Apareci no pátio onde todos estavam, as meninas já queriam levar a Lana para a água, mas Bruno dizia que não, porque não era bom pra ela. Claro que elas sabiam, Jaime tinha filhos e as outras não são burras ao ponto disso.
Já passava das sete quando Bernie começou a fazer a comida. Meus pais ligaram, dizendo que não poderiam ir ali porque estariam trabalhando, mas que eu aproveitasse. Fiquei na minha, quieta, por um bom tempo. Evitei de pensar no Bruno, e em coisas que me deixassem mais tristes, mas era um pouco impossível. Ainda queria entender o porquê de tanta revolta. Justamente hoje? Aqui?
Tento desviar meus pensamentos para o Kai. Como será que estão os pais dele? Os irmãos? Como será que ele está? Ainda continua bonito, ou simplesmente mudou como a Laila? Minha curiosidade batia fortemente. E o fliperama? Será que ainda existe?
-O que faz aqui? Esclusa de todos nós. - Tiara sentou ao meu lado.
-Pensando um pouco. É bom estar aqui novamente, mas muitas coisas mudaram.
-E eu posso perguntar o que mudou entre você e o Bruno? - Por momentos tinha até esquecido do que ela viu pela manhã.
Dou um sorriso de meia boca.
-Eu estava um pouco alterada.
-Você?
-É. - Pendo minha cabeça para o lado. - Exaltei-me com ele, e ele ficou bravo, com razão.
-Não foi isso que aconteceu! Ele pode estar brabo com você, mas não que você tenha feito algo.
-Acredite, foi!
-Tudo bem. Eu conheço meu irmão, você conhece seu melhor amigo barra sei-lá-o-que. Bruno é orgulhoso demais para pedir desculpas, então tente fazer algo mais tarde se não quiser ficar com esse clima chato.
-Obrigada.
Infelizmente, eu também sou orgulhosa. Felizmente, eu sei medir todas as consequências dos meus atos, e sei quando devo dar o braço a torcer.
Estrategicamente após a janta, entro no quarto e espero que ele volte do banheiro. Lana estava sendo paparicada pelos avós, então tinha tempo de conversar com ele e resolver essa situação.
-Que susto. - Ele entra com uma toalha envolva ao seu quadril.
-Sou tão feia? - Tento melhorar seu humor, mas ele mal dá um sorriso. Seu rosto permanece sério, e isso está me incomodando profundamente. - Bruno?
-Uh?
-Desculpe se você ficou bravo pelo que falei. Eu juro que não foi pra você, eu apenas estava comentando sobre ela, não medi as palavras.
-Eu não quero saber, Lea, então poupa o seu tempo falando. - Nunca o vi assim. Fico me questionando se o real motivo disso tudo é apenas esse erro que tive ao comentar sobre a Laila.
-Me dói ver você sorrir pra todos, conversar com todos, e comigo estar sendo assim. - Encho meus olhos de lágrimas, mas não vou as deixar caírem. - Desculpa estragar tudo.
-Posso me trocar?
-Fica a vontade. - Dou de ombros, passando por ele e saindo do quarto.
Uso a porta dos fundos para sair no pátio. Observei o jardim da Bernie que ela tanto zela, e sentei-me em uma das cadeiras de praia. Olho para a água da piscina e escuto o barulho do mar, do vento, dos cachorros dos vizinhos latindo, e até de insetos. Tento me focar em tudo, menos nele, menos no que aconteceu que até agora estou devendo para meus pensamentos.
Espero que todos se estabilizem em seus quartos, e entro no do Bruno. Lana estava sobre o seu corpo, ele batendo de leve em sua bundinha, ninando-a. Cena graciosa de se ver por horas a fio.
Pego uma muda de roupa e saio do quarto, indo para o banheiro. Tomo meu banho rápido, troco-me e volto ao quarto.
Bruno estava esparramado na cama, como se ninguém fosse dormir ali. Chegava a ter a respiração pesada, um sono bem profundo.
Não iria atrapalhar mais.
Olho no relógio da sala poderia ir para a casa dos meus pais, mas é um pouco longe daqui, não tenho como ir e nem como pegar o carro. Desisto de tentar algo e me alojo no sofá da sala, colocando uma almofada e puxando a colcha de crochê, que cobre e enfeita a guarda, para tapar-me.
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-Lea. - Alguém balança meu braço, estou gelada do vento da noite. - Lea?!
-Uh? - Respondo ainda de olhos fechados. Abro-os pouco a pouco e vejo Tahiti, ela sorri pra mim. - Bom dia.
-Bom dia. Olha, eu e minhas irmãs temos uma sessão agora, Presley vai junto, então fique no meu quarto. Durma lá, ainda é cedo e você está gelada.
-Obrigada. - Dou um sorriso e um beijo na sua bochecha.
Aproveitei que acordei cedo e peguei a roupa no quarto do Bruno. Ele dormia encolhido na cama, parecendo estar com frio, ou não sei. Tomo meu banho, arrumando-me no banheiro mesmo. Despeço-me da minha pequena, com um beijo na bochecha quente e gordinha. Pego minha bolsa com minhas coisas mais importantes e saio da casa do Bruno.
Estava o tempo todo pilhada, pensando no que tinha acontecido. Eu odeio brigar com as pessoas, odeio mais ainda brigar com o Bruno, principalmente quando nem um motivo concreto se tem. Ok, eu entendo que ele tenha ficado bravo, e que talvez eu tenha exagerado no que disse, mas não é pra ficar dessa forma, eu pedi desculpas diversas vezes, mas não vou criar rugas de preocupação por isso.
Peguei um café numa padaria qualquer e passei no serviço da minha mãe para pedir a chave de casa.
Entrei naquela casa com as mesmas coisas que tinha há tempos atrás, lugares diferentes e alguns móveis novos. A poltrona continuava a mesma e o cheirinho de casa era ainda aquele aroma delicioso impossível de esquecer. Subo até o andar de cima, visitando o antigo quarto da minha irmã, que está diferente do que era quando ela saiu. Talvez por ela ir mais seguido a casa dos meus pais ela tenha reformado.
Abri meu quarto, que continuava o mesmo desde quando sai. A cama protegida por um plástico, talvez para a poeira não estragar, e tudo bem limpinho. Meus quadros, minha penteadeira, tudo, exatamente tudo, ainda estava ali.
Matei um pouco a saudades de tudo, principalmente quando chegou a hora do almoço e eu esquentei a comida que estava na geladeira. Como eu sentia falta da comida da minha mãe, dos temperos que meu pai inventava para suas pizzas... Estar em casa é bom, nostálgico, mas bom!
Foi vendo televisão que eu decidi que iria sair, iria até minha antiga escola e iria procurar o Kai. Queria vê-lo, falar com ele, matar a saudades do meu, acima de qualquer coisa, amigo.
Entrei pelo portão da frente, passando pelo corredor, olhando alguns prêmios expostos e alguns alunos destaques. Classe de 2003, formandos... Eu estava ali! Minha assinatura, recém-formada, estava ali. Fico como boba olhando como tudo mudou, quanto tempo se passou.
Procuro por pessoas que conheci funcionários, e acho duas professoras e o antigo zelador, que continuava por ali. Pedi que me dessem o paradeiro do Kai, e elas disseram que ele estava no ginásio com uma turma.
Abro a porta e fico por um tempo vendo somente a turma fazer o exercício. Alguns me olhavam, curiosos, por saber de quem eu tratava ser. Meus olhos ficaram a todo o momento procurando ele, até vê-lo com uma camiseta branca, um short azul escuro da Adidas, cabelos curtos e negros, corpo definido, e o rosto... Esse aparentemente continuava o mesmo de anos atrás.
-Com licença. - Falei, depois que ele mandou a turma fazer outra coisa.
-Oi... Lea? - Abriu um sorriso enorme quando me viu. - Lea, é você?
-Kai! Sim, sou eu. - Ficamos frente a frente e nos abraçamos fortemente.
-Você voltou? Você está aqui. Meu Deus. - Segurou minha mão, fazendo-me dar uma volta, e olhou de cima a baixo. - Você está linda. O tempo só lhe fez bem!
-Que isso, obrigada. - Minhas bochechas coram. Seguro a sua mão enquanto sorrio para o seu sorriso. - Você está ótimo.
-E aí, vamos sentar, por favor.
Sentamos na arquibancada e ele mandou a turma continuar a fazer os exercícios ao invés de cuidar o que ele estava fazendo.
-Voltou pro Havaí?
-Por duas semanas. - Balanço a cabeça. - Califórnia é o meu lugar.
-Havaí é sua casa. - Completou meu pensamento.
-Exato! Mas e como anda a vida?
-Bem, tudo andando nos conformes. Como soube que eu estava aqui?
-Laila, encontrei com ela ontem.
-E ela nem comentou comigo. - Riu baixinho. - Que bom que lembrou de mim.
-Kai, impossível é esquecer. - Disse, no bom sentido. Como iria esquecer a minha primeira paixão? Nenhuma garota esquece disso.
-E o que faz lá?
-Sou corretora de imóveis, e antes que pergunte, foi o que eu quis pra minha vida. Mesmo não tendo nenhum sonho de profissão, essa conquistou-me de um jeito incrível.
-Bom saber, quero me mudar.
-Posso te mostrar qualquer casa de Los Angeles e região. - Embalo-me para o seu lado.
-Pena que, diferente de você, o Havaí é o meu lugar.
Conversamos pouco. As coisas não eram mais as mesmas por ali, agora os professores não tinham a liberdade de sair de aula para papear como alguns faziam antes, há inspetores cuidando isso, então ele me deu seu número e combinamos de nos encontrar a noite, num barzinho que ele gosta de ir.
Mandei uma mensagem para a Tiara perguntando onde ela estava.
"Estamos em casa já. Onde você está?"
Ataco o ônibus e subo nele, na direção da casa do Bruno. Tenho que pegar minhas coisas para me arrumar.
"Fui dar uma volta, estou indo ai. Aliás, não irei ao luau hoje à noite. Tenho compromisso :p"
"Você já está marcando encontros pelo Havaí? Bruno não gostará de saber disso... Queria que você fosse, boba!"
"Eu não estou nem aí! E não vai faltar oportunidade, podemos ir em outro."
O que não faltaria é tempo para irmos em luaus. Podemos aproveitar o tempo que quisermos, a hora que quisermos, menos hoje.
Cheguei a casa e quem me atendeu foi a Presley. Dei oi para todos que estavam por ali, papariquei por alguns segundos a pequena princesa e fui atrás das minhas roupas. Bruno estava na sala, não sei se viu quando entrei, mas sinceramente, nada abalaria meu ótimo humor, nem mesmo essa briga atoa.
Ponho uma muda de roupa para a noite e um pijama dentro da minha bolsa, dormiria na casa dos meus pais e amanhã voltaria pra cá, caso quisesse.
-Dormiu na casa dos seus pais? - Ouvi sua voz e toda aquela pose de "não estar nem aí" sumiu.
-Dormi na sala, pela manhã fui pra lá.
-Porque não ficou aqui?
-Não tinha espaço pra mim na cama. - Dobro a última peça de roupa.
-Uh... Irá sair?
-Sim! Vou encontrar o Kai. - Digo, colocando a bolsa no ombro.
-Legal, vou ir junto! Faz tempo que não o vejo. - Fingir que nada aconteceu não irá colar, Bruno, pode ter certeza.
-Ele está trabalhando na minha antiga escola, se quiser ir lá para vê-lo... Hoje a noite vamos somente eu e ele. - Paro na porta, esperando que ele fale algo. - Onde está meu Resse's?
-Na geladeira. - Diz, desanimado.
-Obrigada. Boa tarde, Bruno!
Meu coração estava completamente despedaçado. Ele é meu melhor amigo, eu odeio brigar com ele, sinto-me uma idiota, e agora sinto mais ainda por ser uma idiota que sente culpa quando na verdade não tem culpa nenhuma. Bipolar imbecil!
ზ
Ria livremente e relembrava os tempos, como há tempos não fazia. Fico pensando no porque eu chorava de saudades dele, e agora eu sei, porque o Kai é um homem especial. Ele faz-nos sentirmos especiais, e agora eu entendo o porque sempre fui apaixonada por ele quando adolescente e o quanto sofri quando fui embora.
E se eu tivesse ficado? Seria completamente diferente, é claro, mas eu estaria junto dele?
Tomo um gole da bebida que pedi e ele põe a mão sobre a minha. Meu corpo todo gelou.
-Você está cada vez mais bonita. E desculpe, mas não posso deixar de notar seu corpo... Está espetacular.
-Chega um momento da vida que você tem que se decidir: ou se entrega, ou malha para deixar tudo no lugar... No momento estou me entregando. - Ele ri enquanto eu beberico a bebida.
-Veio sozinha?
-Vim com o Bruno. Moramos juntos lá.
-Ah. E vocês... estão namorando? Você não me falou sobre sua vida afetiva.
-Uh. - Respiro fundo. - Não tenho namorado.
-Eu também não. Não pode ser coincidência. - Seu sorriso continuava o mesmo.
Kai levou-me para casa, com seu carro. Abriu a porta para que eu descesse e ficou perto de mim.
-Posso? - Encostou de leve no meu queixo, puxou-o devagar.
Fitava seus olhos e lembrava somente de que isso não seria o correto. Eu acho... eu acho que não estou com vontade de beija-lo.
-Melhor não. - Dou um meio sorriso esperando que ele entenda.
Me despeço dele e digo que antes de eu ir embora o procuro para me despedir. Kai foi embora e eu entrei em casa. Meus pais já estavam dormindo, mas a luz do corredor estava acessa, que amores, lembraram de mim.
Bruno Pov's
Tinha largado a Lana em casa com minha mãe e avisei que iria sair. Não disse se voltaria hoje mesmo, apenas peguei o carro do meu pai e sai. Falei com a mãe da Lea e pedi para esperar ela no quarto, e ela aproveitou para falar que achava que Lea tinha saído comigo.
Esperei enquanto rabiscava um caderno, com alguns versos, coisas desconexas.
Ela abre a porta e leva a mão no peito, soltando o ar do peito. Fecha os olhos ao mesmo tempo que fecha a porta. O quarto estava iluminado apenas por um abajur velho e empoeirado.
-O que faz aqui? - Pergunta, sendo direta, largando a bolsa sobre a penteadeira.
-Não consigo dormir sozinho. - Levanto. - Me acostumei a dormir com você.
-Não parecia ontem! - Rebateu, bem feito pra mim!
-Hey, Lea, eu sinto muito, ok? Eu não queria ficar daquele jeito, eu juro. - Ela vira-se, olhando-me de soslaio. Não entendo o que ela quer dizer.
-Porque ficou com tanta raiva de mim?
O que eu falaria? Que eu estava saturado de ouvir o nome do Kai e que aquilo que ela falou eu realmente havia pensado que era uma indireta pra mim? Ou falo que fui um idiota e que errei? Porque teria que falar as duas coisas.
-É complicado. - Passo a mão no cabelo e ela ri.
-Eu quero que me responda, Bruno! Eu estou cansada de você nunca dizer o porquê fica assim. Eu não sou uma boneca!
-Ok. - Tomo coragem. Sento na cama e já sinto meu rosto pegar fogo. Que porra é essa? - Eu estava chateado por falar do Kai, então quando falou aquilo eu realmente achei que fosse uma indireta, me perdoa.
Não ouço nada além do seu silêncio. Droga, hein!
Eleanor senta ao meu lado, relaxando os ombros.
-Você o beijou? - Ela não riu, não ficou vermelha, não esboçou nenhuma reação, nem mesmo a resposta. - Lea, você e o Kai se beijaram?
-Não. - Foi direta. - Mas se tivesse beijado, não importaria, nós não temos nada sério.
Estalo o pescoço.
-Eu sei, mas estou feliz por não ter feito isso. - Pego a sua mão. Viro meu corpo na medida do possível para o seu lado. - Só quero que me perdoe, eu não sei o que aconteceu, mas vai passar, vai melhorar. Ok?
-Eu odeio brigar com você!

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