terça-feira, 10 de novembro de 2015

Capítulo 47


Deve ter sido amor, mas acabou agora
É para onde a água flui
É para onde o vento sopra
(It must have been love - Roxette)


Dez de março de dois mil e doze

Duas horas antes de sairmos, na hora da janta, alguma mulher ligou para o Bruno. Alguma das mulheres que ele anda, pois ficaram falando no telefone enquanto ele passava o momento da janta com a sua família. Mas ele mal respeitou, apenas continuou usando o telefone e não prestando atenção no que eu falei, até que desisti. Tirei a comida da mesa e carreguei a Lana junto comigo para arruma-la.

-Se comporta na casa da titia, ok?

-Vou brincar bastante. – Mexeu no meu cabelo enquanto eu arrumava o casaquinho no seu corpo.

-Vai sim, mas tomando cuidado, ok?

-Ok. – Balançou a cabeça.

Havíamos dado o final de semana para Umma aproveitar, já que Jaime fez questão de ficar com a Lana para passar um tempo com a sobrinha.

Observo a pequena grande menina que ela está se formando. Tão grande, mas tão pequena e vice versa. Parece que há dias atrás eu a peguei no colo, a senti na barriga da sua mãe, disse que ela poderia se chamar Lana, disse ao Bruno ficar tranquilo que uma filha não atrapalharia em nada... E olha agora! Sério, como ela pode crescer tanto? Ficar tão esperta a cada dia que passa. É tão impressionante.

-Quando irei ter um irmãozinho como o Marley tem o Jaimo? – Olha nos meus olhos e eu procuro a cama para sentar.

-Isso tem que pedir para o seu papai. Acho que quando ele arranjar uma namorada ele conseguirá um irmãozinho para você brincar.

-Mas a namorada dele é você. O que é namorada?

-Namorada é quando você gosta tanto de alguém que quer essa pessoa só pra você.

-Você e o papai são meus namorados. – Sorri de orelha a orelha. – E meu titio, meu priminho. As titias e meus outros priminhos, a tia Megan, a vovó Appril, os vovôs, a vovó Bernie... É muito namorado. – Fez uma carinha fofa, me obrigando a puxa-la e abraça-la, apertar bastante suas bochechas e enche-la de beijo até ouvir aquela gostosa gargalhada.

-O tio Caleb eu não quero pra namorado.

-Porque não, princesa?

-Porque ele fez a tia Megan sofrer.

-O que você sabe disso, bebezão? – Começo a rir da minha pequena querendo parecer mais adulta. – Vamos lá?

-Vamos, só deixa eu pegar o Teddy. – Correu até sua estante de pelúcias e puxou o Teddy que estava na parte debaixo, mas acabou derrubando quase todos que estavam ao lado dele. – Ih, mamãe. – Deu um riso sapeca e saiu correndo.

Juntei os ursos, rindo dela e das suas palhaçadas. Bom humor que puxou ao pai – quando quer. E voltei para a sala.

Bruno estava no celular ainda, só sorrisos com seja lá quem estava falando, e usou o handsfree para poder continuar falar com essa pessoa enquanto dirigia. Fechei o rosto o caminho todo. Ele desligou, nós largamos a Lana na casa da Jaime e fomos para casa novamente.

-Que cara estranha é essa? – Pergunta super indelicado.

-Tá feia? Porque é a única que eu tenho. – Bufo olhando para as ruas através da janela.

-Tá linda, parece um cu.

-Cala a boca, Bruno, por favor. – Bufei novamente e ele riu.

-O que estava falando com a Lana no quarto?

-Sobre namorados.

-O quê? – Arqueou as sobrancelhas desviando rapidamente o olhar do trânsito para mim.

-Isso mesmo. – Pigarreio. – Ela queria saber quando iria ganhar um irmãozinho, eu disse a ela que quando você arrumasse uma namorada, aí ela perguntou o que era namorada e eu falei que é quando você gosta muito de uma pessoa que a quer somente pra você e ela começou a listar todos que queria como namorado. – Falei toda a história e só no final fui perceber que ele não estava nem aí para o que eu estava falando. – Esquece. – Desfiz o sorriso que estava em meu rosto e voltei a observar a rua.

Nesses dois meses que ele passou diretamente fora de casa, ele deu notícias suas e tudo mais, mas nada como era. Ele preocupava-se com sua filha na maior parte do tempo, mas desde que chegou, antes de ontem, não parou pra conversar comigo. Ficou no seu celular ou nem prestava atenção em mim. Cansativo isso.

Não sei se ele entendeu, mas eu senti sua falta. Senti saudades dele e da sua voz. Assim como a Lana.

Mas, ainda bem, que tenho Kenji para me deixar feliz. Não somente pra isso, claro. Estamos nos dando bem, combinamos legal e matamos nossas vontades juntos. Bruno muitas vezes teve compromissos dos quais não precisavam da banda, então eles voltavam para Los Angeles, e nós nos encontrávamos. Acho que Bruno nunca suspeitou de nada sobre isso.

A roupa estava sobre a cama, somente entrei para o meu banheiro e tomei meu banho.

Vesti minha roupa e fiz minha maquiagem, soltando meus cabelos da hidratação caseira que fiz a tarde e aproveitando a maciez e brilho que ele estava. Calcei meus saltos e fiquei na sala esperando ele aparecer, mexendo no celular e tweetando algumas coisas desconexas.

-Vamos, rainha?

-Claro. – Levantei-me e senti seu olhar de cima a baixo na minha roupa.

-Que saia mais curta... – Levantou uma sobrancelha e ficou encarando minhas pernas. – Se quer minha opinião, eu não iria com essa roupa.

-Que legal. – Caminhei até a porta. – Porque eu não quero sua opinião. – Abri a porta e sai antes dele.

-Dre não irá nos buscar. – Falou da porta. – Vamos entrar pela garagem.

-Porque não avisou antes? – Reviro os olhos.

-Porque a rainha não me ouve, não gosta de opiniões.

-Cresce, Bruno! – Passo por ele, dando um tapinha em seu braço e oferecendo um sorriso irônico.

-Bem eu que tenho que crescer, não é? – Foi resmungando atrás de mim, parecendo um velho.

Entrei no seu carro no banco do carona, puxei o cinto e esperei que ele entrasse. Mexi no meu celular por algum tempo e ele saiu de casa, dando um tapa na minha mão e deixando meu celular cair nos meus pés.

-Pra que isso, seu imbecil? – Tirei o cinto para que pudesse pegar o celular.

-Pra você parar de prestar atenção nessa coisa.

-E prestar atenção onde? Em você que mal olhou pra mim desde que chegou? Que eu falo tendo um monólogo, pois você não responde? – Despejei o que queria dizer. – Sabe que eu não sou assim, não irei implorar a sua atenção.

-Eu sei. – Parou o carro. – O que quer de mim é atenção? – Virou seu corpo para o lado, puxando meu rosto para frente do seu, praticamente grudado. – Você terá.

Beijou-me a força, coisa que eu não correspondi, apenas fiquei parada sentindo e vendo ele tentar introduzir sua língua em minha boca, em morder meus lábios.

-Não sei o que você quer. – Voltou para o jeito que estava antes e começou a dirigir novamente. – Sinceramente.

Disquei o número da Megan e dei alô, ignorando completamente o que ele estava falando comigo. Não queria começar a discussão agora, mas também não queria falar com ele e ignorar o fato de que ele está frio comigo.

Bruno Pov’s

Já tinha tomado mais de quatro doses de whisky e para mim estava de bom tamanho. Minha visão estava levemente turva e eu não queria ficar bêbado nessa noite. Eleanor ainda continuava a dançar em minha frente, mas não pra mim. Focava seu olhar para a pista e para a sua dança. Atraía olhares de muitas pessoas, até mesmo do Ryan. Ela estava acompanhada de uma menina, amiga de Megan que virou sua amiga também, uma latina como ela, linda.

-Precisa de babador? – Pergunto, chegando perto deles.

-E esse ciúme? – Phil esbarrou no meu braço, rindo a beça.

-Ciúme? – Rio. – O problema é que vocês acham que eu sou bicho preso. Não sou. – Pego o copo da mão do Ryan e bebo um gole.

Largo logo, pois lembro que não iria mais beber.

-Vou avisar pro Kenji dançar mais perto dela. Tudo bem? – Ryan diz, apontando para o Kenji na pista.

-Tudo bem. – Dou de ombros.

Por uns dez minutos vi os dois dançarem. Estavam separados no inicio, depois os corpos ficaram bem colados, mas logo ela separou para beber e ficaram um pouco afastados, já que ela estava com o copo na mão.

Eu definitivamente odeio discutir com ela, me sinto um idiota, porque essa idiota sempre me vence e sempre consegue me deixar com raiva de mim mesmo, fazendo-me martirizar.

A vi ficar bem próxima da sua amiga e dançar com ela. As luzes da boate baixaram um pouco e a fumaça saiu. Ficou completamente impossível de ver o que estava rolando por ali. Por alguns segundos ficou tudo assim, mas quando já se passava quase um minuto que ela sumiu da minha vista, ouço uns gritinhos e alguém me cutuca no ombro.

-Vamos ter um show. – Ari ficou bebendo do seu copo, com a mão dada em sua namorada e olhando diretamente para o pole.

-O que é isso?

Arregalei os olhos quando vi que ela subiu no pequeno palco que envolve o queijo, junto da sua amiga. As duas começaram a dançar sensualmente roçando os corpos lindos uma na outra, deixando os rostos bem próximos e levantando os braços enquanto a outra passa o braço pelo corpo.

Instigante, sensual e sexy. Queria ver muito mais daquilo, mas não para todas verem, apenas eu e ela dentro do quarto junto com a sua nova amiguinha. Megan retornou com o Caleb e quando viu o que acontecia, deu um grito de incentivo. De canto já pude notar o olhar dele sobre as meninas no palco. Idiota.

-Tira a roupa. – Ouço algum homem falar perto de nós. Ajeitei meu chapéu e olhei novamente para elas, que já estavam com suas mãos no corpo antes, mas agora um pouco mais afundo.

-Tira ela de lá. – Puxei a Megan para pedir.

-Não. – Fez uma cara de nojo. – Ela está bem, está se divertindo.

-Megan! – Esbravejei. – Ela precisa sair de lá.

Estava olhando para a Megan e falando, quando os gritos aumentaram e até um assovio o DJ colocou. Olhei para a fumaça que novamente foi acionada e dentro de uns instantes vi que as duas estavam apenas de sutiã, com os corpos agarrados e os olhos penetrantes.

-Elas vão se beijar. – Ouvi Ryan dizer e Phil ri logo atrás de mim.

-Cara, isso tá ficando melhor do que eu pensava. – Kenji esticou-se no meio das pessoas que estavam ali para conseguir ver melhor.

As mãos da menina foram para o sutiã de Lea, e os lábios se pecharam. Primeira vez que minha garota beija outra garota. O beijo estava delicioso, eu podia sentir daqui. Não sei se sentia raiva por ela estar ali em cima, de sutiã, sendo desejada por todos, ou se fico com tesão das duas delícias que podem parar juntas na minha cama essa noite.

Eleanor pega um copo de qualquer pessoa que está perto dela e vira de frente para o povo. O DJ colabora colocando uma música bem mais animada e todos pulam, inclusive ela e a mulher, que bebem a bebida e se beijam novamente, vorazmente. A mão na nuca, puxando os cabelos deixando tudo mais gostoso, me dá um tesão sem igual.

-Eu disse que não ia ficar com ninguém essa noite. – Resmungo pra mim mesmo. – Que não ia mais beber por hoje. – Viro-me para a mesinha da nossa área. – Mas eu vou fazer tudo isso e na minha cama hoje para duas mulheres. Sejam elas, sejam outras, elas irão parar.

Levanto o copo que acabo de servir pra mim e bebo tudo de uma vez, aguentando a careta que iria vir pela queimação causada no meu corpo e servi mais uma dose. Peguei um pouco do cosmopolita que estava servido na nossa mesa, pedido pela namorada do Ari e misturei com uma das bebidas que ali estava.

Ingeri tudo observando o show que estava sendo dado lá em cima daquele pequeno palco. Algumas pessoas nem olhavam mais, outras ficavam vidrados. A mulher que está com a Eleanor estava pendurada no queijo, fazendo algumas coisas bem legais e Lea dançando ao lado. A vi incentivar Lea a tentar dançar naquela coisa, mas ela reclamou da saia que iria aparecer sua calcinha, tudo isso fazendo gestos lá em cima.

Não sei o que ela falou para a Eleanor, mas as duas se beijaram e ela criou coragem para tentar algo. Não teve tanto sucesso como a outra, mas no momento que ela conseguiu ficar com a cabeça baixa naquele negócio de ferro e girou para baixo com o auxílio da menina, todos viram suas pernas e sua saia que estava subindo.

-Eu vou tirar ela lá de cima. – Berrei dando um passo pra frente e sendo segurado no lugar.

-Deixa ela se divertir. – Megan me intimida, falando bem perto do meu ouvido.

-Eu vou pegar alguém.

Virei às costas para aquele showzinho que ela estava dando e procurei alguém em outra pista. Uma pista de músicas animadas, mas não eletrônica, estava do lado da nossa, e foi ali que eu parei. Não estava a mesma energia que a outra e as pessoas me olhavam sabendo quem eu era, parecia ter pessoas mais novas por ali.

Cuidei cada uma das mulheres solteiras, ou que pelo menos aparentavam ser, da pista e fui dançar com uma loira um pouco mais baixa que eu, de corpo magro porém peitos bem fartos.

Dancei rapidamente com ela, mas não adiantava, minha cabeça estava longe dali. Aliás, perto!

Voltei para a pista depois de alguns minutos na outra e vi Eleanor fazendo body shot naquela mulher. Ela ainda estava sem blusa, eu estava com vergonha da decadência, pensando sinceramente em tirá-la de lá. Olhei para o Phil que levemente arqueou as sobrancelhas, ele também estava esperando que eu tomasse uma atitude.

-Vou ir lá.

Caminhei dentre algumas pessoas e sorri de má vontade para outras. Subi naquela porcaria de palquinho e puxei o braço dela levemente. Eleanor reclamou e a amiga também, começaram a rir descontroladamente e foi nessa deixa que eu a puxei para descer. Peguei na sua cintura e a desci daquele lugar. Catei sua blusa do chão e estiquei para ela.

-Me solta. Deixa eu me divertir. – Dizia enquanto se esquivava do meu toque.

-Lea, coopere, por favor. – Passo a mão pela cabeça, respirando fundo. – Coloque a blusa.

-Não vou colocar isso. Você acha que é o único que pode se divertir, que pode fazer o que quiser. Eu também posso, sou livre pra fazer o que quiser.

Deixei-a falando sozinha, mal prestei atenção, somente repetia para que ela vestisse a blusa. Quando ela começou a falar mais alto, chamando a atenção, me vi obrigado a fazer cara de paisagem para todos e mandar, com os dentes semicerrados, ela vestir a blusa de uma vez.

Estava impossível, e aquela menina não cooperava com nada, pois ficou indo entre nós dois para dizer que estava bem e queria dançar mais, deixando a Lea ainda mais eufórica. Dai-me paciência, em nome de Jesus.

-Só porque você não estava na nossa brincadeira, você quer me tirar de lá. Uh? – Resmungou, se escorando na parede. – Você é irritante, Bruno.

-Eleanor, eu estou perdendo a paciência, faz favor! – Estiquei a blusa para ela, ficando ainda mais irritado.

Ela pegou a blusa e vestiu, de mau jeito, mas a outra garota a ajudou. Afastei-me delas um pouco e fiquei cuidando elas continuarem a dançar e se “divertir” como ela mesma disse. Não tive um minutinho de paz, queria observar tudo o que ela fazia. Sou protetor dela quando está indefesa e ela está pra lá de bêbada. Não quero cortar o seu barato, afinal é raro ultimamente ela sair para se divertir, mas também não quero que mal algum aconteça a ela.

Aproximei-me do Kenji, que estava parado perto da mesa, olhando para elas também. Eu sabia que se a Lea desse algum pequeno espaço, ele invadiria e a pegaria sem dó.

-Hey. – Encosto no seu braço. – Ela está bêbada!

-O que?

-Ela está bêbada. – Torno a repetir. – Não ouse chegar perto da Eleanor. Ok?

-Quem você pensa que é?

-Eu que faço essa pergunta. – Esbravejo, serrando o olhar para ele. – Eu sou o melhor amigo dela, sou responsável por ela quando ela não pode responder por si.

-E eu sou o superman.

-Eu... – Fecho meu punho, segurando e controlando minha raiva.

-Você também é aquele que tira a vontade quando quer com ela, e como se chama isso? E essa cena agora... É ciúmes?

-Nada que lhe interesse. – Aproximo um pouco mais. – O que eu faço, o que ela faz, nada disso é da sua conta.

-Hey. – Phil afastou meu corpo com a mão espalmada no meu peito. – O que está acontecendo?

-Nada demais. – Respiro fundo. – Apenas um contratempo.

Procuro dentre as pessoas a Lea. Acho-a escorada na parede, se abanando. Ninguém estava prestando atenção, mas tenho quase certeza que ela está ficando mal. Saí da frente do Phil com pressa e fui para perto dela, pegando-a pela cintura e pondo o seu braço sobre o meu ombro. Nem perguntei o que ela sentia, apenas a arrastei para a área de fumantes e dei um toque no celular do Phil.

-Está com falta de ar? – Pergunto, mexendo nos seus braços numa tentativa de massagem.

-Vontade de vomitar. Quero algo doce... Água... Qualquer coisa. – Estava mole nos meus braços, quase caindo pra frente.

-Phil, consegue uma água? Chame as meninas! – Pedi tudo de uma vez e ele ficou todo confuso. – Rápido.

Eleanor Pov’s

Minha cabeça girava trezentos e sessenta graus por segundo, minha respiração não entrava e nem saía, minha visão estava dupla e eu queria algo doce, além da minha garganta seca. Bruno me segurava, com o olhar completamente mudado desde antes, já que havia ficado bravo pelo o que eu fiz.

As meninas chegaram à minha volta, falando sem parar, eu queria responder, mas estava complicado. Eu via duas de cada uma e isso me deixava nervosa, causando uma sensação terrível.

-Quero doce. – Resmunguei como pude.

-Phil está trazendo água. – Disse Megan.

-Eu não quero água. Água não.

-Não tem não, vai tomar e ponto. – Bruno disse autoritariamente.

Colocaram a água na minha boca e eu ri, cuspindo toda ela pra fora e revirando meus olhos levemente. Queria deitar em algo fofinho e comer doce, eu precisava. A respiração havia se normalizado e as meninas me carregaram para dentro do banheiro da boate.

Deram-me mais um gole de água e esse, quando engoli, pus pra fora na mesma hora, regurgitando tudo que tinha no estômago.


Minha cabeça doía, meu corpo a mesma coisa e no meu estômago parecia ter uma pedra. Tinha vontade de vomitar, mas eram apenas náuseas e não valia a pena tentar fazer isso.

Levantei da cama, meio cambaleante, coloquei meu hobby ao constar que estava apenas com meu camisetão de dormir e calcei minhas chinelas de pelego. Fui até a cozinha, com a casa em completo silêncio, e procurei os remédios. Tomei dois com um copo de água gelado e roubei um pedaço do pudim de laranja que tinha dentro da geladeira.

-Que dor. – Reclamo sozinha, voltando para o quarto e ouvindo o Bruno roncar.

Deitei novamente na cama, fechando os olhos e tentando lembrar das coisas da noite passada... Que vergonha. A maioria eu lembrava. Eu estava bêbada e o que estou sentindo é ressaca. Eu dancei em cima de um pequeno palco com um queijo no meio, eu beijei uma garota e eu gostei disso, eu fiquei apenas de sutiã e saia, mostrei minha calcinha para as pessoas que estavam olhando... Eu estou com vergonha, mas não estou arrependida.

Eu vivi pelo menos uma vez depois de tanto tempo, eu bebi e experimentei coisas novas, eu senti excitação numa mulher – provavelmente porque estava bêbada, porque pensando agora eu somente beijaria e nunca faria algo a mais, como eu pensei ontem que faria.

Mas em meio de tantas coisas, eu gostei.

Penso no pobre Kenji e no que ele se viu obrigado a ver ontem, espero que não tenha pensado que eu sou uma idiota que quando bebo fico perdendo a linha. Aconteceu poucas vezes e ontem foi uma exceção.

Reviro-me na cama, um lado para o outro. Ligo a TV a cabo e nada de muito bom se passava. Coloquei na reprodução aleatória do meu celular e deixo bem baixinho para não me causar mais dor de cabeça. Verifiquei se não havia nenhuma mensagem do Ken, como constei que não, larguei o celular ao meu lado.

Acho que adormeci por uma hora, mas quando acordei me sentia um pouco melhor. Um pouco, literalmente. Levanto da cama novamente e ando pela casa atrás de alguém acordado. Faço um sanduíche e tomo um copo de leite puro, lavo o que sujei e vou para a sala de estar.

-Como foi dormir depois de ontem?

-Tranquilo. – Respondo.

-Não está com dor de cabeça? Dor no corpo? Vomitando? Arrependida?

-Deveria? – Me fiz de desentendida. – Estou maravilhosamente bem, obrigada Bruno. – Ofereci pra ele um sorriso. – E só me arrependo de coisas que não faço e de coisas que realmente foram erros grotescos, e ontem não houve nenhum erro. Eu quis.

-Você quis se aparecer daquela forma? Tirando a blusa e tudo mais? Quase perguntei para Megan se ela não queria inscrever você numa boate.

-Não seria uma má ideia. – Sentei-me no sofá. – Eu quis aquilo, quis viver.

-Percebi.

-Mas porque se importa?

-Porque eu me importo com você?

-Não! Você é egoísta, só importa consigo mesmo e com a Lana, agora. – Despejo as palavras, mas não uso nenhum tom grotesco ou ofensivo, apenas digo com classe para me sobressair em qualquer caso.

-Realmente me preocupei com você. – Pensei que seria impossível ele se emburrar mais do que estava. – Eu... – Engoliu, seja lá o que ele iria falar, a seco.

-Dá um tempo. Você se preocupou tanto comigo que mal olhou em minha cara desde que chegou. Fazem três dias e você apenas me dizia coisas básicas e não presta atenção no que falo.

-Não quero cobranças, apenas.

-Não estou cobrando, não imploro por atenção, somente pensei que no seu papel de melhor amigo e de pessoa que passou dois meses distante de casa, pudesse, ao menos, perguntar se eu estou bem e se tenho alguma novidade, até mesmo sobre a Lana.

-Sei que não há, sobre ela você me deixou informado pelo celular. – Balançou o mesmo com a mão.

-Então de mim não queria saber? – Pergunto e não ouço nenhuma resposta.

Seu semblante mostrando um pouco de arrependimento, subiu na mesma linha que o meu e nos encaramos. Senti que daquela boca sairia algo.

-Eu...

-Ok. – Levanto-me, indo para o meu quarto, lugar no qual quero passar o resto do meu dia.

Bruno Pov’s

Na terça feira, começamos novamente no estúdio. O pessoal estava numa algazarra toda e minhas diferenças foram resolvidas, já que houve apenas um equivoco mal entendido naquela noite na boate.

Kam estava mexendo em alguns cabos com o Eric, enquanto eu e Phil íamos passando um pedaço único da letra que temos para o novo álbum. Kenji acompanhava na guitarra tentando mostrar alguma batida que encaixasse com a música.

-Vai demorar. – Estalou o pescoço. – Vou buscar um café, alguém quer algo?

-Eu. – Respondemos praticamente num uníssono.

-Precisamos de uma estagiária pra isso. – Ryan levantou. – Vamos nós dois. Anotem o que querem e deem o dinheiro.

-Esse cara é organizado. – Comento e ele ri.

-Pelo menos no serviço tenho que ser, porque minha casa e minha vida estão assim. – Fez um movimento circular com as mãos, no qual deduzi que estivesse de cabeça pra baixo.

Continuamos com nosso raciocínio, Phil e eu. Peguei a guitarra para eu mesmo arriscar algo e Phil batia com uma das máquinas. Eric falou algo engraçado provocando o riso de todos, incluindo o meu, e durante esse ataque de risos o celular de Kenji apitou.

Na frente havia uma mensagem. Olhei o nome três vezes para verificar que não estava ficando louco nem cego. Eleanor.

Ou melhor, entre parênteses, “lightzz”.

Que bosta de apelido é esse?

Tentei desbloquear, mas a senha não permitiu. Puxei a notificação pra baixo e rolou apenas o inicio da mensagem.

“Mal vejo a hora de ir embora, sério... Leva-me embora daqui :p preciso de um banho e pijam...”

Droga, não pude ler o resto. Larguei o celular no lado com medo que Kenji pudesse aparecer a qualquer momento, mas aquilo martelava em minha cabeça. Será que essa Eleanor é a minha Lea?

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