segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Capítulo 36


Se eu fosse preso e sentenciado a 25 anos de prisão
Eu poderia contar com você pra estar lá e me ajudar mentalmente?
(21 Questions - 50 Cent)


Dezoito de setembro de dois mil e dez. 

Fama, glamour e muitos holofotes. Todos virados para minha vida. Tudo mudou definitivamente da noite para o dia e da água para o vinho. Há fotos minhas em todos os cantos e todos sabem quem eu sou.

Com o resumo da ópera, cá estou:

Em maio lancei meu primeiro EP, para testes de ver como irá se sair o primeiro CD, e para nossa surpresa, foi bem visto por todos. Por todo o público e críticos. Fiquei feliz demais e comemoro até hoje por essa conquista.

Em junho trabalhei nas outras músicas, em especial uma que escrevi inspirado demais. Em julho, assim que escolhemos todo o repertório do CD e a ordem, escolhemos Just The Way You Are como single. E, de novo para nossa surpresa, ela bombou. Ficou no nível - ou talvez até acima - do que Nothin On You e Billionaire. Eu era famoso agora, com uma música no topo das paradas musicais do mundo e quatro vezes em primeiro lugar na Billboard. Cee Lo convidou-me para se co-autor da sua música há um tempo atrás, com mais alguns toques e lançamos à em agosto. Também foi um sucesso, não tão grande como a minha, mas foi muito bem vista por todo o mundo.

Agora em setembro minha vida estava já num patamar mais alto. Todos me conheciam, minha fama estava aumentando cada vez mais. O clipe do meu primeiro single foi um completo sucesso e eu não sei nem como agradecer e a quem agradecer. Claro que primeiramente à mim mesmo, por conseguir ser bom nisso. Final de semana passado me apresentei no MTV Video Music Awards, e caramba, nunca havia ficado tão feliz.

Sem contar que, com o dinheiro de tudo que consegui, paguei uma casa nova para minha mãe, aquela que eu falei que um dia compraria, eu comprei. Mobiliei nossa pequena casa de Los Angeles e ajudei minha irmã mais velha com sua mudança para LA e financeiramente falando, estamos maravilhosamente bem.

Mês que vem já chega o lançamento do meu CD, eu não poderia estar mais extasiado.

-Papai. - Lana caminha até mim, com a carinha de sono. - Quero assistir filme. - Piscou seus olhinhos graúdos.

-Lea já disse que não pode assistir filme agora, bebê. - Pego-a no colo. Meu bebê está bem pesadinha. - Vamos viajar agora.

-Eba. - Bateu as palminhas.

Eleanor Pov's

A casa estava dinâmica demais. Da noite pro dia parece que nada mais fica calmo, além da noite. É um entra e sai dos meninos, do Dre - o segurança que Bruno teve que contratar -, além do Ryan e os outros amigos que ele tem.

É bom, claro, amo casa cheia, mas chega uma parte que a gente se perde do que estava fazendo porque tem que dar atenção para as pessoas. E a minha queixa principal é que o Bruno deixa os meninos fazerem a casa de lixão e não se preocupa em me ajudar a limpar. Pobrezinha da Lana que, quando me vê juntando os copos de plástico vermelho, ajuda-me do jeito que pode.

Estávamos indo para Las Vegas onde terá um pequeno show num cassino e após umas comemorações. Urbana e Phil estão indo conosco no mesmo avião, os meninos irão a outro. E a pequena filha deles, Zaima, é linda, e Lana ajuda-a cuida-la.

Minha vida está repleta de novos orgulhos. Minha pequena a cada dia cresce mais. É uma princesa de linda, sempre está procurando se arrumar e ama dançar. Gosta de manter uma boa alimentação de acordo com a dieta que o médico passou, e isso é maravilhoso.

Além do Bruno, que está crescendo no mundo da música. Todos sabem quem é Bruno Mars, todos o conhecem e especulam sua vida. Paparazzi o procuram de vez em quando, pessoas importantes ligam para ele, foi convidado há milhares de coisas e agora está do jeito que se imaginou um dia, com suas fotos em todos os cantos, suas músicas na boca do povo e autógrafos.

Se eu tenho um pouco de inveja? Não, tenho saudades... Por mais que sua fama esteja crescendo, Bruno está se dispersando de mim, vai deixando-me de lado pouco a pouco, mas nada demais, isso passará.

"Traz algum presente pra mim. Quero comida ou algo do tipo, e roupas! Beijo se cuida lá e aproveita".

Li a mensagem de Megan e ri, respondendo para ela. Quando eu imaginaria que estaria viajando pelo segundo final de semana consecutivo e de avião? Nunca.

Megan está bem, separada do Caleb, mas bem. Eles ainda se veem, mas decidiram que nada seria o mesmo. Não acredito que isso durará por muito tempo, mas todo o caso...

-Me dê ela. - Estico as mãos para que Bruno coloque a Lana em meu colo, já adormecida.

-Ela está pesada. - Faz um movimento estranho com os braços para espreguiçar-se.

-Muito. - Comento com a voz falha. Sento-me na Van e Kenji entra, olhando para mim e sorrindo. - Olá marujo. - Dou um beijo em sua bochecha.

-Capitã. - Bateu contingencia pra mim e sentou-se no banco em frente ao nosso, aos risos.

-Nunca vou entender isso. - Bruno comenta meio estranho.

-Piadas internas. - Começamos a rir.

-E aí, meu capitão. - Deu um beijo no rosto de Ryan.

-Hey, sai pra lá. - Passou a mão no rosto, fazendo cara de nojo e Bruno gargalha alto, tentando dar mais beijos nele.

O resto da viagem foi tranquila, tanto na Van quanto no avião. Os meninos fazendo palhaçadas e a pequena dormindo, enquanto eu e Urbana fofocávamos livremente. Em dado momento da viagem, durante o trajeto aeroporto/hotel, Bruno estava com os meninos rindo e de repente ficou sério.

-É sério, faria maravilhas. – Me concentrei para ouvir o que saía do fundo daquela Van.

-Tá, mas pra que ficar falando. Deixa tuas vontades somente pra ti. – Bruno não parecia estar contente, nem um pouquinho, com o que disseram.

-Credo, cadê o espírito de animação e entusiasmo? – Ouvi a risada de Eric.

-Foi embora junto com a minha paciência. – Bruno trocou de lugar na Van. Olhei para a Urbana, sem entender nada e ela riu, baixando a cabeça.

-O que rolou lá atrás? – Pergunto pra ela.

-Brincadeiras de homens, Kenji acabou dizendo que ficaria com você e que faria maravilhas, coisas que eles sempre estão brincando, e aparentemente Bruno ficou com muito ciúme.

-Idiota. – Gargalhei, balançando a cabeça e voltando meu olhar para ele, que encarava a janela silenciosamente, até perceber que eu o olhava e olhar pra mim.

Não acredito que tenha sido ciúmes, creio que mais uma coisa de marcação de território, como quem dissesse “essa é a minha foda garantida, tira o olho”, e não ciúmes. Até porque nada justifica.

Olhar para ele ficou estranho tão repentinamente, às vezes eu sinto a presença somente do Bruno que ficou famoso e não daquele Bruno pai, amigo e conselheiro. Agora mesmo quando olhou em meus olhos, eu senti um pouco daquele carinha que chorava com medo que tudo desse errado.

Não deu tempo de fazermos muita coisa no hotel, apenas cada um largar seus pertences e se arrumar para o pequeno show. Bruno vestiu sua roupa antes de mim, enquanto eu ainda vestia a Lana. Coloquei minha roupa e já desci junto dele e da nossa pequena.

-Lá. – Lana tentava soltar da minha mão olhando para uma mulher com duas crianças e um cachorro e apontando.

-O que, Lana? – Estava perdendo a paciência com seu showzinho de querer sair das minhas mãos.

-Lá, mãe. – Diz, puxando sua mão da minha mais uma vez.

-Você não vai lá, estamos entendidas? – Me abaixo para dar a bronca nela, que quando vê seu pai, faz bico de choro e já começa a correr a lágrima de atriz.

-Que houve meu bebê? – Bruno a pega no colo, passando os dedos pelo seu rostinho.

-Lea. – Continuou a chorar.

-Que você fez pra ela, Lea? – Perguntou de mansinho pra mim.

-Pai, lá! Vamos? – Puxou a camisa dele, apontando para o mesmo local.

-Quer ver o cachorro? Ou as crianças?

-Au, au. – Respondeu, balançando a cabeça.

Fomos para a Van que nos largou no estabelecimento em pouco minutos. Atendi a ligação da minha mãe dizendo que estava com saudades e querendo ouvir a voz da Lana por alguns segundos. Bruno ligou para sua mãe pedindo a benção e a sorte para arrasar no palco.

Coloquei os protetores de ouvido na Lana, sentei-me ao lado de Urbana e assisti o show com toda a concentração do mundo, admirando sua pose em cima do palco, seu amor a música, sua alma cantando junto da sua voz... Todos os pequenos detalhes que o fazem um grande cantor.

É tanto orgulho que sinto por ele.


O celular toca alto no móvel ao lado da cama. Alto suficiente para eu me acordar num pulo, assustada com o horário, pela falta de Bruno e pelo sono da Lana.

Meio grogue, vejo que são quase quatro da manhã, Bruno não está ao meu lado, o que me assusta um pouco, mas eu não tenho tempo para pensar. Atendo o telefone sem nem olhar o número, e eu me acalmo um pouco.

- Lea? Sou eu. - Sua voz ofegante e nervosa faz a calmaria por estar escutando sua voz diminuir consideravelmente.

- Bruno? Onde você está?

- Lea. - Ele respira fundo. - Me desculpa. Vem me buscar.

- Bruno? Do que você está falando?

- Tem um cartão reserva na minha mala, Lea. Você sabe a senha. Você precisa sacar dinheiro na minha conta. - Bruno continua, afobado. - Não fica com raiva de mim.

- Bruno. - Eu já estou tremendo de medo, pensando no que poderia ter acontecido. - Por favor. Me diz, onde você está?

- Lea... Eu tô na delegacia. - Eu posso escutar sua voz falhar.

- Você tá bem? - Me levanto, começando a catar uma roupa. - Você foi assaltado? O que aconteceu?

- Eu... Eu fui pego com cocaína, Lea. Eu estou detido.

Meu mundo começou a girar um pouco mais devagar. Cocaína? Que merda era aquela? Termino a ligação, falando friamente, enquanto Bruno me pede várias desculpas, parecendo extremamente nervoso e assustado. Se estou com pena? Não! Estou com raiva. Onde ele fora se meter? Com aquelas festas, que segundo ele eram pra conhecer pessoas dos ramos que ele anda frequentando... Eu poderia até desconfiar de maconha. Mas cocaína? Nunca.

Demoro para me arrumar, apenas porque estou com muita raiva para ir livrá-lo disso com pressa. Termino de me vestir e acho um cartão em sua mala, para pegar dinheiro para pegar sua fiança. Não sei nem como funciona isso tudo. Preso...

São quase cinco quando pego Lana no colo, tentando não acordá-la.

- Mãe. - Se joga nos meus braços, reclamando.

- Shii, amor. - Beijo seus cabelos, levando-a para fora dou quarto.

Seguro-a com um braço só, batendo na porta de Phil. Ouço sua voz, sonolenta, avisar que já vai. Demora um pouco até que ele abra.

- Lea? Aconteceu alguma coisa? - Ele encara minhas roupas, e Lana de pijama.

- Aconteceu... - Eu cerro meus dentes. - Bruno foi preso.

- Bruno foi o quê? - Arregala os olhos tanto, que em outra situação, eu teria rido.

- Drogas, Phil. - A decepção é firme em minha voz. - Pode ficar com a Lana para eu tirar ele de lá? Por favor?

O táxi me deixa bem em frente a uma delegacia, depois de passar num caixa eletrônico, não mais que dez minutos do hotel. O sol já começa a despontar no céu da tão famosa Las Vegas, e eu só consigo desejar profundamente que Bruno tivesse voltado pro hotel comigo, dormido comigo como estamos acostumados, e que eu não precisasse tirá-lo de um lugar como aquele.

Meus passos são vacilantes para entrar ali, e eu quase dou meia volta quando me perguntam se preciso de algo. Digo que estou para liberar uma pessoa, informo o nome de Bruno, assino alguns papéis e formulários, pagou uma taxa e fico sobre aviso de uma carta que chegará em casa. Com a data do julgamento. Meu corpo treme com a palavra julgamento.

O policial pergunta se eu quero acompanhá-lo para liberar Bruno, mas eu fico pela recepção. O relógio marca exatamente sete e dez quando o vejo. Vestia uma blusa xadrez vermelha, toda amarrotada. Seus cabelos estavam uma bagunça, e seu olhar, cansado. As olheiras eram enormes e seu rosto parece se iluminar um pouco quando me vê.

Ele adianta o passo em minha direção, e abre os braços para me abraçar. Eu não reajo. Ele me aperta contra ele, e eu me mantenho imóvel.

- Eu tive tanto medo. - Sussurra no meu ouvido, e eu tento engolir o nó em minha garganta. - Lea?

Seu cheiro me enoja. Sua imagem me enoja. O Bruno que eu conheço, o meu Bruno, não faria uma coisas dessas.

Eu sequer o respondo antes de começar a andar até a calçada. Seus passos me seguem, enquanto eu espero um taxi passar ali pela frente.

- Lea. - Ele segura-me pelo cotovelo, puxando-me para olhar pra ele. - Não fica com raiva de mim. Eu posso explicar.

Eu desvio meu olhar. Não quero olhar para ele!

- Por favor. Fala comigo.

Eu estico a mão para um taxi que passava e ele finalmente para, então entro, com Bruno ao meu lado.

- Me perdoa. - Fala baixinho, e eu continuo olhando para fora da janela.

Descemos no hotel e eu acelero o máximo que posso para entrar. Só quero minha cama, esquecer dessa coisa horrível e que a raiva que eu estou de Bruno passe.

- Lea! Você não pode me ignorar. - Bruno novamente segura meu braço, antes que eu possa entrar no lobby.

- Eu posso. Quando você não estiver drogado, nós podemos conversar.

- Eleanor...

- Me solte. - Dou um tranco no braço, andando forte. - Nem pense em falar comigo hoje.

Ele parece se assustar, mas não fala nada. Entramos no elevador e ele me pergunta onde Lana está, olhando para o chão.

- Eu vou vê-la. - Me avisa, caminhando para o quarto. - Preciso da minha filha comigo agora. Só Deus sabe como eu estou...

- Você não vai vê-la.

- O quê?

- Você não vai pegar na Lana! - Seguro seu braço com força quando ele ameaça bater na porta de Philip.

- Você está louca?

- Não vai pegar nela assim! Sujo de vadia! Sujo de droga e de cadeia.

- Lea, eu não...

- Não o quê, Bruno? Eu disse alguma mentira?

- Mas...

- Desde quando você é um drogado? Quando pretendia me contar?

- Eu não sou um drogado!

- É o que parece. - Olho-o das cabeças aos pés, com uma careta de nojo. - Nunca pensei que te veria assim.

- E-eu...

- Você não vai pegar na Lana. Você não vai.

Sigo para o quarto ao lado, nosso quarto, e mais uma vez ele me segue. Envergonhado, nervoso e assustado, isso que o Bruno está.

- Lea, você vai me ouvir agora?

- Não. - Pego sua mochila, derrubando as coisas numa cadeira ali perto.

Abro minha mala e começo a juntar apenas uma muda de roupa para mais tarde, não iria dividir minha cama com ele. Iria para outro quarto.

- O que você está fazendo?

- Eu não lhe reconheço. - Eu enfio uma blusa na mochila. - Estou indo dormir em outro lugar.

- Eleanor!

- Não fale comigo!

- Eu não vou implorar sua atenção, porra! Você não vê meu lado? - Ele berra, muito alto. - Eu acabei de passar a noite na delegacia! Acabei de sair da porra de um trauma e você só faz me julgar!

- Talvez você mereça ser julgado! - Fecho o zíper da mochila com força.

- Você fala como se nunca tivesse errado! Como se nunca...

- Nunca o quê? - Empino meu nariz, para passar por ele. - Eu estou com nojo de você. Uma raiva que você não tem ideia.

- Eleanor...

- Você é um péssimo exemplo. Não merece a filha que tem!

- A minha filha! - Ele estuda o peito, ainda gritando. - Nada sua!

Minha mão bate no seu rosto num estralo, tanto por ele dizer que a Lana não é minha, mesmo eu sabendo disso, quanto por toda raiva que eu estou.

- Quando você for o meu Bruno de novo, você me chama.

- Não existe nenhum Bruno seu. - Ele replica, voraz, passando a mão no lugar que eu bati.

- Estou vendo. - Abro a porta.

- Pra onde você vai? - Ele pergunta, alarmado, parecendo baixar a guarda.

- Pra longe de você! - Respondo, finalmente batendo a porta.

Luto brandamente para não chorar, e por mais que tenha vontade, não choro. Peço o elevador, mas dou meia volta, por ter esquecido minha carteira. Sem ela, não poderia ir a lugar nenhum.

Praticamente rezo para ele estar no banho e não me ver, e por sorte, ele está. Destranco a porta com meu cartão, e entro.

A porta do banheiro está aberta com uma única fresta, e eu tento não olhar.

Pego minha carteira sobre o móvel ao lado da cama e jogo o cartão-chave do quarto ali. Adianto os passos para ir embora, mas dessa vez é inevitável parar para olhá-lo rapidamente.

Bruno está em frente ao espelho, com as duas mãos na cabeça. Ele chora descontroladamente, soluçando, enquanto se encara. Sozinho, sem mim e sem Lana. Meu coração se aperta, e eu saio dali antes que não consiga controlar a vontade de abraça-lo e dizer que estava tudo bem.

Fecho a porta com cuidado e peço o elevador. Dessa vez, é impossível segurar. Choro, como ele.

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