sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 73


Eu estava pensando nela, pensando em mim
Pensando em nós, o que vai ser?
Abro os olhos, sim, era só um sonho
Então eu viajo de volta por esse mesmo caminho
Ela vai voltar? Ninguém sabe
Eu percebo, sim, que era apenas um sonho
(Just Dream – Nelly)

08 de Outubro de 2015

O lado ruim de não ter um dia certo para trabalhar é exatamente esse: não se tem um dia certo para trabalhar. Finais de semana, feriados, de manhã, de tarde, de madrugada e a noite, qualquer dia é dia. Até o dia do meu aniversário é dia de reunião.

Fui de carro para o prédio e assim que estacionei, fui recebido por Dani, que estava com um pequeno balão em mãos. Agradeci seus dizeres e subimos. Na sala de reunião já tinha uns salgados e doces espalhados por uma das mesas ao canto, com alguns sucos, e na mesa do meio, a principal, o pessoal levantou para me cumprimentar.

A pauta era sobre o super bowl. Nada poderia ser divulgado ainda, a mídia poderia saber apenas em dezembro. Mas eles já tinham sua estrela principal: Coldplay. E foi o Chris quem pediu que nós, hooligans, participássemos da edição número cinquenta. Era uma notícia maravilhosa, um presente de aniversário, mas eu não poderia dizer pra absolutamente ninguém, incluindo minha família. Esse era o lado ruim.

Eleanor Pov’s

Demos uma sorte tremenda quando Bruno avisou que precisava sair de tarde para uma reunião. Nós já estávamos fazendo mil e um planos para despistarmos, mas nada parecia que iria dar muito certo.

As meninas cuidaram da decoração, enfeitando com balões prata e dois grandes balões com a idade dele. Fizeram mil e uma piruetas, mas eu e Lana estávamos comprometidas com outras coisas, como o bolo. Fiz um bolo grande, recheado, deixei que Lana o decorasse como quisesse.

-Que horas ele chega?

-Por volta das oito horas, creio eu. – Philip disse, enquanto carregava uma caixa de cerveja para o canto.

-Eu quero ver como vocês vão estar amanhã. – Jaime balançou a cabeça.

-Vou poder beber, sim? – Marley estava com alguma coisa em mãos.

-Vai, claro que vai. Água e refrigerante. – Ela passa a mão na sua cabeça. – Vocês precisam de ajuda? Acho que terminamos tudo por lá.

-Tudo? – Arregalo os olhos. – Já terminamos tudo também.

Ficamos sentados na sala com as luzes apagadas já, mas como o dia estava claro do lado de fora, iluminava tudo ali dentro. Conversávamos muito bem, até que a sem noção da Mia começa a falar no telefone numa altura que parecia ser uma velha surda. Tiara estava por um fio de mandar ela embora dali, mas tecnicamente não podíamos, ela ainda era namorada do Bruno e sabia o que estava rolando ali, então poderia dizer pra ele e fazer com que nós ficássemos sem surpresa nenhuma pra ele.

-Mia! – Tiara chamou sua atenção. – Estamos tentando não fazer barulho para não ter alarde nenhum, para que seja uma surpresa. Uma real surpresa. Então, por favor, fale mais baixo.

Ela foi extremamente educada, quando eu esperava que ela fosse socar a cara da Mia. Phil ligou para o Bruno, para saber sobre a reunião, e Bruno disse que não tinha rolado nada demais e que foi quase uma perda de tempo. Bem, para ele foi, pra nós não. Disse que estava a caminho e que chegaria em poucos minutos.

E em poucos minutos mesmo o portão se abriu e nós nos preparamos, todos bem escondidos. As crianças faziam dedinho do silêncio para nós, e segurávamos as risadas para não entregar nada.

-SURPRESA! – Gritamos juntos quando a porta da frente se abriu. Bruno estava tirando o óculos com a outra mão e com cara de espanto, veio caminhando até nós. Usamos língua de sogra e assovios para comemorar.

Num abraço coletivo, envolvemo-lo. Sua feição dizia que ele não esperava por aquilo e que estava emocionado. Também, como não estar. Um por um ele abraçou, agradecendo por tudo. O bolo chegou às mãos de Jaime e Tiara, e cantamos o parabéns todos juntos. No soprar das velinhas, tenho certeza que ele fez um pedido, parou por alguns segundos, ao lado da sua filha e fechou seus olhos, assoprando todas as que tinham ali em cima daquele bolo.

-Isso parece uma delícia. – Ele passa a língua pelos lábios.

-Foi pensando em você. – Mia comenta, mas ninguém dá bola pra ela, apenas continuamos a falar como se ela nem estivesse ali.

O abracei depois que a maioria já tinha ido.

-Porque eu acho que isso foi uma coisa sua e das minhas irmãs?

-Por que foi. – Rio. – Você merecia algo especial e não queria fazer nada, então mexemos nossos pauzinhos.

-Vocês são de ouro. – Beijou minha testa. – Tenho que dar atenção a minha festa, conversamos depois.

-Claro.

Enquanto amparava as crianças com algumas bobagens, fazendo-as rir, observei ele de longe, mesmo sem querer. Mia estava todo o momento em seu redor, parecendo aquelas moscas que pairam sobre as coisas fedorentas.

Afasto-me para ver a mensagem de Richard.

“Não faz ideia do que esse estágio está me fazendo. Minhas costas vão me matar e eu só vi aberrações hoje. Como está ai, amor?”

Preferi ignorar a parte das aberrações, porque é muito provável que ele irá falar de um dos seus pacientes de hoje do estágio, então respirei fundo e respondi um singelo: “está muito bom... não force muito suas costas, isso é apenas o estágio, imagina quando tiver seu próprio consultório? Hahaha”

-Com quem está falando? – Tiara chega ao lado de Urbana e Megan.

-Richard, ele estava...

-Falei! – Tiara estica a mão. – Quero um dólar de cada por isso.

-Deveria falar que era com outra pessoa. – Megan revira os olhos. – Te pago depois. Ok?

-Ok.

-Vamos ir lá fora? Aqui dentro está muito cheio, se é que vocês me entendem. – Urbana circula seu dedo no ar, presumo que está muito cheio por causa da Mia, ela não a suporta e não finge gostar para agradar ninguém. Eu imagino se ela não gostasse de mim.

-Essa mulher transpira falsidade. Como que ele ainda está com ela? – Megan balança a cabeça, sentando primeiro no banco.

-Ninguém sabe. – Dou de ombros.

-Eu achei que depois que ele voltasse a falar contigo, as coisas melhorariam e ele largaria dela finalmente, mas nem isso! – Tiara bufa, olhando para suas unhas.

-Acho que ele não acaba com ela porque a Lea ainda está com o Richard.

-Tá esperando o que pra largar dele? – Revirando seus olhos, Megan dá a sua opinião.

-Vocês. – Rio. – Sabem que não é assim. Eu gosto do Richard!

-Gosta da forma com que ele trata as pessoas também? – Tiara pergunta.

Sei que nada justifica o comportamento infantil, machista, racista, que ele teve. Nada mesmo. Nem por ele ser do Texas, nem por ter sido criado por uma família bem tradicional, nem por ele não gostar de crianças adotadas. Nada justifica seu comportamento. E eu odeio isso nele, odeio pensar que seus pais me odeiam por eu ser negra, por eu ter uma filha adotiva e negra. Mas existe um pacote, onde ele veio. Desde o inicio eu sabia que nem tudo seriam flores, eu sabia que o conto de fadas tinha realidade, então já estava me preparando.

Mas ele nunca me distratou, ele nunca foi rude comigo e nunca fez mal a minha filha, pelo contrário, ele gosta dela. Ele nunca faltou com respeito comigo, nunca forçou algo que eu não queria, nunca precisei ter que recolher ele bêbado pela noite, porque ele evita sair sem mim. Ele nunca me disse nada sobre minha cor, nunca disse nada sobre a cor da minha filha. Ele sempre me respeitou e isso conta muitos pontos na minha percepção. Todo mundo está enxergando apenas os defeitos dele, mas se soubessem que ele é o tipo de homem que levanta de madrugada se precisar fazer um chá para a Lana, o homem que se eu não estiver disposta, vai assumir a cozinha e vai continuar sorrindo porque não se importa com esses pequenos detalhes. O homem que eu nem preciso pedir, por que ele já lava a louça e arruma todas as suas coisas.

Eu sou feliz com ele, apesar de ter esse defeito interno dele. Mas agradeço por ele não ser uma pessoa invasiva, uma pessoa má, um tarado ou sei lá o que.

-Vocês não vão dançar? – Philip apareceu nos fundos, distante de nós.

-Vamos! – Megan levanta primeiro, e sai cantando junto com o Phil.

-Quer entrar? – Urb pergunta pra mim.

-Quero sim. Vamos lá dançar, nos divertir. – Sorri, esticando minha mão para ela pegar.

Deixei que os devaneios de minha cabeça fossem embora por um tempo e aproveitei somente aquele momento, aquela música e aquelas pessoas com a energia tão boa. Nós nos reunimos em volta de Bruno e pulamos, gritando o nome dele, e as crianças da volta faziam folia junto.

Nem sei em que momento eu e ele nos abraçamos para dançar, eu sei que o momento parou, como se todas as pessoas dali tivessem congelado e a gente continuasse a dançar. Suas mãos pararam em minha cintura, e eu pulava como uma adolescente feliz. Quando nossos corpos se chocaram pra valer, não fiz nada para descolar, o choque foi tão bom e deu uma energia que eu não sentia há tempos, que eu não tive coragem de fazer isso. Sorríamos enquanto nos olhávamos dançar, seus olhos sorriam para os meus e nossos pés estavam sincronizados como máquinas programadas.

-Há quanto tempo não dançamos assim? – Perguntou ele, com a voz elevada.

-Uns bons anos. – Respondo em voz alta. – Talvez mais de cinco?

-Por ai. Senti saudades dessa energia. – Ele me fez girar em seus braços.

-Estão todos olhando pra nós. – Quando dei-me de conta do que acontecia por volta estavam praticamente todos dançando, mas não deixavam de nos observarem.

-Deixem que olhem, somos os melhores por aqui. – Nós gargalhamos juntos.

Me perdi na sua gargalhada. Olhei em seus olhos e depois que desci meu olhar pra sua boca, não consegui desviar. Apertei sua mão que segurava a minha para dançar, e mesmo sendo um ritmo balada, eu senti a música ficar lenta.

Lembro muito bem quando eu podia beijar seus lábios sem pedir, quando nós deitávamos na mesma cama com a energia a todo o vapor, ou quando brincávamos pós sexo.

Eu ouvi quando a música trocou, então aproveitei para me desviar um pouco dele dizendo que precisava tomar alguma coisa. Logo que dei as costas, ele foi dançar com o resto do pessoal e eu fiquei meio desnorteada, procurando uma das meninas para quem eu pudesse perguntar que diabos acabou de acontecer.

Vou direto para a cozinha e pego uma garrafa de cerveja. A abro e tomo dois goles bem escassos.

-O que foi aquilo? – Megan entra acompanhada de Tiara.

-Eu não sei.

-Pois eu digo: tensão sexual. Os olhos de vocês pingavam desejo. Acho que todos perceberam. – Tiara dá de ombros. – Eu vivo dizendo!

-A cara da Mia estava impagável, você deveria ter visto.

-Gosto daqueles olhos que ela faz, revirando e aquela sobrancelha falsificada arqueada. Nojenta. – Fazemos cara de nojo e Tiara tenta imita-la.

π

A festa já tinha acabado todo mundo foi embora, as meninas foram em seguida por que me ajudaram a limpar a bagunça que estava. Era quatro da manhã e eu ali estava, a recém-indo me arrumar para dormir, já que todos já estavam dormindo.

Acordei às dez da manhã, fiz o café e arrumei a mesa. Dormi na casa do Bruno, já que na minha casa não tinha ninguém e eu bebi, então não podia dirigir.

-Bom dia. – Bruno chegou com a cara amassada de dormir e os olhos pequenos. – Cheiro bom!

-Tomei banho. – Dou a língua pra ele. – Dormiu bem?

-Dormi. – Coçou a cabeça. – O que é isso?

-Torta de maça, estava na sua geladeira e está uma delícia.

-Aparecem umas coisas na minha casa que eu não sei nem de onde vem. – Ele ri, sentando-se comigo.

-Gostou da festa ontem?

-Eu amei. Nem estava planejando alguma coisa. Estava bem desanimado, pra falar a verdade.

-Ainda bem que você tem uma amiga e umas irmãs que são inteligentes e eficientes.

-E se acham.

-Detalhes.

Bruno Pov’s

Estava tomando meu café e a televisão estava ligada. Ninguém mais tinha acordado além de eu e Lea. Ela foi ajeitar o Geronimo, por comida e ver como ele estava para ser solto no pátio, já que já tinha terminado sua refeição.

Seu celular começa a vibrar e na tela aparece o nome “mãe”, junto de um coração. Chamo ela, mas ela não houve. Tomo a liberdade de atender ao telefone.

-Alô.

-Alô. Quem fala? – Ela pergunta.

-Há quanto tempo que não nos falamos que a senhora esqueceu até minha voz? – Rio. – É o Bruno.

-Bruno?

-Sim.

-Oh! – Ela fica uns segundos calada. – Eu achei que vocês estavam brigados.

-Não... Faz uns meses que voltamos a conversar, uns quatro meses, eu acho.

-Ela nem falou para nós. – Limpou sua garganta.

-Engraçado. – Fiquei pensando nos motivos do porque ela não falaria para sua mãe que voltamos a nos falar.

-Engraçado é você, sim? – Fiquei quieto. – Largou a amizade de anos, o apoio que sempre precisou, por causa de uma calcinha, Bruno? Nunca pensei que você fizesse esse estilo de homem, de moleque, na verdade. Essa definitivamente não foi uma coisa que a Bernie te ensinou.

Ela nem deixou eu me defender e deu-me um sermão, nada do que eu não precisasse ouvir, já que eu mereço.

-Desculpe. – O que eu consegui falar foi isso.

-Desculpas você deve a minha filha. Sabe o quanto ela sofreu quando você começou a priva-la de estar na presença da sua filha? Não entendo porque fez aquilo com ela, mas tenho certeza que não irá fazer de novo, porque sabe como a Lea é. Sim?

-Eu sei sim, senhora. – Respiro fundo.

-Eu precisava falar isso pra você, desculpe, Bruno!

-Tudo bem. – Dou de ombros. – Eu acho que mereço ouvir.

-Como você está? E a carreira?

-Estou bem, agora estou ainda produzindo algo para lançar assim que puder. Daqui a pouco ficarei apagado da mídia.

-Impossível. É só lançar algo que já emplaca sucesso.

Nós rimos juntos, e depois daquele momento constrangedor do sermão, embarcamos em uma boa conversa onde me fez até ter saudades da minha mãe, que Deus a tenha. Me fez sentir saudades de quando ela dava-me sermões grandes, que usava metáforas para me ensinar.

-Oi. Você estava me chamando? – Pergunta ela, passando a mão nas laterais do corpo para secar.

-Chamei, mas você não ouviu. Espero que não se importe, mas atendi a ligação.

-E quem era? – Ela pegou o celular.

-Sua mãe. Ela me deu um sermão e disse que liga mais tarde.

-Como? – Perguntou, sentando e mexendo no seu aparelho.

-Por quê não falou pra ela que estávamos nos falando novamente?

-Bruno...

-Ela me deu um sermão porque paramos de nos falar e etc. Mas ela não sabia que havíamos voltado a nos falar, e já fazem uns quatro meses, sim?

-É que é complicado. – Ela torce seus lábios. – Você é inconstante, tenho medo do que pode acontecer no amanhã. Não falei porque achei que você pudesse parar de falar comigo novamente por causa da sua namorada.

-Mia. – Olho para a porta e pego a sua mão. – Eu não vou fazer essa besteira de novo. Já fiz uma vez e me arrependi amargamente. Acha que eu vou deixar você sair da minha vida novamente? Jamais!

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