quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Capítulo 81


Dizem que os corações não mentem
A cabeça pode tentar, mas não vai estar certa
Você me diz o que sente lá no fundo
Hoje à noite
​(Seasons - Olly Murs)

Bruno Pov’s

Me sentia novamente em 2012. Em pleno sábado de sol eu estava trancafiado no estúdio, arranhando mais notas. Mais e mais. Tentando terminar as letras que tinha, pensando em coisas melhores. Chamei Phil para me ajudar e ele chegou em seguida, com uma cesta térmica em suas mãos.

-Se é pra fazer isso, vamos fazer direito! – Ele a coloca em cima da mesa. – Porque não me disse mais cedo que tinha algumas letras?

-Porque eu não tenho certeza ainda. Olha, nós temos apenas cinco músicas prontas. Não irei lançar um CD só com isso, preciso de mais.

-Ok, mas porque não tenta outras?

-São essas! Eu sinto isso.

-Então me diga o porquê são essas?

-Olhe. – Entrego meu caderno pra ele, aproveito para levantar e dar uma olhada na janela. – São duas. Pode achar bobagem, mas eu sei que elas precisam estar no álbum.

-Um minuto.

Deixei que ele as lesse em paz e fiquei apenas encarando o nada. Olhando pela janela, olhando o mundo lá fora.

-Eu já tinha lido elas, sim?

-Algumas partes, outras eu fui encaixando. Mas olha as cifras. – Estiquei-me até a mesa e entreguei em suas mãos. – Consegui um tom perfeito no piano, vai combinar.

-Bruno.

-Oi?

-Você tem certeza que quer essa música para o CD, ou é pra mostrar à Eleanor que você escreveu sobre ela?

Fecho meus olhos lentamente, baixo a cabeça e a balanço. Ele sabe que eu não posso nem contestar, Phil me conhece o suficiente pra saber de tudo isso.

-Senta aqui. – Chamou-me. – Desde que me ligou eu sabia que não era apenas por uma música. Você estava querendo desabafar, só não queria me chamar diretamente. O que está acontecendo?

-Lea... Ela está acontecendo.

-O que houve?

-Desde que ela terminou com o Richard, o máximo que eu arranco dela são abraços. Parece que ela não quer mais nada comigo, ela não fala mais de quando ficávamos, se eu quero ver filme, ela já acha que eu vou puxa-la para um beijo. Eu sou amigo dela, mas achei que assim que ela terminasse com ele nós iríamos finalmente sermos felizes.

-Bruno, ela precisa de um tempo. Lea acabou de sair de um relacionamento que durou bastante, não é fácil assim de esquecer e você sabe disso.

-Mas nós estávamos juntos quando ela estava com o Richard.

-Era diferente, porque ela sabia que no fim do dia ela tinha ele.

-Então você acha que ela pode ainda estar presa a ele?

-Acho que não, só acho que ela precisa de um tempo pra assimilar que finalmente vocês podem ficar juntos.

-Ela não me quer mais assim.

-Qual é?

-O quê?

-Você era o cara com mais atitude que eu conhecia, e agora parece um franguinho em apuros!

Eleanor Pov’s

Era papel atrás de papel, uma loucura naquele escritório. Estávamos fechando um grande negócio com um dono de uma rede de postos de gasolina, íamos lucrar muito com isso. Era um entra e saí de pessoas na sala, os advogados da empresa analisando os contratos, dá até vontade de comemorar que vamos ganhar um grande bônus com isso.

-Esses imbecis estragaram a máquina do café, que maravilha. – Roselie senta ao meu lado, ela é uma das supervisoras da imobiliária. – Quer um pouco? Tive que buscar na esquina.

-Não, obrigada. – Dei uma risada abafada.

-Sabe, Eleanor, quando se sai de uma empreiteira e vem para uma imobiliária, você acha que será mais fácil, mas não é. – Ela balança a cabeça e relaxa seus ombros. – Um grande negócio fechado aqui é como um pampa saffari com comida. Os animais ficam doidos. Me diz como estragaram a máquina de café?

Eu rio de sua comparação e fico olhando todos bem atordoados, com papéis pra lá e para cá.

-Quando eu vim pra cá, nosso escritório não passava de cinco peças no segundo andar de uma clínica. – Ela me acompanha na risada. – É bom ver que todos que estavam naquele tempo e estão aqui hoje, fazem de tudo pra manter em pé.

-Tenho medo de crises bancárias. Não haverá bancos para tantas hipotecas e imobiliárias.

Nós engatamos numa conversa bem legal. E mesmo quando o dossiê de contratos chegou para nós, ainda sim conversávamos. Foi bom sair um pouco do meu casulo com o pessoal da empresa, pelo menos descobri que há pessoas bem legais.

Quando peguei minha bolsa na sala, no celular havia duas chamadas perdidas e por sorte peguei quando ele estava tocando na terceira.

-Alô. – Digo antes de ver o número.

-Lea, oi. Você já saiu?

-Estou saindo agora, Ti. Porque?

-Estou indo no hospital, quer me encontrar lá?

-O que houve? Qual hospital?

-Na UCLA mesmo.

-Tá. Mas o que houve? – Pus minha bolsa sob o ombro e sai carregando uma pasta em mãos e na outra o celular.

-A Lana se machucou, nada grave.

-O quê?

-A escola não conseguiu te ligar e o Bruno está em estúdio com o celular desligado, aí ligaram para mim.

-Porque os incompetentes não ligaram para o escritório? – Bufo. – Ok. Eu estarei em breve aí.

-Ok. Eu peguei o seu carro para levar ela.

-Tudo bem, eu pego um uber.

Enquanto descia de elevador, conectei minha internet para chamar um uber. O mais próximo estava há três minutos de distancia. Passei meu crachá e sai do prédio, cuidando todas as placas que ali passavam.

-Eleanor? – Um carro vermelho para um pouco a frente.

-Sou eu! – Sinalizo e ando até ele.

Não demoraria nem vinte e cinco minutos até o hospital, enquanto isso eu tentava falar com o Bruno, que nem recebia minhas mensagens.

Desci do carro e fui direto para a ala pediátrica. Lá, eu liguei para Tiara e as localizei, quer dizer, apenas a Tiara.

-Oi. E aí?

-Ela está fazendo o curativo, não foi nada demais.

-Como aconteceu isso? – Meu coração estava saindo pela boca.

-Ela estava na hora do intervalo, parece que subiu num dos brinquedos do pátio e escorregou.

-Nossa. – Sento na cadeira ao seu lado e ponho minha bolsa no colo. – Quase morri de susto.

-Eu não queria te assustar. – Ela riu.

-Ah, não queria? Então não fala por telefone da próxima vez. – Eu também rio e ela segura minha mão.

-Esse hospital ainda me lembra tantas coisas.

-Como?

-Quando o Bruno parou nele aquela vez... – Ela inclina sua cabeça. – Quando a Presley caiu na beira da piscina e teve que vir fazer um curativo na bunda.

-Essa foi hilária.

-Até hoje ela tem aquela cicatriz pequena. O Jaimo já veio aqui nessa ala infantil quando ele bateu com a testa na quina da mesa. – Ela ri. – Ele parecia uma múmia, tadinho.

-Esse eu não vi.

-Foi na época do Richard, que você não frequentava muito nossos lados.

-Você sabe o porquê.

-Sei que vocês dois são idiotas, isso sim. – Revira os olhos.

-Não. – Torço os lábios. Não queria falar daquilo novamente. – Onde foi o corte?

-No ombro. Não é profundo, acho que nem de pontos irá precisar.

-Quando o Bruno souber, vai ter um troço.

-Falando no diabo... – Ela aponta para a tela do celular. – Alô.

Não sei o que o Bruno estava falando, sei que Tiara estava fazendo suas caras e bocas de quando está discutindo, provável que esteja pondo a culpa em alguém e morrendo de medo. Tiara disse diversas vezes que ela caiu na escola e que não foi nada grave.

Disseram o nome de Tiara, mas como ela estava no telefone, eu fui até a enfermeira.

-Oi. É sobre Lana?

-Lana Hernandez? – Balanço a cabeça confirmando. – O que é dela?

-Mãe. – Respondo.

-Me acompanhe.

Entro com a enfermeira na sala de curativos. Lana estava sentada numa cadeira, falando com os enfermeiros e eles riam do que ela dizia. Essa menina é uma figura.

-Amor! – A chamo.

-Mamãe! – Ela corre em minha direção e me dá um abraço, fazendo uma cara de dor.

-O que a senhorita andou aprontando?

-Eu escorreguei no brinquedo e cai lá na escola. – Ela aponta para o curativo em seu ombro. – Mas não foi nada grave, mãe.

-Ah, claro que não. – Rio.

-Não foram precisos pontos, é provável que seque em alguns dias. Senão, volte aqui. – A médica me entrega uma receita com seu prontuário. – Trocar os curativos três vezes ao dia, passando essa pomada que eu receitei, logo ela ficará boa.

-Eu tô bem. – Ela dá de ombros pra médica.

-Eu sei, mas vai ficar melhor. – Ela bagunça seus cabelos e Lana ri.

-Muito obrigada. – Sorrio.

-Só preciso que me entregue um documento pra eu verificar no cadastro.

-Tudo bem. – Pego minha carteira de motorista e entrego pra ela.

Acho bem bom esse sistema que criaram, não entregam nada e nem deixam que algo saia do hospital se não estiver no cadastro da família no hospital.

-A menina está liberada. – A médica entrega meu documento.

Lana deu tchau para as pessoas que ali conheceu e saímos da sala. Ela falou com Tiara que estava brincando com ela.

-Vamos?

-Bruno pediu que esperássemos ele. – Tiara rola os olhos. – Não entendo o porquê, mas com louco não se discute.

-Ele deve estar puto. – Sussurrei.

-Com certeza. – Ela ri. – Vamos comer algo na cantina?

-Sim! – Minha pequena confirma, dando a mão para sua tia.

Guardo as coisas do médico e vamos até a cantina comer algo, nada muito forte, daqui a pouco já iríamos jantar. Esperamos o Bruno por alguns minutos mais e logo ele chegou, espumando pela boca.

-Porque não ligaram para o estúdio? – Ele pergunta, dando um beijo na bochecha da filha. – Tá bem, meu amor?

-Estou, papai. – Ela responde, dando outro beijo nele.

-Porquê você pediu para não ser interrompido, querido. – Tiara responde, na maior sutileza.

-Foda-se! É uma emergência.

-Menos, Bruno! Não é como se a Lana tivesse em coma ou respirando por aparelhos. Ela caiu, assim como acontece com toda a criança.

-Eu sei. – Ele bufa.

-Deixa, Lea, ele ainda pensa que a Lana é de cristal.

-Eu não sou de cristal. – Rebate a pequena.

-Não é que eu pense isso, mas eu me preocupo, ela é minha filha.

-Acha que só você se preocupa? Menos, Bruno, por favor. – O sangue já começava a ferver, doida pra rebater mais coisas à ele.

-Dá pra evitar uma discussão na frente da Lana, Eleanor?

-Não sou eu que estou toda esquentadinha, amor. – Ironizo o máximo possível no “amor” e ele dá um sorriso mais irônico ainda.

-Ok, Lea.

Então nós fomos pra casa, e se não fosse a rádio estar tocando músicas legais e Lana estar cantando todas elas com Tiara no banco de trás, o clima estaria bem estranho.

Nós não nos falamos e eu sentia que algo estava estranho. Mas é capaz que somente o episódio do hospital tenha feito ele ficar assim, tão bravo, comigo?

Quando pedimos o jantar, nos unimos a mesa. Novamente, estaria total silêncio se não fosse pela Tiara e a Lana conversando e rindo. Eu tentava me enturmar, mas algo ainda me incomodava por ali e eu não sabia exatamente o que era.

À noite, no grupo no celular, combinamos que no final de semana iríamos começar a organizar o chá de fralda da Urbana e que dessa vez não poderia ser algo pequeno como foi o que fizeram para Zahlia – naquela época haviam muitas coisas que impediam de fazer algo maior, principalmente brigas com família e etc.

Eu precisava falar com o Bruno para decidir detalhes, mas não queria dar o braço a torcer.

Quando desisti, Lana já havia ido deitar e Tiara estava no pátio conversando no telefone, passei pelo corredor para ir ao meu quarto me arrumar pra dormir.

-Boa noite. – Escuto ele dizer.

Olho pra trás, dou um sorriso amarelado.

-Boa noite. – Respondo.

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