Diga boa noite e me beije
Apenas me abrace forte e me diga que você sente falta de mim
Quando eu estou sozinho e triste como pode ser
Sonhe um pequeno sonho comigo
(Dream a little dream of me – Ella Fitzgerald)
Acordei tarde, com uma leve dor de cabeça. Meu corpo estava pesando e a única coisa que eu pensava era que eu não preciso de uma gripe. Levantei da cama e peguei uma aspirina dos meus remédios.
No caminho da cozinha, não ouço barulho nenhum. Quando chego lá, Umma estava na rua com a Lana, brincando de alguma coisa. Cindia estava lá também com as crianças e eu nem sabia. Tomei aquele comprimido grande, lavei o copo e sai na rua. Fechando meu hobby, vou andando em direção deles.
-Bom dia, dorminhoca. – Cindia sorri pra mim. – Como está?
-Bom dia. – Torço os olhos para o sol. – Estou bem, um pouco de dor de cabeça, mas passará logo.
-Tomou algo?
-Uma aspirina. – Aponto para trás de mim com meu polegar sobre o ombro. – Como está?
-Bem. Eric resolveu sair com as crianças, ai passamos aqui pra ver se a Lana queria ir conosco.
-Bom dia, mãe! – Ela corre para meus braços, aconchegando-me num abraço.
-Bom dia, bebê. – Dou um beijo em sua testa. – E os amores da tia nem deram um beijo em mim, hein.
Quando percebi o que disse, “tia”, olhei rapidamente para Cindia, que lançou-me um olhar trezentos e sessenta matador. Sorri e balancei a cabeça vendo que tinha feito bobagem, mas não significava nada.
Eles me abraçaram, me deram beijos e voltaram a brincar. Umma me deu bom dia e elogiou meu cabelo, eu ri, pois ele estava um ninho de pomba. Ela ficou conosco por alguns minutos e entrou.
-Foi força do hábito.
-Hábito. Sei. – Cindia ri, colocando a mão sobre meu ombro. – Não leva a mal, também chamo meus filhos de filhos, mas acho que é hábito também, não é?
-Vai se catar. – Rio. – Nós brigamos ontem à noite.
-O que? Porque?
-Porque ele é idiota. – Reviro os olhos.
-Ah sim, só por isso. – Ela também revira os seus. – O que houve?
-Richard me ligou. Nós conversamos civilizadamente, sabe. Foi ótimo. Em nenhum momento ele mencionou em voltarmos, apenas está feliz e isso me fez feliz. Mas Bruno ouviu alguma parte e interpretou de má fé...
-Resumindo a história, ele ficou com ciúmes de vocês!
-Não. Não foi ciúmes.
-Claro, não foi.
-É sério, não foi.
-Então foi pelo que, Lea?
-Não foi nada demais.
Nós entramos. Ajudei a Lana a vestir algo e ela foi falar com seu pai antes de ir. Ele estava num quarto ao lado do estúdio e assim que eu fechei a porta para eles todos e Umma, andei até o quarto e bati de leve na porta.
-Bom dia. – Digo baixinho. Ele estava concentrado em algumas coisas, no chão estavam duas caixas grandes de madeira, parecidas com baús.
-Bom dia. – Disse, emburrado.
-Eu vim em missão de paz. – Bruno não disse nada, apenas balançou a cabeça. Espiei por cima de uma das caixas e tinha uma roupa. – Mas eu vou deixar você em paz. Vou me trocar e ir pra casa.
Andei dois passos até a porta e ele pigarreou.
-Minha mãe adorava esse vestido. – Ele apontou para a roupa que vi. Na hora em que ele falou isso veio-me à mente algumas imagens dela o usando. – Aqui dentro tem algumas coisas dela. – Bruno apontou para a caixa e eu tomei liberdade de adentrar mais o quarto.
-Eu não sabia que estava vendo essas coisas, desculpa.
-Essa caixa aqui são outras coisas que me remetem tempos antigos. – Com cuidado, ele retira a tampa da outra. – Essa foi minha primeira Lei. Os primeiros sapatinhos da Lana com a roupinha que ela saiu do hospital. Um álbum de fotos nossas, até com o pessoal do Havaí.
-Nossa! – Fiquei impressionada. – Deixa eu ver isso? – Peço para ele o álbum.
-Claro.
Tinha fotos nossas logo que começamos a ficar bem amigos. Nós com nossos irmãos que na época eram namorados. Nós com o pessoal do Fliperama. Até o Kai estava em uma delas. Foram tantas lembranças aplicadas nessas fotos que meu coração até apertou. Tinha até foto dos meus pais conosco. Eu estava morrendo de saudades deles.
-Você tem relíquias aqui. – Entrego o álbum.
-Muitas. – Ele puxa uma pequena caixinha. – Aqui tem o meu primeiro dente e o primeiro dente que caiu da Lana. – Bruno a abre. – Coisa de pai babão. – Ele ri.
-Isso é lindo. – Balanço a cabeça.
-Minha primeira demo! – A capinha do CD estava toda arranhada, era de muitos anos atrás mesmo. – Eu tentei entregar pra uma gravadora e ela não quis.
-Eles devem se arrepender demais hoje em dia.
-E eu agradecer. – Ele ri.
-Acordou nostálgico?
-Um pouco. – Com cuidado, ele fecha a caixa. – Eu vou viajar amanhã por quatro dias, e estava lembrando apenas porque eu faço tudo isso.
-Você é incrível. – Coloco a mão sobre seu ombro assim que ele levanta para guardar uma das caixas.
-Obrigada. – Responde sem graça.
-Lembra das nossas danças quando éramos adolescentes?
-Claro que lembro. – Ele ri. – Nós éramos ótimos.
-Ainda somos.
-Vamos ver. Uma música bem lenta para dançarmos.
-Não precisamos de música, somos maravilhosos mesmo assim.
-Então, te convido pra dançar. – Sua mão se estende em minha direção.
Nossos corpos se encaixam ligeiramente. Um arrepio sobe minhas costas. Nossos pés sabiam exatamente qual era a sincronia perfeita. Um pra lá, dois para cá, assim nós íamos.
-Desculpe por ontem. – Ele diz quando repouso minha cabeça em seu ombro, ainda dançando.
-Não foi nada. – Sorrio.
-Eu tive uma crise, não sei. Medo de perder você novamente.
-Você nunca me perdeu, Bruno.
-Perdi sim.
-Não perdeu, nós apenas nos escondemos por um tempo. – Respondo. Ele vira-me e me toma em seus braços.
-Não quero que isso aconteça, nunca mais.
E foi ali que seus lábios tocaram nos meus. Meu corpo se arrepiou por inteiro. Eu correspondi para sua língua que queria se juntar em nossa dança, correspondi para suas mãos que queriam percorrer minhas costas. Correspondi tudo.
Até cair em si.
-Posso abrir os olhos quando você não estiver mais no quarto? – Bruno perguntou assim que eu sai dos seus braços e seu beijo. Permaneci sem responder. – Assim eu posso achar que foi coisa da minha cabeça e a decepção será menor.
Eu sai do quarto e fechei a porta. Fui até onde estava minhas coisas. Eu sou medrosa, tenho medo de tudo acontecer como aconteceu anos atrás, ou medo de me entregar e o destino insistir em dizer que nós não éramos pra acontecer.
Mordi meus lábios e olhei-me no espelho. Tudo que eu queria mais nesse momento era não pensar muito, era apenas viver. Mas eu insisto em pensar. Insisto e insisto e assim desisto.
Está pra voltar o tempo que ele irá sair por dias, semanas e até meses. Tempos que nós não nos víamos direito. Meu peito se retorce só de pensar em ficar muito tempo distante dele novamente. Não será o mesmo de quando nós ficávamos, acho que a saudade agora irá ser maior. E ele irá aproveitar bastante. Irá ficar com mais garotas de outros países, irá curtir uma noite, outra noite, outra garota.
Devo parar de pensar nessas coisas.
-Hey. – Tomo um susto quando ele me chama. Olho pra trás e ele está com um meio sorriso. – Vamos sair para tomar algo?
-Ah... Vamos. Claro. – Pigarreio. – Vou me arrumar, me dê alguns minutos.
-Todos.
Tomei meu banho e enquanto me arrumava pus minha playlist aleatória no spotify, músicas que me remetem lembranças, lugares, músicas que eu simplesmente amei sem motivos. Cantava enquanto me arrumava.
Meu telefone me interrompe a linda performance que eu estava fazendo de Elvis Presley para uma ligação de minha mãe. Bom, essa eu deixo passar.
-Alô?
-Mãe. – Aceno pra ela através da câmera do celular. – Pai! – Aceno novamente.
-Oi filha. – Minha mãe olha para a parte de baixo do celular.
-A câmera está aqui. – Meu pai aponta e ela ri.
-Como estão as coisas meu bebê? Estamos com saudades!
-Estão ótimas, está tudo bem por aqui. E ai? Soube que está lotada a ilha.
-Turistas em tudo quanto é canto. – Ouço a risada de meu pai e meu coração parte-se em pedaços. – Aqui está tudo bem.
-Que coisa boa. Estou com tanta saudade de vocês também. Preciso de vocês. – Faço beicinho para eles e minha mãe dá um riso de canto.
-Quando será suas férias?
-Acho que conseguirei para janeiro ou fevereiro, ainda não tenho certeza. Mas queria ver uma coisa com vocês.
-O que? – Pergunta meu pai.
-Eu estava pensando em vocês virem pra cá, ficarem conosco aqui. Nós poderíamos nos planejar e visitar a Eliza também.
-É uma boa ideia. – Logo meu pai já concordou, mas mamãe fez aquela cara de que precisamos conversar depois com mais calma.
-Não vem, mãe.
-É que não podemos deixar a casa sozinha por muito tempo.
-Mas mãe! Vocês podem pedir para os vizinhos cuidarem de vez em quando, e ai nem é perigoso. Venham, por favor.
-Vamos pensar.
-Pensem com carinho. Pensem em mim. – Pisquei meus olhos por diversas vezes e eles riem.
-Eleanor Alena Winters, você não mudou nada.
-Vocês que me ensinaram a ser assim. – Nós caímos na gargalhada e de repente eu senti que aquilo, que aquele momento, era importante. Que meus pais estando ali, falando comigo diretamente do outro lado do país, era importante. Eu precisava que eles viessem pra cá, sinto falta deles todos os dias da minha vida.
Nós conversamos por um breve tempo, logo Bruno entrou no quarto e já entrou no assunto também. E meu pai não perdeu tempo de fazer alguma brincadeirinha sobre nós dois juntos.
Terminei de colocar meus sapatos e fomos para o carro.
-Não vá partir meu coração. Eu não poderia nem se eu tentasse. Querida, se eu ficar inquieto. Baby, você não é desse tipo! – Bruno começou cantando a canção que estava em primeiro na sua playlist.
-Não vá partir meu coração. Você tira o fardo de cima de mim. Querida, quando você bate na minha porta, eu te dei minha chave. – Dei continuidade a música.
-Ninguém sabe que quando eu estava para baixo, eu era o seu palhaço. Ninguém sabe que desde o início eu te dei meu coração. Eu te dei meu coração. – E então cantamos o refrão juntos. Eu, de longe não era uma boa cantora, nunca foi, mas com a voz potente do Bruno, até enfeitou a minha e deu um bom som.
Don’t go breaking my heart não era a música mais propícia para o momento. Então nós apenas cantamos, sem nos olharmos, enquanto ele ia dirigindo por Los Angeles.
Deu uma sequencia de músicas que nós dois amávamos. Cantamos e rimos, e por momentos parece que aquela briga de ontem não aconteceu, por momentos parece que aquele momento constrangedor do meu pai não aconteceu. Por momentos eu senti como se o beijo tivesse acontecido, mas tivesse sido a melhor coisa que aconteceu em tempos e que não era errado.
Bruno me faz rir, me faz sentir bem. É como se eu estivesse em casa em qualquer lugar do mundo. Ele fez moradia em meu corpo, habitou e viajou. Quem estou querendo enganar? É com ele que eu gostaria de ficar, é com ele com quem eu gostaria de passear de mãos dadas. Eu sei que depois que terminei com o Richard dei pra trás, fiquei com medo.
Mas, alguém precisa me entender.
E se ele simplesmente desse pra trás também? E se ele não quisesse nada sério e eu fosse cair de boca no pote com toda a sede.
Eu quebraria a cara novamente pela segunda vez e isso não seria legal.
Parei de pensar tanto e me concentrei em olhar seu rosto. Sua voz saindo de sua boca soa como um coral de anjos. Seus olhos completados por uma bolsinha inchada na parte inferior, é um charme! Seus lábios são convites para uma ópera.
Eu não estou apaixonada pelo Bruno.
Eu sou apaixonada por ele.
E eu tenho até medo de saber desde quando esse sentimento toma conta do meu peito.

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