quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Capítulo 75


Depois do primeiro fora, fiquei traumatizado
FIco longe, mas você ainda chama minha atenção
Diga-me baby, você me reconhece
Bem, já faz um ano, não é de me surpreender
(Last Christmas - Wham!)

20 de Novembro de 2015

Eu estava cansada, minha cabeça parecia que iria explodir e ainda tinha que aguentar um discurso tediante do Richard, falando sobre seus pacientes. Ok, antes era legal eu saber como cada dia estava sendo, mas faz meses que ele está nisso e eu não aguento mais ouvir sobre massas, próteses, caries, gengivites, escovas de dente... Falando nisso, tenho até medo de escovar meus dentes perto dele e ele acabar me dando um intimado que eu estou fazendo errado, ou que me esqueci de passar o fio dental. Isso é desgastante, mas com sorte hoje ele não falará disso.

Passamos as duas últimas semanas com suas oscilações de humor, isso é estranho. Nunca vi homens, além do Bruno, mudarem tanto constantemente. Não é nada agressivo, nem brigas, nem nada, o mais estranho é isso: ele apenas muda de feliz para muito feliz, de agitado para meio nervoso. Parece criança quando queria contar algo para a mãe, mas acaba ficando com medo de levar uma surra ou um sermão.

-Alô? – Atendo ao meu celular.

-Olá. Como vai? – Bruno pergunta do outro lado da linha, a voz empolgada demais.

-Muito bem e você?

-Bem! Ótimo, na verdade. Está no trabalho?

-Estou indo pra casa, finalmente. Com dor de cabeça, querendo matar um.

-Não me mate, tenho uma filha pra criar!

-Pude ver você levantando as mãos com isso.

-Você me conhece tão bem. – Nós gargalhamos e eu presto atenção na rua que estava atravessando. – Sobre o natal. Não marque nada com ninguém, quero fazer algo grande aqui em casa. Ano passado foi apenas eu, Lana, Tiara, Geronimo e meu pai. Esse ano quero minha família e meus amigos aqui.

-Temos que compensar o feriado de ação de graças e o halloween que não tiveram nada na sua casa.

-Isso! Você pegou o espirito da coisa.

-Eu sou o espirito, Bruno. – Dou de ombros. – Já escreveu hoje? Tocou algo, produziu algo?

-Fui a uma reunião, chata e longa. – Engraçado é que eu consigo visualizar suas caretas enquanto fala. Rio sozinha. – Qual é, durou mais da metade do meu dia. Acredita que eles quiseram que eu fizesse um comercial de perfume?

-Você vai ter uma fragrância? – Pergunto, abrindo a boca. Havia visto ele no programa da Ellen, quando disse que não precisava de uma, aliás, ele estava muito engraçado e parecia muito bem naquele dia. – Eu nem posso acreditar.

-Hey, pare! Não vou fazer fragrância nenhuma. Eles queriam que eu tirasse umas fotos publicitárias para um perfume e publicar em algumas revistas, mas eu não quero.

-Essa foi a pauta da sua reunião que durou quase um dia? Garanto que você estava em cima do muro.

-Idiota. – Nós rimos novamente. – Havia várias pautas, essa é apenas uma delas.

-Quais eram as outras?

-Juro que gostaria de contar, mas ainda não posso. Você irá saber em breve. Em fim, irá vir para o natal, sim? Lana amou minha ideia e está ajudando a planejar uma festa bem legal.

-Essa menina não tem jeito. E você dá corda para as ideias malucas dela. Claro que vou.

-Que bom! E eu não dou corda, ela apenas tem uma imaginação grande e que precisa ser estimulada.

-Ah, com certeza.

Nós conversamos boa parte do caminho até em casa. Ele falou sobre suas músicas, sobre sua saga com elas e tudo mais. Estamos indo bem, digo, nossa amizade fortaleceu mais após o beijo no halloween. Conseguimos ficar mais fortes, coisa que achei que não iria mais acontecer, e quando nos beijamos pensei que iria ficar algo diferente, mas lidamos bem com isso.

E eu jurei que iria esquecer daquele beijo e não falar nada ao Richard. Aquilo era traição, mas aconteceu apenas uma vez e não irá mais acontecer. Ele não merece que eu faça isso com ele.

24 de Dezembro de 2015

A árvore já estava lotada de presentes. As crianças corriam pela casa, todos agasalhados e aquecidos com a lareira que estava acessa. O tempo lá fora não parecia dos melhores, mas a alegria aqui dentro contagiava tudo. O espirito natalino tinha voltado a minha mente esse ano, eu tinha motivos para comemorar agora.

-Mais um prato que está pronto! – Presley leva uma travessa de saladas para a sala de jantar.

-Você não deveria estar fazendo tanto esforço, querida. – Pete estava preocupado com ela.

-Papai, eu estou grávida. Isso não é doença.

-É que você é a caçula da turma, dê um tempo para o velhote! – Tiara meche com ele.

-Agora só falta você me dar um neto, Tiara. Quando isso vai acontecer?

-Nunca, papai. – Ele fica a olhando, incrédulo pela resposta tão dura e tão grosseira. – Brincadeira. Quem sabe um dia, sim? Você tem muitos netos para aproveitar... Agora terá mais a Selah!

-Mas preciso de mais, a fábrica nunca pode fechar.

-Daqui a pouco viram seus bisnetos, aí o senhor vai começar a se sentir velho e vai pedir para que seus netos não lhe chamem de avô! – Presley coloca a mão por cima do ombro dele, que ri e beija-a.

-Quando você vai me dar um neto, Lea?

-Eu? – Rio. – Não tão cedo. – Sabia que Bernie me considerava sua filha desde que comecei a ser melhor amiga do Bruno, mas nunca tinha ouvido nada parecido da boca do Pete.

-Outro neto por parte do Bruno, papai? – Tiara coloca a língua pra mim e eu coloco meu dedo médio pra ela. – Inclusive, daqui a pouco Richard chega por aí.

-Quem chega? – Bruno entra, com um largo sorriso no rosto e de banho tomado.

-Richard. – Respondo. – Ele está com algumas cois...

-Pensei que ele estivesse com sua família, no Texas. – Seu sorriso murcha e logo eu percebo que talvez ele não seja bem vindo por ali e que quando Bruno me convidou, não tocou no seu nome, mas pensei que ele estivesse englobado. Preciso me conter e ficar quieta para acabar não brigando com ele em pleno natal..

-Ele vai passar o primeiro do ano com eles.

-Você vai junto? – Perguntou, passando a se encontrar ao meu lado e falar mais baixo, já que não éramos mais o foco da atenção.

-Na verdade não. Estou sem planos.

-Vegas, o que acha? – Ele sorri novamente. – Eu terei um grande show, o que você já sabe, naquele mesmo hotel e tudo mais. Gostaria que estivesse por lá.

-Talvez em vá. – Sorrio. – Aliás, coloquei meus presentes embaixo da árvore. Se caso você não gostar do que comprei pra você, me diga sinceramente que eu troco. Estava com grande dúvida.

-Não se preocupe, eu vou amar. – Ele beija minha testa. – Seu presente eu não comprei. – Deixou seus lábios para o lado, com uma carinha de triste. – Acabou não dando tempo. Desculpe.

-Não precisa, tudo bem.

-Claro que precisa, eu sei como ama presentes.

-Eu amo, mas não são necessários. Nem se preocupe com isso. – Escoro minha cabeça em seu ombro. – Parabéns novamente pelo Super Bowl. Eu sei como você está se sentindo honrado.

-Honrado? Isso é pouco, eu estou há meses assim, desde o meu aniversário. Aquelas tardes em que sumia, aquelas reuniões, eu estava sempre ensaiando e conversando com a equipe. Quantas vezes tirei fotos com a Beyonce e com o Chris e queria te mostrar, mas não podia falar nada pra ninguém. Imagina o quanto isso é difícil?

-Difícil pra você que é um linguarudo. – Dou um soquinho em sua barriga. – Essa comida toda está mexendo com meu metabolismo e me dando uma fome muito grande.

-Poderia comer essa mesa toda.

-Adoraria. – Nós rimos.

Richard chegou uns três minutos após deixarmos a sala de jantar por estarmos com fome e aquela comida toda não estar ajudando. Bruno não pareceu nada confortável com ele lá, fez caras e bocas que não é de costume. O deixei conversando com Pete e fui atrás dele.

-Desculpe. – Torço meus lábios sem jeito. – Eu não sabia que não era para ele vir.

-Jura? – Ele me olha. – Desculpe. – Ele solta um ar pesado. – Estava planejando ser meus amigos e minha família, e nós sabemos que ele não é muito meu fã.

-Desculpe novamente.

-Tudo bem, Lea, sem problemas. Eu deveria estar ajeitando algumas coisas. E, Lea, seu presente está vindo, não se preocupe.

-Não precisa, Bruno. Depois nós discutimos sobre isso. – Faço ele rir e andamos para cômodos distintos.

Logo que chegara, Richard parecia extremamente animado. Pendurou-se ao lado de Lea e não saíra de lá até ela pedir licença, dizendo que ia resolver algo com as meninas.

Após isso, fiquei observando-o, vendo o quão deslocado ele estava no meio da minha sala de estar. Por mais que não goste dele, me senti quase que obrigado a lhe chamar a se juntar a nós, com um único movimento de mão.

- Estamos jogando poker. - Avisei. - Puxe uma cadeira aí, cara.

- Na verdade, eu vou procurar a Lea. - Ele deu um tapinha no ombro do meu pai, após dar uma olhada em suas cartas. - Vocês estão todos ferrados, pessoal.

Ric seguiu para a cozinha, e bastou se afastar um pouco para meu irmão começar a tagarelar sobre como ele não se esforçava para se misturar com a família da Lea. Eu sorri um pouco quando me dei conta que até mesmo ele considerava Lea parte da família.

- 1, 2, 3... Sorrisão! - Tiara estourava flashes em cima das crianças. Por trás dela, fiz uma careta para minha menina, que respondeu na mesma altura. - Lana, não pode dar língua!

- Foi o papai que começou!

- Entregando seu velho, L? - Invadi o espaço, pegando-a nos braços com certa dificuldade. Tiara bateu outra foto espontânea e apontou para que eu fosse para perto da grande árvore de natal.

Eleanor estava sentada no sofá, gargalhando com Eric. Richard ao seu lado, obviamente, mas parecia menos animado que mais cedo.

-Lea. Vem tirar uma foto de família! - Tiara chamou. - Aqui, perto da árvore.

Richard levantou junto com ela, mas voltou a se sentar ao ver quem estava perto da dita árvore. Eu. Lana. A foto de família que Tiara queria era nós três.

Lea aproximou-se de nós, meio desconfiada.

-Estão fazendo complô para irritar o Ric hoje? - Sussurrou para mim, entre um sorriso.

-Não faço a mínima ideia do que você está falando. - Dei uma pequena gargalhada e passei um braço por sua cintura, logo que Lana saiu correndo para perto de seus primos.

Tiara bateu outra foto.

Perto das onze horas, meu celular tocou, e eu não precisei olhar para saber quem era. Pedi licença, tirando o gorro de natal que minha filha tinha posto em minha cabeça e me afastei, indo para frente da casa.

Atendi e desliguei o telefone, mais animado que qualquer coisa.

-Bruno?

Dei um pulo.

-Que susto, Lea.

-Desculpa. - Ela riu. - O que está fazendo aqui fora?

-Pensando.

-Na vida? - Eleanor me empurrou de leve, com o quadril. - Você não me engana. Estava falando com a Mia?

-Não. Ciúmes?

-Não, também. - Encarou-me de lado. - Estava falando com quem, então?

-Estava pensando, Eleanor Winters. Por que tão curiosa?

-Não é curiosidade. Eu sei quando você está mentindo.

-Sabe?

-Sei. De cinco... - Ela abriu a mão no ar, bem na minha frente. Abaixou dois dedos. - As chances de você estar tentando me enrolar são três. O que é bem alto. - Riu. - Eu não compraria você, se fosse uma casa. Muitas chances de queda.

Coloquei minha mão na sua, os cinco dedos levantados.

-100% de certeza que eu não estava falando com Mia. Nem com mulher nenhuma, na verdade. - Fechei nossas mãos juntas. - Qualquer uma que me interesse hoje está aqui.

-Sei. - Ela riu. - Vou entrar. Ou já já Ric vem me procurar.

-Ele não saiu do seu pé hoje, saiu?

-Nem por um minuto. - Soltou uma pequena risada. - Mas não posso culpa-lo. Deixou de passar com a família dele, para passar com a nossa.

Sorri feito um idiota. "Nossa".

-O que foi? - Lea me perguntou.

-Nada. - Puxei-a pela mão e dei um beijo em sua bochecha. - Vai lá. Daqui a pouco eu vou.

Quando minha amiga se afastou, eu não pude deixar de ver quem nos observava pela janela. Encostado como quem não prestava atenção, Richard não parecia nem um pouco feliz. Eleanor chegou ao seu lado e ele fez questão de beija-lá com intensidade. Sabia que eu o tinha visto.

Assim como ele, fingi que não prestava atenção.

O carro que estava esperando estacionou em seguida na frente da minha porta, assim que permiti a entrada. Corri para abrir a porta e fui recebido com um abraço forte e que tinha a mesma essência do da sua filha.

-Ai está, o cara! – O pai dela desce do carro, do outro lado, com um largo sorriso no rosto.

Apertei a sua mão e logo já abrimos o porta malas para pegar as malas. Agradeci meu conhecido que os trouxe aqui e paguei o que lhe prometi.

-Não deveria deixar você pagar as coisas, já gastou demais conosco.

-Vocês merecem e ela também, não podem imaginar a felicidade que ela ficará.

-Eu posso imaginar, porque será a mesma que a minha. Estou suando de nervosismo, olha. – Mostrou sua mão que estava molhada de suor.

Entramos pela porta principal e ninguém nos percebeu no primeiro momento, apenas Geronimo, que correu para perto e começou a cheira-los. Deixamos as malas ao lado da porta e ao chegarmos na sala, pigarreei para chamar a atenção.

-Não! – Quando ela virou-se e os viu, soltou as mãos de Richard e pôs sobre sua boca. – Mentira! – Suas mãos tremiam e ela vinha em direção, com as lágrimas nos olhos.

Foi um abraço dos três no primeiro momento. Acho que ela desejou que tivesse mais braços ou braços maiores para poder abraça-los completamente. Sua mãe chorou, como ela disse que iria fazer, e Lea já estava virada em lágrimas. Seu pai tentou disfarçar um pouco, mas estava com os olhos vermelhos. Ouvimos alguns aplausos da minha família para eles.

-Esse é o melhor presente da noite! – Tiara gritou e eu não tirei o sorriso que estava no rosto. Fico contente de ter acertado.

Não perdi a oportunidade de olhar para Richard, que estava com um sorriso falso e não parecia a pessoa mais contente ali.

-Você é um idiota. – Lea me abraça de surpresa. – Eu amo você, muito obrigada por isso. Você é o melhor!

-De nada! Falei que seu presente estava chegando. – Nos embalamos no abraço.

-Esse está sendo meu melhor natal!

-E que daqui pra frente todos sejam assim. Sim?

-Sim. – E num forte e selado beijo, ela marcou minha bochecha, fazendo-me apertar os olhos.

-Acho que essa foi à foto mais fofa da noite. – Tiara gritou com a câmera em mãos.

-E com certeza eu postarei! – Lea falou, me soltando e indo para perto de seus pais. Ela merece e precisa aproveita-los.

π

26 de Dezembro de 2015

Umma chamou as duas mulheres que trabalham aqui em casa duas vezes por semana, para ganhar um extra limpando as coisas da festa, não queria que minhas irmãs ou qualquer outra pessoa se sobrecarregasse com esse serviço, já que foi um feriado agitado pra todos.

Me tranquei no estúdio por horas esperando que elas limpassem, assim eu também teria tempo de me concentrar nas minhas músicas. Lana estava aproveitando o tempo com os avós e Lea, e ficaria na casa dela por essas duas noites consecutivas e o mau tempo resolveu meus problemas, fazendo com que Mia ficasse presa em Nova Iorque, por que não tem voo pra cá com toda a tempestade que está a caminho por lá. Essa é minha brecha para ter paz.

Quando o celular começou a tocar, pensei em deixar tocando. Pode ser Mia querendo conversar e eu não estou com saco pra isso.

Novamente ele toca e eu me obrigo a ver quem estava me ligando.

-Uma pergunta pra você, que é homem como eu… Se eu estou sentado no sofá da minha sala, pensando numa mulher insistentemente, eu estou apaixonado por ela?

-Bom dia, Caleb. - Reviro os olhos. - A única mulher que eu penso quando estou sem fazer nada é a minha filha, e como você não tem filha, presumo que esteja apaixonado.

-Eu odeio você, era pra dizer que não.

-Megan?

-Com certeza. Essa mulher nasceu pra me deixar louco. Eu me aproximei dela novamente pensando no sexo, você sabe. Mas passou tanto tempo e eu dei tantas investidas, mas ela quer apenas minha amizade. Eu entrei nessa zona mesmo?

-Das duas, uma. Ou ela está fazendo um jogo com você, esperando que você implore mais por ela, ou ela está sendo sincera e você não terá mais chance.

-Por Deus, essa mulher bagunça minha vida desde a faculdade.

-Por que você separou dela? Aquela vez, há anos atrás?

-Por que ela foi minha primeira, e eu só tinha ficado com ela durante anos seguido, e eu queria mais. Queria experimentar. - Ele faz um barulho estranho, não quero nem saber o que significa. - Agora estou sentado no meu sofá, um dia após o natal, com uma longneck nas mãos e o controle da televisão, falando com você sobre sentimentos.

-Bom, você só vai saber o que ela quer com o tempo. Mulheres são complicadas de entender. Até hoje eu não entendo.

Depois que nós desligamos, atendi uma ligação do Mark. Passamos muito tempo conversando e nos primeiros minutos de conversa eu já noto a diferença entre ele e Caleb. Caleb não aproveitou antes e quer levar a vida assim, achando que nunca iria por seu coração no jogo, já Mark é bem feliz com a esposa, há anos. Ele não se importa em levar a vida somente com ela.

Ouço algumas batidas na porta do estúdio e peço que entrem.

-Com licença, senhor. - Apareceu Rosie na porta, uma das mulheres que limpa a casa. - Desculpe… Bruno!

-Com o tempo está aprendendo. - Faço a rir. - No que posso ajudar?

-Acabo de limpar um dos quartos de hóspedes e achei isso. - Ela estende uma linda caixa de anel, cor de creme, em suas mãos. - Achei que fosse importante, então estou lhe entregando.

-Ah, claro. - Dei uma ordem para por tudo que acharem fora, porque não achei que fossem achar nada muito valioso, já que a maioria das coisas pela casa eram papeis de embrulho, resíduos de coisas que as crianças esconderam provavelmente e etc. - Em qual dos quartos de hóspedes achou isso?

-Ao lado do quarto da Lana. - Ela responde, pondo a caixinha em minhas mãos.

Abro-a cuidadosamente. Lá está um ele, um anel lindo e brilhante, um pouco espalhafatoso, diria eu. Mas chegavam a doer meus olhos de tão brilhoso.

Era pra ser dela, eu sei disso. Deixei o quarto da Lea ao lado da Lana, pois sabia que ela gostaria de ficar próxima da minha filha. Ela dormiu lá com o Richard na noite de natal. Esse anel era pra estar no dedo dela, era por isso que Richard parecia tão frustrado naquela noite, porque ele queria propor ela em casamento.

Não mesmo, nem por cima do meu cadáver!

Amasso a caixinha em minhas mãos e percebo que Rosie ainda está ali.

-Pode deixar comigo, eu entrego ao dono. - Sorrio pra ela. - Muito obrigada, Rosie.

-De nada, Bruno. Com licença.

Ela dá as costas saindo do meu estúdio. Ponho a caixinha do anel sobre um dos pratos da bateria. Cruzo as baquetas em meu colo e fico observando aquela pequena caixinha. Como será que ele iria fazer o pedido? Seria algo apenas ele e ela no quarto? Seria algo mais público, em frente a minha família e nossos amigos? Será que ele estava pensando bem quando fez isso, ou será que ele se arrependeu e acabou deixando a caixinha aqui propositalmente?

Mas também há a opção dele ter pedido pra ela no quarto, bem particular, e ela não ter aceitado. Qual é, Lea não quer casar. Ou quer. Eu não sei. Mas sei que ela odiaria esse anel porque ele é grande e brilhoso demais. Ela amaria aqueles mais discretos, que são delicados e femininos.

Perco o tempo encarando aquela caixinha e pensando o que estava rolando na cabeça do Richard naquela noite.

-Com licença, Bruno! - Umma bate na porta. - As meninas terminaram o serviço. Quer dar uma olhada?

-Não, está tudo bem. Confio em você e nelas. Muito obrigada, Umma.

-De nada… A campainha está tocando, um minuto.

Nem prestei atenção direito no que ela falou. Levantei do banco da bateria e fui ao banheiro. Fiz minhas necessidades e voltei, Umma estava entrando no estúdio.

-O namorado da Eleanor está ai, disse que precisa falar com você. O que digo?

-Diga pra ele entrar, por favor.

Assim que ela sai, pego a caixinha e coloco dentro da gaveta da mesa. A fecho e sento na cadeira, pegando um caderninho e fingindo que estava fazendo algo.

-Knock, knock. - Ele mesmo faz o som da batida. - E aí, cara. Como está?

-E aí. - Bato em sua mão. - Bem e você?

-Bem. - Ele coça sua cabeça. - Foi legal passar o natal aqui com vocês, me diverti bastante. - Por instantes passou na minha mente várias imagens dele com cara de tédio a noite toda, mas tudo bem, foi uma bela mentira.

-Ainda bem que gostou. Fazia tempo que não passava um natal agitado assim.

-Faço ideia. Seu tempo é corrido.

-Sim, e o dos outros também. Sempre quando resolvia comemorar algo, eles já tinham outros planos. Era terrível.

-Acontece. - O silêncio se instala ali por segundos e logo já é quebrado por ele mesmo. - Eu vim hoje por um motivo meio engraçado, na verdade.

-É? E qual é? - Pergunto, lançando minha cara de bobo que não sabe de nada.

-Na noite do natal deixei uma coisa no quarto, dentro das gavetas… Alguém encontrou?

-Não sei… O que era?

-Uma caixinha com o anel da Lea… Eu iria pedir ela em casamento aquela noite. Como não deu, vou armar outra coisa.

-Opa. Parabéns. - Estico minha mão pra ele.

-Obrigada. - Ele me cumprimenta.

-Ela está aqui. Acharam hoje e eu até pensei que fosse da minha irmã, minha família que tem dessas coisas assim…

-Ah, que ótimo. - Ele pega na mão. - Muito obrigada, de verdade.

-De nada. - Sorrio.

-Você acha que ela vai gostar?

-Ela vai amar! - Mentira, ela vai odiar esse anel brilhoso cafona. Mas não vou entregar peixe algum. – Na verdade, é meio irônico.

-Como? – Ele estava prestando atenção nas coisas do estúdio, mas parou para me olhar.

-É que a Eleanor... Bem, não vou falar por ela. Mas você não tem porte pra casar com ela, cara.

-E quem é você pra falar disso?

-Ela já falou em casamento com você? – O questiono.

-Não, mas falamos sobre filhos...

-Não confunda sol com lua, Richard. Nós dois conhecemos e sabemos que a Eleanor não quer casamento agora, e vocês se conhecem há quanto tempo? Três ou dois anos? O que isso quer dizer?

-Bruno, eu não estou pedindo conselhos sobre meu noivado com ela.

-E eu não estou dando conselhos pra você, estou apenas falando coisas que sei. Quem avisa, amigo é. Sim?

-Você não é meu amigo. Aliás, você sempre deixou bem claro que não gosta de mim. Não sei o que pensa em falar de nós quando passou um ano sem ver a sua melhor amiga por causa da sua namorada. – Ele deu ênfase no “melhor amiga”, como se estivesse desenhando as aspas bem na minha frente.

-Você não é meu amigo mesmo, mas ela é. O que aconteceu antes, fica no passado. Nós estamos bem agora e eu conheço muito bem ela para saber que pedi-la em casamento agora não seria uma boa ideia.

-Pode dizer o que quer dizer, Bruno.

-Nada contra, mas você não tem cara de quem aceita ela com todas as bagagens que ela tem. Saiba que casando com você, Lea não deixará a Lana de lado, nem suas amigas, nem seus passeios, muito menos eu. – Queria soltar algo, alguma felpa sobre ele ser preconceituoso, mas assim ele saberia que Lea escutou a conversa dele com seus pais e isso afetaria muitas coisas, principalmente nossa amizade por eu estar falando o que não devia. Respirei fundo e sorri pra ele, amarelo.

-Isso é assunto meu, cara. Apenas mantenha distancia do nosso relacionamento, ok? E muito obrigada por devolver o anel.

-Ah, claro. Tudo bem. – Dou de ombros e o acompanho até a porta. – Eu coloquei um feitiço nesse anel, mas essas coisas são bobagens, sim? Acho que não tem nada de mal.

-O quê? – Eu gargalho da sua cara de espanto.

-Nada, cara. Vá com Deus. – Aceno pra ele, bem irônico e fecho a porta sem nem esperar.

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