quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Capítulo 53



Se a mágoa fosse uma dor física
Eu poderia enfrentá-la
Mas você está me machucando
Dentro da minha cabeça
Eu não aguento
(Lose my mind - The Wanted)


Dez de Agosto de Dois mil e doze

Lana e eu estávamos prontas para encontrar com Bruno no cinema. Iríamos fazer algo diferente do que estávamos acostumados a fazer hoje. Iríamos jantar fora e depois ir ao cinema, pois já estávamos ficando sem sair aos finais de semana e aproveitar com a Lana, já que seu trabalho está tomando muito do seu tempo.

A vesti com um lindo macacão jeans, all star, uma blusa branca por baixo e penteei seus cabelinhos soltos, que estão um pouco abaixo dos ombros. Coloquei uma calça jeans, um coturno preto e uma blusa que encontrei no fundo do armário, que tenho certeza que usei duas vezes, no máximo.

-Estou com fome, mãe. – Torceu seus lábios numa careta e pôs a mão sobre o estômago.

-Não posso dar algo pra comer agora. – Pensei sozinha, matutando o que eu poderia dar pra ela que não fosse tirar seu apetite. – Quer uma fruta?

-Quero. Banana! – Sorriu, batendo palminhas.

-Hm, banana não sei se tem. – Andamos juntas até a cozinha a Geronimo levantou-se, vindo atrás de nós.

Ele está enorme e a cada dia parece que cresce mais, mas está pra nascer cão mais lindo e inteligente como ele. G é um amor de cachorro. Sempre brincando, sempre fazendo folia, aprendeu a cantar quando Bruno toca algum instrumento, corre com a Lana e parece que cuida para não machuca-la. Protege a casa e nos deixa sempre felizes.

-Pode ser maçã? – Chequei a fruteira e banana não tinha mesmo. Culpa do Bruno que quis fritar as bananas que tinha ontem para comer no estúdio como jantar.

-Pode, mas quero ela daquele jeito. – Ela ama frutas, claro, mas a maçã ela gosta especialmente quando é cortada em tiras finas, o que lembra um filme antigo, ou quando é raspada com uma colher até ficar uma papinha, como eu dava para ela quando pequena.

-Ok. Lembra quando a mamãe te ensinou? – Pego a maçã na mão.

-Lembro.

-Ok, cuidado para não se sujar. – Era besteira falar isso, pois sempre sujava um pouquinho que seja. Coloquei um babador para impedir que estragasse sua roupa tão bonitinha e dei a fruta pra ela.

Tirei algumas fotos dela comendo e mandei para as meninas. Jaime foi a primeira a responder, logo depois dela as meninas já foram enchendo a pequena L de elogios. Meu bebê é digna de elogios mesmo. Não porque eu tenha a criado, mas porque ela tem esses trejeitos mais delicados e simpáticos.

-Quando terminar, nós vamos sair, tudo bem?

-Mas e o papai?

-Ele nos encontrará no restaurante. – Respondi, direcionando uma mensagem pra ele.

“Nós encontramos diretamente no restaurante, tudo bem? Tenho medo de não conseguirmos um bom lugar, não fizemos a reserva. :/ Até mais. Beijos”

A ajeitei na cadeirinha do carro e assumi a direção. Não faz muito que aprendi a dirigir e consegui tirar minha carteira. Foi presente antecipado de aniversário vindo do Bruno.

Pus uma música bem baixinha, mas não abri mão de conversar com a Lana. Gostava de puxar assunto com ela e ensinar coisas novas, e ela no seu papel de criança, era curiosa e sempre gostava de saber mais e mais. Ensinei a ela que curiosidade é bom, mas que devemos dosar, pois há coisas que não fazem parte da nossa conta e não devemos nos meter. Com o tempo ela se lembrará disso.

-Estátua! – Dizia e ela ficava parada como estava. Costumávamos fazer essa brincadeira quando estávamos voltando do balé. Lana sabe ficar parada, mas não por muito tempo, logo ela começa a rir sozinha. – Assim não vale, hein. Estou ganhando.

-Não está não.

-Ah, não? Mas você está rindo, e não pode.

-Mas eu estou ganhando.

-Você está roubando, mocinha. É feio.

-Estou ganhando. – Pôs a língua pra mim. – Estátua! – Gritou, me causando um arrepio e fazendo eu parar de falar, prestando atenção somente no trânsito a minha frente.

-Você está rindo, viu?! – Apontei para ela através do retrovisor. – Assim não vale.

-Tá bom, mamãe. Como você é chorona. – Repetiu o que Bruno fala quando estamos jogando. Ele insiste em dizer que eu sou chorona para jogar.

-Para, Bruno segundo!

-Vou falar pra ele.

-Fofoqueira! – Implico com ela, colocando a língua. Ela coloca pra mim e diz para eu aumentar a música e para continuarmos jogando.

Levo a brincadeira até chegarmos no estacionamento do restaurante. Ajeito minha bolsa e minhas coisas. Saio do carro, fazendo a volta para tira-la da cadeirinha.

Pego em sua mão e caminho até a entrada. Conduzem-nos até uma mesa mais reservada. Lugar para duas pessoas, mais uma cadeira extra para Lana. Deram-nos o cardápio desde já e para ela um pequeno brinquedo para entretimento. Boa jogada de marketing, a criança sempre gosta de brinquedo e irá sempre preferir esse restaurante. Espertos.

Chequei meu celular para ver se Bruno tinha respondido, mas nenhum sinal. Lana reclama mais uma vez de fome, mas não sei o que fazer com ela. Peço então um prato pequeno de petiscos, somente para beliscarmos enquanto ele não chega. Entreguei sua mamadeira com água e pedi uma água pra mim também.

A bandeja com petiscos estava acabando. Lana já bocejava de sono, e já não tínhamos mais brincadeiras para fazer – que não iria atrapalhar as pessoas que jantavam por ali. Vi muitas pessoas que chegaram depois de nós, comendo e saindo embora, e nós ali.

Olhei novamente o celular. Nenhum sinal do Bruno. O horário do filme já tinha passado e não teria outro filme infantil a noite. Resmungo baixinho, sentindo um pouco de raiva pelo atraso dele. Sei que ele está no estúdio e mais uma porrada de coisas que ele sempre diz, mas custa avisar que iria demorar e que poderíamos comer e ir embora, pois deixaríamos para outro dia? Ou qualquer outra coisa!

Liguei para o Phil, ele disse que não estava com o Bruno, que já tinha saído do estúdio há um tempo e que estava somente o Bruno, Brandon, Ari e Phredley lá quando saiu. Minha esperança estava em Ari, ele sempre atende minhas ligações de imediato, mas quem atendeu foi sua namorada.

-Está tudo bem sim – respondo a sua pergunta -, eu só queria saber se o Ari estava com o Bruno no estúdio...

-Ah, ele estava. Chegou faz pouco tempo e foi tomar um banho. É urgente, Lea?

-Não, na verdade só queria falar com o Bruno, uma dúvida que tenho aqui. – Não iria expor o que de fato estava acontecendo. Mas meu peito já estava se alimentando da raiva que estava sentindo por ter sido deixada, novamente, a ver navios.

Finalizei a ligação com ela e liguei para o Brandon, que já tinha ido pra casa há muito tempo, logo depois de Phil. Ou seja, ou Bruno está vindo pra cá, ou ele está sozinho no estúdio. Infelizmente, não tenho o número de Phredley e não iria incomodar o Phil para conseguir.

-Vamos embora, princesa? – Minha animação tinha ido embora. A de Lana, aparentemente, também.

-Mas e o papai?

-Ele está trabalhando. – Respiro fundo. – Vamos?

-Vamos... Estou com sono. – Disse quando esticou os braços para que eu a pegasse.

-Você já está pesadinha. – Resmungo com ela em meu colo. – Vamos ali com a mamãe pagar, daí já poderá dormir, tudo bem?

-Uhu.

Lana repousou sua cabeça em meu ombro enquanto eu pagava a conta. Saímos do restaurante e eu não pude deixar de olhar para os lados, vá que ele esteja chegando ou algo parecido. Mas não há nada, apenas um casal rindo, como se tivessem bebido um pouco além da conta.

Dirigi pra casa pelas ruas escuras, mas brilhantes pelas luzes ligadas em tudo quanto era canto. Noite de verão quente, muitas pessoas na rua, alguns carros também. Na subida até a casa foi tranquila, Lana pegou no sono e eu pus Anthem para ouvir. Precisava de uma coisa mais animada para esquecer a idiota que fui agora por estar esperando ele atoa.

Em casa, pus a em sua cama, tirando a sua roupa e colocando seu pijaminha. Senti pena de dar banho agora, já que ela estava caindo – literalmente – para os lados de tanto sono que tinha. Seus olhos nem paravam mais abertos.

Troquei a minha roupa e fui para a sala. Passeio pelos canais de televisão até conseguir um onde estava passando uma série meio de terror. Deixei ali e liguei o notebook que trouxe pra sala. Consigo fazer algo no notebook e consigo assistir o que se passava lá ao mesmo tempo. Dei uma lida em algumas coisas, organizei outras e quando olhei para o relógio no canto da tela, apavorei-me. O tempo voou.

Eram dez para as duas da manhã.

Um barulho se fez na porta da entrada. Fiquei alerta para a porta da sala e consigo ver, mesmo que com rapidez, Bruno passar pra cozinha. Larguei o aparelho ao meu lado e pus a televisão no mudo.

Pé por pé, fui até a cozinha, onde ele abriu a geladeira e derramou uma jarra de água em sua boca, deixando cair mais para o chão do que qualquer coisa. Pigarreio para chamar sua atenção, mas não foi o suficiente. Apenas depois do quarto pigarreio, ele me nota ali.

-Onde você estava? – Noto seu jeito desengonçado. Moro com ele há muito tempo para saber seus jeitos... Ele estava bêbado, e não era pouco.

Começou a se rir sozinho e apoiou-se na bancada.

-Boa noite.

-Onde você estava? – Recordo a pergunta.

-Alô? É da polícia? – Fez um telefone com seus dedos e sua mão, e ficou rindo como um idiota para o ar.

-Não estou com paciência, Bruno. – Repito um mantra dentro de mim “ele está bêbado, ele é um idiota, não se estresse”.

-Ninguém mandou ter paciência, coisa. – Estalo o pescoço e espero ele passar pela cena depressiva que estava sendo ele terminar de tomar a água. – Onde está minha filha?

-Dormindo, depois de ficarmos plantada naquele restaurante!

-Ah, o jantar. – Pôs a mão livre em sua cabeça. – Puff. – Começou a rir novamente. – Não estava a fim de ir naquela droga.

-E eu não estava a fim de esperar você lá. – Suspiro fundo. – Custava avisar antes de ficar bêbado demais, ou estava ocupado com as mãos e a boca em outro lugar?

Sim, eu estava insinuando que ele estava com outras mulheres, porque eu sei que ele sempre esteve mesmo depois de que prometemos tentar algo. Eu sinto. Já senti várias vezes novos perfumes em suas roupas e bem, não eram os meus.

-Lá vem você, novamente, com esse papo! – Revirou os olhos castanhos graúdos, que estavam pequenos demais agora. – Não vai sossegar enquanto eu não te pegar de jeito, não é?

-Que? – Balanço a cabeça. – Para de falar merda, Bruno!

-Você que vem com essas idiotices, essas paranoias! Precisa visitar um psicólogo.

-E você uma casa de reabilitação. – Rebato na mesma hora. – Vai acabar um bêbado imundo, sem sucesso, dessa forma. – Aponto para ele com desdém. Sei que não se deve discutir com gente bêbada, mas era praticamente impossível permanecer calada.

-Ai, ai, ai. – Deu a volta na bancada, passou por mim deixando tudo pra trás. Jarra sobre a bancada, chão molhado, cadeira de qualquer forma e a geladeira aberta.

Antes que a geladeira começasse a apitar por estar tempo demais com a porta aberta, a fechei, tentando desviar da água do chão.

Bruno já não estava mais ali quando voltei a olhar pra porta. Estremeci quando pensei onde ele pudesse estar.

Lana!

Caminho até seu quarto e o encontro entrando nele e chamando a menina sem piedade.

-Venha pra cá! – Rosno pra ele. – Agora.

-Você não manda em mim. – Retruca como uma criança boba e mimada.

-Ah, eu mando! – Ando até ele e seguro a sua camisa, sem paciência alguma. – Vamos! Pra fora do quarto dela, já. – Digo em tom de ordem, mas controlando para que não a acordasse.

-Você não manda nem em você mesmo. – Desviou meu braço do seu corpo, com um supetão. – Me deixe falar com a minha filha.

-Não!

-Sim! Eu sou pai dela e quero que ela acorde.

-Você está...

-Eu estou bem! – Nem deixou terminar de concluir. É claro que ele está bem, dá pra ver no seu rosto e no seu hálito – que chega longe – de bebida alcoólica. – Agora, me largue de mão.

-Seja mais responsável, por favor. – Olho para Lana, antes de continuar o que iria falar. – Quer dar o seu showzinho de bêbado, que dê, mas não envolva a Lana nisso. Ela não precisa ver o estado que seu pai está.

-Que estado eu estou? – Encarou-me, frente-a-frente. – Hein, Eleanor? – Tenho medo. Nunca aconteceu, mas já vi tantos casos de pessoas com estresse, que bebem e depois ficam agressivas.

Seu braço tocou o meu, mas seu grito despertou Lana, que acordou aos prantos.

-Saia do quarto. – Desviei do seu toque e andei para perto da cama dela. – Saia daqui! – Pedi mais uma vez.

-Oi, amor do papai. – Deu um passo em falso pro lado.

-Você está ridículo. – Esbravejo. – Saia daqui, agora. – Digo, pausadamente, para que ele entenda bem.

Aparto o choro da pequena com um abraço, dizendo que tudo estava bem e o papai estava apenas cansado e queria vê-la antes de dormir, mas que ela precisava descansar. Lana demorou para pegar no sono novamente, chorou por um tempo e seus olhos pesaram mais do que seu susto. O pequeno coração parecia soltar a qualquer momento do seu peito.

Judiaria com minha princesa.

Saí do quarto com sangue nos olhos. Bruno estava fazendo um barulho de rato na sala.

Ele estava segurando meu celular e mexendo nele.

-Mas... – Andei depressa em sua direção, tomando o celular de suas mãos. – QUEM TE DEU ESSE DIREITO? – Extravasei o que estava sentindo desde que ele nos deixou esperando naquele lugar.

-Tira essa porcaria daqui. – Apontou para o notebook. – Quero assistir televisão.

-Vá assistir na porcaria do seu quarto. – Tomo o controle que estava sobre a mesa.

-Me dê isso, Eleanor.

-Ah, não vou dar mesmo! – O segurei com força. – Vá dormir, Bruno. Vá tomar um banho gelado. Vá!

-Você quer vir comigo? – Olhou para minhas pernas. – Talvez eu possa comer você lá dentro.

-Cala a boca.

-Você chegou a dar essa bunda pro Kenji?

-Não é da sua conta. Não fale no nome dele.

-Você deu, né? Sabia que liberaria pra qualquer um assim que eu comesse. – Balançou a cabeça negativamente, estalando a língua. – Ele era bom de cama?

-Melhor do que você. – Largo o controle, sentindo algo tomar conta do meu peito.

-Mentirosa. – Estalou a língua novamente. – Ninguém te come como eu. Ele tem o pau pequeno. Eu já vi, quando estávamos no banheiro. Ele não faz nem cócegas no seu corpo.

-Cala a merda dessa sua boca.

Estava tentando me controlar. Mas ele falava, falava, falava e não parava de falar. Futricou até o último fio de cabelo sobre o assunto do Kenji. Estava ridículo o show que estava fazendo e nada disso era preciso.

Eu disse que teria mais alguma coisa desse tipo e eu desistiria de vez. Era a gota d’água.

Virei minhas costas, peguei meu celular e meu notebook e o ouvi falar mais ainda. Nem prestava atenção no que estava saindo da sua boca, somente juntei toda aquela raiva que estava sentindo dele e me concentrei em ignora-lo.

Abri a porta do meu quarto e a fechei. Sei que ele pararia logo com isso.

Pararia pra sempre.

Sempre há uma gota final, e de tantas que ele já aprontou, essa ele conseguiu fechar a cota. Não tenho mais paciência para showzinhos bêbado, ciúmes infantil, galinhagem e tudo mais. Somos bem melhores como amigos do que dividindo a vida como se fossemos um casal em potencial. Não somos isso e não podemos fingir.

Ele me magoou, mas eu relevei um dia, pois acredito em segundas chances e porque eu gosto dele, infelizmente. Mas agora meu único objetivo é seguir minha vida. Sem dramas, sem conversas constrangedoras, sem nada, apenas voltamos ao que éramos antes do primeiro beijo e o que deveríamos ter seguindo sendo: apenas bons amigos. Nada de colorido, nada de mãos bobas, nada de beijos, nada de nada. Pra mim já acabou.


O sábado começou com música e a voz da Lana que preenchia a casa. Depois de tomar um bom banho e vestir uma roupa, saí do quarto indo diretamente para a cozinha. A voz vinha da sala, e lá estava Lana, em pé em frente ao sofá, olhando desenho e dançando conforme a música que Bruno escutava.

Não atrapalhei ela, passei diretamente para a cozinha e vi o horário do relógio. Dez pra uma da tarde. Dormi a manhã de sábado inteira. Espreguicei-me e joguei algumas coisas numa bandeja para comer.

-Bom dia. – Só de ouvir a sua voz, meu estômago se revira com todas aquelas lembranças da noite passada. Tenho vontade de ignora-lo, mas não é nem preciso, ele passa pela frente de onde estou sentada, com o celular em mãos. – Ia convidar você para almoçar.

Não respondo, continuo comendo. Pode ser infantil, ou não, já que tenho a desculpa de que estou morta de fome e estou comendo, então está perdoado. Mas não que eu não tenha o deixado sem respostar por querer, porque eu quis.

Seus olhos procuraram os meus e ele estalou os dedos em minha frente. Não precisei dizer nada, apenas olhei para ele e olhei para minha comida. Ele entendeu o recado.

-Pode falar, agora? – Perguntou quando observou que eu terminei de comer. O tempo todo ele estava ali, esperando atentamente. Limpei a boca num guardanapo de papel e tomei o último gole do suco de abacaxi, meu preferido. – Queria ir num restaurante legal, para depois irmos a casa do Phil. Ele nos convidou para passarmos o dia lá, na piscina.

-Legal. – Puxei a bandeja e levei até a pia.

-O que está fazendo? Deixe aí. – Tocou no meu braço.

-Eu sujei, tenho que lavar. – Respondi o óbvio.

-O que aconteceu para me tratar assim? – Perguntou e eu larguei a esponja da louça sobre ela, suja. Apoiei-me na pia e virei minha cabeça para o lado. Olhei para ele, encarando seus olhos. – Foi por ontem?

-O que acha?

-Escute... Me desculpe, ok? Eu comecei a beber no estúdio e então me desconectei de tudo, escrevendo umas partes de uma música que estou amando. Tenho que mostrar pra você depois... Em fim, acabei bebendo uma garrafa e esqueci de tudo. Estava bêbado e nem sei como cheguei em casa.

-Não quero falar nada a respeito de por a sua vida em risco dirigindo após isso. – Suspirei profundamente. – Eu não quero saber com quem você bebeu, porque você bebeu, não me interessa o que faz ou deixa de fazer...

-Grossa.

-Não é grosseria, é apenas a realidade. Não me interessa, então não dê voltas numa desculpa esfarrapada.

-Não é desculpa. – Rolou os olhos num profundo e imenso desconforto. Continuei olhando pra ele, não quis passar a impressão de que estava tentando pressiona-lo, ou algo assim, estava apenas o olhando como estava antes, mas soava atormentador. – Ok, Lea, o que você quer saber?

-Já disse que não quero saber de nada.

-Eu fiquei com uma mulher ontem. – Despejou e arregalou de leve os olhos, como se esperasse uma reação negativa, mas eu já sabia que ele tinha outras, ele sempre terá. – Nenhum puxão de orelha, nem nada?

Somente suspirei, e esse falou por si.

-Recebi a ligação dela quando estava saindo do estúdio. Caí nas lábias sensuais e acabei errando, mais uma vez, com vocês duas. Eu nunca vou me perdoar por essas pisadas na bola que eu dou.

-Você está fazendo certo, Bruno! Está vivendo a sua vida, não tem nada de ruim nisso.

-Mas nisso eu acabei bebendo. – Torceu os lábios. – E eu tenho certeza que falei alguma besteira ontem. – Tocou meu braço e eu não o impedi. – Eu só queria poder me lembrar do que. Lembro vagamente que você me deixou falando sozinho...

-Você estava um porre, como na maioria das vezes que bebe. – Respondi, ajeitando-me no local. Recostando meu colo na pia e cruzando os braços na altura do peito. – Nós discutimos, você acordou a Lana, a fez chorar... Enfim, você pintou e bordou como sempre.

-Mil desculpas.

-Tanto faz, Bruno.

-Não diga isso.

-Só que – vacilo ao olhar seu rosto, completamente arrependido e os olhos caídos – você sempre diz a mesma coisa. Sempre a mesma tecla. E bem, eu não sou mais criança, você também não.

-Eu não quero estragar o que temos. – Sua mão que estava em meu braço desce para o antebraço e ele dá um sorriso amarelo.

-O que temos?

-É.

-Não temos, Bruno. Não depois de ontem.

-Eleanor? – Seus olhos se esbugalham, como se eu fosse uma criança e tivesse dito algo proibido. Continuo da mesma forma, mas ele ficou inquieto. Pude ver milhares de expressões em seu rosto em menos de um minuto. – Como assim?

-Bruno, eu desisti. – Jogo meus ombros pra cima e os deixo cair. Passo a língua sobre os lábios para umedece-los. – Não é mais a mesma coisa.

-Deixa de drama...

-Não é drama. – Alterei-me, saindo da posição que estava e consequentemente tirando a sua mão de mim. Encostei a pálpebra dos meus olhos para baixo e estiquei minha mão, deixando apenas meu dedo indicador no ar. Pensei antes de dizer algo que eu pudesse me arrepender. – Não é drama quando envolve sentimento e um coração.

-O quê? – Franziu a testa completamente perdido.

-Isso. – Depois de dizer parece tão mais fácil. – Não é drama quando estou impedindo-me de sofrer mais.

-Não entendo...

-Não irá entender.

-O que eu fiz ontem de tão grave?

-Você não fez só ontem, Bruno. Suas falhas vem sido numa sequência, e não são poucas. Eu cansei de esperar, cansei de passar por idiota, de me prender achando que isso vá dar em algo. – Gesticulei ao redor. – Não estamos rompendo nossa amizade, ok? Eu amo você, mas não quero repetir o que tínhamos. Esse lance de irmos pra cama, de nos beijarmos, de ciúmes... Não irá existir mais.

-Eu juro que não entendo você. – Vociferou, colocando a mão pra frente também. – Eu pensei que fosse isso que você quisesse.

-E eu queria, mas achei que nós estávamos nos envolvendo além da carne.

Um silêncio constrangedor se fez na cozinha, se não fosse pela música que dá pra ouvir mal e porcamente da cozinha. Dei um passo pra trás e percebi que fui idiota. Esse tempo todo eu poderia estar sentindo isso sozinha? Ele poderia muito bem ter apenas ciúmes de mim, afinal, sou sua melhor amiga. Como eu fui egoísta ao pensar que tínhamos os mesmos objetivos. Fui uma completa idiota.

-Acho que estamos alterados. – Balançou a cabeça. – Nós conversamos sobre isso outro dia.

Não iria adiar mais e mais. Já era tempo demais pra ser trouxa.

-Obrigada, mas pra mim, essa conversa acaba aqui.

-Então esse é seu ponto final? – Sua face se transforma completamente. Ele parecia estar com raiva de mim.

-Sim. Esse é. Nós não temos nada mais, Bruno. Nada de beijos, nada de absolutamente nada.

-Você vai se arrepender.

-Não. – Ri, sarcasticamente. Talvez até mais do que eu gostaria realmente que soasse. – Vou viver.

-Dias. – Disse. – Dou dias para que caia na minha cama.

-Você está se achando demais, gato. – Bato levemente no seu peito. – Subestima a força que sabe que eu tenho.

-Isso é uma bobagem, Eleanor.

-Então porque ainda estamos discutindo?

O deixei sem palavras. Eu consegui. Eu venci uma discussão e estava me sentindo uma criança por isso. Poderia até fazer uma dança de comemoração, ou dizer “quem está rindo agora”, mas me controlei. Apenas dei de costas pra ele e o deixei ali, alimentando tudo que conversamos.

Quando saí da sua vista, fiz um gesto ridículo de “yes”, com os braços e andei majestosamente até a sala atrás da minha pequena.

E nós fomos para a casa do Phil, claro. Fomos assim que Bruno e Lana almoçaram. Nós não trocamos nenhuma palavra diretamente, apenas uma coisinha quando Lana falava conosco e etc.

Urbana convidou Megan, que foi sozinha sem o Caleb. Nós ficamos um tempo na piscina, todos juntos – sem que eu e Bruno nos falássemos ainda – e cuidamos das crianças.

Estava usando um biquíni azul claro, que delineava minhas curvas. Eu me achava bonita nele, sentia-me legal com ele e, principalmente, confortável.

Saí da piscina, já que íamos preparar o jantar, e senti o olhar de Bruno sobre meu corpo. Ele disse algo para o Phil, que balançou a cabeça. Nunca desejei tanto ser uma mosquinha para saber o que ele tinha dito, mas balanço a cabeça em reprovação do meu pensamento. Primeiro passo é: não se importar.

-Mas o que houve? – Tinha contado metade da história para elas enquanto organizávamos a janta. – Ele fez algo assim que chegou em casa?

-Não. – Balanço a cabeça negativamente. – Ele foi um idiota como qualquer bêbado, mas eu percebi que não queria aquilo pra minha vida, entende? – Mexi com a casca da cebola assim que a tiro.

-Já estava mais do que na hora. – Megan ergue os braços num gesto bem exagerado. – Eu sempre vou querer tudo aquilo que lhe faz bem, e se tem algo que essa relação não estava fazendo, era o seu bem.

-E o da Lana. – Acrescenta Urb.

-Só traz benefícios. – Dou de ombros. – Agora é seguir em frente.

-Isso. Agora vá atrás de alguém que te complete.

-Não. – Dou um riso sem graça e elas me olham juntas, sincronizadas, pensando que eu sou louca ou que irei parar de achar alguém. – Não quero alguém que me complete. Eu sou completa, sou feliz comigo mesmo. Quero alguém que me faça transbordar, que me traga novos horizontes, que expande minhas alegrias. – Ofereço um sorriso bobo para o ar e lembro por breves milésimos segundos de quando eu achava que essa pessoa poderia ser o Bruno. Nós tínhamos potencial para sermos assim.

-Essa é minha garota. – Urbana bate palminhas e Megan fica, literalmente, de queixo caído. – Agora é só esperar a pessoa certa aparecer.

-Ela vai aparecer em qualquer momento. Pode ser quando eu menos esperar.

-Ela pode entrar por essa porta. – Na hora que Urbana concluí, Bruno entra na casa, esfregando a toalha sobre o cabelo molhado e pedindo licença para pegar a mamadeira da Lana com suco dentro. Fuzilei Urbana com os olhos e quando ele saiu, caímos na gargalhada. – Desculpa, não pude deixar de fazer isso.

-Acho vocês bonitinhos juntos. – Megan está com os braços cruzados, olhando para o nada. – Ou achava, sei lá.

-Também acho. Vocês tem uma química diferente, Lea.

-Vá que eu encontre outra pessoa que faça vocês pensarem diferente, uh? Vá que a outra pessoa tenha mais química que ele? Nós já tivemos nosso tempo.

-Então, onde vai ser nossa baladinha?

-Duas perguntas. A primeira: que baladinha? Não irei caçar homens para namorar numa balada. A probabilidade disso é uma em um milhão. – Elas riram. – Segunda: nós quem? Você tem o Caleb, não irá caçar ninguém!

-Não... Quer dizer, nós não somos mais os mesmos que éramos antes. Ainda não achei minha metade. – Curvou seus lábios e olhou rapidamente pra mim. – Quer dizer, ainda não achei alguém que me fizesse transbordar.

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