto dele e também não consigo me imaginar sem Megan ao meu lado, ou agora, Tiara.
Falando nelas. Tiara e Megan decidiram sair mais para curtir a vida. Até viajar no final do ano elas foram. França e Itália. Dá pra acreditar? Senti inveja delas e ciúmes quando elas retornaram com milhares de novidades e eu aqui, presa ao trabalho e Richard.
Sabe aquela história de batimentos cardíacos? Ela esteve presente em tudo na minha vida sempre, mas nesse um ano foi pior. Tinha momentos bons e ruins no mesmo dia. Quando eu acordava, nunca sabia se seria um grande dia ou um dia de bosta. Simplesmente me arrumava e encarava a vida.
Digo isso, pois, Lana começou a vir pra minha casa até setembro de dois mil e quatorze diretamente. Todos os finais de semana e algumas semanas por completo, estava tudo bem maravilhoso. Mas, a turnê do Bruno acabou. Ele ficou dentro de casa, socado, por dias. Tiara disse que nem fazia a barba direito, e como ele tem essa coisa de bugre em sua genética, a barba não cresce rente e completa como a de todos, é uns tufos em pequenas partes, com grandes falhas. Estranho. No mínimo.
Isso custou-me Lana. Lana ficando sempre naquela casa com ele e Mia pendurada junto. Vinha pra minha casa um final de semana sim e outro não. Em dezembro eu a vi somente duas vezes. Uma vez em que a busquei na escola de balé e outra quando ela veio com Tiara até a minha casa e passamos o dia no shopping.
Isso não é um ponto alto.
Estamos em Maio e, se eu vi Lana mais de vinte vezes esse ano, é muito. Ainda em Maio e Bruno e eu não nos falamos. Nem olhamos cara-a-cara. Nós simplesmente ignoramos a existência um do outro. Um ano e ainda estamos nisso.
Eu não escolheria esse lado, eu juro. Fiquei com Richard, sai de casa, mas eu nunca pararia de falar com ele por causa disso. Ele ainda é, ou era, meu amigo. Pra mim, nada acabou.
Mas ele quer o afastamento necessário. Ele está evitando ao extremo nos vermos, por isso está dando uma festa para Lana hoje, uma festa com direito a tudo, e não me convidou.
Até Megan foi convidada e eu não.
Se isso me magoou? Muito! Pensei que nós ainda tivéssemos uma chance, aquela velha chance de um dia nos falarmos novamente e contarmos tudo o que aconteceu um para o outro depois de um tempo sem nos falar, mas não. Ele quis me excluir da vida dele, isso dói, mas é o que ele quis e eu preciso respeitar a sua vontade.
-Vai ficar cortando essa cebola até ela desaparecer? – Richard olha para a tábua de madeira a minha frente, a faca em minha mão e a cebola cortada bem pequena.
-Opa. – Começo a rir, nervosamente. – Eu nem prestei atenção.
-Você está aérea. – Sua respiração sai profundamente. – Todos os dias eu penso que sou um dos mais velhos na faculdade, que é melhor eu desistir e que isso não é pra mim. Mas, quando eu estou chegando lá na porta, isso tudo é esquecido e eu fico bem. No final do dia sempre estou feliz com a aula que tive.
-Isso não tem a ver com o Bruno. – Balanço a cabeça.
-Ah, Lea... Sei que as coisas não parecem nada legais, e que você amaria estar lá hoje e garanto que todos vão sentir a sua falta, mas, o que é pra ser, será.
-Você se contradisse.
-Não mesmo.
-Acabou de dizer que pensa em largar a faculdade, mas que quando chega lá tudo muda, e no final do dia está tudo bem, mas já parou pra pensar que não há relação alguma isso com a minha história? – Largo a faca e fico olhando fixamente para a cebola cortada. – Nós não falamos há um ano, isso afetou minha relação com a Lana. Ela é minha também, Ric. Ela é a minha pequena.
-Eu sei.
-Se você sabe, então apenas respeite a ideia de que eu estou triste por ver tudo isso escorrendo pelas minhas mãos e não saber o que fazer.
-Abra um processo e tome parte da guarda dela.
Meu namorado dá as costas pra mim. Já disse que não vou envolver nada disso na relação, Lana não é minha. Nunca ganharia nada e isso é uma ideia ruim.
-Quer saber, Lea? – Olho para a porta da cozinha e Richard está ali novamente. – Se arrume, temos uma festa para ir.
-Que?
-Isso mesmo! Ela é a sua filha, você tem direito de estar com ela e eu tenho certeza que está fazendo falta.
-Mas há segurança, provavelmente.
-E você não é melhor amiga da irmã dele, por acaso?
-Sim, mas... – Aquilo me deu uma injeção de ânimo repentina. – É melhor não.
-Tiara vai abrir a porta para nós, já estamos dentro.
-Como você...? Isso já estava planejado?
-Não, acabei de mandar uma mensagem pra ela. Guarde suas cebolas estripadas e coloque uma roupa, temos uma festa para ir.
-Ok. – Pego a faca e coloco dentro da pia. – Ok!
α
O que passamos, sim. Pois eu estive ali o tempo todo e agora eu não estou mais. Talvez seja coisa da minha cabeça, mas isso é ruim, sim? Não posso chegar ali agora, nós construímos e eu abandonei. Abandonei e ele ajudou com esse propósito, nós dois somos culpados.
É muita coisa para absorver.
Meus pés travaram e Ric me puxou com delicadeza, mas não adiantou, ali eu fiquei, estática.
-Lea? – Me chamou. – Vamos entrar?
-Vá na frente, eu já vou.
-Mas... – Sua respiração foi profunda demais, como quem diz “me poupe de mais dramas”. – Vou chamar suas amigas.
Não contestei, acho que nem tinha como. Parada ali, as lembranças voltaram para quando fomos à Paris, quando briguei com ele e fui até a igreja sozinha, onde fiquei parada por um longo tempo, admirando a imensidão daquilo, viajando em pensamentos e profundamente triste por descobrir que tinha me apaixonado por Bruno. Pelo meu melhor amigo.
Eu estava sem chão, e a sensação disso tinha retornado agora.
Não vou ser bem vinda ali, vou ir de penetra, uma penetra que ninguém quer, por isso ninguém convidou.
-Eleanor? – Tiara estalou os dedos em minha frente. – Você veio até aqui, pode andar mais alguns passos e entrar. Já preparei todos sobre a sua vinda.
-Não minta pra ela, isso pode apavorar. – Megan disse baixinho. – Nós estamos esperando você e vai ser uma coisa boa.
-Viu, amor?! Vamos apenas entrar. – Pegou em minha mão.
-Eu acho que não quero. – Pigarreio. – Tenho certeza de que não quero.
-Você quer sim.
-Eu não quero. Nós não estamos nos falando, seu irmão cortou relações comigo e não me convidou. Não me sinto à vontade sendo penetra.
-Você quer drama, Lea? Então vamos fazer um. Porque eu estou doida pra dizer algumas coisas.
-Então, apenas fale! – Estufei meu peito.
-Richard, você poderia dar um minutinho pra nós, por favor? – Megan perguntou.
-Claro. Vou dar uma olhada pelos redores.
-Ok. – Tiara respondeu. – Você quer o que, Lea? Meu irmão é um idiota, pode até ser um crápula, mas você também o magoou. Magoou com a história de sair de casa e morar com o Richard, ele nunca falou sobre isso, mas eu sei, eu sinto. E você se também se magoou sozinha, saindo de casa daquela forma e fazendo tudo do seu jeito. Agora quer que ele simplesmente convide você? Você tem que tomar atitude.
-Tiara, não diga isso pra mim. Sou eu quem estou com ele há anos. Sou eu com quem ele ficou por muito tempo, que ajudou ele sempre que ele precisou, que esteve com ele nos piores momentos. Por ele criei uma filha, que não é minha, mas me despertou o instinto maternal. Não diga que eu o magoei. – Recupero meu fôlego. – Passei por tudo, sofri estando apaixonada por ele, carregando tudo nas costas, até começar a ser maltratada quando resolvi seguir a minha vida. Ou você não sabe o que ele fazia? Ah, claro que sabe, mas vai defender o seu irmão. Eu posso ter sido extremista, ter largado tudo que eu tinha aqui e ido fazer minha vida sozinha, como você disse, magoando ambos, mas eu sempre estive aqui! Ele ainda é meu melhor amigo, você sabe melhor que ninguém que eu não parei de falar com ele, e sim ao contrário, então, por favor, não me pregue morais.
-Você tem que tomar atitude, Lea. – Tiara arregala os olhos. – É sobre isso que estou falando.
-Atitude pra entrar ali e confronta-lo? Dizer que mesmo não sendo convidada, eu vou ir igual? Desculpe, eu não sou assim.
-Lea, escute! – Megan pega meu braço. Meus poros estão todos abertos, eu bufo como um gato bravo.
-Você o ama, caramba. Por isso que não quer ir lá, por isso aceitou isso numa boa, porque você o ama e precisa tomar atitude quanto a isso.
-Eu amo o Richard.
-Você está apaixonada por ele! – Megan aperta minha mão.
-Eu...Não. Ok?
-Pare de lutar contra isso!
-Eu não o amo, eu amo o Ric. É com ele que estou, e eu estou bem. Não quero entrar lá e espero que respeitem minha vontade. Deem um beijo em minha pequena e entreguem isto a ela. – Puxou um saquinho lilás de minha bolsa. – Diga que eu sinto muito e que nós nos veremos essa semana. Preciso ir.
Bruno Pov’s
As coisas não estavam tão simples. Não fiquei bem após terminar minha turnê. Meu corpo parecia não responder a nada que eu queria e nem dedilhar alguma canção eu consegui. Ou eu estava entrando em depressão, ou estava precisando tirar umas férias.
Mas dois meses depois eu me encontrei dentro do estúdio, escrevendo uma canção triste. Eu a fiz por várias vezes, escrevendo mil e uma palavras que queria colocar nela, escrevendo pequenas frases que eu precisava encaixar e isso me deu ânimo.
-Eu te desejo o melhor de tudo que este mundo pode dar. E eu te disse, quando você me deixou, que não há nada para perdoar, mas eu sempre pensei que você ia voltar. Diga-me que tudo o que você encontrou foi um coração partido e miséria. É difícil pra mim dizer que estou com ciúmes da maneira que você é feliz sem mim. – Li o trecho recém escrito para Phil, que me analisou por alguns momentos. Em alguma outra vida, ele foi um psicólogo, pode apostar.
-Me diz que essa música tem fundamento.
-Tem! É a história de alguém triste, sentindo ciúmes daquilo que não tem mais.
-É a sua história?
-O quê?
-É a sua história, Bruno?
-Não. – Rio. – Nada a ver.
-Você sabe que sempre pode desabafar comigo. Sempre. Eu sei que essa música não é apenas uma música qualquer. Continue escrevendo que eu darei um ritmo para ela. Vai ser um sucesso no próximo álbum.
E eu escrevi ela completa até o final de dois mil e quatorze ela estava prontinha. E Phil fez o que prometeu, um ritmo para a música. Depois disso escrevi mais algumas e uma outra que ainda não dei título, mas que estou trabalhando duro até hoje. Ela está quase pronta, mas ainda falta algo nela. Só não sei o que.
-Talvez eu não queira perder uma amante e amiga em uma noite só. Se estiver bom pra você, eu não devia ter brincado com a sua mente e com a sua vida tantas vezes. E, talvez, eu não queira ficar sozinho. Querida, você é meu único amor, atrás de toda a verdade sobre mim, está tudo o que você é.
Leio ela em voz alta e tento encaixar o ritmo que acho perfeito. Ela tem tudo, menos um final. Não consigo de jeito nenhum achar algo para que possa completa-la e todos os dias eu tento, eu juro.
Philip continua dizendo que essas músicas que simplesmente saem da minha cabeça, são expressões da realidade, que eu sinto isso, mas por não admitir por mim mesmo, eu acabo dizendo que não é. Não é algo para a Eleanor como ele acha, é apenas algo que sai sem um por que. Nem tudo se precisa de um por quê. Não é?
Nós estamos há um ano sem nos falar, chegou o dia do aniversário da minha filha e ela não foi convidada. Não fiz por mal, mas talvez eu não esteja preparado para vê-la em minha frente, para talvez ter que falar com ela, ou acabar tendo que sair em alguma foto junto. Admito que posso ser o homem mais egoísta e orgulhoso da face da Terra, mas é assim meu jeito e não vou mudar.
A festa estava rolando tão bem, vários convidados e muitos sorrisos. Os presentes enchiam a caixa e Lana estava distribuindo sorrisos. Música boa e doces. Minhas irmãs fizeram um ótimo trabalho de decoração.
Tiara e Megan estavam em uma mesa com minhas outras irmãs, mas saíram por alguns minutos quando receberam uma ligação. Eu sei que elas são melhores amigas de Lea, e isso me deixa curioso. Levanto e vou atrás delas. As duas saem porta a fora, não corro para ir atrás, então procuro ir até o quarto de hospedes que tem uma visão boa do portão.
Espiei pela janela, já que minha curiosidade fala mais alto. Lá estava ela, parada, sozinha. Seu rosto não tinha expressão nenhuma, ela apenas estava estática. Seu cabelo estava mais comprido, as pontas diferentes, mais claras.
Puxei a cortina para ela não me ver e fiquei apenas espiando através do quarto escuro. As grades me impediam de ter uma visão melhor, mas Richard chegou com as meninas. Eles falaram algo e ele saiu, simplesmente deixando-as ali.
Não sei o que estava rolando para simplesmente elas começarem a, claramente, discutir. Megan pegou a mão de Lea e falaram mais algumas coisas, até ela pegar um saco de sua bolsa, entregar na mão de Tiara e sair.
Minha irmã e Megan ficaram ali, paradas, sem reações. Apenas olhando para o caminho que ela seguiu e falando alguma coisa.
Saí do quarto, fechando a porta e parando um pouco para fingir que amarrava meus sapatos. Eu sou tão infantil assim? Ao mesmo tempo que me arrependo de não ter convidando-a, meu coração diz que seria ótimo vê-la. E, por mais que nós tenhamos nos visto de longe, ou melhor, eu ter visto-a, ele ainda continua assim.
-Estava procurando por você. – Mia me encontrou no meio do caminho. – Minha mãe chegou, perguntou onde estava. – Ajeitou minha gola. – Você está lindo. – Beijou minha boca superficialmente. – Vamos lá, comporte-se. Você está gelado. – Observou ao pegar minha mão.
-É o tempo. – Dou de ombros.
Falei com a mãe dela e seu pai. Não que eu não goste deles, mas a mãe dela parece me olhar como se eu fosse uma grande nota de dinheiro, uma pilha deles ou até mesmo uma chave de cofre e isso não me deixa nada confortável. Mas, infelizmente, eu preciso aguentar.
Para minha sorte vi minha irmã entrar para ir até o jardim, onde estava rolando a festa. Pedi licença e a alcancei.
-Estava procurando você. – Falei, ajeitando minha gola que Mia tirou do lugar.
-É. Pra que?
-Precisava que tirasse mais umas fotos antes do parabéns. – Sorri pra ela, mas ela não me retribuiu.
-Como você pode estar tão tranquilo?
-Como?
-É, Bruno, tranquilo. Parece que Lea nem existiu na sua vida e não ajudou a criar Lana. Você não a convidou para esse aniversário. Tem noção do quanto isso pode ter machucado?
-Não a convidei porque eu não falo com ela. Não montei a lista de convidados sozinho, foi ajuda de Jaime. Mia que enviou os convites.
-Tudo bem, Bruno. Onde está a câmera?
-Você está braba comigo?
-Ela estava aqui, Bruno. – Megan dá de ombros. – Achei que quisesse saber que ela estava aqui e não entrou, apenas entregou o presente da Lana. – Ela torce seus lábios e dá meia volta por nós, saindo pela porta dos fundos.
-Onde está a câmera?
-No armário da cozinha, coloquei lá para as crianças não pegarem.
-Ok.
Parei próximo a porta, observando pela camada do vidro dela, a felicidade das pessoas, os sorrisos e conversas. Aquilo... Era para eu estar ali aproveitando também, era pra eu estar ali, sendo feliz e estando com a minha pequena menina. Ela está completando sete anos e o que eu estou fazendo? Privando-a de ver a sua mãe, tentando convencer ela e a mim mesmo que Mia é mãe dela também, tentando mostrar pra todos que sei me virar sem a Lea e que estou bem?
Eu sou um idiota. Um idiota, orgulhoso e egoísta.
Eleanor Pov’s
21 de Junho de 2015
O celular sobre a mesinha ao lado da minha cama vibrava incisivamente. Não quero atender, meu corpo está cansado demais para responder algo. Viro para o outro lado sentindo falta de Ric ao meu lado na cama. Fico com os olhos entreabertos quando ouço o roncar da mesa com a vibração do celular.
Reviro meus olhos ao ver o nome do Bruno piscando na tela.
-Alô.
-Lea? – Ouço a voz de Tiara. – É a Yara! Preciso de você!
-O que aconteceu? Porque está me ligando do celular do Bruno?
-Eu estava na casa dele esse final de semana... Lea, ele está indo para a emergência.
-O quê? – Arregalo meus olhos e, abruptamente, levanto-me.
-Você pode me acompanhar? Estou sem carro, sem nada. Umma está com a Lana...
-Ok, claro que sim! Pego você ai em minutinhos.
-Ok.
Fico perdida assim que desligo o celular, a dor parece desaparecer do meu corpo e ele se treme por completo. Eu sou tão idiota que nem perguntei o que aconteceu.
Pego uma roupa qualquer dentro do meu guarda roupa, a primeira que avisto. Coloco meus cabelos presos num coque, sem nem penteá-los e calço qualquer par que vejo a frente, puxo a bolsa da cadeira e saio às pressas.
Fico criando mil teorias em minha mente, teorias que me deixam ainda mais aflita, sem saber ao certo o que aconteceu com o Bruno. Será que foi acidente? Pode ter sido algo que ele comeu, ou também alguma emergência odontológica. Ou pode ser nada... Ou pode ser tudo. Definitivamente eu odeio minha mente que embaralha mil e uma coisas.
Tiara estava parada na frente da casa. Mal estaciono e ela já entra. Diz que foi para o UCLA, então sigo pra lá antes de qualquer coisa.
-Agora sim... O que aconteceu?
-Ah, Lea, ele andava muito trancado no estúdio. Sabe, só trabalho, só trabalho... Ninguém sabia o que rolava quando ele estava ali dentro sozinho. De repente hoje, ouvi um barulho peculiar e resolvi investigar, até brinquei com ele antes de entrar. – Ela ri, parecendo querer amenizar. – Mas ele estava lá, Lea... Caído no chão, tendo uma convulsão e eu não sabia o que fazer. Eu sei que nós não nos falamos desde domingo, no aniversário da Lana, mas, eu precisava de você.
-Tudo bem, eu não te culpo por isso. Do que foi isso?
-Eu não sei. – Deu de ombros. – Chamei a ambulância e em instantes ela estava lá, aí liguei pra você. Achei uma garrafa de Bourbon pela metade e um maço de cigarro quase vazia.
-Temo que ele tenha voltado com o cigarro.
-Mas ele nunca mais se envolveu com isso. Faz anos e anos...
-Sim, aqui em Los Angeles mesmo, quando nos mudamos, ele fumou uma carteira, se muito...
-Será que ele não fumou escondido?
-Não... Ele não faria isso com a Lana. Ele decidiu mudar de vida por ela, ele não largaria tudo no lixo. Seu irmão faz tudo pela filha, Yara.
-Eu sei... Mas tem aquela namorada dele... Eu nem liguei pra ela pra avisar, acho que quanto menos tumulto agora, melhor pra nós e pra ele.
-Isso. – Concordo com ela e permanecemos em silêncio por um breve tempo.
-E as drogas?
-Não, Yara... Ele se envolveu uma vez, e se deu bem mal. Prometeu que não faria novamente, e eu aposto que não faria...
-Não sei o que há com o Bruno, sinceramente. Será que ele está com muita pressão pro próximo álbum?
-Não sei. – Torço meus lábios. – Não ando falando com ele seguido.
-Diante de toda a situação ruim, preciso descontrair falando algo.
-O quê? – Pergunto, curiosa.
-Como falei, estou passando alguns dias lá. Quando estive lá na semana passada, me deu aqueles episódios de insônia, então peguei minhas coisinhas e fui pra sala. Passei pelo corredor e ouvi a discussão da Mia com o Bruno. – Ela ri e coloca a mão sobre a boca. – Não é do meu feitio escutar conversas alheias, mas a curiosidade bateu mais forte. Ouvi a Mia dizendo que ele falou o seu nome enquanto transava com ela.
-Poxa.
Comecei a rir juntamente dela, mas pensava ao mesmo tempo no porque ele falou meu nome enquanto estava com ela. Ou ele pensou em nossas transas, ou entrou em transe e precisava descarregar a fúria. Há duas possibilidades que eu enxergo, mas vá que haja mais delas.
Pelo ou menos essa foi nossa distração até chegarmos no hospital.
-Tiara... Quem veio na ambulância com ele?
-Ele veio sozinho.
-Por quê?
-Porque eu entrei em pânico, não sabia se chorava ou tremia, ou simplesmente caía no chão... Definitivamente eu não sabia o que fazer.
-Isso é assunto pra outra hora, mas nunca mais faça isso. Principalmente nas circunstancias dele como pessoa da mídia.
-Não me julga!
-Ok. Deixa isso pra outra hora.
Paramos em frente a moça com cabelos presos, unhas compridas e azuis claras. A vestimenta é um uniforme padronizado do hospital. Ela nos olhou de cima a baixo e antes de atender-nos, atendeu ao telefone.
-Pois não, o que posso ajuda-las?
-Viemos para acompanhar meu irmão. – Tiara sai em disparado.
-Nome do paciente?
-Peter. – A moça nos olhou com uma cara de deboche. Daqui a pouco sairia algo como “jura? Há pelo menos uns vinte com esse mesmo nome”. – Peter Hernandez. – Complemento.
-Gene?
-Isso!
-Ele deu entrada na emergência, de ambulância, sem nenhum acompanhante... Qual seria o grau de parentesco?
-Eu sou a irmã dele, e ela é a namorada. – A olho rapidamente, arqueando as sobrancelhas, ela pisca pra mim.
-Vou precisar de um número de documento. Somente uma está autorizada a falar com o doutor para ver se é liberada a visita, a outra pode esperar no saguão da emergência.
Dissemos nossos documentos e dois crachás foram entregues. Entramos pelas portas que se abrem para ambos os lados, com os olhos curiosos, procurando encontrar o doutor Cramaat.
Deixei que Tiara falasse com ele e fosse ver o Bruno, já que ela que o encontrou. Fiquei esperando ao fundo do cenário, roendo as unhas. Tiara falava e gesticulava, enquanto o médico observava e opinava de vez em quando.
Ela fez um sinal com as mãos, estava me chamando. Enquanto ia me aproximando, o médico pega uma prancheta em mãos e explica algo para Tiara.
-Olá. – Colocou uma mão sobre meu ombro. – Estava aqui explicando para a irmã do seu noivo que a situação dele está tranquila. Ele está estável agora e passa bem. Em algumas horas ele acordará, já que tivemos de colocá-lo no sedativo após as convulsões.
-Graças a Deus e vocês! – Respiro fundo. – O que ele teve?
-Peter teve uma convulsão devido ao uso do cigarro em local fechado, o acumulo de fumaça fez com que tivesse falta de ar e a pressão que o álcool causou em seu corpo, fez com que ele não tivesse forças para conseguir sair ou respirar mais afundo. Ele é fumante há quanto tempo?
-Ele não é fumante... Começou agora. – Tiara responde por mim.
-Certo, então menos uma preocupação. E quanto à bebida, ele bebe bastante?
-Bebe... Não é nenhum alcoólatra, mas ele bebe socialmente.
-Vou pedir exames do fígado. – Anotou na prancheta. – O exame de sangue estará pronto em alguns instantes, mas você pode me adiantar algumas coisas. Você e Bruno mantém uma relação saudável?
E agora, como responder isso? Que sinuca de bico você me pôs, Tiara!
-Sim!?
-Usam camisinha?
-Sempre. Acho que duas ou três vezes que esquecemos.
-Ok!
-Então, doutor, nós precisamos nos preocupar?
-Claro que não! Vou dar uma olhada nos exames dele, se estiver tudo ok, ele passará a noite conosco somente por observação.
-Ok, obrigada. Muito obrigada. – O olho com compaixão e o vejo virar as costas.
O doutor para, vira e nos olha.
-Vocês podem entrar ali. Ele está no quarto. Só nos chamem quando ele acordar para que possamos fazer alguns testes.
-Obrigada.
Tiara foi ao banheiro assim que entramos, deixando eu ali, olhando para o seu corpo repousando sobre a cama de hospital. Ele parecia tão pálido, preocupado. Me aproximo, com receio, tocando sobre a sua mão que está um pouco mais quente que a minha.
-Você me assustou... – Rio, sentindo o peso da lágrima se formar em meu rosto. – Porque se sobrecarregou dessa forma? Se precisava de alguém pra compartilhar as dores e angústias, tinha eu ao seu lado.
Aperto sua mão, querendo que ele aperte de volta.
O olhando assim, frágil, a saudades dos nossos tempos bate mais forte. É esse homem que conseguiu me tirar da atmosfera e me fazer viajar. Viajei pra longe, pra Vênus, pra Marte, por todo o espaço.
Pensar que tudo isso poderia ser diferente, que eu realmente poderia ser sua namorada, como Tiara disse para a recepcionista de unhas compridas, quiçá ser sua noiva, como o doutor disse.
-Melhore logo. Seus exames vão dar todos bons e vamos sair dessa, juntos. – Me inclino sobre a mesa. Passo a mão sobre seus cabelos, mais curtos agora do que da última vez que o vi. – Eu te amo! – Beijo a ponta do seu nariz. Encosto minha testa na dele, meu corpo se arrepia inteiro. Esse é o mais próximo dele que chego durante tempos. Deposito rapidamente um selinho sobre seus lábios e posso jurar que ele correspondeu. É coisa da minha cabeça, eu sei, tenho ciência disso, mas foi tão real, eu senti que ele estava correspondendo.
Ouço o barulho de Tiara e me afasto, passando o dorso da mão nos olhos para secar qualquer vestígio de lágrimas.
-Não se assuste e nem se preocupe. Eu vi o que aconteceu. – Tiara me abraça de lado, olhando para o Bruno. – Ele gostaria de saber o que aconteceu também.
-Mas não vai saber, não é mesmo? – Digo, um pouco mais severa.
-Não... Nada que você não concorde irá sair da minha boca. – Repousou a cabeça em meu ombro. – Mas saiba que eu amo você, amo meu irmão, amo vocês dois juntos e não sou a única nesse time.
-Nós somos passado.
-Você o ama, Lea!
-Isso não é suficiente, Tiara.
-O que é suficiente pra você? Que você consiga unir o Ric e o Bruno num só?
-Não quero o Ric...
-Eu sei, você quer meu irmão!
-Não foi isso que eu quis dizer. Eu quero o Ric. Quero o bem dele.
-Você gosta dele!
-Exatamente.
-Mas quem você ama é meu irmão. Você acabou de dizer isso.
-Eu não estou sozinha nesse jogo, Tiara. Tem muitas pessoas envolvidas. Desculpe, mas eu passei longos anos ao lado dele esperando que um dia fossemos nos resolver e ficaríamos juntos. Sonhei com conto de fadas, e você sabe que eu não acredito e nunca sonhei com isso. E o que ele fez?
-Nada.
-Exatamente! É aí que está o ponto que ninguém me entende. Todos querem que eu volte com ele, todos acham que seria lindo após tantas desavenças o amor prevalecer, mas ninguém, ninguém, sente o que eu sinto!
-Desculpe...
-Ninguém sabe como dói lembrar disso todas as noites, de querer chorar sem motivo nenhum, de querer ligar pra ele no meio da madrugada com uma desculpa boba somente pra ouvir sua voz. Ninguém entende o que é estar com uma pessoa, gostar dela, mas amar outra. O que está nesse jogo é a confiança também! É, além de amor, respeito, amor próprio.
-Orgulho...
-Claro, eu também sou orgulhosa, como ele! É aí que ninguém me entende. Eu quero, mas não posso querer. Desculpa falar tudo isso, mas eu precisava dizer isso ou iria explodir a qualquer momento, queria poder ter dito no dia em que me falou aquelas coisas.
-Você pode contar comigo sempre que precisar. Se é essa a sua escolha, eu vou respeita-la e te ajudar no que for necessário. Eu estou contigo, eu te amo, Lea!
-Me desculpe. – A abraço, deixando aquelas lágrimas que segurei por tempos, caírem. – Te amo!
-Se eu disser algo, vou atrapalhar sua linha de pensamento?
-Não, óbvio!
-Se serve de consolo, ele também sofre por amar alguém que não pode ter. Ele te ama, Lea. Ele te ama como nunca amou e nunca será capaz de amar outra pessoa. Você é a alma dele!
-Eu... – Passo mais uma vez o dorso das mãos nos olhos, enquanto Tiara me segura pelos ombros, observando meu rosto. – Eu preciso ir, ok?
-Tudo bem... Eu vou ligar pras meninas, avisar o que aconteceu.
-Ok. – Me viro para pegar a bolsa.
-Se cuide, por favor. Não faça nada sem pensar, e quando quiser desabafar, seja qualquer assunto, me chame.
-Obrigada. – Respiro fundo. – Boa noite, Tiara.
-Boa noite, Lea.
Saio do quarto do hospital com pressa, nem olho para os lados, me concentro para as lágrimas não caírem. Lá fora a madrugada pesa nos ombros, um vento gelado passa por mim, tirando o conforto em que estava. Caminho até meu carro e antes de o ligar, encosto minha cabeça na direção e choro. Deixo as lágrimas retraídas caírem todas sobre meu rosto. De todas as vezes que dormi segurando-as, agora as libertei. Há vários pesares nessas lágrimas. Nome sobre elas. Bruno. Richard. Meus pais.
Bruno Pov’s
Sentia meu corpo mole. Tentei mexer minhas mãos, mas elas estavam com pequenos tubos conectados. Meus olhos pareciam estar cheio de remelas e minha boca seca.
-Bruno? – Ouço a voz de Tiara.
Respiro fundo.
-Água.
Prontamente ela deu-me água num copo plástico. Minha mente ainda estava contorcida, tentando entender o que de fato aconteceu comigo. Lembro que estava no estúdio, que fiquei sem ar e abri a janela, bebi um gole do Bourbon e depois disso é um branco total.
Minhas narinas se abriram melhor assim que tomei agua. Respiro fundo novamente e sinto o perfume.
-Lea?
-Oi?
-Tiara... Lea está aqui?
-Não...
-Estou sentindo o perfume dela.
-É... – Ela trava. – É o meu.
-Tiara... Não. – Repouso meus olhos, com as pálpebras pesadas e muita indisposição.
Queria questionar mais, sei que o perfume de minha irmã não é esse, assim como sinto o dela por aqui e algo me diz que ela esteve aqui. Uma enfermeira entra, me faz perguntas, examina meu peito e ajusta o soro que estava ligado para minhas veias. Sinto-me mais preguiçoso que o normal.

Nenhum comentário:
Postar um comentário