Pegue o que você precisa
E siga seu caminho
E pare de chorar tanto
(Stop crying your heart out - Oasis)
Foi uma péssima noite para dormir. Foi tensa e em nenhum momento consegui descansar minha cabeça ao completo. Me sentia culpada, mas não queria me sentir assim. Essa foi à primeira noite que tentei dormir sentindo tristeza de tudo que está acontecendo. Estou acostumada a deitar a cabeça no travesseiro e sentir saudades de muitas coisas, minha família, do Bruno quando está em turnê, dos meus amigos, até mesmo do tempo no Havaí, onde tudo era bem diferente.
Nem forças para levantar da cama eu tinha. Minha cabeça parecia que iria explodir em alguns instantes, havia um nó no meio da minha garganta, uma espécie de pigarro que não passaria tão cedo. Senti meus olhos embaçados e o barulho do meu celular despertando, para avisar que estava na hora de começar a me arrumar para mais um dia de trabalho, deixou-me estressada.
Irá doer ter que por um sorriso no rosto, quando na verdade meu interior está despedaçado.
Nunca sofri assim, nunca foi preciso discutir dessa forma, nunca passei uma noite sem dormir pela tristeza que estava sentindo... Isso é terrível. Agora que entendo o que é sentir demais, levar tudo para o coração, sobrecarregar a alma e ir acumulando todas as coisas que a vida vai te dando, sejam boas ou ruins como agora.
Como sempre faço, dei um beijo na Lana antes de sair, depois que já tinha me arrumado. Encontrei com a pobre Umma, chegando, com uma cara cansada de quem não tinha dormido muito bem.
-Lea! – Olhou-me e antes mesmo de nos cumprimentarmos, nos abraçamos fortemente. Me senti livre para deixar uma lágrima cair pelo meu rosto. – O que aconteceu?
-Discuti com o Bruno, foi feio... – Respiro fundo, desvencilhando do seu abraço. – Agora tem um nó na minha garganta, minha cabeça está cansada e doendo. Eu não gosto de sentir isso.
-Venha cá. – Puxou-me pelo braço.
-Preciso ir para o trabalho. – Digo, fitando a porta da entrada.
-Não vá, fique hoje em casa. Te darei um chá, bem quentinho, colocarei uns filmes e veremos eu, você e a Lana. Ok?
-Eu não sei o que falar para o Ian...
-Diga apenas que está um pouco indisposta, mal... Ele entenderá. – Umma não o conhecia, mas provavelmente ele entenderia. Ian não é uma má pessoa, é muito boa e me conhece há muito tempo. – Agora me diga o que está passando ai dentro? – Apontou para o meu peito quando chegamos à sala e sentamos no sofá.
-Uma confusão. – Ponho a mão sobre o peito. – Difícil de explicar. Uma angústia.
-Você gosta dele, não é?
-Nós convivemos juntos, eu conheço cada pedaço seu, cada pequeno detalhe. Nós formamos nossa personalidade adulta juntos, viemos pra cá juntos. – Dou um baile com meus olhos, olhando para tudo, menos para ela. Não quero chorar. – Como não gostar? Como não se apegar?
-E ele gosta de você?
-Como amiga? Sim! – Umma passa a mão em meus cabelos.
-O que aconteceu ontem foi por ciúmes?
-Eu não sei. – Dou de ombros. – Ele apenas surtou, batendo no seu amigo e brigando comigo. Uma possessão.
-Como se você pertencesse a ele?
-Exatamente. Sabe a história do cachorro que não rói, mas também não larga o osso? Estou me sentindo no meio disso.
-Não queria ser indiscreta, se não quiser me responder tudo bem, mas há quanto tempo vocês estão em função um do outro?
-Nós? – Volto minhas memórias uns anos atrás, em como tudo começou. Provocação atrás de provocação. Eu queria, ele queria e ambos tínhamos medo de tentarmos algo, até que aquela festa chegou e nós, finalmente, tentamos algo a mais. Desde então estamos ai. – Uns quatro anos?
-Nossa! – Olhou-me espantada. – Eu até achei que fosse recente...
-Não. – Balanço a cabeça, rindo um pouco sem vontade. – É de muito tempo.
-E vocês nunca falaram em namoro?
-Não e sim. Nunca falamos diretamente sobre o assunto, colocando nós em questão, mas no inicio, bem no inicio, eu não queria nenhum relacionamento e modéstia parte, ele também não. Então combinamos de ter algo mais casual, algo “mata-vontade”.
-Só que o sentimento começou a surgir, certo?
-É, eu acho que sim.
-Isso é sempre uma consequência.
-Mas depois de uns meses que nós começamos a ficar juntos, estávamos como namorados, sabe? Não sei se era impressão minha, mas havia algo ali. Fazíamos passeios de mãos dadas e com a Lana, víamos filmes e comíamos besteiras, até mesmo programas de casal...
-E vocês nunca falaram sobre isso?
-Nunca. Acho que por medo. – Fraquejo na resposta.
-Posso dizer algo, no meu ponto de vista? Tendo em ponto que eu não sabia metade do que estava acontecendo ontem e que ainda não sei a história toda. – Concordei com a cabeça e esperei ela começar. – Está claro que ontem foi por ciúmes, ok? Só que temos dois lados. O lado que ele pode ter sentido ciúmes de você como melhor amiga e o lado que ele pode ter sentido ciúmes daquele que antes era somente dele.
-E como eu vou saber? Bruno não se abre sobre seus sentimentos, até porque na maioria do tempo ele está em cima do muro, nem ele sabe o que quer.
-Onde ele está?
-Não sei, ele saiu ontem. – Dou de ombros. – Deve ter ido para suas muitas mulheres.
-É lindo ver esse ciúme, sabia?
-Talvez possa ser ciúmes mesmo. Eu estou carente, Umma. Tive apenas um namorado em toda minha vida e não me apeguei em mais ninguém, aí ele chega tomando conta de tudo.
-Tá faltando conversa entre vocês.
-Isso é claro, mas ele está sem tempo pra mim. Ele precisa fazer outras coisas. – Reviro os olhos.
-Porque não senta pra falar com ele?
-Eu já tentei, e isso que a conversa nem englobava nós, era apenas uma conversa que uma melhor amiga estava precisando. Sinceramente, só não desisto porque sou otimista, sei que ele irá cair na realidade do que está acontecendo. E tem a Lana. Não suportaria viver longe dela.
Era como um contrato. Bruno e eu tínhamos a amizade perfeita, que todos queriam ter. Ele era o melhor do mundo em me fazer rir, tínhamos os mesmos gostos, mas ao mesmo tempo muito diferente. Éramos unha e carne, completávamos até nossas frases. Tínhamos essa coisa de ter piadinhas internas, piadinhas para todas as horas. Sem contar que conversávamos sobre tudo. Aí nos envolvemos, sexualmente falando. Melhor impossível. Bruno é bom no que faz. Mas percebi que ele é bom para outras mulheres também, e depois disso cada vez que ele me falava sobre uma, meu coração doía de leve. Pus os pés no chão e percebi que eu estava viajando sozinha, então resolvi viver também. Mas ele não deixa.
Quando eu tento me esquivar, para o caminho da minha vida, ele me puxa – quase que literalmente -, para de volta em seu colo.
Assinamos dizendo que não teria sentimento envolvido. Eram apenas bons amigos matando o desejo. Mas eu estou vacilando e acho que me apaixonei pelo meu melhor amigo.
Tenho duas saídas aparentemente. Dar mais uma chance para ver se ele muda, ou simplesmente sumir da vida dele, ser apenas a mãe da Lana e uma conhecida pra ele.
-Irá dar uma chance pra ele?
-Já estamos na chance de número quarenta. – Rio. – Mas eu irei aguentar mais um pouco. Por mim, pela Lana e por tudo isso! Se caso não se concretizar, irei viver minha vida e não me importar com o que ele pensa ou se ele aprova. Não vivo por ele, nunca vivi por ninguém, só dou essas chances porque não vejo um mundo onde eu perca meu melhor amigo num piscar de olhos.
-Bem que você faz. – Pousou a mão sobre meu colo. – Não gosto de os ver assim. Adoro os dois como se fossem meus filhos, e trato a Lana como se fosse minha neta. Ver vocês dois em conflito a deixa muito triste.
Respiro fundo, e brinco com sua mão, dando um sorriso triste.
-Vai melhorar, ok? Eu irei conversar com ele hoje.
Ainda passamos um tempo conversando durante a manhã. Lana acordou por volta das nove horas. Tomamos nosso café sentadas a mesa e assim que terminamos, fui até o quarto dele verificar se ele estava em casa, mas está exatamente como estava ontem.
Liguei para o meu chefe e avisei que estava em casa, estava me sentindo indisposta e com muita dor de cabeça.
-E se assistirmos Monstros S.A. novamente? – Estico o DVD que está em minhas mãos para Lana. – Ela assiste desde bebê.
-Eu quero ver algo novo, mamãe. – Levantou do sofá, independente. – Vamos assistir esse aqui. – Entregou-me o DVD em mãos.
-Esse não é novo. – Olhei para a capa do “Bela e a Fera”.
-Eu sei, mas decidi esse. – Sentou-se novamente no sofá.
Eu e Umma rimos de sua pose adulta. A novidade é que mês que vem ela começará suas aulas. Irá fazer balé clássico e uma pequena escolinha de manhã para deixar Umma um pouco mais tranquila de tanto trabalho e para ela começar a criar amiguinhos além de seus primos e os filhos da Urbana.
Estava ansiosa para, em fim, coloca-la em alguma atividade e sei que ela se sairá bem, pois é desinibida e não tem medo de coisas novas. Aventureira minha pequena.
-Onde está o papai? – Perguntou quando nos deitamos nos edredons que colocamos sobre o tapete.
-Papai saiu. – Disse.
-Ele foi fazer uns trabalhos dele. – Complementou Umma. – Mas disse que ama você e que já, já estará aqui para lhe dar muitos beijos e abraços.
-É? Mas ele nem se despediu. – Torceu a boca.
-Ele foi apressado, você já estava dormindo. – Respondi.
-Tomara que ele venha até a noite, daí podemos ler umas histórias e brincar.
Respirei fundo desejando intensamente que até o final do dia, Bruno aparecesse por ali e não deixasse a sua filha apenas na vontade. Que cumprisse seu papel e viesse para junto dela e parasse com essa bobagem.
O filme começou e, enquanto as duas estavam vidradas na televisão, tentei ligar mais uma vez pra ele. Duas, três, quatro, até a sétima ligação. Somente chamava, ninguém atendia. Prometi que a oitava seria a última ligação daquele momento, e na oitava ao invés de chamar e ninguém atender, ele apenas deixou tocar algumas vezes e desligou.
Ao acabar o filme, Umma levou Lana para ajuda-la a fazer um bolo e eu ajudei. Quando colocamos no forno, pedi licença para elas e me afastei. Disquei o número do Kenji, respirando profundamente e com um interior pesado. A culpa ainda não havia abandonado meu peito, tinha assuntos pendentes para resolver com ele.
-Alô. – Ouvi sua voz e a primeira coisa que percebi foi como a sua volta estava tudo calmo.
-Oi... – Respondi. – Tudo bem, Ken?
-Tudo bem, Lea. E com você? – Sua voz estava bem calma, assim como ontem que mesmo após a briga ele continuava calmo e sereno.
-Estou bem... Mas você está bem, bem? Digo, como estão as escoriações e tudo mais?
-Ah. – Ouvi sua risada. – Minha mãe e minha irmã me ajudaram, passando uma pomada que compramos. Mas não houve nada demais, apenas esses pequenas escoriações, um corte no cantinho da boca e um inchaço na bochecha.
-Só isso? – Satirizo. – Bom, eu vou pedir desculpas pela milésima vez. Eu sinto muito pelo que aconteceu.
-Não sinta. Eu deveria prever que esse tipo de coisa aconteceria.
-Claro que não. Eu não sou nada dele, esqueceu?
-Mas vocês tiveram algo e se gostam. Eu entrei depois, não posso reclamar das consequências.
-Me desculpa. – O pedaço onde ele diz “vocês se gostam”, roda em minha cabeça com letras gigantes em neon. Eu só posso estar maluca.
-Já disse que não houve nada, Lea. Pode ficar tranquila.
-Tudo bem. Onde você está?
-Na casa da minha mãe, estávamos assistindo algumas coisas e conversando.
-Ah, e eu te interrompendo. Quanta indelicadeza. – Comecei a rir. – Mande um beijo para sua mãe.
-Mãe, ela mandou um beijo.
-Obrigada. – Ouço-a dizer. – Essa é a menina culpada disso?
-Mãe. – Ouço um barulho assim que ouvi o que ela disse. Pelo som que estava em volta, ele havia trocado de ambiente. – Desculpe.
-Pelo que? – Resolvo contornar.
-Nada não.
ზ
O relógio marcava nove da noite e minha cabeça estava pra lá de pesada. Queria dormir, dormir e dormir. Compensar a noite que passei em branco, mas percebi que essa seria mais longa ainda.
Assim que terminamos de jantar, retirei os pratos, lavei a louça e ajudei Lana no banho. Umma já havia ido pra casa. Ajeitei a Lana para dormir com seu pijama e sentei com ela na cama. Tapei até seu pescoço e fiquei olhando o rostinho lindo e angelical que ela tem. Como pode parecer tanto com o Bruno e ao mesmo tempo não parecer nada?
-Onde o papai está?
-Ele ainda não voltou.
-Mas queria ele aqui. – Fez um beicinho tão bonito, mas da dó de vê-la assim.
-Ah, minha pequena. – Inclinei-me para beijar sua testa. – Lembra que sempre conversamos sobre o trabalho do papai? Ele precisa estar distante às vezes para trabalhar.
-Eu sei, mas ele disse que ficaria comigo essa semana.
-Sei que ele falou e ele não irá descumprir com isso.
-Eu queria dormir com ele. – Seus olhos enchem de lágrimas e em instantes ela começa a chorar.
Lana tira as cobertas e deita sobre o meu colo, colocando as mãos no rosto e chorando convulsivamente. Soluçava e não havia palavra minha que fizesse parar. A confortei com meu colo e minhas carícias, mas não ajudava tanto. Ela precisava do seu pai com ela.
Fiquei um tempo com ela, nanando e contando uma história pequena que inventei na hora. O choro cessou e aos poucos ela foi se entregando ao sono, com um bico feito pelos seus lábios e o rostinho molhado das lágrimas que derrubou. Meu peito só apertava ao vê-la naquela situação.
Deitei-a e depositei um beijo em sua testa. Saí do quarto e peguei diretamente meu celular para ligar para o Bruno. Mais quatro ligações que não foram atendidas.
Fiquei navegando na cama, olhando para os lados e tentando dormir o sono que meu corpo implorava, mas não conseguia. Não parava de pensar no Bruno e onde ele estava, porque ele havia sumido e não nos dado noticias, e meus ouvidos em alerta para caso Lana chorasse durante a noite. A preocupação tomou conta da minha cabeça por completo.
ზ
-Ficarei hoje para ajudar você. – Umma viu meu estado e se pronunciou.
Há três dias, também, não durmo direito. Minhas olheiras estão profundas, a força vai diminuindo e a paciência com essa bobagem que ele fez, também vai.
Não sabia mais o que fazer. Não queria ligar para a sua mãe para não apavora-la, mas não tinha mais saída. Precisava ligar para ela ou para o Phil, mas ele é outro que se souber que o Bruno sumiu, irá surtar e colocar até o FBI atrás dele.
As possibilidades se esgotavam e tudo estava se esgotando. A dor fazia parte da minha cabeça, e nem remédio curava.
-Vou ligar para o Phil. – Levantei decidida ao que fazer. Se ele é doido, colocará o FBI atrás dele mesmo, mas pelo menos eu vou saber o que está acontecendo.
Procuro o número dele e telefono. No segundo toque ele atende.
-Olá.
-Hey, Phil. Tudo bem? – Tentei ser o mais animada possível.
-Lea! Tudo ótimo, e por aí?
-Aqui está tudo bem, na medida do possível, mas obrigada por perguntar. – Ouvi a voz de Megan, que finalmente chega para me acompanhar nisso tudo, coisa que ela também estava achando um absurdo. –Escuta, quero ser breve para não te atrapalhar... Você tem notícias do Bruno?
-Lea...
-Ele não aparece em casa há três dias, Phil. Você já sabe da briga do Kenji, certo? – Ouvi seu consentimento. – Desde que isso aconteceu, ele sumiu. Saiu de casa e não deu a porcaria de um paradeiro ou notícia. Eu estou apavorada.
-Porque não ligou antes? – A sua voz continuava tranquila.
-Porque eu não queria apavorar todos. Sabe que mesmo que fossemos registrar uma ocorrência iria demorar dois dias para as buscas. – Dou de ombros, interpretando como se ele estivesse me vendo.
-Escuta Lea. Eu soube o que aconteceu com o Kenji e vocês, lamento por tudo isso. Bruno cancelou os ensaios até terça feira...
-Então ele deu notícias?
-Ele está bem, só isso que pôde me dizer. Falou também que estava cansado e queria um tempo para a cabeça dele.
-É, só que ele não é sozinho nesse mundo! Bruno tem uma filha que está apavorada sem ele. Nem comer ela quer agora.
-Como?
-Phil, a Lana está sendo afetada por tudo isso, então se seu amigo te ligar. Avise pra ele que ele é um idiota e que está deixando a filha dele doente.
Falei para o Phil o que estava acontecendo com ela e avisei que eu mesma iria falar pra ele. Ele não quer me atender, mas algo eu vou fazer que ele vá notar.
Naveguei pelo twitter, vi suas últimas atualizações, coisas de um dia atrás. Ele está bem! Realmente bem! Só não quer me atender, mesmo que o assunto seja urgente. Abri a caixa de mensagem e escrevi uma pra ele.
“Não sei se é do seu interesse, mas a sua filha está doente.”
Apertei meus olhos, coloquei a mão sobre a cabeça e só desejei que pudesse dormir em paz e sem dor, sem preocupações, sem Bruno bancando a criança estrela.
-Hey. – Megan vem ao meu encontro, abrindo seus braços para me abraçar. – Tudo bem? Você está péssima!
-Obrigada. É bem empolgante saber disso. – Digo com a voz abafada por seus cabelos. – Eu estou bem.
-Bem mal, né? E o Bruno, deu noticias?
-Falei com o Phil agora. Ele falou com ele e disse que está bem, só que me vi obrigada a mandar uma mensagem pra ele, informando sobre a Lana.
-Coitadinha, ela não está bem com isso.
-Não mesmo. – Olho para ela, na sala com a Umma, carinha de cansada e doente. – Ela chora de noite, muito. Hoje piorou... Não quer comer, não quer brincar, nem chorar ela está chorando. Só me preocupo com a febre que sobe pouco a pouco.
-Esse cara é um irresponsável. – Revirou os olhos. – Um idiota por ter feito aquela cena toda, que quero com detalhes depois. – Havia contado para Megan o que aconteceu, é claro. Contei algumas coisas por telefone, mas ao vivo é sempre melhor e mais detalhado. – Desculpa não vir ontem. Sabe como aquele restaurante está uma bagunça.
-Só perdoou se fizer comida pra mim. – Sorri. – Preciso muito de uma boa janta.
-Precisa de horas de sono, um tratamento de pele... Muita coisa, né! – Passou a mão pelos meus cabelos. – Está assim de preocupação ou está fazendo greve de beleza por que o Bruno sumiu?
-Engraçadinha. – Ofereço um riso sem graça que provoca uma risada verdadeira. – É preocupação com ele, com a Lana, pensando no que aconteceu também.
-Está mais do que na hora de você deixar ele cuidar mais da Lana e você cuidar mais de si. Lea, sinceramente, você cuida dela desde que ela nasceu. Sei que a ama como mãe, mas precisa ter tempo para você também.
-Eu sei.
-Dizer “eu sei” não adianta de muita coisa. Ponha rédeas. Diga “olha, essa noite você ficará com ela, pois irei sair”. E ponto! Ele não tem como não aceitar, já que ele tem mais obrigações que você.
-Eu sei.
-Novamente... E escuta. – Pegou no meu braço, fazendo encarar seus olhos, bem ao fundo. – Você vai continuar ficando com mais homens, ouviu? E se o Bruno der a louca novamente, você vai simplesmente ignorar, que ele irá parar.
-Ele fez isso porque o Kenji é amigo dele e companheiro na banda...
-Não foi só por isso, nós duas sabemos que não.
-Lea! – Ouço Umma me chamar. – A febre aumentou.
-Droga. – Respiro fundo olhando para Megan, talvez ela pudesse trazer a solução dos meus problemas.
-Vamos leva-la no médico?
-Vamos. – Respondo. – Vai ser menos preocupante.
ზ
Chegamos em casa após Lana ser atendida. O mesmo de sempre: uma virose. É o que sempre falam quando ela tem essas brigas, mas ela tem isso quando o clima dentro de casa não está dos melhores. Ela sente quando eu e o seu pai não estamos muito bem, desde bem pequena ela sente. Isso é fato!
Minha pequena sensitiva sentimental estava adormecida no colo da Megan após tomar soro na veia. Largamos Umma em casa, pois Megan me ajudaria e ela também precisa descansar.
-Você vai comer algo, tomar um banho e dormir, ok? Lana está bem, está dormindo e eu irei manter meus olhos sobre ela. – Megan ia falando enquanto eu abria a porta.
-Graças a Deus. – A voz, devastada desesperada e aliviada por estar vendo ao mesmo tempo, de Bruno ecoa pelo hall de entrada. Ele nem olha pra mim e vai direto para Megan. Pega a sua filha no colo, sem acorda-la e fecha os olhos.
-Oi? – Megan, assim como eu, estava perdida no que estava acontecendo.
-Por onde você andou? – Tentei manter a maior calma possível.
-Estava por aí, Eleanor. – Eleanor? Uhu, ainda bravo comigo e eu não estando nem aí pra ele. O que me alivia é ver que a Lana irá melhorar.
E que ele está bem, também, é claro.
-Ah, sim! – Solto um bufo alto e Megan segura meu braço para ficar ao seu lado.
-Megan, obrigada... Mas se quiser ir embora, tudo bem, cuidarei dela hoje a noite.
-Se não fugir novamente. – Disse baixinho e ele soltou trevas pelo seu olhar sobre meu rosto.
-Eu não irei ir embora, desculpa Bruno! Mas não é só a Lana que precisa de ajuda, minha melhor amiga também precisa.
Me senti frágil, completamente frágil. Só aí vi que eu realmente não estava pensando em mim nesses dias, somente na Lana e no Bruno. Eu deveria estar realmente horrível e não me sentia bem, de fato.
-Tudo bem. – Caminhou um pouco com a Lana. – Fique a vontade.
-Bruno? – Ela o chama e ele para. – Posso fazer o jantar?
-Claro.
Megan ia fazendo a comida e eu a auxiliando. Não que ela precisasse, mas com algo eu precisava me distrair. Ligamos a televisão da cozinha para dar um som ao ambiente e conversamos sobre qualquer assunto diferente do que estava acontecendo. Também não poderia ser injusta que minha cabeça girava naquele assunto, e a cada pausa que tínhamos entre o que falávamos, eu pensava no Bruno e na confusão da semana. Eu me odeio por me martirizar com isso, nunca fui assim, mas pra tudo há uma primeira vez.
-Avise o Bruno que está pronto, por favor.
Levantei e fui até o seu quarto. Por mais que eu soubesse e que ela transparecesse que, queria que eu largasse do Bruno de vez e vivesse minha vida – ela realmente quer isso -, mas sessenta porcento do pensamento da Megan sobre Bruno e eu, é que formaríamos um belo casal juntos, e eu sei que ela ama quando está tudo bem.
Minha amiga só quer o meu bem e minha felicidade, ela sabe que com o Bruno eu sou feliz, mas sofro, e que sozinha posso achar novos caminhos para novas felicidades. É complicado de se explicar, mas eu entendo o pensamento dela, mesmo ela nunca tendo me dito.
-O jantar está pronto. – Bruno estava no quarto da Lana, sentado na poltrona e olhando para ela, que dormia como um anjo. Ela sentia que ele estava ali. – Bruno? – Chamei a sua atenção já que ele não me ouviu.
-Eu já ouvi. – Respondeu e resmungou para si: - Acha que eu sou surdo.
-Sem paciência.
Saí daquela porta antes que eu fosse capaz de entrar naquele quarto e encher ele de socos por me dar um fardo desses.
Bruno jantou praticamente no outro lado da mesa, de certo não queria contato comigo, já que agradeceu a Megan pela comida maravilhosa e beijou sua bochecha.
Um idiota, não passa disso. Se acha mesmo que correrei atrás dele porque ele está bravinho comigo, está achando bem errado e não me conhece. Não faço esse estilo e nunca farei.
E a madrugada chegou. Eu e Megan fomos ver um filme, mas não aguentei nem ao inicio e dormi. Dessa vez eu realmente dormi como queria e no domingo acordei um pouco mais das onze horas.
-Bom dia. – Megan dobrava o pijama que tinha usado.
-Bom dia. – Esfrego os olhos. – Pode deixar ai que eu arrumo depois.
-Vá tomar seu café e um bom banho.
-Já acordo com as suas ordens. – Tiro a coberta de cima do meu corpo e levanto. – Já tomou seu café?
-Faz tempo. – Riu. – Já tomei banho, já limpei a cozinha. Não precisa me agradecer.
-Vá à merda, Meg. Obrigada. – Atiro um beijo pra ela, que ri e atira outro.
-Daqui a pouco sairei com o Caleb, tudo bem por você?
-Ah, claro. Vão se divertir.
-Vamos ao cinema.
-Depois para o motel, qual a novidade?
-Vá à merda. – Satirizou o que eu disse e fez sinal para que eu fosse tomar meu café.
Quando passei pela sala, Lana me viu e veio correndo em minha direção. Me abaixei para abraçar minha pequena e já pus um largo sorriso no rosto por vê-la sorrindo e correndo novamente. Era somente a falta do seu pai.
-Bom dia, vida. Já tomou café?
-Bom dia. Há muito tempo mamãe. Já quero almoçar.
-Meu Deus, pra onde vai tanta comida? – Passo a mão sobre a sua barriga e aproveito para fazer cócegas. – Quer fazer companhia para a mamãe?
-Estou brincando com o papai, quer brincar com a gente?
-Ah. – Procuro nem olhar para a sala, só de pensar já sinto que virá aquele canhão trevoso de carga pesada pra cima de mim. – Depois eu brinco, ok? Agora vou comer, porque saco vazio não para em pé.
A pus no chão e fui para a cozinha. Megan havia deixado tudo pronto sobre a bancada, com a telinha de proteção sobre as comidas e o controle da televisão ao lado. Até ri de fofura que minha amiga teve comigo.
Depois que Megan foi embora e que já havíamos pedido o almoço – guardaria o meu para mais tarde, já que meu almoço foi meu café -, sentamos na sala, estranhamente Bruno e eu no mesmo ambiente sem ele estar com uma cara de bunda.
-Você é essa. – Entregou-me uma Barbie. – E o papai é essa. – Entregou outra pra ele.
-Qual é o meu nome? – Perguntei.
-O que você quiser.
-Ok.
-Eu sou o Shrek. – Bruno fez um barulho, imitando um ogro e Lana caí na gargalhada.
-Você não pode ser o Shrek, papai. – Balançou a cabeça como se aquilo estivesse muito errado. – Você é uma princesa.
A sala estava uma completa bagunça. Lana trouxe até mesmo alguns acessórios meus e maquiagens velhas que dou para ela brincar quando ela quer, desde que não suje seus brinquedos e suas bonecas, esse é o combinado.
Em poucos minutos Lana não quis mais brincar de Barbie e começou a pegar as maquiagens. Pegou o batom e tentou passar na sua boca. Imitou o gesto que sempre faço para ajustar qualquer borrão e me fez ter convulsões alegres por isso.
-Agora sua vez! – Abriu um pouco mais o batom, o grande detalhe é que já estava todo aberto, sorte que é usado então estava com a ponta bem menor e não estava muito propício a quebrar.
-Eu? – Bruno ri. – O que vai fazer?
-Vou deixar você bonito, papai.
Comecei a rir e ele também. Senti algo bom quando ele me olhou e riu.
-Lana, você está dizendo que eu sou feio?
-Não, papai. Mas isso melhora.
-Então eu preciso melhorar? – Tadinha, já estava ficando confusa e eu rindo de toda a situação.
-Ai, papai. – Agiu como se estivesse impaciente, mas colocou um sorriso no rosto. Que atriz essa menina. – Você é lindo. E você também, mamãe.
-Obrigada. – Agradeço a ela.
-Fecha a boca. – Pede para o seu pai e ele a obedece.
Lana passa o batom como acha que deve ser passado. De inicio ela não erra muito, mas também só passa no meio. Em pouco tempo começa a preencher os lábios, e o batom começa a riscar até as bochechas do Bruno.
-Que lindo. – Ela diz quando determina que acabou. – Agora vamos por isso.
Pegou uma tiara antiga que tinha e tentou achar como usa-la certo. Achou o modo e colocou na cabeça do Bruno sobre seu cabelo.
-O que é isso? – Pergunta mostrando pra mim.
-Uma pulseira. – Respondo e ela fica olhando pra ele, procurando onde pôr.
-Onde coloca?
-No pulso, meu amor.
-Ah. – Colocou no pulso do pai, com dificuldade, pois não entrava direito pela sua mão. Diferenças de masculino para feminino.
Lana pegou até uma sombra antiga e passou no seu pai. Ele estava “lindo”, mas o que era mais lindo era seu sorriso largo. Minha princesa também estava feliz, enfeitou todo o seu pai e se enfeitou também, mas depois não sabia do que iriam brincar. Me pediu lápis e papel, pois ia desenhar um quadro para nós.
A tarde passou com várias brincadeiras, nos divertimos bastante, mesmo não dando uma palavra com o outro. Rimos e fazemos Lana feliz após tantos dias de apreensão e choro da pobrezinha.
Jantamos e arrumamos Lana para dormir. Contei a sua história, mas parei para que Bruno pudesse cantar pra ela.
Tomei meu banho e pus meu pijama. Segunda feira estava chegando e seria mais um dia de trabalho pela frente.

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