segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Capítulo 48



Ouça seu coração enquanto ele está chamando por você
Ouça seu coração, não há nada mais que você possa fazer
Eu não sei para onde você está indo
E não sei por quê
Mas ouça seu coração antes que você diga-lhe adeus
(Listen to your heart - Roxette)


Eleanor Pov's

Assim que saí do trabalho na quarta feira, avisei a Umma por mensagem que iria sair e voltaria à noite, mas que não era para se preocupar. Peguei uma condução até o apartamento do Kenji e toquei sua campainha.

-Boa noite. – Sorrio pra ele, me encostando na lateral da porta.

-Não seria boa tarde? – Arqueou uma sobrancelha e sorrio, sugestivamente.

Nos aproximamos para beijar-nos e assim entrei no apartamento, aos beijos com ele. Paramos por um tempo para que ele ajeitasse algo e ligasse pra sua mãe e eu fiquei esperando. O apartamento é legal, pequeno e bem aconchegante. Há aquela bagunça de homem, mas nada que não seja normal. Larguei minha bolsa sobre o sofá e ele me encontrou por trás, abraçando meu corpo e dando beijos em minhas costas, afastando meu cabelo e voltando-os para meu pescoço e nuca.

-Quer assistir um filme?

-Sério que você chega assim em mim e pergunta se eu quero assistir um filme? – Viro-me de frente. – É, praticamente, uma insulta.

-Não queria ser direto ao ponto, vá que você não quisesse e somente quisesse minha companhia.

-E quero. – Passo a mão no seu rosto. – De qualquer forma.

Tomo a iniciativa de beijar a sua boca e uma das suas mãos foi diretamente para minha nuca, puxar meu cabelo com força, como fazia sempre que íamos para a cama. Nos afastamos do sofá indo pro seu quarto que é ao lado.

Retiramos nossas roupas, sem perder o contato visual. Não ficamos juntos há uma semana, mais ou menos, e desde sábado, naquela boate, eu preciso transar, preciso que alguém me preencha e me dê prazer.

Kenji me tocou na cama, beijando minhas coxas com vontade e puxando minha calcinha pra baixo. Molhou seus dedos e introduziu dois em minha intimidade bem molhada. Sua língua começou o trabalho, mas eu nem estava ansiosa pra isso. Seu oral não é bom! Sua língua fica dura, ele não sabe ao certo quando parar e muitas vezes me deixa somente na vontade, ou baba demais ou deixa tudo muito seco, que se não fosse a minha lubrificação natural, eu estaria ralada. Seus dedos não conseguem acompanhar o ritmo da sua língua... Enfim, o oral não é uma das melhores partes.

Em compensação, quando Ken arranhou minha barriga e se posicionou entre minhas pernas, senti seu membro entrar em mim e já fiquei doida. Não é o maior nem o mais grosso que experimentei, mas seu rebolado e maneira de usar conseguem me deixar doida.

Arqueei minhas costas, gemendo com vontade, enquanto instigava meus mamilos.

-Senta em mim. – Me pede, pegando seu pênis com a mão e masturbando-o.

Esperei que ele sentasse na cama e ajeitei-me sobre o seu colo. Sentei até o talo e rebolei, deixando-o louco e deixando-me também. Meu clitóris estava duro, eu queria gozar, mas não iria conseguir com ele, não dessa forma.

Estávamos suando e quentes, ambos ofegantes. Kenji pediu que eu saísse do seu colo, retirou sua camisinha e se masturbou enquanto olhava para meu corpo. Usei meus dedos para estimular o meu prazer. Fechei meus olhos e me masturbei, sentindo minhas pernas se fecharem automaticamente e Ken as abre e beija entre elas.

Não foi um gozo, não foi um orgasmo, foi apenas a vontade contida expressada no carinho da maneira que eu gosto.

Ofereci um sorriso pra ele, que mostrou sua mão gozada e fez uma cara de nojo.

-Vá lavar isso. – Imito sua careta.

-Já volto, vou tomar um banho rápido. – Levantou-se da cama. – Quer vir junto?

-Não. – Atirei um beijo pra ele e quando saiu, arrumei minha roupa, vestindo apenas minha lingerie.

Nojento, mas prefiro ir embora sem banho do que tomar banho e pôr a mesma roupa íntima que antes.

Fico deitada na cama que estou desacostumada e olho para o teto. Preciso fazer meu trabalho sozinha quando chegar em casa e chegar ao orgasmo de uma vez. Realmente, sábado foi um dia fora do comum, fora do que estou acostumada. Fiquei bem por ter experimentado coisas novas e não me arrependo do que aconteceu. Todos merecemos viver.

Ouço a campainha e levanto correndo da cama. Coloco a sua camisa que não fica tão grande em mim, por ele também ser magrinho, mas fica comprida por ele ser mais alto.

-Já vai. – Digo, ajeitando o cabelo para abrir a porta. – Hã?

Bruno Pov’s

O estúdio estava chato, o dia estava meio pesado e nada produtivo. A inspiração não estava batendo em ninguém, muito menos em mim. Ainda estava com a pulga atrás da orelha sobre o dia de ontem, mas o tratei normalmente. Mas volta e meia eu lembrava daquela maldita mensagem no celular dele pensando que aquela Eleanor pode ser a minha Lea, e que ele finalmente tenha conseguido o que queria.

No meio da tarde, Kenji estava no celular. Fiz de tudo para conseguir me aproximar até ter a brilhante ideia de ir até a cozinha pegar algo na geladeira. Eu tinha acabado de comer, mas comeria mais alguma coisa somente para ouvir com quem ele falava.

-Tudo bem. – Concordou. – Eu espero você lá, já estarei em casa. – A pessoa falou algo e ele respondeu com um “sim”. Kenji coçou a cabeça, fazendo cara de pensativo. – Aqui tá tranquilo, o dia só não está muito produtivo. – Pra quem ele falava isso? Odeio ser curioso. – Até a noite então. Bom trabalho!

A noite? No apartamento dele?

Eu preciso saber quem é!

π

Se for certo ou não, eu não estava nem aí. Avisei para Umma que chegaria um pouco mais tarde e, assim que saímos todos do estúdio, passei no supermercado. Fiquei um tempo ainda escolhendo o que levar e acabei optando por queijo e cerveja, vou dar a desculpa de um jogo de futebol, assim se a mulher que estiver lá não for a Lea – Deus queira que não, ou me dê um calmante se for, porque sei que não responderei por mim -, posso empatar a foda dele e ficar pra assistir o jogo da Liga, bebendo uma cerveja com meu amigo.

Simples.

Fui até ouvindo música no carro, pensando em qualquer coisa que não me fizesse pegar o celular e ligar para a Lea para saber onde ela estava. Me contive o tempo todo.

Pedi ao porteiro que não avisasse, ele já sabia quem eu era e se ele não quisesse interrupções, iria pedir para ele avisar que eu não poderia subir pois estava ocupado. Subi dois lances de escadas, recuperei rapidamente meu fôlego e criei coragem para bater na porta.

Ouço alguém falar algo, mas não presto atenção.

Meu pé bate impaciente no chão, e eu, mesmo que inconscientemente, prendo a respiração quando ouço o barulho da porta destrancando.

Quando ela finalmente se abre, e eu praticamente posso sentir o chão sair dos meus pés. Lá está Eleanor, minha Lea. Vestindo uma camisa dele! A camisa que ele estava há pouco tempo no estúdio... Descabelada...

Engulo em seco, sem conseguir falar nada. Aparentemente, Lea faz o mesmo. Nenhum de nós dois sabia o que fizer de imediato.

-Bruno... - Foi a primeira a falar.

Eu queria gritar com ela, berrar e reclamar como uma criança, e iria. Se ele não tivesse aparecido, surgindo no meu canto de visão. A imagem seria cômica em outro momento, seus olhos arregalados a distância. Vestia apenas uma cueca, e me sangue fervia só de imaginar o que estavam fazendo antes de eu interrompê-los.

-SEU FILHO DA PUTA! - Berro, derrubando a sacola da minha mão.

- Bruno! - Lea tenta me parar, mas eu a afasto do caminho e atravesso o apartamento em poucos passos.

- Bruno... - Kenji tentou me acalmar, mas eu estava possesso.

-BRUNO? BRUNO O CARALHO! - Empurro-o com as duas mãos, fazendo suas costas baterem na parede. - EU TE DISSE PRA NÃO CHEGAR PERTO DELA, KENJI! EU TE DISSE!

-Calma, cara. - Respira fundo, tentando me afastar. - Ela é solt...

-VOCÊ SABIA QUE ELA ESTAVA COMIGO, DESGRAÇADO!

-E você estava com mais quantas? - Ainda teve a audácia de perguntar, erguendo o queixo. Acerto meu punho em seu rosto assim que ele termina de falar, descontrolado, e ouço o grito estridente da Lea.

-CALA A PORRA DA BOCA! ELA SEMPRE FOI MINHA, CARALHO! EU TE DISSE, NÃO DISSE? - Aperto minha mão em seu pescoço, levantando-o o máximo que posso. - QUANTAS VEZES ISSO ACONTECEU, KENJI? QUANTAS, PORRA?

-MUITAS! - Grita pra mim, e vejo Lea desesperadamente pedi-lo para parar de me atiçar. - QUER BATER EM MIM? - Kenji continua a gritar. - VÁ! BATA EM MIM, BATA COM RAIVA POR SABER QUE EU NÃO ESTOU ERRADO!

-CALA A BOCA! - Lhe acerto com um murro no estômago, depois o empurro novamente. - SEJA HOMEM E REAJA, TRAÍRA! NÃO É HOMEM PRA COME-LA?

-BRUNO! POR FAVOR! - Eleanor ainda está gritando.

-NÃO, LEA! DEIXA ELE DESCONTAR A RAIVA! ELE SABE QUE ESTÁ ERRADO! SABE QUE NUNCA TE TRATOU COMO DEVERIA!

-NÃO FALE DO QUE NÃO SABE, SEU BABACA! - Tento lhe acertar novamente, mas ele desvia e meu punho bate na parede.

-Sabe que está errado, não sabe? - Passa a mão pelo sangue em seu nariz, tentando soar sarcástico. - Você sabia que alguém iria vir tirar seu lugar, Bruno, sempre soube. É como dizem... Quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta!

-EU MANDEI CALAR A BOCA! - Tento acertá-lo repetidas vezes, no rosto, no estômago, onde consigo, mas o desespero é muito grande para haver alguma coisa que realmente o machuque.

Kenji não tentou me bater uma vez sequer, e eu tenho certeza que é por Eleanor estar ali. Ele não é burro, nem perto disso. Apenas desvia de meus golpes, segura meus braços e me empurra para longe, o que apenas me faz voltar com mais ódio.

-PARA, POR FAVOR! - As duas mãos de Eleanor agarram meu braço. - POR FAVOR! BRUNO!

-SAI DE PERTO DE MIM, LEA. - Puxo o braço com força. Repito mais baixo, respirando exasperado. - Não fica perto de mim!

-Você está maluco? – Diminuiu seu tom de voz. Seu rosto completamente apavorado me faz pensar que eu só estou fazendo a coisa certa.

-Não te interessa. – Me esquivei novamente do seu toque. – Não encosta em mim.

-Bruno...

-Lea, deixa ele de lado. – Kenji põe a mão sobre o ombro dela e a primeira coisa que consigo ver é seu rosto em forma de alvo.

Parto para cima dele novamente, esbaforido, errando socos no ar e acertando alguns em seu rosto. O deixo cair sobre o sobre e chuto sua perna. Meu sangue ferve de raiva! Eleanor toca em meu braço me deixando mais possuído ainda. Esquivo-me do seu toque novamente e berro para o Kenji e qualquer outra pessoa ouvir.

-Eu não precisava ter feito isso se você soubesse ouvir e não mexer com quem não lhe pertence.

-Eu não sou um objeto! – Pega forte em meu braço. – Eu não sou sua. Eu não sou um brinquedo, muito menos um objeto. Me respeite, eu tenho as minhas escolhas...

-Que é uma merda. – Aponto para o Kenji.

-Você está se doendo porque ela escolheu ficar comigo? Porque nós estamos nos dando bem, ou porque perdeu sua companheira de foda? – Não sabia ao certo o que responder. Só queria quebrar a cara de otário que ele tem até deixa-lo sem respirar.

-Cala a merda dessa sua boca! – O empurro novamente pro sofá.

Empurro Lea que tenta novamente encostar em mim e aproveito que ele tenta se levantar novamente e dou mais um soco em seu rosto. Kenji cambaleia pra trás, colocando a mão sobre onde acertei, no canto da sua boca, e prontamente vejo sangue aparecer ali. Nada alarmante, apenas um pouco, mas por mim já teria deixado sangrando até a morte.

-O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? ESSA NÃO É A SUA CASA, BRUNO.

-E NEM A SUA! – Grito de volta. – VÁ AJUDAR O SEU AMIGO, VAI!

-EU VOU MESMO. – Passou por mim indo até o encontro dele. – VOCÊ É UM MONSTRO. Você está bem, Kenji?

Ri da pergunta idiota que ela fez. Se ele está bem...É claro que não. E estaria bem pior, mas eu preciso me conter. Caminho até a porta, chuto as cervejas que estão no chão, uma delas havia quebrado pelo cheiro e o líquido no chão. Ouço Kenji falar algo de mim, nem presto atenção no que é, somente abaixo-me entre as quatro garrafas de cerveja e pego uma.

Miro na sua cabeça e atiro, mas ele se esquiva e Lea grita apavorada. Continuo caminhando até as escadas e as desço com pressa. Sorrio ainda para o porteiro e pego meu carro.

Não quero pensar no que aconteceu agora, nem no que irei fazer depois. Mas esse filho da mãe me paga, ele que se prepare.

Eleanor Pov’s

Não era só eles que estavam com raiva, eu também estava. Tremia meu corpo vendo Kenji todo machucado em minha frente e sabendo que a culpa, indiretamente, era minha. Era interessante o motivo que fez Bruno fazer aquilo com ele. Tão interessante que até agora eu não tinha compreendido, só sei que estava com nojo dele e queria que ele realmente me explicasse o que estava acontecendo e o que aconteceu.

-Eu não sei o que fazer. – Passava o pano sobre suas escoriações. – Estou com tanta raiva. Ainda não entendi o que aconteceu aqui.

-Lea. – Passou a mão sobre meu cabelo, dando um sorriso bem dolorido. – Vá pra casa, vá se resolver com ele, depois nós conversamos.

-Não irei deixar você assim. – Balanço a cabeça. – De jeito nenhum. Você não merece isso.

-Eu entendo que esteja se sentindo assim, mas tente entender que você precisa ir pra casa.

-Não preciso! Ele tem que ficar sozinho, tem que pensar no que fez. – Esbravejo, jorrando as palavras. – Eu odeio tanto ele, Ken. Me desculpe. – Apoio minha cabeça em sua perna.

Estou ajoelhada em sua frente, enquanto ele está da mesma maneira que Bruno o deixou ali, de cueca, com o banho recém tomado e todo escoriado e machucado. Era terrível vê-lo assim e só fazia a raiva crescer mais. Se tem uma pessoa que não merece isso, essa pessoa é o Kenji.

-Isso é momentâneo. – Se inclina e dá um beijo em minha testa, gemendo de dor. – Vá pra casa, converse com ele.

-Não quero. – Choramingo.

-Não quer porque está com medo de encarar? Ou porque quer ficar comigo por remorso?

-Não! – Balanço a cabeça negativamente. – Quero ficar com você porque preciso cuidar de você. É culpa minha. – Apontei para o meu peito.

-Então vá. – Disse baixinho. – Você tem a Lana para se preocupar. Nunca sabe o que pode rolar, ele pode acabar se estressando em casa e acabar passando pra Lana. Vá lá, fique com ela. Depois nós conversamos. Ok?

-Você é de ouro. – Admiro seu gesto.

Ao observar aquela reação tão positiva do Kenji, que é o mais prejudicado nessa história, só me fez ter mais raiva do Bruno. A cada “ai” que eu ouvia que envolvia o seu nome me fazia ter nojo do que ele fez hoje. E nada, nada justificará isso!

Seu altruísmo me deu coragem de levantar e arrumar-me, precisava chegar em casa e pôr tudo na mesa. Não iria aguentar um segundo a mais com aquela raiva contida, iria despejar nele muitas coisas que estou guardando no meu peito. A gota d’água foi ele mesmo quem decretou, agora ele terá que ouvir até a última palavra.

-Eu volto, ok? – Beijo sua testa e passo a mão em seu cabelo, misto molhado do banho e suor.

-Só tenha calma, saiba falar e escutar. – Novamente ofereceu-me um sorriso dolorido.

Era impossível saber escutar, eu precisava era falar e falar muito.

Não tive paciência para esperar nada. Ataquei um táxi na rua e vim torcendo para que eu tivesse dinheiro o suficiente para pagar a corrida.

Desci na frente e vi seu carro estacionado perto do portão, pelo lado de dentro. Abri a porta e dou de cara com ele passando para o seu quarto, sem camisa e ofegante. Não ouvi a voz da Lana, muito menos da Umma. A casa estava mais silenciosa. Parto atrás dele até o seu quarto e quando ele bate a porta, uso minha mão para segurar.

-Que merda você foi fazer, Bruno?! – Jogo minha bolsa para o lado. – Hein?

-Eleanor, por favor, saia do meu quarto. – Pegou um punhado de roupas que estava sobre a sua cama e socou na mochila de qualquer jeito.

-Não vou sair! – Implico com ele. – Argh. Eu quero entender que merda foi aquela, cara. Quero entender! – Arrastei minhas mãos pelo meu rosto, passando pelos meus cabelos.

-Foi uma briga, não sabe ver?! – Grosso, estúpido.

-Sei, eu sei ver. Sei sentir. – Tentei conter minha raiva, um pouquinho que fosse. – Queria entender o...

-O por quê? – Bruno larga o que estava fazendo e olha fixamente pra mim. – Você foi baixa! Ele era meu amigo. Tantos homens no mundo e justo ele, Lea?

-E o que é que tem isso haver? Ele é seu amigo, é meu amigo também. Assim como nós fomos para a cama várias vezes, eu poderia ir com ele também, certo? Sou dona do meu corpo!

-Eu sei que é, mas não é bem assim. Isso é ser sem vergonha.

-E o que você faz é bonito? Não é nada sem vergonha?

-O que eu faço?

-As mulheres, as noitadas, as preocupações que me causa quando não atende a merda do telefone. A importância que eu deixei de ter em sua vida...

-Não viaja, Eleanor. – Arregalou seus olhos. – Da onde você tira tanta merda, hein?

-Não é merda, caralho. Não é! Sou eu que fico aguentando tudo, sou eu que falo e você não escuta. Se pra você está tudo bem, pra mim não está. Me chama de bipolar, mas você é a mesma coisa.

-Tá, tá, tanto faz. – Deu as costas pra mim.

-Ah, você vai falar comigo. – O alcanço e puxo seu ombro. – Ouviu?

-Só estou ouvindo você falar.

-Então fala! Começa!

-Primeiro que eu bati nele porque quis. Está bom assim, ou precisa de mais?

-Porque quis? – Satirizo. – Poupe-me! Quero saber o por quê!

-Pra que quer saber?

-Como sabia que eu estava lá?

-Eu não sabia, foi uma coincidência.

-Ah sim. – Começo a rir. – Coincidência grande, não é? Que colidiu juntamente com o motivo de você ter batido nele, que segundo você, foi porque ele merecia. Mas merecia por quê?

-Para de me confundir. – Deu dois passos em frente, seus olhos saíam fogo, não eram mais faíscas. – Quer ouvir o motivo?

-Quero! – O encarei e ele não disse nada. Apenas ficou me encarando, olho no olho. – Porque?

-Eu te dei tudo, Lea. – Gesticulou ao seu redor. – Tudo!

-O que isso tem haver com meu relacionamento com o Kenji?

-Relacionamento? – Engoliu a seco e repetiu a pergunta.

-Sim.

-Há quanto tempo essa palhaçada existe?

-Dois meses, por aí. – Dou de ombros.

-Você... – Apontou o dedo para o meu rosto.

-Não me chame de nada que possa se arrepender depois, pois você sabe como será ruim pra você, já que eu não irei esquecer.

-Eu não ia. – Começou a rir nervosamente. – Ok, Lea. O que você quer?

-Quero a porra de um motivo! Seu amigo está lá, atirado na sala dele porque você entrou na casa dele e o agrediu. Já parou pra pensar que essa foi à atitude mais covarde que poderia tomar?

-Eu agi por impulso. Se você não estivesse...

-Se eu não estivesse lá?

-Se você não tivesse ficado com ele... – Baixou seu tom de voz por alguns segundos. – Não quero saber os motivos que te levaram a fazer isso, mas pelo jeito foi bom e bem, eu não quero interromper nada.

-Deixa de ser idiota. Se você tem o direito de ficar com muitas mulheres, porque eu não teria o mesmo? Até onde eu saiba não temos nada compromissado um com o outro.

-Você faz o que quiser, não é mesmo?

-É mesmo, mas se cada vez que eu fizer o que eu quiser, você tiver uma atitude dessas que teve, eu não poderei fazer mais nada.

-Então me diz isso. – Segurou minha mão novamente. Dessa vez não desvio. – Porque ficou com ele? Porque com ele? Porque me...

-Te trai? – Franzo a testa. – Eu não te trai. Como posso trair um relacionamento que não existe?

-Traiu minha confiança. Digo... O Kenji! Havia tantos outros caras.

-Eu não trai a sua confiança, Bruno. Entenda que eu não fiz nada que você já não tenha feito milhares de vezes com milhares de mulheres, somente fiz com seu amigo.

-O que acharia se eu transasse com a Megan?

-Normal. – Nunca que acharia normal, iria ficar muito irritada, mas com ciúmes. E sei que eu não deveria sentir isso porque não somos nada oficialmente, então não teria uma atitude tão tosca quanto a que ele teve. – Iria ficar apenas achando estranho, até pelo fato do Caleb ser seu amigo.

-Ah, Lea. Me poupe! – Disse num tom mais alto. – Você não vê que errou e ponto?

-Eu errei? Um caralho, Bruno! Vá à merda, quer saber, ache mesmo que eu errei porque não preciso provar nada pra você, estava apenas tentando diminuir a fumaça, mas se você quiser tocar fogo em palha, o problema é seu. O amigo é seu, eu sei que eu estou com minha consciência tranquila, ele também ficará tranquilo, e é você que está fazendo essa tempestade. – Despejo um pouco do que estava segurando em meu peito.

-Mais alguma coisa?

Evitei responder, não queria abrir a boca para deixar a situação pior.

Virou-se para sua cama e voltou em sua função com a mochila.

-Então é isso? – Pergunto enquanto observava ele revirar a mochila mais uma vez e puxar uma camisa.

-Isso o que?

-Você ficando bravo comigo, nós discutindo, e você sabendo que a Lana se afeta com essas coisas.

-Não envolve a Lana nas suas merdas.

-Esfrega mais uma vez na minha cara que ela não é a minha filha, que ela não é nada minha. É normal você fazer isso!

Sabe aquela raiva, aquela vontade de socar a cara dele? Se transformou numa coisa estranha que me faz ter vontade de chorar e lamentar pelo que aconteceu.

Deixei que uma única lágrima escapasse dos meus olhos, mas Bruno não viu, ele estava ocupado demais para prestar atenção no que estava acontecendo, como sempre ele estava ficando.

-Preciso me trocar. – Apontou para a porta.

-Você é um idiota. – Dei as costas pra ele, juntei minha bolsa e sai do quarto dele.

Andei até a frente do meu e esperei para entrar. Nada estava fazendo sentido em absolutamente nada. Não lembro quando isso virou um rebu. Prendo meu cabelo quando entro, separo uma roupa e pego um remédio para dor de cabeça. Busco a água na cozinha e quando retorno para meu quarto vejo apenas o vulto do Bruno saindo pela porta da frente.

Corro até a porta e o vejo com moletom de capuz, mochila nas costas e apressado.

-Bruno? Aonde você vai? – Pergunto para ele que finge não me escutar. – Bruno?

-Que? Não te interessa, me larga de mão!

-Vá pro inferno. – Digo baixinho, brava com suas atitudes.

Fecho a porta e ignoro o fato de que ele irá sair.

Somente quando entro para o meu quarto lembro da sua mochila em cima da cama, da quantia de roupas que ele estava enfiando e da sua pressa para sair. Onde é que ele foi e porque não avisou?

Onde está a Umma? A Lana?

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